Monteiro Lobato: rasgado, queimado, cancelado e imprescindível

Escritor, já muito atacado no passado sob pretexto de veicular ideias evolucionistas e socialistas, tem mais recentemente sido acusado de racismo. Mas simplesmente banir seus textos das salas de aula e espaços de discussão é renunciar a debater uma obra prenhe de criatividade, inventividade e criticidade.

Thiago Alves Valente

E Lobato continua “causando”…

Com mais de 70 anos já transcorridos desde a morte de seu criador, os personagens infantis de Monteiro Lobato circulam por leituras polêmicas e atuais dentro e fora da escola. Considerado um divisor de águas na produção literária para crianças, Lobato legou à posteridade textos que, em diferentes situações, suscitaram seu intenso reconhecimento tanto por parte do público leitor, quanto da crítica especializada. Da mesma forma, porém, a polêmica se tornou elemento indissociável desse reconhecimento, o que chega, junto com a ininterrupta edição de seus textos infantis, aos leitores de hoje.

Sobre seus livros para crianças, há pouco mais de uma década, em capítulo intitulado “Monteiro Lobato, um clássico para crianças”, respondíamos à questão: O que há de tão atrativo no Sítio do Picapau Amarelo? Ou, em outras palavras, por que Pedrinho, Narizinho e Emília, principalmente Emília, continuam tão presentes no imaginário infantil brasileiro? Ainda de outro modo: como Lobato fez esta mágica que, embora muitas vezes explicada nos mínimos detalhes pelos mais “maduros”, continua encantando os “menos experientes”? Indagações como essas não têm faltado aos pesquisadores e demais leitores especializados ao longo dos anos. Perguntas impossíveis de serem respondidas em um só texto ou mesmo em muitos outros trabalhos que vêm tentando, no mínimo, tangenciar as mil e uma questões instauradas pela obra de Lobato.

Um escritor publicista

A partir dos anos 1980, foram consolidados estudos sistemáticos sobre a literatura infantil e juvenil brasileira. Nesse contexto, a figura de Lobato se mostra central, trazendo como foco desses trabalhos a discussão de aspectos temáticos relevantes, como aponta Marisa Lajolo em artigo de 1988, “A figura do negro em Monteiro Lobato”, ao abordar Histórias de Tia Nastácia:

As contradições vão se acirrando ao longo do texto lobatiano, que, ao contrário de seus pares, não se limita a reproduzir, em forma de antologia asséptica, as histórias que Tia Nastácia conta. Lobato reproduz a história encenando a situação de narração e recepção, pondo, pois, em confronto o mundo da cultura negra do qual, no caso, Tia Nastácia é legítima porta-voz, e o mundo da modernidade branca, à qual dão voz tanto as crianças como a própria Dona Benta, também ela ouvinte de Tia Nastácia e também ela insatisfeita com as histórias que ouve (…).

Um artigo como esse mostra, ao leitor de hoje, que os estudos sistemáticos sobre a obra de Monteiro Lobato têm sido realizados de forma séria, sem ceder a simples opiniões ou questão de gosto. Por isso mesmo, muitos temas que ocupam o centro de polêmicas em diferentes ambientes sociais ou veículos de comunicação nunca foram desconhecidos daqueles que estudam a obra do escritor.

Assim, em texto mais recente, intitulado “Provocações à longeva Botocúndia: Monteiro Lobato e Urupês”, de 2018, publicado em número da revista Leitura em revista em que se comemorava uma efeméride literária – 70 anos sem Lobato, destacávamos a verve crítica lobatiana. Lembramos, então, que isso foi  um dos aspectos que chamou a atenção de José Guilherme Merquior ao atribuir a Lobato a identidade de “publicista” – “um escritor que discute problemas de interesse público, de interesse coletivo”. Acrescenta o autor, ainda, que é esse o perfil que poderíamos relacionar a certo tipo de jornalismo engajado que “não só discute temas de evidente interesse coletivo como o faz dentro de uma linguagem que sistematicamente aspira a uma comunicação com o grande público”.   

Amante de boas brigas

A exposição decorrente desta atividade, na qual Lobato via oportunidade para divulgar seus livros, levaria a uma visibilidade cotidiana ou mesmo à imagem pública de alguém que se colocava disponível ao debate, à discussão, à divergência. A partir dos jornais de sua época, Lobato lançaria questionamentos e reflexões contundentes, provocativas, na expectativa de influenciar ações em seu contexto social. Como aponta Sueli Cassal, o envolvimento de Lobato com grandes causas era movido por um desejo utópico de uma nação desenvolvida, muita próxima da situação econômica dos Estados Unidos, o que seria possível mediante a valorização do conhecimento científico.

“Não deixaria por menos uma boa briga”, poderia ser uma expressão para definir Lobato. “Boas brigas” foram as campanhas por necessidades básicas dos brasileiros, como a do saneamento, de 1918, em que acompanhou médicos sanitaristas, colocando-se a serviço da denúncia em uma séria de matérias sobre moléstias (verminoses, na maioria) que atingiam a população paulista de modo vergonhoso. Seu empenho como adido comercial nos anos 1930, para dar ferro ao Brasil, isto é, para incentivar a produção nacional, bem como sua ação tanto como publicista quanto empresário para desenvolver a exploração do petróleo, se refletiam em artigos e livros. A obra infantil não deixaria, evidentemente, de refletir essas experiências, algumas posteriores, outras concomitantes a atividades de editor, empresário, publicista.

O leitor infantil surge, então, como um destinatário de suas expectativas – aliás, como em todo texto, na obra infantil é evidente que se projeta uma ideia de leitor. Um suposto leitor neutro, raso, manipulável não estava na mira dos livros de Lobato. Ao não subestimar seu destinatário criança, o escritor convidava esse leitor infantil a pensar o mundo ao seu redor por meio de um trabalho inventivo e consciente com o texto literário. Os rompantes de contrariedade de diferentes grupos em diferentes momentos iriam atestar, ainda que de modo inusitado, a relevância daquele labor literário ao longo do tempo e das gerações.

Darwinismo e socialismo

Nos anos 1950, uma obra, em particular, se tornaria paradigmática desse tipo de abordagem polêmica e acusatória, realizando uma interpretação bibliográfica de Lobato cujo título encerra, por si só, um entendimento notoriamente avesso para com as lutas por ele travadas no campo econômico: A literatura infantil de Monteiro Lobato ou Comunismo para Crianças, do Padre Sales Brasil.

O autor projeta sobre a obra infantil temas que, de longe, estariam no centro da proposta lobatiana de formação de leitores, como é o caso da ausência de conteúdos religiosos propensos a reafirmar a identidade católica brasileira. Mais do que as ausências, o autor do estudo busca pistas em livros como A chave do tamanho, de 1942, sobre ideologias danosas à moral das crianças. É dessa forma que entende a miniaturização dos personagens como a extinção de classes sociais, isto é, em A chave do tamanho haveria uma propaganda dos benefícios de uma sociedade comunista: “é o seguinte: quando todos os homens chegarem ao mesmo tamanho (nivelamento das classes sociais), então não haverá sobre a terra nem injustiça nem certos preconceitos”.

Capa de A literatura infantil de Monteiro Lobato, obra crítica dos anos 1950

Ao lembrarmos do texto do padre Sales Brasil, percebemos que a fantasia, a inteligência e a criticidade são ignoradas como excepcionais qualidades da obra de Lobato e rebaixadas segundo uma inegável visão obscurantista.  Em outro trecho, outra denúncia: “Trata-se, evidentemente, da luta pela vida, segundo Darwin, aplicada ao campo sociológico pela teoria da seleção natural, de Spencer, ambas aproveitadas pela filosofia marxista-leninista e feitas balinhas de doce na literatura infantil de Monteiro Lobato”.

Aos olhos de hoje, a obra do padre Sales Brasil pode parecer um brandir de armas desnecessário, exagerado, até mesmo risível para muitos. Entretanto, a fórmula do “cancelamento” dos anos 1950 mostra-se ainda presente nas primeiras décadas do século 21, agora reportando-se à questão do racismo, que é pauta fundamental e premente, mas que tem sido associada a Lobato, na maioria das vezes, de forma ligeira, rasa, equivocada.

No centro dos debates, tivemos o conto “Negrinha” e a obra Caçadas de Pedrinho, a partir de 2010, como objeto de representação junto ao Conselho Nacional de Educação (CNE) e, também, à Controladoria Geral da União (CGU). O questionamento se debruçava sobre expressões que atentariam contra um item do edital do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), qual seja, a presença de estereótipos ou discriminação nas obras adquiridas pelo programa.

Entre propostas de inserção de notas de rodapé ou mesmo refacção das narrativas, a intensidade dos debates atestou a complexidade do tema, convidando aqueles dedicados aos estudos sobre a obra lobatiana a se manifestarem. Como comentou Marisa Lajolo – em manifestação pública por meio de um artigo intitulado “Quem paga a música escolhe a dança?”, de 2010 – vivenciar debates sobre a literatura e a formação dos leitores na escola equivalia a um reconhecimento público sobre o assunto, bem como da própria obra: “Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, está em pauta e é bom que esteja, pois é um livro maravilhoso”.

Acusações de racismo e debate

O debate, porém, nem sempre tem se dado em campos mais profícuos de ideias, conceitos e ideologias. Ao avocar os escritos lobatianos em artigo publicado na Folha de S. Paulo, em janeiro de 2021, Marcelo Coelho defendeu que “Pode ser chato saber disso, mas Monteiro Lobato era de um racismo delirante”, reeditando aspectos que há muito deveriam ter sido superados frente à qualidade dos debates em torno da obra lobatiana em curso já há mais de uma década, como a busca de “provas” descontextualizadas do pressuposto racismo de Lobato, não apenas em sua obra mas no interior de sua correspondência pessoal.

 Felizmente, a réplica não tardou, pois outra pesquisadora de Lobato, Ana Lúcia Brandão, veio a público em defesa do escritor, no mesmo jornal e em data muito próxima, com o artigo “ ‘Racismo delirante’ é tratamento grotesco, Monteiro Lobato merece respeito”. Entre muitos apontamentos, lembra seus leitores de que “Levar ao pé da letra palavras ou frases de uma mensagem pessoal entre amigos, para classificar um deles como “racista” revela uma enorme incompreensão do que significa a crítica literária”.

De alma lavada, o leitor lobatiano pode seguir de braços dados com Lobato. Entretanto, não se trata de vencer uma discussão ou ganhar o pódio da verdade. Como obra literária, os escritos de Lobato comportam questionamentos, dúvidas, discordâncias. Em evento acadêmico recente, em que discutíamos a obra do escritor, chamou nossa atenção uma fala de um aluno de graduação, cujo apontamento sustentava-se por meio da ideia de que Monteiro Lobato não o representava como cidadão, sujeito, pessoa imbuída e reconhecida como portadora de direitos fundamentais.

Caçadas de Pedrinho, de 1939, uma das obras no centro do debate sobre racismo

É importante esclarecer que nenhuma das ponderações desse estudante pode ser considerada irrelevante para a discussão, assim como é possível compreender o tom de agressividade de suas primeiras manifestações, face ao momento em que se dá o eternamente adiado debate sobre o racismo no Brasil. Nem ainda poderíamos discordar de que não só de Lobato se formam leitores!

O que parece um “problema” ou algo a se lamentar, porém, é o fechamento do interlocutor a textos cujas ideias continuam a contribuir para a formação inequívoca de leitores críticos mais autônomos e audaciosos em suas incursões pelo mundo da literatura. A conversa que travamos com aquele aluno, portanto, não mirava uma desqualificação de seu discurso ou certo menosprezo da intelectualidade por um suposto modismo ideológico. Ao contrário do que se poderia supor, as questões às quais nosso interlocutor se apegava com pertinência e propriedade, são essas mesmas questões que convidam à leitura da obra lobatiana, reitere-se.

É neste ponto que encerramos nosso convite irrestrito à leitura da obra infantil de Lobato. As polêmicas atestam, tanto pelo conjunto de argumentos e exposições, quanto pela presença de seus livros nas mãos de crianças do século 21, a vitalidade de suas narrativas. Presença que deve ser lembrada, sobretudo, agora que a obra do autor se encontra em domínio público e surgem inúmeras edições em papel e digitais de seus textos. O reconhecimento da amplitude e da intensidade de muitos temas, assuntos ou fatos presentes em suas histórias permite a discussão também ampla, aberta e, por que não, profunda desses temas, dos mais aos menos polêmicos. Se há, portanto, uma posição a assumir, ela se configura na busca por preservar a leitura de obras marcadas pela criatividade, inventividade e criticidade.

Cancelar Lobato, portanto, é queimar um ramo literário em que aquela tríade – criatividade, inventividade e criticidade – constitui grande probabilidade de servir a consciências imbuídas de utopias ainda tão caras à sociedade de nosso tempo.

Thiago Alves Valente  fez doutorado em Literatura na Unesp e é professor de Literatura Brasileira do Centro de Letras, Comunicação e Artes (CLCA), Campus de Cornélio Procópio (CCP) da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP) e coordenador do GT Leitura e Literatura Infantil e Juvenil da ANPOLL

Os artigos de opinião assinados não refletem necessariamente o ponto de vista da instituição.

Imagens acima: reprodução.

Joyce Campos e a difícil arte de ser neta de Monteiro Lobato

“Durante um inverno… cheguei a cometer uma das maiores travessuras da minha vida. Eu tinha colocado água com milho em uma lata de goiabada para endurecer no frio e virar uma espécie de “rapadura”. No dia seguinte, quando saí para checar se estavam prontas, vi as roupas penduradas no varal inteiramente congeladas devido à baixa temperatura. Imediatamente comecei a dobrar peça por peça sem deixar nada intacto. Foi uma maravilha, fazia um barulho bonito, crocante, plec, plec, plec. … Assim quebrei todas as roupas que estavam penduradas, lençóis, toalhas, vestidos, camisas, enfim… Pouco mais tarde minha avó se lembrou da roupa e saiu correndo com um enorme cesto para recolher. Mas era tarde. Estava tudo quebrado, rasgado, imprestável.

Essa historia aconteceu de fato e é uma das lembranças de Joyce Campos, única neta do escritor Monteiro Lobato, e segundo ela, “uma das profissões mais difíceis do mundo”. A história dessa relação entre a neta e seu avô, está contada na página 32 do livro “Juca e Joyce – Memórias da neta de Monteiro Lobato”, onde, em 2007, Joyce, por meio de depoimentos à escritora, jornalista e historiadora Márcia Camargos, relatou suas memórias de sua convivência com seu avô, Juca, como era chamado em família. O livro revela através dos relatos de Joyce, um lado mais íntimo de Lobato, como seus pratos prediletos, o que ele fazia nas horas de lazer, a sua participação na educação dos filhos, suas leituras de cabeceira, a relação com a esposa, suas manias, seus passatempos e a sua paixão pela pintura e pela fotografia.

Filha única de Martha Lobato Campos, a primogênita do escritor, com Jurandyr Ubirajara Campos, que na época trabalhava como desenhista publicitário nos escritórios da Pirelli e era ilustrador do The New York Times. Joyce nasceu nos Estados Unidos, em 1930, no período em que o avô trabalhava como adido comercial naquele país. A ideia da família era talvez permanecer por lá, mas quis o destino que, por conta da Revolução que explodiu naquele ano, eles retornassem todos ao Brasil, quando a pequena Joyce tinha apenas dez meses de vida. De volta ao Brasil, a família toda se estabeleceu no bairro da Aclimação, na zona sul da capital, onde os avós, Monteiro Lobato e Purezinha, também se instalaram.

Joyce foi uma menina extremamente travessa, esperta, curiosa e imaginativa que fazia mil estripulias, e que gostava de ouvir as histórias que o avô costumava inventar e contar para ela. Em 1933, com três anos, Joyce foi morar em Campos do Jordão, no interior de São Paulo, com a avó Purezinha, sua tia Ruth e seu tio Guilherme, diagnosticado com tuberculose, já que o clima local ajudaria no tratamento da doença. Seus pais permaneceram em São Paulo e por conta dos inúmeros compromissos de trabalho, Monteiro Lobato ia e vinha regularmente. Esse período, segundo ela, foi o melhor de sua infância, pois estava junto dos avós que faziam todas as suas vontades, fazendo jus à frase: “na casa do vovô e da vovó pode tudo!”.                                  

Joyce conta, em seu livro de memórias como neta de Lobato, que Monteiro Lobato costumava dormir poucas horas e tinha o hábito de acordar bem cedo, quase de madrugada para escrever. Joyce, sempre que estava com os avós, dormia entre os dois na mesma cama, onde eles conversavam e ela ouvia Purezinha contar o que tinha acontecido durante o dia, as novidades, quem tinha vindo visitar e Lobato contava seus planos mirabolantes, muitas vezes interrompidos sob um ataque de riso de ambos. Segundo a memória de Joyce, sua avó, Purezinha, tinha uma risada gostosa e quando contava uma caso era muito divertido, pois ela deixava tudo muito mais interessante. Até os fatos presenciados por ela, Joyce, ficavam irreconhecíveis e muito melhor, contados por sua avó. Curiosamente, Joyce aprendeu essa mesma habilidade, a de transformar qualquer caso numa história melhor do que o ocorrido.

Joyce gostava de ouvir atentamente as histórias contadas por Lobato, que inclusive lia trechos de livros que ainda estava escrevendo e ocasionalmente lhe perguntava sua opinião. Assim como o avô, a menina realmente era muito criativa e uma de suas ideias foi incorporada ao livro A Reforma da Natureza, publicado em 1939. Foi ela quem sugeriu colocar torneirinhas para tirar o leite da vaca, ideia que teria surgido em uma dessas conversas que Joyce costumava ter com o avô antes de dormir. Naquela época era comum tomar leite tirado diretamente da vaca, quentinho e Joyce contava que morria de nojo, pois costumava ir ao curral de manhã cedo para ver tirarem o leite e não gostava do cheiro, nem da sujeira.

De volta à São Paulo, em 1936, após a recuperação de Guilherme, Joyce passava a maioria do tempo na casa dos avós, onde brincava com sua melhor amiga e vizinha, Maiah Pinsard. Em entrevista à Livraria da Folha, no estande da Globo Livros, durante visita à 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 2010, Joyce contou que Maiah e ela costumavam brincar de casinha dentro dos caixotes abarrotados de livros e lá liam o que deviam e o que não deviam no porão da casa de Lobato, sempre cheio de livros. Desde pequenas, as amigas inseparáveis tiveram mil aventuras, foram a bailes, casaram, tiveram filhos e permaneceram amigas a vida toda. Joyce gostava de contar, com bom humor, uma das típicas aventuras que tiveram quando tinham uns onze ou doze anos: as duas decidiram visitar o jardim zoológico que existia no Jardim da Aclimação para ver os animais. A uma certa altura, para se divertirem, tiveram a ideia de provocar o urso em sua jaula com um pedaço de pau. Quando estavam nessa brincadeira de cutucar o urso, achando tudo muito divertido, repentinamente, o urso arrancou o pedaço de pau que Maiah estava segurando e “nhoc!”, mordeu a mão inteira de Maiah. Joyce, não entendendo o que estava acontecendo, gritava: “Larga o urso Maiah! Larga o urso!”. Felizmente, o animal abriu a boca para morder melhor a mão e Maiah caiu sentada. As meninas bem que tentaram ir a uma farmácia para fazer um curativo na mão, mas Joyce contava que o farmacêutico olhou horrorizado para a mão ensanguentada e se recusou a atendê-las. O jeito então foi ir para casa e pedir para Jurandyr fazer o curativo. O que salvou a mão de Maiah, foi um anel que ela tinha, o urso acabou mordendo o anel e assim não conseguiu decepar o dedo de Maiah.

A intrépida Joyce aprendeu com o pai, desde cedo, a não levar desaforo para casa. Filho de portugueses, com seis irmãos, Jurandyr era muito bravo. Naquele tempo tinha aquela coisa: “[…] brigou e apanhou lá fora, vai apanhar em casa também!” e Jurandyr praticava esse tipo de educação. Seu pai a ensinou a ler, aos 5 anos, com o livro Histórias de Tia Nastácia. Essa foi uma experiência traumática, contou Joyce em seu livro, porque seu pai costumava puni-la com um coque na cabeça toda vez que ela errava a leitura. Joyce costumava lembrar, em conversas, que nos seus tempos de criança apanhou de régua na palma da mão (palmatória) e ficou de joelhos no milho, no canto da sala, na escola. Essas eram práticas educacionais comuns na época.

Desde criança, por natureza ou pela educação que recebia em casa, Joyce se mostrou uma autêntica líder. Comandava a turma da rua, onde era a única menina, batia nos outros meninos se eles questionassem sua liderança, subia em árvores, se machucava com frequência, mas nunca reclamava.

Joyce cresceu num período de extrema atividade de Lobato. O escritor voltou de sua temporada nos EUA determinado em ajudar o Brasil a se tornar um país de primeiro mundo, independente energeticamente e passou a década de 1930, até 1941, investindo todas as suas energias e economias na luta pelo petróleo. Durante esta década, Lobato lutou pela liberdade de expressão e contra o governo ditatorial de Getúlio Vargas. Além disso, neste período, escreveu 23 livros, traduziu 32 obras da literatura internacional e abriu três companhias de petróleo. Também neste período, Guilherme, filho mais novo, faleceu, em consequência da tuberculose, com apenas 23 anos, em 1938. E finalmente, em 1941, Lobato foi preso por crime de “lesa-patria”, e sua adaptação do livro Peter Pan foi apreendido e destruído por causar má influência nas crianças.  Joyce cresceu durante essa tumultuada fase da vida do avô e tudo isso teve um grande impacto em sua personalidade. Descobriu cedo que não era uma tarefa fácil ser neta de uma personalidade tão famosa. Em qualquer escola, ela sempre teve que enfrentar e se defender de acusações de Lobato ser comunista, representando um ‘perigo para a sociedade’.

Na infância, Joyce estudou por um ano na American Graded School of São Paulo, pois Lobato e Jurandyr achavam muito importante saber falar inglês. Apesar de não ter o sobrenome Lobato, porque seu pai optou por colocar apenas o sobrenome dele, logo os professores descobriam o seu parentesco com o escritor e passaram a exigir dela um desempenho muito melhor nessa matéria. Além da exigência por boas notas em português, Joyce se lembrava de ter tido uma professora dessa matéria, chamada dona Olga, que era muito fã do escritor e resolveu fazer uma montagem do Sítio do Pica-Pau Amarelo, para ser apresentada no encerramento do ano letivo. Ela foi escalada para interpretar o papel de Tia Nastácia e, por desenhar bem, foi também responsável pelos desenhos e figurinos da peça. Porém, o mais difícil talvez tenha sido o fato dela ter que encarar o avô na plateia, convidado de honra para prestigiar a apresentação.

Da escola Americana, Joyce foi para o Mackenzie, e no colegial era chamada de “tovarish”, que significa camarada, em russo, porque as pessoas achavam que ela era neta de um comunista. Teve que aprender a se defender a defender a reputação do avô. Depois de terminar o secundário, cursou e se formou em arquitetura pela Universidade Mackenzie. Curiosamente, nenhum dos quatro filhos de Monteiro Lobato fez faculdade. O mais comum para as mulheres na década de 1940 e 1950 era seguir carreira como secretária ou professora de primeiras letras. Joyce foge ao padrão familiar, e não só cursa faculdade mais escolhe ser arquiteta e não professora. Ela foi uma das cinco mulheres da sua turma no curso de Arquitetura, que tinha outros sessenta homens. Após formada, Joyce trabalhou em diversos escritórios de arquitetura e em 1958, com 28 anos, se casou com o engenheiro Jerzy Kornbluh (2/12/1930 – 15/11/2015) – que preferia ser chamado de ‘Jorge’ – judeu polonês não religioso, refugiado de guerra, que havia chegado com os pais e a irmã, ao Brasil aos 11 anos, fugindo do Holocausto na Europa.

Neste momento, a menina que gostava de ouvir as histórias contadas pelos avós, que amava viajar e criava suas próprias aventuras na vida real, saiu de cena, dando lugar, a partir do casamento, a uma esposa dedicada em apoiar o marido e a fazer tudo para ajudá-lo a progredir na carreira. Dessa união, nasceu Cleo, filha única do casal. Durante muitos anos Joyce se dedicou ao marido e a filha, costurando e pintando todas as roupas de Cleo por muitos anos, aprendendo a cozinhar para servir jantares para os negócios de Jorge e assumindo a função de matriarca da família, a pessoa que todos perguntam a opinião, a pessoa que resolve todos os problemas e é o pilar da família.

Em 1971, uma tragédia abala a família. Ruth, filha mais nova de Lobato, se suicida. Joyce, o pilar emocional da família, assume este peso e seu marido, Jorge começa a assumir o papel de representante da família para os negócios relacionados com a obra de Lobato.

Voltando um pouco atrás…depois da morte de Lobato em 1948, Ruth, e Purezinha assumiram a missão de promover o legado do escritor, mantendo viva a sua memória.  Juntas e com a ajuda dos amigos do escritor, elas conseguem organizar a primeira Semana Monteiro Lobato, na cidade de Taubaté, onde Lobato nasceu. Purezinha fez uma doação de roupas e móveis, além de livros e manuscritos de Lobato para a Biblioteca Monteiro Lobato em São Paulo. Ruth e Purezinha estabeleceram o legado de Monteiro Lobato, e trabalharam incansavelmente até o falecimento de Purezinha em 1959. Neste período, com autorização delas, foi realizado o primeiro filme baseado na obra infantil de Lobato, O Saci e também o primeiro programa de TV baseado na obra infantil, dirigido por Julio Gouveia e Tatiana Belinky, amigos de Purezinha e Lobato, indo ao  ar pela extinta TV Tupi.

Após a morte de Purezinha em 1959, Martha passou a ajudar Ruth, fazendo a parte pública, dando entrevistas para programas de TV e para os jornais, enquanto Ruth se concentrava na parte dos negócios. Martha e Ruth tocam os negócios Durante vários anos até a morte de Ruth em 1971 quando Jorge e Joyce assumem este papel.

Em 1977 é assinado o contrato para a produção do primeiro seriado do Sítio do Pica-Pau Amarelo a cores, na TV Globo. Aos poucos, com o passar do tempo, Martha reassumiu os compromissos que fazia antes e junto com Joyce, passar a fazer a parte pública juntas, enquanto em 1995 Jorge passou a representar oficialmente a família Monteiro Lobato através da Monteiro Lobato Licenciamentos. A empresa passou a responder, com o parceiro comercial, Álvaro Gomes, pelos contratos com a TV Globo para a produção da segunda série do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a televisão, no ano 2001 e de 2012 e por todos os licenciamentos.

Ao lado do marido, com Martha já de certa idade, Joyce passou a cumprir a face pública de representar a família integralmente. Ela tinha agora uma agenda intensa, repleta de compromissos que continuou a exercer até seus 85 anos de idade. Joyce regularmente dava entrevistas aos mais diversos veículos de comunicação, a participava de inaugurações de orfanatos, escolas e bibliotecas, fazia doações de livros, além de opinar nas fantasias dos personagens do seriado, inclusive lendo e aprovando todas as sinopses dos episódios da série na TV Globo, especialmente a de 2001. Joyce se manteve sempre ativa, participando do Programa do Jô e do Bial na TV Globo entre outros, participando de todas as Semanas Monteiro Lobato, em Taubaté ou no Cemitério da Consolação, opinando sobre a qualidade e o design dos produtos licenciados e sempre ajudando estudantes e pesquisadores quando a procuravam pedindo informações sobre seu avô.

Em 1998, após uma minuciosa pesquisa de anos em diversos  acervos de diversas instituições e na casa da família, em São Paulo, os historiadores Marcia Camargos e Vladimir Sacchetta, lançam o livro Furacão na Botocúndia que foi acompanhado de uma exposição de mesmo nome, em comemoração aos 100 anos do nascimento de Lobato. Joyce e o marido rodaram as capitais do Brasil, junto com os autores da obra, levando o conhecimento da vida e obra de Lobato para o Brasil inteiro.  Desta experiência nasceu uma grande amizade entre os quatro, especialmente entre Marcia e Joyce, e convidada por Marcia, Joyce dá uma série de depoimentos de como é ser neta de Monteiro Lobato que se tornam o livro “Memórias da neta de Monteiro Lobato – Juca e Joyce”, lançado pela Editora Moderna em 2007 mencionado no início deste artigo.

Em 1999, a convite da professora Marisa Lajolo, Joyce e Jorge visitaram a exposição “Vendo e Escrevendo Monteiro Lobato“, na sede da Universidade de Campinas, a Unicamp. Após conhecerem as dependências do CEDAE – Centro de Documentação Cultural “Alexandre Eulálio” – e o trabalho desenvolvido naquele local, a família decidiu doar à Universidade, o acervo deixado pelo escritor e guardado há anos na casa da família. A intenção era de abrigar este acervo num espaço fisico onde o mesmo seria conservado e preservado. Muito importante também era o publico e os estudiosos de Lobato terem sempre acesso a este material precioso. A Unicamp criou, então, o Fundo Monteiro Lobato dentro do CEDAE e a doação foi consolidada no dia 20 de julho de 2000. No acervo existem diversos documentos das mais diversas fases vividas por Lobato, seja como escritor, editor, adido comercial, desenhista e empreendedor. São documentos pessoais, vasta correspondência do período de namoro com Purezinha e outras trocadas com amigos; escritores, editores, etc.; além de livros; originais manuscritos e datilografados de contos, crônicas, literatura infantil, traduções, desenhos, aquarelas e fotografias de sua autoria. É importante destacar essa nobre atitude da família do escritor, que com esse gesto permitiu a qualquer pessoa interessada em saber mais sobre o pai da literatura infantil brasileira, ter acesso a documentos importantes referentes ao escritor.

Joyce Campos Kornbluh, faleceu no dia 26 de janeiro deste ano, aos 93 anos, a última descendente de Monteiro Lobato que teve contato direto com o pai da literatura infantil brasileira. Até os seus ultimo dias Joyce foi generosa com seu tempo, com suas memórias de Lobato, ajudando pesquisadores,  estudantes, dando autorizações para uso de imagem e inclusive apoiando a sua filha Cleo na nova versão atualizada do livro “Reinações de Narizinho’”.

Entre tantas qualidades apontadas pela historiadora Márcia Camargos, que citamos no início deste artigo, vale o destaque para o resumo sobre quem foi Joyce Campos: “uma observadora privilegiada, que presenciou a vida de Monteiro Lobato, com uma intimidade que os historiadores não têm”.

Só tive noção da dimensão da obra dele depois de sua morte. A gente admira o avô porque é avô, não porque é Monteiro Lobato” – Joyce Campos.

Se o universo lobatiano nos permite sonhar, quem sabe ambos não estejam agora a passear pelas terras do Sítio do Pica-Pau Amarelo, em meio a todo aquele cenário encantador, cercados pelos personagens que encantaram tantas gerações.

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REFERÊNCIAS:

Luto: Me ensinou tudo o que uma criança não podia fazer, dizia neta sobre Lobato (sampi.net.br)

Folha.com – Livraria da Folha – Neta de Monteiro Lobato relembra convivência com avô em visita à Bienal do Livro – 18/08/2010 (uol.com.br)

Jornal da Unicamp

https://cedae.iel.unicamp.br/fundos/MLb_Catalogo.pdf

Entrevista com Cleo Monteiro Lobato

Na Argentina, Lobato fez mais do que “comer bifes”

Perguntado por qual motivo ele iria se mudar para a Argentina, Monteiro Lobato com sua peculiar ironia respondeu: “Vou lá comer bifes”.

Fato, é que naquele período o escritor vivia um verdadeiro inferno astral, sofrendo com a perseguição implacável do regime ditatorial de Getúlio Vargas, que inclusive o levou a prisão, de forma injusta, em 1941. Esse acontecimento deixou a família de Lobato em uma situação muito delicada, ao ponto de sua esposa, Purezinha e sua filha mais nova, Ruth, serem obrigadas a irem morar com Martha, a primogênita do casal, porque sequer tinham dinheiro para pagar o aluguel da casa onde moravam.

Mesmo após ser libertado, o escritor continuou sofrendo com a perseguição do regime getulista, que impôs a ele uma implacável censura, proibindo-o de dar entrevistas e vetando que os jornais noticiassem qualquer informação sobre Lobato. Além disso, o governo de Vargas mandou apreender diversos de seus livros sob a acusação de conterem “doutrinas perigosas e práticas deformadoras do caráter”, especificamente, Peter Pan e O Escândalo do Petróleo. Monteiro Lobato foi impedido de trabalhar, teve a fonte de renda para o sustento de sua família bloqueado, numa ação do Estado Novo para literalmente acabar com o escritor. Não bastando tudo isso, em setembro de 1945, Lobato foi submetido, as pressas, a uma cirurgia para a retirada de um cisto no pulmão.

Todos esses fatos acabaram levando o escritor a mergulhar em um profundo sentimento de desgosto, tristeza e decepção com a política e com o Brasil daquela época. A perseguição getulista, a censura imposta às suas obras, a consequente falta de dinheiro para sobreviver com o mínimo de dignidade e a sua própria saúde, estimularam Monteiro Lobato a decidir a se mudar para a Buenos Aires, na Argentina, onde ele já fazia sucesso desde a década de 20. Lobato sabia que seria bem recebido pois tinha estabelecido ali um mercado editorial promissor, segundo o seu biógrafo, Edgar Cavalheiro, autor de Monteiro Lobato – Vida e Obra. Desse modo, ao contrário da ironia e humor incutidos em sua resposta, de que deixaria o Brasil para aproveitar a culinária argentina, a mudança de país naquele momento foi uma espécie de autoexílio aliada a necessidade econômica.

Assim, no dia 8 de junho de 1946, cerca de quatro meses após se tornar sócio da Editora Brasiliense, Monteiro Lobato se mudou com a esposa, Purezinha e a filha Ruth para Buenos Aires. Essa mudança foi noticiada pelos principais órgãos de imprensa dos dois países na época, em tons diferentes. Na imprensa brasileira repercutiu a tristeza gerada pela saída do escritor do país, que recebeu no aeroporto amigos e jornalistas. Já o jornal Clarín, um dos mais importantes até hoje na Argentina, enalteceu a figura do escritor, ressaltando, com certa ironia, o motivo que o fez mudar para lá: “comer bifes”, exaltando a carne argentina. O escritor morou com a família, na capital portenha, na Calle Sarmineto, 2.608, região central da província. Nos primeiros meses em Buenos Aires, Monteiro Lobato levou uma vida bastante agitada com inúmeros convites para os mais diversos eventos, que foram importantes para fortalecer suas relações com diferentes espaços da cultura argentina.

Esses compromissos iam muito além de almoços na embaixada, passeios pelo Tigre e lutas de boxe. Como já era famoso entre as crianças, Lobato também aproveitou para visitar escolas, conversar e ouvir a opinião de seus pequenos leitores argentinos sobre suas histórias. Nesse período ele também aproveitou para conhecer, pessoalmente, o amigo Manuel Gálvez, com quem se correspondia desde os anos 1920, e de quem publicou textos na Revista do Brasil, além de ter editado e lançado, em português, o romance Nacha Regules, em 1924.

Lobato, sua esposa D. Purezinha e Ruth, filha caçula

Essa boa relação que Lobato tinha com os hermanos do Prata, surgiu através de sua amizade com o jornalista e editor argentino, Benjamín Bertoli Garay, que ele conheceu por intermédio de Manuel Gálvez. Em 1920, Garay se aproximou do grupo modernista de São Paulo e passou a integrar a equipe da revista A Colmeia. Esse trabalho serviu como inspiração para que Garay sugerisse a criação de A Novela Semanal, uma revista brasileira similar a La Novela Semanal, que circulou na Argentina entre 1917 a 1925. O escolhido para a edição inaugural da publicação, que saiu em 1921, pela Editora Olegário Ribeiro, foi justamente Monteiro Lobato com seu texto Os Negros. Nesse mesmo ano, pela Editorial Pátria, de Manuel Gálvez, Garay traduziu Urupês para o castelhano. Importante agente consolidador das relações literário-culturais entre Brasil e Argentina, além de Monteiro Lobato, Garay traduziu e divulgou na capital portenha, obras de outros ilustres escritores brasileiros como Graciliano Ramos, Gilberto Freyre e Euclides da Cunha.

Conforme a pesquisadora Thaís de Mattos Albieri, autora da tese de doutorado “São Paulo-Buenos Aires – A Trajetória de Monteiro Lobato na Argentina”, um exaustivo trabalho de pesquisa sobre as relações literárias do escritor brasileiro com o país vizinho, essa boa relação de Lobato com o cenário cultural portenho teve início em 1919 e se prolongou até sua morte, sendo construída por meio de cartas e artigos de jornais, numa via de mão dupla que, de um lado, incluía textos de Lobato (e sobre ele) na imprensa de Buenos Aires, e de outro, artigos de autores argentinos que ele publicava na Revista do Brasil, além dos livros que lançou através de sua editora, a Companhia Gráfico-Editora Monteiro Lobato.

A “marca Lobato” fazia tanto sucesso entre os argentinos, que a mudança do escritor para lá só elevou ainda mais a sua popularidade. O sucesso de Lobato era tanto no país vizinho, que foi lá que aconteceu o lançamento da primeira boneca Emília no mundo, num modelo de pano, no final da década de 1930, conforme o diretor do SBT, Jefferson Cândido, colecionador de produtos licenciados e material relativo TV do Sitio do Pica- Pau Amarelo.                           Este sucesso de Lobato no país vizinho continuou ao ponto de em 1943, acontecer o lançamento da primeira radionovela infantil da obra infantil de Monteiro Lobato com 39 histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo. O magazine Harrod´s – uma loja de departamentos elegante de Buenos Aires, realizou a primeira “Semana Monteiro Lobato”, em setembro de 1946, um grande evento onde foram expostos todos os livros do escritor, em meio a cartazes, bonecos, além da apresentações teatrais extraídas de suas obras. Aqui no Brasil, a primeira “Semana Monteiro Lobato”, só foi realizada entre os dias 11 e 18 de abril de 1953, na cidade de Taubaté, no interior de São Paulo após a morte do escritor e todos os cem participantes foram fichados pelo Departamento de Segurança do Estado Novo, o DEOPS.

Em Buenos Aires, o escritor topava com muitos brasileiros, em especial na Rua Calle Florida (ou Rua Florida para os brasileiros), que ainda hoje é a mais famosa da capital portenha, que desde aquela época já era uma rua de compras frequentada por pessoas elegantes. Muitos desses conterrâneos de Lobato acabavam inclusive batendo à sua casa toda semana, apesar da dificuldade de descobrir seu endereço, porque ele não tinha telefone. Apesar disso, Lobato costumava reclamar do tédio, em cartas aos amigos, por não ter o que fazer. Lobato, que no Brasil estava sempre envolvido em grandes projetos, amava o trabalho e sentia muita falta da vida corrida cheia de projetos.

Lobato rodeado por crianças, em Buenos Aires

Um empreendedor inveterado, em poucos meses após chegar no novo país, ele se associou a dois argentinos: Ramón Prieto e Miguel Pilato, para fundar a editora Acteón, em agosto de 1946, instalada na Avenida de Mayo, 654, 2º piso, em Buenos Aires. O empreendimento se tornou uma oportunidade de reviver os tempos em que foi o editor e gerente de sua própria obra, no Brasil. Pela Acteón, Lobato publica, com grande sucesso, Os Doze Trabalhos de Hércules, traduzido por seu sócio, Ramon Prieto, em uma edição de luxo, intitulada Las Doce Hazañas de Hercules, naquele mesmo ano de 1946.

Na Argentina, o escritor usou a mesma estratégia que havia adotado no Brasil para divulgar o seu trabalho: a publicação de contos, ou de trechos de obras, em jornais e revistas, para se fazer conhecido antes de sair em livro.

Baseado no Plano Quinquenal implantado pelo general Juán Perón, presidente argentino na época, Lobato escreve La Nueva Argentina, seu único livro originalmente em castelhano, publicado em 1947, que ele assina sob o pseudônimo de Miguel P. Garcia. Com uma edição de 3 mil exemplares, o livro, com 152 páginas, é dirigido ao público jovem e tem como fio condutor da história um diálogo entre Don Justo Saavedra, pai de dois meninos: Pancho e Pablo, que explica aos filhos o que é o plano quinquenal do governo Perón. Ainda hoje paira a dúvida de por que Lobato escreveu este livro usando um pseudônimo e para um governo autocrata. Para a pesquisadora Thaís de Mattos Albieri, que citamos anteriormente neste artigo, a suspeita é de que a obra tenha sido uma encomenda do próprio Perón, que queria se aproveitar da fama do escritor para promover o seu governo. A controvérsia aumenta, pelo fato do biógrafo de Lobato, Edgar Cavalheiro, negar que o escritor seria adepto ou apreciador do peronismo. Afinal, como poderia Lobato, que tanto havia sofrido com a perseguição e a censura de Getúlio Vargas no Brasil, ser a favor do peronismo, um governo muito parecido com do ditador brasileiro, que ele tanto combateu e inclusive o teria forçado a se mudar de país? São muitos os mistérios que cercam esse episódio. Hoje, na Argentina, conforme a pesquisadora Thaís Albieri, em entrevista para o jornal Folha de São Paulo, publicada em 25 de abril de 2010, não existe mais nenhum exemplar, desse livro. Ela acredita que o mesmo tenha sido recolhido e queimado.

Fato é que a narrativa do escritor conquista a simpatia dos peronistas e leva o Conselho de Educação da Província de Buenos Aires a encomendar uma nova tiragem de 150 mil exemplares para serem distribuídos nas escolas. Com isso, alguns jornalistas brasileiros, entre os quais, Claudio Abramo, do Jornal de São Paulo, passaram a acusar, na época, o escritor de ter-se vendido ao peronismo. Lobato chega a rebater as críticas, defendendo a liberdade de imprensa em qualquer parte do mundo, mas preferiu parar por aí.

Apesar de todo o interesse do governo argentino em concretizar a encomenda dos livros, o processo burocrático para a liberação do pedido acaba demorando muito mais do que o esperado, mesmo com todos os esforços para desfazer os entraves, o que acaba se tornando um grande problema para Lobato, do ponto de vista financeiro. Diante dessa dificuldade, ele percebe que não conseguiria se manter na Argentina definitivamente, como pretendia inicialmente e então passa a cogitar em viajar para o Peru. Essa viagem acaba não se concretizando, porque Lobato tem problemas de saúde. Ele então retoma a ideia de escrever um livro contando a história da conquista da América, através da curiosidade da Emília, a falante boneca do Sítio do Pica-Pau Amarelo, porém também não chega a concretizar esse plano.

A estadia de Lobato em solo argentino chegou ao fim em maio de 1947, praticamente um ano depois de chegar. Lobato regressa com a família para São Paulo, deixando ainda em atividade a editora Acteón, da qual ainda era sócio. Ele também manteve seus livros em castelhano editados pela Americalee e continua acompanhando as negociações em torno da nova tiragem de La Nueva Argentina, que ficaram a cargo de Ramón Prieto. Apesar do empenho de pessoas influentes no Conselho de Educação e no organismo Interministerial, esse processo ainda se mantinha travado no governo argentino.

No final de 1947, Lobato decide então vender os direitos de La Nueva Argentina para o governo peronista, com o valor da negociação servindo para a liquidação da editora Acteón, que havia acumulado prejuízos aguardando o desenrolar da negociação. Todo esse imbróglio trouxe grandes prejuízos ao escritor, que ao voltar, foi obrigado a viver num apartamento emprestado por Caio Prado Junior, no 12º andar da editora Brasiliense, após viver em hotéis.

Apesar disso, Lobato manteve sua popularidade em alta entre os leitores do Prata, através de seus livros infantis que continuaram sendo traduzidos e publicados pela editorial Americalee, que também comprou os direitos de venda do livro Os Doze Trabalhos de Hércules (Las Doce Hazañas de Hercules).

Em 1947, um acordo entre Lobato e a editora Códex, resultou no lançamento de Libros Juguetes (livros brinquedos)com ilustrações que se movimentavam, dando à cena descrita na história, movimento e vivacidade. O primeiro título foi La Casa de Emilia, seguido por Cuento Argentino, com uma tiragem de 10 mil exemplares cada, que renderam ao escritor um faturamento de 1000 pesos no total.

Monteiro Lobato morreu um ano após a sua volta, após ter sido a “ponte literária” entre Brasil e Argentina. Sua produção literária em castelhano promoveu um importante trabalho de intercâmbio continental. Assim como no Brasil, em outros países latinos a obra de Lobato criou uma literatura infantil diferente das existentes em meados do século XIX, estabelecendo uma profunda e duradoura relação com a escola. O tempo passou e depois do boom que seus livros infantis tiveram entre os anos 1940 e 1960, Monteiro Lobato voltou a ter uma de suas obras publicadas na Argentina. Reinações de Narizinho, que por lá ganhou o título de Las Travesuras de Naricita, foi lançado em 2010, em uma reedição de 170 páginas, durante a 36ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires. Na época, a atual vice-presidente argentina Cristina Kirchner e a ensaísta Beatriz Sarlo, uma das mais respeitadas intelectuais argentinas, que cresceram lendo as histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo, fizeram questão de declarar sua admiração pelo escritor.

Definitivamente, mais que comer bifes, Monteiro Lobato foi à Argentina para também escrever o seu nome na história. E assim, o país que rivaliza com o Brasil em tantas áreas, conquistou também o coração do pai da nossa literatura infantil e por que não dizer, dos pequenos latinos?

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REFERÊNCIAS:

“Furacão na Botucúndia” – pág. 343 a 346

https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8145/tde-07102008-171507/publico/TESE_MARIA_PAULA_GURGEL_RIBEIRO.pdf

monteirolobato.com/linha-do-tempo/1945-1948-os-ultimos-anos-de-lobato/

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2504201008.htm

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2504201007.htm

https://www1.folha.uol.com.br/folha/livrariadafolha/ult10082u708944.shtml

https://taubate.sp.gov.br/museumonteirolobato/acervo/wp-content/uploads/tainacan-items/641/9732/mml_bib0017.pdf

https://alb.org.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais16/sem08pdf/sm08ss05_03.pdf

Monteiro Lobato e o folclore brasileiro

Originária da junção de duas palavras inglesas, ‘folk’ (povo) e ‘lore’ (conhecimento), a palavra ‘folclore’ surgiu no século XIX, através do pesquisador britânico William John Thoms, ganhando desde então o significado literal de “conhecimento do povo” ou “aquilo que o povo faz”. O termo foi registrado pelo autor, através de uma carta publicada pela revista britânica The Athenaeum, em 22 de agosto de 1846, na qual ele sugeria que todo o conjunto de tradições ou “antiguidades” populares poderia ser definido pela palavra “folklore”. De modo geral, podemos entender como folclore, o conjunto de práticas e saberes de um determinado povo, transmitido de geração para geração. A partir dessa carta de John Thoms, o termo “folklore” se popularizou entre os países ocidentais, despertando o trabalho de estudiosos e muitas nações decidiram eleger o dia 22 de agosto como o dia oficial do folclore, de modo a valorizar e mostrar a importância de todas as manifestações que caracterizam a cultura popular de um país, como suas lendas, canções, mitos, danças e artesanatos entre outros. Entendendo a sua significância e a necessidade da sua preservação, a Unesco reconhece o folclore como Patrimônio Cultural Imaterial.

Aqui no Brasil o movimento mais representativo aconteceu no Rio de Janeiro, em agosto de 1951, com o “Iº Congresso Brasileiro de Folclore”, onde foi elaborada a Carta do Folclore Brasileiro, mas o Dia do Folclore só foi oficializado no Brasil em 1965, sendo celebrado anualmente, também no dia 22 de agosto. Isso aconteceu graças ao grande volume de estudos sobre a cultura popular brasileira que já haviam sido feitos, desde o século XIX, onde se destacavam estudiosos como Mário de Andrade, Câmara Cascudo e Monteiro Lobato, entre outros intelectuais nacionalistas que estudavam as características culturais de cada canto do Brasil.

Natural do Vale do Paraíba, Lobato cresceu num ambiente interiorano, passando boa parte do seu tempo de infância entre a Fazenda São José do Buquira, a fazenda Paraíso, e a fazenda da cidade, chamada de chácara do Visconde. Desde pequeno, Lobato sempre ouviu muitas histórias sobre Saci, Mula sem Cabeça, Curupira, Cuca, que eram contadas pelos trabalhadores das fazendas. Todo esse contexto despertou o interesse do escritor pelo folclore nacional, especialmente pelo personagem do Saci.

Em 1914, passeando pelo Jardim da Luz em São Paulo com um amigo, Lobato se deparou com a famosa cena que ele imortalizou num texto publicado na Revista do Brasil em1916, chamado A poesia, de Ricardo Gonçalves:

Pelos canteiros de grama-inglesa há figurinhas de anões germânicos […] porque tais nibelungices, mudas à nossa alma, e não sacis-pererês, caiporas, mães d’água e mais duendes criados pela imaginação do povo?

Inconformado com a falta de orgulho na nossa própria identidade nacional, Lobato passou a explorar mais a fundo a lenda do Saci-Pererê e no começo de 1917. Realizou uma pesquisa de opinião pública, no suplemento vespertino do jornal O Estado de São Paulo, chamado Estadinho, para colher as respostas dos leitores a respeito das versões sobre o lendário personagem. O inquérito foi um sucesso e Monteiro Lobato recebeu dezenas de respostas de todo o Brasil. No ano seguinte, 1918, Lobato reúne os relatos num livro e lança O Saci Pererê: resultado de um Inquérito. A ótima repercussão dessa iniciativa, então, o motivou a realizar também uma exposição de pintura e escultura sobre o mesmo tema.

Três anos mais tarde, em 1921, ele então lança O Saci, para o público infantil, que acaba norteando definitivamente a sua carreira de escritor. Nessa história, Pedrinho, orientado pelo Tia Barnabé, captura um Saci. Ambos vivem uma grande aventura na floresta onde durante a noite e o Saci protege Pedrinho dos diversos personagens do folclore brasileiro e acabam discutindo sobre temas relevantes, do tipo: quem é mais desenvolvido, os humanos ou os animais e criaturas das florestas? O Saci assume o protagonismo desta discussão filosófica, e dá uma verdadeira aula sobre comportamento, respeito, amor ao próximo e principalmente a importância da preservação da natureza. Em meio a essa aventura, o Saci ajuda Pedrinho a salvar Narizinho da Cuca e desta vez Lobato dá uma aula sobre o bem mais precioso do mundo: a liberdade.

Definitivamente, Monteiro Lobato foi um divisor de águas na literatura infantil. Ele criou um estilo próprio e inovador de escrever para crianças, dando outro sentido às histórias que ele próprio ouviu na infância. Suas histórias impressas no papel criaram um mundo imaginário ao alcance de todos, imortalizados. Recorrendo às fontes originais das lendas folclóricas e inserindo-as em suas obras, Monteiro Lobato criou uma ferramenta poderosa de ensino infantil, que deram aos seus livros um conceito didático, revolucionário e inovador. Fato é que Lobato sempre foi um exímio contador de histórias, que tinha em seu ‘DNA’, o brasileirismo para entender a importância e exaltar nossos mitos e lendas, contos e fábulas populares.

Curiosamente, a jornalista, pós-graduada em Educação Infantil, Rosângela Marçolla, enxerga Monteiro Lobato como um ‘folk’ comunicador que através dos seus livros, se tornou um agente ‘folk’ midiático, responsável pela disseminação de narrativas da nossa cultura popular em forma de obra literária. A “Folk-comunicação”, é uma teoria brasileira proposta pelo sociólogo e pesquisador Luiz Beltrão, em sua tese de doutorado em 1967, que analisa a comunicação que se dá por meio do folclore e as estratégias de comunicação adotadas pelos chamados “grupos marginalizados”, rurais e urbanos. Lobato absorveu muito das histórias da nossa tradição oral, da nossa cultura popular, vinda de ex-escravos, das nossas tribos indígenas e dos nossos emigrantes para enriquecer a mais fantástica e singular obra da nossa literatura infantil e sobretudo para revelar ao mundo a nossa extraordinária cultura popular. Como um legítimo agente ‘folk’ midiático, o escritor teve um papel inovador e revolucionário, através dos seus livros, como uma espécie de porta-voz das pessoas excluídas socialmente, sem acesso ao estudo, que formavam a maioria analfabeta do nosso país naquela época.

No Brasil, quando falamos de folclore, automaticamente lembramos do Saci, da Cuca, do Curupira, da Iara, da Mula sem cabeça, do Boitatá e de tantos outros personagens popularizados através das obras de Monteiro Lobato, em histórias que ainda hoje continuam passando de geração para geração.

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REFERÊNCIAS:

https://mundoeducacao.uol.com.br/datas-comemorativas/dia-folclore.htm

https://exame.com/pop/dia-do-folclore-entenda-a-origem-data-que-e-comemorada-no-dia-22-de-agosto/

https://www.educamaisbrasil.com.br/enem/datas-comemorativas/dia-do-folclore

https://www.educamaisbrasil.com.br/enem/datas-comemorativas/dia-do-folclore

https://www.diarionline.com.br/?s=noticia&id=118036

http://www0.rio.rj.gov.br/arquivo/pdf/cadernos_comunicacao/estudos/estudos17.pdfhttps://www.bocc.ubi.pt/pag/marcolla-rosangela-monteiro-lobato-contador-de-historias.pdf

Escola Nova, Lobato e a revolução educacional no Brasil

Era o final do século XIX, a proclamação da República encerrava o período do Brasil Imperial e apesar da base da nossa economia ainda se manter na agricultura, tendo o café como o produto mais cultivado e exportado pelo país, a industrialização dava seus primeiros passos. Esse novo cenário passou a exigir que o país se fortalecesse e desenvolvesse o seu próprio setor industrial, considerando ainda a man era como a abolição da escravidão em 1888 ocorreu “da porteira para fora” e sem nenhum tipo de mão de obra especializada, as poucas indústrias que começavam a surgir por aqui decidiram substituir a mão de obra escrava pelo trabalho do imigrante estrangeiro, tendo assim início também, o surgimento de uma política imigratória.

É a partir desse cenário que o Brasil passa a ser cada vez mais pressionado para promover uma profunda reforma em todo o seu sistema educacional e Monteiro Lobato se torna, pelo seu trabalho como escritor e editor e sua crença na melhoria da ser humano pela ciência, uma das principais personalidades nesse processo, a apontar o caminho da educação como a base para o desenvolvimento do nosso país. Quase um iluminista, Lobato acreditava que através da ciência seria possível melhorar a qualidade de vida das pessoas, dentro da ideia de se trabalhar e prosperar, através de melhor saúde e melhor educação.

Nessa linha desenvolvimentista, o movimento Escola Nova, que surgiu inicialmente na Europa e logo conquistou adeptos nos Estados Unidos, no final do século XIX, reuniu educadores que passaram a questionar e a se contrapor aos métodos de ensino tradicionais da época. Ultrapassada a educação escolar que já não tinha tanta eficácia na realidade social exigida naquele novo período e não preparava os alunos para que de fato eles se tornassem cidadãos bem adaptados ao convívio social. Na América o grande propagador desse movimento foi o filósofo e pedagogo estadunidense John Dewey, responsável por influenciar os principais educadores brasileiros da época, como Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira.

Aqui no Brasil o movimento estourou a partir da primeira metade do século XX, em meio aos impactos importantes de transformações econômicas, políticas e sociais. Os chamados escolanovistas defendiam o respeito a diversidade, a individualidade do sujeito e o incentivo a liberdade de pensamento em relação a sociedade brasileira. Para eles a educação escolarizada deveria ser sustentada no indivíduo integrado à democracia, na formação do cidadão atuante.

Monteiro Lobato se identificava com essas ideias, porque ele também acreditava que esse era o caminho para vencer os desafios e tornar o Brasil um país próspero. Afinal no início do século XX os índices de analfabetismo eram estarrecedores, o povo incapaz de formar suas próprias opiniões ou defender suas ideias, cenário que se tornara um grande obstáculo para o desenvolvimento do país. O escritor se entusiasmou em especial, com a obra de Anísio Teixeira, que ele conheceu em 1927, em Nova Iorque. Naquela época, Lobato já era um escritor consagrado e trabalhava como adido comercial brasileiro, enquanto o educador baiano ainda era um jovem intelectual que fazia especialização no Teachers College da Universidade de Columbia e dava os primeiros passos no campo da educação, em defesa do ensino público nacional. Ambos se encantaram com os Estados Unidos e acreditavam que era possível trazer para o Brasil as ideias e diretrizes do progresso estadunidense, com a devida contextualização territorial e cultural. A partir desse primeiro

encontro nasceu uma forte e duradoura amizade entre os dois, e os vínculos afetivos entre eles foram se fortalecendo através dos anos, principalmente pela afinidade de ideias nacionalistas e a preocupação com o desenvolvimento do país, como revelam as inúmeras cartas trocadas entre eles.

Em 1928 Lobato recebeu um livro de Anísio Teixeira, chamado Instrução Pública no Estado da Bahia, publicado pelo escritor baiano naquele mesmo ano. Lobato se entusiasmou com as ideias propostas no livro e recomendou a Teixeira, que enviasse um exemplar do mesmo ao secretário da Presidência da República na época, Alarico Silveira, e outro ao Fernando de Azevedo, diretor de Instrução no Rio de Janeiro. Lobato escreve a Silveira e a Azevedo, recomendando que ambos lessem com atenção o trabalho do educador para conhecer suas ideias, conforme registro encontrado em uma das cartas trocadas entre eles em 1929. Fernando de Azevedo, era um dos principais articuladores do movimento em defesa da renovação educacional no país, nos anos 1920 e 1930, e Anísio Teixeira, um defensor da necessidade de integrar a aprendizagem escolar às experiências sociais em geral. Ele acreditava que só por intermédio dessa experiência, a criança seria capaz de perceber o sentido das coisas, de como o que a criança estava apreendendo teria aplicação prática em sua vida, num processo de “reconstrução imaginativa”, mais do que de repetição ou treino.

Entre Lobato e Anísio, surgiu uma amizade sólida, de respeito mútuo e admiração reciproca que cresceu sem grandes esforços, devido até mesmo pela afinidade de ideias de ambos, a preocupação com o destino da educação brasileira e o desejo de dar um futuro melhor às crianças brasileiras. Essa amizade está evidente nas cartas trocadas entre eles no período de 1928 e 1947, verdadeiros documentos que trazem textos de conteúdo crítico e de escrita cuidadosa. Os amigos, se apoiavam em seus projetos profissionais e quando necessário, também faziam críticas ou davam sugestões, se bem que isso era raro, pois na maioria das vezes prevalecia a admiração que um nutria pelo trabalho do outro. Devido a precariedade de transporte à época, assim como acontecia com os jornais, as cartas não chegavam com a velocidade desejada, mesmo assim, elas permitiam a circulação de informações sobre os mais variados assuntos e ideias que fomentavam a vida dos intelectuais, dentro e fora do país.

A partir do seu encontro com Anísio Teixeira em Nova York, em 1930, Lobato ficou encantado com a ideia de ensinar de forma divertida através de histórias, dando um novo teor pedagógico aos livros, indo de encontro aos ideais escolanovistas e com a nova concepção atualizada da infância. O escritor posicionou a criança no lugar central do processo educacional e ofereceu a ela mais liberdade para expressar os seus interesses e os seus impulsos dentro dos seus próprios livros. Reconheceu que a criança tem certas particularidades e que para despertar nelas o interesse pela leitura, era preciso utilizar recursos relacionados à própria infância, como a ludicidade, a fantasia e a imaginação. Através do universo criado por suas histórias, Lobato conectou a criança, o professor, o ambiente de aprendizado e os conteúdos de ensino à filosofia pedagógica da Nova Escola.

Mesmo antes de conhecer Anísio Teixeira e o movimento Escola Nova, Lobato já era um ferrenho defensor do poder da educação para o progresso do Brasil. Suas ideias, apesar de convergentes, se desenvolveram paralelamente. Enquanto a Escola Nova é um movimento teórico, amplo e profundo, baseado na proposta de mudanças da própria sociedade, a literatura lobatiana percorreu um caminho norteado pelo entusiasmo dessas mudanças, numa percepção própria da genialidade de Monteiro Lobato.

Levando em consideração a criança fora do livro (que lia) e a criança de dentro do livro (seus personagens infantis fictícios), Monteiro Lobato ofereceu aos seus pequenos leitores a representação de como ele as enxergava e como o ensino deveria ser organizado para que a criança realmente aprendesse. Através de sua obra infantil nós podemos compreender claramente a concepção de infância e de educação defendidas pelo escritor, e essa soma pioneira de educação e entretenimento que encontramos em suas histórias é uma característica que o consagrou como ‘o pai da literatura infantil’.

É fácil perceber que o universo lobatiano aborda de um modo todo especial e de fácil compreensão, questões relacionadas aos grandes problemas nacionais, questões culturais, políticas, econômicas, linguísticas, históricas e geográficas, apresentando noções básicas de cultura geral, de temas curriculares das ciências humanas, exatas e naturais. Através do seu imaginário, Monteiro Lobato se tornou uma espécie de guia literário para um novo conceito de infância, como um período ou uma fase de descoberta e de percepção do mundo por parte da criança.

No livro Serões de Dona Benta (1937), por exemplo, o Sítio do Pica-Pau Amarelo é transformado em um laboratório, e os alunos (as crianças), com Dona Benta como professora, fazem experiências descobrindo curiosidades das ciências naturais, como a física, a química e a astronomia. Dona Benta aborda os conteúdos científicos de um modo especial, de fácil entendimento, fazendo a mediação entre quem aprende e o conteúdo a ser compreendido, conteúdo este que são associados ao cotidiano e relacionados ao dia a dia das crianças e ao que elas podem observar. Isso se repete em outras obras do autor, em especial nas publicadas na década de 1930 e na primeira metade dos anos 1940, como Viagem ao céu (1932), Emília no País da Gramática (1934), Aritmética da Emília (1935), História do Mundo para Crianças (1933), Geografia de Dona Benta (1935), O Poço do Visconde (1937), História das Invenções (1935), A reforma da natureza (1941), O espanto das gentes (1941), A chave do tamanho (1942), Dom Quixote das crianças (1936), Histórias de tia Nastácia (1937), O Minotauro (1939), Os doze trabalhos de Hércules (1944) e Memórias da Emília (1936).

Em todas essas obras o escritor constrói situações de aprendizado que exemplificam perfeitamente as práticas idealizadas por Anísio Teixeira e os próprios personagens do Sítio reproduzem na prática toda a curiosidade e o interesse em conhecer, em descobrir e entender, sentimentos que certamente também são despertados nos pequenos leitores de Lobato. Este deve ser o papel da escola e a leitura, mesmo em tempos tão tecnológicos, continua sendo a mais poderosa ferramenta de transformação social. Como já alertava Monteiro Lobato em sua época: “Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê”. E o alerta segue ainda totalmente atual.

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REFERÊNCIAS:

https://www.educabrasil.com.br/escola-nova/ http://ameninacentenaria.bbm.usp.br/index.php/lobato-e-os-educadores/ https://seer.pucgoias.edu.br/index.php/educativa/article/view/6973/4922 https://educador.brasilescola.uol.com.br/gestao-educacional/escola-nova.htm

http://educa.fcc.org.br/pdf/ctp/v17n1/1984-7114-ctp-17-01-00094.pdf

https://abralic.org.br/eventos/cong2011/AnaisOnline/resumos/TC0850-1.pdf

** VIo Colóquio Internacional – Educação e Contemporaneidade – “Memórias Narrativas de um educador sertanejo: A correspondência entre Anísio Teixeira e Monteiro Lobato”, da pesquisadora Luciete de Cássia Souza Lima Bastos

Há 75 anos o Brasil perdia Monteiro Lobato

“..E agora uma notícia que entristece a todos: Acaba de falecer o grande escritor patrício Monteiro Lobato!

Assim, o Repórter Esso, programa noticioso que revolucionou a história do radiojornalismo brasileiro, comunicava à todos, na voz do jornalista Heron Domingues, a morte de José Bento Monteiro Lobato, um dos mais influentes escritores brasileiros do século XX. Autor de mais de 40 obras, considerado o pai da literatura infantil no Brasil, Monteiro Lobato, morreu vítima de um segundo acidente vascular isquêmico, às 4 horas da madrugada, do dia 4 de julho de 1948, aos 66 anos de idade. Ele morreu em casa, em um apartamento temporariamente emprestado por seu amigo e co-fundador da Editora Brasiliense, Caio Prado Jr., na rua Barão de Itapetininga 93,  Centro de São Paulo, onde no térreo funcionava a histórica Livraria Brasiliense. O prédio continua lá, firme como testemunha muda de um pedaço relevante da nossa história. A morte do escritor causou forte comoção nacional, atraindo milhares de pessoas, entre ilustres desconhecidos, autoridades e famosos, ao seu velório na Biblioteca Municipal de São Paulo e ao seu sepultamento no Cemitério da Consolação, na zona sul da capital, demonstrando a importância de Lobato para o Brasil naquela época.

Um homem à frente de seu tempo, Lobato teve múltiplas facetas; foi, além de escritor, jornalista, tradutor, editor, publicitário e empresário, que se notabilizou sobre tudo, por sua luta em defesa dos interesses do Brasil e dos brasileiros nas áreas do petróleo, saneamento básico, saúde, e educação. Na literatura infantil, Monteiro Lobato se popularizou pelo conjunto educativo de sua obra formada por livros como Reinações de Narizinho (1931), Caçadas de Pedrinho (1933) e O Picapau Amarelo (1939), que constitui aproximadamente metade da sua produção literária. A outra metade é composta por contos (geralmente sobre temas brasileiros), artigos, críticas, crônicas, prefácios, cartas, um livro sobre a importância do petróleo e do ferro, e um único romance, O Presidente Negro.

Estamos completando 75 anos sem esse gênio da nossa literatura e para lembrar a sua importância para o nosso país, nós decidimos escrever este artigo, baseado em textos publicados em sua homenagem, na edição 4-5 volume II, de setembro/outubro de 1948 pela Revista Fundamentos, publicação que Lobato havia fundado alguns meses antes pela Editora Brasiliense. Na Revista, Lobato exercia a função de redator-chefe e publicou os folhetos De Quem É o Petróleo na Bahia e Georgismo e Comunismo. A publicação mantinha um “conselho de redação” formado por destacados intelectuais, como Annibal Machado, Aparício Torelli, Artur Ramos, Astrojildo Pereira, Candido Portinari, Clovis Graciano, Edson Carneiro, Galeão Coutinho, Graciliano Ramos, Vilanova Artigas, Leo Ribeiro Moraes, Mario Schemberg, Moacir Werneck de Castro, Oscar Niemeyer, Samuel Barnsley Pessoa e Sérgio Buarque de Holanda. No mês seguinte à sua morte, quem assumiu a chefia de redação foi Afonso Schmidt, e tinha como seus colaboradores mais próximos Ruy Barbosa Cardoso, José Eduardo Fernandes, Caio Prado Junior e Artur Neves. A Revista Fundamentos encerrou suas atividades em dezembro de 1955, depois de 40 edições.

