Na Argentina, Lobato fez mais do que “comer bifes”

Perguntado por qual motivo ele iria se mudar para a Argentina, Monteiro Lobato com sua peculiar ironia respondeu: “Vou lá comer bifes”.

Fato, é que naquele período o escritor vivia um verdadeiro inferno astral, sofrendo com a perseguição implacável do regime ditatorial de Getúlio Vargas, que inclusive o levou a prisão, de forma injusta, em 1941. Esse acontecimento deixou a família de Lobato em uma situação muito delicada, ao ponto de sua esposa, Purezinha e sua filha mais nova, Ruth, serem obrigadas a irem morar com Martha, a primogênita do casal, porque sequer tinham dinheiro para pagar o aluguel da casa onde moravam.

Mesmo após ser libertado, o escritor continuou sofrendo com a perseguição do regime getulista, que impôs a ele uma implacável censura, proibindo-o de dar entrevistas e vetando que os jornais noticiassem qualquer informação sobre Lobato. Além disso, o governo de Vargas mandou apreender diversos de seus livros sob a acusação de conterem “doutrinas perigosas e práticas deformadoras do caráter”, especificamente, Peter Pan e O Escândalo do Petróleo. Monteiro Lobato foi impedido de trabalhar, teve a fonte de renda para o sustento de sua família bloqueado, numa ação do Estado Novo para literalmente acabar com o escritor. Não bastando tudo isso, em setembro de 1945, Lobato foi submetido, as pressas, a uma cirurgia para a retirada de um cisto no pulmão.

Todos esses fatos acabaram levando o escritor a mergulhar em um profundo sentimento de desgosto, tristeza e decepção com a política e com o Brasil daquela época. A perseguição getulista, a censura imposta às suas obras, a consequente falta de dinheiro para sobreviver com o mínimo de dignidade e a sua própria saúde, estimularam Monteiro Lobato a decidir a se mudar para a Buenos Aires, na Argentina, onde ele já fazia sucesso desde a década de 20. Lobato sabia que seria bem recebido pois tinha estabelecido ali um mercado editorial promissor, segundo o seu biógrafo, Edgar Cavalheiro, autor de Monteiro Lobato – Vida e Obra. Desse modo, ao contrário da ironia e humor incutidos em sua resposta, de que deixaria o Brasil para aproveitar a culinária argentina, a mudança de país naquele momento foi uma espécie de autoexílio aliada a necessidade econômica.

Assim, no dia 8 de junho de 1946, cerca de quatro meses após se tornar sócio da Editora Brasiliense, Monteiro Lobato se mudou com a esposa, Purezinha e a filha Ruth para Buenos Aires. Essa mudança foi noticiada pelos principais órgãos de imprensa dos dois países na época, em tons diferentes. Na imprensa brasileira repercutiu a tristeza gerada pela saída do escritor do país, que recebeu no aeroporto amigos e jornalistas. Já o jornal Clarín, um dos mais importantes até hoje na Argentina, enalteceu a figura do escritor, ressaltando, com certa ironia, o motivo que o fez mudar para lá: “comer bifes”, exaltando a carne argentina. O escritor morou com a família, na capital portenha, na Calle Sarmineto, 2.608, região central da província. Nos primeiros meses em Buenos Aires, Monteiro Lobato levou uma vida bastante agitada com inúmeros convites para os mais diversos eventos, que foram importantes para fortalecer suas relações com diferentes espaços da cultura argentina.

Esses compromissos iam muito além de almoços na embaixada, passeios pelo Tigre e lutas de boxe. Como já era famoso entre as crianças, Lobato também aproveitou para visitar escolas, conversar e ouvir a opinião de seus pequenos leitores argentinos sobre suas histórias. Nesse período ele também aproveitou para conhecer, pessoalmente, o amigo Manuel Gálvez, com quem se correspondia desde os anos 1920, e de quem publicou textos na Revista do Brasil, além de ter editado e lançado, em português, o romance Nacha Regules, em 1924.