UM JEITO ÚNICO DE ESCREVER QUE CONQUISTOU O BRASIL

Monteiro Lobato trabalhou pelo abrasileiramento da nossa língua e da nossa arte, escrevendo sobre os processos rotineiros do trabalho nos sítios, nas fazendas, os personagens do nosso folclore, as brincadeiras das crianças do interior, nossa fauna e flora, além de matérias até então pouco literárias como por exemplo o fisco e o imposto territorial. Foi através do caboclo doente, miserável e abandonado, que ele foi levado a estudar a situação econômica do povo brasileiro e como consequência desta preocupação, passou para a política. Iniciou a campanha pelo voto secreto no Brasil, com o objetivo de revigorar a política, estimulando a renovação dos quadros políticos nas Câmaras. Do voto secreto passou para a defesa do nosso subsolo e da nossa independência energética, tema que muitos brasileiros sequer tinham percebido sua importância até que publicou os livros Escândalo do petróleo e ferro e O Poço do Visconde.

Como escritor, a partir dos artigos Velha Praga e Urupês, Lobato passa de figura conhecida localmente para conhecida nacionalmente e realiza uma transição estilística em seu modo de escrever, inaugurando um novo momento na literatura brasileira, onde o romantismo habitual, da época, é substituído por textos mais realistas e contestadores de assuntos nacionais. Sua obra passa a ser, em todos os setores, uma obra de denúncia implacável e sistemática contra a desonestidade política, o estado de abandono e a pobreza da população do interior do país, a sabotagem das nossas riquezas em favor do imperialismo e o próprio governo do Brasil como um todo.

Se não conseguiu provocar uma grande revolução social através de seus livros, os fatos mostram que Lobato foi o grande responsável pela maior revolução editorial e literária vivida pelo pelo Brasil ao longo de sua história.

O EDITOR QUE REVOLUCIONOU O MERCADO DE LIVROS NO BRASIL

Lobato surgiu como escritor de sucesso num tempo em que não era fácil viver de livros no Brasil, porque haviam apenas duas ou três grandes editoras por aqui, que se dedicavam quase que exclusivamente a publicações didáticas. Além disso, o livro era considerado um artigo de luxo, por ser caro e difícil de ser encontrado. As poucas publicações que haviam, eram voltadas para a sociedade aristocrática, que possuía estudo, deixando de lado a grande maioria dos brasileiros, formada por analfabetos ou por pessoas de baixíssima escolaridade. Esse era claramente um dos grande obstáculo a ser enfrentado no desafio de aumentar o número de leitores, para assim destravar o mercado editorial.

Para se ter uma ideia, os maiores livros da nossa literatura não conseguiam garantir aos seus autores, o suficiente para que conseguissem sobreviver, mal dando para pagar as despesas de impressão de suas obras. Definitivamente, ser escritor não era de forma alguma um bom negócio. As edições eram pequenas,  processo de distribuição de livros era incipiente, e quando um livro conseguia vender toda uma edição, era raro o caso em que conseguia editar uma segunda edição. O pensamento na época era: “para que reimprimir mais se quem desejava (e sabia) ler, já tinha lido?

Foi assim que Monteiro Lobato teve que, além de escrever, se tornar editor. Nessa função ele democratizou o papel impresso no Brasil, espalhando livros por cerca de 8 milhões de quilômetros quadrados do território nacional, mesmo em um país que não sabia ler!

A partir da compra da Revista do Brasil, em 1918, Lobato dá início a uma série de inovações no mercado editorial nacional. Ele desenvolve uma seção editorial que revolucionou a produção de livros no Brasil, passando a editar autores novos e consagrados. Um inegável ativista da ideia de “dar livros ao Brasil”, Lobato foi levado por sua veia empreendedora, a transformar a Revista do Brasil, que na época reunia os principais escritores paulistas, em um núcleo inicial para uma grande editora, mudando definitivamente o negócio de livros no país. Ele se associou a Octalles Marcondes Ferreira, um jovem de apenas 18 anos de idade à época, para fundar a sua primeira editora, a Monteiro Lobato & Cia., um sucesso absoluto que logo foi transformada em uma sociedade anônima, com oficinas enormes. Lobato introduziu em São Paulo os primeiros monotipos, publicou centenas de obras e expandiu a venda de livros para mais de 1.200 localidades no Brasil. O número de publicações e de vendagem superou as expectativas do próprio Lobato, que para enfrentar o problema da escassez de livrarias, criou uma rede própria de distribuição, expandindo, apesar de toda a precariedade do transporte na época, os locais de venda de livros para todo o país, através de pontos de vendas por consignação.

O PAI DA LITERATURA INFANTIL NO BRASIL

Não podemos deixar de ressaltar também, a importância de Monteiro Lobato na literatura infantil, afinal antes dele, os livros voltados para esse público, praticamente não existiam, eram muito caros, escritos, na maioria das vezes, em Português de Portugal e praticamente sem ilustrações, nem mesmo em preto e branco. Em outra atitude pioneira, Lobato revolucionou o modo de escrever para crianças, se utilizando o nosso Português, e simplificando os termos, pode se dizer que utilizou uma linguagem muito mais acessível, em publicações repletas de figuras, ilustrações coloridas e muita fantasia. Mexendo no imaginário infantil, Lobato conseguiu falar aos mais jovens, sobre assuntos tão complexos e antes interessantes apenas aos adultos, como petróleo, ferro, saneamento básico, verminoses e novos processos de trabalho agrícola, por exemplo. As histórias de Monteiro Lobato ensinam sobre história, física, geografia, matemática e tantos outros temas chatos para quem queria apenas brincar e se divertir. Ele entendeu que o ato de educar, de despertar o interesse pela leitura, estava justamente aí: em saber como se conectar com a criança através do modo e através do mundo dela. Estava criado um novo método educacional no Brasil.

TRADUÇÕES QUE CONECTARAM O LEITOR BRASILEIRO COM O MUNDO

Lobato não apenas se destacou escrevendo livros para crianças e adultos, mas também teve um papel relevante na tradução de obras estrangeiras, que foram essenciais para a formação do leitor brasileiro. Responsável por lançar vários autores estrangeiros aqui no Brasil, suas traduções foram da História da Filosofia, de Will Durand, e Memórias, de André Maurois, a Minha vida e minha obra, de Henry Ford, e Por quem os sinos dobram, de Ernest Hemingway passando por O Homem Invisível  de H.G.Wells e 1984 de George Orwell. Crepúsculo dos Ídolos e Anticristo, de Friedrich Nietzche, ainda em 1906, Robinson Crusoé, Mowgli, o menino lobo; Aventuras de Tom Sawyer; Pollyana; Moby Dick; Tarzan e Homem Invisível, são alguns títulos que ilustram a importância dessa atividade de tradução e adaptação feitas por Lobato, por o desenvolvimento literário do nosso país. É importante ressaltar, que Lobato não apenas fazia as traduções para a língua portuguesa, como também se preocupava e deixar os textos mais claros e fáceis de ler, num processo chamado de ordenação literária.

LOBATO DO BRASIL, PELO BRASIL E PARA OS BRASILEIROS

De acordo com o historiador e sociólogo Caio Prado Júnior, o escritor foi tocado pelo espetáculo da grandeza estadunidense que ele presenciou no tempo que passou nos Estados Unidos, onde trabalhou como adido comercial do governo brasileiro de Washington Luis. Lobato passou então a sonhar em ver o nosso país seguindo pelo mesmo caminho. Para realizar esse sonho, ele então não só passou a estudar o Brasil, como também passou a propor medidas para promover o desenvolvimento nacional, se tornando uma espécie de ‘capitão de indústria’. O escritor consultou técnicos, convocou engenheiros, reuniu capitais e se lançou em um dos seus mais audaciosos projetos: descobrir petróleo no território brasileiro. Lobato não se limitou em somente idealizar o assunto, foi além da teoria, arregaçou literalmente as mangas e agiu com o objetivo de ajudar a melhorar a vida dos brasileiros, tentando transformar seu sonho do petróleo em um grande negócio.

A longa história de sua luta pelo petróleo nacional está contada em seu livro O Escândalo do Petróleo, a mais terrível acusação até hoje escrita contra o imperialismo e seus agentes incrustados no governo federal da época. Nessa publicação, ele denunciou com provas documentais, o monopólio das nossas terras petrolíferas e o vasto plano para entregar o nosso petróleo à exploração de empresas estrangeiras. Com sua inteligência e combatividade, ele conseguiu transformar a luta em defesa de um empreendimento capitalista, num movimento de extensão nacional, que desempenhou no seu tempo, juntamente com a campanha da Aliança Nacional Libertadora, liderada por Luiz Carlos Prestes, uma indiscutível função educativa e politizadora junto às mais amplas camadas da nossa sociedade. Podemos dizer que foi através dos comícios da A.N.L., dos panfletos e da pregação de Lobato em defesa do petróleo nacional que o povo brasileiro passou a conhecer e entender os problemas básicos da nossa economia, bem como a necessidade de se manter uma posição de luta firme e corajosa contra as ameaças imperialistas.

Foram dez anos de sua vida dedicados à campanha de nacionalização do petróleo brasileiro. Mesmo doente, costumava atravessar noites escrevendo cartas, artigos e prospectos de divulgação e propaganda, além de viajar por todo o Brasil, em incansáveis encontros para divulgar suas ideias sobre o assunto e defender a nossa libertação econômica. Lobato sacrificou saúde, dinheiro e sua família durante o que ele mesmo chamou de sua “febre petrolífera”, que ao invés de leva-lo ao delírio, deu a ele a lucidez necessária para compreender as linhas mestras da revolução agrária e anti-imperialista do Brasil daquela época. Seu entusiasmo pelo petróleo era tão grande que ele chegou a estudar e aprender toda a técnica da extração do ouro negro, para assim poder acompanhar os trabalhos junto aos poços que suas companhias perfuravam.

Antes de iniciar a sua jornada em defesa do petróleo brasileiro, Lobato se tornou um dos maiores defensores do processo Smith, da redução do oxido de ferro em baixa temperatura. Esse método siderúrgico criado pelo engenheiro William H. Smith e patenteada, em 1928, pela General Reduction Corporation, em tese, reduziria o minério de ferro a ferro esponja, por meio de reações químicas, em forno vertical com temperatura inferior ao ponto de fusão do metal. Após essa redução, o ferro é magneticamente separado de outros materiais e, por fim, briquetado. O ferro esponja é considerado uma alternativa ao ferro gusa e ambos podem ser utilizados na produção de aço, no entanto, apesar de ainda hoje, muitos especialistas considerarem o uso do segundo mais vantajoso. O livro “Ferro”, de 1931, onde Monteiro Lobato reúne seus artigos publicados no jornal O Estado de São Paulo sobre este assunto foi considerado pelos técnicos como uma valiosa contribuição ao estudo do problema siderúrgico no Brasil, servindo de incentivo à formação de diversas empresas que até hoje empregam o processo preconizado pelo escritor.

A PUBLICIDADE ANTES E DEPOIS DE LOBATO

Além de um incansável propagador de ideias no sentido geral, a serviço dos homens, no campo da cultura, na defesa da terra e na independência econômica do país, Monteiro Lobato deu uma importante colaboração ao mercado de publicidade e propaganda. No âmbito comercial ele foi um técnico em anúncios e o seu primeiro grande trabalho foi com a adaptação do Jeca Tatuzinho como garoto propaganda de dois preparados farmacêuticos: o Biotônico e a Anquilostomina Fontoura. Os textos produzidos para o Jeca Tatuzinho e posteriormente para o Zé Brasil, um panfleto que entrou na história da literatura brasileira como a maior campanha publicitária do Brasil. Lobato se revelou um exímio copywriter, redigindo e revisando vários textos de toda a linha Fontoura durante vários anos. Na verdade o escritor sempre demonstrou essa sua faceta publicitária, contribuindo com ideias pioneiras na direção da Revista do Brasil, fundada por ele, e mais tarde na União Jornalística Brasileira, uma empresa que redigia e distribuía notícias para vários jornais, comprada por Lobato em 1937, para fazer a propaganda comercial da sua companhia de petróleo. Lobato não foi apenas um técnico em propaganda, mas também redigiu e revisou textos, garoto propaganda de diversos produtos e foi até dono de agência de publicidade e inegavelmente um pioneiro inovador da publicidade no Brasil. Na opinião do publicitário Pedro Neme, um dos colaboradores da Revista Fundamentos,  somente depois de Monteiro Lobato é que a propaganda começou a se desenvolver no nosso país.

NÃO QUIS SER MINISTRO E QUASE VIROU DEPUTADO FEDERAL

Monteiro Lobato sempre teve uma veia política latente, claramente exposta em seus textos questionadores, críticos e reflexivos sobre temas como saúde, educação e desenvolvimento econômico. Foi nomeado adido comercial do Brasil nos Estados Unidos pelo presidente da República, Washington Luís,  que foi deposto por um golpe militar em 1930. O comandante das forças político-militares, Getúlio Vargas, assumiu então a presidência do país. Nacionalista convicto, Lobato e Getúlio entraram em rota de colisão quanto a relação dos interesses energéticos do Brasil da época. Vargas ainda tentou seduzir o escritor, fazendo um convite para que ele assumisse a direção do Ministério da Propaganda em seu governo, prontamente recusado por Lobato.

Quando Vargas chegou ao poder, Monteiro Lobato já era famoso pela produção literária e pela luta para provar que o Brasil era rico em petróleo. Preso por discordar da política energética e afrontar o regime ditatorial de Vargas, Lobato ficou preso na Casa de Detenção de São Paulo, onde conheceu o sargento do Exército, José Maria Crispim, preso por ser simpatizante do Partido Comunista Brasileiro, com quem dividiu uma pequena cela. Foi nesse período que ele conheceu as ideias do PCB e se interessou ainda mais pelos assuntos que giravam sempre em torno do petróleo, da siderurgia, da reforma agrária e da democracia. Lobato lamentou não ter conhecido Crispim antes, porque já se considerava velho, doente e cansado, para assumir uma militância mais ativa.

Mesmo assim, quando deixou a prisão, se manteve próximo a Julio Prestes e membros do PCB. Em 1945 foi convidado por Prestes, que esteve em sua casa, acompanhado do poeta chileno Pablo Neruda, para ser candidato a deputado federal. O escritor aceitou o convite de imediato, mas desistiu depois, por discordar do apoio que o PCB havia dado ao governo Vargas. A explicação para esse apoio do partido a Getúlio, foi justificada pelo próprio Luís Carlos Prestes, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 1986, que via os nazistas como o grande inimigo a ser combatido naquele momento, apesar de Vargas ter sido o responsável pela deportação da ativista política Olga Benário, companheira de Prestes à época, que foi presa e morta na Alemanha.

Havia também um drama de consciência. Lobato não aceitava o carimbo de ‘comunista’, porque apesar da sua simpatia por algumas ideias defendidos pelo PCB, o escritor há anos se mantinha um admirador confesso das ideias do economista estadunidense Henry George, tendo publicado inclusive o panfleto Georgismo e Comunismo. Junte-se a isso, o fato do escritor ter sido uma pessoa de senso ético e independência de pensamento acima do normal, esses fatores sempre tornaram impossível à Lobato juntar-se a qualquer governo ou filosofia politica.

Seja como empreendedor, realizador, escritor ou pensador, Monteiro Lobato será sempre merecedor de todas as homenagens e dos inúmeros estudos sobre sua vida e sua obra. A genialidade de Lobato transcendeu a criação de personagens imaginários, trouxe à luz o verdadeiro Brasil que margeava o imaginário fantástico e envolvente do escritor. Convivendo entre o real e a fantasia, Monteiro Lobato foi em sua essência um dos mais combativos patriotas do nosso país e sem dúvida a sua morte, uma perda imensurável para a nossa própria história. Mas a sua memória continua viva, provocativa, reflexiva e inquieta, como ele próprio foi ao longo se sua existência.

Para finalizar este artigo, fazemos um agradecimento especial ao jornalista Silvio Lefevre, filho de Antonio B. Lefevre. médico que atendeu Lobato no dia de sua morte, por nos ter disponiblizado esse material, que a partir de agora estará a disposição de todos, aqui no nosso site.

Revista Fundamentos, edição 4-5 volume II, de setembro/outubro de 1948, edição em homenagem ao seu fundador, Monteiro Lobato.

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REFERÊNCIAS:

http://memoria.bn.br/pdf/102725/per102725_1948_00004-00005.pdf

https://vermelho.org.br/prosa-poesia-arte/osvaldo-bertolino-monteiro-lobato-e-o-partido-comunista-do-brasil/

https://monteirolobato.com/obras-de-lobato/traducoes-e-adaptacoes/#:~:text=Al%C3%A9m%20de%20escrever%20livros%20para,se%20editava%20no%20plano%20internacional.

Lobato apaixonado

Além de toda sua genialidade como escritor, do espírito combativo na defesa de suas ideias e do olhar futurista, Monteiro Lobato também foi um homem apaixonado, que encontrou o amor, conviveu com seus medos, incertezas e inseguranças, em uma época onde o romantismo era a base de qualquer relacionamento entre casais.

Sim, Lobato também amou e amou muito, por toda a sua vida!

Apesar dos relatos documentados em correspondências trocadas a partir do seu encontro com Purezinha, aquela que viria ser o grande amor de sua vida, esposa e mãe de seus filhos, não encontramos provas documentais sobre a vida íntima do escritor antes desse acontecimento, para saber por exemplo, se Lobato foi muito namorador durante a adolescência e juventude. O que encontramos foram algumas pinceladas que indicam que ele teve sim algumas paqueras passageiras em Taubaté e em Campos do Jordão. Mas nada que se compare ao relacionamento com a jovem Purezinha, esse sim com fartos relatos documentados nas cartas trocadas entre eles, no período de 1906 a 1908, cuidadosamente colecionadas por ela.

Eles se conheceram por acaso, na casa do advogado e professor Antonio Quirino Souza, ou Dr. Quirino, avô de Purezinha, onde Lobato ia habitualmente para jogar xadrez. Dr. Quirino, inclusive, havia sido professor do escritor no Colégio São João Evangelista, naquela cidade, em 1883, quando Lobato tinha 11 anos de idade.

Purezinha, modo carinhoso como era tratada por familiares, amigos e ela própria costumava assinar, na verdade se chamava Maria da Pureza Gouvea Natividade e era prima distante de Lobato. O parentesco distante entre eles, está confirmado no caderno de anotações de Purezinha, em uma genealogia da família registrada por ela. Os dois têm tataravôs em comum: o Sargento Mór Manuel de Moura Fialho e Anna Marcondes de Oliveira, casados em 1827.

Na época em que se conheceram ela era professora no Colégio de Miss Stafford, na cidade de São Paulo e costumava passar as férias na casa do avô, em Taubaté. Ela era uma mulher muito bonita de acordo com os critérios de beleza da época, “branca como pétala de magnólia”, e que “costumava ser cortejada pelos rapazes da cidade”, conforme descreveu o próprio escritor na correspondência com seu amigo Godofredo Rangel, de março de 1906. A partir desse encontro, na casa do Dr. Quirino, Lobato passou a cortejá-la assiduamente. Inspirado por essa paixão arrebatadora, escreveu versos românticos, alguns dos quais publicados no jornal O Minarete. Entretanto, haviam algumas diferenças entre o jovem casal, como o fato de Monteiro Lobato ser neto do Visconde de Tremembé, um fazendeiro aristocrata, proprietário de diversas fazendas, e a família de Purezinha ser mais liberal e ter entre seus membros um dos principais abolicionistas do país, Antonio Bento, seu tio. A princípio, o próprio avô do escritor foi contra esse relacionamento, porque a família de Purezinha era vista como progressista em suas ideias, enquanto a sua, era mais conservadora. Apesar das diferenças e mesmo contra a vontade do Visconde, Lobato e Purezinha continuaram a se relacionar, até que no dia 12 de março de 1906, ele a pede em noivado e recebe o sim três dias depois.

Como Purezinha mantinha o trabalho de professora na capital paulista, antes do casamento, eles tiveram que se relacionar através de cartas e essa correspondência está reunida no livro “Cartas de Amor”, publicado em 1969, que reúne as cartas escritas à noiva entre 1906 a 1908. Lobato estava perdidamente apaixonado. E esse Lobato apaixonado era inseguro, reclamava de tudo! Reclamava por ela não lhe escrever diariamente, por escrever cartas curtas, se queixava por ela não ser efusiva em expressar seu sentimento de amor nas cartas e por aí vai. Esse comportamento apenas retrata uma época marcada pelo romantismo. Em uma dessas cartas, escrita dias após o noivado, o escritor reclama da demora da noiva em responder suas cartas:

Esperei hoje a resposta da minha de sábado, mas o carteiro chegou de mãos vazias, enchendo-me de tristeza. Vi que de tua parte nenhuma pressa existe em proporcionar-me momentos felizes que serão os em que te ler. Paciência! Esperemo-la para amanhã.” (Carta de 24 set. 1906)

No dia seguinte Lobato escreve uma outra carta, onde mais uma vez reclama da demora da noiva em responder, demonstrando sua irritação, insegurança e até mesmo imaturidade em lidar com a situação, típicas de um jovem perdidamente apaixonado:

“Ainda hoje o carteiro não me trouxe coisa nenhuma. É, pois, certo que não queres corresponder comigo. Paciência! Seja feita a tua vontade. Nunca mais incomodar-te-ei com minhas cartas. Está ficará sendo a última. […]

P.S. Deseja a devolução dos cartões que possuo em meu poder?”

Impaciente com a demora nas respostas às suas cartas, nesse mesmo dia o escritor também envia um cartão-postal escrito em código, endereçado a Purezinha e à sua irmã Noêmia, perguntando se alguém estaria zangado com ele.

Infelizmente não foi localizada a carta onde a noiva responde ao impaciente noivo, no dia 28 de setembro, conforme menciona este trecho de uma outra carta escrita por Lobato em 30 de setembro de 1906:

Meu amorzinho.

Encheu-me de remorso a tua de 28, mas um consolo resta e é que se te causei alguma tristeza, foi-lhe causa o muito, o grande amor que te tenho. Não pude suportar a ideia de que demorasses tanto em responder à minha primeira carta de noivo. // Entrei a arquitetar mil suposições e, cheio de dor e tristeza, deixei escapar palavras que te magoaram. Mas espero da bondade de teu coração que já nenhum ressentimento exista nele contra mim. Amar é perdoar, sempre e constantemente – se é que me amas, perdoado estou de há muito tempo. Se eu te tivesse amor menos intenso, é claro que aquela demora nenhuma dor me causaria; mas não sendo assim, é mais uma prova te dei do que vivo a afirmar.

Nessa mesma correspondência, Lobato se desculpa com Purezinha, reconhecendo a sua insegurança no relacionamento, mas também reclama do “excesso de cerimônia” usado por ela ao escrever ao noivo:

“[…] Não tens nada dentro de ti, Purezinha? Não tem uma coisa a que chamam alma e donde saem as palavras, as ideias, os pensamentos e os assuntos? És tão parcimoniosa no escrever … dizes com tanta cerimônia as coisas… Por que não me escreves atabalhoadamente, borrando, riscando o papel, sem ordem, sem estilo, sem correção, sem nada desses estorvos gramaticais? Só assim se pode bem exprimir um sentimento. […]

Naquele ano de 1906, completamente apaixonado, Lobato pede a mão de Purezinha em casamento, o que só não se concretizou porque ambos ponderaram que naquele momento ele era apenas um Bacharel em Direito, sem um emprego que lhe desse condições de sustentar a própria família. A noiva, por outro lado, já era professora desde 1901, quando se formara na escola complementar. Ele então pede ajuda ao avô, que um ano depois consegue a nomeação de Lobato como promotor público na comarca de Areias, dando assim condições ao neto de se preparar para o casório.

Quase dois anos de noivado se passaram e apesar de todo romantismo estampado nas inúmeras cartas trocadas entre eles, criou-se um certo incômodo por parte da noiva em relação ao futuro daquele relacionamento. Sim, a insegurança não era apenas de Lobato, mas também da jovem noiva, conforme ele próprio relata em carta escrita ao pai de Purezinha, datada de 26 de janeiro de 1908. Ele e a noiva já tinham conversado sobre o assunto e ela tinha reclamado do sentimento de incerteza em relação ao compromisso entre eles, afinal agora ambos trabalhavam e não havia motivo para que o casamento não tivesse ainda acontecido. Percebendo essa insegurança, Lobato então decide apressar a data do casamento, que acaba acontecendo, enfim, no dia 28 de março de 1908, na cidade de São Paulo. Lobato tinha 26 anos, Purezinha 23.

Tinham dúvida se passariam a lua de mel em Taubaté, no Rio de Janeiro ou na cidade de Santos. Por fim, decidiram pelo litoral paulista, onde ficaram na praia do José Menino. Em uma carta para o velho amigo Godofredo Rangel, publicada no livro A Barca de Gleyre, Lobato narra a sua aventura e desventura nas areias da praia de Santos:

“…os dias anteriores ao casamento passei-os aqui em S.Paulo, atrapalhado com as mil coisas concernentes. Depois de casado fui luademelar à beira do oceano, em Santos, Zé Menino. Mas lá, um belo dia, às 3 da tarde, quando tomávamos banho e brincávamos nas ondas como dois peixes nupciais, eis que pisamos num molusco venenosíssimo. Senti aquela moleza. Logo depois sobreveio um queimor na pele da sola, e veio uma comichão continua e por fim rebentou a infecção – purulenta e dolorosa. E isso em nossos quatro pés – os dois meus e os dois de Purezinha.”

Nessa mesma carta, o escritor conta ao amigo que ao retornarem da lua de mel ele e Purezinha tiveram que ficar um mês de cama “com os pés em posição horizontal, incapazes de um passo, os dois a gemerem e maldizerem o mar com todos os seus moluscos”. Após o período de recuperação, o casal retorna à cidade de Areias, onde Lobato reassume o posto de promotor e passa a morar com a esposa em um sobrado próximo à Matriz Sant’Ana.

Lobato e Purezinha tiveram 4 filhos: Martha, Edgar, Guilherme e Ruth. Purezinha deixou de lecionar para se tornar uma mãe e esposa dedicada em cuidar da casa, da educação dos filhos e ajudar Lobato a concretizar seus sonhos.

Por conta da inquietude de Lobato, eles viviam se mudando. De Areias eles foram para a fazenda São José do Buquira, herdada após a morte do Visconde e 1911 e depois de vender a fazenda se mudaram para São Paulo em 1917.  Ela tinha por hábito ler histórias para os filhos e foi justamente observando essas experiências de leitura, que Monteiro Lobato se motivou para escrever um mundo de livros para meninos e meninas.

Lobato sempre exaltava a presença de sua Purezinha como uma mulher inteligente, que lia seus textos, o ajudava em suas traduções e palpitava sobre o que ele escrevia, uma invejável companheira que cuidava do bem da família enquanto ele se dedicava em tocar seus projetos profissionais. Ele escreveu, por exemplo, que a opinião de Purezinha era a única na qual ele confiava. Durante sua vida, ela foi sua companheira integral, que “sofria” com a energia criatividade constante do escritor. Uma mulher forte, que sofreu com a morte dos filhos Guilherme e Edgard, mas precisou se manter firme como o pilar mestre da família constituída ao lado de Lobato.

A história de amor de Monteiro Lobato e Purezinha, foi sendo escrita aos poucos, ao longo dos quarenta anos de casamento (1908 – 1948). Ela foi sua companheira de todas as horas, para todos os lugares, sempre apoiando e participando de todos os projetos do escritor. História que chegou ao fim no dia 4 de julho de 1948, quando aos 66 anos, Lobato morreu enquanto dormia em decorrência de um espasmo cerebral.

Purezinha permaneceu no seu luto, cuidando do legado do escritor, até falecer, aos 73 anos de idade, vítima de câncer no cérebro, no dia 27 de abril de 1959. Ela foi enterrada ao lado do marido no Cemitério da Consolação em São Paulo.

O fim dessa história talvez não tenha a mesma magia e encantamento daquelas que Lobato escreveu ao longo de sua vida, mas certamente foi a que mais o desafiou e extraiu dele o seu melhor.

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REFERÊNCIAS:

#Livro: “Furacão na Butocúndia”

https://almanaqueurupes.com.br/index.php/2013/04/18/o-centenario-da-passagem-de-monteiro-lobato-por-areias/

https://www.researchgate.net/publication/279437516_Arqueologia_de_um_discurso_amoroso_as_cartas_de_amor_de_Monteiro_Lobato

https://docplayer.com.br/12438922-Monteiro-lobato-vida-obra-2.html

http://memoriasantista.com.br/?p=1023

A influência da mitologia grega na obra de Monteiro Lobato

Se você é leitor da obra de Monteiro Lobato, certamente já leu alguns de seus livros onde havia uma quantidade expressiva de referências à Grécia Antiga como em O Pica-Pau Amarelo, ou até aventuras inteiras que se passam na Grécia, como O Minotauro, Os Doze Trabalhos de Hércules e História do Mundo para Crianças. Mas de onde vem essa admiração pela cultura Helênica nas obras de Lobato? O que o escritor leu e de que maneira essas leituras influenciaram suas obras? Porque Lobato colocou tantas vezes em seus livros essa conexão do universo lobatiano com a mitologia Grega?

A correspondência entre Lobato e seu amigo e também escritor Godofredo Rangel, ao longo de quarenta anos, reunida no livro intitulado A Barca de Gleyre (Companhia Editora Nacional,1944), nos revela que Lobato lia traduções de autores como Homero, Horácio, Hesíodo, Aristófanes, Ésquilo, Eurípides, Platão, Aristóteles e Heródoto e que o autor expressava grande admiração não apenas pela literatura, mas também pela cultura grega em especial. Através de suas histórias, ele expressou sua admiração sobre os antigos gregos, baseadas na ideologia do chamado “Milagre Grego”, que enxergava as grandes realizações da Grécia Antiga como um evento espontâneo, inédito e único, resultado de um povo especial; tese, esta, prevalente nos meios acadêmicos e letrados do final do século XIX até meados do século XX, mas que hoje foi desbancada pela historiografia. Lobato leu e foi influenciado por autores onde essa concepção pode ser encontrada, como as obras do poeta e intelectual francês Leconte de Lisle; do escritor, filósofo, teólogo, filólogo e historiador francês Ernest Renan; do escritor francês Anatole France; além de alguns livros do filósofo, historiador e escritor estadunidense William James Durant, que Lobato inclusive, revisou a tradução e publicou pela Companhia Editora Nacional, da qual era proprietário na época.

Lobato também era seguidor do pensamento positivista – corrente teórica criada pelo filósofo francês Auguste Comte que defendia a ideia de que o conhecimento científico seria a única forma de conhecimento verdadeiro e que tem a Matemática, a Física, a Astronomia, a Química, a Biologia e também a Sociologia como modelos científicos de conhecimento e progresso. Essa visão positivista da importância da ciência e da educação influenciou Lobato e ia de encontro ao seu desejo de transformar o Brasil em país próspero, com um povo letrado. Ele acreditava no poder de transformação do ser humano pela leitura e pela educação e simultaneamente idealista e realista, enxergou no mercado literário, um grande potencial para a transformação positiva do nosso país. Afinal “um país se constrói com homens e livros”.

A primeira menção de Lobato sobre a Grécia Antiga, pode ser encontrada no livro História do Mundo para as Crianças, de 1933, uma adaptação da Child’s History of the World, de V. M. Hillyer, que marcou a primeira tentativa de Lobato na publicação de livros paradidáticos, com o objetivo de tornar os conteúdos escolares mais agradáveis e divertidos. Neste livro Dona Benta conta de maneira cronológica desde o surgimento do sistema solar (um espirro), do nosso planeta e da vida na Terra, a evolução do homem, a Idade da Pedra, as primeiras civilizações e assim por diante, passando pelos Grécia Antiga, Tróia, os Romanos até chegar aos últimos dias da Segunda Guerra Mundial. Esse é um dos livros infantis mais longos de Lobato e também um dos mais perseguidos pelo Estado Novo de Getúlio Vargas e pela Igreja Católica, sendo denunciado pelo Padre Sales Brasil, na época, como “comunismo para crianças”.

Poucos anos depois, em 1939, no livro O Pica-Pau Amarelo, os personagens do “Mundo da Fábula”, entediados com a monótona rotina dos antigos livros onde viviam, decidem se mudar para o sítio de Dona Benta, um lugar incrível, na esperança de terem maior liberdade para viverem novas histórias e aventuras. Lobato mistura, neste livro, personagens da nossa mitologia com os personagens do sítio e os da mitologia grega novamente. Vemos personagens como a Medusa, o valente Perseu, o Rei Midas, os centauros, os faunos, as sereias, as ninfas (figuras mitológicas, que representam elementos da natureza e são responsáveis por levar alegria e felicidade às pessoas), as náiades (espécie de ninfas das águas doces, que habitam rios e lagos), além do herói Belerofonte, Pégaso (filho da Medusa com Poseidon), a Quimera (figura mística caracterizada por uma aparência híbrida de dois ou mais animais, que tem a capacidade de lançar fogo pelas narinas), entre outros personagens participando das aventuras no sitio.  A convivência entre personagens de origens tão diferentes acaba criando conflitos e situações inusitadas e durante a narrativa, acontece um acidente com o rompimento da barragem que sustentava o mar da história de Peter Pan, matando o marido de Branca de Neve. Para contornar a situação, a turminha do Sítio articula um novo casamento para Branca de Neve com o Príncipe Codadad, das Mil e uma noites.  A fim de fazer com que os dois se apaixonem, Emília faz uso de algumas flechas do Cupido. Tudo parece caminhar para um final feliz, até que durante a festa de casamento, onde os mitos gregos são a maioria dos convidados, acontece uma invasão de monstros, identificados apenas como “monstros fabulosos”, de origem grega, Tia Nastácia acaba raptada pelo Minotauro! Essa é a primeira obra de Monteiro Lobato, onde se nota a forte presença de mitos gregos, dentro da própria história, antecipando os temas das próximas aventuras, já que o seu desfecho fornece o gancho e o pretexto para as viagens do grupo do Sítio à Grécia Antiga que viriam a seguir.

Em O Minotauro, publicado no mesmo ano de 1939, temos a continuação da aventura iniciada em O Picapau Amarelo, onde Tia Nastácia desaparece durante o casamento da Branca de Neve. Agora, Dona Benta, Pedrinho, Emília, Narizinho e Visconde vão procurar Tia Nastácia na Grécia Antiga. O texto, quase todo em formato de diálogo, tem Dona Benta trazendo informações sobre a história da Grécia e as crianças interagindo com o que a avó conta, acrescentando outras informações e comparando a realidade do passado com a realidade de 1930, época que o livro foi escrito. A caminho da Grécia, os personagens discutem a influência Helênica na nossa língua, dão exemplos de retórica e falam da influência grega em nossa arquitetura. Quando chegam na Grécia, eles discutem as roupas, comparando com o que se vestia no final da década de 1930, além de traçar outros paralelos ligados à arte e a cultura das duas épocas. Dona Benta, como uma esfuziante viajante do tempo, comete o erro de revelar a Péricles (célebre governante de Atenas) e a Fídias (um dos principais escultores gregos), sobre o futuro. Pedrinho, Emília e Narizinho não ficam atrás, contam a Fídias sobre cinema, cigarros, carros e a fórmula da água, deixando-o atordoado, sem entender absolutamente nada. Por sorte, saber sobre o futuro, nessa história, não gera consequências porque este não era o propósito, mas certamente pensar sobre esse impacto seria algo curioso para muitos de nós hoje em dia. Voltando à história, Dona Benta e Narizinho decidem ficar na Grécia governada por Péricles, onde participam de um jantar em seu palácio e conhecem várias celebridades históricas, entre elas o filósofo ateniense, Sócrates. Já Emília, Pedrinho e Visconde vão em busca de Tia Nastácia, chegando então na Idade Heróica da Grécia, repleta de mitologia, a partir do capítulo 10. Os personagens de Lobato vão ao Olimpo em busca de Hercules e depois de presenciarem alguns de seus feitos, se deparam com várias figuras mitológicas, até encontrarem Tia Nastácia no labirinto do Minotauro. Para evitar um spoiler para quem ainda não leu este livro, fica aqui um convite para que leiam, a fim de saber por exemplo, como Tia Nastácia é salva e como os personagens de Lobato saem do labirinto, e voltam para casa.

 Em Os Doze Trabalhos de Hércules, de 1944, Monteiro Lobato faz um novo e fascinante mergulho na mitologia grega sob o olhar brasileiríssimo da turminha do Sítio do Pica-Pau Amarelo, resultando em um dos clássicos da literatura infantojuvenil brasileira, que há quase oitenta anos segue encantando gerações de crianças. Nessa história, Pedrinho, Emília e o Visconde de Sabugosa recorrem ao pó de pirlimpimpim para recuar mais de 2 mil anos no tempo, a fim de ajudar Hércules na primeira de suas doze missões impossíveis. Uma a uma, as tarefas do semideus vão sendo cumpridas graças ao apoio intelectual dos personagens lobatianos, uma vez que o herói grego tem força e valentia, mas carece de certa esperteza. Além de ajudar o herói a superar todos os desafios, os personagens do Sítio fazem um passeio pelos principais e mais belos trechos da mitologia grega, utilizando uma linguagem simples e apropriada para crianças, apresentando esse universo com uma riqueza de detalhes raramente encontrada em outros livros, mesmo para adultos. Para essa história, Lobato criou dois personagens: Meioameio, uma espécie de ‘potrinho’ de centauro que se torna amigo de Pedrinho e Minervino, mensageiro de Palas Atena (deusa da sabedoria, da guerra e da justiça, protetora da cidade de Atenas), que volta e meia surge para auxiliar os protagonistas ou para discutir sobe mitologia com o Visconde de Sabugosa. Curioso é que no final do segundo volume da história, Emília pergunta o verdadeiro nome de Minervino, que afirma ser Belerofonte, um herói da mitologia grega, considerado um semideus, por ser filho de Poseidon (um dos deuses gregos) com uma humana.

É importante notar que Lobato não fez apenas uma tradução ou mera adaptação das histórias helênicas. Na verdade ele cria uma obra nova, adicionando os personagens do Sitio alem de outros novos, mantendo os elementos mais importantes da narrativa mítica greco-romana, mas incluindo aventuras e acontecimentos completamente distintos, introduzindo elementos engraçados e adequando os fatos narrados às nossas próprias características através do seu imaginário. De extrema importância é notar o convicção de Lobato de que é através do aprendizado, da educação, da ética que podemos vencer os obstáculos. E, com a ajuda da turma do Sitio, Lobato nos dá o novo herói, Lobatiano que é forte mas também sente compaixão, tem ética e aprende o que é certo e errado. O novo herói que tem força e inteligência. Ele que sempre acreditou no poder transformador dos livros, entendeu que os mitos gregos sobreviveram à transposição da oralidade para a escrita porque trabalhavam com imagens e situações presentes no imaginário de todos nós. E o resultado é simples: crianças e adultos, quem não gosta ler ou ouvir uma boa história?

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REFERÊNCIAS:

https://revistas.ufpr.br/letras/article/view/14995

https://dspace.mackenzie.br/handle/10899/25446

https://periodicos.ufms.br/index.php/ENAPHEM/article/download/15092/10338/

https://www.researchgate.net/publication/287730299_Monteiro_Lobato_e_a_Mitologia_Grega

https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/31/31131/tde-20072022-151646/pt-br.php

https://www.blogdaletrinhas.com.br/conteudos/visualizar/A-Grecia-pelo-olhar-de-Monteiro-Lobato

https://periodicos.ufmg.br/index.php/aletria/article/view/18373/15162

https://revistas.ufpr.br/letras/article/viewFile/14995/13469

https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/ECAP-7DXJL5/1/disserta__o___vitor_amaro_lacerda.pdf

Quando Teseu Saiu De Férias: Tia Nastácia Versus O Minotauro

Daniella Amaral Tavares
“O trigo venceu a ferocidade do monstro de guampas”. (LOBATO, 1965, p. 217).

No final de O Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato (1939), tudo parecia correr bem com a fabulosa festa de casamento de Branca de Neve com o Príncipe Codadade nas terras de D. Benta. E o banquete, então, um assombro! Comandado por Tia Nastácia, que tinha ao seu dispor mais de cem ajudantes para assar mil e trinta e sete faisões, (LOBATO, 1965a, p. 174-175), era digno das festas mais luxuosas das Mil e Uma Noites.!

Mas o casamento não aconteceu conforme o esperado, pois foi interrompido pelo ataque avassalador de monstros míticos, que não foram convidados, e por isso decidiram arruinar a festa. Entre eles estava o Minotauro, a criatura do labirinto de Creta, acompanhado de um bando que incluía os Centauros, Cérbero, a Hidra de Lerna (que havia dado uma surra em D. Quixote) e a Quimera (LOBATO, 1965a, p. 181). !

Quando este tropel caótico invadiu a cozinha de mármore, Nastácia foi levada, sem que ninguém soubesse do seu paradeiro (LOBATO, 1965a, p. 182). E assim, em meio à aflição geral, Pedrinho decide organizar uma expedição para salvar a quituteira, sendo recebido com alegria pela Emília: “Bis-bravo! – berrou batendo palmas – Isso é que é falar! Avante, avante! Toca a salvar tia Nastácia!” (LOBATO, 1965a, p. 189). Após este desfecho, somos levados ao livro O Minotauro (1939), que começa exatamente com os preparativos para uma viagem à Grécia moderna, no navio “Beija-Flor das Ondas” e de lá, graças a um mergulho na imaginação, aporta na Grécia do tempo de Péricles. !

No entanto, não era neste mundo onde Nastácia devia ser buscada, mas sim na “Grécia Heroica”, o tempo dos grandes heróis, como Hércules e Teseu, e para lá partem Pedrinho, Emília e Visconde, enquanto Dona Benta e Narizinho permanecem na Atenas de Péricles. (LOBATO, 1965b, p. 85). !

Mas em qual lugar e nas mãos de qual monstro estava a cozinheira? Para a mordaz boneca de pano, ela teria sido devorada pelo monstro de Creta: “Para mim o Minotauro a

devorou – disse Emília. – As cozinheiras devem ter o corpo bem temperado, de tanto que lidam com sal, alho, vinagre, cebolas. Eu, se fosse antropófaga, só comia cozinheiras. Narizinho teve vontade de jogá-la aos tubarões.” (LOBATO, 1965b, p. 11). !

Apesar do equívoco sobre a referida morte, Emília estava em parte certa: o Minotauro havia levado a personagem para o labirinto e lá ele engordava, feliz, às custas dos famosos bolinhos, esquecido da sua antropofagia1. O paradeiro é confirmado numa consulta ao Oráculo de Delfos, que revela, através da sacerdotisa que: “O trigo venceu a ferocidade do monstro de guampas.” (LOBATO, 1965b, p. 217). Essa fala misteriosa é imediatamente interpretada por Emília, para quem o “trigo” significaria Tia Nastácia, pois ela,

[…] como cozinheira, lida muito com trigo, farinha de trigo, massa de trigo, pastéis, bolinhos, etc. E com as coisas gostosas que ela fez com a farinha de trigo “venceu”, isto é, amansou a “ferocidade do monstro de guampas” que não pode ser outro senão o Minotauro. De todos os monstros que invadiram o palácio do Príncipe Codadade só havia um de guampas, ou chifres: o Minotauro. (LOBATO, 1965e, p. 217).

De fato, a boneca está certa e quando o grupo entra no labirinto de Creta, guiado pelos carretéis de linha de Emília, encontram o Minotauro sentado em seu trono, mastigando uma montanha de bolinhos, e contando com uma aparência nada assustadora:

[…] o monstro estava gordíssimo, quase obeso, com três papadas caídas; o seu corpanzil afundava dentro do trono. Que teria acontecido? (LOBATO, 1965b, p. 221).

Assim, este híbrido de homem e touro, antes o terror da ilha de Creta, foi transformado num ser apático (e vegetariano!) graças à Tia Nastácia, uma personagem normalmente representada como frágil e pouco afeita a aventuras, que enfrenta o monstro com as armas que domina: suas habilidades culinárias, as mesmas que encantaram São Jorge e D. Quixote em outros livros. !

Mas se ela dominou o monstro, onde estava Teseu, o herói que executa esta tarefa no mito? É interessante apontar que a versão lobatiana para o mito do Minotauro coloca em evidência apenas um personagem da narrativa tradicional: o próprio Minotauro, cuja prisão não abriga mais um monstro devorador de carne humana, mas um glutão pacato, vencido pelos bolinhos. Aqui, Teseu e Minos, citados brevemente (LOBATO, 1965b, p.106), não participam nos acontecimentos vividos pelos “picapaus”2 em Creta. Os jovens atenienses, que seriam ali devorados, também estão ausentes, assim como os personagens Dédalo, Dioniso e Ariadne, a princesa aqui substituída pela boneca de pano e seus carretéis de linha. !

Esta escolha é condizente com uma questão presente nos textos infantojuvenis lobatianos – a vitória da inteligência sobre a brutalidade. Em Os Doze Trabalhos de Hércules (1944), este semideus pondera sobre a questão: “Sim, refletia consigo o herói. Eles representam a Inteligência e eu só disponho da Força. Em muitos casos a Força nada vale e a Inteligência é tudo […]” (LOBATO, 1965c, p. 152). !

Já Nastácia, de modo diverso a outro herói, Teseu, não entrou no labirinto confiante em sua força e estava apavorada com a criatura que “De vez em quando punha pra fora uma língua deste tamanho e lambia os beiços.”, mas poupou a vida dela, porque “[…] estava com a barriga cheia […]” (LOBATO, 1965b, p. 226). Ao contrário de Hércules e Teseu, a personagem descobriria que seu talento como quituteira também podia mudar o rumo dos acontecimentos. Assim, na cozinha do monstro, certa de seu fim e saudosa dos “picapaus”, ela teve a ideia de fazer bolinhos pela última vez e tantos fez que encheu uma peneira. Foi a sua salvação e vitória sobre o flagelo da juventude de Atenas! !

No no dia seguinte, o Minotauro, faminto, se aproximou dela e tendo visto a peneira cheia de bolinhos, provou um, outro, e mais tantos que engordou a ponto de não mais caminhar até a cozinha (LOBATO, 1965b, p. 227). Não era, portanto, necessário matar o monstro para derrotá-lo, mas ele podia ser “domado” por conta da sua paixão pelos quitutes – o que é um contraponto ao mito alinhado com as convicções do autor. Sem a violência da narrativa tradicional, o monstro de Creta “Acabou completamente manso. Esqueceu até a mania de comer gente.” (LOBATO, 1965b, p. 227).!

As substituições do autor, carregadas de humor sutil, nos conduzem a outra reflexão – o uso da paródia como meio de diálogo com o mito, recurso que simultaneamente alude à versão clássica e se desvia dela. Se de um lado temos uma criatura que devora carne humana crua, do outro encontramos um “homem-touro” mais humano, que dispõe de uma cozinha equipada com fogão, frigideiras e os ingredientes necessários para o preparo dos famosos bolinhos (LOBATO, 1965b, p. 222). Além disso, a “rebeldia” em relação ao texto clássico (SANT’ANNA, 2002, p. 32) aparece também no episódio do Oráculo de Delfos – em Plutarco, Teseu consulta o Oráculo antes de partir para Creta: “Pelo que se conta, o deus de Delfos ordenou-lhe por intermédio de um oráculo que tomasse Afrodite como guia e companheira de viagem”. (PLUTARCO, 1991, p. 31). Já em O Minotauro, como vimos, Lobato não apenas troca o conselho do Oráculo sobre a Afrodite (a deusa do amor) pela indicação do destino de Tia Nastácia, mas também muda a vitória de Teseu sobre o Minotauro para as mãos habilidosas da quituteira. !

Ao optar por colocar a astúcia no lugar da violência, substituindo uma morte sangrenta3 por uma derrota pacífica, O Minotauro também reconfigura o destino de uma personagem, aparentemente tão vulnerável nas mãos do monstro: como a Sherazade das Mil e Uma Noites, que todas as noites escapa da morte ao contar histórias para o rei, nossa heroína cria delícias todos os dias para obter sua salvação.


1 A versão mais conhecida do mito do Minotauro, presente em uma das narrativas de Plutarco (1991, p. 28-34), conta a história de um ser, meio homem meio touro, alimentado exclusivamente de carne humana e aprisionado desde o seu nascimento, por ordem do rei Minos, num labirinto construído pelo arquiteto Dédalo. A cada nove anos, o rei cretense exigia que a cidade de Atenas lhe enviasse, como tributo pela morte do príncipe Androgeu, sete rapazes e sete moças que seriam devorados pelo Minotauro. Na época do pagamento do terceiro tributo, Teseu, príncipe e herói ateniense, partiu para Creta, sob a orientação do Oráculo de Delfos, para derrotar o Minotauro. Guiado por um novelo dado por Ariadne, filha de Minos, ele consegue entrar no labirinto, matar o monstro e sair de lá para, em seguida, fugir com a princesa, que é abandonada na ilha de Naxos, onde é encontrada pelo deus Dioniso, com quem se casou.


2 “Picapaus” é uma maneira utilizada por Monteiro Lobato para se referir aos personagens que vivem no Sítio do Picapau Amarelo.


3 Num dado momento de Os Doze Trabalhos de Hércules (1944), Emília critica os acessos de fúria do herói, a quem apelidou de “Lelé”: “Esse seu gênio exaltado não dá certo, Lelé. Por qualquer coisinha fica fora de si, enxerga tudo vermelho e lá vem a hecatombe […] O bom sistema é o dos americanos nas fitas de cowboys. Quando chega a hora, o pega é tremendo, é dos que fazem a gente se torcer […] Mas ninguém morre! Era o que você devia fazer aqui […] Que direito tem uma criatura de tirar a vida de outra – não é mesmo, Visconde?” (LOBATO, 1965c, p. 166).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LOBATO, Monteiro. O Picapau Amarelo e A reforma da natureza. São Paulo: Brasiliense, 1965a. (Obras completas de Monteiro Lobato, 2a série, Literatura infantil, v. 12).

______. O Minotauro. São Paulo: Brasiliense, 1965b. (Obras completas de Monteiro Lobato, 2a série, Literatura infantil, v. 13).

______. Os doze trabalhos de Hércules. São Paulo: Brasiliense, 1965c. (Obras completas de Monteiro Lobato, 2a série, Literatura infantil, v. 16).

PLUTARCO. Vidas Paralelas. São Paulo: Paumape, 1991. v.1.
SANT ́ANNA, Affonso Romano de. Paródia, paráfrase e cia. 7. ed. São Paulo: Ática, 2002.

De Lobato a Mazzaropi, o Jeca inspira e provoca o Brasil

A personificação caricata do homem do campo do início do século XX, salta do imaginário lobatiano para as telas do cinema e conquista o grande público através das interpretações hilárias de Amácio Mazzaropi, que encarnou o personagem Jeca Tatu, criado por Monteiro Lobato, a partir de 1959.

O caipira simplório, ingênuo e preguiçoso, apareceu pela primeira vez em um texto do escritor publicado como um artigo no jornal O Estado de S. Paulo, em 1914, intitulado “Velha Praga”. Mas foi a partir do livro Urupês que o Jeca consolidou sua fama para chegar às telas do cinema, materializado na figura de Mazzaropi, vestindo camisa xadrez, chapéu de palha calça pula brejo e pés descalços.

O personagem foi descrito por Lobato, como o caipira “abandonado à própria sorte, vítima da fome que lhe parecia natural e imutável – exceto se ocorresse um lance de muita sorte ou divina intervenção” – sendo prisioneiro de uma ignorância sem fim. Esse era o fiel retrato do Brasil no inicio do século passado, ainda majoritariamente rural naquela época, que o escritor atacava com doses de sarcasmo para ver se mudava essa triste realidade.

Muitas histórias podem ser contadas para remontar a origem do Jeca Tatu criado por Monteiro Lobato e o personagem eternizado por Mazzaropi. Porém a que ficou gravada no imaginário popular foi sem dúvida a do Jeca Tatuzinho, escrita em 1924 para ensinar noções de higiene e saneamento às crianças, e que foi adaptada no ano seguinte para o folheto publicitário do Biotônico Fontoura, um medicamento que se popularizou em todo o país como uma poderosa vitamina para que as crianças crescessem fortes e sadias, passando de geração após geração. Essa foi inclusive, a primeira parceria entre a indústria farmacêutica e a indústria de remédios no Brasil.

Segundo a escritora Marisa Lajolo a história desse personagem está diretamente ligada a biografia do escritor, que herdou do avô a fazenda Buquira, no Vale do Paraíba, em São Paulo, se tornando um fazendeiro cheio de ideias contemporâneas, como modernizar a agricultura e a pecuária. Mas modificar estruturas existentes e mexer com costumes arraigados nunca foi uma tarefa fácil, principalmente naquela época. A ousadia de Lobato  aliado a pratica das queimadas e especialmente uma estiagem das mais fortes levam Lobato a escrever uma carta para o jornal O Estado de S. Paulo onde “cria a figura do Jeca Tatu para representar o caipira daquele período”. Em seus textos, Lobato expõe sua visão de que o trabalhador rural, o camponês, eram preguiçosos demais para mudar tanto a agricultura como seu próprio mundo, atribuindo a eles a responsabilidade pelos problemas do campo.

Ainda de acordo com Lajolo, “Lobato é implacável na desqualificação de toda cultura caipira, de suas manifestações artísticas à sua linguagem e às suas práticas econômicas”.

Ligados a um contexto histórico e sociológico, é interessante observar as relações entre autor e personagem diante das transformações que aconteciam no Brasil desde o final dos anos de 1890, em especial as campanhas sanitaristas iniciadas em 1904, sob a coordenação do médico e pesquisador Oswaldo Cruz, para facilmente compreendermos as contradições internas do país e as mudanças que Lobato imprimiu ao seu personagem.

Foi assim que o Jeca Tatu, a figura do caipira, passou de responsável pelo atraso e pela estagnação do Brasil agrário, para a condição de vítima da precariedade da saúde pública. E foi nesse momento que o escritor passou a se envolver totalmente em campanhas de saúde contra as verminoses, criando o personagem Jeca Tatuzinho para ensinar noções de saúde e saneamento às crianças.

Esse Jeca Tatu de Monteiro Lobato entrou definitivamente na vida de Amácio Mazzaropi em 1958, dez anos após a morte do escritor, quando o Instituto de Medicamentos Fontoura cedeu a ele os direitos autorais da obra do escritor, para que sua produtora, a PAM Filmes pudesse produzir o filme Jeca Tatu, uma releitura do personagem lobatiano que foi interpretado pelo próprio ator, que também dirigiu a produção ao lado de Milton Amaral.

De acordo com Mazzaropi, que também era de Taubaté, o Jeca Tatu de seu filme, lançado em 1959, foi de fato uma homenagem ao personagem criado por Monteiro Lobato, que ele conheceu pessoalmente em 1943, quando tinha 31 anos de idade, na extinta Radio Tupy de São Paulo.

É bem verdade que a construção do seu caipira começou antes do filme ser lançado e veio do gosto pela vida no campo, que ele herdou do avô Amácio Mazzaropi, um imigrante italiano que se fixou no estado do Paraná. Foi essa afeição pelo campo que o levou a pesquisar no interior do Brasil o personagem de calças curtas, canelas descobertas, botinas, fala arrastada, e que fez nascer o próprio caipira Mazzaropi. Outra influência foi a do circo e das peças que que tinham a figura do caipira como protagonista, e da inspiração na dupla Genésio & Sebastião Arruda que fazia sucesso na época.

Mas definitivamente, foi com o Jeca Tatu que Mazzaropi conseguiu completar o tipo e entrar definitivamente no universo da cultura caipira. Do personagem original de Monteiro Lobato, ele manteve praticamente tudo: o caboclo pobre e preguiçoso, mas de bom coração, retirando apenas o vício da bebida e acrescentando a astúcia. Como Jeca Tatu, ele fez os filmes Tristeza do Jeca; O Jeca e a Freira; Uma Pistola para Djeca; Jeca, o Macumbeiro; Jeca Contra o Capeta; Jeca, um Fofoqueiro no Céu; Jeca e Seu Filho Preto e Jeca e a Égua Milagrosa.

Assim como nos tempos de Lobato, o Brasil de Mazzaropi nos anos de 1950, vivia um pais ávido por crescimento e desenvolvimento no período pós-guerra, o que serviu para resgatar a ideia de modernização nacional, já defendida por Monteiro Lobato anos atrás.

Outro fator interessante, é que o protótipo caipira incorporado por Mazzaropi ganhou as telas do cinema para enfrentar o projeto nacionalista de Getúlio Vargas, que buscava consolidar o samba e a cultura carioca como a identidade nacional. Esse desejo era traduzido no cinema, através de personagens tipicamente urbanos como o malandro, a mulata, o sambista, o favelado, entre outros. Nesse contexto, o Jeca de Mazzaropi passou a brigar pela audiência do cinema dominado então pelas chanchadas da Atlântida, cujas personagens, tradutoras de um espírito da malandragem carioca, possuíam determinadas características de modernidade ligadas à vida urbana. Mesmo sem jamais reivindicar o seu status de “representante da identidade nacional”, o Jeca de Mazzaropi competiu contra a malandragem urbana de Oscarito e Grande Otelo, estabelecendo uma ligação com o imenso público do interior paulista e de muitas outras partes do país, mostrando que o mercado da indústria cinematográfica nacional, ia muito além do malandro estereotipado.

Também como Lobato, Mazzaropi foi um visionário, que estava muito à frente do seu tempo. Ele soube como poucos, driblar as dificuldades de se fazer cinema sem dinheiro, se valendo de incomparável criatividade e muito talento, para assim se eternizar como um dos maiores artistas da história do Brasil. Com o passar do tempo, o Jeca Tatu se transformou em um personagem icônico quando pensamos no Brasil e na cultura brasileira, servindo como referência para debates críticos, ou mera melancolia, de tipos que aos poucos desapareceram diante das transformações que ocorreram ao longo da nossa história.

Mais de cem anos depois de sua criação, temas abordados na simplicidade do caboclo Jeca Tatu, como a saúde pública no Brasil, ainda beiram à ficção científica. A cultura caipira de Mazzaropi segue viva, assim como as obras literárias de Lobato, que continuam inspirando e provocando debates sobre os mais variados temas.

Seja através do Jeca criado por Lobato ou do Jeca inspirado por ele e eternizado na figura de Mazzaropi, fato é que o Brasil se tornou um personagem a ser decifrado em suas muitas faces polêmicas. Nessa linha, o artigo intitulado “Mazzaropi e Lobato: Jeca Tatu ainda dá umas boas horas de conversa e pesquisa” publicado na revista da Universidade de São Paulo (USP), de autoria da doutora em ciências da comunicação, Maria Ignês Carlos Magno, nos diz acertadamente: o filme Jeca Tatu é um bom ponto de partida para alguns estudos sobre o Brasil e a nossa produção cultural. Recomendamos sua leitura!

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REFERÊNCIAS:

https://www.museumazzaropi.org.br/personagens/jeca-tatu/

https://www.revistas.usp.br/comueduc/article/view/43279/46902

** A tradução do Jeca Tatu por Mazzaropi: um caipira no descompasso do samba” – Maurício de Bragança*

Lobato no Cinema

Apesar de ficar popularmente conhecido através das histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo, reproduzidas cinco vezes na televisão brasileira, esse grande sucesso de Monteiro Lobato jamais chegou ao cinema. Na telona, com exceção do filme O Sacy, as obras do escritor, adaptadas para o cinema foram voltadas para o público adulto e a maioria baseada no livro Urupês escrito por ele em 1918, reunindo contos e textos publicados anteriormente como Velha Praga e o homônimo, que deu nome à coletânea.

Na esteira do sucesso desse clássico da literatura brasileira que deixou Lobato famoso, logo veio a primeira adaptação para o cinema nacional através do filme “Os Faroleiros”, inspirado no conto homônimo que compõe o livro Urupês. A produção estreou no dia 11 de março de 1920, senda exibida nas duas salas do cine Central e simultaneamente no cine Royal, em São Paulo, antes de partir pelo interior do estado. O sucesso foi tamanho, que ainda durante a sua exibição na capital, rendeu um artigo grande, escrito pelo jornalista Lélis Vieira, na primeira página no jornal Correio Paulistano. Essa primeira adaptação de uma história escrita por Monteiro Lobato para o cinema, foi produzida pela empresa Romeiros do progresso, e o filme dirigido por Miguel Milano e Antonio Leite, contou inclusive com a assessoria do próprio escritor na adaptação.

O filme, um drama mudo dividido em sete partes, conta a história de uma tragédia ocorrida em um farol, onde o faroleiro relata para seu novo ajudante, que havia matado seu antecessor, que segundo ele, havia enlouquecido, agindo em legítima defesa. Porém, ao deixar o farol, esse homem descobre que na verdade o crime cometido pelo faroleiro havia sido passional, pois o ajudante assassinado havia fugido com a sua esposa. Por obra do azar, sem saber, o homem havia justamente ido trabalhar com o ex-marido.

Praticamente não há informações consistentes sobre a produção, mas sabemos que João Beloise, Antônio Campos, Crispin e Manuel Araújo atuaram neste filme. Há inclusive certa incoerência nos relatos sobre a satisfação ou não de Monteiro Lobato com o filme. Enquanto no ebook “Nova história do cinema brasileiro – volume 1”, organizado por Fernão Pessoa Ramos e Sheila Schvarzman, pelas edições Sesc, há um registro afirmando que o jornal Correio Paulistano registrou a visita de Lobato ao ateliê cinematográfico e teve a melhor impressão possível com o filme já concluído, o cineasta Valêncio Xavier, em um texto escrito para o jornal Folha de São Paulo, em janeiro de 2000, afirma que o resultado não agradou em nada ao escritor. No site da Cinemateca Brasileira, maior acervo de filmes da América do Sul e membro pioneiro da Federação Internacional de Arquivo de Filmes – FIAF, ao se pesquisar sobre o filme, a informação que se tem é de que o mesmo está desaparecido. Infelizmente, ao fechamento deste texto, o site da Cinemateca Brasileira estava for a do ar, passando por um processo de renovação. Para quem tiver curiosidade de pesquisar sobre esse ou outros títulos, o site da Cinemateca é: https://www.cinemateca.org.br/

Com base nas informações encontradas exclusivamente também no acervo do site da Cinemateca Brasileira, o conto Bocatorta, o segundo conto do livro Urupês, chegou a ser adaptado para o cinema em 1924, com a produção de um longa-metragem mudo acontecendo na cidade de Campinas, no interior de São Paulo. O conto narra a história de um personagem monstruoso (o Bocatorta), que mora de favor em uma fazenda na zona rural paulista e desperta a curiosidade das pessoas em conhecer o personagem deformado que dá nome à história. Entre os mais curiosos está Eduardo, moço da cidade, noivo de Cristina, a filha do fazendeiro. por insistência do noivo eles conhecem o pobre infeliz, o que acaba desencadeando na jovem uma doença, sua morte e ainda outras consequências trágicas.

Praticamente sem qualquer outra informação disponível, a não ser aquelas que encontramos no site da Cinemateca Brasileira, tudo o que pudemos apurar em nossas pesquisas, é que o filme que seria produzido pela Apa Film, com roteiro e direção de Felipe Ricci, acabou sendo interrompido na fase de produção. O que nos deixa a beira da convicção de que Bocatorta não chegou às telas, é o fato de todas as citações que encontramos, em relação as adaptações das obras de Monteiro Lobato para o cinema, afirmarem que após Os Faroleiros, uma outra adaptação da obra lobatiana só chegou aos cinemas trinta anos depois.

Isso aconteceu em setembro de 1951, com a estréia de O Comprador de Fazendas, uma comédia baseada na livre adaptação do conto homônimo, integrante também do livro Urupês. Lançado após a morte do escritor que faleceu em 1948, a película traz algumas diferenças em relação ao conto escrito por Lobato, embora mantenha a estrutura narrativa e tenha um desfecho final diferente.

Com roteiro de Mário del Rio, Guilherme de Figueiredo e Miroel Silveira, além da direção do italiano Alberto Pieralisi, o filme, com 96 minutos de duração, conta a história de um fazendeiro que ao tentar negociar sua fazenda já decadente, hospeda um possível comprador, realizando inúmeras despesas com ele, que parte para a cidade prometendo voltar para fechar negócio. Ele não cumpre o prometido e o fazendeiro resolve então investiga-lo, descobrindo que se tratava de um vigarista acostumado a se passar por comprador de fazendas para usufruir de bons momentos. Porém o rapaz havia se apaixonado pela filha do fazendeiro. Tempos mais tarde ele ganha na loteria e decide retornar para comprar a fazenda e se casar com a moça. Porém ele é recebido pelo fazendeiro com uma surra de rabo de tatu! O pobre rapaz não consegue nem fechar negócio com a fazenda e nem casar com a jovem.

Sucesso de crítica e público, o filme produzido pela Companhia Cinematográfica Maristela e rodado em São Paulo, é considerado a adaptação mais famosa de Monteiro Lobato para o cinema. A história foi protagonizada pelo ator Procópio Ferreira e pela atriz Henriette Morineau, grandes estrelas do cinema nacional da época. O desempenho da dupla como marido e mulher, rendeu a Procópio o “Prêmio Revista A Cena Muda” de melhor ator do ano por esse trabalho. A música “Festa no Arraiá” foi composta especialmente para o filme e executada pelo autor, o rei do baião, Luiz Gonzaga. Essa adaptação também foi reconhecida como melhor filme nacional daquele ano, pela Associação Brasileira de Críticos Cinematográficos. Vinte três anos depois, em 1974, uma nova versão desse conto foi filmada pelo mesmo diretor, tendo o ator Agildo Ribeiro no papel do vigarista e Eliana Martins como a filha do fazendeiro. A segunda versão dessa adaptação pode ser assistida neste link: https://youtu.be/I-bSXtwHZeQ

O ultimo filme longa-metragem baseado na obra de Lobato e considerada a primeira produção infantil importante do cinema brasileiro, estreou na telona, dia 10 de setembro de 1953, o filme “O Saci”. A ideia de adaptar o livro (escrito em 1921) surgiu no retorno do cineasta, roteirista e produtor Rodolfo Nanni, de uma viagem a Paris para estudos sobre cinema. Porém para tirar a ideia do papel, ele precisou de autorização da editora Brasiliense, que detinha os direitos sobre os livros do escritor após a sua morte. O roteiro foi escrito inicialmente por Arthur Neves e finalizado por Nanni. As gravações aconteceram em Ribeirão Bonito, uma cidadezinha cheia de sítios, próxima a São Carlos, no interior paulista, onde toda equipe de produção e atores foi muito bem recebida pela população. O prefeito da época, inclusive, emprestou um galpão abandonado onde um estúdio foi montado com móveis antigos doados pelos próprios moradores da cidade, para compor a cenografia das cenas passadas no interior da casa do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Na história, Pedrinho tenta capturar um Saci em uma garrafa, seguindo as instruções do Tio Barnabé. Depois de capturado, o Saci é libertado para ajudar o menino a desfazer uma bruxaria que a Cuca jogou em Narizinho, transformando-a em pedra. Como todos sabemos, no Sítio vivem ainda Dona Benta, Tia Nastácia, Emília e outros personagens que ainda hoje encantam crianças e adultos.

Fizeram parte do elenco: Paulo Matozinho (Saci); Lívio Nanni (Pedrinho); Aristéia Paula Souza (Narizinho); Olga Maria (Emília); Maria Rosa Moreira Ribeiro (dona Benta);Benedita Rodrigues (Tia Nastácia); Otávio de Araújo (Tio Barnabé); M. Meneghelli (Cuca); Yara Trexler (Yara) e diversos meninos de Ribeirão Bonito que fizeram o papel da “sacizada”.

O filme foi um enorme sucesso comercial, ajudando a popularizar ainda mais a obra do escritor entre crianças e adultos, especialmente entre os analfabetos, que na época eram em grande número no Brasil. No ano seguinte ao seu lançamento, a produção ganhou o “Prêmio Saci”, entregue aos melhores filmes brasileiros da década de 1950 e em 1953, também conquistou o “Prêmio Governador do Estado”. Naquele  mesmo ano Arthur Neves e Hugo Nanni receberam o “Prêmio O Índio”, da revista Jornal Cinema, na categoria Melhor Produtor, e Claudio Santoro, responsável pela trilha sonora da produção, foi premiado como Melhor Compositor. Até hoje esse filme é bem lembrado e teve uma segunda estreia no seu 60º aniversário, em 2013, na última edição do Amazonas Film Festival, festival de cinema realizado na cidade de Manaus, no estado do Amazonas. Graças a tecnologia, o filme pode ser assistido online, neste link: https://youtu.be/oB-o0TlnSac

Seis anos depois do sucesso de O Saci, uma das figuras mais emblemáticas do cinema brasileiro, o ator e produtor Amácio Mazzaropi, o “caipira” que curiosamente também cresceu em Taubaté, deu vida no cinema ao icônico personagem Jeca Tatu, criado por Monteiro Lobato e tema do filme homônimo, lançado em 1959. Com roteiro e direção de Milton Amaral, esse longa-metragem é uma derivação do texto Jeca Tatuzinho, criado por Monteiro Lobato. Nele, Mazzaropi faz o papel principal, interpretando o caipira Jeca, que começa como um preguiçoso chefe de família no interior de São Paulo e termina como coronel. Ele perde seus bens por conta de intrigas armadas pelo capataz de uma fazenda vizinha, cujo filho do proprietário namora a filha do caipira. Auxiliado por um político demagogo da cidade, o caipira recupera seus bens, desmascara o capataz e enriquece. Considerado um clássico do cinema nacional, o filme, que é uma declarada homenagem de Mazzaropi ao conterrâneo Monteiro Lobato, teve em seu elenco, além próprio Mazzaropi, Geny Prado, Nicolau Guzzardi, Marlene França, Roberto Duval, Lana Bittencourt, Agnaldo Rayol, Francisco de Souza, Miriam Rony, Nena Viana, Pirolito, Celly Campello e Tony Campello.

A comédia Jeca Tatu é um filme em preto e branco, com 95 minutos, que hoje pode ser vista também no YouTube neste link: https://youtu.be/O07_cmzLvok

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REFERÊNCIAS

“Os Faroleiros”:

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/5/21/mais!/33.html

https://books.google.com.br/books?id=xLZwDwAAQBAJ&pg=PT296&lpg=PT296&dq=todos+filmes+exibidos+no+brasil+1920+os+faroleiros&source=bl&ots=nQY91gV8aM&sig=ACfU3U0gBkMI1Su3OlPFzat_2gmiFv3E8Q&hl=pt-BR&sa=X&ved=2ahUKEwjaruH755n8AhWBNrkGHTb8Cd84ChDoAXoECBcQAw#v=onepage&q&f=false

“O comprador de fazendas”

https://www.planocritico.com/critica-o-comprador-de-fazendas-1951/

https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Comprador_de_Fazendas

ebook: “O rural no cinema brasileiro” Célia Aparecida Ferreira Tolentino, pela editora Unesp

“O Saci”

https://www.wikiwand.com/pt/O_Saci_(filme)

“Jeca Tatu”

https://www.bbc.com/portuguese/geral-60994928

https://museumazzaropi.org.br/personagens/jeca-tatu/

Outras fontes:

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/5/21/mais!/33.html

https://www.bbc.com/portuguese/geral-60994928

https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/filmes-na-tv/40-anos-sem-mazzaropi-7-filmes-do-jeca-para-assistir-online-e-de-graca-59189

https://www.epedagogia.com.br/materialbibliotecaonine/2529Prefacios-e-Entrevistas.pdf

Lobato vai ao cinema

Por Antonio Silvio Lefèvre – intérprete de Pedrinho no “Sitio do Pica Pau Amarelo”, TV Tupi, 1953

No final da década de 1940, um ano e meio após o falecimento de Lobato em 04 de Julho de 1948 os apaixonados por sua obra sonhavam em vê-la no cinema.  Faltava, contudo, onde e como fazer isso. Afinal, a televisão não havia ainda chegado ao Brasil (faltava pouco: a TV Tupi seria inaugurada em setembro de 1950) e, além dos livros, o que de mais importante existia era o teatro, com produções e artistas já famosos, como Procópio Ferreira, Maria Dela Costa, Henriette Morineau e muitos outros. O cinema era mais recente, até porque a primeira sala de maior porte em São Paulo, o Cine Metro, no centro da cidade, havia sido inaugurada em 1938, por iniciativa do representante da Metro Goldwin Mayer (MGM) no Brasil, meu avô materno Benjamin Fineberg. Neste cinema e nos poucos outros abertos por ele e por concorrentes, nos anos seguintes, predominavam então os filmes americanos, de Hollywood, pois quase nada havia ainda de produções nacionais: apenas alguns documentários e, na ficção, o foco era nas chanchadas. Pois foi justamente no final dos anos 1940 que se começou a produzir cinema no Brasil, sendo fundados dois importantes estúdios cinematográficos, quase ao mesmo tempo: a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, em novembro de 1949 e a Cinematográfica Maristela, em agosto de 1950.

Arthur Neves, um dos sócios da Editora Brasiliense, a editora então responsável pela obra de Lobato, havia trocado idéias com um jovem, chamado Rodolfo Nanni, que acabara de chegar de Paris, onde havia feito um curso de cinema, sobre a possibilidade de levar a obra de Lobato às telas. E juntos haviam escolhido a primeira obra de Lobato a merecer ser filmada: era o conto infantil O Saci, da série do Sítio do Pica Pau Amarelo.

Artur não teve dúvidas ao escolher o estúdio em que poderia produzi-la. Só podia ser a Cinematográfica Maristela, até porque a mesma havia sido fundada por Mario Audrá Jr, filho de Mario Audrá, um poderoso industrial do ramo têxtil, proprietário da Cia. Fabril de Juta Taubaté S.A. Ou seja, uma família de Taubaté, o berço de Lobato, certamente sensível à importância de sua obra e que deveria adorar a ideia de transformá-la em cinema.

A própria denominação “Maristela” estava fortemente vinculada à região de Taubaté, pois era o nome de uma fazenda localizada num município próximo, Tremembé, que Mario Audrá pai havia comprado, em 1931, de monges trapistas franceses que tinham desistido de sua missão de converter brasileiros… e tinham voltado para a França.
Era o início de 1951 quando Arthur Neves, Rodolfo Nanni e o então novato cineasta Nelson Pereira dos Santos iniciaram os preparativos para produzir O Saci. Só que a Cinematográfica Maristela, recém-fundada, não tinha ainda todos os recursos, humanos e materiais, para produzir o filme como um todo. A equipe de Nanni realizou então o que, em cinema, se denomina uma “produção independente”. Ou seja, alugou equipamentos que a Maristela tinha acabado de adquirir e bancou todos os custos da realização do filme, com as filmagens se iniciando em outubro daquele ano.

Paulo Matozinho interpretou o personagem principal, o Saci, e o fez tão bem que seria chamado, em 1952, para interpretar o mesmo personagem na primeira versão do Sítio do Pica Pau Amarelo na TV Tupi, recém fundada. Os outros atores do filme foram: Lívio Nanni, filho de Rodolfo Nanni, fez o Pedrinho; Otávio Araújo foi o Tio Barnabé; Olga Maria Amâncio, criança de apenas 8 anos, foi a Emília; Maria Rosa Ribeiro fez Dona Benta; Aristéia Paula de Souza foi a Narizinho e Benedita Rodrigues, ex- empregada de Lobato e sua esposa fez a Tia Nastacia.

            Conforme bem descrito na Enciclopédia Itau Cultural, no verbete sobre filme O Saci ,  “A narrativa desdobra-se com as brincadeiras dos meninos. A mesma atenção é dada a elementos que fundamentam o lazer e o trabalho rural, como entoar canções populares, cozinhar no fogão à lenha, estourar pipoca e lavar a roupa no córrego. A trama abre-se com a exposição dos sonhos dos dois protagonistas, netos de dona Benta [Maria Rosa Moreira Ribeiro]. Narizinho [Aristéia Paula e Souza] rememora sua aventura com Escamado, príncipe do Reino das Águas Claras, e Pedrinho [Lívio Nanni] almeja aventurar-se pela mata virgem para caçar um saci.

Emília [Olga Maria], a boneca de pano, não sonha, vive o presente. Cai no riacho durante uma pescaria e passa o resto do filme secando ao sol. Dona Benta e tia Nastácia [Benedita Rodrigues], representam o mundo adulto e temem as empreitadas infantis. Todavia, é tia Nastácia quem diz a Pedrinho que ele deve procurar tio Barnabé [Otávio de Araújo]. Somente o “preto velho”, sabe que saci existe e como capturá-lo. 

Apesar de seguir à risca os ensinamentos de Barnabé, Pedrinho decepciona-se com o resultado: o saci está invisível dentro de uma garrafa. Seu corpo só vai se materializar, na hora do sono do menino. Nesse ínterim, Narizinho torna-se vítima do feitiço da Cuca, que a transforma em uma estátua de barro. Pedrinho torna-se amigo do saci [Paulo Matosinho] e recebe dele a proteção na floresta. Graças ao novo amigo, Pedrinho fica sabendo do desaparecimento da prima e de como exigir da Cuca que a libere.

Duas provas difíceis têm de ser cumpridas: conseguir um fio de cabelo de Irara, mãe das águas, e encontrar uma flor azul. O saci consegue o fio de cabelo e Pedrinho encontra a flor que quebra o feitiço. Narizinho, assim, liberta-se do encantamento e volta para casa. Emília, que secava ao sol, não acredita nas aventuras dos meninos. Para provarem veracidade das histórias, saem atrás do saci, mas ele retorna ao seu lugar de origem, como atesta tio Barnabé. As duas crianças e a boneca despedem-se do amigo e também do espectador, trepados em uma cerca de madeira.

Linhas divisórias, como a da cerca, são recorrentes no filme, representando o limite entre o mundo “real” e a fantasia. Narizinho defronta-se com a Cuca ao ultrapassar uma cerca de arame; Pedrinho sai do campo arado para penetrar na mata virgem e fica frente a frente com o saci quando transpõe um regato. Da mesma forma, a cerca do final do filme reforça a chave dada na abertura: a porteira do sítio se abre, convidando o espectador a penetrar em um mundo rural “verdadeiro” por onde aflora o universo da imaginação”.

Produção custosa e demorada, o filme O Saci acabou sendo lançado em 1953. Considerado a primeira produção infantil importante do cinema brasileiro, ganhou o prêmio que consagrou os melhores filmes brasileiros da década de 1950 e que, não por acaso, recebeu o nome de Prêmio Saci.

Enquanto acontecia a produção independente do Saci, a Cinematográfica Maristela foi se ampliando consideravelmente, montando um grande estúdio no bairro do Sacomã, em São Paulo e preparando-se  para produzir seus primeiros filmes: Presença de Anita, estrelando a já famosa atriz de teatro Tônia Carrero, e também O Comprador de Fazendas, baseado no conto de Monteiro Lobato, do livro Urupês.

Para O Comprador de Fazendas foi contratado um elenco com alguns dos mais consagrados artistas de teatro da época. Entre os quais a dupla Procópio Ferreira e Henriette Morineau, interpretando o casal de fazendeiros falidos, que fizeram de tudo para “enfeitar” a propriedade, a fim de agradar um pretenso interessado em comprá-la e que, no final, revela-se um farsante.. (Na cena da foto, Procópio aparece desafiando o comprador…) O já famoso sanfoneiro Luiz Gonzaga compôs e interpretou A Festa no Arraiá, especialmente para o filme.

O lançamento de O Comprador de Fazendas, ou “avant-première”, como se dizia na época, foi realizado em Taubaté, em homenagem à terra de Lobato e também da família Audrá, proprietária da Maristela. E em São Paulo o filme foi lançado nos melhores cinemas de então, entre os quais  os fundados e administrados por meu avô Benjamin Fineberg, como o cine Metro, Art-Palácio, Lux, Ipiranga e outros. Foi um estrondoso sucesso, que trouxe uma forte injeção de recursos para a Cinematográfica Maristela.

Inseguro quanto à capacidade de Mario Audrá Jr. para administrar um negócio que começava a crescer e já preocupado com o que considerou gastos excessivos com produções caríssimas e várias viagens à Europa para divulgar os filmes recém lançados, seu pai Mario Audrá resolveu “profissionalizar” a cinematográfica e para isso contratou como diretor meu avô, Benjamin Fineberg, o ”homem da Metro” que havia ficado famoso por ter trazido o cinema americano para o Brasil, como um interventor para colocar “ordem na casa”. Descontente com a entrada “deste americano” na Companhia Maristela, sentindo-se inferiorizado,… Mario Audrá Jr. resolveu tirar “férias’ e foi para a Europa, lá ficando por um longo tempo…

Benjamin Fineberg, meu avô, havia nascido em 1895 na Rússia numa família de judeus que havia emigrado para os Estados Unidos em 1904 e considerava-se um legítimo americano. Emigrou para o Brasil em 1915 e ficara muito surpreso de não haver ainda aqui as salas de cinema, como nos Estados Unidos. No início dos anos 1920 foi então para Hollywood, conseguiu a representação da MGM para o mercado brasileiro e, para inauguração dos seus cinemas, ele trouxe de navio, para o Brasil, ao vivo, o famoso leão da Metro, na verdade o filho do leão original e que, em homenagem ao Brasil, havia recebido o nome de Tupy. A propaganda da Metro ficara também famosa por ter sido patrocinadora da exportação do então principal produto do país: o “café do Brasil”. Na foto aparece Benjamin com a então famosa atriz americana Bebe Daniels, posando para a propaganda do café brasileiro.

No início da década de 1950 meu avô Benjamin já estava há alguns anos longe dos cinemas que havia fundado, pois os havia vendido para Luis Severiano Ribeiro, que havia criado uma distribuidora de cinema, a Serrador, que controlaria os principais cinemas do país. Meu avô havia mudado de ramo, tendo adquirido, logo após a guerra, em 1945, os dois principais hotéis das Termas de Lindoya (SP), onde esperava abrir cassinos. Intenção frustrada pela proibição do jogo no Brasil pelo General Dutra, logo após ele ter comprado os hotéis…

Mas meu avô ainda era o representante da MGM e tinha um velho sonho que era não apenas de trazer os cinemas para o Brasil, o que já tinha feito, mas também o de fazer “Hollywood no Brasil”. Ou seja, não apenas vender ingressos de cinema, mas realmente fazer cinema.  A indicação de que seria a hora certa para fazer isso fora dada pela inauguração, com grande pompa, da Cinematográfica Vera Cruz, em fins de 1949. Benjamin julgou então que estava na hora de usar todos os seus contatos em Hollywood para fazer da Maristela uma companhia capaz de deixar a Vera Cruz “no chinelo”. 

Durou pouco a intervenção de meu avô na Companhia Maristela. Em 1954 Mario Audrá Jr. voltou das suas longas férias na Europa, o desacordo entre eles sobre os planos para a companhia foi total e a convivência entre ambos se tornou inviável.  Meu avô desistiu então do seu sonho cinematográfico e resolveu ficar apenas no ramo hoteleiro, agora já como administrador do Grande Hotel de Águas de São Pedro.

Já sem Fineberg, de 1954 a 1958, a Companhia Maristela lançou ainda alguns filmes com super produções, como Quem matou Anabela, A pensão da Dona Stela, Getulio: Glória e Drama de um Povo (logo após o suicídio de Vargas, em 1954) entre outros. Porém um problema que existia desde o começo foi se agravando ano a ano: as receitas provenientes dos filmes, mesmo os de mais sucesso, nunca eram suficientes para cobrir os grandes custos, gerados pela compra de caros equipamentos,  a contratação de artistas famosos e de técnicos estrangeiros e, como diziam então as “más línguas”,  as manias de grandeza e os luxos de Mario Audrá Jr….Enfim, a Cinematográfica Maristela, afogada em dívidas, encerrou suas atividades em 1958.

A Cinematográfica Vera Cruz, sua concorrente, teve problemas semelhantes e  mesmo com grandes sucessos como O Cangaceiro, premiado no Festival de Cannes, também não conseguiu ter bom resultado financeiro e encerrou suas atividades até mais cedo, em 1954. Vera Cruz e Maristela foram duas iniciativas pioneiras do cinema no Brasil. Mas a hora do “cinema novo” no Brasil, só chegou mais tarde, na década de 1960.

Lembro-me de ter visto vários filmes da Maristela no cinema que existia no Grande Hotel Águas de São Pedro, administrado por meu avô Benjamin e onde eu, ainda criança, passava minhas férias. Na noite em que foi passado O Saci meu avô anunciou com pompa, para os hóspedes, no refeitório; “Venham assistir  hoje o filme do saci, do Sítio do Pica Pau Amarelo. E aproveitem para encontrar o próprio Pedrinho do sítio, em carne e osso, que se encontra hospedado em nosso hotel ”.

Urupês, o livro que chacoalhou a literatura brasileira

Definitivamente a publicação do livro “Urupês”, em 1918, o primeiro de Monteiro
Lobato, foi primordial para a explosão de sua fama e para o seu reconhecimento junto aos
intelectuais e personalidades mais importantes do Brasil naquela época, sucesso que ainda
hoje repercute entre leitores das mais variadas classes sociais.
Nessa coletânea de contos, considerada sua obra-prima, o escritor inaugura na
literatura brasileira um regionalismo crítico e mais realista do que o praticado durante
o romantismo, no período anterior. É nesse livro que Lobato presenteia seus leitores, com
um dos mais icônicos personagens da literatura brasileira; o Jeca Tatu, o “sombrio urupê de
pau podre, a modorrar silencioso no recesso das grotas”. Esse típico caipira da época,
marcado pela pobreza, pelo marasmo, pela verminose, e pelo alcoolismo que o tornavam
incapaz de praticar a agricultura até para a sua própria subsistência, já havia aparecido em
um texto escrito por Lobato e publicado no jornal O Estado de São Paulo, intitulado “Uma
Velha Praga” onde o escritor denunciava o antigo costume, ecológica e economicamente
desastroso do caipira de tocar fogo no mato para não ter que trabalhar na limpeza da terra.
Na verdade “Urupês” o livro, tem sua origem numa sequência de fatos que
começou com a morte do avô de Lobato, o visconde de Tremembé, em março de 1911.
Após a morte do avô, Lobato já casado, herda a fazenda São José do Buquira e se muda
com a família para a propriedade, onde passa a viver a experiência de fazendeiro. Lobato
tinha planos para transformar a fazenda em um negócio rentável e assim investiu em
projetos agrícolas audaciosos, importando maquinas e pensando em modernizar tudo. Sua
esposa, Purezinha até tratava da saúde dos caboclos com Homeopatia, na época
considerada como “medicina de ponta”. Porém, três anos depois, em 1914, explodiu a
primeira guerra mundial na Europa e o escritor começa a sentir os efeitos daquele momento
com o empreendimento não rendendo o esperado.
Para piorar a situação, naquele mesmo ano, temos um inverno extremamente seco e
Lobato sofre com as constantes queimadas praticadas pelos caboclos da região do Vale do
Paraíba. Indignado com a situação, ele resolve escrever uma carta para a seção de queixas
e reclamações do jornal O Estado de São Paulo, intitulada “Uma Velha Praga”. O contexto
e a narrativa da carta descreve de maneira arrasadora aquela situação, os animais mortos e
o aponta como sendo culpados os caboclos Manoel Peroba, Chico Marimbondo e o Jeca
Tatu (nomes genéricos que o escritor usou para ilustrar o “culpado”), O artigo chamou a
atenção dos editores do diário, que decidiram então publicar a carta como um artigo, fora da
seção pretendida inicialmente, 12 de novembro no dia de 1914.
Esse texto gerou enorme impacto e polêmica junto aos leitores, transformando o
escritor numa figura notável publicamente pela postura crítica ao comportamento predador
do caipira brasileiro, rompendo com a tradição que se mantinha de se romantizar a vida
rural, tão arraigada na cultura da época. A fim de levar adiante o debate sobre a
depredação do meio-ambiente e a atitude predatória do caipira paulista, Lobato escreve
“Urupês”, outro texto contundente, também publicado no jornal O Estado de São Paulo,
no dia 23 de dezembro do mesmo ano (1914), pouco mais de um mês após “Uma Velha
Praga”.
Se no artigo inicial Lobato denunciou as queimadas como um modo fácil e prejudicial
de limpar a terra a ser lavrada, em “Urupês”, ele usa a imagem do caboclo parasita
para caracterizar a indolência, a preguiça e a falta de iniciativa da população agrícola, sem
instrução, especialmente nas regiões decadentes após o apogeu do cultivo do café do Vale
do Paraiba. Na esteira do sucesso de sua primeira abordagem sobre o tema, neste segundo
texto Lobato investe com mais segurança na definição do personagem que caracteriza o

caboclo, na sua visão, o responsável por muitos dos males da agricultura brasileira daquele
período.
Apesar da frustração pessoal, a experiência na fazenda São José do Buquira acabou
sendo decisiva para o nascimento dos artigos “Uma Velha Praga”, e em seguida “Urupês”
e na sequência, a publicação desses textos no jornal O Estado de S. Paulo, foi decisiva para
a entrada de Monteiro Lobato no grupo de colaboradores do jornal e tambem pelo seu
reconhecimento público como figura intelectual de peso após a publicação do seu livro mais
famoso “Urupês”.
Em 1917 Lobato decide vender a fazenda e após uma breve passagem por
Caçapava, onde funda a revista Parahyba, se muda com a família para a capital paulista,
para uma casa alugada na rua Formosa. O escritor compra então a Revista do Brasil com o
dinheiro da venda da fazenda do Buquira.

De acordo com Edgard Cavalheiro, amigo e biógrafo de Lobato, foi o jornalista
Plínio Barreto, do jornal O Estado de S. Paulo, que sugeriu ao escritor a publicação de um
livro reunindo esses contos e crônicas que ele costumava escrever. Lobato se convenceu da
idéia e chegou a cogitar intitular o livro de “Doze mortes trágicas”, pelo fato da maioria dos
contos selecionados para a publicação, terminar de forma trágica, porém acabou optando
por chamá-lo de “Urupês”, título do conto que fecharia o volume.
E foi assim, que alguns meses depois, em 1918, com capa de José Washington
Rodrigues, quatorze contos originalmente e ilustrações do próprio Monteiro Lobato, que a
primeira edição de “Urupês” chegava as livrarias, com mil exemplares, pelos cálculos do
autor, quantidade suficiente para com sorte, ser vendida em cinco anos. Porém para
surpresa geral, a primeira edição foi toda vendida no primeiro mês! Curiosidade: Nesta
primeira edição temos somente o conto “Urupês”, Monteiro Lobato só inclui o conto “Uma
Velha Praga” a partir da segunda edição. O sucesso do livro foi tão grande que no mesmo
ano “Urupês” teve mais duas edições no mesmo ano.
O sucesso de “Urupês” já era uma realidade quando, no ano seguinte, Rui Barbosa,
candidato a presidente da República, durante a acirrada campanha eleitoral da época,
perguntou em meio a uma de suas reuniões públicas, realizada no Teatro Lírico do Rio de
Janeiro, se o país conhecia “aquele tipo de raça, que, entre as formadoras da nossa
nacionalidade, que se perpetua a vegetar de cócoras, incapaz de evolução e impenetrável
ao progresso” citando o personagem criado por Lobato. Isso assegurou à “Urupês” um lugar
no panteão de best-seller absoluto com suas histórias transformadas em filmes e traduzidas
para diversos idiomas.
Em 1º de maio, 1919 Lobato escreveu ao seu amigo Rangel: “O discurso de Rui foi
um pé de vento que deu nos Urupês. Não ficou um para remédio dos 7 mil! Estou
apressando a 4ª edição que irá do 8º ao 12º milheiro. Tiro-as, agora, aos 4 mil. E isto antes
de um ano, hein? O livro assanhou a taba — e agora, com o discurso do Cacique-mor, vai
subir que nem foguete”. Não apenas Rui Barbosa, mas inúmeras personalidades da época
passaram a exaltar o talento de Lobato, personalidades como Agripino Grieco, Alceu
Amoroso Lima, Mário de Andrade e Oswald de Andrade, apenas para citar algumas. Sem
rodeios, nem medo de errar, Gilberto Freyre foi enfático em afirmar que identificou em
“Urupês” um fenômeno sem precedentes, enxergando na obra um ponto de partida, um
caminho aberto aos que viriam depois. “Mário e Oswald de Andrade, José Américo, Amando
Fontes, Lúcio Cardoso, Jorge Amado, Raquel de Queiroz, José Lins do Rego, Luiz Jardim e
vários outros, ao aparecerem, encontraram o sulco de Lobato” declarou ele.
Já consolidado como escritor e editor, Lobato lançou em 1921 uma versão popular do
seu livro, vendido a um terço do preço da obra original, com o objetivo de torná-la acessível
a mais leitores. Esse foi o primeiro título da Coleção Brasília, que em sua sétima edição
bateu a marca dos 21 mil exemplares!

É com este legado, que “Urupês” mantém há décadas um estreito diálogo com temas
contemporâneos como a preservação ambiental, a saúde pública e a identidade nacional.
Uma obra viva, provocativa, pulsante, que mesmo centenária se mantém atual.
Qualquer semelhança com a situação das queimadas e dos habitantes do interior do
Brasil dos dias de hoje só pode ser mera coincidência…

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Referências:
https://www.unicamp.br/unicamp_hoje/ju/abril2002/unihoje_ju173lobato_pag07.html
https://www.overdadeirositiodopicapau.com.br/monteiro-lobato/
http://www2.assis.unesp.br/cilbelc/jornal/maio07/content24.html
http://educacao.globo.com/literatura/assunto/resumos-de-livros/urupes.html
http://www.nilc.icmc.usp.br/nilc/literatura/urup.s1.htm
https://escritoradesucesso.com.br/resumo-da-obra-urupes-%E2%94%80-contexto-
historicoanalise-e-personagens/ https://vestibular.brasilescola.uol.com.br/resumos-de-
livros/urupes.htm http://oficinafu.blogspot.com/2018/06/urupes-100-anos.html
https://www.coladaweb.com/resumos/urupes-monteiro-lobato

introdução do livro Urupês da Editora Globo

Em defesa do Brasil, Lobato é preso por criticar Getúlio Vargas e o Estado Novo

Além de brilhante escritor, Monteiro Lobato foi um nacionalista convicto que ao longo de sua vida defendeu a importância do Brasil se estruturar para explorar o petróleo disponível em terras nacionais, evitando que empresas estrangeiras usufruíssem do bem que é nosso.

O fato de defender livremente suas ideias, acabou levando Lobato à prisão no começo da década de 1940.

Insatisfeito com as políticas públicas direcionadas ao setor petrolífero, no dia 24 de maio de 1940, em plena Ditadura do Estado Novo, o escritor enviou cartas ao então presidente Getúlio Vargas e ao general Góes Monteiro, chefe do Estado-Maior do Exército.

Nessas cartas, Lobato criticava os rumos que a política do governo havia adotado em relação a exploração do petróleo nacional, acusando o Conselho Nacional de Petróleo de retardar deliberadamente a criação da indústria petrolífera nacional além de perseguir as indústrias nacionais já instaladas no Brasil.

Getúlio tomou as palavras de Lobato como injuriosas e assim um processo contra o escritor foi instalado.

Era madrugada do dia 27 de janeiro de 1941, quando Monteiro Lobato foi arrancado de sua casa por agentes policiais e levado para a sede do DEOPS em São Paulo. Após ser qualificado, o escritor foi transferido para a Casa de Detenção.

Mais tarde, naquele mesmo dia 27, a Superintendência de Segurança Política e Social de São Paulo realizou uma busca e apreensão de documentos no prédio da Rua Felipe de Oliveira, 21, 9º andar, sala 4, onde ficava o escritório de Monteiro Lobato.

Entre os documentos encontrados estava a cópia da carta que o escritor havia remetido ao Presidente da República e ao general Góes Monteiro, que para o delegado Rui Tavares Monteiro, da Superintendência de Segurança Política e Social de São Paulo, já eram subsídio suficientes para concluir o inquérito policial declarar Lobato, culpado do crime de injúria contra o então Presidente da República, em 1º de fevereiro de 1941.

Monteiro Lobato permaneceu preso na Casa de Detenção de São Paulo por quatro dias. Incomunicável, sem o direito de receber visitas, de conversar com outros detentos e de tomar banho se sol. No dia 28, Lobato recebe um pacote enviado por sua esposa, Purezinha, com roupas de baixo, aspirinas e produtos para sua higiene pessoal. Ele põe tudo de lado, desamassa o papel do embrulho e escreve ali uma carta a sua esposa.

“Purezinha, só contarei o que é a vida em prisão. É a gente sozinho com os pensamentos, nunca o pensamento trabalha tanto. Mas de tanto trabalhar acaba girando num círculo. Meu dever era só cuidar de tua felicidade, Purezinha, e no entanto passei a vida a te contrariar e a fazer asneiras que tanto nos estragaram a vida.”[…..] Estou preso há quase 3 dias e já me parecem 3 séculos. As horas tem 60.000 minutos. As noites não tem fim. Sou obrigado a não fazer nada. Não há o que ler – nem jornais. E a incomunicabilidade em que estou agrava tudo, porque me isola completamente do mundo exterior. Não posso falar com ninguém nem comunicar-me com ninguém.”*

Purezinha e Ruth, filha mais nova de Lobato, conseguiram visitar o escritor apenas no dia 30, num encontro que foi monitorado pelo chefe dos investigadores, Heráclito Arantes Correa, que registrou toda a conversa por escrito.

No meio da tarde, neste mesmo dia, Lobato foi conduzido novamente a sede do DEOPS onde foi interrogado e confirmou tudo que havia escrito ao Presidente da República, e ao General Goes Monteiro na qual, entre outras coisas, acusava o Conselho Nacional de Petróleo de retardar a criação da grande estrutura petrolífera nacional e de perseguir sistematicamente as empresas nacionais. O escritor reiterou ainda, a acusação de que o Conselho Nacional de Petróleo agia única e exclusivamente no interesse do truste Standard Royal Dutch, confirmando todo o teor da carta em questão, esclarecendo que suas afirmações ali se encontravam plenamente justificadas pelos fatos apresentados. Lobato também explicou que escreveu ao General Góes Monteiro uma outra carta onde tachava o Presidente da República de displicente, porque o mesmo não tomava, em relação ao petróleo, as medidas reclamadas por ele, em defesa dos interesses nacionais.

Perguntado se estava convencido “de que o Conselho não passava dum ingênuo instrumento do imperialismo da Standard”, Lobato respondeu que sim, esta era a sua convicção.

O inquérito contra Lobato foi concluído no dia seguinte, dia 1º de fevereiro de 1941 e remetido ao Procurador Gilberto Goulart de Andrade, do Tribunal de Segurança Nacional, no Rio de Janeiro, onde tramitou até o dia 18 de março daquele ano, quando o procurador do caso pediu a prisão preventiva de Monteiro Lobato, por entender que o pedido de passaporte para a Argentina feito pelo escritor, deixava clara a possibilidade de fuga do mesmo.

Uma nova prisão, dessa vez sob a alegação preventiva, aconteceu no dia 20 de março, quando Lobato foi recolhido à Casa de Detenção de São Paulo, mas antes teve o direito de fazer um telefonema à sua esposa. Desta vez Lobato está preparado e encara o período com serenidade. Mantém um diário onde relata as visitas recebidas. Logo nos primeiros dias, Purezinha, com a filha Ruth e a neta Joyce vão visita-lo e levam sua máquina de escrever portátil e papel.

Lobato trabalhou furiosamente, transformando o cárcere em escritório. Recebe visitas, escreve dezenas de cartas, denuncia as condições carcerárias do presídio e as torturas ali praticadas contra os presos políticos. De acordo com sua neta Joyce, o escritor ensina os presos a ler, além de dar aulas diárias de historia e de “conhecimento gerais” durante a sua permanência na prisão.

Os advogados de Monteiro Lobato, Hilário Freire e Waldemar Medrado Dias, para sua defesa apresentaram vários argumentos jurídicos em favor de sua absolvição, além de demonstrarem as enormes contribuições do escritor ao País, defendendo que não houve crime de injúria, visto que o teor das cartas não havia sido divulgado. A principal estratégia da defesa foi traçar um paralelo do grande escritor com as maiores personalidades literárias mundiais, culminando por considerá-lo como homem público, de letras e um patriota, que inclusive havia feito uma expressiva dedicatória em seu livro ‘O Escândalo do Petróleo’, com quatro edições esgotadas à época, às Forças Armadas brasileiras.

O julgamento do escritor aconteceu no dia 8 de abril de 1941, no Tribunal de Segurança Nacional, onde Lobato foi inocentado, tendo reconhecido o livre exercício do direito de crítica, dadas as relações de amizade entre o autor e o destinatário, o caráter sigiloso da carta e a ausência dos elementos materiais e morais do crime de injúria. Mas o veredito é apelado imediatamente e Lobato volta a prisão, e o Tribunal Pleno, reforma a sentença absolutória por unanimidade de votos,  e condena José Bento Monteiro Lobato à pena de seis meses de prisão.

Monteiro Lobato não se abateu, continuou a escrever cartas e a denunciar as péssimas condições da prisão.  Distribuía tudo o que lhe era enviado entre os presos e fez inúmeras amizades. O escritor descobre que pode usar a máquina de propaganda do Estado Novo em beneficio próprio e reacende a polêmica do Petróleo. Em uma das cartas à Geraldo Serra, escreve: “A quem perguntar pela minha ilustra pessoa – diga que estou ótimo, satisfeitíssimo, na sala livre, com um belo jardim para  passear à vontade e com ótimos companheiros.”  Em outra, ele chega a afirmar: “Estou como queria, colhendo o que plantei. A causa do petróleo ganha muito mais com a minha detenção do que com o comodismo palrador aí do escritório.”

Os amigos de Lobato se organizam e crescem as manifestações de apoio após a condenação, tanto de conhecidos quanto de pessoas anônimas. De dentro da prisão Lobato se transforma em porta-voz dos outros presos e escreve constantemente aos amigos pedindo emprego para alguém que está sendo solto e revisão de processo e soltura daqueles que já haviam cumprido a pena. Lobato fez grandes amizades durante os meses que permaneceu preso e recebeu presentes, cartas e visitas dos presos durante varios anos.

Do lado de fora amigos se movimentam, redigem abaixo assinados, falam com autoridades e finalmente apelam a Getulio Vargas. Até que após três meses de prisão, Getulio concede o indulto a Lobato. Ele é solto no dia  20 de junho de 1941 mas os jornais são proibidos de noticiar o fato e Getulio impõe censura total a Lobato, impedindo-o de dar entrevistas até Marco de 1945.

Mas a perseguição não parou por aí e Monteiro Lobato, que recusou convites para participar tanto do governo como do Partido Comunista, foi alvo de outras perseguições policiais, revelando a face autoritária deste período da nossa história. Seu livro Peter Pan, para crianças, foi tido como subversivo e apreendido por incitar os infantes a “doutrinas exóticas”, “práticas deformadoras do caráter”, pois ‘predispunham as crianças a doutrinas perigosas e a práticas deformadoras do caráter’.

Mesmo após a saída de Vargas, durante o governo do general Dutra, o escritor foi alvo da repressão política, tendo outro de seus livros, o Zé Brasil, apreendido pela polícia. Sobre este fato, numa entrevista dada ao jornal Folha da Noite, em 5 de fevereiro de 1948 Monteiro Lobato disse que era a própria Constituição quem lhe garantia o direito de “escrever histórias”.

O escritor morreu 5 meses após essa entrevista, sem saber quantas vezes esses fatos ainda se repetiriam, mesmo que Constituições afirmassem o direito ao pluralismo político e a livre expressão do pensamento.

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Referências bibliográficas:

https://www.causaoperaria.org.br/artigo/ha-80-anos-monteiro-lobato-era-preso-por-criticar-o-estado-novo/

http://oextra.net/434/ha-75-anos-monteiro-lobato-era-preso-pela-ditadura-vargas

https://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/31/monteiro-lobato-prisao-cadeia-vargas/

https://www.publishnews.com.br/materias/2019/05/24/a-prisao-de-monteiro-lobato

http://www.usp.br/proin/inventario/destaques.php?idDestaque=5

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/em-1941-monteiro-lobato-foi-preso-por-criticar-o-estado-novo.phtml

https://www.oabsp.org.br/sobre-oabsp/grandes-causas/a-prisao-de-monteiro-lobato

Carta de Lobato – Furacao na Botucundia, paginas 293-310

Jeca Tatuzinho: o anti-herói que virou símbolo nacional de saúde

Criado como retrato do homem do campo, lá no início do século 20, o personagem Jeca Tatu se transformou em um símbolo nacional de campanhas sanitaristas e de mobilização em torno da melhoria nos investimentos em saúde naquela época. Além de projetar o escritor Monteiro Lobato nacionalmente, ao longo do tempo o personagem sofreu mutações, saltando de um simples artigo de jornal, para dois livros e posteriormente como protagonista do Almanaque Fontoura, a maior peça publicitária da história do Brasil, que em 1990, atingiu a impressionante marca de 100 milhões de exemplares distribuídos.

Mas quem é e como surgiu o Jeca que nasceu Tatu e depois virou Tatuzinho, para fazer história e ajudar a transformar a saúde no nosso país?

É importante ressaltar que este texto não é, e nem tem a menor pretensão de ser, um artigo científico, algo que deixamos a cargo das inúmeras pessoas que dedicam suas vidas a pesquisar a vida e resgatar a vida e a obra de Monteiro Lobato. Este artigo busca resumidamente, sem o devido aprofundamento que um artigo científico exige, destrinchar a figura desse icônico personagem, desde a sua gênese até seu sucesso se transformando numa referência nacional que ainda hoje desperta a curiosidade, principalmente dos profissionais em publicidade.

Queremos, assim como Lobato brilhantemente fazia, provocar você leitor, a mergulhar cada vez mais fundo no universo lobatiano, despertando a sua curiosidade para desvendar os muitos ‘porquês’, além de estimular, quem sabe, novos estudos em torno das tantas curiosidades que esse gênio ainda hoje insiste em alimentar em nossa mentes.

Para escreve-lo, nós nos baseamos em dois trabalhos de pesquisa: na tese de mestrado em história do professor Evandro Avelino Piccino, “A persistência de Jeca Tatuzinho – Igual a si e a seu contrário”, para a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), em 2018; e na tese de doutorado em História Social, da professora Carmem Lúcia de Azevedo, “Jeca Tatu, Macunaíma, a preguiça e a brasilidade”, para a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, em 2012. Além da orientação e revisão do designer e bibliófilo Magno Silveira.

De acordo com o que encontramos, o Jeca nasceu Tatu em 1914, como parte da argumentação de dois artigos escritos para o jornal O Estado de S. Paulo: “Velha Praga” e “Urupês”. O primeiro, na verdade era uma carta escrita por Lobato para a seção de queixas e reclamações, mas que chamou a atenção dos editores do periódico, por seu conteúdo, que decidiram então publica-la como um artigo em destaque no jornal, no dia 12 de novembro daquele ano. O personagem foi a forma encontrada pelo escritor para expressar a sua revolta com a velha praga das queimadas provocadas pelos caboclos da Serra da Mantiqueira, local onde à época ele vivia a vida de fazendeiro, na propriedade herdada do avô, o Visconde de Tremembé.

Quarenta dias depois da publicação de Velha Praga, em 23 de dezembro, 1914, o mesmo jornal publicava “Urupês, um longo artigo de aproximadamente 3.400 palavras e organizado em duas partes. Na primeira, Monteiro Lobato coloca uma questão de fundo, da qual ele próprio se tornara um grande crítico: o “caboclismo”, uma representação idealizada do caboclo – e na segunda ele faz uma descrição detalhada do personagem Jeca Tatu, nome com o qual batizara o seu caboclo: “um piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome da carne onde se resumem todas as características da espécie.

Mas, na realidade, a idéia de concepção do personagem, a gestação do Jeca Tatu, propriamente dita, começou alguns anos antes, como demonstram algumas cartas escritas por Lobato ao amigo e colega de Cénaculo, Godofredo Rangel, com quem costumava se corresponder enquanto Lobato vivia sua experiência de fazendeiro. Numa carta, de fevereiro de 1912, Lobato comenta com o amigo, que andava pensando sobre uma teoria do caboclo como “o piolho da terra, o Porrigo decalvans das terras virgens”, e que essa sua teoria daria “um livro profundamente nacional”. Em abril daquele mesmo ano, o escritor confidencia a Rangel: “Vou ver se consigo escrever um conto, o Porrigo decalvans, em que considerarei o caboclo um piolho da terra, uma praga da terra”. Por fim, no dia 20 de outubro de 1914, numa nova correspondência, a última onde trata sobre o assunto com o amigo, antes de escrever a famosa carta para a seção de queixas e reclamações do jornal O Estado de S. Paulo, Lobato escreveu: “Contar a obra de pilhagem e depredação do caboclo. A caça nativa que ele destrói, as velhas árvores que ele derruba, as extensões de matas lindas que ele reduz a carvão. Havia uma gameleira colossal perto da choça, árvore centenária – uma pura catedral. Pois ele derrubou-a com ‘três dias de machado’ – atorou-a e dela extraiu… uma gamelinha de dois palmos de diâmetro para os semicúpios da mulher! […] Como aproveitou a gameleira, assim aproveita a terra. Queima toda uma face de morro para plantar um litro de milho”.

Com o título inspirado no urupê – um tipo de cogumelo parasitário que destrói a madeira – Monteiro Lobato publica, em agosto de 1918, Urupês, obra focada no personagem Jeca Tatu, que reúne uma coletânea de contos escritos pelo autor, além do artigo homônimo, escrito anteriormente para o jornal O Estado de S. Paulo, considerado a jóia do livro. Na segunda edição, o escritor incluiu o artigo jornalístico Velha Praga e assim o livro assume seu formato definitivo com 12 contos e 2 artigos, pela ordem: Velha Praga e Urupês.

Mas foi a partir das teses sobre saúde pública de Belisário Pena e Artur Neiva, que o próprio Monteiro Lobato reformulou o seu juízo sobre o Jeca, respondendo assim já na segunda edição de Urupês: “Está provado que tens no sangue e nas tripas um jardim zoológico da pior espécie”, admite então. “É essa bicharia cruel que te faz papudo, feio, molenga, inerte. Tens culpa disso? Claro que não.”

Se o Jeca Tatu nasceu como uma espécie de ‘anti-herói’ nacional nos dois primeiros artigos para O Estado de S. Paulo, ele passa a se transformar, à medida que o escritor vai conhecendo de perto o árduo trabalho dos sanitaristas da época, através das campanhas e expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz, em um símbolo da luta por melhores condições de saúde no Brasil. Essa mutação pode ser percebida, a partir de 18 de março de 1918, quando Lobato passa a escrever no mesmo jornal, uma série de artigos sobre saúde pública e saneamento, que posteriormente foram reunidos no livro “Problema Vital“, publicado no final daquele ano e onde afirma categórico: “O Jeca não é assim; está assim“, deixando claro que o estado lastimável em que se encontrava o caipira era culpa do descaso das autoridades públicas. Antes descrito pelo autor como um parasita, um piolho da terra, o Jeca passou a vítima da falta de atenção e investimentos em saúde por parte do governo.

Em 1919, Lobato propõe ao farmacêutico Cândido Fontoura, fundador e sócio majoritário do Instituto Medicamenta Fontoura & Serpe, de quem era amigo, o lançamento de Jeca Tatuzinho, um folheto publicitário, para o medicamento vitamínico Biotônico Fontoura (ankilostomina). O diminutivo do título, para ‘Jeca Tatuzinho’, segundo seu criador, se justificaria pelo pequeno formato da peça publicitária, semelhante a de um almanaque de farmácia, e não ao personagem Jeca Tatu. A ideia entretanto só sairia do papel em 1926.

Em 1924, Monteiro Lobato lança por sua própria editora o livro Jeca Tatuzinho, com capa dura, ilustrações do alemão Kurt Wiese e dirigido ao público infantil. A obra narra a história de um médico que se hospeda na casa do Jeca e fica  horrorizado com a condição da saúde do Jeca. O medico lhe dá instruções de como ir lá no mato e  pegar a erva de Santa Maria e prepará-la para matar o amarelão. Alem disso o médico o orienta tomar um vermifugo forte e sempre usar sapatos, pois a infecção ocorre por andar descalço! Este livro foi reeditado apenas mais uma vez em 1930, pela Cia. Editora Nacional, mantendo a capa dura, mas em tamanho maior do que a primeira edição. O enredo não mudou mas as ilustrações de Kurt Wiese da edição anterior, ganharam um novo projeto gráfico ocupando mais espaço, com cores mais vivas e texto mais rebuscado, sem a divisão em pequenos capítulos. Essa segunda edição trouxe ainda uma nota do autor, explicando que foi o texto do livro quem gerou a idéia do folheto (e não o contrário).

 A primeira edição do folheto publicitário Jeca Tatuzinho, patrocinado pelo laboratório Fontoura, foi finalmente publicada em 1926. Não há como precisar a data de produção e distribuição exata dessa primeira edição do Almanaque Fontoura porque nenhuma das primeiras edições, ilustradas por Kurt Wiese foi datada. Há indícios de que inicialmente o lançamento dessa que é considerada a maior peça publicitária de todos os tempos no Brasil, seria 1925, porém ele só aconteceu em 1926, através da distribuição dos primeiros exemplares nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo.

O Almanaque Fontoura continha a mesma história do livro Jeca Tatu mas agora com uma importante modificação: O médico passa a  receitar o Ankilostomina Fontoura para curar o amarelão e o Biotônico Fontoura para fortalecer o Jeca. O folheto era impresso em papel jornal, o formato pequeno (formato 11×15 cm), em preto e branco, com propagandas do Biotônico e da Ankilostomina Fontoura em seu interior. O Almanaque Jeca Tatuzinho tinha como estrutura narrativa, um texto composto por cerca de 2.200 palavras, apoiado por ilustrações e uma didática bem acessível às crianças, público prioritário do folheto. Dividido em 18 pequenos capítulos, cada um deles aberto por uma ilustração sintetizando visualmente o conteúdo e ocupando perto de dois terços da página. Com um total de 40 páginas, incluindo capa e contracapas, as edições ilustradas até 1939 pelo alemão Kurt Wiese são formadas por uma história narrada em 36 páginas e as demais preenchidas por anúncios de produtos do Instituto como o Biotônico e a Ankilostomina Fontoura. A argumentação do folheto respeita a clássica construção publicitária em dois momentos: o antes e o depois, com a narrativa apresentando inicialmente a frágil situação sanitária e de saúde do Jeca Tatuzinho, para depois dramatizar a quase milagrosa eficácia dos produtos do patrocinador. A partir de 1940, até 1957, a ilustração do Almanaque passou a ser feita pelo paulistano Jurandyr Ubirajara Campos, genro de Monteiro Lobato e pai de Joyce Campos, que ilustrou a publicação.

Outra curiosidade, é que muitas pessoas na época não sabiam ler e a saída que Lobato encontrou para tornar o Jeca Tatuzinho acessível ao maior número possível, foi falar com os adultos como quem fala com crianças, não apenas com textos bem simples, mas sobretudo utilizando ilustrações concebidas para se comunicarem por si só. Assim o simples folhear das páginas, combinado com a observação das figuras, facilitava a compreensão básica, embora superficial, do enredo. Desse modo, o papel dos ilustradores era muito importante na comunicação do personagem. O Almanaque Jeca Tatuzinho,somente passou a ser datado a partir de 1941, já com o ilustrador Jurandyr Ubirajara Campos, quando a publicação também passou a ser feita em duas cores e já acumulando naquela época, mais de 10 milhões de exemplares. A marca dos 12 milhões de exemplares foi atingida na 15ª edição, em 1958, quando o Almanaque passou a ser totalmente colorido. Já em 1962, a capa é redesenhada em cima de um desenho de Jurandyr Ubirajara Campos, ganhando um aspecto mais comercial e batendo a casa dos 32 milhões de exemplares distribuídos. Em 1973, quando o Brasil tinha apenas 100 milhões de habitantes, o Almanaque Jeca Tatuzinho ultrapassa a impressionante marca de mais de 84 milhões de exemplares. O Almanaque também foi editado em outros idiomas, como o alemão e o japonês, nos anos de 1940 sendo até hoje a peça publicitária de maior sucesso no Brasil!


REFERÊNCIAS

https://monteirolobato.com/evandro-avelino-piccino%20-jeca-tatuzinho.pdf

https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-10012013-100230/publico/2012_CarmenLuciaDeAzevedo_VCorr.pdf

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45254398

https://www.encontro2018.sp.anpuh.org/resources/anais/8/1525294469_ARQUIVO_eventoampuh.pdf

Lobato Publicitário

Escritor, tradutor, jornalista, pioneiro, homem de ação… são tantas as facetas de Lobato que algumas acabam ganhando pouco destaque e quando são lembradas, causam até certa surpresa. É o caso da sua da sua relação com a propaganda, que vai muito além do perfil de propagador de ideias. Lobato foi, numa época que esta profissão era incipiente, desenhista publicitário, técnico em anúncios, garoto-propaganda, pioneiro no uso da venda de anúncios para divulgar seus livros – isto dentro dos textos, usando de menções de um livro para vender outro, e fora, como anúncios – criou “jingles” e “slogans” e também fez parte da maior companha publicitária do Brasil.

Segundo a professora Paula Renata Camargo de Jesus, doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e mestre em Comunicação Social/ Comunicação Científica e Tecnológica pela UMESP, em “Poesia e arte na publicidade de medicamentos: um diálogo imprescindível na história da publicidade brasileira”, trabalho apresentado no Xº Congresso Nacional de História da Mídia, realizado na cidade de Porto Alegre, RS, Monteiro Lobato, sem recursos, precisou recorrer a patrocinadores para custear a publicação do livro “O Sacy Pererê, resultado de um inquérito”, seu primeiro livro, publicado com o pseudônimo Josbem, no início de 1918. O livro chegou ao público com quatro anúncios ilustrados por Voltolino na abertura, vendendo máquinas de escrever Remington, chocolates Lacta, cigarros Castelões, Caza Stolze (artigos fotográficos), além de outras três propagandas no fechamento: Casa Freire (louças e objetos de arte), Chocolate Falchi e Bráulio & Cia (drogaria e perfumaria). Ela cita ainda, que muito provavelmente, este deve ter sido o primeiro merchandising da publicidade brasileira, com produtos sendo oferecidos pelo personagem Sacy Pererê, em situações deliciosamente irreverentes.

Mas a campanha publicitária de maior sucesso que Lobato participou teve início com  a junção de sua experiencia como fazendeiro enter 1911-1917 e o movimento sanitarista de Oswaldo Cruz junto com sua amizade de longa data com Candido Fontoura. O movimento sanitarista permitiu um maior conhecimento das moléstias que assolavam o país. Esse movimento sensibilizou várias personalidades para a situação das moléstias endêmicas entre os brasileiros e a falta de saneamento básico existente, entre elas, Monteiro Lobato, que já era famoso à época. Graças ao contato com as pesquisas de Manguinhos, principalmente os trabalhos de Belisário Pena e Arthur Neiva, o levaram a se engajar numa grande campanha pelo saneamento do país, tendo como base a alteração da concepção do Jeca Tatu, nascido no artigo Velha Praga. A convivência com Arthur Neiva, Belisário Pena e outros pesquisadores, bem como a leitura do livro de Pena, “O saneamento do Brasil”, levaram o escritor a rever totalmente sua concepção do caboclo Jeca Tatu. No prefácio da quarta edição de Urupês, ainda em 1918, ele reconheceu: “Eu ignorava que eras assim, meu caro Jeca, por motivo de doenças tremendas. Está provado que tens no sangue e nas tripas todo um jardim zoológico da pior espécie. É essa bicharia cruel que te faz papudo, feio, molenga, inerte.”

Monteiro Lobato não parou mais. Indignado com a situação do país, se lançou numa vigorosa campanha jornalística em favor do saneamento, denunciando, sem medir palavras, a realidade nacional, apresentando estatísticas, como os 17 milhões de brasileiros com ancilostomose, três milhões com Chagas e dez milhões com malária. Ele ainda denunciou fraudes nos produtos consumidos pela população, além de ironizar os poucos recursos investidos na saúde pública. A campanha de Lobato acabou forçando o governo a dar atenção ao problema sanitário, começando pela criação de uma campanha de saneamento em São Paulo, sob o comando de Arthur Neiva. O código sanitário foi então remodelado e finalmente transformado em lei. O escritor reuniu seus artigos sobre a questão no livro “O problema vital.

Mas Lobato queria mais. Considerava imprescindível, mobilizar não apenas as elites, mas alertar e educar toda a população brasileira sobre as consequências da falta de saneamento. Ele escreveu então “Jeca Tatu – a ressurreição”, livro que ficou mais conhecido como “Jeca Tatuzinho”, em 1924. Este livro, de capa dura ilustrado por Kurt Wiese em preto e branco contava a história onde o nosso Jeca era visitado por um médico que o diagnosticava com verminose e lhe ensinava a receita de como fazer um vermifugo com a erva Santa Maria, que nasce no mato. Alem disso o médico mandava o Jeca usar sapatos e tomar um bom purgante. Quando o medico volta dali a um mês o Jeca é um homem novo, curado e revigorado!

De acordo com o escritor e biógrafo de Lobato, Edgard Cavalheiro, em “Vida e Obra de Monteiro Lobato”, o primeiro grande trabalho do escritor como publicitário foi quando ele adaptou seu livro homônimo, tendo Jeca Tatuzinho como protagonista, para a o folheto de propaganda de dois preparados farmacêuticos, o “Biotônico” e a “Ankilostomina Fontoura”. fazendo campanha contra a ancilostomose (amarelão), uma verminose contraída quando entramos em contato com o solo contaminado por fezes. Esses vermes entram através da sola dos pés e chegam à corrente sanguínea e atingem o sistema digestivo, onde se desenvolvem, passando ali a se alimentam de sangue e podendo provocar anemia em casos mais graves.

Na disssertacao de mestrado do professor Evandro Avelino Piccino “Jeca Tatuzinho: um ‘causomemorável da história da publicidade brasileira”, para a PUC/SP, disponível no banco de teses aqui do nosso site, o professor relata que o lançamento do panfleto aconteceu em 1926, e se chamou Jeca Tatuzinho. Neste almanaque Lobato basicamente pegou sua historia original do seu livro homônimo e alterou para o medico receitar od produtos do laboratório do seu amigo Cândido Fontoura. Desta vez, o medico após ver o paciente com verminose, fraco, receita Ankilostomina Fontoura como vermifugo e para recuperar as forças, o Biotônico Fontoura. O folheto original é uma publicaçao barata, em papel jornal, com ilustrações em preto e branco feitas pelo Alemao Kurt Wiese que ilustrou o almanaque até 1939 quando foi substituído pelo paulistano Jurandyr Ubirajara Campos, genro de Monteiro Lobato que por sua vez, ilustrou o almanaque entre 1940 e 1957. Jeca Tatuzinho, em seu formato original, foi publicado de 1926 regularmente até 1973. Um ano depois, em 1974, a historia passa a ser editada em quadrinhos, e circulou até o ano de 1988.

Do ponto de vista publicitário, não só a história era uma peça publicitária mas tambem, o folheto continha anúncios do Biotônico e do Ankilostomina Fontoura recomendados pelo médico na história. O almanaque Jeca Tatuzinho é considerado a peça publicitária de maior sucesso na história da propaganda brasileira, inspirando inclusive a agência Castelo Branco e Associados, a criar em 1982, o Prêmio Jeca Tatu numa homenagem “à obra-prima da comunicação persuasiva de caráter educativo, plenamente enquadrada na missão social agregada ao marketing e à propaganda”. De acordo com a publicação “Vendendo Saúde – A História da Propaganda de Medicamentos no Brasil”, publicada pela Anvisa, no portal Gov.br, o Almanaque Fontoura alcançou na década de 1980, a incrível marca de 100 milhões de exemplares distribuídos.

Monteiro Lobato não apenas redigiu, mas chegou também a ilustrar anúncios do Biotônico Fontoura, além de acompanhar o amigo no lançamento e na sustentação do Almanaque do medicamento, protagonizado pelo personagem Jeca Tatu, que passou a ser chamado Jeca Tatuzinho.

Em artigo de Julho de 2020, no portal “SP in Foco”, o jornalista Abrahão Oliveira afirma que o nome do medicamento, seria uma homenagem ao seu criador, o farmacêutico Cândido Fontoura Silveira, que teria criado uma fórmula rica em ferro para a sua esposa, que sofria com muito cansaço e tinha o físico debilitado. Com os bons resultados do seu tônico, ele decidiu então fundar em São Paulo, em 1910, aos 25 anos de idade, uma fábrica/farmácia para produzir seu tônico em escala comercial. Essa era uma prática normal no início do século 20. Ainda de acordo com a publicação, Cândido não conseguia pensar em um bom nome comercial para o medicamento e aí entra a figura de José Bento Monteiro Lobato, acostumado a usar técnicas publicitárias em seus livros e que teria então sugerido o nome de “Biotônico Fontoura”. Essa informação porém, não é confirmada pelo fabricante em seu site oficial, que apresenta apenas um breve resumo histórico, citando Monteiro Lobato como padrinho de peso da marca e criador do “Almanaque Fontoura”.

Em nossas pesquisas não encontramos referências à remuneração ou não desse trabalho, e se tivesse ocorrido, de que modo teria sido essa remuneração? O artigo “Estudos Mediáticos da Publicidade Infantil: Proposta de análise do discurso publicitário na interface com o discurso literário”, publicado na revista Pensamento & Realidade da PUC, das professoras Lívia Silva de Souza e Cinira Baader, cita que a diferença entre Monteiro Lobato e outros escritores e poetas que redigiram propagandas na época, é o fato de que ele fazia isso gratuitamente, como uma simples troca de favores, sem maiores detalhes. Embora isso classifique o personagem Jeca Tatuzinho como atividade publicitária não profissional, a obra ainda hoje é uma referência da redação publicitária brasileira, sendo o Jeca Tatuzinho, o mais longo texto publicitário escrito em forma de história de ficção no Brasil.

Além do Biotônico Fontoura, o publicitário Monteiro Lobato também contribuiu com ideias publicitárias para a editora que levava o seu nome, bem como com a “Revista do Brasil”, fundada por ele, e que se tornou um importante veículo de propaganda para o escritor. Lobato uniu o seu talento publicitário com a sua veia jornalística, para fazer a propaganda comercial da sua companhia de petróleo. Fundou ainda um jornalzinho-revista chamado “Coisas Nossas”, que ajudou a tornar mais fácil a penetração no mercado, das coisas que ele vendia, ressaltando a sua veia estratégica para os negócios.

É interessante registrar que a fórmula original do Biotônico Fontoura possuía 9,5% de álcool etílico, o que levou a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a obrigar a empresa a modificar a fórmula do medicamento em 2001. A revista Veja SP, no artigo “Dez curiosidades sobre o Biotônico Fontoura”, relata que o medicamento foi exportado em grande quantidade para os Estados Unidos, durante a Lei entre os anos de 1920 e 1933. Por ser um remédio, apesar do seu teor alcoólico, a sua venda nos Estados Unidos foi permitida.

O artigo “Lobato Publicitário” publicado pelo site Almanaque Urupês, ainda nos revela que como publicitário, Lobato também vivenciou o papel de ‘garoto propaganda’ no modelo testemunhal, tão comum nos dias de hoje, atestando a qualidade de produtos para empresas de propaganda, como o fac-símile de um anúncio sobre máquina de escrever.

Uma pesquisa mais aprofundada sobre a vida do escritor, nos revela o seu olhar inovador na área da publicidade no Brasil. É fácil perceber que é a partir de Lobato que a propaganda começa a se desenvolver no país. Indiscutivelmente Monteiro Lobato era dono de um talento ímpar e possuía um processo criativo ilimitado. Lobato soube, como poucos, percorrer os mais diferentes caminhos ao longo de sua vida. Pesquisar esse universo lobatiano, é mergulhar num mar de infinitas possibilidades e que nos desperta um desejo imenso de ir cada vez mais fundo.

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REFERÊNCIAS

almanaqueurupes.com.br/index.php/2013/04/18/lobato-publicitario/

http://almanaqueurupes.com.br/index.php/2013/09/10/o-caipira-de-rui-barbosa/

https://www.revistas.usp.br/comueduc/article/view/43279/46902

colecionadordesacis.com.br/2018/01/24/monteiro-lobato-jeca-tatuzinho-1925/

https://revistas.pucsp.br/index.php/pensamentorealidade/article/view/7560/5500

http://www.ppe.uem.br/publicacoes/seminario_ppe_2009_2010/pdf/2010/021.pdf

https://dspace.mackenzie.br/bitstream/handle/10899/25191/Rog%c3%a9rio%20Aparecido%20Martins.pdf?sequence=1&isAllowed=y

https://docplayer.com.br/19902885-Poesia-e-arte-na-publicidade-de-medicamentos-um-dialogo-imprescindivel-na-historia-da-publicidade-brasileira-1.html

http://www.poeteiro.com/2019/09/lobato-publicitario-resenha.html

zolerzoler.wordpress.com/2019/03/14/monteiro-lobato-na-publicidade-biotonico-fontoura/

https://www.encontro2018.sp.anpuh.org/resources/anais/8/1525294469_ARQUIVO_eventoampuh.pdf

https://vejasp.abril.com.br/coluna/memoria/dez-curiosidades-sobre-o-biotonico-fontoura/

https://www.biotonicofontoura.com.br/historia-da-marca

http://memoria.bn.br/pdf/102725/per102725_1948_00004-00005.pdf

https://revistaesa.com/ojs/index.php/esa/article/view/165/161

Observatório Monteiro Lobato

Nota: Este artigo foi escrito a partir de diversas entrevistas concedidas via WhatsApp pela professora Vanete ao jornalista Ricardo Aguiar, autor deste artigo, em novembro do ano passado. Nestas entrevistas, a professora Vanete explicou sobre a gênese do grupo e a especificidade e originalidade da linha de pesquisa sobre a questão do não-racismo [1] na obra do escritor. O Grupo Observatorio Lobato parte do pressuposto de que Lobato não era racista.

Atualmente, temos conhecimento de dois grupos de estudos que se dedicam a pesquisar a vida e a obra de Monteiro Lobato; o grupo Lobato em Rede, liderado pela professora Milena Martins e o grupo Observatório Lobato, que tem como sua principal coordenadora a professora Vanete Santana Dezmann.

Para entender o surgimento do grupo, é preciso fazer uma conexão a outros dois movimentos nascidos da iniciativa da professora Vanete Santana-Dezmann e do professo John Milton: as Jornadas Monteiro Lobato e os Encontros com Lobato. O primeiro surgiu em 2019, com a realização da primeira Jornada nos dias 17 e 18 de dezembro daquele ano na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, reunindo presencialmente pesquisadores de temas relacionados a Lobato e sua obra.

No início de 2021, a professora Vanete e o professor John, criaram, a partir das Jornadas, os Encontros com Lobato – uma série de palestras, debates e entrevistas mensais também dedicadas ao autor e sua obra e que trouxe para o grupo o professor Sílvio Tamaso D’Onofrio, pesquisador não apenas de Lobato, mas também de Edgar Cavalheiro, biógrafo do autor, e a pesquisadora, bacharel em Letras, Taís Diniz Martins.

Assim, na esteira desses eventos, foi nascendo o grupo de estudos Observatório Lobato, que é voltado a investigar a questão das acusações de racismo que passaram a envolver o escritor há cerca de 15 anos, tendo como ponto de partida específico a ideia de que o escritor não era racista. O Observatório parte da premissa de que antes de qualquer acusação é preciso que seja feito um estudo aprofundado, detalhado do que estava acontecendo no mundo naquela época e somente a partir daí fazer a correlação entre a obra de Lobato dentro do contexto histórico da época em que viveu.

A única exigência para ser aceito como integrante do Observatório é que o membro seja desprovido de qualquer pré-conceito e esteja disposto a estudar profundamente a vida e a obra do escritor antes de qualquer posicionamento. Todos os resultados desses estudos aprofundados sobre o escritor e sua obra, são sempre debatidos e acatados sejam lá quais forem. Ainda sobre seus integrantes, não há um processo específico de seleção. Eles não necessariamente precisam ser do meio acadêmico, mas obrigatoriamente devem se apresentar desprovidos de qualquer pré-julgamento, precisam chegar no grupo sem acusar Lobato e sua obra de racismo.

Nós normalmente não escolhemos as pessoas, elas chegam até nós. As pessoas nos procuram e dizem eu gostaria de fazer parte do grupo tal e normalmente nós analisamos o currículo da pessoa, não com caráter eliminatório, apenas para saber onde ela poderá se encaixar melhor. Nós procuramos entender quais são os interesses dessa pessoa, o que pode ser mais útil para ela, quais os benefícios que ela poderá ter ao fazer parte do grupo e daí nós marcamos uma conversa para deixar claro que nós não temos preconceito e não queremos no grupo pessoas que tenham preconceito. Por fim nós conversamos, já vemos qual pode ser a função da pessoa dentro do grupo de acordo com o que for interessante para ela e para o próprio grupo”, explica a Dra. Vanete Santana-Dezmann.

O grupo se reúne desde o início do ano passado, sem uma frequência pré-estabelecida e as reuniões acontecem sempre que necessário. Em geral no começo do ano, quando o grupo precisa definir quais serão as pesquisas para o decorrer do ano, depois no meio do ano, quando é necessário analisar o andamento das pesquisas, e no final do ano, para organizar as o evento anual Jornadas Monteiro Lobato. Além disso, o grupo também se reúne informalmente uma vez por mês, sempre numa quarta-feira, nos chamados Encontros com Lobato, transmitidos pelo canal da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, no YouTube. Os integrantes do Observatório têm total liberdade para desenvolverem suas pesquisas conforme a sua disponibilidade de tempo, não havendo um cronograma pré-estabelecido para a conclusão de cada estudo.