Lobato, sua esposa D. Purezinha e Ruth, filha caçula

Essa boa relação que Lobato tinha com os hermanos do Prata, surgiu através de sua amizade com o jornalista e editor argentino, Benjamín Bertoli Garay, que ele conheceu por intermédio de Manuel Gálvez. Em 1920, Garay se aproximou do grupo modernista de São Paulo e passou a integrar a equipe da revista A Colmeia. Esse trabalho serviu como inspiração para que Garay sugerisse a criação de A Novela Semanal, uma revista brasileira similar a La Novela Semanal, que circulou na Argentina entre 1917 a 1925. O escolhido para a edição inaugural da publicação, que saiu em 1921, pela Editora Olegário Ribeiro, foi justamente Monteiro Lobato com seu texto Os Negros. Nesse mesmo ano, pela Editorial Pátria, de Manuel Gálvez, Garay traduziu Urupês para o castelhano. Importante agente consolidador das relações literário-culturais entre Brasil e Argentina, além de Monteiro Lobato, Garay traduziu e divulgou na capital portenha, obras de outros ilustres escritores brasileiros como Graciliano Ramos, Gilberto Freyre e Euclides da Cunha.

Conforme a pesquisadora Thaís de Mattos Albieri, autora da tese de doutorado “São Paulo-Buenos Aires – A Trajetória de Monteiro Lobato na Argentina”, um exaustivo trabalho de pesquisa sobre as relações literárias do escritor brasileiro com o país vizinho, essa boa relação de Lobato com o cenário cultural portenho teve início em 1919 e se prolongou até sua morte, sendo construída por meio de cartas e artigos de jornais, numa via de mão dupla que, de um lado, incluía textos de Lobato (e sobre ele) na imprensa de Buenos Aires, e de outro, artigos de autores argentinos que ele publicava na Revista do Brasil, além dos livros que lançou através de sua editora, a Companhia Gráfico-Editora Monteiro Lobato.

A “marca Lobato” fazia tanto sucesso entre os argentinos, que a mudança do escritor para lá só elevou ainda mais a sua popularidade. O sucesso de Lobato era tanto no país vizinho, que foi lá que aconteceu o lançamento da primeira boneca Emília no mundo, num modelo de pano, no final da década de 1930, conforme o diretor do SBT, Jefferson Cândido, colecionador de produtos licenciados e material relativo TV do Sitio do Pica- Pau Amarelo.                           Este sucesso de Lobato no país vizinho continuou ao ponto de em 1943, acontecer o lançamento da primeira radionovela infantil da obra infantil de Monteiro Lobato com 39 histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo. O magazine Harrod´s – uma loja de departamentos elegante de Buenos Aires, realizou a primeira “Semana Monteiro Lobato”, em setembro de 1946, um grande evento onde foram expostos todos os livros do escritor, em meio a cartazes, bonecos, além da apresentações teatrais extraídas de suas obras. Aqui no Brasil, a primeira “Semana Monteiro Lobato”, só foi realizada entre os dias 11 e 18 de abril de 1953, na cidade de Taubaté, no interior de São Paulo após a morte do escritor e todos os cem participantes foram fichados pelo Departamento de Segurança do Estado Novo, o DEOPS.

Em Buenos Aires, o escritor topava com muitos brasileiros, em especial na Rua Calle Florida (ou Rua Florida para os brasileiros), que ainda hoje é a mais famosa da capital portenha, que desde aquela época já era uma rua de compras frequentada por pessoas elegantes. Muitos desses conterrâneos de Lobato acabavam inclusive batendo à sua casa toda semana, apesar da dificuldade de descobrir seu endereço, porque ele não tinha telefone. Apesar disso, Lobato costumava reclamar do tédio, em cartas aos amigos, por não ter o que fazer. Lobato, que no Brasil estava sempre envolvido em grandes projetos, amava o trabalho e sentia muita falta da vida corrida cheia de projetos.