“O principal objetivo do grupo é analisar a obra de Monteiro Lobato, estabelecendo as correlações com sua biografia e com o momento histórico, com base em profundas e detalhadas investigações, por muitas vezes parecendo aquele trabalho investigativo desenvolvido por detetives. Isso é necessário para descobrir elementos, fatos, detalhes que muitas vezes estão lá, em livros de história, mas que acabam passando despercebidos até mesmo aos olhares mais atentos.” “Um exemplo clássico é que todas as pessoas que escreveram sobre o livro O presidente Negro, escreveram que a obra é tão racista que nem os norte-americanos quiseram publicá-lo. A partir de uma pesquisa de detetive eu descobri que o livro não foi publicado porque a mecenas da literatura, de todas as artes, mas sobretudo da literatura em Nova York, nos anos 1920 e 1930, era filha da Madame CJ Walker e essa moça, A’Lelia Walker, era a herdeira da fábrica de alisante de cabelo Madame CJ Walker. Quer dizer, o problema não estava no livro, mas estava em quem financiava, quem bancava os editores nos Estados Unidos na época. Então informações como essas estavam presentes ali o tempo todo, mas ninguém tinha olhado para ela. Ninguém tinha estabelecido essa relação e um dos principais objetivos do nosso grupo é justamente estabelecer as relações”, explica a professora Vanete nesta entrevista concedida em novembro do ano passado.

As pesquisas concluídas têm seus resultados apresentados na forma de palestras nos Encontros com Lobato ou nas Jornadas Monteiro Lobato, dependendo da época em que ela é concluída. Além da apresentação em palestras, o material normalmente é transformado em artigo, indo para um dossiê do Observatório, para o livro das Jornadas Monteiro Lobato ou ainda para outro meio de divulgação de trabalho científico.

No site do Observatório você encontra uma lista com vários trabalhos realizados pelo grupo, entre eles, destaque para a análise de O Presidente Negro, publicada no livro chamado Entre Metafísica a Distopia e Mecenato, escrito pela professora Vanete Santana-Dezmann e publicado no ano passado. Outro trabalho interessante é a tradução de Reinações de Narizinho para o alemão, livro publicado também no final do ano passado na Alemanha. Ambas as obras foram lançadas no Brasil em 2022.

Para saber mais sobre o Observatório Monteiro Lobato, conhecer os membros do grupo e os trabalhos já realizados, basta acessar o site: https://www.observatoriolobato.org/

Se você é uma pessoa que aprecia a boa literatura, destituída de preconceito e que está disposta a investigar o universo lobatiano com o objetivo de trazer à luz o autor e sua obra sem filtros, vale muito a pena conhecer o trabalho do Observatório Lobato e quem sabe integrar esse respeitadíssimo grupo de pesquisa sobre um dos mais brilhantes e aclamados escritores brasileiros.

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REFERÊNCIAS:

Texto escrito com base em pesquisa ao site https://www.observatoriolobato.org/ e entrevistas via Whatsapp, concedidas pela professora Vanete Santana-Dezmann ao autor  deste artigo, o jornalista Ricardo Aguiar, em novembro de 2022.


Lobato e a democracia

Todos nós brasileiros falamos em DEMOCRACIA. Mas será mesmo que sabemos o seu significado, entendemos e respeitamos o seu real conceito?

Democracia não se resume apenas a eleições, ao direito ao voto, afinal em ditaduras também ocorrem eleições, assim como havia no Brasil durante o regime militar, na Russia e até mesmo em regimes totalitários como a Coréia do Norte. Nesses regimes, as eleições ajudam a dar uma máscara democrática e de legitimidade, mesmo que elas não sejam livres e nem competitivas. Democracia também não se resume apenas ao poder da maioria no momento de alguma escolha, muito menos ao simplório conceito de “governo do povo”.

Fato é que o conceito de democracia precisa observar uma série de aspectos. Em linhas gerais, podemos conceituá-la como o exercício do poder político por parte do povo, e o exercício da cidadania – direitos e deveres civis políticos e sociais previstos pela constituição federal.

É importante lembrarmos, que de acordo com o artigo primeiro da nossa Carta Magna, o Brasil é um Estado Democrático de Direito. Mas será que todos nós sabemos o que isso significa? O Estado Democrático de Direito pode ser definido pela soberania popular, por uma Constituição elaborada conforme a vontade do povo, por eleições livres e periódicas, por um sistema de garantia dos direitos humanos e pela divisão dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário – independentes e harmônicos entre si – fiscalizados mutuamente.

Durante toda a sua vida, Monteiro Lobato foi um grande defensor do Estado Democrático de Direito e da democracia brasileira. Certamente, seria uma das principais vozes a se levantar contra o triste episódio que assistimos no último dia 8 de janeiro, que atentou não apenas contra os três poderes democraticamente constituídos, mas contra a nossa democracia e a soberania nacional.

Infelizmente o desrespeito a democracia é algo que volta e meia assombra o nosso país. Foi assim com Julio Prestes, o único presidente eleito impedido de assumir na história do Brasil. Prestes ganhou a eleição para presidência da República em 1930, com o apoio de 17 dos 20 estados brasileiros, em uma disputa bastante acirrada e cercada de acusações de fraudes por ambos os lados. Ele teve pouco mais de um milhão de votos, cerca de 300 mil a mais do que Getúlio Vargas, seu adversário. Após sua vitória, Prestes viajou ao exterior, sendo recebido como presidente eleito em Paris, Londres, Washington e Nova Iorque, onde Monteiro Lobato (adido comercial à época) e a comitiva do presidente eleito, foram recebidos pelo presidente estadunidense Herbert Hoover.

Mas aqui no Brasil, governantes que apoiaram o candidato derrotado, inconformados com o resultado das eleições, criaram a chamada ‘Aliança Liberal’, um movimento armado, liderado pelos estados do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba. No dia 26 de julho, João Pessoa, candidato derrotado à vice-presidência na chapa com Getúlio Vargas é assassinado, fato que acaba acelerando os preparativos para um golpe antidemocrático. Alçado à condição de mártir, João Pessoa foi enterrado no Rio de Janeiro e seu funeral provocou grande comoção popular, levando setores do Exército a apoiar a ideia do golpe de 1930.

Sob a liderança do golpista Getúlio Vargas e do tenente-coronel Góes Monteiro, no dia 3 de outubro várias ações militares tem início no Rio Grande do Sul, em Minas Gerais e no Nordeste. Os militares passaram a exigir a renúncia do presidente Washington Luís, que se negou a renunciar. Porém no dia 24 de outubro de 1930, ele é deposto da presidência da República e o país passa a ser governado por uma junta militar até o dia 3 de novembro, quando Getúlio Vargas, o arquiteto de todo esse golpe antidemocrático toma o poder através do chamado Governo Provisório.

Esse “Governo Provisório”, chefiado por Vargas, teve, no chamado grupo dos “tenentes”, um dos seus principais pilares de sustentação política. Vários líderes militares ocuparam cargos de importância na administração federal e nos estados. Porém, grupos regionais, numa tentativa de retomar posições que haviam perdido reagiram, pedindo uma nova Constituição para o Brasil. Esse conflito político aumentou e acabou provocando um novo movimento político em São Paulo, que ficou conhecido com a Revolução Constitucionalista de 1932. Depois de três meses de luta contra as forças federais, em outubro de 1932, os paulistas acabam se rendendo. Porém, consciente da importância dos paulistas e de olho em conseguir esse apoio político, Vargas estrategicamente cede à exigência de uma Constituição.

Assim, no dia 16 de julho de 1934, é promulgada a nova Constituição Federal e quatro dias depois, Getúlio Vargas foi empossado presidente constitucional (ou seja, de acordo com a Constituição), eleito por voto indireto pelo Congresso Nacional. Pela nova Constituição o mandato de Vargas deveria durar até 1938 e o seu sucessor deveria ser escolhido por eleição direta, o que acabou não acontecendo. Em 1937 a ditadura de Vargas se tornou uma realidade, com um golpe de estado, a extinção do parlamento, a censura aos meios de comunicação oficializada e a proibição dos partidos políticos. O ditador Getúlio Vargas permaneceu no poder até 1945, quando desprestigiado e pressionado interna e externamente pela democratização do país, foi deposto sem luta, pelos militares, no dia 29 de outubro de 1945, encerrando ali o chamado período do Estado Novo.

A relação conturbada entre Lobato e Getúlio Vargas, culminou com a prisão do escritor em 1941, por ele discordar da política governista para o setor petrolífero nacional, que privilegiava empresas estrangeiras e criava barreiras para as nacionais. Mais adiante, Vargas descaradamente, ainda roubou os ideais de Monteiro Lobato para criar a Petrobrás, em 1953.

Apesar de toda perseguição sofrida, a prisão e a censura que o impossibilitou de dar entrevistas ou escrever para jornais da data da sua soltura em 20 de junho de 1941, até o final da ditadura Vargas, em 1945 quando Vargas foi deposto, Lobato sempre manteve o respeito às instituições, às leis e à ordem.

O escritor sempre combateu suas discordâncias ou se defendeu de seus perseguidores, de modo absolutamente democrático. Já em agosto de 1932, após a Revolução de ’30, preocupado com o rumo anti-democrático do Governo Novo, Lobato escreve uma carta-manifesto pela democracia brasileira, dirigida à Waldemar Ferreira, então secretário da Justiça e Segurança Pública do Governo Constitucionalista Revolucionário de São Paulo, fazendo críticas ao crescente “militarismo federal” e considerando a insurreição uma “guerra de independência”, declarando que: “São Paulo, depois da vitória, deverá expressar-se na fórmula Hegemonia ou Separação”, título que deu ao documento.

Na verdade Monteiro Lobato soube como poucos usar sua voz e suas prerrogativas como cidadão em um regime democrático, para defender o desenvolvimento do Brasil e

cobrar melhores condições de vida para o povo brasileiro, independente de governo ou de partidos. O cidadão Monteiro Lobato, não precisou desrespeitar qualquer um dos poderes democraticamente constituídos para sacudir o Brasil de alto a baixo, apontando ao povo brasileiro os caminhos para a sua emancipação econômica, cultural e social. Entre as bandeiras que defendeu em vida, podemos destacar a sua imensurável contribuição para a nossa independência cultural, o combate ao analfabetismo, a luta por uma escola modelo e a revolução pedagógica sonhada por ele, a melhoria da saúde pública, a modernização industrial e o investimento tecnológico.

A figura secular de Monteiro Lobato e o seu exemplo de respeito à democracia, ao estado democrático de direito e principalmente, no combate à corrupção, precisa ser reavivada através da sua obra, junto aos mais jovens, para que momentos como este que vivenciamos recentemente, não sejam jamais aceitáveis, quais forem as desculpa.

REFERÊNCIAS

https://www.politize.com.br/democracia-o-que-e/?https://www.politize.com.br/&gclid=CjwKCAiA5Y6eBhAbEiwA_2ZWISNLSyujNlwK1189gvAoqx7EBJkmwVxPdtlM_JBvbQlJc2MvN1tZmhoCF_gQAvD_BwE

https://mundoeducacao.uol.com.br/sociologia/democracia.htm

https://www2.jornalcruzeiro.com.br/materia/410281/julio-prestes-eleito-presidente-da-republica-nao-assumiu-o-cargo

https://www.sohistoria.com.br/ef2/eravargas/p3.php

https://otavianodeoliveira.blogspot.com/2010/11/monteiro-lobato-x-getulio-vargas.html

http://www.nordeste2017.historiaoral.org.br/resources/anais/7/1493768366_ARQUIVO_ARTIGODANIELEHON.pdf

monteirolobato.com/linha-do-tempo/1931-1939-a-luta-de-lobato-pelo-petroleo-e-ferro/

http://www.rio.rj.gov.br/dlstatic/10112/4244908/4104910/H9_3BIM_2013_ALUNO.pdf

https://www.ebiografia.com/getulio_vargas/

https://www.unicamp.br/iel/memoria/Ensaios/RepublicaVelha.htm

Lobato inspira produções Independentes

O universo mágico de Monteiro Lobato tem inspirado cineastas a viajarem, através da sétima arte, em produções independentes com adaptações livres, que apesar de não retratarem diretamente a obra do escritor, ajudam a estimular a curiosidade das pessoas para conhecerem as historias do Sitio do Pica-Pau Amarelo.

É o caso de “Emília no país da literatura”, um roteiro adaptado livremente, inspirado no livro “Emília no país da Gramática”, pelo cineasta e ex-secretário de Cultura da cidade de Taubaté, Dimas Oliveira Junior. O filme foi gravado em Taubaté, onde nasceu Monteiro Lobato, antes da pandemia de Covid-19, em 2019, tendo como protagonista, a provocadora, questionadora e curiosa boneca Emília.

De acordo com o cineasta, a ideia surgiu a partir da curiosidade de como a boneca de pano mais famosa do Brasil reagiria se vivesse nos dias de hoje. Como ela lidaria com os avanços tecnológicos de um mundo dominado pelas redes sociais, por exemplo? A observação curiosa de Dimas, inclusive no comportamento de seus netos, que assim como outras milhares de crianças, desenvolveram uma dependência obsessiva pelas redes sociais e pelo universo digital, também ajudou a estimular o desenvolvimento do roteiro do filme.

Na história, Emília, usando o pó de pirlimpimpim, se transporta para o futuro e começa a conhecer pessoas que vivem em um mundo absolutamente conectado às redes sociais, bem diferente do Sítio do Pica-Pau Amarelo que ela conhece. A boneca estranha essa nova vida futurista, mas logo se adapta e acaba se transformando em uma digital influencer. Percebendo o sumiço de Emília, a turma do Sítio decide procurar o Visconde de Sabugosa, confidente da boneca, e juntos descobrem que ela foi conhecer o futuro. Embarcam então nessa viagem para buscar Emília, que está aprontando poucas e boas com a sua nova turma no futuro.

No filme, parte da história se passa no século 20, tendo como cenário o sítio do Pica-Pau Amarelo com as filmagens feitas na Fazenda Barreiro – que foi residência de Dona Chiquinha de Mattos, dama benemérita do período imperial, na cidade de Taubaté. Já a outra parte da história se desenrola no século 21, com cenas gravadas em locações externas e no colégio São José. A produção é assinada por Luana Dias, com caracterização de Greison Oliveira; direção de Dimas Oliveira Junior e Jefferson Mascarenhas; e edição e finalização de Ricardo Cabral de Vasconcellos, “Emília no país da informática” conta com Juju Salini (no papel de Emília), Claudia Savastano (Dona Benta), Lixa Palosa (Tia Nastácia), Jefferson Mioni (Visconde de Sabugosa), Gabriela Dias (Narizinho), Eduardo Lucas (Pedrinho) e grande elenco.

O filme está disponível no Youtube, no Canal Arte & Cultura neste link: https://www.youtube.com/watch?v=tZNRAUezyd0&t=111s

NOVO PROJETO A CAMINHO

Em janeiro de 2023, Dimas Oliveira está iniciando um novo projeto com as gravações de uma série intitulada “Aventuras da Emília e do Visconde no Sítio”, uma parceria do Ponto de Cultura Magdalena Guisard e a 711 Produções, responsável pela pré-produção. A princípio a mini série terá 10 episódios com 30 minutos de duração cada um. As locações da série que trará adaptações de vários dos livros do escritor, começando por “Reinações de Narizinho”, vão acontecer nas cidades de Taubaté, Pindamonhangaba e Tremembé, no Vale do Paraíba, interior do estado de São Paulo. Entre as novidades, a produção dever dar nova vida a personagem Tia Nastácia completamente repaginada, inspirada na criação da bisneta do escritor, Cleo Monteiro Lobato.

O primeiro episódio deve ser exibido no dia 18 de abril de 2023, dia do nascimento de Monteiro Lobato e também Dia Nacional da Literatura infanto-juvenil brasileira. A princípio a exibição será feita através do Canal Arte e Cultura do Youtube, sendo liberada também para plataformas de streaming. A ideia é apresentar o projeto para emissoras de TVs à cabo, fechadas e abertas para futuro licenciamento.

O seriado conta com direção de Dimas Oliveira Junior, responsável por produções como “O Mágico de Inox”, “O Pássaro Azul”, “Era uma Vez”, além de diversos documentários biográficos, entre eles “Dona Leopoldina, da Áustria para o trono do Brasil”. Para compor o elenco de “Aventuras da Emília e do Visconde no Sítio”, a equipe de produção realizou uma seleção, entre atores mirins da cidade de Taubaté, selecionando Larissa Eloise para o papel de Emília, Kauã Freitas para viver Pedrinho, Manuela Brigagão na interpretação de Narizinho, além de grande elenco, composto por novos talentos mirins da região. Entre os atores especialmente convidados para o seriado, estão  Jefferson Mioni (Visconde de Sabugosa), Lixa Palosa (Tia Nastácia) e Sandra Théa (Dona Benta). Profissionais da área artística como Jean Visconti (programa Super Star, da Rede Globo), e Jefferson Mascarenhas (novela Jesus, da Rede Record), entre outros convidados, farão uma participação especial em cada episódio. A produção reúne ainda Marcelo Caltabiano (Diretor de Fotografia), Gamouye Produções Audiovisual (Pós produção e efeitos especiais), Rodrigo Patrício (Direção de Arte), Rafael Prando (Produção Executiva), Gabriel Schetini (responsável pela adaptação da obra de Lobato, em conjunto com o diretor Dimas Oliveira Junior).

Acreditamos que essa produção vai ajudar na perpetuação da obra literária de Monteiro Lobato, além de conquistar mais uma fatia do grande público”, explica Dimas Oliveira Junior, que assina a direção geral da série.

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REFERÊNCIAS:

** Entrevista com o cineasta Dimas Oliveira Junior

Entre Metafísica, Distopia e Mecenato

Lançada no final do ano passado na Alemanha, esse novo trabalho da pós-doutora pela Universidade de São Paulo, é resultado de uma audaciosa e corajosa pesquisa, com o intuito de compreender por que O choque das raças ou O presidente negro, publicado em dezembro de 1926, único romance de Monteiro Lobato, não foi editado nos Estados Unidos, como era desejo do autor, manifestado em algumas de suas cartas.

Não há qualquer exagero em afirmar que foram precisos quase cem anos depois de sua publicação original, para que pela primeira vez, O presidente negro tenha sido lido e analisado em profundidade, o que definitivamente também não esgota a obra, mas abre perspectivas para que surjam novas análises.

O choque das raças ou presidente negro de Lobato foi lançada em abril deste ano nos Estados Unidos, sob o título The Clash of the Races, com tradução de Ana Lessa- Schmidt, edição de Glenn Alan Cheney e introdução da própria Vanete Santana-Dezmann.

O LIVRO

De acordo com o Observatório Monteiro Lobato, grupo de pesquisa dedicado a investigar as acusações de racismo que recaem sobre o escritor e sua obra, O choque das raças ou O presidente negro é a primeira distopia de que se tem notícia publicada em forma de livro. Apenas para uma melhor compreensão, o termo distopia geralmente é colocado dentro de uma perspectiva contraposta ao que seria utopia, sendo a diferença entre esses termos, o ponto narrativo. Ou seja, enquanto a distopia pode ser entendida como a narrativa de um mundo caótico, a utopia faz a narrativa de um mundo perfeito.

Nesse livro a Dra. Vanete confronta a acusação de que O choque das raças ou O presidente negro, seja uma obra racista, argumentando por exemplo, que o termo eugenia é usado com quatro sentidos diferentes, sendo o darwinista apenas um deles. A título de esclarecimento, dois desses sentidos são dicionarizados; a eugenia positiva e a eugenia negativa. Os outros dois são construídos através da narrativa do livro, usados de modo metafórico e para compreende-los, é indispensável a leitura de Entre Metafísica, Distopia e Mecenato, já lançado no Brasil. Na verdade, de acordo com a pesquisadora, O choque das raças ou O presidente negro faz um alerta para os perigos da aplicação da eugenia negativa, em oposição à eugenia positiva, da qual fazem parte, por exemplo, as campanhas de vacinação.

Dezmann reforça nesse trabalho investigativo, que todas as menções feitas aos negros no livro publicado em 1926, só os enaltecem e destacam seus direitos. “A moral do livro é que devemos assumir nossas características e valorizarmos o que somos. Os negros não devem, por exemplo, mudar sua aparência para serem aceitos”, explica a autora. Ela destaca ainda, que o livro contém um verdadeiro tratado, até agora ignorado pelos chamados “especialistas” em Monteiro Lobato e sua obra, sobre o que é o universo e quem é Deus, antecipando em 40 anos a Teoria das Cordas, um modelo físico que tenta unificar a teoria da relatividade e a mecânica quântica. “Tudo isso só nos leva a concluir que há sobejos motivos para que este livro seja celebrado. É por isso que sua publicação em inglês que saiu recentemente nos Estados Unidos, é motivo de grande alegria e a realização, ainda que tardia, de um sonho de Lobato. O agradecimento especial vai para a Fundação Biblioteca Nacional, que financiou o projeto por meio de seu programa de Apoio à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior”, conclui Vanete.

Entre Metafísica, Distopia e Mecenato, inclui, além da análise do Profa. Vanete, a versão completa do romance de ficção original escrito por Monteiro Lobato, com ortografia e pontuação atualizadas.

SOBRE A AUTORA

Vanete Santana-Dezmann é professora, pesquisadora e tradutora, corresponsável pelas “Jornadas Monteiro Lobato”, que acontecem na USP em cooperação com outras instituições e pelos “Encontros com Lobato”, realizados mensalmente também na USP.

É uma das idealizadoras do grupo Observatório Monteiro Lobato, além de autora de vários livros e artigos como “Vozes Lobatianas em diálogo: possibilidades e desafios de estudar Monteiro Lobato” e “Lobato e os carrascos civilizados: construção de brasilidade via reescritura de Warhaftige Historia, de Hans Staden”.

Graduada em Letras, fez mestrado e doutorado em Teorias de Tradução na UNICAMP, com estágio de pesquisa na Universidade Livre de Berlim.

Pós-doutorada em Estudos da Tradução na USP, com estágio de pesquisa no Goethe- Museum de Düsseldorf.

Como professora de Tradução na Universidade de Mainz, na Alemanha, desenvolveu entre 2019 e 2020 o projeto de tradução do livro Reinações de Narizinho, para a língua alemã.

Além de ministrar aulas como professora de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira na Volkshochschule, a professora Vanete desenvolveu, em caráter voluntário, projetos voltados para a disseminação da cultura brasileira.

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Referências:

** Entrevista com a professora Vanete Santana-Dezmann e consulta ao site Observatório Monteiro Lobato.

https://www.observatoriolobato.org/

Monteiro Lobato em Rede: para entender e compreender um brasileiro que viveu a frente de seu tempo

Formado por pesquisadores da obra do escritor taubateano, o grupo de pesquisa “Monteiro Lobato em Rede” existe há mais de 20 anos com diversos outros nomes como “Projeto Memoria de Leitura” e depois “Monteiro Lobato e outros Modernismos Brasileiros”. Boa parte dos integrantes do grupo se conheceu e se vinculou a pesquisa no final dos anos 1990, quando eram orientandos de mestrado ou doutorado da professora Marisa Lajolo mas outros membros ingressaram depois. O grupo foi crescendo, se fortalecendo e hoje o gruo “Monteiro Lobato em Rede é composto por professores e pesquisadores de várias universidades de norte a sul do país formando uma rede virtual de pesquisas lobateanas.

Em 2021, o grupo se formalizou se registrando no diretório de grupos de pesquisa do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Fazem parte do grupo, como membros oficiais, as professoras Marisa Lajolo, do Mackenzie e da Unicamp;  Milena Martins, da UFPR; Cilza Bignotto, da UFSCar; Tâmara Abreu, da UFRN; Patrícia Romano, da Unifesspa; Raquel Afonso da Silva, da IFB; Raquel Endalécio Martins, da UFRR; o professor Emerson Tin, da Facamp; e os pesquisadores independentes Luís Camargo e Kátia Chiaradia e tambem alunos dos professores participantes, que desenvolvem projetos de pesquisa sobre a obra de Lobato. Há também os membros honorários, aqueles que não tem vínculo com universidades, mas que colaboram intensamente com o grupo, como é o caso do designer Magno Silveira e do biógrafo Vladimir Sacchetta.

Entre os livros já publicados pelo grupo “Lobato em Rede”, gostaríamos de destacar o livro Monteiro Lobato livro a livro- obra infantil, organizado por Marisa Lajolo e João Ceccantini em 2008. Este livro publicado pela editora Unesp e Imprensa Oficial, recebeu em 2009, dois prêmios Jabuti: o de melhor livro de crítica literária e também de melhor livro de não ficção do ano. Cada capítulo analisa uma obra infantil do escritor, e leva em consideração a história editorial da obra. Já em 2014, a professora Marisa Lajolo organizou o Monteiro Lobato livro a livro – obra adulta publicada pela editora Unesp. Ambas as publicações se tornaram referência para pesquisadores da obra do escritor.


De acordo com a professora Milena Martins, líder do grupo, cada membro do grupo desenvolve e orienta pesquisas específicas sobre Monteiro Lobato, sua obra infantil e sua obra geral, sobre as relações artísticas ou intelectuais entre o escritor e figuras do seu tempo, obras publicadas pelas editoras de Lobato. Esses são alguns temas, apenas para ilustrar, uma vez que a complexidade do universo lobatiano abre um verdadeiro leque de possibilidades para estudos dos mais variados temas.

Milena contou ainda, que o grupo também considera a leitura da obra nos dias atuais. O modo como os leitores de hoje, leem e interpretam uma obra que tem cem anos de vida, e que já foi publicada em tantos formatos distintos, não só em livro, mas também em audiovisual. Esses diferentes suportes promovem diferentes leituras. “O gênero das obras também é parte incontornável das análises. Obras ficcionais precisam ser analisadas como tal, compreendendo os recursos usados, a tradição, as intenções, a ideologia de um tempo. Tudo isso entra em nossas análises”, explicando como o grupo lida com as distorções relativas à obra de Lobato, que têm provocado inclusive atitudes discriminatórias por parte de algumas pessoas. “De modo geral, posso simplificar dizendo que analisamos a obra em relação estreita com seu tempo, compreendendo a literatura e as relações sociais no contexto dos anos 1910-1940, evidenciando os vínculos entre a obra e a sociedade que a produziu, ou entre a obra e os usos literários e linguísticos do seu tempo.”

O trabalho de grupos de pesquisa como o Monteiro Lobato em Rede tem sido fundamental para quebrar essas objeções criadas recentemente, produzindo uma maior compreensão da obra de Monteiro Lobato e do seu tempo, através de um estudo aprofundado e contextualizado sobre o autor. Essa, aliás, é a preciosa colaboração do grupo, que nos ajuda, através do seu trabalho, a conhecer e compreender o universo lobatiano, sendo imprescindível na formação de novos leitores.

Recentemente, o grupo publicou dois livros, intitulados Lobato na Escola (Livros 1 e 2, editora Paulus, 2022) organizados pela professora Milena Martins, em coautoria com Luís Camargo e Kátia Chiaradia. “São roteiros de leitura para a obra infantil e a obra adulta do escritor. Em diálogo com a legislação educacional mais recente, a Base Nacional Comum Curricular, nós apresentamos análises minuciosas de obras infantis e de contos do Lobato, e sugerimos atividades a serem realizadas para uma melhor formação leitora dos estudantes”, explica Milena. Esses livros são um excelente material de apoio a professores e a estudantes de Letras e Pedagogia, mas também servem para leitores que tenham filhos e que se preocupem com a formação leitora de suas crianças, ou que queiram se aprofundar na leitura dos contos do escritor. Esse diálogo com leituras contemporâneas, o envolvimento com a formação de novos leitores, é um dos pontos fortes do grupo Monteiro Lobato em Rede, que tem em seus membros, pessoas que se envolvem com Educação e interessados em ampliar o acesso a bens culturais, promovendo uma compreensão mais complexa da nossa sociedade e da nossa cultura.

Há outros livros muito importantes publicados pelo grupo, como Lendo e escrevendo Lobato (editora Autêntica), de 1999, organizado por Eliane Marta Teixeira Lopes e Maria Cristina Soares de Gouvêa; e a biografia Monteiro Lobato: um brasileiro sob medida, da Marisa Lajolo, também publicado pela editora Moderna, em 2000 alem do livro Quando o carteiro Chegou – livro organizado pela professora Marisa Lajolo e Emerson Tin onde temos uma coletânea de cartões-postais de Lobato para Purezinha. Neste livro há muitas relações entre texto e imagem que parecem nascer nesses postais e se desenvolver em textos e em aquarelas de Lobato. Figuras de autor, Figuras de editor, de Cilza Bignotto, publicada pela Unesp, em 2018, retrata o Lobato editor, mas fala também sobre a história do livro brasileiro. É uma publicação importantíssima para a história da literatura brasileira, por compreender os editores como agentes centrais do sistema literário. Já em 2020, Patrícia Romano publicou Dona Benta: Uma Mediadora no Mundo da Leitura (Editora Appris) e este ano, Magno Silveira acabou de publicar uma edição fac-similar de O Sacy, de 1921, com paratextos de Marisa Lajolo, Cilza Bignotto, Vladimir Sacchetta e do próprio Magno. Além de ser um livro de altíssima qualidade, ele ainda inaugura o trabalho da editora Graphien, um acontecimento editorial de um visionário (Magno) sobre outro visionário (Lobato).

Há outros tantos livros e inúmeros artigos em revistas acadêmicas publicados pelo grupo que são de um valor imensurável, não apenas para entender e compreender esse brasileiro que viveu à frente de seu tempo, mas para enriquecer ainda mais a literatura brasileira.

Para finalizar este artigo, antecipamos que neste momento o grupo Lobato em rede está preparando um livro com análises de alguns contos escolhidos de Monteiro Lobato. Tendo como público-alvo estudantes de graduação, o livro ainda não tem data para sair, mas pelo que pudemos apurar está sendo gestado com todo o carinho.

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Referências:

**Texto produzido a partir de entrevista respondida pela professora Milena Martins.

“Negrinha” em sala de aula; uma experiência para quebrar preconceitos

“Negrinha” em sala de aula; uma experiência para quebrar preconceitos

A ideia deste texto é compartilhar com educadores, uma experiência bastante interessante, de como o professor pode utilizar o conto antirracista Negrinha, de Monteiro Lobato, para discutir com seus alunos, em sala de aula, a situação atual do preconceito e do racismo no Brasil.

Entre as inúmeras pesquisas que analisam essa temática na obra de Lobato, encontramos a dissertação, apresentado pela professora Tatiane Cristina da Costa, para o Mestrado em Letras, na Escola de Filosofia, Letras e Humanas da Universidade Federal de São Paulo, em 2019, intitulado: Negrinha na sala de aula: estímulo ao preconceito ou à reflexão?”.

Conduzida em sala de aula, essa experiência possibilitou uma análise sobre a recepção dos estudantes em relação a esse famoso conto lobatiano, com a intenção de observar como e a partir de quais recursos esses estudantes, construiriam hipóteses interpretativas sobre o texto, em especial no que diz respeito à questão racial.

A ideia, de acordo com a pesquisadora, foi justamente verificar se a leitura do conto Negrinha estimularia ou não o racismo, se contribuiria ou não para uma reflexão acerca do tema entre os próprios estudantes. Esse trabalho foi desenvolvido durante dois dias e envolveu um grupo de alunos, a maioria com 17 anos de idade, de uma escola técnica (ETEC), localizada no bairro Paraisópolis, na cidade de São Paulo, em dezembro de 2018. O grupo, formado em sua maioria, por estudantes que se declararam afrodescendentes, estudaram em escolas públicas durante o Ensino Fundamental e na maior parte, eram de famílias com renda de até 2 salários mínimos mensais para o seu sustento, o que faz com que elas sejam consideradas de renda salarial baixa.

A pesquisa aconteceu em dois momentos distintos. No primeiro, os alunos receberam o conto Negrinha para uma leitura individual e silenciosa da narrativa, devendo, quando julgassem necessário, fazer anotações sobre todas as observações que tiveram. É importante dizer, que o grupo ainda não tinha lido a obra e nem recebeu qualquer tipo de influência que pudesse direcionar sua interpretação. Foram então formuladas questões para ouvir os comentários com relação a linguagem, enredo, estrutura, personagens, autor e sentimentos que o conto despertou.

Após a leitura, os alunos revelaram que se sentiram muito tocados pelos maus tratos e abusos sofridos pela menina, que a narrativa mexeu muito com o sentimento deles, despertando compaixão e até mesmo a vontade de chorar durante a leitura. Palavras diferentes, pouco ou nunca ouvidas por eles, chamaram a atenção, mas não foram empecilho para que pudessem identificar o significado delas.

O estudo identificou que a leitura de Negrinha despertou nos alunos percepções importantes como a corrupção dos homens pelo meio, a valorização de coisas simples, como o brincar de bonecas, a tolerância em meio as maldades sofridas pela protagonista e inclusive o papel da mulher na sociedade da época. Outros temas importantes como a

frustração de Dona Inácia por não ter filhos e descontar na pobre menina esse sentimento, o racismo dessa personagem (e não do autor), o conformismo da própria Negrinha que se sentia culpada e merecedora dos maus tratos sofridos por tanto ouvir da dona da casa que esse tratamento servia para educá-la, a transformação pelo brincar tambem foram discutidos pelo grupo.

Não foi necessária, de acordo com a professora que realizou a pesquisa, qualquer explicação ou introdução dos temas aos alunos, que pelo contrário, se mostraram autônomos, críticos e maduros para que houvesse uma leitura sem a necessidade de intervenções. Os procedimentos didáticos utilizados nessa atividade privilegiaram a leitura individual e a livre interpretação do texto por parte dos estudantes. Vale ressaltar ainda, que de acordo com educadores, a ironia presente ao longo de toda a narrativa, é uma das modalidades mais difíceis de ser identificada, porque ela exige maturidade do leitor. Mas apesar disso, os estudantes conseguiram identifica-la na leitura.

RESULTADOS DO SEGUNDO MOMENTO ESTUDO

O segundo momento contou com a construção coletiva do contexto histórico-social da década de 1920. Foram levantadas várias questões importantes como o crescimento das cidades, a marginalização do campo, a abolição da escravatura, a situação precária dos negros após a abolição e a mão-de-obra imigrante no Brasil. Após as discussões a respeito desse contexto histórico, no qual o conto foi escrito, os alunos fizeram uma reflexão, tendo como foco principal o papel do negro na sociedade da época.

Os alunos identificaram a falta de amparo da sociedade e do governo aos ex-escravos, após a abolição, apontando essa a causa para que eles passassem a viver à margem da sociedade e continuassem a sofrer com os maus tratos nas próprias fazendas. Questionados se a impressão que tiveram inicialmente do conto após a discussão do segundo dia havia mudado alguma coisa, os alunos afirmaram que nada havia mudado e alguns inclusive se mostraram convencidos de que o texto havia sido escrito para conscientizar as pessoas e apresentar a realidade dos negros no nosso país.

Os alunos também foram questionados se acreditavam que o foco do livro seria mesmo discutir o preconceito racial ou se o conto seria fruto do suposto racismo do autor. A conclusão, foi a de que o preconceito racial era o foco do livro, porque a maneira como a personagem Negrinha foi retratada, fez a maioria deles ter simpatia por ela, chegando inclusive a chorar durante a leitura por compaixão à menina, o que não ocorreria se o autor fosse realmente racista.

A atividade evidenciou, a partir das afirmações feitas pelos próprios participantes da pesquisa, que as discussões sobre o preconceito racial são muito incipientes e que o estudante reconhece a necessidade desse tipo de debate para que o problema possa ser efetivamente combatido. O texto apresentado ao grupo foi um ponto de partida importante para as reflexões sobre esse assunto e também sobre o autor mostrando que a leitura deste conto nas escolas pode despertar a criticidade dos jovens leitores, algo que o próprio autor sempre buscou.

As conclusões desse estudo, demonstraram ainda que os jovens gostam de participar e expor suas opiniões, deixando claro o quanto apreciam ser ouvidos e também ter suas opiniões respeitadas. Esse fato é um indicativo claro da necessidade de se

fomentar a leitura e a interpretação dos mais variados textos nas salas de aula em todo o Brasil. Mas o foco precisa ser não apenas despertar nos nossos estudantes o hábito pela leitura e sim, desenvolver nesses jovens leitores o senso crítico e intelectual, atributos fundamentais na formação de cidadãos verdadeiramente atuantes em nossa sociedade.

Para acessar o conteúdo completo desse estudo realizado pela professora Tatiane Cristina Costa, basta acessar este link: https://monteirolobato.com/wp-

Aproveite e conheça outros estudos interessantes para ajudar a você a dinamizar suas aulas, além de navegar pelo nosso site!

DICA PARA EDUCADORES

Para ler os textos de Lobato, é preciso antes entender o momento histórico vivenciado pelo escritor, suas convicções políticas, sua poética, seu projeto literário e a importância de sua iniciativa para a formação do mercado editorial brasileiro. Seus textos dialogam com o contexto histórico das décadas de 1920, 1930 e 1940, período onde tivemos a Segunda Guerra Mundial, as intervenções de Getúlio Vargas e a mentalidade escravocrata que permeava as relações sociais.

Nunca é demais lembrar, que aula de literatura é também aula de história, sociologia, geografia e filosofia. Conhecer um pouco mais de Lobato, sua fortuna crítica, livros e artigos de estudiosos como Marisa Lajolo, Milena Martins, Leonardo Arroyo, Cassiano Nunes, Nelly Novaes Coelho, Regina Zilberman, João Luis Ceccantini, Cilza Bignotto e Vanete Santana Dezmann entre outros, podem oferecer ao educador um curioso panorama sobre as diversas facetas do escritor a ponto de enriquecer a prática educativa.

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REFERÊNCIAS:

https://monteirolobato.com/wp-content/uploads/2021/08/DISSERTACAO-FINAL-Tatiane-

Negrinha; mais que um conto, uma reflexão antirracista

Mais de cem anos depois de seu lançamento, Negrinha se mantém como um conto muito atual pela sua temática que envolve as questões raciais que ainda se mantém bastante problemáticas em nosso país, uma nação que infelizmente persiste no chamado “mito da democracia racial”.

Em sua primeira edição, lançada em 1920, o livro, voltado para o publico adulto, era composto por seis contos: Negrinha, Fitas da vida, O drama da geada, O Bugio moqueado, O Jardineiro Timóteo e O colocador de pronomes. Destes apenas o conto Negrinha, que dá nome ao livro, não se passava no ambiente urbano e foi escrito por Lobato antes e depois da viagem aos Estados Unidos. Esse foi também o primeiro livro em que o escritor começa a se afastar do ambiente rural.

Escrito em terceira pessoa, Negrinha tem uma carga emocional muito forte, sendo considerado, pela crítica, um dos conto mais impactantes de Monteiro Lobato. Este conto retrata uma época marcada pelo autoritarismo e pelo preconceito racial, protagonizado pela personagem-título, filha de uma ex-escrava e sem nome próprio. Após a abolição, em 1888, Negrinha se tornou criada na casa de dona Inácia, uma senhora rica, antiga proprietária de escravos libertos pela lei Áurea, sem filhos e interessada apenas em promover a imagem de caridosa aos olhos da Igreja. Com a morte da mãe, Negrinha tem o seu destino colocado aos “cuidados” dessa senhora, que não abandonou a visão e os costumes do antigo regime escravocrata, tratando a menina como sua absoluta posse.

A narrativa lobatiana é carregada de críticas que revelam a situação das classes menos favorecidas de uma sociedade brasileira totalmente discriminatória. A insatisfação do escritor com essa situação é notada já a partir do título da obra, com a utilização  do sufixo –inha, demonstrando o tratamento pejorativo dado à personagem principal no decorrer do conto, apresentada como “[…] uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados”. Essa descrição não revela apenas as características físicas da menina, mas também a sua condição social e o seu constante estado psicológico. Negrinha é vítima de um meio social injusto e preconceituoso, cujos padrões se valem da submissão dos mais fracos e da hipocrisia, representados por Dona Inácia, a dona da fazenda, caracterizada por seu status e suas falsas virtudes: “Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu […] Mas não admitia choro de criança”.

Dona Inácia, representando a maioria da elite branca brasileira, não se adequou à abolição da escravatura e Negrinha continuou escrava, guardando as marcas da hostilidade, sendo vítima de violência física e psicológica, não apenas de sua cuidadora, mas também sendo vítima dos outros moradores e empregados  da casa. “Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão […] Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata choca, pinto gorado, mosca morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa ruim, lixo – não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam […] O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo.

Sem identidade própria, Negrinha é tratada como um objeto, um animal que precisa ser domesticado, proibida de andar pela casa, de brincar e até mesmo de falar. A princípio há por parte da menina a aceitação de sua situação miserável, o que lhe impede de ir contra a realidade em que vive, aceitando passivamente todas as crueldades do preconceito e da desigualdade social contra ela. Entretanto, o texto traz também uma reviravolta da personagem.

Até então a única criança da casa, duas sobrinhas de Dona Inácia, duas garotinhas que por sua descrição (louras, ricas e possuidoras de brinquedos caros), representam o mundo burguês vem visitar a piedosa Tia e Negrinha é tratada como mais um “brinquedo”.

O conflito consciente em relação a sua condição e ao mundo, leva a pobre órfã a dialogar com si mesma, se questionando e refletindo acerca de sua condição como ser humano, levando a menina a externar seus pensamentos: Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo […] – É feita?… perguntou extasiada”. Nesse trecho, em que o autor coloca voz na boca de Negrinha pela primeira vez no conto, ela assume a consciência de toda criança e se sente gente: “Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma – na princesinha e na mendiga […] Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma”.  Trecho maravilhoso de trazer lagrimas este onde Negrinha percebe que ela não é um objeto mas sim um ser humano, com alma!

Lobato revela toda a sua genialidade neste conto, ao denunciar de modo claro e objetivo, através do contexto literário, o tratamento dado aos negros na época da Nova República, anunciando ao leitor o surgimento de uma nova realidade pautada na fome e na miséria.

Mesmo sendo uma ficção, Negrinha mostra, pelo chamado ‘buraco de fechadura’, como ficou a situação da maioria dos negros no período pós-abolição. Apesar de libertos por um decreto, eles permaneceram presos aos grilhões sociais, sem oportunidades, sem educação, sem qualquer amparo governamental para poderem se tornar membros produtivos ou iniciarem uma vida digna, sendo vistos ainda como meros serviçais na mentalidade de brancos reacionários. Dona Inácia, era uma dessas pessoas que continuou com o mesmo tipo de pensamento escravocrata.

Em resumo, o conto escrito Lobato há mais de cem anos, traz uma denúncia escancarada contra as elites brancas e à própria igreja, conivente com os maus-tratos, demonstrando assim toda hipocrisia contida nos bastidores da sociedade patriarcal da época. O racismo e o preconceito, são colocados lado a lado com a farsa, o sarcasmo, a tragédia e a compaixão.

Definitivamente, através de Negrinha, Monteiro Lobato presentou o povo brasileiro com um conto reflexivo e absolutamente antirracista.

 O LIVRO NEGRINHA

Para competir com o mercado, Monteiro Lobato lançou o livro Negrinha com capa simples e sem ilustração alguma, com a primeira edição sendo vendida ao preço de 2 mil e quinhentos réis, enquanto outros livros custavam, naquela época, quatro mil réis.

A segunda edição do livro foi lançada em 1922, ao preço de mil réis e incluiu os contos: Os negros e Barba-azul. Deveria ter incluído ainda o conto O despique, mas  o mesmo foi retirado e acabou sendo republicado anos mais tarde, no livro “Na antevéspera”, de 1933.

Em 1923 aconteceu o lançamento da terceira edição e foram acrescentados novos contos: Uma história de Mil anos; O fisco; Os pequeninos; A facada imortal; Apolicitemia de dona Lindoca; Duas cavalgaduras; O bom marido; Marabá; Fatia da vida; A morte do camicego; Quero ajudar o Brasil; Sorte grande; Dona Expedita; e Herdeiro de si mesmo. A obra passou então a somar vinte e dois contos.

Todas as três edições do livro foram publicadas pela “Monteiro Lobato & Cia. Editores”, vendendo juntas 12 mil exemplares.

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REFERÊNCIAS:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Negrinha

https://aedmoodle.ufpa.br/pluginfile.php/239401/mod_resource/content/1/Artigo%20-%20BREVE%20ESTUDO%20DO%20CONTO%20NEGRINHA%2C%20DE%20MONTEIRO%20LOBATO%20-%20NILSON.pdf

https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/11/26/negrinha-ndash-um-manifesto-antirracista-de-lobato

https://docplayer.com.br/12438922-Monteiro-lobato-vida-obra-2.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/Negrinha#cite_note-1

https://repositorio.ufpe.br/bitstream/123456789/30693/1/ISRAEL%20LACERDA%20DO%20NASCIMENTO.pdf

O que significa adaptar uma obra?

(Kátia Chiaradia)

Quando soube que a bisneta de Monteiro Lobato estaria adaptando sua obra, estranhei. Estranhei porque eu já era pesquisadora de Lobato há mais de 10 anos e nunca havia imaginado que isso seria possível. Os herdeiros de Monteiro Lobato sempre foram muito receptivos às pesquisas acadêmicas, e prova disso é terem doado ao CEDAE da Unicamp, toda a biblioteca do autor, além de uma enormidade de outros documentos de pesquisa: cartas, fotografias, aquarelas, bilhetinhos e até um caderno de receitas de Dona Purezinha. E nesse tempo todo, Cleo Monteiro Lobato sempre foi uma pessoa das coxias e não do palco, que ficava reservado para seus pais e, evidentemente, seu bisavô.

Meu segundo estranhamento se misturava à sensação de incômodo que eu sabia exatamente de onde vinha: sou pesquisadora, e mexer em um texto literário, um clássico, não é algo bem-visto pela perspectiva dos estudos literários. Isso porque todo texto fala de seu tempo, do lugar onde foi escrito, das pessoas que viveram à época de sua concepção e daquelas que primeiramente o leram. Assim, ainda que os motivos de Cleo para adaptar a obra de Lobato me parecessem louváveis (na época, eu achava que ela queria retirar do texto expressões hoje entendidas como racistas, mas, mais à frente, fui entender melhor1) a ação em si ainda me confundia.

Porém, como pesquisadora, meu papel é buscar entender uma situação-problema por diversos prismas. Fazemos pesquisa para que nossos estudos alcancem a sociedade e possam tornar o mundo um lugar melhor e mais democrático, sobretudo quando é a universidade pública que nos impulsiona.

“O mesmo acontece com a literatura”, pensei. A literatura deve alcançar seus leitores, sem os quais ela sequer existe.

Quero dizer, com isso, que um livro infantil que não alcança as crianças é um livro que não tem razão de existir. Monteiro Lobato escreveu livros para as crianças e sobre elas. Ele não escreveu as histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo para pesquisadores, mas sim para que crianças pudessem morar nelas. E, como pesquisadora, meu papel é olhar para todo esse movimento de maneira investigativa: quanto de reconhecimento e identificação, seja consigo, com seu espaço ou com seu tempo, este livro pode proporcionar aos leitores? Quanto este livro facilitará que eles ampliem suas relações com o mundo? E quanto as afastará dele? Se a balança pende para causar dor em uma criança, isso precisa ser revisto.

A escola é o mundo de muitas crianças, por isso, não é aceitável que qualquer uma delas sofra em sala de aula, justamente no espaço em que ela deveria se fortalecer. Então, se a adaptação de que falamos aqui, cujo foco está em atualizar para hoje a mesma pujança que se lia na Tia Nastácia de um século atrás, essa adaptação é bem-vinda porque, repito, as obras do Sítio do Pica-Pau Amarelo foram escritas para as crianças, e não para nós, adultos. No Sítio, Tia Nastácia é a geradora da vida e a saciadora das fomes. De todas. Ela é quem abraça, acalma e faz rir, e é imprescindível que essa percepção da centralidade de Tia Nastácia alcance também as gerações de hoje. Se algumas frases sobre ela envelheceram mal e hoje são consideradas racistas, que sejam adaptadas para que o retrato dessa mulher doce, forte e inspiradora continue o mesmo. O texto mudou justamente para que se preserve a personagem.

Por fim, é claro que muitos de nós também querem “morar nelas”, nas historias, mas é preciso nos lembrarmos que “a casa” é pensada para elas, as crianças, as moradoras originais e por direito.

Dona Benta, a grande educadora do Sítio do Pica-Pau Amarelo

O estereótipo da vovó cansada, sempre sentada, perdida em seus bordados, que pouco se movimenta, mais escuta do que discute e que quando fala é para contar algum acontecimento vivido por ela no passado, foi totalmente ignorado por Monteiro Lobato ao criar a personagem Dona Benta.

É certo que lá em 1920, quando surgiu pela primeira vez, a personagem foi descrita pelo próprio criador como “uma triste velha, de mais de setenta anos, trêmula, quase cega, sem dentes, já no fim da vida”. Porém, onze anos mais tarde, em Reinações de Narizinho, Lobato refaz essa descrição, inclusive rejuvenescendo em dez anos a vovó que ganha um nome: Dona Benta.

Ao contrário do que a descrição introdutória possa sugerir, basta dar continuidade à leitura para identificarmos em Dona Benta, uma vovó cheia de energia, estimuladora da cultura, que dá importância e incentiva a fantasia, a imaginação infantil, as descobertas e aventuras de seus netos. Sem bronquear, ela ainda os ajuda a resolverem seus conflitos e perturbações mais íntimas, sem podar a criatividade dos netos, na maioria das vezes por meio das histórias contadas por ela.

Um olhar mais atento à literatura nos permite entender que Monteiro Lobato foi de fato um homem à frente de seu tempo, que acreditava na educação para resolver os problemas sócio-políticos e econômicos do país, fazendo questão de manter uma constante preocupação no incentivo do leitor a liberdade de pensamento e de ação. O autor percebeu a oportunidade de repassar ao seu público, através dos seus livros,  os seus ideais e pensamentos, contribuindo diretamente para a melhora da educação no Brasil.

Nessa esteira do pensamento lobatiano, nasce então Dona Benta, personagem que em muitos aspectos se assemelha e revela uma projeção do próprio escritor. Uma semelhança que começa pelo nome Benta, feminino de Bento, mas que vai diretamente até a personalidade, os pontos de vista e a evidente tentativa de Lobato em construir uma literatura capaz de situar a criança em seu próprio mundo, por meio da contação de histórias.

De acordo com a professora e pesquisadora Vera Maria Tietzmann Silva, é possível ver em Dona Benta uma projeção do lado sábio e bem comportado, de Lobato, que assim como a personagem criada por ele, também tinha um lado simples e outro erudito. O escritor também foi proprietário rural, um incondicional amante dos livros como Dona Benta, aberto a todas as áreas do saber e que fazia circular o conhecimento, se empenhando em compartilhar suas descobertas e leituras, principalmente com os leitores em formação.

A personagem, assim como o seu criador, consegue enxergar o mundo pelo olhar da criança e no momento de contar histórias abre mão da linguagem desnecessariamente adornada dos adultos, falando à criança de um modo absolutamente simples e didático, deixando aflorar a imaginação e o faz-de-conta. Essa leveza e a sabedoria de Dona Benta, fazem dela o instrumento perfeito para Lobato falar pela voz de sua personagem, encontrando nela a solução para a necessidade de oferecer às crianças, histórias escritas numa linguagem objetiva, clara, acessível, mais próxima possível do registro coloquial.

Não há qualquer exagero em afirmar que Dona Benta é na verdade uma mediadora do saber que se comporta de maneira semelhante ao próprio autor, educando e de um modo simples, despertando através da contação de histórias o gosto pela literatura, a necessidade de adquirir e expandir o conhecimento, sem cortar o interesse, o prazer, o senso crítico e questionador das crianças.

Ainda, na opinião da professora Vera Maria Tietzmann Silva, ao criar o Sítio do Pica-Pau Amarelo, Lobato transforma esse ambiente, onde vive Dona Benta, em uma nova modalidade de escola, que leva aos jovens leitores o conhecimento curricular pela via da ficção, retirando o peso autoritário de seu mediador, não mais o professor severo, mas a avó amiga, que dá ‘sabor ao saber’.

Todos esses detalhes reforçam a certeza de que a criação da personagem não foi por acaso. O escritor demonstra a clara intenção de revelar suas próprias ideias, numa época em que a opinião masculina se sobrepunha à feminina, em que as mulheres não tinham voz. Lobato, na contramão, possibilita que Dona Benta fale em seu lugar, revelando muitos conhecimentos e propagando valores por meio da personagem.

Para a professora e pesquisadora Regina Machado, o ato de contar histórias quebra as relações tradicionais com as crianças, criando um outro contato humano, num tom mais colorido, divertido, vibrante e misterioso.

Dona Benta aparece no Sítio do Pica-Pau Amarelo como uma verdadeira educadora, que por meio de suas leituras, com a entonação certa, o vocabulário acessível às crianças, além de ensinar e estimular o hábito da leitura, evidencia a ideia do escritor de que não há assunto somente para criança ou somente para adulto.

Lobato e Dona Benta, são na verdade leitores que formam leitores e que há mais de cem anos, representam a ideia de que a transformação do mundo passa essencialmente pela educação, que precisa ser prazerosa e voltada para a mente aberta da criança, assim como as obras do criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

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REFERÊNCIAIS

https://anais.unicentro.br/seped/2010/pdf/resumo_182.pdf

MACHADO, Regina. Acordais: fundamentos teórico-poéticos da arte de contar histórias. São Paulo: DCL, 2004.

SILVA, Vera Maria Tretzmam. Literatura Infantil Brasileira: um guia para professores e promotores de leitura.

Viva o Dia do Saci, o Halloween brasileiro!

O que celebrar no dia 31 de outubro: o Halloween ou o Saci?

Se pudéssemos perguntar a Monteiro Lobato, certamente ele responderia: VIVA O SACI!

Comemorado no dia 31 de outubro, o Halloween é um tradicional evento muito celebrado em países norte-americanos por crianças e jovens que se fantasiam e batem de porta em porta a fim de ganhar doces. No entanto, no Brasil, outra comemoração também se destaca na data: o Dia do Saci.

Nacionalista convicto, numa época de formação do conceito de brasil-nação, Lobato foi o primeiro a se dedicar em traduzir da cultura oral para a escrita o mito do Saci, que graças aos livros do escritor, ganhou projeção nas grandes cidades do Brasil e internacionalmente, através das histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo, que foram também adaptadas com enorme sucesso para a TV.

Comum em países de língua anglo-saxônica, como os Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, a celebração do Halloween já acontecia nos países latinos de modo mais tímido e no Brasil, por exemplo, era chamado de “Dia das Bruxas”, passando quase despercebido entre as comemorações brasileiras.

A data foi sendo aos poucos introduzida no nosso país em meados do século XX, por meio de filmes, séries de TV e outros produtos culturais estrangeiros, principalmente dos Estados Unidos, despertando a atenção do comércio que viu nessa celebração, uma oportunidade de negócio.

Apesar do sucesso entre os mais jovens, essa onda crescente logo provocou críticas à implementação de uma festa da cultura estrangeira no cenário cultural brasileiro, desencadeando uma forte movimentação política para transformar o dia 31 de outubro no Dia do Saci, a fim de valorizar a cultura do nosso país, representada pelo nosso folclore.

Para explicar essa ‘invasão cultural’, há um conceito esboçado pelo teórico estrategista de relações internacionais, Joseph Nye, chamado de soft power, que normalmente se traduz como “poder brando”. Esse termo diz respeito a um conjunto de iniciativas não militares ou econômicas, que permitem que um Estado atinja seus interesses de política externa. Em resumo: o soft power está relacionado à capacidade de um país ter influência direta em outros por meio da sua cultura, sua capacidade de se projetar para o mundo. Um exemplo é a poderosíssima indústria cultural estadunidense, com produções de Hollywood e de séries de TV, que chegam ao Brasil com cada vez mais frequência. Esse poder se manifesta também na influência acadêmica, como a leitura e o intercâmbio de pesquisadores.

Alexandre Ganan Figueiredo, historiador e pesquisador de pós-doutorado pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, descreve também como elemento desse tipo de influência a exportação de um estilo de vida ideal, apresentado como um modelo a ser copiado, como é o caso da comemoração do Halloween no Brasil. Entretanto o Dia das Bruxas ou Halloween, não possui qualquer relação com as tradições e a formação cultural brasileiras, não sendo portanto uma manifestação usual.

É justamente a partir dessa percepção que em 2003, foi apresentado pelo deputado federal por São Paulo, Aldo Rebelo, um projeto de lei para a celebração nacional, no dia 31 de outubro, do Dia do Saci, um dos mais conhecidos personagens do folclore brasileiro. A época a matéria acabou arquivada, mas a inciativa repercutiu nacionalmente e a data passou a ser celebrada mesmo não sendo oficial.

Bruno Baronetti, pesquisador e doutorando em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, vê o Dia do Saci como uma resposta à indústria cultural estadunidense em um momento no qual filmes de grandes franquias, com personagens do imaginário do Halloween, como os vampiros, começavam a ganhar força por aqui. “Além disso, havia uma percepção de que cada vez mais escolas do ensino básico valorizavam o Dia das Bruxas no modelo norte-americano”, explica o pesquisador.

Tendo o Brasil um folclore muito rico, com lendas e histórias vindas da miscigenação entre diversos povos, o que é próprio da nossa formação como país, uma questão ganhou força: “Por que não promover uma reflexão sobre o papel da cultura nacional?”.

Incomodado com a “invasão cultural representada pelo Halloween no Brasil”, o jornalista e geógrafo Mouzar Benedito, e um grupo de amigos, decidiram fundar em 2003, na cidade de São Luiz do Paraitinga, no interior paulista, a Sociedade de Observadores de Saci (Sosaci). A entidade tem como objetivo não deixar morrer a cultura do personagem, popularizado através da obra de Monteiro Lobato e nesse mesmo ano, foi aprovada, naquela cidade, a primeira lei municipal instituindo o dia 31 de outubro, como o Dia do Saci.

A iniciativa acabou sendo replicada em outros municípios e no ano seguinte, uma lei semelhante foi aprovada também na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

Estudos folclóricos no Brasil, desde o início do século 20, através do Movimento Folclórico Brasileiro, e grandes estudiosos, como Mário de Andrade e Edison Carneiro, buscam a inserção desses temas nas escolas.

O Dia do Saci tem o papel de estimular, de resgatar a nossa cultura, fazendo um contraponto a esse projeto colonizador e imperialista que busca inserir aqui elementos alheios à nossa cultura.

A ideia de quem defende o dia 31 de outubro como o Dia do Saci, não é acabar com o Halloween, mas sim criar um contraponto para que as crianças, além da tradição estrangeira, passem a ter contato também com tradições e culturas nacionais.

Em 2017, o historiador e então deputado federal pelo Rio de Janeiro, Chico Alencar, apresentou um outro Projeto de Lei instituindo nacionalmente a data de 31 de outubro, como o Dia do Saci, destacando a importância de se recuperar, na figura desse personagem folclórico, a luta contra a escravidão e todas as formas de opressão, além do fortalecimento da identidade nacional.

Nossa mentalidade colonizada e subalterna ainda prevalece. Portanto, a luta pelo reconhecimento e valorização do Saci prossegue e ainda tem de vencer muitas etapas até se construir no novo imaginário popular“, comentou à época em que apresentou a proposta.

Para o professor Fernando Pereira, especialista em Cultura Brasileira do Mackenzie, os grupos que se esforçam para resgatar figuras do folclore nacional fazem um trabalho fundamental e imprescindível, afinal a história de qualquer país está intimamente ligada ao seu folclore, as suas tradições, crenças e costumes.

Defender a celebração do Dia do Saci, esse personagem que é a mais perfeita representação da miscigenação brasileira – índio, negro e europeu –, não significa combater a introdução de outros elementos na nossa cultura. Afinal, o Brasil é um país de vários contrastes, uma verdadeira colcha de retalhos sócio culturais. Apenas não é aceitável permitir que um elemento puramente comercial supere manifestações folclóricas, nascidas do imaginário popular e de tradições históricas.

Nesse processo de preservação dos nossos valores culturais e das nossas tradições, pais e professores têm um papel fundamental. Não é proibido o novo, mas não podemos em hipótese alguma esquecer o antigo. E para isso, o ideal é que temas relacionados ao folclore não sejam abordados por escolas e professores apenas em datas comemorativas, mas que façam parte do cotidiano escolar. Não podemos simplesmente tratar de modo superficial ou até mesmo ignorar a importância do nosso folclore na criação da identidade cultural do nosso país.

Aproveitando toda essa onda nacionalista que atualmente tomou conta do nosso país, fica aqui o convite para que possamos refletir também sobre essa questão e mais do que celebrar o Saci, valorizar a nossa própria cultura.

Por fim, resgatamos aqui um pensamento do escritor, ator e teatrólogo Plínio Marcos para aguçar ainda mais essa reflexão: “um povo que não ama e preserva as suas formas de expressão mais autênticas jamais será um povo livre”. 

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FONTES:

https://www.em.com.br/app/noticia/nacional/2020/10/29/interna_nacional,1199456/como-o-dia-do-saci-quer-rivalizar-com-o-halloween-no-brasil.shtml

https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2021/10/4955568-entenda-o-motivo-do-halloween-e-dia-do-saci-serem-comemorados-na-mesma-data.html

Emília, a boneca que virou gente e roubou a cena no Sítio do Pica-Pau Amarelo

Quando se pensa no Sítio do Pica-Pau Amarelo é praticamente impossível não vir a memória a imagem da Emília, a mais famosa boneca que virou gente do Brasil, e foi criada por Monteiro Lobato, em 1920, com a publicação do livro “A Menina do Narizinho Arrebitado”.

Nesta sequência sobre os principais personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, chegou a hora de falar da boneca de pano, que nasceu com cerca de 40 centímetros, das mãos hábeis da Tia Nastácia, feita de uma saia velha recheada com flores de macela – a camomila brasileira – para Narizinho, que vivia muito solitária no Sítio. Cansada de conversar com a boneca e não ter respostas, Narizinho levou Emília até Reino da Agua Claras onde o Doutor Caramujo, médico do reino, deu uma pílula falante para a boneca, que imediatamente disse sua primeira frase: Que gosto horrível de sapo na boca!”. Daí pra frente Emília não parou mais de falar! Preocupada com a tagarelice desenfreada de sua boneca, Narizinho chegou a pedir ao doutor que a fizesse vomitar aquela pílula e lhe desse uma mais fraquinha, mas foi convencida pelo Caramujo de que aquilo se tratava apenas de fala recolhida”, que precisava sair de qualquer jeito e que logo passaria.

Na evolução para se tornar gente, além de tagarela, Emília se mostra dona de uma personalidade forte, assim como Monteiro Lobato. Aliás alguns estudiosos sobre o autor, afirmam que ela seria a própria personificação da força, da astúcia e do pensamento crítico de Monteiro Lobato.

Curiosamente, de acordo com o professor Osni Lourenço Cruz, pesquisador da vida e obra do escritor, há uma carta datada de 1º de fevereiro de 1943, onde Lobato relata que todos os seus personagens foram criados ao acaso, sem intenções. E sobre Emília, ele escreveu:

[…] Emília começou uma feia boneca de pano, dessas que nas quitandas do interior custavam 200 réis. Mas rapidamente evoluiu, e evoluiu cabritamente – cabritinho novo – aos pinotes. Teoria biológica das mutações. E foi adquirindo uma tal independência que, não sei em que livro, quando lhe perguntaram: Mas quem você é, afinal contas, Emília? ela respondeu de queixinho empinado: Sou a Independência ou Morte!” Apesar disso, encontramos um certo indício para a origem do nome Emília, dado à boneca, em uma citação do escritor Carmo Chagas no livro “Os Oliveira Costa de Taubaté”: “Na casa de Antonieta Bernardes, grande amiga de Maria Eudoxia, trabalhou uma moça negra chamada Emília, que na infância foi companheira de brinquedo dos filhos de Monteiro Lobato e dizia-se em Taubaté, deu seu nome à endiabrada boneca falante”. Fato é que Monteiro Lobato encontrou inspiração para os seus personagens na sua imaginação, vivencia e nas suas leitura. Para os nomes de seus personagens parece ter encontrado inspiração nos tipos taubateanos, mas daí em diante,

tudo paira no campo das especulações. Falando sobre a nossa personagem, Emília se mostra desde o princípio, muito determinada e independente, uma representação feminina que seu criador defendia, bem diferente do que acontecia naquela época, quando as mulheres eram completamente submissas e como as crianças, nem sequer podiam expressar suas opiniões.

Circulando entre o mundo real e o imaginário, a boneca-gente pensa como ser humano, vive de modo irreverente, faz o que – e quando – quer, além de ter um comportamento totalmente repreensível para um adulto, muito parecido ao de uma criança mal criada. Emília é extremamente teimosa e as vezes até mesmo egoísta, e quando questionada sobre quem realmente é, sem pestanejar, tem a resposta na ponta da língua: Sou a independência ou Morte!”, como se quisesse de fato bater de frente com os conceitos e costumes da época.

Através da mente brilhante de Monteiro Lobato, a irreverente Emília se torna protagonista em diversos livros da coleção, mas é destaque em seus próprios, como Emília no País da Gramática (1934), Aritmética da Emília (1935) e Memórias de Emília (1936), onde tem sua biografia escrita pelo Visconde de Sabugosa. Ela ganhou títulos de nobreza como a Condessa das Três Estrelinhase Marquesa de Rabic’ó. Pouca gente talvez saiba, mas Emília também tem alguns apelidos engraçados criados por ela própria, como: bailarina equestre, trapezista de circo, fada de pano, botadeira de nomes, inventadeira de idéias, olhadeira telescópica, caçadora de Saci, mandadeira de cartas, escrevedora de memórias e redatora chefe do jornal Grito do Picapau Amarelo.

Evidente que Emília não se contentou com o mero papel de dama de companhiada menina do nariz arrebitado, deixou de lado os padrões daquele tempo, rompendo com o estereótipo de boneca frágil e delicada, para assumir, não se sabe se ao acaso ou intencionalmente, a posição de protagonista nas fábulas mais extraordinárias da literatura infantil brasileira.

E podemos ir além. Como já abordamos em outro texto sobre as personagens femininas criadas por Lobato, Emília, D. Benta, Tia Anastácia e Narizinho, ignoram todos os padrões impostos pela dominância machista do período em que foram criadas, que viam a mulher como um ser frágil e totalmente dependente. Com extrema ousadia, elas dividem espaço com os demais personagens masculinos, enfrentando as mesmas dificuldades e êxitos, com seus defeitos e qualidades, despertando nas crianças emoções que as estimulam a refletir, aprender e dialogar com os seus próprios valores. Assim a falante boneca de pano que virou gente, segue ainda hoje encantando e inspirando gerações, para orgulho do seu criador e o deleite de seus leitores, como nós, meros mortais.

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REFERÊNCIAS

Prof. Osni Lourenço Cruz – “Na trilha de Lobato”
https://pt.wikipedia.org/wiki/Em%C3%ADlia_(personagem)
https://linguaportuguesa.digital/glossario/emilia-de-monteiro-lobato

O petróleo é nosso! E Lobato também!

O escritor Monteiro Lobato se notabilizou com uma das figuras mais importantes do nosso país, não apenas como o pai da literatura infantil brasileira, mas também por ser um brasileiro a frente do seu tempo, empenhado no desenvolvimento cultural e econômico do seu pais.

Certamente muita gente desconhece, mas ele foi um dos primeiros a acreditar na existência do petróleo em terras brasileiras. Lobato defendeu a nacionalização do petróleo e a investimento da iniciativa privada na sua extração, defendendo a autossuficiência do nosso país na produção de combustíveis e consequentemente na independência energética em relação ao mercado estrangeiro.

Essa história do criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo com o petróleo começou em 1927, quando Lobato foi nomeado adido comercial nos Estados Unidos, pelo então presidente Washington Luís. Lá o escritor conheceu de perto as inovações tecnológicas e industriais estadunidenses, e se convenceu de que o progresso naquele país era o resultado da formula de investimentos em ferro mais petróleo e transportes, modelo econômico-político que deveria ser replicado pelo Brasil, para transforma-lo numa potência mundial.

Durante essa estadia, Lobato visitou a General Motors, que o inspirou a criar uma empresa para a produção de aço no Brasil e a fim de levantar recursos para esse empreendimento, se tornou investidor da Bolsa de Nova York em 1928 na vésperas da quebra da bolsa. Com a quebra da bolsa em outubro de 1929, acabou perdendo todo o capital investido e foi obrigado inclusive a esconder esse fato de sua esposa, D. Purezinha. Vendeu as ações que possuía na Companhia Editora Nacional à Temístocles Marcondes, irmão de seu sócio, perdendo assim o controle acionário de sua empresa no ramo editorial.

Apesar disso Lobato manteve-se otimista, principalmente diante da vitória de Júlio Prestes nas eleições de 1930. Washington Luís havia investido pesado em transporte e seu sucessor já havia realizado explorações de petróleo no estado de São Paulo, fatos que aumentavam a expectativa em Lobato de que o nosso país seguiria nesse mesmo rumo. Entretanto, a revolução encabeçada por Getúlio Vargas naquele ano, impediu que Prestes tomasse posse, mudando os rumos da nossa história. Lobato é exonerado do cargo de Adido Comercial em dezembro de 1930 e desempregado, teve inclusive dificuldades financeiras para voltar ao Brasil no início de 1931.

Já no Brasil, Lobato se torna um defensor ferrenho da necessidade de investimentos  petróleo, ferro e estradas como pilares do desenvolvimento nacional. Ele cria a Companhia Petróleos do Brasil, uma empresa privada de capital aberto que vendeu 50% das suas ações em apenas quatro dias, e iniciou as pesquisas por petróleo no campo de Araquá, hoje a cidade de Águas de São Pedro, no interior do estado de São Paulo. Em seguida, o escritor cria a Companhia Petróleo Nacional, a Companhia Petrolífera Brasileira e a Companhia de Petróleo Cruzeiro do Sul, além da Companhia Mato-grossense de Petróleo, com a qual planejava perfurar poços próximo da fronteira com a Bolívia, país que já tinha encontrado petróleo em seu território.

Na contramão do que o escritor acreditava, o governo getulista, com o apoio de alguns empresários brasileiros, alegava que não havia petróleo em nosso país, numa suspeita proteção às petrolíferas americanas que já estavam instaladas no Brasil. Até aquele momento nenhuma jazida de petróleo ou de gás havia sido identificada ou explorada em nosso país, isso porque o poder público não tinha conhecimento, tecnologia, nem dinheiro para realizar tal empreitada.

Cada vez mais convencido de que havia sim petróleo no Brasil, as atitudes dos getulistas apenas reforçavam as suspeitas de Lobato de que os americanos já trabalhavam no mapeamento de petrolíferas, sob a proteção do governo brasileiro. Um enfrentamento ao governo Vargas não era fácil. Mesmo contando com técnicos estadunidenses experientes na prospecção e na extração de petróleo, a empresa de Lobato era frequentemente sabotada por órgãos governamentais, sofrendo intervenções por motivos banais, que apenas comprovaram as suas suspeitas.

Em janeiro de 1935, ele resolve então escrever  uma carta ao presidente Getúlio Vargas, se queixando das dificuldades impostas pelo Ministério da Agricultura em relação às atividades de suas companhias e denunciando, confidencialmente, as atividades da filial argentina da Standard Oil Company (que mais tarde se tornaria a Exxon/Esso) no país, com a conveniente corrupção de fiscais do Serviço Geológico Nacional. O governo ignora as queixas de Lobato. Insatisfeito com essa postura, o escritor então publica o livro “A Luta Pelo Petróleo”, onde denuncia publicamente o Serviço Geológico Nacional, órgão oficial encarregado das pesquisas, de ser conivente com a ação de grupos estrangeiros no Brasil e acusa o governo de “não tirar petróleo e não deixar que ninguém o tire”.

Essa conduta do escritor acaba interferindo diretamente nos interesses de grandes grupos e do próprio governo federal, que em represália, interdita uma das sondas da empresa de Lobato, através de intervenção federal decretada em 1936. O escritor não se dá por vencido, levanta alguns recursos, prossegue com as explorações e finalmente encontra gás natural de petróleo a 250 metros de profundidade em Riacho Doce, no estado de Alagoas.

Nesse mesmo ano, Monteiro Lobato publica um outro livro: “O Escândalo do Petróleo”, onde faz novas denúncias, agora acusando dois técnicos estrangeiros do Departamento Nacional de Produção Mineral pela “venda de segredos do subsolo a empresas estrangeiras”. O livro é um sucesso estrondoso e suas três edições se esgotam no mesmo mês de lançamento. Um ano depois, o livro é censurado pelo governo federal.

Lobato edita então um terceiro livro sobre o assunto: “O Poço do Visconde – Uma aula de geologia para crianças”. Essa foi uma ação muito inteligente do escritor em envolver crianças e jovens na sua luta, através da conscientização infanto-juvenil quanto a importância desse produto, a época, pouco conhecido no país, como um meio de oferecer melhores condições de vida para todos.

As ações do escritor não param de incomodar o governo federal, que em 1938 decide explorar um poço na cidade de Lobato, atualmente um bairro de Salvador, na Bahia e lá finalmente encontra petróleo. Diante dessa descoberta, Getúlio resolve criar, em 1939, o Conselho Nacional do Petróleo (CNP), que se torna a primeira iniciativa do governo para regular e estruturar a exploração de petróleo Brasil.

Naquele momento, havia uma acirrada disputa entre empresários (caso de Monteiro Lobato e das petrolíferas estrangeiras) e ideais nacionalistas, divulgados pelo governo de Vargas, sobre a exploração petrolífera em nosso país. Numa manobra de última hora, Vargas decide alterar o decreto-lei que institui o CNP e passa a considerar como patrimônio da União, todas as jazidas de petróleo em solo brasileiro, inclusive as ainda não encontradas.

Incansável, Monteiro Lobato não desiste e em 1941, envia uma outra carta ao presidente Getúlio Vargas, onde faz duras críticas à política brasileira de exploração de minérios e acaba sendo preso pelo general Horta Barbosa.

Conforme já relatamos em um outro texto aqui no nosso blog, por essa carta Lobato foi condenado a seis meses de prisão sem direito a banhos de sol, recebendo o indulto do presidente três meses depois, deixando a prisão falido e desmotivado.

Em 1941 é finalmente descoberto o primeiro poço de exploração comercial, em Candeias, também no estado da Bahia, e o governo avança na prospecção de petróleo no país.  O país trava então um grande debate em torno da política do petróleo, após a promulgação da Constituição de 1946. Eurico Gaspar Dutra, presidente à época, era um defensor do modelo de política econômica liberal, da abertura ao capital estrangeiro, o que em resumo, significaria a entrega da exploração do nosso petróleo aos interesses das multinacionais.

Não havia naquele momento no Brasil, uma empresa nacional com capital e tecnologia necessários para a exploração de petróleo. Dutra envia em 1948 ao Congresso Nacional um projeto de lei que ficou conhecido como o “Estatuto do Petróleo” e que causou uma reação imediata e vigorosa dos nacionalistas que defendiam o monopólio estatal do petróleo, resultando numa grande mobilização que ganhou proporção nacional, e conseguiu impedir a tramitação do Estatuto. Essa mobilização eventualmente contribuiu para o estabelecimento do monopólio estatal do petróleo no Brasil e por fim, a criação da Petrobrás, anos mais tarde.

Dois dias antes de sofrer um espasmo cerebral que o vitimou aos 66 anos de idade, Monteiro Lobato, que havia sido preso e perdido todo o dinheiro que havia ganho com seus livros, tentando achar petróleo, concedeu uma entrevista à rádio Record, reafirmando a sua posição favorável à vitoriosa campanha em defesa do nosso petróleo e articulou a frase que mais tarde virou o logo da Petrobras: “O Petróleo é nosso!”

Chega. Não quero nunca mais tocar neste assunto de petróleo. Amargurou-me doze anos de vida, levou-me à cadeia – mas isso não foi o pior. O pior foi a incoercível sensação de repugnância que desde então passei a sentir sempre que leio ou ouço a expressão ‘Governo Brasileiro’…” 

Encerrava-se assim a história de um dos mais célebres brasileiros, que pagou um alto preço por defender a nacionalização do petróleo, mas jamais se dobrou aos mandos e desmandos de um sistema que costuma ser impiedoso com aqueles que lhe afrontam.

 

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REFERÊNCIAS:

https://flatout.com.br/historia-de-monteiro-lobato-e-o-petroleo-brasileiro/

Tese: MONTEIRO LOBATO, “GENERAL DO PETRÓLEO”: CONTROVÉRSIAS

CIENTÍFICAS, FICÇÕES E FUTUROS EM DISPUTA NA CAMPANHA PRÓ-

PETRÓLEO (1931-1941) – DANIEL ALENCAR DE CARVALHO (PDF)

Artigo “Indústria siderúrgica brasileira nas ideias de Monteiro Lobato e Pandiá Calógeras” (PDF)

https://www.unicamp.br/unicamp/ju/678/poder-literatura-e-petroleo

https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/o-petroleo-e-nosso-derradeiras-palavras-de-monteiro-lobato-21532/

Monteiro Lobato e sua luta visceral pelo petróleo brasileiro: o que aprendemos com ele?

Em cartas cheias de planos e críticas, escritor detalhou interesse na exploração do “ouro negro”

tia Chiaradia

Monteiro Lobato foi um nome muito falado em 2019. Tanto por sua obra entrar em domínio público neste ano quanto pelo aniversário de 80 anos da descoberta do primeiro poço de petróleo brasileiro, no barro de Lobato, em Salvador (Bahia). Apesar do nome do bairro não ter a ver com o criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo, o destino ainda sim pode ser sábio, uma vez que o autor foi um dos maiores nomes a lutar pelo Petróleo de solo brasileiro.

Essa luta é explicitada, em sua maioria, por meio de cartas entre ele e o engenheiro de perfuração Charles Frankie, que constam no Cedae (Centro de Documentação Alexandre Eulalio), da Unicamp. O conteúdo das mensagens não era outro: críticas contundentes à legislação que acabara de entrar em vigor e ao “atraso brasileiro”. Destacava nas cartas a história das primeiras companhias petrolíferas no país. Em outras mensagens, entraram em discussão questões acerca da parceria na tradução e na redação do prefácio de “A Luta pelo Petróleo” (1935), de Essad Bey. Mais à frente, esse conjunto de cartas também teria papel definitivo na composição de seu best-seller “O Escândalo do Petróleo” (1936) e no infantil “O Poço do Visconde” (1937).

Entre 1934 e 1936, Lobato empreendeu diversas missões em busca de petróleo, todas frustradas. Seguia criticando a legislação e chegou a apelar para autoridades, na tentativa de alterar o Código de Minas, para que fosse “o mais liberal possível”. Na visão dele, havia pelo menos dois grupos estrangeiros interessados no petróleo brasileiro, mencionados em muitas das cartas: os norte-americanos —que teriam “interesses ocultos”, representados por Vitor Oppenheim e pela Standard Oil—, e os alemães, representados por Frankie e pela empresa Piepmeyer, entre outros.

Supondo que poderia levar o Brasil a um tipo de desenvolvimento semelhante ao observado nos EUA e ainda se firmar como empresário e empreendedor, Lobato iniciou a Campanha do Petróleo.

Em 1930, o mundo ainda sofria consequências da Priemira Guerra Mundial, junto dos efeitos do colapso da Bolsa de Nova York. O Brasil, neste contexto, via sua demanda pelo petróleo crescer exponencialmente. Eram 38 mil barris diários comparados aos 2 milhões por dia atuais. Nesse período, o governo federal passou a legislar sobre a exploração das riquezas minerais em nome da União, buscando fortelecer o estado. Assim, foi fundada a Companhia Brasileira de Petróleo, associada à anglo-holandesa Royal Dutch & Shell, referência mundial na extração, na época com a maioria de técnicos e maquinário americanos.

Assim, entre 1932 e 1935, outras duas companhias passaram a atuar no Brasil: a Companhia Petróleo Nacional, incorporada por Monteiro Lobato, Lino Moreira e Edson de Carvalho, que funcionava legalmente em Riacho Doce, Alagoas; e a Companhia Petróleos do Brasil, presidida por Lobato, instalada legalmente no campo de Araquá, hoje Águas de São Pedro, no interior de São Paulo. Ainda assim, não se extraía petróleo do subsolo brasileiro. Ao menos não oficialmente.

Em 1933, Victor Oppenheim foi contratado para operar pesquisas em solo brasileiro. Lobato, então, começou a criticar publicamente a associação entre o governo brasileiro e a estrutura empresarial dos EUA. Em paralelo, Juarez Távora, na pasta da Agricultura, solicitava oficialmente ao Itamaraty uma organização do exterior para estudos geofísicos no Brasil, passando, em seguida, a comandar as iniciativas de pesquisa.

Pouco depois disso, Victor Oppenheim começou a divulgar os primeiros resultados de sua pesquisa. Em boletim ao DNPM, afirmava: “A região de S. Pedro, no estado de S. Paulo [poço São João do Araquá, cuja exploração se dava pela Companhia Petróleos do Brasil, de Monteiro Lobato] é, do ponto de vista geológico-estratigráfico, francamente negativa para futuras pesquisas de petróleo nessa região”.

Devido ao novo Código de Minas e também á constituição de 1934, as jazidas eram consideradas como parte da união, além do estabelecimento de “a nacionalização das jazidas e minas julgadas básicas ou essenciais à defesa econômica ou militar do país” e “a exigência de nacionalidade brasileira ou de constituição de uma empresa nacional para atuar no setor de mineração” —medidas nitidamente nacionalistas.

Lobato, como já dito, combateria extensivamente, como escritor e empresário, o Código de Minas. Irritado em especial com a exigência de nacionalidade brasileira para a pesquisa e para a lavra das jazidas minerais, apelidou-o de “lei cipó”. A legislação, porém, ao definir empresas nacionais como “sociedades organizadas no Brasil”, sem restrição de nacionalidade dos acionistas, possibilitava que companhias estrangeiras fossem até proprietárias de empresas nacionais.

Usando dessa brecha, Lobato organizou no Brasil sociedades com capital estrangeiro, como a Amep (Aliança Mineiração e Petróleos), visando impedir que o petróleo brasileiro ficasse exclusivamente com o truste americano Standard Oil-Royal Duth sem concorrência mínima.

Lobato julgava necessária a diferenciação entre acordo e entreguismo. Ele cobrava que Getúlio Vargas priorizasse os interesses do Estado brasileiro, inclusive em longo prazo. O escritor era um cidadão inconformado que não desistia de exercer seus direitos políticos, um intelectual apaixonado que caminhava rumo a seu propósito, atuando nas mais diversas áreas: alimentava debates na imprensa, discursava acerca da importância dos empreendimentos nacionais, realizava prospecção de petróleo, escrevia artigos e livros sobre o tema e dedicava-se visceralmente aos “bastidores do petróleo”, pela intensa troca de cartas, buscando os mais diversos arranjos políticos e comerciais.

Mais que um escritor, Monteiro Lobato era um intelectual apaixonado e devoto do poder da literatura e dos livros. Cabe aqui uma reflexão sobre o essencial papel que o verdadeiro pensador desempenha no processo de desenvolvimento de uma população. O intelectual que fala com todos é essencial em tempos obscuros.

Em 1937, com uma nova Constituição, as regras para a pesquisa e a lavra das jazidas minerais ficaram ainda mais enrijecidas em relação à nacionalidade das empresas. Fechou-se a brecha da lei de 1934, estabelecendo-se claramente que apenas brasileiros ou empresas constituídas no Brasil, com sócios brasileiros, poderiam participar das atividades mineradoras.

Meses à frente, porém, o decreto-lei 366, de 1938, incluiu no Código de Minas um capítulo específico, declarando que “todas as jazidas de petróleo e gases naturais acaso existentes no território nacional pertencem aos Estados ou à União, a título de domínio privado imprescritível”. Tratava-se do primeiro documento federal abordando especificamente o petróleo que, contudo, segundo o governo, ainda “não existia”.

Mas em 1939, há 83 anos, num rompante de deboche aos laudos do DNPM, o petróleo brotou no bairro de Lobato, em Salvador, na Bahia. No ano seguinte, o novo Código de Minas manteve o dispositivo de 1934. A incansável atuação na Campanha do Petróleo colocou Monteiro Lobato em choque com o governo de Getúlio Vargas, o que levou à prisão do escritor de janeiro a junho de 1941.

Ironicamente, enquanto Lobato estava preso, foi publicada a primeira legislação específica para o petróleo, o decreto-lei 3.236, de 7 de maio de 1941. Em 1946, nova Constituição restabelecia a brecha para que estrangeiros pudessem atuar como sócios em empresas de mineração, nos moldes do que vigorava em 1934. No entanto, o Código de Minas de 1940 não foi modificado, mantendo a restrição a estrangeiros. O artigo que continha tal limitação foi somente revogado pelo Senado em 1964, após acórdão do STF, liberando empresas estrangeiras como acionistas de empresas de mineração no Brasil.

O tempo da vida, contudo, nem sempre é o tempo da política. Na madrugada de 4 de julho de 1948, vítima de um derrame, Monteiro Lobato morreu em São Paulo, sob comoção de todo o país.

Quase duas décadas mais tarde, em 1967, foi promulgado o Código de Minas que vigora até hoje, com algumas modificações implementadas por meio de leis específicas. Ele oficializou a abertura das atividades de mineração no Brasil a empresas estrangeiras, o que já vigorava desde 1964.

Em 2015, a legislação de lavra voltou a ganhar notoriedade no cenário brasileiro. Um crime ambiental comprometeu para sempre o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, Minas Gerais: a barragem de rejeitos da mineradora Samarco (que tem como sócias a brasileira Vale e a anglo-australiana BHP Billiton) rompeu, matando o rio Doce, soterrando famílias e animais, levando doenças e impregnando de barro os olhos de um país inteiro, que assistia incrédulo à tragédia.

Vieram à baila, desde então, discussões sobre a responsabilidade das mineradoras na lavra das jazidas minerais. Em 2017, por meio da medida provisória 790, o governo federal tentou introduzir modificações ao Código de Minas, como a inclusão de “responsabilidade do minerador pela recuperação ambiental das áreas impactadas” e a obrigação do titular da concessão de “observar o disposto na Política Nacional de Segurança de Barragens”.

Após meses de discussão no Congresso, a MP recebeu 250 emendas e se transformou em um projeto de lei de conversão (PLV 39), que, depois de várias sessões sem ser apreciado, foi retirado de pauta, fazendo com que a MP caducasse. Mesmo após a tragédia, a burocracia tornou inerte o primeiro movimento positivo, em anos, na legislação de lavra.

Na esteira dos fatos, no final de 2018, o decreto 9.406 foi publicado, regulamentando a lei do Código de Minas de 1967. Parte do decreto é uma reedição de artigos da MP 790, já que o PLV 39 ainda não foi apreciado pelo Congresso Nacional. Tudo foi parar em alguma gaveta.

Desde então, ainda tivemos a catástrofe de Brumadinho, com milhares de vidas humanas e não humanas interrompidas ou impactadas pelo mar de rejeitos e descaso da mineradora Vale.

A sensação de entreguismo do Brasil também marca nossos dias. Estamos inertes? Estamos já nos esquecendo? Quase um século se passou desde que Monteiro Lobato usou de todas as suas armas para se opor à burocracia institucional que opera na máquina política brasileira. De lá para cá, pouco ou nada mudou: medidas provisórias caducam, projetos de lei são engavetados e boa parte dos governantes ainda ignoram os assuntos sobre os quais legislam.

O texto, a luta, a persistência e a indignação de Monteiro Lobato escaparam aos clichês de sua época, e a originalidade de sua obra ainda hoje continua a nos falar. É este também o papel da literatura: ao nos envolver em um mundo que não parece nossa realidade, leva-nos a reavaliar o mundo em que vivemos.

Talvez nos falte essa indignação visceral.

tia Chiaradia, doutora em teoria e história literária pela Unicamp.

Este texto foi adaptado do artigo “Em briga por petróleo, Monteiro Lobato vê burrada imensa no país”, publicado original e integralmente no caderno de literatura “Ilustríssima”, da Folha de São Paulo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/03/em-briga-por-petroleo-monteiro-lobato-ve-burrada-imensa-no-pais.shtml 

Grupos de estudos sobre Monteiro Lobato ganham destaque em lives com bisneta do escritor

Reunir em um grupo, profissionais gabaritados, com as mais variadas experiências e vivências para aprofundar o estudo de um determinado tema ou personalidade, é um trabalho desafiador e de incalculável importância para o aprofundamento do conhecimento que contribui para o entendimento contextual nas mais variadas áreas.

Um grupo de estudos é uma oportunidade de se desenvolver, no sentido intelectual, acadêmico e social. Compartilhar informações, trocar ideias, fazer novas descobertas e ampliar o conhecimento.

Atualmente, dois grupos de estudos sobre Monteiro Lobato se destacam no cenário de pesquisas Lobatianas -‘Observatório Lobato’ e o ‘Lobato em Rede’ ambos com produção de trabalhos de peso e qualidade a respeito do pai da literatura infanto-juvenil brasileira.

OBSERVATÓRIO LOBATO

O grupo ‘Observatório Lobato’ conta atualmente com 17 membros e surgiu organicamente no final de 2021, resultado dos ‘Encontros com Lobato’ e da’ ‘Jornadas Monteiro Lobato’.

Em meados de 2019 após uma conversa com a coordenadora da área de Português do curso de traducão da Universidade Johannes Gutenberg e  tambem a constatação da falta de uma tradução para o alemão da obra infantil de Monteiro Lobato a Profa. Vanete Santana-Dezmann decidiu sugerir um projeto estimulante de tradução para seus alunos de graduação.  O projeto abarcaria a tradução dos primeiros tres capítulos do livro “Reinações de Narizinho” para o alemão.  Meses depois, em Agosto surgiu a ideia de haver um evento para se falar da obra de Lobato que havia caído em dominio publico.

Em Dezembro de 2019, aconteceu a primeira “Jornada Monteiro Lobato” realizada na FFLCH -USP. Este evento presencial contou com 22 conferências e foi organizado pela conjunto com o prof. John Milton – professor de Tradução da Universidade de São Paulo que acabara de lançar um livro sobre a relação de Lobato com a tradução. O interresse foi tanto que as Jornadas se tornaram anuais acontecendo virtualmente em Dezembro de 2020 e 2021.

A partir das “Jornadas” surgiu a ideia de encontros mensais sobre Lobato – os “Encontros com Lobato” onde a Profa. Vanete e o Prof John Milton tem entrevistado as mais diversas pessoas, sempre sobre temas relacionados à Monteiro Lobato. Esses encontros trouxeram para o grupo, outros estudiosos importantes, como o Dr. Sílvio D’Onofrio, pesquisador de Lobato e biógrafo de Edgar Cavalheiro, além da pesquisadora Taís Diniz Martins.

E foi assim, na esteira desses eventos e dessas e outras uniões, que foi nascendo o grupo de estudos ‘Observatório Lobato”.

MONTEIRO LOBATO EM REDE

O grupo ‘Monteiro Lobato em Rede’ existe virtualmente há mais de 20 anos, com diferentes titulos, e é formado por pesquisadores que, na sua origem, foram orientandos da professora Marisa Lajolo, responsável por “análises paradigmáticas da obra lobatiana”, e hoje é dirigido pela também professora Milena Martins.

Entre 2009 e 2014, os membros do grupo foram coautores do livro “Monteiro Lobato livro a livro: obra infantil”, vencedor de dois prêmios Jabuti como melhor livro de crítica literária e livro do ano de não-ficção. Eles ainda publicaram “Monteiro Lobato livro a livro: obra adulta”.

Em 2021, o grupo se formalizou como uma linha de pesquisa do grupo “Literatura em Rede”, registrado no diretório de grupos de pesquisa do CNPq.

Atenta ao surgimento de grupos de estudos sobre Monteiro Lobato, a bisneta do escritor, Cleo Lobato decidiu realizar uma série de lives via plataforma Zoom, com inscrições direcionadas a professores e alunos universitários com o objetivo de difundir o trabalho desses estudiosos que podem contribuir de modo relevante para uma melhor compreensão da vida e da obra de uma das personalidades mais importantes do nosso país.

Com o tema “Dona Benta em tempos de Revolução Digital” primeira live aconteceu no dia 26 de maior, com a participação de Juliana Padúa, doutora em letras pelo Manckenzie, vice líder do grupo de pesquisas e produções literárias e culturais para crianças e jovens da USP e Patrícia Romano, professora da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará e membro do Observatório Lobato e Lobato em Rede.

A próxima live será justamente com a professora Milena Martins, que vai detalhar todo trabalho de estudo e pesquisa do grupo Lobato em Rede.

Para saber mais sobre as lives e outros conteúdos relacionados a vida e a obra do pai da literatura infantil brasileira, basta acompanhar o perfil da Cleo Lobato no Instaram: https://www.instagram.com/cleomonteirolobato/ e no Facebook: https://www.facebook.com/cleo.monteirolobato

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Referências:

https://www.observatoriolobato.org/

http://www.prppg.ufpr.br/site/ppgletras/2022/04/12/grupo-de-pesquisa-monteiro-lobato-em-rede-inicia-ciclos-de-palestras-em-19-de-abril/

‘O Saci’, um livro atual para crianças e adultos, 100 anos após o seu lançamento

Três anos após haver escrito o livro O Saci-Pererê: resultado de um inquérito, Monteiro Lobato lançou, em 1921, a primeira edição de O Sacy (sim, naquela época a grafia era escrita com a letra y), um livro elogiadíssimo até hoje, considerado um ícone da obra do escritor por reforçar as suas ações na linha de uma nova literatura infantil brasileira, processo que ele próprio já havia iniciado com o sucesso de A menina do Narizinho Arrebitado, o seu primeiro livro infantil, lançado em 1920. Além disso, O Saci resgatou e valorizou o folclore brasileiro e tornou os seus personagens, conhecidos de todos.

A história gira em torno de um diálogo reflexivo entre o Saci e Pedrinho. O neto de Dona Benta, que morava na cidade, e costumava passar suas férias escolares no Sítio do Pica-Pau Amarelo, onde brincava de tudo e gostava de se gabar por não ter medo de nada, a não ser de vespas. No fundo, o menino também morria de medo de Saci, um sentimento comum, afinal todos naquele tempo ficavam amedrontados com as histórias correntes a respeito do endiabrado moleque duma perna só que fazia travessuras.

Apesar do temor, Pedrinho vivia com o Saci na cabeça, falando do danado e tomando informações a seu respeito. Um dia, conversando com Tia Nastácia, ficou sabendo que o Tio Barnabé sabia como capturar Saci e essa descoberta deixou o menino determinado a aprender a caçar um. Pedrinho resolve então procurar o velho sábio, que com mais de 80 anos, era um profundo conhecedor das coisas da natureza, de religiosidade, sabedor de histórias que ele próprio viveu e de outras, as quais ouviu ao longo da vida, para saber mais sobre o Saci. Tio Barnabé explicou ao menino que o Saci, era na verdade um diabinho de uma perna só, pito aceso na boca e uma carapuça vermelha na cabeça, que vivia solto por aí aprontando com todo mundo. Revelou também que a força dele está na carapuça, assim como a força de Sansão estava nos cabelos e que quem consegue tomar e esconder a carapuça de um Saci, se transforma o seu senhor pelo resto da vida.

Tio Barnabé explicou ainda, que não havia apenas um Saci no mundo, mas vários! Contou do aparecimento de um deles ali, na sua casa e revelou que havia muitos jeitos de pegar Saci, mas o modo mais fácil era atirar uma peneira em cima de um rodamoinho de poeira e folhas secas, pois todos os rodamoinhos são provocados por algum Saci, como todos sabem. Depois ele deveria prender o diabinho numa garrafa, fechá-la bem com uma rolha, tomar a sua carapuça e escondê-la bem escondida.

Resumidamente, sem dar “spoiler”, Pedrinho consegue pegar um verdadeiro Saci e em seguida se mete em uma grande aventura, que se passa do mundo natural (a floresta) para o mundo sobrenatural (mitologia/folclore), com total naturalidade, até porque para uma criança não há muita diferença. Além da valorização do nosso folclore, O Saci passa ao leitor, mensagens e ensinamentos sobre comportamento, respeito, amor ao próximo e principalmente, nos leva a refletir sobre o eterno embate entre natureza contra a civilização, desenvolvimento contra a preservação, tendo como pano de fundo uma discussão filosófica entre Pedrinho e o personagem que dá nome ao livro. A primeira delas sobre quem é superior: o homem que tem de aprender as coisas ou os animais que já nascem sabendo?

A medida que avançamos na leitura, fica claro que quem vence essa discussão é o Saci, porque ele fala das guerras que o homem costuma fazer, estampa toda a estupidez do ser humano e conclui, por exemplo, que se todos se mantivessem crianças, assim como Peter Pan, não haveria guerras e a vida endireitaria.

Num outro trecho, na hora da fome, o Saci sabe o que fazer, arranjando palmito e mel para comer, enquanto dá início a outra discussão, sobre “o que é a vida e o que faz os seres viverem”? Mais uma vez o danado tem outra explicação feita com enorme delicadeza.

Com a chegada da noite eles falam de medo, passando a mensagem de que é o medo quem cria os seres terríveis, os monstros, os fantasmas, e aí surgem mais figuras do nosso folclore na história, como o Curupira, o Negrinho do Pastoreio, além de outras criaturas como o lobisomem, a mula-sem-cabeça, a Cuca e a Iara. Essa parte da história é um verdadeiro dicionário de seres do nosso folclore. Não há qualquer exagero em afirmar, que esse livro realmente resgatou todos os personagens do folclore brasileiro, além de trazer importantes reflexões que vão sendo apresentadas no desenrolar da história protagonizada por Pedrinho e pelo Saci.

Para fechar a história, avisados por uma coruja, nossos dois personagens centrais ainda tem o desafio de enfrentar a Cuca para salvar Narizinho, transformada em pedra pela velha bruxa. E o final… bem… vamos deixar que você leia o livro, porque no desfecho há outros ensinamentos que você só vai entender através desse mergulho na leitura.

O que podemos garantir é que O Saci é um livro que todos os pais precisam ler para os seus filhos e compartilharem juntos essa experiência. Ler pausadamente, sem pressa, se atentar as ricas mensagens e valores morais passados ao longo da história que se mantém atual e ricamente transformadora, mais de cem anos após ser escrita!

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REFERÊNCIAS:

# edição nº 1 “O Sacy”.

http://www.labpac.faed.udesc.br/monteiro%20lobato%20e%20o%20folclore_ivan%20vale%20de%20sousa.pdf

https://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,ha-um-seculo-inquerito-sobre-o-sacy,12665,0.htm

http://www.ecofuturo.org.br/blog/dia-do-saci/

https://www.maisquelivros.com/2020/01/resenha-o-saci-monteiro-lobato.html#:~:text=%C3%89%20nessa%20hist%C3%B3ria%20que%20a,terr%C3%ADveis%20garras%20da%20bruxa%20Cuca.

https://www.mercadoeditorial.org/books/view/9786589711179

Narizinho; a primeira personagem feminina a ser protagonista em histórias infantis

Alguns dias antes do Natal de 1920, Monteiro Lobato publicava sua primeira obra escrita especialmente para o público infantojuvenil: “A Menina do Narizinho Arrebitado”, pioneira em diversos aspectos.

A obra marcou época, principalmente ao trazer pela primeira vez, como protagonista, uma personagem feminina, antes mesmo da espevitada Emília, que só teria o seu nome estampado num título em 1934 com o livro “Emília no País da Gramática”.

Para diversas gerações de crianças, as páginas dessa obra literária abriram as portas, ou melhor, as porteiras, para um mundo mágico, sem fronteiras de tempo e espaço, sem oposição entre o real e o fantástico, onde o que se deseja se pode viver, o que se imagina pode acontecer.

Aos poucos fomos conhecendo e nos tornando íntimos dos habitantes deste mundo, uma constelação de personagens incríveis que orbitam, naquela época, em torno de uma estrela maior: Lúcia, a menina do narizinho arrebitado, que deu início, há mais de 100 anos, a uma das mais famosas coleções da literatura infantojuvenil brasileira – o Sítio do Pica-Pau Amarelo”.

Dando sequência a nossa série sobre os principais personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, abordamos neste artigo, a personagem Narizinho.

Mas quem é essa personagem que ganhou fama por ter como principal característica física, um nariz arrebitado? Lúcia Encerrabodes de Oliveira, é o nome de batismo da neta de Dona Benta, prima de Pedrinho, dona da boneca Emília e ainda protagonista de várias aventuras que marcaram gerações, na forma de livro e também na televisão, no Brasil e no mundo.

Infelizmente, entre todos os personagens criados por Lobato, Narizinho é de quem menos se tem informações em relação a sua inspiração, origem e outros detalhes que nos ajudem a ampliar o nosso próprio imaginário. Na edição original, entre as poucas informações, o escritor nos indica que ela era órfã de pai e mãe, sem citar de quem era filha (se de um filho ou de uma filha de Dona Benta), por exemplo. Sabemos que seus pais morreram e só.

Monteiro Lobato foi um desses escritores que não costumava descrever detalhadamente a aparência de cada personagem. Ele costumava informar apenas leves indícios para caracterizar sua criação, assim como também fez com Narizinho,

descrevendo a personagem como uma menininha de sete anos, morena como jambo, de olhos pretos como duas jabuticabas”, algumas vezes bem diferente de algumas das Narizinhos que aparecem nas ilustraçoes dos seus livros e tambem nos programas de televisão que fizeram enorme sucesso ao longo de décadas.

Sua neta, Joyce suspeita que a personagem teria sido inspirada nas irmãs de Juca, como Lobato era chamado pela familia, Judith e Esther. Ambas era extremamente inteligentes, de personalidade forte e de imaginação fértil. Tambem nos deparamos no texto do professor Osni Lourenço Cruz, em seu livro Na trilha de Lobato”, onde ele afirma que “Narizinho seria fruto de uma fixação antiga por narizes que se percebe em muitos escritos de Lobato. Muitas características da personagem estariam ligadas às irmãs do escritor: Judith e Esther, com as quais costumava brincar na fazenda dos pais.”

Sobre a fixação com narizes arrebitados aqui vemos a realidade seguir a fantasia pois por incrível que pareça tanto sua neta Joyce quanto a bisneta de Lobato, Cleo, tem narizes arrebitados!

Na verdade, nunca saberemos ao certo de onde teria vindo a inspiração para a criação da nossa protagonista, entretanto, é facilmente percebida em Narizinho, várias características que moldam a sua personalidade: uma menina imaginativa e inteligente, com forte senso de justiça, que adora brincar e que valoriza uma boa amizade – como se nota na sua proximidade com a Emília, sua boneca de pano, melhor amiga e companheira.

O jambo, destacado como sendo a cor da pele de Narizinho, é uma fruta nordestina avermelhada e essa característica sutilmente acrescentada por Lobato, talvez um indício de brasilidade e mestiçagem tão comum na população brasileira.

Mas pouco importa aqui a cor de pele da nossa personagem e sim o seu protagonismo. Afinal Narizinho foi a responsável por dar origem a tudo que de maravilhoso acontece no sítio. É ela quem faz uma boneca falar, um sabugo filosofar, quem se casa com um peixe e ainda faz sua boneca se casar com um leitão!

Assim como Lewis Carroll criou sua Alice genialmente descrevendo como se sonha, quando os acontecimentos se desenrolam de modo bagunçado, Monteiro Lobato criou a personagem à sua maneira. Ele também fez Narizinho uma sonhadora, mas ela sonha de modo mais ordenado, como se estivesse acordada.

A nossa centenária personagem, no auto do seu protagonismo literário, simplesmente sonha o que quer sonhar!

 

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REFERÊNCIAS

https://jornal.usp.br/cultura/ha-cem-anos-nascia-narizinho-uma-menina-de-nariz-

Narizinho

https://www.scielo.br/j/ccedes/a/ysqfcVHPLcNq7vqQbYJxFmM/?lang=pt

http://espaconarizinho.blogspot.com/p/quem-e-narizinho.html

https://www.ovale.com.br/brand/2.730/narizinho-e-negra-cravou-pedro-bandeira-

Na trilha de Lobato” – professor Osni Lourenço Cru

A Importância da Representatividade da personagem Nastácia

Por Andréa Rosa
Tradutora e Intérprete de LIBRAS
Doutora em Educação e Professora da UFSCAR – Campus Sorocaba

Ter em mãos a versão da obra de Monteiro Lobato adaptada pela sua bisneta é um presente para nós leitores brasileiros. Cleo reúne características únicas que a qualificam para este trabalho e porque não dizer “aventura” que é tornar as obras de Monteiro Lobato acessível às crianças do século XXI!

A princípio para um leitor menos avisado realizar a versão ou a adaptação de um texto pode dar a impressão de ser uma tarefa fácil, porém, não é, pois ambos demandam conhecimentos linguísticos e artísticos. Ambos envolvem a recriação centrada na língua–alvo e na cultura de seus leitores, trabalho que Cleo Monteiro Lobato realiza com perfeição por meio das ilustrações e do texto.

Vale ressaltar que recentemente a obra de Monteiro Lobato tem sofrido algumas críticas, sendo considerada por alguns, preconceituosa, porém devemos considerar a época na qual foi escrita e os costumes estabelecidos. Então, vindo de encontro da atualidade e dos progressos alcançados com o tempo, Cleo Monteiro Lobato nos apresenta um texto que enaltece as diferenças sem desigualdade. Por exemplo quando nos apresenta Tia Nastácia “Na casa ainda existem duas pessoas – Tia Nastácia, amiga de infância de Dona Benta que carregou Lúcia em pequena, e Emília, uma boneca de pano bastante desajeitada de corpo”. Por meio desse recurso inusitado ao apresentar a Tia Nastácia como amiga de infância da Dona Benta e não como cozinheira, Cleo introduz as personagens de forma similar em total igualdade! Essa adaptação permite ao leitor imaginar Tia Nastácia e Dona Benta sem distinção de classe social, produzindo um texto apropriado no atual contexto social brasileiro.

As ilustrações dessa obra possuem leveza, criatividade e contemporaneidade, deixando os personagens ao alcance do imaginário das crianças do século XXI. As ilustrações são essenciais no livro infantil, pois aviva a imaginação, aflora sentimentos e possibilita a construção de significados. A imagem é sempre o primeiro chamado para a criança pequena, que ainda não domina a leitura verbal. A leitura de um livro começa na capa e vai até onde o leitor possa perceber a riqueza de detalhes que compõem a obra, cujas narrativas de texto e de imagem se conectam. A narrativa da obra se faz de maneira articulada entre textos e imagens.

Nessa direção vale destacar as referências que são trazidas ao texto por meio das ilustrações, a exemplo de Narizinho que sempre foi descrita como uma menina morena cor de jambo que mora no sítio, e acompanhando dessa narrativa temos a ilustração de uma menina desta vez realmente morena com cabelos castanhos escuros curtos, vestido vermelho e calçando tênis All Star vermelhos, representação totalmente contemporânea. Essa imagem permite as crianças se identificarem com o personagem e nesse momento ocorre a captura do leitor pela obra! Cleo Monteiro Lobato alcança o êxito desejado por todo e qualquer autor!!

Vale destacar a nova tia Nastácia. Ela é retratada com riqueza de detalhes com suas roupas coloridas e típicas dos países africanos, com brincos, colares e pulseiras, dessa forma abandonando-se o lugar de subalterna e sem posses, a personagem negra está em pé de igualdade com a Dona Benta. Por essa contribuição a obra de Cleo Monteiro Lobato já é por si só merecedora de ser lida pelas nossas crianças, pois colabora para a transformação do olhar do outro sobre a pessoa negra e igualmente permite a criança negra se identificar com o personagem de forma admirável, produzindo nessa criança auto estima positiva sobre si mesma.

Nesse trabalho, narrativa e imagem são tecidas com delicadezas e preenchem todo o livro concebendo dele como uma obra reescrita e ao mesmo tempo original. E não é esse o desejo de todo tradutor/autor? Fazer ecoar na obra a voz do autor do original na reescrita de um novo texto autoral?

Monteiro Lobato sobrevive para as crianças do século XXI no trabalho sensível da sua bisneta!

Magno Silveira, um dos inumeráveis e apaixonados “filhos de Lobato”

A paixão de Magno Silveira pelos livros de Monteiro Lobato é prova do extraordinário alcance que tiveram os livros de Monteiro Lobato Brasil a fora.

Nascido em mãos de uma parteira na Fazenda do Lajão, no município de São Pedro dos Ferros, na zona da Mata mineira, o designer, ilustrador e bibliófilo Magno Silveira, já nos tempos de pré-adolescente, morava” literalmente, na pequena biblioteca da cidade. Costumava passar os dias mexendo, remexendo, lendo e relendo o curioso acervo que marcou a sua memória, com a mítica O Tesouro da Juventude e toda a obra infantil de Jose Bento Monteiro Lobato.

Uma das coleções, relembra Magno, de capa vermelha com dourações, que existia na biblioteca, foi ilustrada por André Le Blanc e cada um dos exemplares trazia, extra texto, duas pranchas ilustradas a cores por Jurandyr Ubirajara Campos, o conhecido J.U. Campos. Essas ilustrações coloridas, caprichosamente pintadas, eram o deslumbre do jovem, que mais tarde se tornaria um verdadeiro garimpeiro da obra do pai da literatura infantil brasileira. Narizinho em diálogo com o Gato Félix, a turminha do Sítio montada no Quindim, a onça tentando abocanhar o Sacy, a casinha de Dona Benta com o mastro de São João, são lembranças ainda bem vivas pois as pranchas coloridas de J.U. Campos eram verdadeiras obras primas.

A outra coleção era de natureza mais popular, mais atrativa nas capas, todas elas elaboradas por Augustus, que Magno considera o maior capista de Monteiro Lobato. Augustus, na sua opinião, conseguiu cenas absolutamente cinematográficas desenhadas de modo a unir capa, lombada e contracapa, num todo impactante. Sua capa para Reinações de Narizinho, um grande close up das narinas da menina, é magistral, e tornou-se clássica. O miolo dessa coleção trazia as mesmas ilustrações do André Le Blanc, mas sem as pranchas coloridas de J.U.Campos”, destaca.

Magno, que desenha desde a infância, conta que todo esse deslumbre surgiu naturalmente, inclusive na época ele já se tornara uma espécie de desenhista oficial da pequena cidade de São Pedro dos Ferros.

Nasceu lá, naquela pequena biblioteca, a paixão de Magno Silveira por Monteiro Lobato, por seus livros, por seus ilustradores que, desde 1992, são objeto de sua coleção e pesquisa. Como sempre quis o escritor, eu realmente morei” – e ainda moro – em seus livros e, quando a vida se torna um tanto aborrecida, fujo imediatamente para o Picapau Amarelo onde tenho longas conversas com o Visconde de Sabugosa ao sabor do delicioso aroma que vem da cozinha de Tia Nastácia”, relata Magno.

Magno cursou desenho na Fundação Mineira de Arte e Artes Plásticas na Fundação Escola Guignard, em Belo Horizonte e Design Gráfico na Universidade Paulista, em São José dos Campos, cidade onde mora desde 1991 e há mais de 30 anos comanda com sucesso o Magno Studio Design & Branding, escritório especializado em design editorial, naming, design de embalagens, design gráfico e estratégico, branding, ilustração e websites.

Colecionando livros de Lobato, tem em seu acervo raras primeiras edições de obras infantis do escritor e em 2015 foi o curador da exposição Os Ilustradores de Lobato – a construção do livro infantil brasileiro, montada inicialmente no Sesc de São José dos Campos, em 2015, na qual exibiu uma seleção de desenhos de Voltolino, Kurt Wiese, Nino, Jean Villin, Belmonte, Rodolpho, Raphael de Lamo, J.U.Campos, André Le Blanc e Augustus, ilustradores escolhidos a dedo por Monteiro Lobato, entre os anos de 1920 e 1948. No ano passado esta mesma exposição teve uma versão pocket no Clube Athletico Paulistano, na capital paulista, celebrando os 30 anos do escritório Magno Studio Design.

Alma de bibliófilo e mãos de designer

Lançando um novo olhar sobre a obra infantil de Lobato, usualmente estudada por suas qualidades literárias e temáticas, Magno Silveira tem focado suas pesquisas nos ilustradores e nas soluções gráficas e editoriais que mudaram definitivamente o rumo dos livros para as crianças do Brasil. Com esse trabalho, destacando os ilustradores de Lobato, Magno iluminou também o rico universo artístico das primeiras décadas do século XX.

Com alma de bibliófilo (amante ou colecionador de livros raros e preciosos) e mãos de designer, a riqueza, a originalidade e o rigor dos arranjos expositivos dos trabalhos de Magno não demoraram a chamar a atenção das editoras. Hoje ele faz pesquisas iconográficas (estudo descritivo da representação visual de símbolos e imagens) textos e leitura crítica para as coleções lobatianas da Editora do Brasil e da Globo Livros.

Através de seu escritório, o designer, que também é ilustrador, apresenta em seu portfólio inúmeros projetos de livros, publicações e peças gráficas. Toda essa expertise, aliada ao mergulho técnico e emocional no universo das imagens dos livros de Lobato, levaram Magno ao júri da categoria capa do Prêmio Jabuti 2020.

A reprodução original de O Sacy, de Monteiro Lobato

Este ano Magno Silveira criou a Editora Graphien com o objetivo de levar aos leitores edições fac-similares das primeiras edições de obras da literatura brasileira, a começar por livros de Monteiro Lobato. O Sacy, uma primeira edição hoje raríssima, foi o primeiro lançado no dia 21 de Junho. Para maior fidelidade à impressão tipográfica, foram projetadas matrizesem computação gráfica minuciosamente elaboradas a partir da

análise e compreensão da capa original digitalizada em altíssima resolução”, explica o organizador.

O resultado, foram 1.500 exemplares de um livro impresso em papel importado Munken (150g), no formato original 23×30 cm, com capa dura, sobrecapa grafite e corte circular ao centro, que deixa aparente o detalhe da tricromia da capa original. Nas suas 68 páginas, a edição retrata com rigorosa fidelidade a obra original, trazendo em seu miolo um português de creanças” e hontem”, onomatopeias caipiras, como nhen, nhin” (rangido de pau de bandeira), lepte, lepte” (açoite com vara de marmelo) e vukt, vukt” (balanço em cipó).

O conhecimento minucioso de Magno sobre cada traço dos artistas escolhidos a dedo por Lobato, o mergulho nos contextos culturais das obras e a expertise no campo da produção gráfica estão refletidos nessa impecável edição fac-similar de O Sacy, um marco editorial no resgate de primeiras-edições brasileiras, que celebra os 101 anos dessa obra renovadora do escritor e inaugura o catálogo da recém-lançada editora.

Além do bibliófilo e designer Magno Silveira, a organização da obra contou com a participação de Marisa Lajolo, Vladimir Sacchetta e Cilza Carla Bignotto, estudiosos da obra do Lobato, que contribuíram com artigos especialmente preparados para a edição.

Para adquirir a edição fac-similar de O Sacy, basta clicar neste link: https://www.graphien.com.br/

Você também pode conhecer mais sobre Magno Silveira acessando o site https://bibliotecadovisconde.com.br/ ou seguindo o seu perfil no Instagram: https://www.instagram.com/magno_silveira/ ou no Facebook: https://www.facebook.com/mgn.silveira

 

 

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REFERÊNCIAS:

https://www.ovale.com.br/viver/noticias/30-anos-do-magno-studio-com-a-exposic-o-

De reinação em reinação – 100 anos de Narizinho

https://www.paulistano.org.br/noticias/exposicao-ilustradores-de-lobato-aberta-no-

https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,o-sacy-de-monteiro-lobato-ganha-

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Museu Lobato: um lugar para quem já é apaixonado e para quem precisa se apaixonar pelo Sítio do Pica-Pau Amarelo

É dentro de uma extensa área verde de 18 mil metros quadrados, na cidade de Taubaté, no interior de São Paulo, onde fica o Museu Monteiro Lobato, instalado num casarão do século 19 que pertenceu ao avô materno do escritor, o Visconde de Tremembé. Lá nasceu Monteiro Lobato e foi um dos lugares onde passou tempos até os 12 anos de idade. Estilo rústico com grandes portas e janelas com padrões europeus, o casarão tem a sua estrutura feita de taipa de pilão, uma construção típica das chácaras das “Cidades do Café” da época, abrigando uma biblioteca infantil com as obras de Lobato.

Na extensa área verde, conhecida como Sítio do Pica-Pau Amarelo, se encontram a antiquíssima jaqueira citada nas páginas escritas por Lobato e o pomar da Dona Benta, numa oportunidade fascinante das pessoas deixarem a internet e mergulharem no ambiente que deu vida aos personagens do Sítio mais famoso do mundo, eternizados na literatura infantil brasileira.

Criado em 4 de novembro de 1958, o Museu Histórico Folclórico e Pedagógico Monteiro Lobato tem como missão a preservação e a divulgação da obra do escritor, através de programas de preservação, comunicação e pesquisa, voltados para os mais diferentes públicos, sendo um centro de referência nacional sobre a sua vida e a obra, a literatura infantil brasileira, o folclore e a cultura tradicional caipira.

PATRIMONIO DE TODOS NÓS

Tombado como patrimônio histórico estadual e nacional desde 1962, o Museu chegou a ficar fechado por um longo período para obras de restauração do casarão realizadas pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) e foi finalmente entregue ao público em 1981.  Desde então passou por várias mudanças e estruturação, de modo que somente a partir de 1993 começou a ter diretores/coordenadores, inciando com Benedita Célia Martins, sucedida na sequência por Conceição Molinaro, Consolação de Jesus F. C. Leão, Dálton Brunini Patto, Maria Cristina Lopes, Nathalia Novaes, Keli Santos e Juliana M. de Carvalho, que é a atual coordenadora do museu.

Recentemente o Museu também passou por um processo de modernização, que teve início em 2019 e foi concluído no início deste ano. O local agora conta com mais de mil itens catalogados, divididos em seis tipologias: documentos, bibliográfica, obras completas, hemerográfica, iconoteca e objetos. Todo esse material está disponível de forma gratuita para o público através de um banco de dados digital com manuscritos, fotografias, todas as obras completas de Lobato, tanto da literatura infantil quanto da adulta e onde o visitante pode navegar para conhecer um pouco da vida pessoal e profissional do autor.

O portal também proporciona uma imersão no universo lobatiano por meio de uma exposição virtual gamificada, ou seja, um jogo virtual e gratuito, onde a boneca Emília leva os usuários para uma grande aventura no Reino das Águas Claras e pela Floresta do Capoeirão dos Tucanos, cenários inspirados nas obras “A Menina do Nariz Arrebitado” (1920) e “O Saci” (1922). Neste portal interativo e educativo Emilia, a boneca mais curiosa e esperta do mundo explora também a vida e obra do escritor, com missões e desafios até chegar na Cuca e espantá-la com o pó de pirlimpimpim. Essa aventura conta com a ajuda de Tia Nastácia, Narizinho, Tio Barnabé, do Saci e de muitos livros encontrados pelo caminho. Vale a pena para a criançada jogar o game  e aprender sobre Lobato!

No museu os visitantes encontram um acervo com objetos pessoais como guarda-chuva, valise médica, tinteiro, baú, algumas primeiras edições dos livros do escritor, fotografias, banco de textos, bibliografia, documentações e uma biblioteca com obras de Lobato e de outros escritores. Há também três aquarelas que faz parte da coleção permanente do Museu doadas por José Carlos Sebe Mehy.  Lobato sempre amou desenhar e pintar tento feito inúmeros desenhos a nanquim, aquarelas e pinturas a oleo, e dizia: “No fundo não sou literato, sou pintor. Nasci pintor, mas como nunca peguei nos pincéis a sério, arranjei, sem nenhuma premeditação, este derivativo de literatura e nada tenho feito senão pintar com palavras”.

O museu apresenta ainda uma réplica original da cozinha típica caipira montada nos moldes característicos do Vale do Paraíba, no período colonial do século XVIII. Com um vasto acervo, contendo: Fogão a lenha, pilão de madeira, ferro de passar roupa da época entre outros utensílios.

Para os visitantes o grande diferencial é sem dúvida poder interagir por todo esse ambiente ao lado de atores de teatro que encarnam Emília, Narizinho, Visconde de Sabugosa, Dona Benta, Tia Anastácia e Pedrinho que apresentam o museu de forma lúdica e criativa, passeando pelo sítio, apresentando as dependências, brincando e encantando as crianças.

TEATRO NO MUSEU

Instituídas na década de 1990 pela professora Conceição Molinaro, as atividades teatrais tiveram a sua continuidade garantida pela professora Tina Lopes, (ambas ex- diretoras do museu) cumprindo um importante papel educativo. O enredo é pautado na obra infantil de Monteiro Lobato adaptada pelo educativo do museu de forma colaborativa, com um coordenador artístico e o elenco de atores, onde a cada quatro meses são executadas novas montagens teatrais e os atores atuam caracterizados com as personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Atualmente o espaço possui capacidade para 120 pessoas e o elenco conta com 12 atores escolhidos anualmente através de processo seletivo em parceria com o Centro de Integração Empresa Escola.

ACONTECE EM JULHO

Este mês o Museu Monteiro Lobato oferece uma série de três exposições imperdíveis entre elas, a exposição “Revivendo Lobato”, que traz em caráter inédito a apreciação de mobiliários e objetos que pertenceram a família do escritor e até mesmo a José Francisco Monteiro, o Visconde de Tremembé. No dia 2, data da abertura da exposição, a também escritora Cleo Monteiro Lobato, bisneta do autor, fará uma palestra e uma tarde de autógrafos com coquetel para autoridades e convidados.

VISITAÇÃO

O Museu funciona com dias e horários específicos para visitação.

As visitas ao CASARÃO por exemplo, acontecem de terça à sexta-feira das 9h às 16h30 e aos sábados e domingos das 9h às 12h e das 13h às 16h30.

A visitação a Área externa do Museu acontece de terça à domingo, das 9h às 17h.

Já as famosas sessões teatrais acontecem aos fins de semana e feriados, com sessões as 11h e as 16h, desde que haja um público mínimo de 10 pessoas. A retirada de senhas para as apresentações é feita com 30 minutos de antecedência do início de cada sessão.

Para saber mais sobre o museu, acesse o site www.museumonteirolobato.art.br 

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Referências:

https://www.sisemsp.org.br/novo-acervo-digital-e-entregue-ao-museu-monteiro-lobato/

https://guiataubate.com.br/museus-em-taubate/museu-historico-folclorico-e-pedagogico-monteiro-lobato

http://www.conhecendomuseus.com.br/museus/museu-historico-folclorico-e-pedagogico-monteiro-lobato/

https://taubate.sp.gov.br/secretarias/museu-historico-folclorico-e-pedagogico-monteiro-lobato/

https://www.a12.com/jornalsantuario/noticias/museu-taubateano-reproduz-mundo-de-monteiro-lobato

Pedro Encerrabodes de Oliveira

Você conhece o Pedro Encerrabodes de Oliveira?

Especialmente se colocarmos o primeiro nome no diminutivo, certamente a grande maioria vai saber que estamos falando do neto de dona Benta, primo de Lúcia – a Narizinho do Sítio do Pica-Pau Amarelo, um menino bastante corajoso (a única coisa que bota medo nele são vespas), aventureiro, que mora na cidade e sempre passa as férias no sítio da avó com a prima, a boneca Emília, o Visconde de Sabugosa e outros personagens mágicos do universo lobatiano.

Dando sequência a nossa série de conhecer um pouco mais sobre a origem dos principais personagens criados por Monteiro Lobato, chegamos ao eterno menino Pedrinho, que acredita-se foi criado pelo escritor inspirado em suas memórias de si mesmo quando criança, vivendo uma infância saudável, brincando na fazenda com os filhos dos colonos, fazendo bonecos de sabugo de milho e tambem lendo em meio aos livros da biblioteca do avô, onde passava horas a fio.

Mas o nome do personagem, de acordo com o professor Osni Lourenço Cruz, em seu livro “Na trilha de Lobato entre as Serras”, teria sido uma homenagem a Pedro Luiz de Oliveira Costa, o Dr. Pedrinho, uma das figuras mais renomadas da política taubateana até hoje, de quem o escritor era primo por afinidade.Dr. Pedrinho foi vereador, prefeito de Taubaté, deputado estadual e federal. Ao longo de sua vida sofreu com muitos ataques racistas por causa da sua cor e assim como Lobato, pelo fato de ser filho da terra. Talvez por isso e tambem por ambos terem perdido os pais muito cedo, o escritor se identificasse com o Dr. Pedro Costa, ao ponto de homenageá-lo dando seu nome ao personagem.

No imaginário lobatiano, Pedrinho tem dez anos de idade, cabelos curtos, faz aniversário abril e aparece pela primeira vez no livro “Narizinho Arrebitado” na segunda historia , quando chega ao Sitio de ferias O personagem emerge mesmo a partir do livro infantil, O Saci”, publicado no final de 1921 pela editora da Revista do Brasil, quando o personagem passa então a fazer parte integral das aventuras do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Podemos descrever a personalidade de Pedrinho, de acordo com o autor, como sendo um menino curioso, ativo, autônomo, interessado por leituras diversas, que gosta de assuntos científicos, valorizado pela coragem, pela responsabilidade e pela honestidade. Pedrinho é um menino inteligente que reflete e questiona com argumentos a autoridade dos adultos e muitas vezes, nas obras pesquisadas, o personagem desobedece” o adulto. Ele também reflete a imagem de um personagem que valoriza a ordem e os deveres em suas relações sociais alem de respeitar muito a natureza, especialmente depois do seu encontro e “educação” com o Saci.

Em resumo, esse personagem, inspirado no próprio Lobato é uma mistura de valores lobatianos que o autor quis passar para as próxima gerações e tambem da idealização de das boas lembranças da infância de um menino que não envelhece com o tempo. Afinal não há modernidade ou recurso tecnológico que faça envelhecer a alma de uma criança.

“E que assim seja sempre”

 

REFERÊNCIAS:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedrinho#:~:text=Pedrinho%20foi%20retratado%20pela%2

https://repositorio.ufsc.br/xmlui/bitstream/handle/123456789/129472/327577.pdf?sequ

*Prof. Osni Lourenço Cruz – “Na trilha de Lobato entre as serras”

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Monteiro Lobato mudou o próprio nome

Você sabia que antes de se chamar José Bento Monteiro Lobato, o pai da literatura infantil brasileira, que nasceu em 1882, se chamava José Renato Monteiro Lobato?

Pois é. Esse era o nome de batismo de Monteiro Lobato, que mudou o próprio nome aos 11 anos de idade, para usar uma bengala (acessório muito usado na época), que era de seu pai com as iniciais J.B.M.L. gravadas.

Essa é uma das histórias reveladoras contadas na biografia "Furacão na Botocúndia" (Senac), de 97, transformada em vídeo com depoimentos de escritores, imagens históricas e relatos do próprio escritor, que morreu em 1948. Esse documentário foi produzido pela Fundação Banco do Brasil e pela Odebrecht dentro do "Projeto Memória", que apresenta personalidades ou fatos históricos que marcaram o país.

O vídeo que conta a vida do escritor desde a infância até a sua morte, passando pelos livros e pelas lutas travadas por ele ao longo da vida, foi dirigido por Roberto Elisabetsky a partir do roteiro de José Roberto Torero e distribuído exclusivamente em escolas e bibliotecas.

 

Fonte:

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq10079923.htm

Mediação de Leitura: Dona Benta Em Tempos de Revolução Digital

RESUMO: Em tempos de uma grande imersão nos smartphones e nos tablets, temos observado que os professores vêm encontrando dificuldades para envolver seus alunos na leitura de obras literárias. Diante desse cenário, no qual os livros concorrem com os dispositivos móveis, tomamos como exemplo a figura de Dona Benta – personagem das histórias infantis de Monteiro Lobato – com o objetivo de refletirmos sobre o papel do mediador de leitura na contemporaneidade: não somente aquele que apresenta os textos, mas também convida os leitores a olharem para o universo que os circunda. Para tanto, neste artigo, abordaremos a performance da avó de Narizinho e Pedrinho, particularmente, em Geografia de Dona Benta (1935) e em D. Quixote das crianças (1936), e, depois, inspiradas nessa prática de formação, proporemos estratégias de mediação alinhadas à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para trabalhar com os livros citados, a partir do uso de recursos digitais, no 6º ano do Ensino Fundamental.



PALAVRAS-CHAVE: Dona Benta; Literatura; Mediação; Recursos Digitais.

ABSTRACT: In times of great immersion in smartphones and tablets, we have observed that teachers have found great difficulty in involving their students in reading literary works. In view of this scenery, in which books compete with mobile devices, we have as an example the figure of Dona Benta – a character in Monteiro Lobato children’s stories – with the aim of reflecting on the role of the mediator of reading in contemporary times: not only the one who presents the texts, but also the on who invites readers to look at the universe that surrounds them. Therefore, in this article, we will discuss the performance of Narizinho and Pedrinho’s grandmother, particularly in Geografia de Dona Benta (1935) and in D. Quixote das Crianças (1936), and then, inspired by this training practice, we will propose strategies of mediation – aligned with the National Common Curricular Base (BNCC) – to work with the books cited, using digital resources, in the 6th year of elementary school.

KEYWORDS: Dona Benta; Literature; Mediation; Digital Resources.