Lobato rodeado por crianças, em Buenos Aires

Um empreendedor inveterado, em poucos meses após chegar no novo país, ele se associou a dois argentinos: Ramón Prieto e Miguel Pilato, para fundar a editora Acteón, em agosto de 1946, instalada na Avenida de Mayo, 654, 2º piso, em Buenos Aires. O empreendimento se tornou uma oportunidade de reviver os tempos em que foi o editor e gerente de sua própria obra, no Brasil. Pela Acteón, Lobato publica, com grande sucesso, Os Doze Trabalhos de Hércules, traduzido por seu sócio, Ramon Prieto, em uma edição de luxo, intitulada Las Doce Hazañas de Hercules, naquele mesmo ano de 1946.

Na Argentina, o escritor usou a mesma estratégia que havia adotado no Brasil para divulgar o seu trabalho: a publicação de contos, ou de trechos de obras, em jornais e revistas, para se fazer conhecido antes de sair em livro.

Baseado no Plano Quinquenal implantado pelo general Juán Perón, presidente argentino na época, Lobato escreve La Nueva Argentina, seu único livro originalmente em castelhano, publicado em 1947, que ele assina sob o pseudônimo de Miguel P. Garcia. Com uma edição de 3 mil exemplares, o livro, com 152 páginas, é dirigido ao público jovem e tem como fio condutor da história um diálogo entre Don Justo Saavedra, pai de dois meninos: Pancho e Pablo, que explica aos filhos o que é o plano quinquenal do governo Perón. Ainda hoje paira a dúvida de por que Lobato escreveu este livro usando um pseudônimo e para um governo autocrata. Para a pesquisadora Thaís de Mattos Albieri, que citamos anteriormente neste artigo, a suspeita é de que a obra tenha sido uma encomenda do próprio Perón, que queria se aproveitar da fama do escritor para promover o seu governo. A controvérsia aumenta, pelo fato do biógrafo de Lobato, Edgar Cavalheiro, negar que o escritor seria adepto ou apreciador do peronismo. Afinal, como poderia Lobato, que tanto havia sofrido com a perseguição e a censura de Getúlio Vargas no Brasil, ser a favor do peronismo, um governo muito parecido com do ditador brasileiro, que ele tanto combateu e inclusive o teria forçado a se mudar de país? São muitos os mistérios que cercam esse episódio. Hoje, na Argentina, conforme a pesquisadora Thaís Albieri, em entrevista para o jornal Folha de São Paulo, publicada em 25 de abril de 2010, não existe mais nenhum exemplar, desse livro. Ela acredita que o mesmo tenha sido recolhido e queimado.

Fato é que a narrativa do escritor conquista a simpatia dos peronistas e leva o Conselho de Educação da Província de Buenos Aires a encomendar uma nova tiragem de 150 mil exemplares para serem distribuídos nas escolas. Com isso, alguns jornalistas brasileiros, entre os quais, Claudio Abramo, do Jornal de São Paulo, passaram a acusar, na época, o escritor de ter-se vendido ao peronismo. Lobato chega a rebater as críticas, defendendo a liberdade de imprensa em qualquer parte do mundo, mas preferiu parar por aí.

Apesar de todo o interesse do governo argentino em concretizar a encomenda dos livros, o processo burocrático para a liberação do pedido acaba demorando muito mais do que o esperado, mesmo com todos os esforços para desfazer os entraves, o que acaba se tornando um grande problema para Lobato, do ponto de vista financeiro. Diante dessa dificuldade, ele percebe que não conseguiria se manter na Argentina definitivamente, como pretendia inicialmente e então passa a cogitar em viajar para o Peru. Essa viagem acaba não se concretizando, porque Lobato tem problemas de saúde. Ele então retoma a ideia de escrever um livro contando a história da conquista da América, através da curiosidade da Emília, a falante boneca do Sítio do Pica-Pau Amarelo, porém também não chega a concretizar esse plano.