 

INTRODUÇÃO

Qualquer adolescente de hoje em dia sabe que um PC é um computador pessoal […] No

entanto, para os homens da minha geração […] PC significava Partido Comunista. Hoje, PC serve de bandeira para um outro movimento revolucionário e, como quase sempre nesses casos, são jovens quem o encabeçam. Trata-se da revolução digital, informática, ou seja lá que outro nome se queira dar a ela, que há uma década vem sacudindo a humanidade.
Juan Luis Cebrián 

 

 

Segundo Morin (1997a, p. 147), “numa sociedade em rápida evolução e, sobretudo, numa civilização em transformação acelerada como a nossa, o essencial não é mais a experiência acumulada, mas a adesão ao movimento”. Por isso, neste artigo, cientes do quão urgente se faz sintonizar as nossas práticas docentes à atual concepção de realidade que vem sendo esculpida, propomos discutir sobre estratégias de mediação, em tempos de tecnologias digitais da informação e comunicação, as chamadas TDICs, a partir da forma como Dona Benta explora o universo da leitura em duas obras infantis de Monteiro Lobato, Dom Quixote das Crianças (1936) e Geografia de Dona Benta (1935). A nossa tese de que essa personagem deva ser tomada como uma espécie de modelo de mediadora de leitura, em sala de aula no século XXI, alicerça-se em dois pontos. Primeiramente, no fato de Dona Benta apresentar, enquanto leitora proficiente dos mais variados assuntos, os livros às crianças de maneira instigante, envolvendo-as em reflexões complexas não só a respeito da construção dos sentidos presentes nos textos, mas também sobre os diversos conhecimentos que os perpassam, pois, conforme nos esclarece Lajolo (2005, p. 103), ao abordar o projeto de leitura, de tradução e de adaptação de Dom Quixote das crianças”, “o leitor encontra material bastante rico para reflexão sobre questões de leitura, de leitura dos clássicos, da adequabilidade de certas linguagens a certos públicos, do papel a ser representado pelo adulto responsável pela iniciação dos jovens na leitura e mais miudezas.” Cardoso (2008, p. 290 e 291) nos conta que, em Geografia de Dona Benta, Monteiro Lobato também “idealizava um projeto educacional democrático, autônomo, capaz de formar leitores críticos, preparando-os para vida” e, por isso, não escondia das “crianças as guerras, bem como suas causas, a necessidade de poder e dominação, características tão marcantes do ser humano”. Contudo, vale sublinharmos que essas propostas de formação humana, evidenciadas no modo como a avó-leitora-mediadora conduz os serões, nem sempre foram compreendidas, acarretando a proibição das obras lobatianas em várias escolas, ainda no tempo em que Lobato era vivo. O segundo ponto é a noção de que “a literatura é um mundo aberto ao mesmo tempo às múltiplas reflexões sobre a história do mundo, sobre as ciências naturais, sobre as ciências sociológicas, sobre a antropologia cultural, sobre os princípios éticos, sobre política, economia, ecologia…” (MORIN, 1997b, p. 67). Nesse sentido, compreendendo a literatura “[…] não só como um produto da imaginação criadora do homem, mas também como um meio de problematizar o real – uma espécie de ‘encruzilhada’ por onde passam e se cruzam todos os ‘caminhos’ que formam o ‘mapa’ da sociedade” (COELHO, 2000 p. 28, grifos da autora), iremos sugerir também possibilidades de se trabalhar os dois livros em questão, no 6º ano do Ensino Fundamental, a partir do uso do recursos digitais integrados, como prevê a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

DONA BENTA, A PERSONAGEM MEDIADORA DE LEITURA NA SAGA INFANTIL LOBATIANA

Uma senhora que respeitava os livros. Isso mesmo. Uma personagem leitora e mediadora de leitura. Falamos aqui de Dona Benta, personagem-avó das obras infantis de Monteiro Lobato. Dona Benta aparece já em A menina do Narizinho Arrebitado, em 1920-1921. Mas não é ainda a senhora que conhecemos. Apenas em 1931, com a publicação de Reinações de Narizinho, é que os leitores vão se deparar com a avó que será a mediadora de textos para toda a turma do Sítio do Picapau Amarelo ao longo da saga de mais de vinte volumes. Vejamos Dona Benta nestes dois textos separados no tempo por 10 anos:

 

A menina do narizinho arrebitado (1920/21) (Edição Fac-similar, 1982) Reinações de Narizinho (1931)
Naquela casinha branca, — lá muito longe, mora uma triste velha, de mais de setenta anos. Coitada! Bem no fim da vida que está, e trêmula, e catacega, sem um só dente na boca – jururu… Todo o mundo tem dó dela: – Que tristeza viver sozinha no meio do mato… Pois estão enganados. A velha vive feliz e bem contente da vida, graças a uma netinha órfã de pai e de mãe, que lá mora desde que nasceu. (LOBATO, 1982, p. 3) Numa casinha branca, lá no sítio do Picapau Amarelo, mora uma velha de mais de sessenta anos. Chama-se Dona Benta. Quem passa pela estrada e a vê na varanda, de cestinha de costura ao colo e óculos de ouro na ponta do nariz, segue seu caminho pensando:
– Que tristeza viver assim tão sozinha neste deserto…
Mas engana-se. Dona Benta é a mais feliz das vovós, porque vive em companhia da mais encantadora das netas – Lúcia, a menina do narizinho arrebitado, ou Narizinho como todos dizem. (LOBATO, 1977, p. 9)
 

 

 

Como vimos no quadro acima, Dona Benta nasce sem nome e parece estar já no fim da vida, trêmula, catacega e sem dentes na boca. Nem de perto essa descrição assemelha-se à personagem que hoje conhecemos nas obras do Sítio do Picapau Amarelo.  Como poderia aquela personagem, com tal caracterização, participar de todas as aventuras que tinham passado pela cabeça de nosso escritor? Dona Benta precisava de mais tempo de vida e de mais vivacidade. 
Eis que uma década e muitos outros pequenos textos com aventuras da turma, no meio do caminho, serviram para que Lobato percebesse a necessidade de rejuvenescer a avó. Pois foi o que o leitor passou a encontrar em 1931, com a publicação de Reinações de Narizinho. Nele, a senhora recebe um nome, Benta, e tem pouco mais de sessenta anos. É ativa, gosta de costurar e usa óculos de ouro no nariz, o que nos faz deduzir que se trata de alguém com alguma posse. De acordo com o trecho apresentado anteriormente, ela vive contente (“mais feliz das vovós”), pois mora em companhia de Lúcia (“mais encantadora das netas”). Por meio dessa reelaboração do texto, o escritor traz, então, certa delicadeza à obra, antes bem mais sisuda, talvez por conta da avó catacega e da neta órfã de pai e mãe. 
Esse tom mais leve e carinhoso é o que reverberará na cabeça de todo leitor de Lobato quando conhece Dona Benta. Para nós, professores de literatura, conhecê-la significa também admirá-la não só como uma grande leitora que ela é, mas também mediadora de leitura em que se torna. Explicamos. Dona Benta, apaixonada pelo ato de ler, empresta as suas competências leitoras para os leitores em formação.
Dona de uma imensa biblioteca, já leu e releu exemplares importantes de textos que compõem a história da humanidade. Um desses muitos livros é Dom Quixote, de Cervantes, em dois enormes volumes, os quais se tornam mote para que Emília e os netos peçam a ela que lhes conte a história do herói da Mancha. Assim como leitora de Quixote, ela é também de Peter Pan e de Hans Staden, outros dois clássicos da literatura que, junto com o texto cervantino, serão recontados para os netos. 
Atenta sempre à importância da leitura, ela oferta os mais variados assuntos e os estimula a imersão nos textos para, futuramente, quando desenvolverem as habilidades leitoras esperadas, busquem os textos originais dos quais ela reconta as histórias ou sobre os quais faz comentários críticos ou ainda ouve e comenta os comentários dos netos e dos bonecos Emília e Visconde.
Como mediadora de leitura, Dona Benta é capaz de se inserir entre o texto lido (ou recontado) e o ouvinte, ajudando-o a entender as relações entre ambos. Por isso, em seus serões, faz questão de que seus netos dialoguem com ela e perguntem sempre que alguma dúvida surgir. Seu vasto e rico repertório de leitura faz com que ela seja respeitada e valorizada, em especial, pelos próprios netos e também pelos outros moradores do Sítio. Além de recontar clássicos literários, também aproveita seus serões para recontar e mediar a história do mundo e sua geografia (a partir de uma viagem imaginária que ela e a turminha empreendem a bordo do navio “O Terror dos Mares”). Também ajuda o Visconde a explicar como se faz a exploração do petróleo no Sítio e faz experiências e as explica em História das Invenções. Vejamos:

 

 

de, no futuro, ler o texto em sua versão completa. Trata-se de uma importante competência mediadora a percepção de que o mediador é uma “ponte” temporária entre o texto e seu leitor. Ele está ali apenas como facilitador, naquele momento, de distâncias históricas, linguísticas ou estilísticas. Vemos muito bem essa competência de Dona Benta nos exemplos de texto em que ela se preocupa com a leitura futura das crianças (ROMANO, 2019, p. 161). 

 

 

Sensível às competências de leitura de seus ouvintes, a avó-leitora-mediadora encontra alternativas, geralmente eficazes, para mediar os textos para os netos e demonstra traquejos que contribuem para que as crianças gostem das histórias, queiram escutá-las, compreendê-las e discuti-las (e por que não, relê-las no futuro), acabando por torná-las, até mesmo, parte da própria realidade delas. 

Essa era a Dona Benta personagem do início do século XX. E hoje, nos vinte primeiros anos do século XXI, em plena revolução digital, continuam atuais as táticas de reconto de textos e a performance como mediadora de leitura da carismática Dona Benta? No momento em que vivemos, quando se fala tanto em TDICs e BNCC, como a personagem inspira processos de mediação antenados ao século XXI?  


A EDUCAÇÃO EM TEMPOS DE REVOLUÇÃO DIGITAL


A sociedade, nos últimos séculos da grande marcha humana, vem sofrendo profundas e céleres transformações, o que, consequentemente, esculpe novos paradigmas nos modos de ser, pensar, sentir, agir e se comunicar. Com o advento da internet e a popularização dos microcomputadores, temos percebido de forma ainda mais evidente essas mudanças, como é o caso da Web 1.0, Web 2.0, Web 3.0 e já se fala em Web 4.0.
De acordo com Santaella (2007, p. 195), “se prestarmos a atenção [no transcurso de apenas dois séculos], ficará perceptível que grande parte dessas invenções é constituída por tecnologias que incrementam a capacidade humana para a produção de linguagem.” Segundo a autora, essas tecnologias (info)comunicativas podem ser classificadas em cinco gerações, as quais produzem formas de culturas específicas, embora o surgimento de uma formação cultural não anule as outras, visto que ocorre a sobreposição e a complexificação nos modos de coexistência, como veremos a seguir:

 

CULTURAS

ÂMBITOS

TECNOLOGIAS

MÍDIAS

TRAÇOS

industrial

eletromecânica

do reprodutível

jornal, foto e

cinema

reprodutibilidade

de massa

eletroeletrônica

da difusão

rádio e televisão

transmissão

das mídias

narrowcasting

do disponível e do descartável

para audiências específicas

segmentação

cibercultura

teleinformática

do acesso

digitais

interatividade

da mobilidade

comunicação móvel

da conexão contínua

locativas

portabilidade

 

 

 

A convivência imbricada desses cenários culturais midiáticos demarca, dos anos 1990 para cá, o início do que chamamos hoje de revolução digital  e isso, no que se refere ao universo da literatura, não impacta somente a maneira como se produzem e se divulgam os textos literários, mas também o jeito de lê-los e mediá-los. 

Há pouco tempo, a gigante editorial americana Simon & Schuster ditou novas regras para seus escritores. E quais seriam elas? Abrir um blogue. Criar uma página no Facebook. Gerar conteúdo em redes sociais literárias. Interagir. Contaminar-se. Sair dos escritórios empoeirados ou da pretensa redoma criativa. Abrir-se para as novas exigências e imperativos de uma época de cibercultura. Tudo isso posto em contrato (CRUZ, 2012, p. 32).


Nas instituições de ensino, também conseguimos notar uma certa mudança: a transição de aulas estritamente centradas na figura do professor-expositor para novos modelos educacionais, cujas dinâmicas colocam os estudantes como protagonistas nos processos de aprendizagem. Esse movimento, apesar de vir caminhando a passos lentos, desponta, cada vez mais, com a adoção de percursos metodológicos personalizados a partir do uso integrado das tecnologias digitais.
Nesse sentido, como bem destaca Lévy (1999, p. 171, grifos do autor) ainda no século XX:

[…] a principal função do professor não pode mais ser uma difusão dos conhecimentos, que agora é feita de forma mais eficaz por outros meios. Sua competência deve deslocar-se no sentido de incentivar a aprendizagem e o pensamento. O professor torna-se um animador da inteligência coletiva dos grupos que estão a seu encargo. Sua atividade será centrada no acompanhamento e na gestão das aprendizagens: o incitamento à troca, a mediação relacional e simbólica, a pilotagem personalizada dos percursos de aprendizagem etc.

Por isso, compartilhando da mesma opinião de Martín-Barbero (1996, p. 19, grifos do autor) sobre o quanto as tecnologias digitais de comunicação e informação trazem um grande desafio para a sala de aula, haja vista que “apenas a partir da compreensão da tecnicidade midiática como dimensão estratégia da cultura que a escola pode inserir-se [verdadeiramente] nos processos de mudanças que atravessam a nossa sociedade”, retomamos as orientações da BNCC com o objetivo de propormos  mais adiante – à moda de Dona Benta – possibilidades de mediação de leitura, no 6º ano Ensino Fundamental, a partir do uso de recursos digitais.


BNCC E TDICS, UMA PROPOSTA DE TRABALHO COM A LITERATURA EM SALA DE AULA

Não adianta a tecnologia reforçar o processo educativo tradicional. É preciso, antes 
de mais nada, repensar a educação. Repensar a educação e repensá-la a partir dos 
próprios educandos e, a partir daí, pensar um novo desenho do processo educativo, ver o 
replanejamento desse processo e verificar para que pode servir a tecnologia. 

As diretrizes da BNCC buscam garantir, ao longo da Educação Básica, aprendizagens essenciais para o século XXI. De acordo com essas prescrições, os alunos devem ter assegurado o desenvolvimento de dez competências gerais que se consubstanciam em direitos éticos, estéticos, políticos e de aprendizados. Vale sublinharmos que tais competências só poderão ser alcançadas plenamente se houver a “mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para desenvolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho” (BRASIL, 2018, p. 8).
Para pensarmos em como é possível, ainda hoje, nos inspirarmos nos processos de mediação de leitura da nossa personagem-avó-leitora e, ainda por cima, ir ao encontro dos preceitos da BNCC, pontuamos, aqui, cinco competências gerais que dialogam com nossas sugestões de trabalho:
 

TÍTULOS

COMPETÊNCIAS

pensamento científico, crítico e criativo

Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas.

senso estético

Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural.

TÍTULOS

COMPETÊNCIAS

comunicação

Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo.

argumentação

Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.

 

cultura digital

Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.

Se observarmos com atenção as competências gerais listadas acima, perceberemos que elas atravessam todas as áreas do saber e articulam uma formação humana global. Se reconhecermos que “A sociedade na qual estamos inseridos se constitui como um grande ambiente multimodal, no qual palavras, imagens, sons, cores, músicas, aromas, movimentos variados, texturas, formas diversas se combinam e estruturam um grande mosaico multissemiótico” (DIONISIO & VASCONCELOS, 2013, p. 19), constataremos, a partir dessa noção, que “É de suma importância que a escola proporcione aos alunos o contato com diferentes gêneros, suportes e mídias de textos escritos, através, por exemplo, da vivência e do conhecimento dos espaços de circulação dos textos, das formas de aquisição e acesso aos textos e dos diversos suportes da escrita.” (LORENZI & DE PÁDUA, 2012, p. 36). Mas também que “[…] desenvolva as diferentes formas de uso das linguagens (verbal, corporal, plástica, musical, gráfica etc.) e das línguas (falar em diversas variedades e línguas, ouvir, ler e escrever)”(ROJO, 2009, p. 119, grifos da autora), porque só assim podemos formar leitores verdadeiramente proficientes para ler o mundo.
Nesse sentido, trabalhar a literatura não se limita apenas a ler/ouvir e discutir 
os sentidos dos textos escritos/impressos, mas também colocá-la em diálogo com outras expressões e produtos da cultura, assegurando, assim, os multiletramentos :
[…] um trabalho que parte das culturas de referência do aluno (popular, local de massa) e de gêneros, mídias e linguagens por eles conhecidos, para buscar um enfoque crítico, pluralista, ético e democrático – que envolva agência –  de textos/discursos que ampliem o repertório cultural, na direção de outros letramentos, valorizados (como é o caso dos trabalhos com hiper e nanocontos) ou desvalorizados (como é o caso do trabalho com picho). Além disso, trabalhar com os multiletramentos partindo das culturas de referência do aluno implica a imersão em letramentos críticos que requerem análise, critérios, conceitos, uma metalinguagem, para chegar a propostas de produção transformada, que implicam agência por parte do alunado. (ROJO, 2012,  p. 8)


Temos observado que, nos últimos tempos, nas aulas de literatura, o uso dos recursos digitais – como elemento integrador – tem ocorrido das mais diversas formas, desde a leitura da obras literárias até a partilha. É comum, por exemplo, os alunos lerem em uma plataforma virtual, pesquisarem em um dicionário eletrônico, escreverem suas impressões de leitura num blog, produzirem um booktrailer, criarem uma fanfic etc. Neste artigo, contudo, iremos destacar ideias para explorar as ferramentas tecnológicas e potencializar mais os processos de mediação.
 

POSSIBILIDADES DE MEDIAÇÃO DE LEITURA  EM UMA CULTURA DIGITAL

As transformações culturais, as novas condições de produção dos conhecimentos levam

a novos estilos de sociedade nos quais a inteligência é produto de relações entre pessoas e

dispositivos tecnológicos. Mudam, assim, as formas de construção do conhecimento e os

processos de ensino-aprendizagem.

Maria Teresa de Assunção Freitas

 

O professor, ao fazer a curadoria  das obras que serão exploradas em sala de aula, precisa escolher livros que sejam atemporais e que, portanto, favorecem o prazer da leitura. Dentro desse rol, os textos infantis lobatianos, considerados clássicos, podem ser tidos como “atuais” pois, mesmo que escritos no início do século XX, continuam dialogando com a sociedade contemporânea. 
Isso não se dá, por exemplo, devido ao fato de Dona Benta aparecer usando computador para enviar e-mail ao neto Pedrinho, como na última versão do Sítio do Picapau Amarelo, veiculada na televisão aberta no início do século XXI, mas sim pela maneira como traz discussões que respeitam a curiosidade e a inteligência das crianças. Nessa senda, acreditamos que, embora as personagens vivam no Sítio e se divirtam de outras formas, bem distantes daquelas experimentadas por uma geração imersa nos smartphones e nos tablets, as histórias convidam os leitores para um olhar de descoberta e muito disso é garantido pela tática de avó  aventureira e mediadora de textos. 
Uma obra literária mantém-se carregada de frescor, então, quando convida os seus leitores a olharem para si mesmos e para o mundo que os rodeia. Vejamos:
 

–    Estou contando apenas algumas das principais aventuras de D. Quixote, e resumidamente. Ah, se fosse contar o D. Quixote inteiro a coisa iria longe! Essa obra de Cervantes é bem comprida; passa de mil páginas numa edição in-16.
[…]
–    In-16, vovó? Que quer dizer isso?
–    É uma medida do formato dos livros. Os livros são feitos de papel, como você sabe. O papel vem da fábrica em folhas. Em cada folha imprime-se um certo número de páginas. Espere… O melhor é dar um exemplo. Traga um jornal.
–    Pronto, vovó – disse ele. Aqui tem um.
–    Muito bem – disse Dona Benta. Vamos agora tomar uma folha inteira e desdobrá-la sobre a mesa, assim. Aqui tem você uma folha de papel. Se dobrarmos esta folha pelo meio, quantas páginas ficam? Página é um lado só do papel. Pedrinho dobrou a folha de papel e contou.
–    Ficam 4 páginas.
–    Isso mesmo. Ora, se imprimirmos um livro em páginas desse formato, esse livro se chamará in-folio. Agora dobre o papel mais uma vez e veja quantas páginas dá.
Pedrinho dobrou a folha de papel e viu que dava 8 páginas.
–    Muito bem. Um livro impresso em páginas desse formato é um livro in-oitavo, ou in-8. Dobre o papel mais uma vez e conte.
Pedrinho dobrou o papel e contou 16 páginas.
–    Isso mesmo. Um livro impresso em páginas desse formato é um livro in-dezesseis, in-16. Dobre o papel mais uma vez e conte. […]
–    Ora veja só, vovó, uma coisa tão simples e eu não sabia! Vou ensinar a Narizinho (LOBATO, 1957, p. 152 e 153).
 

 

Aqui, temos uma “aula” sobre a materialidade do livro: Dona Benta, no papel de mediadora, enquanto apresenta uma síntese das aventuras de D. Quixote, abre espaço para uma conversa sobre as peripécias do herói e, por que não, das crianças no sítio, explorando sempre a relação entre o conteúdo (enredo) e a forma (edição/adaptação). Podemos observar que, mais do que simplesmente responder ao neto sobre o significado de in-16, ela o convida a experimentar as dobras da folha e tirar suas próprias conclusões.

Como mediaríamos essa obra à  moda de Dona Benta? Pois bem! Imaginemos que estamos trabalhando D. Quixote das crianças, no formato de e-book, com os alunos do 6º ano do Ensino Fundamental. Em primeiro lugar, sugeriríamos que os alunos usassem o mecanismo de busca do e-reader para conhecer o sentido da expressão in-16. Cientes do que significa, aí sim abriríamos para discutir sobre como fica essa questão na esfera do digital: Será que há uma correspondência visto que a “folha” no e-book é só uma representação gráfica e não o suporte propriamente dito?

Essas reflexões/descobertas seriam compartilhadas em murais colaborativos virtuais, cuja estrutura permite inserir áudios, imagens, vídeos, entre outros, e ainda linkar, curtir, votar, comentar, avaliar e atribuir estrelas as postagens. Notemos que, com essa atividade, estaríamos retomando uma explicação dada por Dona Benta, lá no início do século XX, e lançando – a partir de ferramentas tecnológicas para interação – um olhar sobre a materialidade dos textos contemporâneos, pois, como orienta a BNCC, é preciso:

Ler, escutar e produzir textos orais, escritos e multissemióticos que circulam em diferentes campos de atuação e mídias, com compreensão, autonomia, fluência e criticidade, de modo a se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos, e continuar aprendendo (BRASIL, 2018, p. 87).

Uma segunda proposição seria pedir que os alunos comparassem três versões diferentes da mesma obra: capa comum (1957), e-book (2017) e em quadrinhos (2007) . As duas primeiras referentes à adaptação lobatiana para as crianças, já a terceira, uma transposição desse exemplar literário para os quadrinhos. Os estudantes, após observarem o quanto cada escolha editorial afeta a construção dos sentidos e a experiência leitora, usariam os recursos digitais para fazerem um registro dessas análises (mapas conceituais) e até mesmo para criarem suas leituras em outra linguagem como, por exemplo, a audiovisual (animação em stop motion), exercitando a produção de textos multissemióticos:

Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em 

diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao diálogo, à resolução de conflitos e à cooperação (BRASIL, 2018, p. 65).

Quanto à construção dos sentidos, há inúmeras passagens dessa obra lobatiana que poderiam ser exploradas a partir da gravação de um podcast, por exemplo. Com isso, além de avaliarmos a performance leitora, oportunizaríamos uma situação lúdica de aprendizagem, como fazia Dona Benta, nas primeiras décadas do século, XX e vem preconizando a BNCC:

Mobilizar práticas da cultura digital, diferentes linguagens, mídias e ferramentas digitais para expandir as formas de produzir sentidos (nos processos de compreensão e produção), aprender e refletir sobre o mundo e realizar diferentes projetos autorais. (BRASIL, 2018, p. 87)

 

Vamos a um outro livro de Monteiro Lobato: Geografia de Dona Benta. Escolhemos uma passagem logo do início da obra – quando a avó responde a uma dúvida de Narizinho e incorre na Lei da Gravitação, de Isaac Newton – para refletirmos também quanto a sua exploração a partir do uso das tecnologias digitais:

  • Conte essa lei, vovó,
  • A Lei da Gravitação diz assim: A matéria atrai a matéria na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distâncias.
  • Fiquei na mesma! – gritou Pedrinho.
  • Pois não será difícil compreender, se formos por partes. Diz a lei que a matéria atrai a matéria. Matéria é tudo quanto ocupa lugar no espaço. Você ocupa lugar no espaço; logo você é matéria. Os astros ocupam lugar no espaço; logo os astros são matéria. Emília ocupa lugar no espaço; logo Emília é matéria.

A boneca rebolou-se toda, orgulhosa de ocupar lugar no espaço.

  • Mas o espaço é infinito – continuou Dona Benta, isto é, não tem fim; de modo que os astros, por maiores que sejam, não passam de pontinhos ocupando lugarezinhos no espaço infinito. Esses pontinhos, ou películas de matéria atraem-se, ou puxam-se uns aos outros.
  • Já sei – disse Pedrinho. Um puxa o outro como o ímã puxa o ferro. O ímã que atrai o ferro é a matéria-ímã atraindo a matéria-ferro.

Continue, vovó.

-Muito bem. A matéria atrai a matéria, mas de que modo? De dois modos. Primeiro, na razão direta das massas

 

[…]

  • Segundo modo: na razão inversa do quadrado das distâncias. Quer dizer que quanto mais longe um astro está de outro, menos o atrai.
  • Sei. Com a distância vai perdendo a força. Isso é lógico. Se o ferro está a um quilômetro do ímã, por força que é menos atraído do que se estivesse a um metro.

[…]

  • Compreendi. Continue, vovó.
  • Já acabou. É isso só. Um astro atrai outro conforme o tamanho e conforme a distância que está do outro. Quanto maior for o astro, mais atrai, e quanto mais longe estiver, menos atrai. A Lei da Gravitação é isso (LOBATO, 1957, p. 9 e 10, grifos do autor).

 

 

Temos aqui mais um excerto em que Dona Benta faz a ponte entre as crianças e o conhecimento institucionalizado. Com o objetivo de explorarmos a ciência que nem fazia a avó-leitora-mediadora, indicamos o uso Gravity Simulator, uma espécie de convite para experimentar a lei da gravitação com os alunos. Nessa proposta, os estudantes criariam quantas partículas quisessem, definindo tamanho, massa e velocidade, em seguida, visualizariam o trajeto, a colisão e a força de atração entre as partículas desenvolvidas em um campo gravitacional simulado. Mas isso é conteúdo para o 6º ano do Ensino Fundamental? Não podemos esquecer que Lobato nunca teve receio de discutir temas complexos em seus livros infantis. Então, é sim! O importante é trazer o conteúdo de maneira lúdica e o recurso digital integrado ao currículo. Com esta proposição, além de mediar o processo de leitura literária, o professor convoca os leitores a alargarem a percepção e o entendimento sobre os fenômenos do mundo, como recomenda a BNCC:

Analisar, compreender e explicar características, fenômenos e processos relativos ao mundo natural, social e tecnológico (incluindo o digital), como também as relações que se estabelecem entre eles, exercitando a curiosidade para fazer perguntas, buscar respostas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das Ciências da Natureza. (BRASIL, 2018, p. 324)

Uma outra possibilidade é o uso de aplicativos de realidade aumentada. Com o History: Maps of Word, os alunos acessariam diferentes mapas de várias partes do mundo de períodos distintos da história. Já com o Star Chart, identificariam a localização dos corpos celestes mesmo em plena luz do dia. Esses recursos, além de instigar a curiosidade, permitem:

 

Desenvolver autonomia e senso crítico para compreensão e aplicação do raciocínio geográfico na análise da ocupação humana e produção do espaço, envolvendo os princípios de analogia, conexão, diferenciação, distribuição, extensão, localização e ordem. (BRASIL, 2018, p. 366)

Uma proposta com apelo mais autoral é usar o Scratch, software de programação em bloco. Com ele, os alunos gamificariam histórias e jogos. Não podemos esquecer do Google Earth e do Google Maps que permitiriam realizar atividades riquíssimas no que se refere ao universo cartográfico, como, por exemplo, conhecer mais sobre os muitos espaços geográficos pelos quais a turma do Sítio faz passagem:

Desenvolver e utilizar processos, práticas e procedimentos de investigação para compreender o mundo natural, social, econômico, político e o meio técnico-científico e informacional, avaliar ações e propor perguntas e soluções (inclusive tecnológicas) para questões que requerem conhecimentos científicos da Geografia (BRASIL, 2018, p. 366).

 

Também podemos sugerir a retextualização  e a tradução intersemiótica  de algumas passagens do livro. Na primeira opção, os alunos produziriam um novo texto, inclusive com mudança de propósito comunicativo, a exemplo do infográfico, do e-zine e do meme. Na segunda, buscariam equivalências em outras linguagens, como é o caso da história em quadrinhos, do gif e da fotonovela. Nessas atividades, os alunos iriam:
Conhecer e explorar diversas práticas de linguagem (artísticas, corporais e linguísticas) em diferentes campos da atividade humana  para continuar aprendendo, ampliar suas possibilidades de participação na vida social e colaborar para a construção de uma sociedade mais justa, democrática e inclusiva (BRASIL, 2018, p. 65).
À lista de possibilidades, acrescentaremos também o uso de questionários online, os quais permitiriam criar uma espécie de gincana literária, em que os alunos responderiam a perguntas referentes ao que foi lido. 
Abaixo, para sintetizar, elencamos os nomes de alguns desses recursos digitais apresentados neste artigo:
 

PROPOSIÇÕES

RECURSOS DIGITAIS

animações em stop motion

AnimatorHD, Dragon StopMotion, Frame by Frame, iStopMotion, StopMotion Station e ZU3D

gifs

Giflike, Gif Studio, ImgFlip, Imgur e ImgPlay

histórias em quadrinhos

GoAnimation, Pixton, Scribble Press, ReadWriteThink e Stripcreator

infográficos

Canva, Genially, Infogram, Pictovia, Piktochart, Venngage e Visme

mapas conceituais

Canva, Coggle, Lucidchart, MindMeister, SimpleMind e StormBoard

memes

Adobe Spark, Canva, Crello, Meme Generator e Pext

murais colaborativos

Mural.ly, Padlet e Popplet

podcasts

Adobe Adition, Audacity, CutMP3.net e Spreaker

questionários online

Kahoot!, Mentimeter e Socrative

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS


Em tempos de uma grande imersão nos smartphones e nos tablets, traço marcante de uma cultura permeada pela revolução digital, temos observado que os professores vêm encontrando dificuldades para envolver seus alunos na leitura de obras literárias, especialmente, as que apresentam uma grande distância entre o contexto de produção e de recepção. Contudo, acreditando que podemos nos apropriar desses recursos tecnológicos como uma forma de instigar o trabalho com a literatura em sala de aula, apresentamos algumas possibilidades de mediação no presente artigo.
Tomamos a performance de Dona Benta, enquanto avó-leitora-mediadora, como um modelo para elaborar nossas proposições, haja vista que a carismática personagem das histórias infantis lobatianas, sensível às competências de leitura de seus ouvintes, sempre encontrava meios para apresentar os textos às crianças e, assim, convidá-las a refletirem não só a respeito da construção dos sentidos nos textos, mas também sobre os diversos conhecimentos que atravessam as histórias.
“Moderna”, não pelas novas roupagens que vem recebendo em diferentes edições nos últimos anos, Dona Benta nos inspira pelo jeito que promove os livros e medeia as discussões. Por isso, nossas sugestões do uso dos recursos digitais para explorar Dom Quixote das crianças e Geografia de Dona Benta, no 6º ano do Ensino Fundamental, nunca se tratava de uma concepção encantada com o em si tecnológico, mas de uma tentativa de mobilizar diferentes áreas do saber para alargar o olhar de descoberta, formando leitores verdadeiramente proficientes para ler o mundo, como espera a BNCC e fazia a referida avó-leitora-mediadora. 
Paulo Freire (1987, p. 79) dizia que “Ninguém educa ninguém, nem ninguém se educa a si mesmo, os homens se educam em comum mediados pelo mundo” e o mundo, hoje, é aquele em que vivemos na mudança da mudança, onde tudo se forma e se transforma frente a nossos olhos (TIBIJOY, 2008). Logo, sem preconceitos e medo de tentar, revimos nossas posturas docentes, considerando aprender a reaprender e pensando em formas, à moda de Dona Benta, de possibilitar uma educação centrada no protagonismo do aluno. 

 

REFERÊNCIAS

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC/Secretaria de Educação Básica, 2018.
CARDOSO, Rosimeiri Darc. Geografia de Dona Benta: o mundo pelos olhos da imaginação. In: LAJOLO, Marisa; CECCANTINI, João Luís (org.). Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil. São Paulo: UNESP; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008.
CEBRIÁN, Juan Luís. A rede: como nossas vidas serão transformadas pelos novos meios de comunicação. Trad. Lauro Machado Coelho. São Paulo: Summus, 1999. (Coleção Novas buscas de comunicação; v. 59)
COELHO, Nely Novaes. Literatura: arte, conhecimento e vida. São Paulo: Peirópolis, 2000. (Série Nova Consciência)
CRUZ, Nelson. Literatura e cultura em tempos digitais. Revista Brasileira de Literatura Comparada, n. 20, 2012.
DIONISIO, Angela Paiva; VASCONCELOS, Leila Janot de. Multimodalidade, gênero textual e leitura. In: BUZEN, Clécio; MENDONÇA, Márcia (Orgs.). Múltiplas linguagens para o Ensino Médio. São Paulo: Parábola Editorial, 2013. (Série Estratégias de ensino)
FREITAS, Maria Teresa de Assunção. Discutindo sentidos da palavra intervenção na pesquisa de abordagem histórico cultural. In: Fazer pesquisa na abordagem histórico-cultural: metodologias em construção. Juiz de Fora: Editora UFJR, 2010. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 13. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. [1968]
LACERDA, Nilma. Tortura e Glória: fugas na ordem dos livros. Belo Horizonte: Superintendência de Bibliotecas Públicas de MG, 2010.
LAJOLO, Marisa. Lobato, um Dom Quixote no caminho da leitura. In: Do mundo da leitura para a leitura do mundo. São Paulo: Ática, 2005.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. Trad. Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999.
LOBATO, Monteiro. Dom Quixote das crianças: contado por Dona Benta. (Ilustrações de André Le Blanc). 7 ed. São Paulo: Brasiliense, 1957. [1936]
LOBATO, Monteiro. A menina do narizinho arrebitado (edição fac-similar). São Paulo: 
Monteiro Lobato e Cia, 1982. [1920/21]
LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. 2 ed. vol. 1. São Paulo: Brasiliense, 1977. [1931]
LOBATO, Monteiro. Geografia de Dona Benta. (Ilustrações de André Le Blanc). 10 ed. São Paulo: Brasiliense, 1958. [1935]
LORENZI, Gislaine Cristina Correr; DE PÁDUA, Tainá-Rekã Wanderley. Blog nos anos iniciais do Fundamental I: a reconstrução de sentido de um clássico infantil. In: ROJO, Roxane Helena Rodrigues; MOURA, Eduardo (Orgs.) 

Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editorial, 2012. (Série Estratégias de ensino)
MARTÍN-BARBERO, Jesus. Herendando el futuro. Pensar la educacíon desde la comunicación. Revista Nómadas. Bogotá, Fundación Universidade Central, 1996.
MATENCIO, Maria de Lourdes Meirelles. Atividades de retextualização em práticas acadêmicas: um estudo do gênero resumo. Scripta, 2002, v. 6, n. 11, p. 25-32;
MORIN, Edgar. Cultura de massas no século XX: neurose. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997a.
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ROJO, Roxane Helena Rodrigues; MOURA, Eduardo (Orgs.). Letramentos, mídias e linguagens. São Paulo: Parábola Editorial, 2019. (Série Linguagens e tecnologias)
ROJO, Roxane Helena Rodrigues; MOURA, Eduardo. (Orgs.) Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editorial, 2012. (Série Estratégias de ensino)
ROJO, Roxane Helena Rodrigues; BARBOSA, Jacqueline. Hipermodernidade, multiletramentos e gêneros discursivos. São Paulo: Parábola Editorial, 2015. (Série Estratégias de ensino)
ROMANO, Patrícia A. Beraldo. Dona Benta: uma mediadora no mundo da leitura. 
Curitiba: Appris, 2019. 
SANTAELLA, Lúcia. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007.
TIJIBOY, Ana Vila. As novas tecnologias e a incerteza na educação. In: SILVA, Mozart Linhares da. (Org.) Novas tecnologias: educação e sociedade na era da informação. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.
 

O Sítio Chega ao Cartoon Network

Depois da estreia na Globo em 7 de janeiro de 2012, a série em desenho animado do Sítio do Pica-Pau Amarelo teve 78 episódios divididos em 3 temporadas com 26 episódios cada uma. Foi a partir da terceira temporada, com o fim da programação 100% infantil da Globo, que o Cartoon Network passou a exibir a versão animada do Sítio do Pica-Pau Amarelo e ganhou uma versão em espanhol, que foi ao ar no canal Tooncast para a América Latina.

O último episódio na Globo foi ao ar no dia 26 de setembro de 2016, e o programa é considerado um marco histórico para a animação no Brasil.

Essa versão cartoon do Sítio do Picapau Amarelo teve a produção executiva assinada por Eliane Ferreira, Reynaldo Marchesini, Fernanda Senatori e João Daniel Tikhomiroff, a produção fica a cargo de João Daniel Tikhomiroff, Michel Tikhomiroff, Hugo Janeba e Eliane Ferreira, com adaptação e roteiro final de Rodrigo Castilho, direção de Humberto Avelar e supervisão artística de Reynaldo Marchesini.

Exibido com sucesso também em outros países da América Latina, o programa ganhou prêmios importantes como o de Melhor Série Animada Latinoamericana e na votação popular Novasur Award, ambos do Festival Internacional de Animação Chileno em 2014 em Santiago, no Chile. O título de melhor série foi votado pelo júri do evento, enquanto o prêmio Novasur foi conquistado pela maioria dos votos de 12 mil crianças de escolas em todo o Chile.

 

As curiosidades do Sítio em desenho animado

A versão em desenho animado do Sítio do Pica-Pau Amarelo contou com algumas adaptações socioculturais importantes para evitar polêmicas. Deixou de lado por exemplo, qualquer resquício escravocrata em referência a Tia Nastácia e ao pó de pirlimpimpim, que deixou de ser pó por completo – para não haver qualquer ligação com substâncias alucinógenas – e virou uma espécie de mágica que transportava os personagens de um lugar para outro.

Muita gente vai lembrar que na versão original, Emília e sua turma aspiravam o pó e ‘viajavam’. Na versão dos anos 1980, já para evitar qualquer alusão ao uso de drogas, eles ao invés de aspirar, jogavam o pó uns sobre os outros para viajar em suas aventuras.

 

AS VOZES DOS PERSONAGENS:

Voce sabe aque:

            -As vozes dos personagens foram gravadas pelo estúdio Ultrassom, em São Paulo,

com direção de voz e de casting de Melissa Garcia nas temporadas 1 e 2 e Hugo Picchi na terceira temporada.

O processo de gravação das vozes é chamado de voz original porque ao contrário da dublagem, é todo feito antes da animação, servindo como base para a produção da animação.

As vozes dos principais personagens ao longo das 3 temporadas:

> Dona Benta: Gessy Fonseca

> Tia Nastácia: Patrícia Scalvi (temporadas 1 e 2) e Patrícia Pichamone

> Narizinho: Larissa Manoela (temporada 1) e Luiza Telles Rosa

> Pedrinho: Vyni Takahashi, Pedro Volpato e Renato Cavalcanti (uma temporada cada um na sequência)

> Emília: Isabella Guarnieri

> Visconde de Sabugosa: César Marcehetti

> Cuca: Alessandra Araújo

> Rabicó: Hugo Picchini Neto

No dia 10 de agosto de 2013, foi ao ar na Globo, a segunda temporada do cartoon do Sítio do Pica-Pau Amarelo, com histórias inspiradas no livro ‘O Saci’.

Como novidade, a inclusão de dois novos personagens O Saci e o Tio Barnabé, a troca nas vozes de Pedrinho e Narizinho.

As tramas da terceira temporada, que estreou no dia 6 de julho de 2015, foram livremente baseadas no livro ‘Caçadas de Pedrinho’ e duas novas mudanças de dubladores aconteceram: com Tia Nastácia e novamente com Pedrinho.

No último episódio da temporada, “Um lugar especial”, exibido no dia 26 de setembro de 2016, as férias de Pedrinho chegam ao fim e o garoto se despede de seus amigos antes de retornar à cidade grande. Mas Cuca prende o Sítio inteiro dentro de uma bola de vidro. O desfecho deixa no ar a possibilidade de quem sabe, uma continuação em breve


OUTRAS COISAS CURIOSAS:

Voce sabia que:

– Gilberto Gil teve que cantar a mesma música tema de abertura das versões anteriores em um arranjo bem mais acelerado, adaptando a canção ao tom da animação.

– Gessy Fonseca que deu voz à Dona Benta no desenho, já havia interpretado a personagem em um programa de rádio no ano de 1943, chegando inclusive a conhecer Monteiro Lobato!

– A marca do Sítio do Pica-Pau Amarelo sempre atraiu o interesse de empresas de diversos ramos e esmo distante da tela da Globo desde 2007, o ‘Sítio’ seguiu tendo itens licenciados e vendidos no site da emissora, como cadernos, bonecos, brinquedos, jogos, DVDs, entre outros, e o lançamento do desenho animado aqueceu consideravelmente os licenciamentos.

–   Entre 2012 a Editora Globo e a Globo Marcas, criaram a comunidade virtual "Mundo do Sítio", com jogos e atividades educativas voltadas para crianças de cinco a dez anos de idade. Considerada a primeira rede social infantil do Brasil, o site que tinha mais de 20 atividades disponíveis através do serviço de assinatura, foi mantido até 2015. O design dos personagens apresentado no Mundo do Sítio (e em peças derivadas de merchandising) também tinham o conceito original realizado por Bruno Okada, responsável pelo desenho dos personagens da série animada para a TV.

— Mesmo com algumas críticas pontuais quanto ao tom excessivamente infantil e a reformulação em relação às séries anteriores, a versão animada do Sítio do Pica-Pau Amarelo teve ótima recepção entre o público e fãs de Monteiro Lobato. No Cartoon Network, por exemplo, o título chegou a figurar entre os 10 programas mais vistos no canal.

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Fontes:

https://www.epgrupo.com.br/desenho-sitio-picapau-amarelo-produzido-pela-mixer-conquista-premios/

https://www.meioemensagem.com.br/home/midia/2011/12/14/desenho-do-s-tio-em-janeiro-na-globo.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADtio_do_Picapau_Amarelo_(s%C3%A9rie_animada)

http://redeglobo.globo.com/novidades/noticia/2011/12/sitio-do-picapau-amarelo-volta-ao-ar-agora-em-desenho-animado-na-globo.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADtio_do_Picapau_Amarelo_(s%C3%A9rie_animada)

Animação do Sítio revive o sucesso do universo de Monteiro Lobato

Ao criar o Sítio do Pica-Pau Amarelo, Monteiro Lobato jamais poderia ter imaginado até aonde sua obra infantojuvenil chegaria. Mas o poder da sua comunicação extrapolou limites, avançou por gerações, segue despertando o imaginário do público e hoje ainda, provocando discussões em torno dos mais variados temas abordados pelo escritor no seu tempo.

Será que se vivesse nos dias de hoje os personagens do imaginário lobatiano seriam os mesmos ou seriam diferentes? Será que teriam aparência semelhante as que nós conhecemos?

A Globo estendeu os limites do imaginário de Lobato e em parceria com a produtora de conteúdos audiovisuais Mixer – hoje Mixer Films, a terceira mais premiada do mundo, produziu uma série de animação brasileira, baseada na obra do escritor. O objetivo era bem claro e lógico: adequar a comunicação visual do já consagrado Sítio do Pica-Pau Amarelo às crianças do início da segunda década dos anos dois mil. O público-alvo da atração tinha diminuído de idade e agora estava entre 4 e 10 anos de idade.

Com investimentos de R$ 4 milhões por temporada, sendo R$ 3 milhões por meio da Lei do Audiovisual, que permite a canais a dedução de parte do imposto pago. Até o início da produção, foram dois longos anos de negociação entre a Globo Marcas – que representava à época os herdeiros nas questões dos direitos sobre a obra de Monteiro Lobato – e a Mixer, até que o primeiro episódio, da primeira temporada estreasse na emissora no dia 7 de janeiro de 2012.

Joyce Monteiro Lobato, neta do escritor, e o marido Jerzy Kornbluh, estiveram envolvidos diretamente durante todo o processo de criação dos desenhos dos personagens e da elaboração dos roteiros da série animada para a Cartoon.

Assim, o universo mágico criado pelo escritor Monteiro Lobato, sucesso em suas várias versões dramatúrgicas desde 1952, voltava a fazer parte das manhãs de sábados dos brasileiros, agora em desenho animado.

Seguindo o padrão Global, os cuidados com a produção passaram por minuciosos detalhes, com atenção para que a obra não perdesse suas características tão bem delineadas. Assim os personagens foram na verdade adequados à linguagem visual da época.

Para cartoonizar do modo mais adequado os personagens do Sítio, a Globo realizou um concurso com dez finalistas para definir quem seria o desenhista da obra. O escolhido foi Bruno Okada, que apresentou os personagens com características que o diretor de licenciamentos da emissora à época, José Luiz Bartolo, chamou de traços globaiscom características da nossa brasilidade juntamente com traços de mangá o que eventualmente favoreceria o lançamento de produtos no mercado internacional. Em suma, os personagens do nosso cartoon seguiram a base dos animes japoneses: olhos grandes, ritmo acelerado e falas dinâmicas.

O projeto foi negociado para a América Latina, onde foi exibido em vários países, alem do Brasil.

Com um volume de produção de três episódios por mês, a parte mais difícil da produção, de acordo com Tiago Mello, diretor executivo da Mixer e Rodrigo Castilho, responsável pela adaptação do texto e pelo roteiro final, era transformar histórias de 40 minutos na TV em episódios de apenas 11 minutos, tempo médio da animação.

Com o mesmo tema original de Gilberto Gil na abertura, as histórias baseadas em Reinações de Narizinho, Viagem ao Céue Caçadas de Pedrinho, protagonizadas por Dona Benta, Tia Nastácia, Narizinho, Pedrinho, Emília, o Visconde de Sabugosa, Rabicó e a Cuca, como já citado, tinham que ser aprovados previamente pelos representantes da família de Lobato, Joyce e Jerzy, pais da escritora Cleo Monteiro Lobato, hoje a responsável pela atualização e tradução da obra do pai da literatura infantil brasileira

A cartinha do príncipe

Patrícia Aparecida Beraldo Romano

Sítio do Picapau Amarelo, ano de 2020. Caro senhor Monteiro Lobato,

Estou eu aqui nesse recanto tão tranquilo do Sítio onde cresceram todas as suas personagens infantis. Talvez eu seja a mais antiga delas, afinal, enquanto elas eram crianças, eu já era um peixinho adulto e príncipe, sim senhor, com longas e brilhantes barbatanas. O ribeirão que corre no fundo do pomar é o meu ainda hoje meu refúgio, cem anos depois do momento em que o senhor começou a contar a minha história e a de suas personagens infantis. Aqui, nas águas muito apressadinhas e mexeriqueiras, ainda correm a nadar– por entre as negras pedras de limo, que Lúcia, a nossa Narizinho, chamava de “as tias Nastácias do rio”– os meus parentes grandes e miúdos, a se divertirem com as águas cristalinas e borbulhantes da pequena queda d’água que desemboca no riacho. O senhor já não mora mais neste lugar mágico. Foi-se embora há muito tempo, mas deixou nossa imagem consagrada entre as crianças que, ainda hoje, querem bailar comigo, o Príncipe Escamado, ou esperar por um vestido furta-cor de dona Aranha, a costureira das fadas!

O senhor deve estar se perguntando o porquê dessa minha cartinha, depois de tantos anos, não é mesmo? Pois me bateu uma enorme saudade da turminha do Sítio e dos leitores dela! Veja só o que me aconteceu há pouco tempo. Estava eu aqui pela beira do riacho, numa tarde tranquila de verão quando vi uma mãozinha se aproximar de mim. Eu, muito sorrateiro, já fui me apegando àqueles dedinhos pequeninos e matreiros e me deixei levar. Pois qual não foi minha surpresa: fui colocado em algo plástico, com muito pouca água e transportado para dentro de sua antiga residência, a casa grande, que hoje não é mais assim conhecida. Fiquei assustado, confesso. Achei que tivesse chegado o meu fim. Mas que nada, senhor Lobato, fui realocado para um espaço muito bonito, com pedrinhas coloridas, muito mais furta-cores do que as do fundo do riacho e dei de cara com uma série de outros parentes meus: uns enormes, outros minúsculos; uns coloridos como eu, outros de uma cor apenas. Uma alegria danada reencontrar amigos que eu pensava estivessem mortos há muito tempo.

Passei a observar o espaço ao meu redor. Sabe o que mais me impressionava? O cheiro bom que penetrava na água todo final de semana. Cheiro de comida, e comida caseira, das boas, igualzinha à de Tia Nastácia, quando todos nós fomos visitar o Sítio!

Uma delícia!!! A única tristeza é que não foi ela quem eu encontrei por lá, mas sim uma senhora a quem uma moça chamava de “mamãe”! E a quem crianças, inclusive a que me pegou no ribeirão, chamavam de “vovó”. Imediatamente imaginei se tratar de Dona Benta, um amor de avó. Não era ela também. Fiquei um pouco triste, pois já queria conversar com a boa senhora… Enfim, a prosa não foi possível, mas essa boa velhinha era a responsável pelo delicioso aroma que perfumava minha nova casa, o aquário.

De lá eu também via as pessoas que entravam e saíam da antiga casa grande. Ao entrarem, escutavam uma apresentação sobre o lugar, sobre o senhor e sua família, inclusive sobre o visconde, seu avô, que mandara construir tal casa. Sim, senhor Lobato, o visconde de Tremembé e a viscondessa, sua esposa. Havia as curiosidades sobre as janelas, cujos vidros, ou cristais (nunca consegui ouvir direito) teriam vindo da França! Nossa! Como haviam chegado até ali era o que todos queriam saber! Nem estradas existiam na época. E também desejavam descobrir se havia mobília ainda que pertencera ao senhor e sua família. Ao ouvirem um “sim,” ficavam encantadas, em especial com a escrivaninha. O almoço, como se chamava a comilança que se seguia às visitas, vinha na sequência. Tinha comida de todo tipo, cujos nomes eu ia anotando e descrevendo, para não esquecer e para aprender, pois Narizinho sempre dizia que eu era meio difícil de aprender.

Pois voltemos à aventura do Príncipe Escamado, em antigas terras da casa grande do senhor Lobato. Eu me aventurei a sair do aquário e me lembrei de que trazia no bolso uma das pílulas do Dr. Caramujo. Sim, senhor Lobato, o mesmo que deu a pílula da falinha à Emília. O Dr. Caramujo era um danado de esperto e conseguiu reinventar a fórmula enterrada com o antigo besouro boticário que as inventara. E olha, estou para dizer que essas são ainda mais eficientes! Bem, bastou engolir uma e… zás, deu certo, saí do aquário, já meio homem, meio peixe, e me dirigi à boa senhora para me apresentar. Ela, como eu esperava, levou um susto, mas se deixou seduzir por meu charme e gentileza.

A vovó me achou lindo no meu terno furta-cor e logo me ofereceu suas guloseimas. Enquanto me deliciava com elas, tentei explicar quem eu era, mas creio que, embora moradora da sua antiga casa, ela não era afeita à leitura das suas obras. Uma pena. Contei-lhe sobre minhas intenções: ser apresentado como o Príncipe Escamado a todas as visitas da casa. Imagine o sucesso, eu disse! Senhor Lobato, esse foi meu erro, pois a senhora achou que eu era um mentiroso, não conseguiu perceber a magia que permeava a minha existência e invadia a realidade dela. “Um peixe, e ainda

por cima, príncipe”? Foi demais para a senhora das comidas. Ela foi se assustando comigo, quando lhe mostrei minhas barbatanas, escondidas, sobre o blazer, e minha cauda, amarrada e presa à calça. E… de repente… Puf! Caiu, esborrachada no chão.

Os homens que ali trabalhavam a acudiram, mas acharam que eu era um ser perigoso, saíram correndo atrás de mim. Eu segurei fortemente minha cauda de peixe e zás, atravessei o pasto das vacas, dei de cara com uma Mocha, mas não me assustei como no passado. Passei correndo pela porteira do pomar e desejava apenas ouvir Tia Nastácia me chamando pra ver se todo aquele alvoroço desaparecia. Enfim, tive de pular, ainda meio homem, no riacho, e lá o feitiço da pílula desapareceu. Afundei nas águas tranquilas do ribeirão do Sítio, senhor Lobato, para de lá nunca mais sair.

E é daqui, desse espaço mágico, que lhe escrevo, na esperança de que seus textos continuem a ser publicados, lidos e relidos, pois só assim continuaremos vivos e amados por todos, crianças, jovens e adultos, que ainda acreditam na magia de uma pílula falante ou no pó do Pirlimpimpim ou ainda no fechar dos olhos e deixar-se levar simplesmente pelo poder da imaginação.
Saudações, senhor Lobato, do Reino das Águas Claras.
Príncipe Escamado

Tia Nastácia; Figura relevante na divulgação da rica cultura popular brasileira

O encantamento provocado pelos personagens principais criados por Monteiro Lobato, nas histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo, atravessa gerações e desperta a nossa curiosidade para conhecer melhor as suas origens e as características de suas próprias personalidades.

Neste texto nossa personagem em destaque é Tia Nastácia, a melhor amiga de Dona Benta, que foi escrava quando jovem e depois de liberta se tornou parte da família do Sítio mais famoso do mundo!

Dona de riquíssima sabedoria popular, apesar de quase nenhum estudo, Nastácia tem o dom da bondade, sendo a cuidadora de Lúcia, a Narizinho, desde pequena e criadora da boneca de pano Emília e do sábio Visconde de Sabugosa, um boneco feito a partir de um sabugo de milho.

Mesmo responsável pelos afazeres da casa, ao contrário do que campanhas anti-Lobato tentam propagar, ela é sempre tratada com muito respeito por todos e em nenhum momento é menosprezada pelo autor. Afinal, não há nenhuma vergonha em se fazer trabalho doméstico como todos sabemos. 

Lobato reserva à Tia Nastácia uma posição privilegiada em comparação a figura do negro perante a sociedade daquela época, visto que sua personagem opina sobre os mais variados assuntos, ajudando na educação das crianças, dividindo os afazeres da casa com a amiga Dona Benta, figurando inclusive como sua confidente, o que era raríssimo de acontecer naquele tempo. Mesmo mantendo o costume em chamar Dona Benta de sinhá, assim como era costume antigamente, claramente no Sítio não há dono, nem patrão, e a relação entre as duas é baseada numa forte amizade, ajuda mútua, trocas de receitas e confidências.

O próprio Monteiro Lobato nos conta ainda em vida, durante uma entrevista ao jornalista Silveira Peixoto, que a personagem de seus livros foi inspirada em uma mulher chamada Anastácia, uma negra alta, magra da cidade de Areias que era casada com Esaú. Ambos foram contratados e vieram trabalhar na Fazenda São José do Buquira. Ela como cozinheira e babá de Guilherme (3º filho de Lobato) e ele como ajudante da fazenda. Foto de ambos estão no álbum de família de posse de D.Joyce Lobato Campos. D. Joyce também nos conta que houveram diversas “Nastácias” na família. D. Joyce conheceu Benedita Rodrigues, filha de Gabriela. Gabriela trabalhou na casa de Purezinha por muitos anos até falecer e Purezinha ajudou a criar a filha de Gabriela, Benedita, que cresceu junto com os filhos de Lobato, ficando muito amiga da filha mais velha, Martha. Mais tarde, quando Martha casou, Benedita foi trabalhar na casa de Martha ajudando a criar Joyce, neta de Lobato. A mesma Benedita (após a morte de Lobato) foi chamada para interpretar a 1a Tia Nastácia da TV Tupi durante 9 anos além de ter feito o mesmo papel no filme “O Saci”.

Com seu ar de brasilidade, Tia Nastácia é uma personagem retratada com todo o respeito merecido, que exerce um papel relevante e ganha até um livro com seu nome; “Histórias de Tia Nastácia”, que começa com a personagem explicando o que é folclore para as crianças e contando histórias da cultura brasileira e suas lendas. Na concepção do escritor, ela é a responsável por nos apresentar personagens até então menosprezados da nossa rica cultura popular.

Assim, essa mulher forte e companheira imprescindível, conquista seu próprio espaço nas histórias de Lobato, arrebatando o coração de seus leitores e desempenhando um importante papel educativo, fundamental em sua obra.

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REFERÊNCIAS:

https://alb.org.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais16/sem08pdf/sm08ss05_04.pdf

https://perguntaspopulares.com/library/artigo/read/411903-quem-e-o-visconde-de-sabugosa

https://sitio.pmvs.pt/blog/2014/07/03/visconde-de-sabugosa-2/

https://portalcafebrasil.com.br/cafepedia/tia-nastacia/

memorias de Joyce e album da familia

As provocações do Visconde de Sabugosa, um mergulho no reflexivo universo lobatiano

Neste texto nós inauguramos uma série para analisar a origem e a personalidade dos principais personagens criados por Monteiro Lobato e que tornaram o Sítio do Pica-Pau Amarelo uma das mais importantes obras da literatura infantil brasileira.

Presente na maioria das histórias do Sítio, o Visconde de Sabugosa, personagem criado por Monteiro Lobato, acredita-se que foi inspirado em seu avô, o Visconde de Tremembé, um dos homens mais ricos e poderosos de sua época, amigo pessoal de D. Pedro II. Ele foi inclusive responsável pela iluminação pública da cidade de Taubaté, na primeira metade do século XIX, entre outras coisas.

O Visconde de Sabugosa nasce em 1921, no livro Narizinho Arrebitado, edição escolar. Fruto de uma brincadeira de Narizinho e Pedrinho, que queriam casar a boneca Emília com o Marquês de Rabicó. Pedrinho faz um boneco a partir de um sabugo de milho, para fingir ser pai do leitãozinho, pretendente à mão da boneca de pano.

Esse heróico personagem lobatiano nasceu em meio aos livros e morava num vão de armário na sala de jantar do Sítio do Pica Pau Amarelo.  As paredes da casa eram formadas por dois grossos volumes do Dicionário Morais. A obra “O Banquete 2”, “escrito por um tal Platão que viveu antigamente na Grécia e devia ter sido um guloso”, era a mesa do sabugo de milho. A “Enciclopédia do Riso e da Galhofa”, um “livro muito antigo e danado para dar sono”  que Lobato lera na juventude, tornou-se a cama do Visconde. Os demais “móveis”, ou seja, cadeiras, estantes e armários, eram formados por livros de capa de couro, herdados de um tio de Dona Benta.

O sabugo só mudou de casa depois que voltou do Reino das Águas Claras e passou uma semana inteira atrás da estante, ficou embolorado e como soltava um pó verde, começou a dormir numa lata, como revela o autor na quarta história de Reinações de Narizinho.

Antes mesmo de se tornar um personagem com diversas facetas, o Visconde era considerado um fidalgo muito distinto, viúvo e sua mãe, Dona Palha de Milho, faleceu num “horrível desastre”, comida pela vaca mocha. Logo no começo em que ganha vida, ele ainda tinha o tamanho de um sabugo de milho, mas tomou uma pitada de fermento e ficou do tamanho de uma pessoa normal.

Como Narizinho o embrulhou num velho fascículo das Aventuras de Sherlock Holmes, em Reinações de Narizinho, parece que isso influenciou o sábio de tal maneira que ele foi o responsável por descobrir não só a verdadeira identidade do suposto Gato Félix, mas também quem roubava a sombra de tia Nastácia em Peter Pan!  O sabugo “andava deduzindo” os fatos, mas não tinha ainda pistas definitivas. Incansável, ele desmascarou o raptor da sombra, que era ninguém menos do que Emília.

Sua condição de sábio lhe trouxe bons e maus momentos. Ele sofreu acidentes, empanturrou-se com a leitura de Álgebra, foi operado e salvou-se. Sua ânsia pelo conhecimento fez dele o professor dedicado em Aritmética da Emília e seus estudos de Geologia permitiram que fosse perfurado o primeiro poço de petróleo do Brasil, em “O Poço do Visconde”. Em “Os 12 Trabalhos de Hércules”, última obra de Lobato, o sabugo aparece como a concretização do saber científico.

Pelo fato de ser “consertável”, ele é sempre escolhido por Pedrinho para fazer as coisas mais perigosas. Sempre que ele estraga, se machuca ou até morre, Tia Nastácia simplesmente pega uma nova espiga de milho no paiol e faz um outro Visconde ainda melhor, reaproveitando somente a cabeça, os braços e as pernas. Apesar disso, pelo fato dele ter seu corpo formado por um sabugo e ter botões de milho no peito, Visconde morre de medo de passar perto de uma galinha, ou mesmo da Vaca Mocha!

Quando investigamos o personagem, nos deparamos com as suas variadas facetas, bem como o movimento da ciência no Sítio do Pica-Pau Amarelo. À medida que nos aprofundamos na obra, é possível estabelecer relações entre as várias concepções científicas do autor e a construção do personagem, reflexos do contexto histórico na criação literária lobatiana.

Lobato era um homem fascinado pelo progresso que ele achava que a ciência poderia trazer e buscava em estudos científicos, respostas de como gerar progresso para o nosso país e para os problemas crônicos do Brasil. Ele acreditava que soluções baseadas em pesquisas científicas seriam muito importantes para o desenvolvimento da nossa sociedade.

Vários estudos discutem ainda hoje a relação da literatura lobatiana com o ensino de ciências, sobre a história e a natureza da ciência, a motivação para estudar ciência, o método científico, concepção empirista ou revolucionária da ciência e suas aplicações. A literatura de Monteiro Lobato mostra a importância que o autor dava às relações do homem com a ciência e se contrapunha à literatura infantil da época baseada nos contos de fadas europeus.

Através de sua obra e mais especificamente na forma do personagem Visconde de Sabugosa, Lobato deixa transparecer a importância alcançada pelo conhecimento científico, demonstrando através de seus textos a necessidade do apoio à pesquisa e ao estudo científico em um período em que concordam os maiores intelectuais da época, o Brasil se encontrava ‘doente’ e a ciência era uma espécie de ‘caminho para a salvação do povo’.

Voltando a falar do nosso personagem, o Visconde de Sabugosa é um sábio que estuda latim, que tem dificuldade para se locomover em algumas situações e possui como marca registrada a tossezinha para limpar o pigarro antes de dar uma explicação. É dele que vem sempre a última palavra, como exemplo de alguém que detém o conhecimento, por isso é chamado para esclarecer dúvidas e solucionar problemas.

Ao representar o homem de ciência no Sítio, Lobato nos passa a impressão de que havia um movimento constante em sua obra e nas suas histórias. O Visconde cria sempre de modo misterioso, às escondidas, carregando um ar de distinção, como se a ciência fosse para poucos, apenas para homens especiais.

Na forma de um sabugo de milho que morre e reaparece, o porta-voz da ciência talvez tenha sido mais um recurso literário que Lobato utilizou para provocar a todos os seus leitores num convite à reflexão sobre a relação do homem com a ciência e os seus valores já naquela época.

A análise da trajetória do personagem Visconde de Sabugosa presente na maioria dos livros, revela que o autor elabora suas histórias permeadas de fatos científicos, de saberes práticos e teóricos, de diálogos, situações e ambientes em que tal personagem e os demais se inserem.

O Visconde é um dos personagens que nos levam a mergulhar em uma das mais ricas obras literárias nacionais, onde os livros não são meros papéis manuseados por um tempo, fechados e esquecidos após o fim da leitura. São histórias que nos convidam a ir mais além, mais para dentro de nós mesmos, como um convite para que a gente perca o medo de imergir no nosso próprio mundo de fantasias.

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REFERÊNCIAS:

https://alb.org.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais16/sem08pdf/sm08ss05_04.pdf

https://perguntaspopulares.com/library/artigo/read/411903-quem-e-o-visconde-de-sabugosa

https://sitio.pmvs.pt/blog/2014/07/03/visconde-de-sabugosa-2/

https://semeadordelivros.com.br/na-trilha-de-lobato-entre-a-serras/

https://super.abril.com.br/ciencia/a-longa-historia-da-eugenia/

http://www.encontro2010.rj.anpuh.org/resources/anais/8/1273252078_ARQUIVO_REIVINDICACAOPOLITICAECONHECIMENTOCIENTIFICO.pdf

https://www.scielo.br/j/epec/a/n3jym7tYqMMvM4gFfgqTkwv/?lang=pt

Saiba tudo sobre o lançamento do livro ‘O Casamento de Narizinho’, terceiro livro adaptado da obra de Monteiro Lobato

Bisneta de Monteiro Lobato, a historiadora Cleo Monteiro Lobato lançou este mês, o livro “O Casamento de Narizinho”, o terceiro da série de adaptações e traduções das histórias que a escritora está fazendo do clássico centenário “Reinações de Narizinho”, obra que apresentou os personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo e suas aventuras ao grande público, dando origem a um dos maiores sucessos da literatura infantil brasileira.

Com um total de onze histórias, Cleo já adaptou as histórias “Narizinho Arrebitado” e “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. Todos pela Underline Publishing, editora localizada em Miami e especializada em promover escritores brasileiros no exterior.

Para quem ainda não conhece, a terceira história “O Casamento de Narizinho”, como o próprio título já diz, conta a história da união da personagem com o príncipe das Águas Claras, que havia adoecido de amor por ela. A simplicidade das narrativas, com uma linguagem perfeita para a literatura infanto-juvenil, conduz a uma leitura fluida, criativa cheia de momentos surpreendentes, instigando a curiosidade e o prazer pela leitura.

“O Casamento de Narizinho” tem 59 páginas e 12 ilustrações feitas por Rafael Sam, responsável também por ilustrar os outros dois livros já lançados. Vivendo nos Estados Unidos, há 24 anos, ao lado do esposo e do filho, Cleo conversou com a gente para falar sobre esse importante trabalho de tradução e adaptação da obra de Lobato e sobre o livro que foi lançado este mês.

Blog LcVc: Como surgiu a ideia de revisar a obra de Monteiro Lobato e quando você começou de fato a executar esse processo?

Cleo ML: A ideia nunca foi de revisar propriamente dito, a ideia inicial era somente traduzir… Mas ao fazer diversas tentativas de tradução eu percebi que pra mim era necessário atualizar em Português primeiro para depois traduzir. Cada vez que eu tentava traduzir eu não conseguia passar na primeira página de Reinações de Narizinho onde tem frases como: “Tia Nastácia, negra de estimação”, “[…] pedras negras de limo que Lúcia chama de Tias Nastácia do rio”… Apesar de saber que o termo: ‘negra de estimação’, era o modo de dizer que a pessoa era estimada e querida da família e que a frase “Tias Nastácia do rio” significa que Lúcia se sentia aconchegada e segura ao lado do ribeirão, ficava muito difícil de traduzir. A constante menção da cor da Tia Nastácia era irritante. Tentei traduzir por pelo menos 5 anos, mas não conseguia um bom resultado.

Com todas essas tentativas de tradução o que aconteceu é que eu percebi a necessidade de adaptar, mudar certas partes dos livros. Nem todos da família concordavam com essa ideia, mas finalmente em 2019 a obra de Monteiro Lobato caiu em domínio público, isso me abriu perspectivas de poder fazer o que eu quisesse sem interferência de ninguém.

Para que eu pudesse levar Monteiro Lobato para os EUA, em português ou em inglês, eu esbarrava no problema da Tia Nastácia e o jeito que a personagem estava tão anacrônica. Não há espaço hoje em dia para uma personagem negra tão antiquada, a não ser que você esteja escrevendo sobre o período da escravidão.

Tenho que mencionar que há anos existe uma espécie de campanha anti-lobato com repetidas acusações de suposto racismo na sua obra. Na minha família essas acusações não foram levadas a sério, achavam que as acusações eram tão absurdas que não mereciam resposta e por fim nunca fizeram nem uma nota de repúdio. A minha percepção sempre foi diferente, especialmente pela minha experiência como imigrante brasileira nos EUA e sempre achei necessário enfrentar essas acusações, mas minha posição era minoritária.

No início de 2020 fui convidada a participar de um seminário virtual de Português como Língua de Herança, que foi quando conheci a Nereide Santa Rosa e ficamos amigas imediatamente. Isso foi logo no começo da pandemia… E foi ótimo, porque a Nereide já escreveu mais de 80 livros, inclusive uma biografia autorizada pelos meus pais de Lobato quando criança. Essa amizade cresceu e com a Nereide eu pude discutir as questões que me incomodavam na obra de Lobato. Iniciamos um longo processo de conversa e discussão de como adaptar para o século XXI.

Nessa época aconteceu um incidente catalisador para mim: a morte de George Floyd aqui nos EUA e a morte do menino Miguel Otávio, que caiu do apartamento onde sua mãe era empregada no Recife… Foi o meu momento de clareza! Nesse momento todos meus questionamentos se cristalizaram e decidi o que fazer… Percebi que para mim a questão da justiça e igualdade racial eram as mais importantes, então decidi exatamente o que adaptar nos livros do meu bisavô: a personagem Nastácia.

Blog LcVc: E como funciona esse processo de adaptação?

Cleo ML: Quando eu decidi qual era a questão mais importante que eu queria abordar, eu li analisando o texto e focando somente na personagem Nastácia. Essa redução do escopo da atualização facilitou muito o processo. Nereide e eu revisamos o texto juntas e vimos se existiam termos anacrônicos. Por exemplo: Retiramos as referências à cor dela, porque hoje em dia não precisamos enfatizar que a pessoa é de qualquer cor, não há mais ”a negra isso”, ”a boa negra aquilo”… Quando Lobato escreveu seus livros, ele estava tentando mudar a imagem existente dos ex-escravos, que eram considerados pouco mais do que animais ou objetos para uso dos seus senhores, e ele quis modificar essa imagem mostrando que eles também eram seres humanos de valor. Nastácia é descrita repetidas vezes como “boa”. Mas hoje em dia não é mais necessário enfatizar repetidamente a cor junto com a qualidade de bondade. Hoje precisamos de uma Nastácia em pé de igualdade social e econômica com a sua amiga Benta.

É importante ressaltar que eu atualizei Tia Nastácia em três coisas: ela não é mais uma ex-escrava e sim amiga de infância de Dona Benta; ela não é mais analfabeta, agora sabe ler; e agora ela não é mais empregada, nem trabalha para D.Benta. De resto usei um artifício Lobatiano que é não explicar muito… Ninguém sabe que fim levou os pais de Narizinho ou quem é o pai do Pedrinho, nem com quem D. Benta foi casada… Lobato não explica muito o passado dos seus personagens. O que importa é o universo mágico que a partir da primeira página se abre para o leitor. Essencialmente a Personagem Nastácia manteve-se igualzinha a personagem criada pelo meu bisavô: ela continua excelente cozinheira, continua amorosa e acolhedora, continua ajudando a criar Narizinho e continua tendo feito a Emília. Não mexi na essência da Tia Nastácia. Inclusive modifiquei o menos possível nas falas, retirando apenas palavras ou termos que hoje são considerados preconceituosos, mas antigamente eram normais. Somente modifiquei as falas de Nastácia, onde era necessário para refletirem as mudanças da atualização da personagem. Por exemplo: como ela não é mais uma ex-escrava, ela não chama mais Dona Benta de “Sinhá”. Como ela não é mais analfabeta ela não fala mais como tal. Esses momentos foram assinalados e coloquei um glossário no final com explicações e também definições das palavras em desuso.

Blog LcVc: Você fez alguma outra atualização em algum outro personagem? Como foi a atualização visual dos personagens do Sítio?

Cleo ML: Não, não modifiquei nem atualizei mais nada no texto e não mexi em nenhum outro personagem.

O processo de atualização visual foi o mais fácil e divertido. Se você olhar os ilustradores oficiais de Lobato da década de 30 e 40 e até os desenhos da Editora Globo, você percebe que Dona Benta teve uma evolução visual, ficou mais “moderna”, evoluiu com os tempos, Narizinho e Pedrinho também, Emília e até o Visconde mudam com o passar das décadas, todos exceto Tia Nastácia! Ela continua de chinelo e paninho na cabeça eternamente.

Um belo dia em 2019 encontrei uma ilustração do Rafael Sam no Instagram. Era uma ilustração da Cuca, Visconde, Emília e o Saci atravessando a rua na faixa de pedestres – a rua se chamava Lobato Road, numa referência à famosa rua que ilustrou a capa do disco Abbey Road, dos Beatles. Fiquei encantada com a qualidade do desenho, a originalidade, o humor e as múltiplas camadas de referências culturais presentes no desenho do Rafael.

Já estava no processo de adaptação do texto junto com Nereide e precisávamos de um ilustrador. Nereide me apresentou diversos outros, mas nenhum se aproximava da qualidade e da inteligência dos desenhos do Rafael, então fui atrás dele. Conversamos e acertamos nossa parceria. Foi uma aproximação delicada porque eu não sabia se ele gostava de Lobato, se tinha algo contra, mas deu tudo certo e o trabalho dele está incrível, cada vez melhor!

Blog LcVc: E como foi esse processo de trabalho entre você e o Rafael?

Cleo ML: Confesso que o nosso processo de trabalho foi um pouco tumultuado. Eu nunca tinha trabalhado com um ilustrador, mas sou artista também e eu tinha as imagens no meu coração. O difícil era transmitir verbalmente para o Rafael desenhar o que meu coração sentia, fazer as minha memórias afetivas tomar forma… Tive de passar muitas imagens tiradas do Google para Rafael poder entender como é a flora do Vale do Paraíba, porque Rafael é do Recife e não conhece as árvores e flores da região Sudeste. Como somos duas pessoas visuais, eu fui atrás de referências visuais, as mais diversas na internet. Tivemos muitas conversas e discussões. Para o cenário do Reino das Águas Claras, eu vi uma imagem na TV do meu dentista, fotografei e mandei para ele. Era uma imagem das florestas de algas daqui de Santa Bárbara. Uso muito também as referências dos ilustradores antigos de Lobato, para manter o espírito original dos personagens e também adoro fazer referência às capas antigas.

Às vezes o que o Rafael tinha em mente não era o que eu tinha no coração. Por exemplo: tentamos fazer Dona Benta uma avó de hoje. Fiz mil buscas no Google, mas as avós de hoje podem ser uma mulher de 40 ou 50 anos de jeans e cabelo curto, aliás o Rafael queria fazer a D. Benta baseada em mim! Mas eu sou muito mais Emília do que Benta! De qualquer maneira percebi que D. Benta tinha que continuar uma avó de visual tradicional, icônica porque ela é a avó ideal, que só existe no mundo imaginário, nos nossos sonhos.

Foi assim com todos os personagens, discutimos todos um a um. A Emília foi pura inspiração do Rafael. A única condição que eu impus, é que não podia ter nada a ver com a Emília da Globo. A nova Tia Nastácia eu deixei para o Rafael fazer porque, quem melhor que um ilustrador negro, com duas crianças lindas, para fazer uma Tia Nastácia do jeito que os filhos dele gostariam de ver? E saiu essa Tia Nastácia maravilhosa, empoderada, orgulhosa da sua descendência africana! Pedrinho nós deixamos quase igual, mas com toques contemporâneos como o tênis All Star. E por fim, Narizinho tinha que ser feminina mas ainda criança, absolutamente não sexualizada e morena cor de jambo, igual Lobato a descreve.

Blog LcVc: Como tem sido a aceitação dos pais em relação a esse seu trabalho, quanto a compreensão do conteúdo das histórias do Sítio e a transmissão aos novos pequenos leitores?

Cleo ML: Tenho notado que os pais dizem que a leitura do texto ficou mais fácil. Acho que isso se deve primeiro às ilustrações maravilhosas que ajudam na compreensão do texto e depois ao fato da adaptação dos termos anacrônicos já estar incorporada ao texto. Então os pais não tem de fazer a adaptação ao ler e também se quiserem tem um glossário no final, assim se o pai ou a mãe não souberem a palavra, é só olhar.

Blog LcVc: Em relação ao seu trabalho, tanto de adaptação, quanto de tradução de "Reinações de Narizinho” – como é esse processo levando-se em conta a questão cultural e a questão de manter a essência da obra?

Cleo ML: Me perguntam muito sobre “a essência” da obra… Como eu fui criada lendo Lobato, discutindo Lobato diariamente, respirando Lobato a todo minuto, jantando nos móveis do Visconde de Tremembé e tendo contato diário com a filha e a neta de Lobato, nunca tive dúvida de qual era a essência da obra Lobatiana. Isso me ajudou muito.

Na adaptação, apesar da atualização da personagem Nastácia, o texto manteve o sabor e as características do texto original sem grande alteração até agora. Mas na tradução para o Inglês foi muito mais desafiador… Por isso tenho demorado tanto tempo para fazer esse trabalho de tradução. Ao traduzir para o Inglês tive que fazer muitas escolhas. Por exemplo: quais nomes traduzir e quais nomes manter em português? Mantive Narizinho, pois é parte essencial da personagem e a tradução para o inglês tem conotação pejorativa. Mantive Emília, pois existe Emily que é muito parecido. Pedrinho eu troquei para Peter mas optei por não chamá-lo de Little Peter. Com relação a fruta jabuticaba, que não existe nos Estados Unidos, usei o recurso de colocar uma ilustração para mostrar o que era uma jabuticaba. Noutro momento tem um longo parágrafo em que Pedrinho fala sobre o mastro de São João, que saudades ele tem etc… Tive de encurtar um pouco e colocar uma explicação sobre festas juninas no rodapé. Num parágrafo onde Pedrinho menciona o Saci, tive de colocar uma nota de rodapé explicando sobre nosso Saci. Tive que achar frases idiomáticas em Inglês que fossem correspondentes às frases brasileiras usadas por Lobato. Tive que pesquisar as onomatopeias, pois barulhos são diferentes em cada língua e tive que inventar jogos de palavras que fossem engraçados em Inglês, pois Lobato faz muitos trocadilhos e inventa muitas palavras!

Deixa eu dar um exemplo: No início do capítulo “As Jabuticabas”, Emília e Narizinho estão conversando sobre como iriam ajudar o Pequeno Polegar a escapar da história onde ele está preso… Pequeno Polegar é Tom Thumb em Inglês. Vejam só Lobato escreve "Emília era teimosa como ela só. Ela nunca disse Doutor Caramujo. Era sempre Doutor Cara de Coruja. E nunca quis dizer Pequeno Polegar. Era sempre POLEGADA.” Em Inglês ficou: “ Emília mas stubborn to no end and back. She never said Doctor Snail. It was always Doctor Smelly Nails. And never Thumb. Always DUMB.

Vocês entenderam os trocadilhos com os nomes? Foi super instigante pensar em tudo isso.

Blog LcVc: Nós estamos num momento muito tecnológico, onde as nossas crianças estão muito conectadas na internet, na era dos jogos e das redes sociais. Você percebe um certo desinteresse pelos livros, principalmente por parte do público infantil? Como você avalia esse momento e como lida com essa questão?

Cleo ML: Já faz um tempo que estamos nesse ‘momento muito tecnológico’ como você diz e com a pandemia, absolutamente perdemos a guerra. Não há mais como combater a dominância total de celulares, aplicativos e mídia social na vida das crianças. O pior é que o nível de ensino caiu muito com as aulas virtuais e agora a situação é muito pior que há 2 anos atrás. O jeito é usar a tecnologia, abraçar a mídia social, se conectar através das redes sociais e falar sobre livros, sobre Lobato. Por exemplo, eu tenho o projeto ‘Lobato nas Escolas’, que com a pandemia deslanchou com várias palestras virtuais. Todas as escolas têm um jeito de oferecer minhas palestras para seus alunos. Após fazer a inscrição eu entro em contato com a escola, que é quem escolhe o tema que iremos abordar. A palestra tem que fazer parte de uma unidade temática. Eu faço a palestra em qualquer plataforma tipo Zoom, Google-meet ou até por Instagram. Após a palestra peço que o professores postem no Instagram o que acharam do encontro e se os alunos tiverem o aplicativo, peço que também postem no Instagram ou no Facebook sobre o que aprenderam.

 

Cleo Monteiro Lobato já lançou “Narizinho Arrebitado- Livro 1” e também “O Sítio do Pica Pau Amarelo – Livro 2”. Também já lançou “The Adventures of Narizinho” e “The Yellow Woodpecker Ranch” em Inglês, todos pela Underline Publishing e todos ilustrados por Rafael Sam.

Agora ela lançou “O Casamento de Narizinho – Livro 3”, no dia 19 de Abril, na abertura da Semana Monteiro Lobato no Museu Monteiro Lobato em Taubaté.

O novo livro tem 59 páginas e 12 ilustrações feitas por Rafael Sam.

O livro pode ser adquirido por leitores do mundo inteiro pela Amazon ou no Brasil através do site www.monteirolobato.com ou pelo site Umlivro.com.br.

Os leitores também podem conversar com a bisneta de Monteiro Lobato, através da sua página oficial no Instagram: @cleomonteirolobato.

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Semana Monteiro Lobato: 70 anos celebrando celebrando o pai da literatura infantil brasileira

A edição número 70 da ‘Semana Monteiro Lobato’, acontece entre os dias 19 e 24 de abril, no Museu Monteiro Lobato na cidade de Taubaté, no interior de São Paulo, onde nasceu o pai da literatura infantil brasileira!

A ideia de realizar uma semana dedicada à memória de Monteiro Lobato surgiu há muitas décadas em uma reunião do Rotary Club após uma palestra do professor Gentil de Camargo, sobre a vida e a obra do escritor. Em 1950 foi criada uma comissão especial, formada por um grupo de intelectuais taubateanos, com a missão de organizar a primeira Semana Monteiro Lobato presidida por Oswald Barbosa Guisard.

Com o ideia de dar uma dimensão nacional ao evento, os organizadores prepararam uma ampla programação que incluía a realização de concursos literários, a emissão de selos comemorativos, além da entrega de medalhas para homenagear algumas celebridades. Essa comissão planejava também adquirir o Solar do Visconde, onde Monteiro Lobato viveu e atualmente abriga o museu Monteiro Lobato.

Criou-se uma expectativa enorme em relação a presença de artistas conterrâneos do escritor, como Hebe Camargo, Amacio Mazzaropi, Alvarenga e Ranchinho, Alda Garrido, Chico Pelanca, Lia de Aguiar, Sílvio Vieira e Monte Cezar, todos Taubateanos famosos!

Dada a relevância do evento, o então governador do estado na época, Lucas Nogueira Garcês, confirmou sua presença.

Finalmente, três anos após ter sido idealizada em 1950, a primeira edição da Semana Monteiro Lobato foi realizada entre os dias 11 e 18 de abril de 1953. O objetivo desse primeiro evento era resgatar a importância e a contribuição do escritor para a formação de um pensamento genuinamente brasileiro e contou com a presença da esposa de Lobato, D.Purezinha e tambem de sua filha mais nova, Ruth Monteiro Lobato.

Entretanto nem tudo saiu conforme o planejado…

Monteiro Lobato sempre teve uma relação conturbada com sua cidade natal, fato que acabou causando alguns prejuízos a memória e  até ao boicote desta 1a SML por alguns setores da sociedade Taubateana. Por um lado havia um clima de animosidade entre a alta sociedade Taubateana que se sentia ofendida pelo livro “Cidades Mortas e por outro lado a igreja católica da época que acusava Lobato de propagandear o regime comunista e de ser má influencia para as crianças. Esses dois setores se colocaram contra a realização da homenagem ao escritor. Para reafirmar a sua contrariedade, todos os dias o clero ia à rádio para criticar Lobato, durante essa primeira edição da SML, no pátio de uma das escolas de Taubaté dirigida por membros do clero, livros do escritor foram queimados numa grande fogueira que dizem, lembrou uma cena medieval. Foi sem dúvida uma grande campanha promovida para aterrorizar e afastar o povo da celebração ao pai da literatura infantil. Acredita-se que para não contrariar os dirigentes católicos à época, o governador do estado de São Paulo, que havia confirmado presença, acabou não comparecendo ao evento desapontando os organizadores.

Mas mesmo assim com todos esses contratempos a 1a Semana Monteiro Lobato foi um sucesso e deu inicio a uma seria ininterrupta de celebrações anuais lideradas por 30 anos por Oswaldo Barbosa Guisard  que não so’ o presidente da comissão organizadora da Semana Monteiro Lobato por 30 anos mas tambem a pessoa responsável por salvar a chácara do Visconde, atual Museu Monteiro Lobato.

O Professor Osni Cruz faz im relato detalhado do encerramento da 1a Semana Monteiro Lobato em seu livro “Na Trilha de Lobato – A Ultima Alegria” : “As 10 da manhã, no Curso de Aplicação da Escola Normal Monteiro Lobato, foi inaugurado o retrato do escritor e patrono daquela unidade de ensino. Houve ali também, o ‘batismo’ de várias salas de aula com o nome dos personagens criados por Lobato, na presença de sua esposa dona Purezinha, da filha Ruth Monteiro Lobato e da pintora conterrânea, Georgina de Albuquerque, que também foi homenageada naquela oportunidade. O ponto alto do encerramento da primeira Semana Monteiro Lobato, foi iniciado com grande queima de fogos e depois marcado por um grande desfile, que começou na praça Barão do Rio Branco e percorreu as principais ruas da cidade, chamado de ‘marcha do fogo’, realizado em colaboração com o 5º Batalhão de Comando (BC), atual 5º Batalhão de Polícia Militar do Interior. O desfile foi acompanhado por dezenas de milhares de pessoas que lotaram as esquinas da cidade por onde o desfile passou e que aplaudiram entusiasticamente! Dezenas de bandeiras dos estados brasileiros e de países da América deram à marcha um tom de civismo e uma coloração de patriotismo. Um show pirotécnico iluminou o céu de Taubaté, encerrando a marcha pela cidade as 21 horas. Dona Purezinha, esposa de Lobato, protagonizou a última atividade daquela primeira edição da Semana Monteiro Lobato, presidindo a mesa de autoridade no Salão de Honras, ao lado do ministro Renato de Almeida e de outras autoridades”.

Uma “curiosidade” que mostra a influencia de Lobato e o medo das autoridades desta influencia:  todos os integrantes da Conselho permanente de organizadores da primeira Semana Monteiro Lobato foram fichados pelo DEOPS – policia politica da época e todos os discursos proferidos pelos conferencistas foram recolhidos como evidencia.

 

A IMPORTÂNCIA DA SEMANA MONTEIRO LOBATO

Setenta anos depois podemos verificar o incontestável papel da Semana Monteiro Lobato na preservação da memória do escritor. Celebrar Monteiro Lobato, principalmente nos dias de hoje, é um modo de reconhecimento da amplitude e da intensidade dos muitos temas, assuntos e fatos presentes em suas histórias, que nos permitem a discussão ampla, aberta e, por que não, profunda dos mesmos temas os quais acusam o autor. As polêmicas que o envolvem, tanto pelo conjunto de argumentos e exposições, quanto pela presença de seus livros nas mãos de crianças em pleno século 21, atestam a vitalidade de suas narrativas.

Toda a obra de Lobato é marcada pela criatividade, pela inventividade e criticidade.

A Semana Monteiro Lobato é também uma forma de se combater a tentativa de se ‘cancelar Lobato’ defendida por alguns que não se importam, como bem define o doutor em Literatura da Unesp, professor Thiago Alves Valente, “em queimar um ramo literário em que essa tríade – criatividade, inventividade e criticidade – constitui grande probabilidade de servir a consciências imbuídas de utopias ainda tão caras à sociedade do nosso tempo”.

 

SEMANA MONTEIRO LOBATO 2022

Com o tema “Recortes do Homem Lobato", a edição número 70 da Semana Monteiro Lobato, que vai destacar os outros atributos de Lobato, além de escritor, acontece este ano entre os dia 19 e 24 de abril, no Museu Monteiro Lobato, no Sítio do Pica Pau Amarelo, na cidade de Taubaté.

O evento que tem cunho artístico, cultural e pedagógico, conta com uma programação variada, gratuita e indicada ao público de todas as idades.

Confira a programação completa clicando aqui: (sugestão é inserir uma imagem do cartaz onde o leitor possa ser direcionado ou para a página do evento ou mesmo ampliar o cartaz e ler a programação).

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REFERÊNCIAIS:

https://almanaqueurupes.com.br/index.php/2020/04/15/como-surgiu-a-semana-monteiro-lobato/

> “Na trilha de Lobato entre as Serras” – Osni Lourenço Cruz

As incríveis personagens femininas de Monteiro Lobato

Há uma linha tênue entre a fantasia e a realidade, da qual muitas crianças e adolescentes se valem para lidar com seus anseios e medos, até à fase adulta, quando terão a personalidade fortalecida e meios para enfrentar as dificuldades da vida.

Movimentos feministas, o avanço tecnológico a própria transformação postural da mulher e sua ocupação no mundo são elementos que podem ser alvo de reflexão e adequação desde a infância até a idade adulta.

Até o início do século XX, poucos escritores brasileiros davam espaço diferenciado à mulher na literatura infantil brasileira, onde elas eram sempre retratadas com base na imagem dos clássicos infantis europeus, em que as personagens apareciam descritas como submissas ao protagonismo machista da época, de personalidade frágil e com excessivo cuidado em relação à sua descrição física, com uma insistente exaltação aos traços de sua beleza.

É a partir da obra Reinações de Narizinho, que Monteiro Lobato rompe mais uma importante barreira, ao retirar a mulher da mera condição de figurante ou de no máximo coadjuvante das histórias infantis, para lança-la à condição de protagonista nas histórias passadas no Sítio no Pica-Pau Amarelo.

Na verdade, o Sítio se torna um matriarcado (regime social em que a autoridade é exercida pelas mulheres), que derruba o estereótipo criado em torno da figura feminina, colocando no centro de suas tramas, quatro personagens que refletem toda brasilidade, tanto nas suas características físicas quanto comportamentais: a matriarca da família, Dona Benta, e a sua neta Lúcia; a cozinheira de mão cheia, Tia Nastácia; e a boneca de pano Emília, passam a ser fundamentais no processo de naturalização da cultura nacional, tão defendida por Lobato ao longo de sua vida.

Com essa obra, o escritor expõe mais uma vez toda a sua genialidade irreverente e inquietude, através desse matriarcado que reúne mulheres de personalidades marcantes, com argumentos fortes para se expressarem e redefinirem os seus papeis sociais, numa atrevida ruptura com os velhos modelos literários.

É nesse contexto, que para celebrar o mês reservado às mulheres, nós fazemos um mergulho no universo feminino de Monteiro Lobato, para conhecer um pouco da personalidade de suas principais personagens femininas.

Mesmo Emília não pertencendo ao gênero humano, a boneca carrega fortes traços de uma personalidade feminina que ela própria confessa: estou começando a ser humana”.

Nesse mergulho encontramos todo o feminismo de Monteiro Lobato, que inegavelmente, através do matriarcado estabelecido em Reinações de Narizinho, se mostra um feminista convicto, muito antes do surgimento do movimento de valorização da mulher no Brasil!

O feminismo de Lobato ganha luz pela análise de duas mulheres, estudiosas e historiadoras da literatura infantil: Nelly Novaes Coelho e Vera Maria Tietzmann Silva. É através do olhar de ambas, que percebemos não apenas o alter ego do escritor escondido na essência comportamental da boneca Emília, por exemplo, mas também na defesa de um tipo de mulher e de um modelo familiar diferente do que existia no Brasil, na primeira metade do século XX, época em que Lobato viveu.

Lobato sempre foi considerado um homem a frente de seu tempo, um escritor singular que teve sempre em mente formar crianças sábias e críticas, através de histórias que abordavam temáticas atuais à sua época, numa linguagem clara e acessível aos pequeninos e assíduos leitores.

A seguir vamos conhecer um pouco da personalidade das quatro principais personagens desse matriarcado lobatiano, que até hoje segue influenciando diferentes gerações.

 

NARIZINHO

Lúcia, neta de Dona Benta, é a menina do nariz arrebitado, a personagem mais lírica de Lobato, que demonstra valores como gentileza e respeito em diversas passagens.

Se mostrando bem instruída em muitos aspectos, ela é dona de ações que resultam sempre de longas reflexões e apesar de sua fala sempre rebuscada, obedecendo muitas vezes as determinadas condutas que uma menina da época deveria seguir, ela não esconde a autonomia na fala e nos gestos que se contrapõem as regras sociais daquele tempo.

Narizinho caminha entre os dois meios, como é possível perceber na passagem do casamento da boneca Emília, onde ela demonstra se importar com a tradição do casamento, mas reforça a autonomia da noiva para tomar a decisão final, o que não era de costume naquele período.

 

EMÍLIA

A mais famosa boneca de pano do Brasil, que vive uma metamorfose para a vida humana, é lembrada sempre que o tema abordado é o feminismo, como uma personagem marcante e representativa.

Ela foge totalmente dos padrões e do estereótipo de boneca frágil e delicada. Falante como ninguém, a boneca de pano marcou a infância de diversas gerações, virando um ícone da literatura brasileira e não há qualquer exagero em afirmar que a personagem criada por Monteiro Lobato, é a própria personificação da força, astúcia e do pensamento crítico.

A partir da vivência de novas experiências e aventuras, Emília percebeu que suas velhas ideias já não serviam mais, pois se tornaram tão inúteis quanto um tostão furado” (LOBATO, a chave do tamanho).

A personagem carrega ainda um espírito de curiosidade, sempre em busca de informações e de novas hipóteses que, em suma, busca a construção de um mundo melhor.

Emília alia antagonismos que se complementam em sua ousadia e criticidade. Ela não tem medo de permitir que seu lado mágico, lúdico, poético e louco de brinquedo falante converse com a racionalidade e a sabedoria que adquiriu ao conquistar consciência. Ciência e magia são, para ela, o segredo das grandes descobertas.

 

TIA NASTÁCIA

A melhor amiga de Dona Benta, foi escrava quando jovem e depois de liberta se tornou parte da família, cuidando de Lúcia desde pequena. Criou a boneca de pano mais famosa do país, Emília e também o sábio Visconde de Sabugosa.

Além da sabedoria, ela tem o dom da bondade, até por oposição ao preconceito.

Mesmo responsável pelos afazeres da casa, não é menosprezada em momento algum da obra, ao contrário, é sempre tratada com muito respeito por todos.

Lobato ainda quebra um paradigma para época. Tia Nastácia mesmo sendo empregada e negra, dá opiniões sobre todos os assuntos, xinga as crianças, quando necessário e, além de tudo, é confidente de Dona Benta, o que era raro para a época.

Tia Nastácia é um belo exemplo da raça negra na literatura brasileira. Com jeito simples, muito habilidosa, costuma chamar Dona Benta de sinhá, assim como os negros chamavam seus donos antigamente. Mas no Sítio não havia dono, nem patrão, a relação entre as duas, era de amizade, trocas de receitas e confidências.

Tamanha importância teve Tia Nastácia que ganhou até um livro com seu nome; Histórias de Tia Nastácia”, que começa com a personagem explicando o que é folclore para as crianças e assim segue contando histórias da cultura brasileira e suas lendas.

Mulher forte, Tia Nastácia ganha muito espaço nas histórias e conquista o coração de muitos leitores que, até hoje, têm a doce lembrança dela. Um papel educativo e fundamental na obra, que ganhou espaço, cada vez mais com o desenrolar das histórias.

 

DONA BENTA

Em muitos aspectos a personagem se assemelha e revela uma projeção do próprio Lobato; não apenas pelo nome Benta, feminino de Bento, mas por uma série de coincidências de características, como o fato de terem um lado simples e outro erudito, serem donos de uma propriedade rural e amantes de livros, ambos abertos a todas as áreas do saber e, mais do que isso, que faziam o conhecimento circular partilhando suas descobertas e leituras.

Assim como Lobato, Dona Benta é capaz de enxergar o mundo pelo olhar da criança e no momento de contar histórias aos seus netos ela deixa aflorar a imaginação o faz-de-conta. Ela quebra certas atitudes convencionais da sociedade daquela época, como o fato de ser mulher no contexto em que as obras lobatianas foram publicadas e ser extremamente ativa, independente e forte em suas ações e no seu discurso.

Dona Benta é uma espécie de mulher coragem, uma vez que Monteiro Lobato lhe deu condições para isso, criando, em plena época em que mulheres e negros eram muito mais menosprezados do que hoje, uma personagem de garra, e de sabedoria para administrar, sozinha, seu sítio e ainda quebrar a regra de que lugar de mulher é no fogão”.

Por meio de seu discurso e de suas atitudes, a personagem representa a mulher culta, educada e, além disso, independente, tomando conta do sítio e resolvendo todas as situações-problema.

Se hoje em dia ainda encontramos resistência em admitir que uma mulher pode ser independente, imagine então na época em que Lobato inovou a literatura, colocando a figura da mulher em supremacia.

Dona Benta se afasta bastante do protótipo de dona de casa e em vez de a vermos costurando, cozinhando ou bordando, como era comum naquela época, sempre a encontramos escrevendo cartas, lendo jornais ou livros, ou então, escutando as últimas notícias do país e do exterior, se equiparando às mesmas condições dos homens daquele tempo.

 

Essa é uma síntese da personalidade que encontramos nas principais personagens femininas criadas por Monteiro Lobato.

No Sítio do imaginário lobatiano, encontramos facilmente em livros como Serões de Dona Benta”, Geografia de Dona Benta”, O Sítio do Picapau Amarelo”, só para citar alguns, histórias onde os personagens masculinos são minoria, e não tem tanto destaque, quanto as mulheres do Sítio, ressaltando o matriarcado que citamos, que tem ao centro Dona Benta, Narizinho, Emília e Tia Nastácia.

Com toda a feminilidade de suas naturezas, as personagens do imaginário lobatiano são a representatividade da mulher moderna que vislumbramos hoje; de personalidade forte, de opinião, cultas e independentes também financeiramente, como podemos notar em Dona Benta, que apesar de não ser casada, administra o Sítio cuidando do mesmo com muito afinco e carinho, sem deixar que falte nada.

Uma outra atitude feminista explicitada pelo autor, encontramos no livro O casamento da Emília”, onde Lobato traz uma temática um tanto comum: o casamento. Porém o comportamento da noiva, a boneca Emília, passa bem longe do considerado comum e de servir como exemplo para as noivas daquela época. Isso pelo fato da boneca de pano ser desbocada” e expressar livremente sua insatisfação em relação àquilo que lhe desagrada como, por exemplo, os versos recitados pelo personagem vidro azul e o comportamento de rabicó, seu noivo ao final do casório.

Esse comportamento audacioso raramente era encontrado nas mulheres de antigamente, porque como escolhidas” pelos homens para um casamento conveniente, não tinham voz ativa e precisavam enxergar apenas a qualidade de seus noivos, não devendo expressar abertamente sua insatisfação com eventuais defeitos do mesmo.

Ousadamente, Lobato não subestimou a capacidade da mulher, não a considerou como submissa ao homem, ao contrário, fez questão de mostrar aos homens e mulheres machistas de sua época que a mulher pode ser sim: independente, trabalhadora e culta, superando muitas vezes o próprio homem.

As figuras de Dona Benta, tia Nastácia, da boneca Emília e Narizinho deixam profundas marcas na saga do Sítio do Picapau Amarelo, elas atestam o lado feminista do seu criador.

Nestas quatro personagens femininas, Lobato externou uma maneira inovadora de representar a mulher na literatura infantil.

Um brinde à genialidade ousada do feminista Monteiro Lobato e à todas as mulheres do nosso Brasil!

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Referências Bibliográficas

https://anais.unicentro.br/seped/2010/pdf/resumo_182.pdf
https://diaonline.ig.com.br/2022/03/08/dia-da-mulher-personalidades-de-destaque-na-literatura-https://editorarealize.com.br/editora/anais/enebio/2021/CEGO_TRABALHO_EV139_MD1_SA24_ID550_0303
https://monteirolobato.com/wp-content/uploads/2021/12/2008LisandraPortelaSteffen.pdf
https://editorarealize.com.br/editora/anais/enlije/2016/TRABALHO_EV063_MD1_SA5_ID690_240720162009
http://nastrilhasdaliteratura.blogspot.com/2009/07/monteiro-lobato-um-escritor-feminista.html

12 curiosidades da segunda versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo na TV Globo

  1. No Natal de 2001, a pedido dos telespectadores, o programa teve alguns de seus episódios lançados em vídeo e DVD. Também foram colocados no mercado produtos infantis – bonecas, mochilas, cadernos, álbum de figurinhas etc. – com os personagens do Sítio do Picapau Amarelo.
     
  2. Em dezembro de 2001, foi apresentado um especial musical intitulado A Festa da Cuca, que teve a participação de todos os artistas da nova trilha sonora e de atores convidados, como Malu Mader no papel da Cuca.
     
  3. Um dos maiores desafios da nova temporada foi a caracterização da Cuca. Nos anos anteriores, a personagem usava uma fantasia de jacaré. Em 2007, seu visual foi elaborado por meio de maquiagem e figurino, uma tentativa de afastar a personagem de uma atmosfera de teatro infantil, aproximando-a de uma estética mais televisiva. Cuca continuou com sua textura de jacaré, mas ganhou ares de bruxa. Os dentes e as unhas de crocodilo usadas pela personagem foram feitos sob medida para a atriz Solange Couto pela equipe de efeitos especiais, formada por Ricardo Menezes, Glauco César e Cláudio Sampaio.
     
  4. A atriz Jacira Santos, que interpretou a Cuca na segunda versão do Sítio, fez parte do grupo Cem Modos, companhia gaúcha de teatro de bonecos, e foi uma das que vestiram a fantasia da cadela Priscila, estrela do infantil TV Colosso (1993), da Globo. Baiana, nascida no Pelourinho, em Salvador, ela assistia na TV a episódios da primeira versão do programa, quando criança. Tinha 28 anos quando integrou o elenco do infantil.
     
  5. Cininha de Paula, uma das diretoras dessa nova fase do Sítio do Picapau Amarelo, trabalhou como atriz na primeira versão do infantil, como intérprete da personagem Ofélia.
     
  6. Sito do Picapau Amarelo foi adaptado pela primeira vez para a televisão em 1952, na TV Tupi. O programa ficou 11 anos no ar e foi um grande sucesso da emissora. Em 1964, o infantil ganhou uma versão na TV Cultura de São Paulo e, em 1967, outra na TV Bandeirantes.
     
  7. Em 2009, o programa ganhou uma versão animada exibida na véspera do Natal; a nova versão ganhou duas temporadas em 2012 e 2013.
  8. Os cantores Wanessa Camargo e Supla entraram para o elenco principal da temporada e deram vida à Diana Dechamps, líder de uma banda de rock feminino, e Elvis McCartney, um guitarrista, que formavam um casal que enfrentou diversos obstáculos para ficarem juntos.
     
  9. O Visconde Sabugosa começou essa nova versão, parecendo ter mesmo o tamanho de um sabugo de milho. Mas no final de 2002, durante o episódio "Volta ao Reino das Águas Claras", o personagem voltou a ter o tamanho de uma pessoa normal após uma lata de fermento cair em cima dele. Durante os anos de 2001 até 2004, Visconde era interpretado pelo ator Cândido Damm, que nessa versão do Sítio deu um padrão de voz "bem grossa" ao personagem, padrão que seria seguido também pelos outros dois atores que interpretariam o Visconde nas temporadas seguintes, Aramis Trindade em 2005 e 2006, e Kiko Mascarenhas em 2007. A diferença entre a voz dos três atores era que o Visconde de Cândido Damm tinha o sotaque carioca, enquanto o Visconde de Aramis Trindade falava com um forte sotaque paulistano, o terceiro intérprete, Kiko Mascarenhas, também tentou manter o sotaque paulista que Aramis Trindade fazia para o personagem.
     
  10. Uma das coisas da série de 2001, mais diferentes das outras versões do Sítio para a televisão, é que a Tia Nastácia foi vivida por uma atriz mais magra, Dulcilene Moraes (conhecida como Dhu Moraes). Mas, a partir da 3ª temporada, a produção pediu que Dhu Moraes engordasse um pouco, e usasse um pouco de enchimento no vestido, pois a personagem Nastácia era mais conhecida popularmente sendo gorda, tanto em outras adaptações para televisão, quanto nas ilustrações dos livros. Contudo, na temporada 2005 o vestido com enchimento parou de ser usado, só voltando na temporada 2006, mas dessa vez mais bem confeccionado e realista.
     
  11. De 2001 à 2006 (com exceção de 2007) foram confeccionadas três fantasias de Cuca diferentes, que eram manipuladas por Jacira Santos. Na primeira temporada, a intenção era que a aparência da Cuca não ficasse assustadora demais para as crianças. O diretor Marcio Trigo disse que a personagem devia ter uma aparência má e assustadora, mas nem tanto, pois esta versão do Sítio estava mais direcionada ao público infantil; por esse motivo a personagem tinha
     
  12. um visual mais inofensivo, com rosto e cauda de jacaré, e corpo de mulher, com um vestido e capa de bruxa. Mas essa ideia foi mudando com o passar do tempo, e no ano de 2003, a aparência da personagem foi reformulada, dando a ela "cabelos reais" e mais compridos, além de deixá-la mais gorda e com uma personalidade mais cruel. Outra mudança no corpo da personagem ocorreria no ano de 2005, deixando-a menos vaidosa, e mais parecida com a Cuca do folclore. Ela passaria a ser mais perversa e com traços mais aterrorizantes, perdendo o "corpo de humana" e ganhando um "barrigão" listrado de réptil.
     
  13. Uma outra ideia inicial dessa segunda versão, que foi sendo deixada de lado com o tempo, era mostrar algumas vezes objetos e máquinas dos tempos atuais. Para isso, em algumas cenas apareciam Dona Benta tentando convencer Tia Nastácia da utilidade de alguns novos utensílios que ela havia encomendado para sua cozinha, como freezer e microondas. Outro elemento moderno adicionado ao Sítio em 2001 era o fato de Dona Benta ter comprado um computador para a sua biblioteca, para poder se comunicar com sua filha Antonica que mora na cidade. Porém, a série também mostrava Dona Benta meio chateada pelo fato de que após a chegada do computador, Pedrinho só lhe enviava e-mails (quando estava na cidade grande), e não havia lhe escrito mais cartas, que ela dizia apreciar mais ao recebê-las. As modernidades, contudo, não permaneceram muito tempo sendo usadas no Sítio, pois a partir da temporada de 2003 o computador foi deixando de ser usado, até "desaparecer" por completo das histórias. Assim também como o microondas e outros utensílios modernos, que foram sendo abandonados da cozinha de Tia Nastácia. Algumas temporadas depois, a única modernidade que sobrou na cozinha do Sítio foi apenas a geladeira (na versão dos anos 70, uma das poucas máquinas mais "modernas" ou comuns daquela época que já foram usadas no Sítio, foi a televisão, que não aparece nos livros de Lobato).

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FONTES DE PESQUISA:

https://memoriaglobo.globo.com/entretenimento/infantojuvenil/sitio-do-picapau-amarelo-2a-

https://www.wikiwand.com/pt/S%C3%ADtio_do_Picapau_Amarelo_(2001)#/overview

http://paradatemporal.blogspot.com/2017/10/sitio-do-picapau-amarelo-versao-2001.html

Monteiro Lobato: rasgado, queimado, cancelado e imprescindível

Escritor, já muito atacado no passado sob pretexto de veicular ideias evolucionistas e socialistas, tem mais recentemente sido acusado de racismo. Mas simplesmente banir seus textos das salas de aula e espaços de discussão é renunciar a debater uma obra prenhe de criatividade, inventividade e criticidade.

Autor: 

E Lobato continua “causando”…

Com mais de 70 anos já transcorridos desde a morte de seu criador, os personagens infantis de Monteiro Lobato circulam por leituras polêmicas e atuais dentro e fora da escola. Considerado um divisor de águas na produção literária para crianças, Lobato legou à posteridade textos que, em diferentes situações, suscitaram seu intenso reconhecimento tanto por parte do público leitor, quanto da crítica especializada. Da mesma forma, porém, a polêmica se tornou elemento indissociável desse reconhecimento, o que chega, junto com a ininterrupta edição de seus textos infantis, aos leitores de hoje.

Sobre seus livros para crianças, há pouco mais de uma década, em capítulo intitulado “Monteiro Lobato, um clássico para crianças”, respondíamos à questão: O que há de tão atrativo no Sítio do Picapau Amarelo? Ou, em outras palavras, por que Pedrinho, Narizinho e Emília, principalmente Emília, continuam tão presentes no imaginário infantil brasileiro? Ainda de outro modo: como Lobato fez esta mágica que, embora muitas vezes explicada nos mínimos detalhes pelos mais “maduros”, continua encantando os “menos experientes”? Indagações como essas não têm faltado aos pesquisadores e demais leitores especializados ao longo dos anos. Perguntas impossíveis de serem respondidas em um só texto ou mesmo em muitos outros trabalhos que vêm tentando, no mínimo, tangenciar as mil e uma questões instauradas pela obra de Lobato.

Um escritor publicista

As contradições vão se acirrando ao longo do texto lobatiano, que, ao contrário de seus pares, não se limita a reproduzir, em forma de antologia asséptica, as histórias que Tia Nastácia conta. Lobato reproduz a história encenando a situação de narração e recepção, pondo, pois, em confronto o mundo da cultura negra do qual, no caso, Tia Nastácia é legítima porta-voz, e o mundo da modernidade branca, à qual dão voz tanto as crianças como a própria Dona Benta, também ela ouvinte de Tia Nastácia e também ela insatisfeita com as histórias que ouve (…).

A partir dos anos 1980, foram consolidados estudos sistemáticos sobre a literatura infantil e juvenil brasileira. Nesse contexto, a figura de Lobato se mostra central, trazendo como foco desses trabalhos a discussão de aspectos temáticos relevantes, como aponta Marisa Lajolo em artigo de 1988, “A figura do negro em Monteiro Lobato”, ao abordar Histórias de Tia Nastácia:

Um artigo como esse mostra, ao leitor de hoje, que os estudos sistemáticos sobre a obra de Monteiro Lobato têm sido realizados de forma séria, sem ceder a simples opiniões ou questão de gosto. Por isso mesmo, muitos temas que ocupam o centro de polêmicas em diferentes ambientes sociais ou veículos de comunicação nunca foram desconhecidos daqueles que estudam a obra do escritor.

Assim, em texto mais recente, intitulado “Provocações à longeva Botocúndia: Monteiro Lobato e Urupês”, de 2018, publicado em número da revista Leitura em revista em que se comemorava uma efeméride literária – 70 anos sem Lobato, destacávamos a verve crítica lobatiana. Lembramos, então, que isso foi  um dos aspectos que chamou a atenção de José Guilherme Merquior ao atribuir a Lobato a identidade de “publicista” – “um escritor que discute problemas de interesse público, de interesse coletivo”. Acrescenta o autor, ainda, que é esse o perfil que poderíamos relacionar a certo tipo de jornalismo engajado que “não só discute temas de evidente interesse coletivo como o faz dentro de uma linguagem que sistematicamente aspira a uma comunicação com o grande público”.   

Amante de boas brigas

A exposição decorrente desta atividade, na qual Lobato via oportunidade para divulgar seus livros, levaria a uma visibilidade cotidiana ou mesmo à imagem pública de alguém que se colocava disponível ao debate, à discussão, à divergência. A partir dos jornais de sua época, Lobato lançaria questionamentos e reflexões contundentes, provocativas, na expectativa de influenciar ações em seu contexto social. Como aponta Sueli Cassal, o envolvimento de Lobato com grandes causas era movido por um desejo utópico de uma nação desenvolvida, muita próxima da situação econômica dos Estados Unidos, o que seria possível mediante a valorização do conhecimento científico.

“Não deixaria por menos uma boa briga”, poderia ser uma expressão para definir Lobato. “Boas brigas” foram as campanhas por necessidades básicas dos brasileiros, como a do saneamento, de 1918, em que acompanhou médicos sanitaristas, colocando-se a serviço da denúncia em uma séria de matérias sobre moléstias (verminoses, na maioria) que atingiam a população paulista de modo vergonhoso. Seu empenho como adido comercial nos anos 1930, para dar ferro ao Brasil, isto é, para incentivar a produção nacional, bem como sua ação tanto como publicista quanto empresário para desenvolver a exploração do petróleo, se refletiam em artigos e livros. A obra infantil não deixaria, evidentemente, de refletir essas experiências, algumas posteriores, outras concomitantes a atividades de editor, empresário, publicista.

O leitor infantil surge, então, como um destinatário de suas expectativas – aliás, como em todo texto, na obra infantil é evidente que se projeta uma ideia de leitor. Um suposto leitor neutro, raso, manipulável não estava na mira dos livros de Lobato. Ao não subestimar seu destinatário criança, o escritor convidava esse leitor infantil a pensar o mundo ao seu redor por meio de um trabalho inventivo e consciente com o texto literário. Os rompantes de contrariedade de diferentes grupos em diferentes momentos iriam atestar, ainda que de modo inusitado, a relevância daquele labor literário ao longo do tempo e das gerações.

Darwinismo e socialismo

Nos anos 1950, uma obra, em particular, se tornaria paradigmática desse tipo de abordagem polêmica e acusatória, realizando uma interpretação bibliográfica de Lobato cujo título encerra, por si só, um entendimento notoriamente avesso para com as lutas por ele travadas no campo econômico: A literatura infantil de Monteiro Lobato ou Comunismo para Crianças, do Padre Sales Brasil.

O autor projeta sobre a obra infantil temas que, de longe, estariam no centro da proposta lobatiana de formação de leitores, como é o caso da ausência de conteúdos religiosos propensos a reafirmar a identidade católica brasileira. Mais do que as ausências, o autor do estudo busca pistas em livros como A chave do tamanho, de 1942, sobre ideologias danosas à moral das crianças. É dessa forma que entende a miniaturização dos personagens como a extinção de classes sociais, isto é, em A chave do tamanho haveria uma propaganda dos benefícios de uma sociedade comunista: “é o seguinte: quando todos os homens chegarem ao mesmo tamanho (nivelamento das classes sociais), então não haverá sobre a terra nem injustiça nem certos preconceitos”.

 

Ao lembrarmos do texto do padre Sales Brasil, percebemos que a fantasia, a inteligência e a criticidade são ignoradas como excepcionais qualidades da obra de Lobato e rebaixadas segundo uma inegável visão obscurantista.  Em outro trecho, outra denúncia: “Trata-se, evidentemente, da luta pela vida, segundo Darwin, aplicada ao campo sociológico pela teoria da seleção natural, de Spencer, ambas aproveitadas pela filosofia marxista-leninista e feitas balinhas de doce na literatura infantil de Monteiro Lobato”.

Aos olhos de hoje, a obra do padre Sales Brasil pode parecer um brandir de armas desnecessário, exagerado, até mesmo risível para muitos. Entretanto, a fórmula do “cancelamento” dos anos 1950 mostra-se ainda presente nas primeiras décadas do século 21, agora reportando-se à questão do racismo, que é pauta fundamental e premente, mas que tem sido associada a Lobato, na maioria das vezes, de forma ligeira, rasa, equivocada.

No centro dos debates, tivemos o conto “Negrinha” e a obra Caçadas de Pedrinho, a partir de 2010, como objeto de representação junto ao Conselho Nacional de Educação (CNE) e, também, à Controladoria Geral da União (CGU). O questionamento se debruçava sobre expressões que atentariam contra um item do edital do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), qual seja, a presença de estereótipos ou discriminação nas obras adquiridas pelo programa.

Entre propostas de inserção de notas de rodapé ou mesmo refacção das narrativas, a intensidade dos debates atestou a complexidade do tema, convidando aqueles dedicados aos estudos sobre a obra lobatiana a se manifestarem. Como comentou Marisa Lajolo – em manifestação pública por meio de um artigo intitulado “Quem paga a música escolhe a dança?”, de 2010 – vivenciar debates sobre a literatura e a formação dos leitores na escola equivalia a um reconhecimento público sobre o assunto, bem como da própria obra: “Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, está em pauta e é bom que esteja, pois é um livro maravilhoso”.

Acusações de racismo e debate

O debate, porém, nem sempre tem se dado em campos mais profícuos de ideias, conceitos e ideologias. Ao avocar os escritos lobatianos em artigo publicado na Folha de S. Paulo, em janeiro de 2021, Marcelo Coelho defendeu que “Pode ser chato saber disso, mas Monteiro Lobato era de um racismo delirante”, reeditando aspectos que há muito deveriam ter sido superados frente à qualidade dos debates em torno da obra lobatiana em curso já há mais de uma década, como a busca de “provas” descontextualizadas do pressuposto racismo de Lobato, não apenas em sua obra mas no interior de sua correspondência pessoal.

 Felizmente, a réplica não tardou, pois outra pesquisadora de Lobato, Ana Lúcia Brandão, veio a público em defesa do escritor, no mesmo jornal e em data muito próxima, com o artigo “ ‘Racismo delirante’ é tratamento grotesco, Monteiro Lobato merece respeito”. Entre muitos apontamentos, lembra seus leitores de que “Levar ao pé da letra palavras ou frases de uma mensagem pessoal entre amigos, para classificar um deles como “racista” revela uma enorme incompreensão do que significa a crítica literária”.

De alma lavada, o leitor lobatiano pode seguir de braços dados com Lobato. Entretanto, não se trata de vencer uma discussão ou ganhar o pódio da verdade. Como obra literária, os escritos de Lobato comportam questionamentos, dúvidas, discordâncias. Em evento acadêmico recente, em que discutíamos a obra do escritor, chamou nossa atenção uma fala de um aluno de graduação, cujo apontamento sustentava-se por meio da ideia de que Monteiro Lobato não o representava como cidadão, sujeito, pessoa imbuída e reconhecida como portadora de direitos fundamentais.

 

Caçadas de Pedrinho, de 1939, uma das obras no centro do debate sobre racismo

É importante esclarecer que nenhuma das ponderações desse estudante pode ser considerada irrelevante para a discussão, assim como é possível compreender o tom de agressividade de suas primeiras manifestações, face ao momento em que se dá o eternamente adiado debate sobre o racismo no Brasil. Nem ainda poderíamos discordar de que não só de Lobato se formam leitores!

O que parece um “problema” ou algo a se lamentar, porém, é o fechamento do interlocutor a textos cujas ideias continuam a contribuir para a formação inequívoca de leitores críticos mais autônomos e audaciosos em suas incursões pelo mundo da literatura. A conversa que travamos com aquele aluno, portanto, não mirava uma desqualificação de seu discurso ou certo menosprezo da intelectualidade por um suposto modismo ideológico. Ao contrário do que se poderia supor, as questões às quais nosso interlocutor se apegava com pertinência e propriedade, são essas mesmas questões que convidam à leitura da obra lobatiana, reitere-se.

É neste ponto que encerramos nosso convite irrestrito à leitura da obra infantil de Lobato. As polêmicas atestam, tanto pelo conjunto de argumentos e exposições, quanto pela presença de seus livros nas mãos de crianças do século 21, a vitalidade de suas narrativas. Presença que deve ser lembrada, sobretudo, agora que a obra do autor se encontra em domínio público e surgem inúmeras edições em papel e digitais de seus textos. O reconhecimento da amplitude e da intensidade de muitos temas, assuntos ou fatos presentes em suas histórias permite a discussão também ampla, aberta e, por que não, profunda desses temas, dos mais aos menos polêmicos. Se há, portanto, uma posição a assumir, ela se configura na busca por preservar a leitura de obras marcadas pela criatividade, inventividade e criticidade.

Cancelar Lobato, portanto, é queimar um ramo literário em que aquela tríade – criatividade, inventividade e criticidade – constitui grande probabilidade de servir a consciências imbuídas de utopias ainda tão caras à sociedade de nosso tempo.

Imagens acima: reprodução.

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Créditos: https://jornal.unesp.br/2022/02/25/monteiro-lobato-rasgado-queimado-cancelado-e-imprescindivel/

Um elenco recheado de estrelas e de novos talentos na segunda versão do Sítio na TV Globo

 

Emília, Narizinho, Pedrinho, Dona Benta, tia Nastácia, Visconde de Sabugosa, Saci e até a assustadora Cuca. Esses e muitos outros personagens que fazem parte do imaginário infantil de gerações que se encantaram com a magia do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

 

Exatamente no dia 12 de outubro de 2001 estreava na TV Globo, a segunda versão do programa infantil, baseado na obra de Monteiro Lobato, produzido pela emissora.

 

Grandes nomes tiveram a oportunidade de emprestar seus talentos para dar vida aos personagens do imaginário Lobatiano nessa segunda versão do Sítio na Globo. Novos talentos surgiram a partir do programa, bem como algumas estrelas fizeram participações especiais ao longo das sete temporadas dessa versão iniciada em 2001.

 

Confira algumas das estrelas que participaram dessa segunda versão Global e ajudaram a fazer do Sítio do Pica-Pau Amarelo, um dos programas infantis mais importantes e premiados da televisão brasileira:

 

  • Dona Benta: Nicette Bruno (2001-2004); Suely Franco (2005-2006) e Bete Mendes (2007)

  • Tia Nastácia: Dhu Moraes (2001-2006); e Rosa Marya Colin (2007)

  • Narizinho: Lara Rodrigues (2001-2003); Caroline Molinari (2004-2005); Amanda Diniz (2006); e Raquel de Queiroz (2007)

  • Pedrinho: César Cardareiro (2001-2003); João Vitor da Silva (2004-2005); Rodolfo Valente (2006); e Vitor Mayer (2007)

  • Emília: Isabelle Drummond (2001-2006); e Tatyane Goulart (2007)

  • Visconde de Sabugosa: Cândido Damm (2001-2004); Aramis Trindade (2005-2006) e Kiko Mascarenhas (2007)

  • Saci Pererê: Izak Dahora (2001-2006); e Fabrício Boliveira (2007)

  • Cuca: Jacira Santos (2001 a 2006); e Solange Couto (2007)

 

O elenco inicial da nova versão era formado por Nicette Bruno (Dona Benta), Dhu Moraes (Tia Nastácia), João Acaiabe (Tio Barnabé), César Cardadeiro (Pedrinho), Lara Rodrigues (Narizinho), Isabelle Drummond (Emília), Cândido Damm (Visconde de Sabugosa), Izak Dahora (Saci), Jacira Santos (Cuca), Aline Mendonça (Marquês de Rabicó), Zé Clayton (Burro Falante) e Sidnei Beckencamp (Quindim). O programa contava com ainda com a participação especial de Ary Fontoura (Coronel Teodorico).

 

Em setembro de 2002, novos atores integraram o elenco das novas aventuras da turma do Sítio do Picapau Amarelo, como Antonio Calloni, Elizabeth Savala, Henrique Ramiro e Zezé Polessa. Além disso, o programa recebia convidados, entre eles os atores Ney Latorraca, Fernanda Rodrigues, Leonardo Brício, Lilia Cabral, Maria Luisa Mendonça, Rodrigo Faro, Samara Felippo, Susana Werner, Márcio Kieling e Bussunda, que interpretou na trama o gênio da lâmpada de Aladin.

 

Chico Anysio, Ary Fontoura, Humberto Carrão, Eri Johnson, Nelson Xavier e Agildo Ribeiro também participaram da segunda versão do ‘Sítio do Picapau Amarelo’ na TV Globo.

 

Um dos nomes que estreou na segunda versão do “Sítio” foi o do ator Paulo Gustavo, que em 2007 interpretou Lupicíneo, um delegado que vivia atrás de um lobisomem, sem saber que ele próprio era o monstro.

AS MULHERES DA VIDA DE LOBATO

Por Cleo Monteiro Lobato

“A mulher não é inferior nem superior ao homem. É diferente. No dia em que compreendemos isso a fundo, muitos mal-entendidos desaparecerão da face da Terra.”

Esse pensamento reforça a tese de que o escritor Monteiro Lobato era de fato um homem muito à frente do seu tempo. Nascido em 1882, na cidade de Taubaté, no interior de São Paulo, José Bento ou simplesmente ‘Monteiro Lobato’, era um visionário que valorizava a observação cuidadosa do ambiente que o rodeava, fruto da influência das teorias cientificistas do início do século XX e que tinha plena consciência do seu papel social. Em comemoração ao dia internacional da mulher, vamos conhecer um pouco das mulheres que fizeram parte da vida de Lobato, que conviveram com o escritor: Anacleta do Amor Divino, avó materna; Olympia Augusta Monteiro, mãe de Lobato; Purezinha Monteiro Lobato, sua esposa; Martha Lobato Campos, filha mais velha; Ruth Monteiro Lobato, filha mais nova; e Joyce Campos Kornbluh, neta do escritor. Todas conheceram e conviveram com Lobato e apesar de nascidas numa sociedade extremamente patriarcal, sempre foram muito fortes, de opiniões marcantes e principalmente extremamente apaixonadas pela vida. As memorias a seguir me foram contadas em parte pela minha mãe, Joyce nesses últimos anos que venho me esforçando para colher o máximo das memórias da minha mãe sobre Lobato a minha familia.

Anacleta do Amor Divino

Mamãe sempre me contou que a avó materna de Lobato foi uma figura importante na história do escritor.  Ela não foi casada com o avô de Lobato, José Francisco, que mais tarde se tornaria o Visconde de Tremembé e era na verdade sua amante, num romance iniciado quando ele tinha 20 anos de idade. Juntos tiveram três filhos: a mãe de Lobato e mais dois irmãos.

Apesar de não ser casado com Anacleta, o Visconde reconheceu seus três filhos, garantiu a educação de todos e os fez herdeiros, sem se importar com as o falatório alheio ou as convenções da época.
Por não ser a esposa oficial do Visconde, Anacleta não pode estar presente no nascimento do seu primeiro neto, Juca (apelido familiar de Lobato), porque o Visconde já havia se casado com Maria Belmira de França Monteiro, que se tornou a Viscondessa de Tremembé. Mesmo assim, Anacleta manteve uma relação intensa e amorosa com a filha e com seu neto, trocando cartas regularmente e o vendo sempre que possível.
Apesar de todo o preconceito sofrido, ela foi professora, dando aulas particulares de primeiras letras em sua própria casa. A relação entre Anacleta, Olympia e seu neto Juca sempre foi muito amorosa e forte até ela falecer em 1906, quando Monteiro Lobato tinha 24 anos.

Por um daqueles absurdos que marcaram a nossa história, Anacleta não pode ser enterrada no cemitério oficial de Taubaté, pelo simples fato de ser mãe solteira e as regras da igreja não o permitirem na época. 
Mamãe sempre se refere a Anacleta como a mais forte da linhagem feminina que conviveu com o escritor, pois conseguiu viver de modo independente, constituiu carreira, juntou posses, manteve relacionamento com seus filhos e netos, além de ver seus filhos legitimados e seus três netos como herdeiros do Visconde de Tremembé. Sem dúvida, uma mulher formidável para o seu tempo.

Olympia Augusto Monteiro

Filha de Anacleta com o Visconde de Tremembé, Olympia nasceu em Taubaté, em 1856 e casou-se com José Bento Marcondes Lobato. Mamãe conta que a mãe de Monteiro Lobato, era extremamente amorosa, paciente e doce. Ensinou o filho e suas duas irmãs a ler cedo e manteve longa correspondência com seu filho, pois Olympia logo ficou doente de tuberculose e passou longos períodos convalescendo.  Olympia tocava piano e também tinha propriedades próprias.

Em cartas amorosas escritas à sua mãe, Lobato relata o período em que foi morar e estudar na capital paulista, com apenas 14 anos de idade, correspondência esta que mantiveram assiduamente até ela falecer ainda jovem, aos 40 anos, vítima de tuberculose em 22 de junho de 1899.

Menos independente, mais adequada às normas sociais da sua época, de saude frágil, Olympia cumpriu o propósito de produzir e criar um herdeiro para seu pai, o Visconde de acordo com a visão de minha mãe, Joyce.

Judith Monteiro Lobato

Mamãe sempre se refere a Judith, a irmã mais nova de Lobato, nascida em 1884, com admiração.  Ela era aventureira, apaixonada, sonhadora, romântica e muito bonita. Tanto Judith quanto Esther estudaram num colégio interno de freiras em Taubaté onde aprontavam terrivelmente e só não foram expulsas por que o Visconde pagava extra cada vez que as irmãs aprontavam.

Mamãe conta que Judith era muito namoradeira e sempre ficava na janela flertando. Certa vez se apaixonou por um estudante (ou seminarista, mamãe não tem certeza) que passava duas vezes por dia debaixo de sua janela. Importante frisar que namoro naquela época, era sempre da janela com olhares e bilhetinhos. Foi uma paixão intensa e proibida e logo o rapaz a convidou para fugirem juntos para bem longe de Taubaté a fim de viverem plenamente o amor. Mas os apaixonados decidiram fazer um pacto e morrer juntos para desfrutar daquele amor impossível em outro mundo, sem empecilhos. Mamãe conta que chegaram a acertar data e horário, mas no dia marcado, Judith perdeu a hora e não cumpriu com o combinado. Ela ainda foi até a casa do rapaz para tentar impedir o ato, mas não conseguiu chegar a tempo e ele de fato se matou. 

O Visconde teve de esconder Judith por um bom tempo, chegou a arranjar um casamento com um amigo seu, mais velho do que ela chamado Luis Cursino. Dessa união nasceram dois filhos que ela amava cuidar dos cachinhos e sempre os vestia como príncipes, com golinhas de renda.  Mas nem o casamento ou os filhos impediram Judith de viver uma vida cheia de ‘emoções’. Quando o marido estava na cidade e Judith na fazenda, ela conheceu um caixeiro viajante e abandonou seu esposo e seus dois filhos para fugir para a cidade de Santos. Com esse caixeiro teve mais um filho, Faustinho, que mamãe conheceu e com quem brincou.

Judith montou uma pensão em Santos e vivia de alugar quartos e fazer marmitas. Aparecia ocasionalmente. Certa vez, apareceu na casa de minha avó Martha (sua cunhada), pedindo dinheiro para pagar uma conta de luz com urgência. Martha emprestou o dinheiro e Judith saiu às pressas, voltando meia hora depois com um buquê de rosas lindo (mamãe se lembra do buquê) que deu de presente à Martha numa demonstração de gratidão pela ajuda recebida. Quanto a conta? Judith disse que não pagou e que se viraria depois.

Assim era Judith, mulher romântica e sonhadora, de acordo com as memórias de minha mãe. Apesar do caso do pacto de suicídio não ser confirmado, o restante desta narrativa é verídico, inclusive o fato de seu primeiro marido Luís Cursino ter ficado com toda a herança que o Visconde havia deixado para ela. Judith morreu muito pobre em Santos e ninguém da familia sabe onde fo enterrada.

Esther Monteiro Lobato de Moraes

Nascida em 1886, na cidade de Taubaté, Esther, ou Teca como todos a conheciam, era a irmã do meio de Monteiro Lobato. Mamãe a descreve como uma mulher durona, de raros sorrisos, que viveu de modo independente, costurando e cozinhando para fora, quitutes e doces que fizeram a sua fama de cozinheira de mão cheia. Era auto suficiente e feminista já naqueles tempos. A matriarca do seu ramo da familia.

Teca se recusou a casar com todos os pretendentes escolhidos pelo Visconde e só se casou com um amigo de Lobato chamado Heitor de Moraes, que era poeta e jornalista em Santos. Entretanto, logo as diferenças entre os dois afloraram. Esther era uma mulher prática, enquanto Heitor era um sonhador que adorava frequentar os saraus literários da época, mas que sofria de depressão. Apesar disso, dessa união nasceu, em 1912, Gulnara de Moraes única filha do casal.

De acordo com mamãe o casal vivia muito acima de suas posses e gastaram toda a herança recebida por Teca, do Visconde. Sem recursos, ela recorreu a Lobato em busca de um emprego para o marido que começou a trabalhar como diretor de em cartório em São Paulo. A família se mudou para a capital paulista, mas Heitor não se adaptou com a nova vida longe dos amigos, das noitadas e sem tempo para escrever seus poemas. O relacionamento do casal piorou e a depressão de Heitor se agravou, até que em 1936 depois de uma briga terrível ele se suicidou com um tiro no peito.

Teca jamais se casou novamente. Passou a viver para sua filha Gulnara (que tambem ficara viuva de Edgard muito cedo) e seu neto Rodrigo. As duas se mudaram para Tremembé e Teca passou a sustentar a todos costurando fantasias de carnaval incríveis para uma clientela da alta sociedade e essas criações extraordinárias de vestidos diferentes e criativos lhe garantiam uma boa renda.
De acordo com mamãe, Teca foi responsável pelo namoro e casamento de sua filha Gulnara com Edgar, seu sobrinho, filho de Lobato. Tudo aconteceu porque logo depois de combater na Revolução de ’30 ou ’32, Edgard contraiu tuberculose e como a família inteira estava nos EUA por conta do trabalhou de Monteiro Lobato como adido comercial, Teca o acolheu e colocou sua filha Gulnara para tratar dele. Daí nasceu o namoro que logo virou casamento, mesmo a contragosto de Purezinha, mãe de Edgard.

Teca foi responsável por uma das melhores memórias de infância da minha mãe. Naquele tempo não era costume dar presente de aniversario, mas mamãe se lembra do melhor presente que ela ganhou na vida. Foi um cachorro deitado, feito inteiramente de fios de ovos por Tia Teca. 

Maria da Pureza Gouveia Natividade

Purezinha (nome que assinava em sua correspondência), esposa de Lobato, foi uma das mulheres mais fortes e marcantes da família com enorme influência sobre seu marido.
Nascida em 1885, de uma família tradicional de educadores homens, a professora Maria da Pureza de Gouvêa Natividade, era filha de Francisco Marcondes Gouvêa Natividade, professor em um curso Anexo à Faculdade de Direito em São Paulo e neta do famoso Dr. Antonio Quirino Souza, professor em Taubaté, que inclusive foi mestre de Monteiro Lobato.
Purezinha viveu cercada de professores, escritores, abolicionistas e intelectuais.

O magistério era considerado na época, uma profissão de vanguarda para as mulheres e a escolha pode ter sido resultado da influência do pai e do avô. Mas, talvez também se inclua, entre os fatores que levaram Purezinha a se tornar professora, um certo veio politicamente engajado de seu tio (irmão de seu avô Dr. Quirino), o abolicionista Antonio Bento (1843-1898), famoso pela luta contra a escravidão e a interceptação de escravos. 

Purezinha e Lobato se casaram em 1908 enquanto ele era promotor em Areias. Tiveram 4 filhos: Martha, Edgar, Guilherme e Ruth.
Purezinha deixou de lecionar para se dedicar aos cuidados da casa e à educação dos filhos, pois Lobato era incansável sempre com novos planos e mudanças.  De Areias se mudaram para a Fazenda do Buquira, herdada após a morte do Visconde e depois de vender a fazenda se mudaram para São Paulo, onde Lobato abriu a Companhia Editora Nacional e depois para o Rio de Janeiro. Ela tinha por hábito ler histórias para seus filhos e foi justamente observando essas experiências de leitura, que Monteiro Lobato se motivou para escrever um mundo de livros para meninos e meninas.

Muitos não sabem, mas Purezinha foi muito importante para a carreira do marido escritor. De forma imperceptível, ao longo dos anos, ela esteve presente na obra de Lobato. Lia seus textos, sugeria alterações e os corrigia com a crítica aguçada de uma professora. Ele escreve que a opinião de Purezinha era a única na qual confiava. Durante sua vida foi companheira integral de Lobato e mamãe conta o quanto ela “sofria” com a energia constante dele. Nos jantares que davam para conseguir investidores para sua companhia de petróleo, Lobato não se sentava, mas costumava andar em volta da mesa falando e gesticulando com seu garfo e de vez em quando pegando um pedaço de comida do prato de Purezinha. Esse é só um detalhe engraçado que demonstra a energia constante de Lobato. Porém o esforço de te cuidado de dois filhos que faleceram de tuberculose e ainda acompanhar a genialidade de Lobato em suas empreitadas, envelheceu minha bisavó muito cedo.

Durante sua vida colecionou e organizou todas as matérias de jornais que saiam sobre Lobato e depois de sua morte, doou seus famosos álbuns de recortes de jornais, além das roupas, chapéu, costela, mesa e outros pertences para a Biblioteca Monteiro Lobato. Alem disso após a morte do meu bisavô, passou a lutar junto com os amigos de e sua filha mais nova, Ruth,  para conseguir que a Semana Monteiro Lobato se tornasse realidade. 
Ela faleceu aos 73 anos, de câncer no cérebro no dia 27 de abril de 1959 e foi enterrada ao lado do marido no Cemitério da Consolação em São Paulo, tendo conseguido ver o legado do escritor consolidado na Semana Monteiro Lobato em 1955.

Martha Lobato Campos

A filha mais velha de Lobato, nasceu em 1909 e foi a única dos filhos que descobriu um jeito de sobreviver à exaustiva genialidade e à loucura produtiva de seu pai.
Martha construiu um mundo paralelo de romance, namoricos e fofocas, onde viveu por toda a vida, sem jamais se preocupar com dinheiro ou com questões tidas como ‘mais importantes’. Minha avó Martha não completou o ensino secundário pois na época a família se mudou para Nova York e ela jamais aprendeu inglês.