A estadia de Lobato em solo argentino chegou ao fim em maio de 1947, praticamente um ano depois de chegar. Lobato regressa com a família para São Paulo, deixando ainda em atividade a editora Acteón, da qual ainda era sócio. Ele também manteve seus livros em castelhano editados pela Americalee e continua acompanhando as negociações em torno da nova tiragem de La Nueva Argentina, que ficaram a cargo de Ramón Prieto. Apesar do empenho de pessoas influentes no Conselho de Educação e no organismo Interministerial, esse processo ainda se mantinha travado no governo argentino.

No final de 1947, Lobato decide então vender os direitos de La Nueva Argentina para o governo peronista, com o valor da negociação servindo para a liquidação da editora Acteón, que havia acumulado prejuízos aguardando o desenrolar da negociação. Todo esse imbróglio trouxe grandes prejuízos ao escritor, que ao voltar, foi obrigado a viver num apartamento emprestado por Caio Prado Junior, no 12º andar da editora Brasiliense, após viver em hotéis.

Apesar disso, Lobato manteve sua popularidade em alta entre os leitores do Prata, através de seus livros infantis que continuaram sendo traduzidos e publicados pela editorial Americalee, que também comprou os direitos de venda do livro Os Doze Trabalhos de Hércules (Las Doce Hazañas de Hercules).

Em 1947, um acordo entre Lobato e a editora Códex, resultou no lançamento de Libros Juguetes (livros brinquedos)com ilustrações que se movimentavam, dando à cena descrita na história, movimento e vivacidade. O primeiro título foi La Casa de Emilia, seguido por Cuento Argentino, com uma tiragem de 10 mil exemplares cada, que renderam ao escritor um faturamento de 1000 pesos no total.

Monteiro Lobato morreu um ano após a sua volta, após ter sido a “ponte literária” entre Brasil e Argentina. Sua produção literária em castelhano promoveu um importante trabalho de intercâmbio continental. Assim como no Brasil, em outros países latinos a obra de Lobato criou uma literatura infantil diferente das existentes em meados do século XIX, estabelecendo uma profunda e duradoura relação com a escola. O tempo passou e depois do boom que seus livros infantis tiveram entre os anos 1940 e 1960, Monteiro Lobato voltou a ter uma de suas obras publicadas na Argentina. Reinações de Narizinho, que por lá ganhou o título de Las Travesuras de Naricita, foi lançado em 2010, em uma reedição de 170 páginas, durante a 36ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires. Na época, a atual vice-presidente argentina Cristina Kirchner e a ensaísta Beatriz Sarlo, uma das mais respeitadas intelectuais argentinas, que cresceram lendo as histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo, fizeram questão de declarar sua admiração pelo escritor.

Definitivamente, mais que comer bifes, Monteiro Lobato foi à Argentina para também escrever o seu nome na história. E assim, o país que rivaliza com o Brasil em tantas áreas, conquistou também o coração do pai da nossa literatura infantil e por que não dizer, dos pequenos latinos?

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REFERÊNCIAS:

“Furacão na Botucúndia” – pág. 343 a 346

https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8145/tde-07102008-171507/publico/TESE_MARIA_PAULA_GURGEL_RIBEIRO.pdf

monteirolobato.com/linha-do-tempo/1945-1948-os-ultimos-anos-de-lobato/

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2504201008.htm

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2504201007.htm

https://www1.folha.uol.com.br/folha/livrariadafolha/ult10082u708944.shtml

https://taubate.sp.gov.br/museumonteirolobato/acervo/wp-content/uploads/tainacan-items/641/9732/mml_bib0017.pdf

https://alb.org.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais16/sem08pdf/sm08ss05_03.pdf