Se casou escondida de sua mãe Purezinha, aos 17 anos, com Jurandir Ubirajara Campos, logo após se conhecerem em Nova Iorque, onde Lobato foi ser adido comercial e menos de um ano depois deu a luz a mamãe, Joyce Campos. Sempre fez questão de deixar claro que não tinha jeito para a maternidade e continuou levando a vida como se não tivesse uma filha, cabendo ao meu avô, Jurandir e a Purezinha, assumir o papel materno.
Teve uma relação muito complicada com minha mãe que teve que conviver com essa rejeição. Martha adorava fazer palavras cruzadas em italiano e em português e até escreveu um livro de palavras cruzadas que foi editado pela Companhia Editora Nacional. Vivia na rua, adorava fumar, jogar cartas (pôquer, canastra, tranca, buraco, paciência, crapô, qualquer coisa com baralho) e conversar longas horas ao telefone para saber das notícias. Gostava de reunir seus amigos e parentes em casa para o almoço de domingo e rodadas de pôquer. Quando pergunto a mamãe sobre suas memórias de minha avó, mamãe costuma dizer que vovó só fazia palavras cruzadas, ou então se lembra de sua mãe vestindo e fazendo maquiagem para sair para ir passear.

Das mulheres da família que conheceram Lobato, eu tenho a impressão que minha avó Martha foi certamente a menos ambiciosa e a mais alienada de todas. Jamais trabalhou, sempre viveu de direitos autorais. O casamento ainda jovem, foi o modo que encontrou para resolver o seu problema de independência e assim viver no seu mundo paralelo até falecer em casa em 1995, aos 86 anos de idade.

Gulnara Monteiro Lobato de Morais Pereira

Sobrinha de Monteiro Lobato, filha de sua irmã, Esther (Teca) e do poeta Heitor de Morais, nasceu em 1912. Era três anos mais velha que sua prima irmã Martha, com quem cresceu, eram muito amigas, pularam juntas muitos carnavais.

Em 1934, Gulnara se casou com o irmão de Martha, filho de Lobato, chamado Edgard e quatro anos depois nascia Rodrigo Monteiro Lobato, fruto dessa união. Edgard faleceu muito cedo, vítima de tuberculose, no ano de 1943, quando Gulnara tinha apenas 31 anos e seu filho Rodrigo apenas 6.

Foi um período difícil para todos e Esther, com a sua força, sustentou a família, costurando e cozinhando para fora.

Logo após a morte de Edgard a família de Lobato passou por um período voltado ao espiritismo, onde todos se reuniam na chácara de Tremembé para fazer sessões espíritas na tentativa de se comunicarem com Edgar e Guilherme (também falecido). Nessas sessões era Lobato quem fazia as atas.

Cerca de três anos após ter ficado viúva, Gulnara se casou com o escritor Antonio Olavo Pereira com quem teve outro filho, Tolavito (Antonio Olavo Pereira Jr) e conviveu por quarenta anos, morando no bairro da Aclimação, em Sao Paulo pertinho de nós.

Gulnara dominava o idioma inglês e ajudava Lobato nas traduções e revisões de textos junto com Ruth, continuando a trabalhar como tradutora após a morte do escritor.
Em 1982 ela escreveu uma biografia de Monteiro Lobato chamada ‘O Menino Juca’, que foi publicada com belíssimas ilustrações de Rui de Oliveira.
Faleceu em São Paulo, no dia 27 de agosto de 1986.

Ruth Monteiro Lobato

A filha mais nova de Lobato e Purezinha, nasceu em 1916 em meio a Primeira Guerra Mundial.
Dos filhos do casal, mamãe conta que Ruth foi a que herdou a inteligência, o dinamismo a curiosidade e a energia de seu pai. Foi a primeira mulher da família a aprender a dirigir, teve diversos carros, usava calça comprida, fumava muito, e absolutamente não gostava de crianças. Mamãe adorava Ruth e a seguia por toda parte, quase a enlouquecendo, afinal era 14 anos mais velha que ela.

Mamãe conta que Ruth teve muitos namorados, mas sempre inventava uma razão para não se casar. Dizia que queria morar em casas separadas após o casamento ou que só poderia casar depois que a mãe morresse.
Ruth morou com os pais a vida toda e após a morte de Lobato, quando tinha 32 anos de idade, continuou a morar com sua mãe, Purezinha, passando a ajuda-la a tomar conta dos direitos autorais de Lobato. Os móveis do Visconde que haviam acompanhado Lobato desde que herdara a fazenda passaram para o apartamento de Ruth.

Com o falecimento da mãe, em 1959, Ruth continuou a morar sozinha na Rua das Palmeiras, tendo apenas a companhia de sua gata e se manteve como responsável pelos direitos autorais de Lobato, enquanto Martha, sua irmã mais velha, fazia a parte pública de aparecer nas celebrações e homenagens ao escritor.

Na opinião de minha avó, Ruth tinha “doenças de homem” porque trabalhava demais e estava sempre estressada. De qualquer maneira ela teve um infarto aos 52 anos de idade, e depois um derrame aos 54 (do qual ela não se recuperou). Deprimida, se suicidou com apenas 56 anos, em 1972, com um revólver que havia pedido para um primo comprar.
Ao longo da vida, Ruth talvez não tenha encontrado espaço para viver a sua sexualidade, extrapolar a sua inteligência, nem a sua independência e autorrealização.

Joyce Campo Kornbluh

Joyce, minha mãe foi quem substituiu minha bisavó Purezinha como o esteio emocional da família. Mamãe virou a matriarca do meu ramo familiar, a pessoa que todos procuram para resolver problemas e especialmente conselhos depois que Ruth se matou.
Nascida em 1930, a única neta de Lobato (filha de Martha), teve que conviver com a rejeição da mãe.
Muito independente desde criança, sendo a líder da turma da rua, batendo nos meninos, para não apanhar em casa do pai, Joyce foi uma criança super levada, daquelas que subiam em árvores, caíam, se machucavam, mas não reclamavam. Certa vez, foi desafiada por sua melhor amiga para juntas colocarem a mão dentro da jaula de um urso no zoológico da Aclimação. O animal acabou mordendo a mão e quase decepando o dedo da amiga, que foi salvo graças a um anel. Fugiu de casa diversas vezes, apanhou muito, mas teve um convívio intenso com Monteiro Lobato, dormindo junto na mesma cama que ele e Purezinha quando era criança e ouvindo suas histórias.
Além de Lobato foi a primeira da família a fazer faculdade sendo uma das cinco mulheres de sua turma a se formar em Arquitetura no Mackenzie, onde conheceu meu pai Jerzy Kornbluh, judeu polonês não religioso, refugiado de guerra, que tinha chegado ao Brasil aos 11 anos de idade em 1941, escapando, com sua mãe, pai e irmã do Holocausto na Polônia. Se casou com ele aos 28 anos de idade.

Numa família onde todos eram católicos e Lobato não tinha batizado os filhos, casar com um judeu foi um ato de extrema rebeldia, reforçando a independência e a criação lobatiana que Joyce recebera.
Fato é que o casamento trouxe transformações negativas na vida da neta de Lobato. Da menina das histórias de aventuras, viagens e independência, surgiu uma mulher que sofria constantemente com enxaqueca, dor nas costas e depressão. Assumiu a função de mulher de um executivo, resumida a cozinhar, apoiar o marido e fazer tudo para ele progredir na carreira. Mesmo após meu pai se aposentar e passar a ser o representante da família para assuntos de Monteiro Lobato minha mãe não conseguiu se liberar. Somente após a morte do meu pai em 2015 foi que minha mãe passou a me contar sua verdadeira história, seus medos e frustrações. 

Mamãe foi sempre uma mulher à frente do seu tempo, que recebeu uma educação simultaneamente liberal e não convencional por parte de Lobato e de seu pai Jurandyr, mas ao mesmo tempo totalmente conservadora por parte de sua mãe, Martha.

Essa dicotomia interior talvez tenha dificultado muito a vida dela, que sempre se descreveu e se mostrou forte para os outros mas não conseguiu transcender o conservadorismo de sua época, suas contradições internas, nem as expectativas de ser neta de Monteiro Lobato. 

Sem conseguir encontrar sua voz ou sua independência financeira, optou por tentar se encaixar nos padrões de esposa e mãe dedicada, arcando assim com as consequências de um papel que talvez não devesse ser o seu.
Hoje, aos 92 anos, a neta de Lobato vive em Americana, no interior de São Paulo com sua cachorrinha Petit e está orgulhosa do trabalho que eu venho realizando.

Essas são as mulheres que conheceram e que tiveram a experiência única e indescritível de conviver não apenas com o pai da literatura infantil brasileira, mas sobretudo com o homem, o ser humano Monteiro Lobato.
Mulheres que como ele, estavam a frente de seu tempo, pelo modo como viveram suas vidas enfrentando e quebrando tabus, derrubando preconceitos e provocando reflexões sobre temas que poderiam passar despercebidos à época, mas que hoje se mostram atuais e são incansavelmente debatidos.

As mulheres que fizeram parte da vida de Lobato, lidaram com os traumas e as expectativas de serem relacionadas com uma das grandes personalidades do nosso país, além das mudanças sociais que ocorreram durante o século XX.

Todas sofreram, conviveram com seus traumas, algumas conseguiram transcender as limitações do contexto temporal, outras não. Mas sem dúvida todas elas foram corajosas, liberais e simultaneamente, extremamente conservadoras, cheias de contradições e medos.

A primeira vista pode parecer que as mulheres da vida de Lobato viveram em função dele ou à sua sombra. Mas a verdade é que cada uma delas, ao seu tempo, escreveu ao seu modo a sua própria história, com doses enlouquecedoras do DNA lobatiano, e sobretudo com a essência única e desafiadora de ser mulher em um mundo que ainda hoje insiste em seu machismo descabido.

Parabéns a todas as mulheres que ainda ousam sonhar além!

O padrão Global na produção da segunda versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo em 2001

Como na primeira versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo produzida pela Globo, a maior parte das gravações eram feitas num sítio localizado na Ilha de Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro. Já as cenas internas eram gravadas nos estúdios da Renato Aragão Produções, em Vargem Grande, também na zona oeste da cidade.

Em 2003, as gravações das cenas externas deixaram de ser realizadas na Ilha de Guaratiba e passaram a ser rodadas em Jacarepaguá, num sítio em Camorim, próximo à Central Globo de Produção, o Projac. A proximidade facilitou o deslocamento da equipe de produção e com a novidade, a casa principal do sítio de Dona Benta foi reformada e ganhou ares de uma fazenda.

Em 2004, foi construída dentro do Projac uma cidade cenográfica com quatro mil metros quadrados, especialmente para as gravações do programa. O espaço incluía a fictícia Arraial dos Tucanos, com um lago repleto de marrecos, uma igreja, o celeiro, a chácara, o estábulo e seus jardins. Na cozinha de Tia Nastácia não faltavam doces em compotas, panelas de bronze nas prateleiras, coador de café de pano, fogão a lenha e cortininha de renda na janela. A ideia, de acordo com a cenógrafa Giana Lannes, era facilitar as gravações e reproduzir as cidades do vale do Paraiba, onde Monteiro Lobato nasceu.


FIGURINO E CARACTERIZAÇÃO

Um dos maiores desafios dessa nova temporada foi sem dúvida a caracterização da Cuca. Nos anos anteriores, a personagem usava uma fantasia de jacaré, mas em 2007, o seu visual foi elaborado por meio de maquiagem e figurino, numa tentativa de afastar a personagem de uma atmosfera de teatro infantil, e a deixando mais próxima da estética televisiva.

A Cuca continuou com a característica textura de jacaré, mas ganhou ares de bruxa. Os dentes e as unhas de crocodilo usadas pela personagem foram feitos sob medida para a atriz Solange Couto pela equipe de efeitos especiais, formada por Ricardo Menezes, Glauco César e Cláudio Sampaio.

Outros personagens que também receberam uma atenção especial em relação a modernização de suas caracterizações, foram o Marquês de Rabicó e o Visconde de Sabugosa. Rabicó ganhou nariz e orelhas de látex, especialmente feitas para o ator Ricardo Tostes.

Já a caracterização do Visconde de Sabugosa passou por algumas experimentações antes de se chegar ao resultado final. A princípio, foi produzida uma máscara de mousse de látex que, que embora tenha agradado à direção, era muito incômoda para o ator. Finalmente, a equipe decidiu usar no ator uma peruca vermelha, e fazer a maquiagem usando air brush, que projetava o desenho dos milhos no rosto, sem a necessidade de uma prótese.

Emília foi outra que também teve o visual modernizado: no lugar das cores vermelho e amarelo, diferentes tons de rosa passaram a predominar no vestido da boneca. Sua maquiagem ganhou um tom de bege para fugir da impressão de porcelana, e os cílios foram alongados, dando um ar mais angelical à personagem. Além disso, o seu cabelo, que antes era de pano, agora era feito de lã.

CENOGRAFIA E ARTE
Para criar os novos cenários do Sítio – a chácara de Dona Benta, o Arraial dos Tucanos, a Pensão Cervantes, a venda do Seu Elias, o laboratório do Visconde, a gruta da Cuca e a gruta da Iara -, as equipes buscaram referências nos textos de Monteiro Lobato, que costumava fazer descrições detalhadas dos cenários onde a ação se desenvolvia.

De acordo com o cenógrafo Raul Travassos, a primeira versão do infantil exibida em 1977, também serviu de inspiração para a equipe e o trabalho desenvolvido foi uma homenagem ao cenógrafo e figurinista Arlindo Rodrigues, responsável pela criação dos cenários da primeira versão Global.

Durante os dois primeiros anos dessa segunda versão do programa, foram usados efeitos especiais para que o Visconde de Sabugosa parecesse ter o tamanho de um sabugo de milho. Em 2003, Visconde come uma pitada de fermento e fica do tamanho de uma pessoa normal, deixando o efeito especial de lado.

Na temporada de 2007, destaque para os efeitos visuais utilizados nas sequências em que o Burro Falante conversava com os personagens do Sítio. As cenas foram gravadas com o animal em um fundo de cromaqui e em seguida, usando recursos de computação gráfica, foi inserida na imagem uma boca em 3D, que fazia os movimentos como se o burro estivesse realmente falando.

Para as cenas em que a dupla de besouros Casca e Cascudo (Páblio Sanábio) conversava com Emília, o ator também gravava num fundo de cromaqui e, com a ajuda da computação gráfica, foram inseridas as asinhas dos insetos e os efeitos de voo. Em seguida, a imagem foi reduzida às proporções dos besouros e encaixada na cena.

Outra curiosidade era a animação das ilustrações antigas nas cenas em que Dona Benta contava uma história. Os desenhos eram baseados nos traços dos livros de Monteiro Lobato. 

 

AS SETE TEMPORADAS DO SITIO

1ª E 2ª TEMPORADAS (2001 e 2002)

A primeira temporada desta nova versão Global do Sítio do Pica-Pau Amarelo, durou do final de 2001 até setembro de 2002 e seus episódios eram extraídos das histórias dos livros de Monteiro Lobato. Quando as histórias se esgotaram teve início uma outra fase do programa, com novas histórias escritas especialmente para a televisão, assim como já havia ocorrido na primeira versão do programa, exibida em 1977.

Mantendo a tradição, a produção dessa segunda versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo na TV Globo contou com uma equipe de produção de peso, com nome como Roberto Talma (2001) Márcio Trigo (2001-2002), Roberto Talma (2001-2002) , Pedro Vasconcelos (2001-2002) e
Marcelo Zambelli (2001-2002) na direção e Luciana Sandroni, Mariana Mesquita, Cláudio Lobato e Toni Brandão na redação e adaptação.

Em 2001, cada livro de Lobato era adaptada em cinco dias, as histórias eram contadas em um ritmo mais rápido, com cada livro durando apenas uma semana para ser contado. Excepcionalmente, os episódios ‘O Picapau Amarelo’; ‘Reforma da Natureza; e ‘Histórias Diversas’ levaram duas semanas para ser contados. ‘Memórias do Pica-Pau Amarelo’ durou três semanas e ‘Os Doze Trabalhos de Hércules’, quatro semanas. Já na versão de 1977, as histórias demoravam mais tempo sendo adaptadas para televisão, com alguns textos tirados dos livros e outros criados especialmente para a telinha, que duravam normalmente um mês.

Nessa nova versão do Sítio, alguns elementos dos livros de Lobato puderam ser trazidos de volta para a televisão, como o Pó de Pirlimpimpim, que na versão de 1977 tinha sido transformado em um tipo de "palavra mágica" para evitar comparações com a cocaína. Desse modo, os moradores do Sítio apenas gritavam: "Pirlim Pim Pim" para viajarem de um lugar para outro. Nos livros de Monteiro Lobato, o Pó de Pirlimpimpim era aspirado com o nariz pelos personagens; já na versão de 2001 ele passou a ser um pó jogado em cima das cabeças dos personagens, mais parecido como o "Pó Mágico" da Sininho, da história de Peter Pan. Outra coisa que havia sido censurada na versão dos anos 70, e foi trazida de volta nessa segunda versão Global, é o costume que Emília tem de inventar suas próprias palavras. A censura da década de 1970 não permitia que a Emília da TV alterasse ou falasse palavras da gramática ao seu próprio modo, como: "bissurdo", "arimética" ou "obóvio". 

A segunda temporada teve início em setembro de 2002, com direção de Cininha de Paula e Paulo Ghelli e com episódios escritos por Walcyr Carrasco, com a colaboração de Mário Teixeira e Thelma Guedes. As histórias deixaram de ser exibidas em episódios semanais de cinco capítulos e passaram a ter duração de cerca de um mês. O horário de exibição do programa também foi alterado: o infantil passou para as 10h10.
Novos atores passaram a integrar o elenco como Antonio Calloni, Elizabeth Savala, Henrique Ramiro e Zezé Polessa, entre outros. Além disso, o programa recebia convidados, entre eles os atores Ney Latorraca, Fernanda Rodrigues, Leonardo Brício, Lilia Cabral, Maria Luisa Mendonça, Rodrigo Faro, Samara Felippo, Susana Werner, Márcio Kieling e o humorista Bussunda, que interpretou na trama o gênio da lâmpada de Aladin.


3ª TEMPORADA (2003 e 2004)

Em abril de 2003, o Sítio do Picapau Amarelo estreou sua nova temporada com episódios inéditos e as novas aventuras passaram a ter somente base na obra original de Monteiro Lobato, ainda sob a direção de Cininha de Paula e Paulo Ghelli, mas com Mário Teixeira – até então colaborador de Walcyr Carrasco – na autoria do programa, com a colaboração de Duca Rachid e Alessandro Marson. Novas historias foram escritas  baseadas nos livros de sucesso do momento para os personagens do Sitio. 

Os personagens do Sítio tambem passaram por algumas mudanças no visual. Dona Benta por exemplo, envelheceu um pouco, (agora com cabelos grisalhos), assim como Tio Barnabé (que abandonou seus coletes africanos e adotou um estilo mais caipira).

Tia Nastácia, interpretada por Deu Moraes, mais magra teve de engordar um apouco e por sua vez, ficou mais rechonchuda, enquanto a malvada Cuca sofreu uma transformação radical: ganhou uma enorme cabeleira e roupas novas, além de uns quilos a mais. Após participações em episódios anteriores, os personagens Zé Carijó (Cassiano Carneiro) e Pesadelo (Leandro Léo) passaram a integrar o elenco fixo do programa, e foram também adicionados na abertura da série. 

A turma do Sítio ganhou ainda participação de outros novos personagens em 2003 por conta das novas historias A grande surpresa foi a chegada de Zumpilion (Cosme Monteiro), um animal de estimação extraterrestre.  Ele foi responsável por grandes confusões no sítio de Dona Benta, especialmente por seu apetite voraz. Moby (Raul Gazolla) e Dick (Nelson Freitas), uma dupla de piratas do espaço, comandada pelo vilão Mordoror (Norton Nascimento), entraram em cena em busca do animalzinho; e os investigadores espaciais Alista (Cristina Pereira) e Aníbal (Guilherme Karan) também embarcaram na aventura. Esses personagens integravam o elenco de O Extraterrestre, episódio com dez capítulos que abriu a série de episódios de 2003.


4ª TEMPORADA (2004 e 2005)

Em 2004, a equipe de redatores do Sítio era formada por Mário Teixeira e Duca Rachid e pelos colaboradores Alessandro Marson e Júlio Fisher. A direção continuava sob responsabilidade de Luiz Antonio Pillar, e a direção-geral era de Cininha de Paula e Paulo Ghelli. 
Tivemos grandes mudanças no elenco pois os personagens Pedrinho e Narizinho passaram a ser interpretados, respectivamente, por João Vítor Silva e Caroline Molinari, enquanto a Iara passou a ser interpretada por Lilian Cordeiro. Nessa temporada foi criado o cenário do Arraial dos Tucanos, com a Venda do Elias, a Pensão da Dona Joaninha Pão Doce, a Igreja, a Delegacia, e a casa do Coronel Teodorico passou a ser integrada no Arraial dos Tucanos.

Outra novidade da temporada foi a saída dos personagens centrais do Sítio para cenários fora do Sitio de D. Benta tanto assim que o primeiro episódio de 2004 foi "A Menina da Selva", com cenas gravadas na Amazônia.  

Em "A Dama dos Pés de Cabra", baseada no conto do autor português Alexandre Herculano, a turma embarcou para Portugal, onde gravou cenas em Lisboa e em Sintra. 

O último episódio de 2004, exibido em janeiro de 2005, foi "Dom Quixote", que ficou marcado pela saída de Cândido Damm do papel do Visconde de Sabugosa. No episódio, o Visconde (ainda interpretado por Cândido Damm) acaba esmagado pela estante de livros da biblioteca de Dona Benta, ficando tão fino quanto uma folha de papel. Assim, Tia Nastácia constrói um novo Visconde (a partir daí interpretado por Aramis Trindade). Mas Cândido Damm não saiu imediatamente do programa; ele continuou até o final do episódio, mas interpretando o personagem Dom Quixote.

5ª TEMPORADA (2005)

No dia 4 de abril de 2005, tinha início uma nova temporada do Sítio, mas agora com a mudança de dois atores do elenco principal : Nicete Bruno e Cândido Damm, que interpretavam a Dona Benta e o Visconde de Sabugosa, os dois tiveram que sair do programa e foram substituídos por Suely Franco e Aramis Trindade.

A Dona Benta, que passou a ser vivida por Suely Franco, ficou com uma personalidade mais doce, e recebeu também um novo figurino, passando a usar vestidos e aventais, típicos de uma senhora de idade.

Já o Visconde, agora interpretado por Aramis Trindade, que é conhecido por ser bom de improviso, ganhou uma personalidade mais carismática de sábio meio atrapalhado, e algumas vezes um pouco excêntrico, especialmente quando está inventando alguma máquina, ou pesquisando algo; com isso ele ganhou mais destaque nas histórias. Aramis também deu ao personagem algumas características interessantes, como um forte sotaque paulistano, principalmente quando pronunciava palavras que continham as letras R e L no final. Em 2005, o Visconde também ganhou uma espécie de "bordão" durante o programa, a sua frase: "Ma-ma-mas Marquesa…", que ele sempre diz a cada vez que a Emília o obriga a inventar alguma máquina genial. Esse novo bordão do Visconde na verdade foi um improviso de Aramis Trindade durante as filmagens de uma cena, frase que acabou dando certo, e passou a ser usada quase sempre pelo Visconde perante as ordens da Emília (e sendo imitada até mesmo pelo Zé Carijó e pelo Conselheiro).

Outra novidade nessa temporada, foi que a boneca Emília ganhou uma espécie de "irmã mais nova", a bonequinha de plástico Patty Pop (apelidada pela Emília de 'Pata Choca'), que também tomou a "Pílula Falante" e ganhou vida, deixando Emília morta de ciúmes pela atenção da Narizinho.

Ainda em 2005, a fantasia da Cuca ganhou novas mudanças, ficando mais feia e horripilante, e ganhando uma forma mais parecida com a Cuca do Sítio dos anos 70 (com exceção do fato de que a Cuca de 1977 possuía listras coloridas na barriga, e pequenos olhos vermelhos), a "Cuca de 2005" passou a ser feita de um material de borracha, que a deixava mais realista e assustadora. A roupa de jacaré se tornou mais elaborada e detalhada, dando à personagem um aspeto mais ameaçador, ela ganhou grandes olhos amarelos com pupilas e veias vermelhas; e um focinho mais comprido, com muitos dentes pontudos; ganhou também um "barrigão" listrado, e pés com unhas afiadas, além de uma longa cabeleira loira.

O programa também mudou o seu formato e passando a ser uma novela infantil, com 194 capítulos e uma única história, que durava o ano inteiro.

A proposta do Sítio para a televisão naquele ano, era apresentar uma história que tivesse personagens e elementos da obra de Lobato, junto com temas do dia a dia, importantes para crianças, jovens e adultos; como a importância da escola, a valorização do folclore nacional, que é mostrada, quando a professora Antonica, mãe do Pedrinho, faz uma festa sobre o Dia do Saci na escola do Arraial dos Tucanos, no mesmo ano em que esse dia foi instituído no Brasil.

Houve também uma grande citação em alguns capítulos sobre a alfabetização de pessoas adultas e idosas, quando Zé Carijó decide ir para escola aprender a ler e escrever. A história ainda contava com quase 40 atores no elenco fixo, entre eles Chico Anysio, intérprete do advogado Osvaldo Saraiva que participou como personagem fixo de 2005.

Uma coisa muito interessante sobre essa temporada é que ela não faz parte da linha cronológica de 2001-2004 por vários motivos e dos quais, o mais perceptível é o fato de Dona Benta não acreditar em Saci, Cuca, lobisomens, bruxas, fadas, e Pó de Pirlimpimpim.
Apesar de Dona Benta já ter visto o Saci e a Cuca na sua frente nas temporadas de 2001-2004 (além de ter visto outros seres, e personagens de contos de fadas), na temporada de 2005 ela simplesmente age como se nunca os tivesse visto e nem acredita que são reais, a menos que ela veja como os próprios olhos. Todas as aventuras fantásticas que as crianças contavam, ela acreditava serem apenas brincadeiras fantasiosas. Um outro momento  interessante que ilustra como esta temporada nao faz parte da linha cronológica  é que Miss Sardine (que já havia morrido na temporada de 2001) aparece viva e vivendo fora do Reino das águas Claras.
 
A trama principal daquele ano mostrava os moradores do Sítio, conhecendo dois jovens chamados "Cléo" e "João da Luz", que aparecem pelo "Arraial dos Tucanos", e vão se tornando amigos da turma do Picapau Amarelo, e vivendo aventuras juntos.

Poucos sabem disso, mas, esses dois personagens também foram criados originalmente por Monteiro Lobato, eles apareceram em dois livros diferentes, e foram "pinçados" das histórias de Lobato, para participarem na trama de 2005.

A personagem Cléo, é uma garota que aparece em Caçadas de Pedrinho, descrita no livro como uma radialista da cidade, uma menina "desembaraçada", que costuma trocar cartas com Narizinho, que acompanha o seu programa pelo rádio junto com todo o pessoal do Sítio. Curiosamente existiu mesmo uma Cleo na vida de Lobato, era Cleo Marcondes, filha de um grande amigo de Lobato Octales Marcondes, uma menina incrivelmente inteligente.

A temporada de 2005 ganhou ainda uma nova trilha sonora, com novas músicas para alguns personagens. Como a intenção era agradar tanto as crianças, quanto os jovens e adultos, algumas músicas eram mais "lúdicas", como: "Dona Benta" de Elder Costa, "Emília, faz o que ninguém mais faria" de Pato Fu, e "Sem Medo de Assombração" de Ney Matogrosso, enquanto outras músicas eram voltadas para um público mais adolescente, como a canção "Nós Dois" da banda Jukabala, tema do casal Cléo e João da Luz.

Nessa temporada o Sítio chegou a ganhar o "Prêmio Mídia Q 2005", na categoria de quatro a sete anos, com base numa pesquisa feita com pais de crianças e jovens de quatro a dezessete anos, nas classes A, B e C, sobre a qualidade da programação da TV no Brasil.

6ª TEMPORADA (2006) – 

A sexta temporada teve início em setembro de 2006 mantendo o mesmo formato de novela. Porém desta vez com o objetivo de tratar mais da fantasia e do surreal, sem deixar de lado temas reais, assim como já havia acontecido no ano anterior. 

Nessa temporada mais algumas trocas de atores aconteceram. O ator João Vítor da Silva, que interpretou o Pedrinho entre 2004 e 2006 passou a interpretar o Curupira, dando o papel de Pedrinho a Rodolfo Valente. Caroline Molinari, a Narizinho em 2004 e 2005, foi substituída por Amanda Diniz. A maioria do elenco do núcleo do Arraial dos Tucanos, também foi trocado, sendo mantidos apenas os atores que faziam os personagens principais: Suely Franco como Dona Benta; Dhu Moraes no papel de Tia Nastácia; João Acaiabe como Barnabé; Isabelle Drummond na pele da boneca Emília; e Aramis Trindade como o Visconde de Sabugosa.

Nesta temporada Cininha de Paula deixou a direção do programa para dirigir a novela ‘Cobras & Lagartos, sendo substituída por Carlos Manga, que decidiu reformular totalmente o Sítio do Picapau Amarelo, no intuito de deixa-lo mais parecido com o "Sítio" das histórias de Monteiro Lobato. Com isso alguns personagens tiveram que sair como a bonequinha de plástico Patty Pop e Pesadelo, o ajudante da Cuca, que já não apareceram mais nessa temporada.

Outros personagens sofreram uma grande mudança no visual: Emília ficou com o cabelo mais comprido e passou a usar outros tipos de vestidos. Já o Visconde ganhou um novo figurino, com maquiagem amarela no rosto, um grande nariz de látex e uma cartola feita de palha dourada. O burro Conselheiro, passou a ser uma marionete que andava sobre as suas quatro patas e a cor do seu pelo ficou cinza. O folclórico Saci trocou o seu macacão vermelho por um calção na mesma cor, enquanto o Tio Barnabé ganhou uma barba mais comprida e passou a morar sozinho no meio do mato. 

Outra mudança aconteceu com os objetos usados no Sítio, que ficaram mais rústicos, desaparecendo o forno de microondas, o computador e gameboy. A casa ganhou móveis e aparelhos mais antigos ainda e as histórias dos episódios da televisão passaram a lembrar mais o clima dos livros de Lobato. 

Esse também foi último ano em que a personagem Cuca utilizou a fantasia criada em 2005, já que na próxima temporada, em 2007, a bruxa do Sítio passaria a ser interpretada por uma atriz humana e não mais por um boneco de jacaré.

7ª TEMPORADA (2007)

E Em 2007, Sítio do Picapau Amarelo passou a ser exibido no TV Xuxa programa infantil comandado pela apresentadora Xuxa Meneghel. O programa, estreou na nova programação com a proposta de voltar às histórias originais de Monteiro Lobato. Todas as histórias apresentadas ao longo do ano de 2007 eram baseadas nos textos originais de Monteiro Lobato. A primeira história, O Saci Contra-Ataca, com 25 capítulos, trazia elementos do folclore brasileiro. 
Com direção geral de Carlos Magalhães, foi tomada a arriscada decisão de substituir praticamente o elenco inteiro para a nova temporada. Todos os personagens principais tiveram novos atores. Emília voltou a ser interpretada por uma atriz adulta, Tatyane Goulart; o Saci por Fabrício Bolíveira não era mais careca; Tio Barnabé passou a ser interpretado por Genésio Amadeu ; Dona Benta, passou a ser interpretada pela atriz Bete Mendes e apareceu de cabelos pretos; Tia Nastácia passou a ser interpretada por Rosa Marya Colin; Renato Borghi deu vida ao Seu Elias Turco; e Pedrinho e Narizinho passaram a ser interpretados pelas crianças Vítor Mayer e Rachel de Queiroz.  E o Visconde agora interpretado por Kiko Mascarenhas, ganhou uma maquiagem com muitos grãos de milho pintados no rosto e um paletó fechado.
Nessa temporada o Sítio também ganhou novos figurinos para os atores e os bichos: Rabicó deixou de ser um boneco e passou a ser interpretado por um ator com orelhas e nariz de porco; o Burro Conselheiro passou a ser um burro de verdade, dublado com uma voz humana.

Mas a maior mudança naquele ano, aconteceu com a Cuca. Diferente de todas as adaptações televisivas que já foram feitas com a personagem, a Cuca dessa vez não era mais um boneco de jacaré com cabelo loiro, mas sim a atriz Solange Couto com maquiagem no rosto e dentes pontiagudos, usando um macacão verde.

Infelizmente, com tantas mudanças, essa temporada não manteve o mesmo desempenho no Ibope, e após 165 capítulos divididos em 6 histórias, chegou ao fim com a exibição do seu último episódio no dia 7 de dezembro de 2007. Sem a mesma audiência de anos anteriores, a emissora decidiu pelo cancelamento do programa e a sua retirada da grade de programação.
 

Desmistificando Monteiro Lobato nos 100 anos da Semana de Arte Moderna

No ano do centenário da Semana de Arte Moderna, também chamada de Semana de 22, não poderíamos deixar de fazer uma menção especial ao evento e principalmente desmistificar a história que injustamente insiste colocar o moderno Monteiro Lobato como um antimodernista.

Mas antes de nos aprofundarmos nessa história, até para esclarecer aos mais jovens resumidamente, cabe-nos contextualizar: esse foi um evento de música, dança, poesia e artes plásticas que inaugurou um novo movimento cultural no Brasil chamado de Modernismo, promovido pela elite cafeicultora paulista entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal da cidade de São Paulo.

Autor com reconhecidas características de vanguarda, Monteiro Lobato, apesar de todo o seu regionalismo e da denúncia da realidade brasileira presente em sua obra, acabou injustamente, sendo rotulado como um ‘antimodernista’.
Mas será que um sujeito considerado moderno, visto como alguém à frente do seu tempo por suas ideias e ações, era isso mesmo?

O PRINCÍPIO DE UM EQUÍVOCO HISTÓRICO

O início de todo esse mal-entendido entre o autor de Urupês e o movimento literário chamado Modernista, aconteceu alguns anos antes da Semana de Arte Moderna, em 20 de dezembro de 1917, quando Monteiro Lobato publicou um artigo no jornal O Estado de S. Paulo, intitulado "A Propósito da Exposição Malfatti", mas que distorcidamente passou a ser divulgado e debatido sob o título de "Paranoia ou mistificação?", que na verdade é uma citação que o escritor fez no texto (que pode ser conferido neste link: – arquivo PDF enviado), utilizado para criar um clima de polemica e animosidade entre Lobato e os chamados ‘modernistas’: Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia e Anita Malfatti entre outros.

Nesse texto, o autor de “Urupês” e criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo, que também era crítico de arte e pintor amador, claramente faz uma crítica à artista, após visitar uma exposição individual de Anita, referente à estética de suas obras, fortemente influenciadas pelo que Lobato chamou de "extravagâncias" de Pablo Picasso e seus colegas. Como nacionalista convicto e preocupado em consolidar o conceito de Brasil nação, Lobato em 1917 era, sem vergonha alguma, um crítico voraz da exagerada influência europeia sobre artistas brasileiros e sobre o meio cultural da época. 

Apesar da crítica, Lobato nunca deixou de reconhecer e exaltar o talento artístico de Anita Malfatti, e o faz no mesmo artigo tão polemico.  Na verdade, ele questionava não a inovação contida na artista, mas o estrangeirismo, e por isso, de modo equivocado (ou quem sabe até propositalmente), foi feito um recorte para desqualificar o escritor e colocá-lo como uma figura conservadora, retrógrada e careta, o que a própria história de Lobato nos revela o contrário.

Ao fazer a leitura integral do texto, qualquer leitor desprovido de outros interesses, pode notar claramente que Lobato na verdade, chama atenção para a reprodução acrítica dos valores estéticos das vanguardas europeias. No ano seguinte ao polêmico artigo, através de sua Revista do Brasil, Lobato lança Urupês, livro que décadas mais tarde renderia um comentário bastante interessante do crítico Wilson Martins em A Literatura Brasileira: "poderia ter sido, ou deveria ter sido, o primeiro manifesto modernista".

Urupês é mesmo o reflexo literário do pensamento modernista de Monteiro Lobato. Das suas observações como fazendeiro, ele aprendeu sobre a vida do caboclo brasileiro e forjou o termo "jeca" para criar um dos maiores representantes da nossa cultura multifacetada, com a saude corroida por vermes e absolutamente explorado por interesses economicos. O jeca aparece como natural do interior do Brasil, mas tem sua sabedoria ampliada por essa abstração denominada "cultura nacional": é o embrião da antropofagia modernista vislumbrada nesse personagem, que é uma mistura de várias personalidades brasileiras.

Lobato ofereceu o jeca aos olhos do público e da crítica, um novo caboclo, um herói multifacetado como a cultura brasileira e de costumes antropofágicos, filho de miscigenações e de portugueses degradados, mas o movimento Modernista não teve olhos para reconhecê-lo.

Seu nacionalismo sempre o manteve conectado aos que se interessavam pela questão cultural brasileira. Ainda em sua fazenda, Lobato enumerava admirações por alguns autores que mais tarde se consagrariam na Semana de Arte Moderna, publicando inclusive, vários desses autores em sua revista. Se um equívoco o separou do movimento modernista, esse mesmo equívoco o deixou livre para contestar o que lhe parecia errado no movimento.

Enquanto em texto o autor analisava a identidade nacional (aproximando-se, assim, de umas das principais propostas modernistas), o homem Monteiro Lobato aventurou-se em projetos empresariais no mundo literário. Em 1918, ele comprou a já famosa Revista do Brasil, em que havia publicado contos e críticas. A revista teve vida longa e foi ilustrada por nomes importantes da literatura brasileira.

Seu empreendimento também pode ser visto como modernizador das relações do artista com os negócios. O Estado, até então, era o novo mecenas das artes, e as negociações com editoras eram precárias. Monteiro Lobato fundou sua própria editora e inaugurou uma nova relação do artista com seu negócio. A literatura é vista, assim, como um produto próprio e pronto a ser negociado. Como afirma o escritor e crítico Silviano Santiago, "é através da caracterização do papel social e político do livro entre nós que se pode conhecer, com maior propriedade, o sucesso do projeto elitista e o fracasso do projeto populista dentro dos contornos da estética modernista”. Começou, então, com Monteiro Lobato, a era moderna nas relações autores-editores no Brasil.

PARA OS PRÓPRIOS MODERNISTAS, LOBATO ERA UM DELES

O escritor Oswald de Andrade, um dos principais nomes do movimento modernista, foi pelo mesmo caminho de Monteiro Lobato, quando escreveu o Manifesto Antropofágico.

Esse manifesto literário, publicado em maio de 1928, onze anos depois do famoso artigo de Lobato, tinha o objetivo de repensar a dependência cultural brasileira, demonstrando assim, que não havia contradição entre ele e o escritor.

Dois anos antes, em 1926, Lobato havia escrito um texto chamado ‘Nosso Dualismo’, no qual deixava clara a importância do movimento modernista: “Esta brincadeira de crianças inteligentes, que outra coisa não é tal movimento, vai desempenhar uma função séria em nossas letras. Vai forçar-nos a uma atenta revisão de valores e apressar o abandono de duas coisas a que andamos aferrados: o espírito da literatura francesa e a língua portuguesa de Portugal. Valerá por um 89 duplo — ou por um 7 de setembro”, diz Lobato.

O autor sempre esteve próximo a Oswald de Andrade, que ele próprio considerava uma das mentes mais brilhantes do modernismo brasileiro e sobre o qual afirmou: “…o futurismo apareceu em São Paulo como fruto da displicência de um rapaz rico e arejado de cérebro: Oswald de Andade”, que, como “turista integral, sentiu melhor que ninguém a nossa cristalização mental e empreendeu combatê-la”.

Claramente não houve rompimento radical entre Lobato e os modernistas. O que ocorria é que, ao contrário dos modernistas – que discutiam questões formais e estéticas – Lobato queria modernizar o país no plano da economia e da saúde, por exemplo. Queria modernizar um país arcaico, evidenciando ainda mais assim a sua conexão com o movimento modernista.

Mas voltando a falar de Oswald de Andrade, ele próprio eliminou qualquer embaraço que ainda pudesse existir entre Lobato e os modernistas, no aniversário de 25 anos de “Urupês” com seguinte texto:
“Você foi culpado de não ter a sua merecida parte de leão nas transformações tumultuosas, mas definitivas, que vieram se desdobrando desde a Semana de Arte de 22. Você foi o ‘Gandhi do Modernismo’, jejuou e produziu, quem sabe, nesse e noutros setores, a mais eficaz resistência passiva de que se pode orgulhar uma vocação patriótica (…) Sua luta significava a repulsa ao estrangeirismo afobado de Graça Aranha, às decadências lustrais da Europa pobre, ao esnobismo social que abria os seus salões à Semana”.

Mário de Andrade foi outro que anos mais tarde, ao rever o movimento que integrou, cita Lobato como um dos seus, reconhecendo a importância do escritor em toda aquela novidade:
“O modernismo no Brasil foi uma ruptura, foi um abandono consciente de princípios e de técnicas, foi uma revolta contra a intelligensia nacional. (…) Quanto a dizer que éramos antinacionalistas, é apenas bobagem ridícula. É esquecer todo o movimento regionalista aberto anteriormente pela Revista do Brasil, todo o movimento editorial de Monteiro Lobato”.

De fato, Monteiro Lobato era um grande editor naquela época e reforçando: no ano da Semana de Arte Moderna, editou vários modernistas, comprovando que não se tratava de um opositor ao movimento, mas sim de um interlocutor, alguém que discutia a forma com que o modernismo estava se estabelecendo no nosso país.

Por fim, essa confusão com os modernistas terminou fazendo de Lobato um injustiçado pela história. Mas não se pode negar a sua inestimável contribuição para a literatura brasileira e para o próprio movimento modernista.
 

Em 2001, o Sítio voltou para a tela da Globo

Em julho de 1999, a Rede Globo assinava um contrato com os herdeiros de Monteiro Lobato, para produzir uma nova adaptação para a televisão, baseada na coleção de histórias do Sítio do Picapau Amarelo. Essa nova versão, a segunda da rede Globo, estreou no dia 12 de outubro de 2001, às 11h30, dentro do programa infantil Bambuluá, em edição especial para o Dia das Crianças

A previsão inicial para a reestreia da atração era 15 de outubro, porém havia uma preocupação muito grande por parte da emissora, de que o projeto iniciado há um ano e meio, seria tão bom quanto a edição anterior, exibida com estrondoso sucesso entre 1977 e 1986.

A ideia então foi iniciar a exibição do Sítio do Pica-Pau Amarelo como uma das atrações do programa comandado pela apresentadora Angélica, em episódios de apenas 15 minutos, levados ao ar de segunda à sexta-feira. Nessa primeira fase, a história de um dos livros da série literária escrita por Lobato era dividida em apenas 5 episódios.

Mantendo a tradição, a produção dessa segunda versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo na TV Globo contou com uma equipe de produção de peso, com nome como Roberto Talma (2001) e Carlos Manga (2006) na direção de núcleo; Luciana Sandroni, Mariana Mesquita, Cláudio Lobato e Toni Brandão na redação e adaptação; Márcio Trigo (2001); Cininha de Paula e Paulo Ghelli (2002); Carlos Magalhães (2007) na direção geral.

De acordo com Roberto Talma, toda equipe de produção não se preocupava apenas com a audiência da nova atração, mas também com a necessidade da adaptação da famosa obra de Lobato para os dias atuais, sem descaracterizar o original. E assim como na primeira versão, a equipe da nova produção se manteve o mais fiel possível à obra do autor e conseguiu de forma brilhante, aproximar o programa da vida atual, mantendo o aspecto rural presente no original Lobatiano, sem abrir mão de fazer a conexão com as crianças dos grandes centros urbanos.

Entre as inovações apresentadas nessa segunda versão, destaque para a “modernização” do cenário do Sítio, localizado agora na ilha de Guaratiba, no Rio de Janeiro, que contava por exemplo com um computador com acesso à internet e forno microondas. A linguagem dos personagens também foi adaptada de modo a se aproximar da realidade atual sem perder a sua essência, misturando gírias recentes – como “maneiro” e “sinistro” – com expressões usadas na obra de Lobato, como “cara de coruja seca” e “torneirinha de asneiras”.

Para dar vida aos personagens principais, o elenco do Sítio do Pica-Pau Amarelo de 2001 contou com as atrizes Nicette Bruno no papel de Dona Benta, Dhu Morais (ex-integrante do grupo musical As Frenéticas) como Tia Nastácia, e com o ator Cândido Damm na pele do Visconde de Sabugosa.

Entretanto o grande destaque ficou por conta dos personagens infantis: a boneca de pano Emília por exemplo, foi interpretada pela primeira vez por uma criança, a atriz Isabelle Drummond, na época com apenas 7 anos de idade. Anteriormente, em uma adaptação de cinema, também houve uma pequena menina chamada Olga Maria, que interpretou a Emília no filme ‘O Saci’, de 1951, ainda em preto e branco, dirigido por Rodolfo Nani e baseado no livro homônimo, escrito por Monteiro Lobato. Com exceção desse filme, e dessa nova versão do Sítio na Globo, a boneca Emília havia sido interpretada unicamente por atrizes adultas.

Outros destaques infantis foram as atuações da menina Lara Rodrigues no papel de Narizinho, de César Cardadeiro que viveu Pedrinho e o garoto Izak Dahora que deu vida ao nosso Saci Pererê. Esse atores viveram nessa versão do Sítio o seu primeiro grande papel na TV.

O elenco dessa segunda versão, contou ainda com as participações de Jacira Santos como a bruxa Cuca; o amado João Acaiabe como Tio Barnabé; Aline Mendonça vivendo o Marquês de Rabicó); Zé Clayton que deu vida ao Burro Falante e Sidnei Beckencamp como Quindim, além da participação especial de Ary Fontoura vivendo o Coronel Teodorico.

Na área musical mais algumas novidades. A canção original, de Gilberto Gil, foi mantida e passou a conviver com uma nova trilha sonora interpretada por Ivete Sangalo, Carlinhos Brown, os mineiros do Jota Quest e Cássia Eller, que interpretou a música-tema da vilã Cuca.

Com bons índices de audiência, o programa mais uma vez caiu nas graças dos brasileiros, comprovando que os personagens do imaginário Lobatiano continuavam conquistando novas gerações com histórias empolgantes, atuações convincentes e uma excelente produção.

Diante do grande sucesso, a emissora se viu estimulada por seus telespectadores a lançar uma linha de produtos especiais com os personagens do Sítio, como vídeos e DVDs com episódios lançados no natal de 2001, além de bonecas, mochilas, cadernos, álbum de figurinhas, entre outros produtos. Ainda em dezembro daquele ano, a Globo exibiu um especial musical intitulado ‘A Festa da Cuca’, que teve a participação de todos os artistas da nova trilha sonora e de atores convidados, como Malu Mader no papel da Cuca.

A partir do dia 22 de dezembro daquele ano, a segunda versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo na Globo, deixou o programa da Angélica e conquistou o seu próprio espaço, sendo exibido de segunda a sexta feira, as 11h30 e depois as 10h10, até 2007.

Essa segunda versão do Sítio na Globo teve um total de sete temporadas exibidas entre os anos de 2001 a 2007.

Curiosidades sobre o Sítio de 1977

Muita coisa acontece distante dos olhos do grande público ….Aqui vamos contar pra voces algumas curiosidades sobre a primeira versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo que foi ar pela TV Globo:

 Voce sabia que  o ator André Valli tinha sido escalado inicialmente para interpretar o personagem Zé Carneiro e Tonico Pereira, o Visconde? Mas quando Tonico ficou doente, foi substituído por Valli na última hora. Mais tarde, Tonico entrou para o elenco onde viveu Zé Carneiro.

Dezenas de meninas foram testadas para o papel de Narizinho e a escolhida foi Rosana Garcia, que tinha 11 anos quando as gravações começaram em 1976. O programa só estrearia um ano depois e Rosana ficaria no papel até 1980, quando já aos 16 anos, teve que deixar o programa por estar muito grande para interpretar uma personagem de 7 anos de idade.

 A atriz Patrícia Travassos fez testes para viver a boneca Emília, porém a escolhida para interpretar a personagem foi Dirce Migliaccio, que tinha atuado em Pluft, o Fantasminha.

Quando a primeira versão do Sítio na Globo terminou, em 1986, a Globo presenteou a atriz Zilka Salaberry com a vaca Mocha, que ela tanto gostava e tinha ficado super amiga. A vaca fazia parte dos animais que compunham o sítio onde o programa foi gravado.

 Falando na atriz Zilka Sallaberry, inicialmente, ela achou que poderia fazer o papel de Dona Benta no Sítio da Globo. Isso porque ela achava impossível dar vida a uma personagem tão diferente dela. Zilka era super urbana e não se via como uma senhora calma, que vive em um pacato sítio no interior. Zilka não conseguia passar um final de semana longe da cidade e não gostava muito do contato com a natureza. Ao saber que as gravações seriam feitas em um sítio especialmente planejado para a série, em Barra de Guaratiba, ela simplesmente ficou desesperada! Sem ter como recusar o papel, ela disse que se apaixonou pela personagem desde o primeiro dia de gravação.

5- Júlio César (o primeiro Pedrinho) abandonou a carreira de ator, enquanto Rosana Garcia (a primeira Narizinho), continuou na Globo, como atriz, fez teatro  e hoje é instrutora de dramaturgia na TV Globo e TV Record. www.trevo.art.br @arosanagarcia

6- Além de Dona Benta, Tia Nastácia, Emília, Narizinho, Pedrinho e Visconde, que sempre protagonizaram as histórias do Sítio, a primeira versão da TV Globo destacou outros personagens como Tio Barnabé, Zé Carneiro e Garnizé, eternizados nas interpretações marcantes dos atores Samuel Santos (o Tio Barnabé), que faleceu em 1993; Canarinho (o Garnizé), que também fez sucesso na Praça é Nossa do SBT, falecido em 2014; e Tonico Pereira (o Zé Carneiro), que mais tarde faria sucesso com o personagem Mendonça, na série A Grande Família.

Educar é preciso, conhecer as obras de Monteiro Lobato também!

Para celebrar o Dia Internacional da Educação, nada melhor do que falar da importância e da influência de Monteiro Lobato na educação infantil.
Lobato criou um universo para a criança enriquecida pelo folclore, buscou o nacionalismo na ação das personagens que refletiam na brasilidade, na linguagem, comportamentos e na relação com a natureza.

O Sítio do Pica-Pau Amarelo tem um caráter interdisciplinar e transdisciplinar, onde se fala de mitologia, de gramática, de matemática, de folclore e de outras questões pertinentes.
Algumas transformações ocorridas no século XVIII, aliadas às questões educacionais, marcaram alguns conceitos sociais voltados à família, e é neste século que surge a educação para todos, priorizando, a criança. Surgem textos adaptados exclusivamente para elas, dando início a formação de pequenos leitores.

Surgiu a necessidade de obras que despertassem o interesse das crianças, que chamassem a sua atenção, que as fizessem viajar e sonhar, baseadas no mundo do faz-de-contas e a literatura de Monteiro Lobato cumpre muito bem esse papel.

Além de despertar o interesse da criança através do imaginário, Lobato conscientiza com a sua literatura denunciadora, que envolve fatos políticos-econômicos-sociais. A sua principal obra, “O Sítio do Picapau Amarelo”, tem traços de um Lobato indignado com a exploração do Petróleo, logo depois surge o livro “O Poço do Visconde”, que conta a história da descoberta do Petróleo nas terras do Sítio (mundo fictício), que eram terras de sua família. Não podendo se expor, criou as personagens fantásticas, as quais dizem tudo o que ele pensa sobre a descoberta, entre elas Emília, a qual representa a sua voz.

Você sabia que Lobato é considerado pioneiro na literatura paradidática, cuja principal característica é permitir que a criança aprenda enquanto brinca e lê?
Pois é, e isso aconteceu de um modo muito interessante, protagonizado pelo autor ousado, que sem dúvida estava à frente de seu tempo.

O escritor lançou em dezembro de 1931, o livro “A menina do narizinho arrebitado”, uma edição muito bonita, com capa dura, formato maior que uma folha de sulfite e com ilustrações coloridas.
De olho no mercado educacional, estrategicamente, em março do ano seguinte Lobato prepara uma edição escolar, acrescentando 2 novas histórias em um formato de mais ou menos o tamanho de um palmo, imprimindo 500 mil exemplares.

Sabendo que o governador do Estado à época, visitaria determinadas escolas da capital, Lobato preparou uma jogada de marketing ousada, distribuindo cerca de 50 mil exemplares dessa versão que ele preparou de “A menina do narizinho arrebitado”, nas escolas que seriam visitadas por ele.

Durante a visita, o governador vê as crianças encantadas com o livro e decide encomendar 450 mil exemplares junto ao escritor. A versão especial de “A menina do narizinho arrebitado” foi então distribuída nas escolas estaduais, surgindo, a partir daí, títulos didáticos como Aritmética da Emília, Emília no país da Gramática e Histórias do mundo para crianças, entre outros.
Na literatura de Lobato há uma forte abertura para o currículo escolar e múltiplas possibilidades pedagógicas para o educador.

Sem dúvida, o pai da literatura infantil influenciou positivamente milhares de pessoas de diferentes gerações, e vai seguir influenciando enquanto seus fãs seguirem espalhando a magia de sua obra por todos os cantos.
Todos que enxergam na educação o caminho para a boa formação das futuras gerações, precisam conhecer e entender o conteúdo pedagógico inserido na obra de Monteiro Lobato.

O incentivo a leitura, o estímulo a criatividade e o livre pensar, ainda é a melhor forma de se educar.

Há 45 anos, o Sítio chegava à TV Globo

Era para ser uma novelinha infantil, com entretenimento, retratasse a cultura brasileira e apresentasse material didático para as nossas crianças, porém a primeira versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo na TV Globo, conquistou os corações de milhões de brasileiros e se tornou um marco na história dos programas infantis na televisão brasileira.
Tudo começou exatamente às 17h25 de uma terça-feira do dia 7 de março de 1977. Naquele momento, milhões de brasileirinhos se debruçaram em frente à telinha para a estreia do Sítio na maior emissora do país.
Resultado de uma parceria entre a Globo, a TV Educativa e o Ministério da Cultura, o programa, uma adaptação da obra de Monteiro Lobato, pai da literatura infanto-juvenil, foi o primeiro com investimento massivo em uma produção do gênero na história da televisão brasileira.

Com direção geral de Geraldo Casé, o programa era exibido de segunda a sexta-feira, com capítulos que duravam cerca de 30 minutos, o Sítio do Pica-Pau Amarelo ficou no ar durante nove anos, superando as expectativas de seus idealizadores e da própria emissora que via nascer ali um dos seus maiores sucessos de audiência.
Baseado em um contexto rural, a primeira versão do Sítio na Globo manteve a originalidade da obra de Lobato. A trama foi ambientada num sítio, onde constantes aventuras eram vividas pelos personagens criados pelo autor, em meio à realidade e à fantasia.

Inesquecível, a música de abertura do infantil, composta e interpretada por Gilberto Gil introduzia os espectadores em um universo paralelo, mágico, místico, onde boneca de pano ganha vida e sabugo de milho vira gente. Este é o Sítio do Pica-Pau Amarelo, um lugar em estado de euforia, com saci, piratas, sereia e rios de prata, que há anos leva leitores e telespectadores a uma viagem deliciosa pelo imaginário de um dos nossos maiores autores.

Além dos personagens centrais, já conhecidos do público, como a contadora de histórias e proprietária do sítio, Dona Benta, sua neta Lúcia (apelidada de Narizinho), a amiga eximia quituteira Nastácia, o neto Pedrinho (primo de Narizinho, morador da ‘cidade grande’ que passava as férias escolares no sítio), o intelectual e cientista Visconde de Sabugosa – feito pelo próprio Pedrinho com um sabugo de milho – e a boneca falante Emília, confeccionada por Tia Nastacia para ser companheira de Narizinho, essa nova versão do Sítio destacou ainda outros personagens como Tio Barnabé, Zé Carneiro, Garnizé, João Perfeito, Seu Elias, a “jacarezona” e feiticeira Cuca e, é claro, o buliçoso Saci Pererê.

Com a direção geral de Geraldo Case, considerado o “pai “ do programa, tivemos tambem ao longo dos anos Fábio Sabag, Roberto Vignatti, Paulo Gracindo Jr. E Hamilton Vaz Pereira. Supervisor geral foi sempre Edvaldo Pacote. Ao longo do programa, o núcleo de redatores foi composto por grandes nomes da dramaturgia nacional como Wilson Rocha, Paulo, Afonso Grisolli, Benedito Rui Barbosa, Sylvan Paezzo e Marcos Rey.

No elenco principal, quatro personagens foram vividos por um único artista: Zilka Sallaberry personificou como ninguém a eterna Dona Benta, Jacyra Sampaio como a maravilhosa Tia Nastácia, André Valli encarnou o genial Visconde de Sabugosa e o ator Romeu Evaristo nos deu uma icônica do nosso Saci Pererê.

Ainda fizeram parte do elenco principal as atrizes Rosana Garcia, Daniele Rodrigues, Izabel Bicalho e Gabriela Senra, que nesta ordem interpretaram Narizinho; os atores Júlio César, Marcelo Patelli e Daniel Lobo, também nesta ordem, viveram Pedrinho; as atrizes Dirce Migliaccio (1933-2009), Reny de Oliveira e Suzana Abranches que fizeram nessa sequência o papel de Emília; e as atrizes Dorinha Duval, Stela Freitas e Catarina Abdala, que nessa ordem deram vida à bruxa Cuca.

A primeira adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo chegou ao fim em 1986, quando foi ao ar o 20º e último capítulo do episódio “A Trilha das Araras”, no dia 31 de janeiro de 1986.
Até hoje, as histórias e atores que deram vida a essa versão do Sítio, são lembradas com muito carinho e nostalgia.

As canções que embalaram uma geração

Durante a década e que a sua primeira adaptação para a TV Globo foi exibida, o Sítio do Pica-Pau Amarelo viveu a sua melhor época.

Não apenas pelo elenco de primeiríssima qualidade, nem só pelas histórias que desde 1920 já encantavam milhões de leitores, mas como ignorar a trilha sonora reunida pelo arranjador, cantor e compositor Dori Caymmi, que convidou alguns dos mais inspirados músicos da época, para criar o cenário sonoro de um lugar tão mágico e bucólico?

Dori revelou certa vez, que o projeto do Sítio do Pica-Pau Amarelo surgiu na sua vida em um momento delicado, quando ele se recuperava de uma cirurgia no tendão de Aquiles e pelo tempo parado, atravessava sérias dificuldades financeiras.

Foi nessa época que um amigo dos seus pais, chamado Edvaldo Pacote, soube da sua situação e falou com o Boni, na época o principal mandatário da Globo, que sensibilizado, assinou a carteira do artista, que então pôde ter uma recuperação adequada, se se preocupar com as contas no fim do mês.

Daí surgiu a oportunidade de fazer a trilha sonora do Sítio do Picapau Amarelo. Dori contou que se sentiu muito agradecido e que deu o seu melhor. Ele pediu ao Gilberto Gil para que ele fizesse uma abertura e daí, ele começou a chamar o Sérgio Ricardo e todos os outros artistas que ajudaram a fazer essa história musical que todos hoje conhecemos.

Enfim, em1977, chegava às lojas de disco de todo o país, pela gravadora Som Livre, do mesmo grupo da Rede Globo, o disco que apresentou ao Brasil a música composta por Gilberto Gil, que marcaria definitivamente o Sítio do Pica-Pau Amarelo nas nossas memórias:

"Marmelada de banana/ Bananada de goiaba/ Goiabada de marmelo/ Sítio do Picapau Amarelo…".

Conduzida por uma flauta, a abertura da série já alvoraçava toda a criançada que corria para a frente da televisão.

A letra, engenhosa, anárquica como só as crianças, brincava numa melodia onde Gil fazia a festa e ele próprio contou que preferiu fazer uma canção que falasse de todos os personagens e do sítio todo, que ocupasse aquele espaço inteiro e nela coubesse Taubaté toda, a cidade de Monteiro Lobato.

Para o crítico Pedro Alexandre Sanches, o tema composto para o Sítio do Pica-Pau Amarelo, ficou tão tatuado na obra de Gil, que ele mesmo viria a regravá-la em seu best-seller para a MTV, muitos anos depois.

Além do tema de abertura composto por Gilberto Gil, a trilha sonora do Sítio de 1977, reuniu grandes nomes da MPB, como Ivan Lins e Vitor Martins, autores da canção "Narizinho", interpretada por Lucinha Lins; e "Dona Benta", cantada por José Luís, esse desconhecido do grande público.

João Bosco e Aldir Blanc, fizeram a quatro mãos o irresistível samba “Visconde de Sabugosa”, além de Jards Macalé, Marlui Miranda e Xico Chaves, autores da canção “Tio Barnabé”, um batuque de terreiro que abre como canção de ninar e é considerado um outro ponto alto do álbum.

Dori Caymmi também compôs duas músicas ao lado de Paulo César Pinheiro. "Ploquet Pluft Nhoque (Jaboticaba)", interpretada pelo coral Papo de Anjo, além do tema do personagem "Pedrinho". "Arraial dos Tucanos", em parceria com Geraldo Azevedo e Carlos Fernando, cantada por Ronaldo Malta.

Até o produtor da Som Livre Guto Graça Mello, entrou com uma caprichada "Saci", o rei dos reis do folclore nacional. Gilberto Gil que, mais ou menos, na época da gravação da trilha, estava em turnê com os Doces Bárbaros, trajando nos palcos um figurino estilizado do encantado neguinho dos nossos contos populares, só viria compor uma para o Pererê pouco tempo mais tarde, para o disco da Banda Black Rio, em 1980.

A canção "Peixe", de Caetano Veloso, entrou na trilha como "tapa-buraco" e acabou funcionando muito bem. 

Completando as treze faixas do primeiro disco do Sítio do Picapau Amarelo, aparecem o patriarca Dorival Caymmi, honrando "Tia Nastácia" como ninguém e o quarteto vocal MPB-4, em gravação de "Passaredo", de autoria de Chico Buarque e Francis Hime, que também como "Peixe", não foi composta sob encomenda para o seriado, mas se harmonizou com o todo.

Na Globo, Sítio ganhou adaptações respeitando a obra de Lobato

Na primeira versão do Sítio do Pica-pau Amarelo para a TV Globo, os autores tiveram toda uma preocupação em respeitar a obra de Monteiro Lobato, procurando aproximar o programa da realidade e da linguagem da época, sem esquecer as diferenças entre o Brasil de 1977 e o da década de 1930.

Era preciso manter o aspecto rural, sem esquecer a grande parcela da população infantil das cidades grandes, para quem a informação sobre o meio urbano também era importante, e assim o personagem Pedrinho, por exemplo, se tornou a ligação do sítio com a cidade.

Numa clara demonstração de preocupação com a atualidade dos episódios, o diretor Geraldo Casé, contou anos mais tarde, para os registros da memória TV Globo, que colocou um aparelho de televisão na sala da Dona Benta, embora nem sempre estivesse ligado. Mesmo com as intervenções, o programa procurou ser atemporal. Houve ainda a preocupação de não urbanizar demais a parte rural, para que não se perdesse o contraste de uma criança que sai do centro urbano e vai para um sítio.

Em entrevistas na época da estreia do programa, Wilson Rocha, um dos redatores, falou sobre a tentativa de recuperar palavras e expressões favoritas de Monteiro Lobato. Para isso, a produção do programa contou com o apoio de uma equipe especializada em linguística, ciência, educação, psicologia, pesquisa e sociologia, e a seleção do conteúdo de cada capítulo era feita pelos autores e pelo grupo de apoio pedagógico.

Live imperdível para professores! A importância da obra de Lobato na escola

Os doutores em Educação Vanessa Camasmie e Ilan Brenman; e a professora e especialista em Lobato, Renata Codagan, foram os convidados de @cleomonteirolobato para um bate papo  mediado pela doutora em Educação, @soniamariatravassos, durante a celebração pelos “100 anos de Narizinho”, em dezembro do ano passado.

Em pauta, o processo percorrido pelos educadores para levarem a obra lobatiana ao universo escolar e um olhar sobre a relação entre Literatura e escola, além de debaterem experiências e os ataques a Lobato, considerado um “prisioneiro de seu tempo”.

A participação do público foi mais uma vez enriquecedora, ao trazer para o bate papo, questionamentos sobre o suposto racismo, dirigidas em especial, à professora Renata Codagan, que é negra.

Você pode rever esse conteúdo agora no canal do YouTube do Lobato com Você, ou ler o resumo desse encontro no nosso Blog.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=_WKmPyQDEfs&list=PLTSOlBY3k3FWHVFdscwCQPT2B-c0jm6qK&index=4 

Leia: https://lobato.com.vc/2020/12/reinacoes-de-narizinho-na-escola-como-desenvolver-projetos-literarios-com-este-classico/

A TV Bandeirantes abre as portas para o Sítio do Pica-Pau Amarelo

Em 1967 o casal Júlio Gouveia e Tatiana Belinky volta a cena para comandar uma nova produção do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a televisão, agora na TV Bandeirantes, com o patrocínio do Bolo Pullman.

A estreia aconteceu no dia 12 de dezembro de 1967, às 17 horas, com o tema de abertura, assim como na Tupi, composto por Salathiel Coelho; “Polca da Primavera”.

Com um investimento maior, o novo cenário muito próximo a um sítio de verdade que contava com outros elaborados para cada viagem feita pela turma, o casal também levou para essa nova adaptação, atores que já haviam participado da versão exibida pela TV Tupi, com exceção de alguns personagens que tiveram seus atores trocados ao longo da série.

Na primeira fase do Sítio na TV Bandeirantes faziam parte do elenco principal: Lúcia Lambertini (Emília), Edi Cerri (Narizinho), Isaura Bruno (Tia Nastácia), Leonor Lambertini (Dona Benta), Mauro Tach (Pedrinho) e Roberto Orozco (Visconde De Sabugosa).

Mesmo com uma estrutura melhor, Júlio Gouveia se mostrava insatisfeito com o programa, porque não gostava do videoteipe que eliminava a sensação de se atuar em um teatro com uma plateia, como ele sempre fez. As paradas para cortes, ajustes de cenas, cenário ou atores, além da necessidade de filmar vários takes de cada cena, também faziam com que cada episódio de 30 minutos, levasse de 7 a 8 horas para ser filmado, o que desgastava bastante atores e toda equipe técnica.

Haviam ainda, de acordo com relatos, problemas administrativos. Na Tupi, Júlio tinha total liberdade para criar seus programas e na Bandeirantes ele precisava se adaptar ao estilo da emissora.

Para completar, Júlio Gouveia detestava a interrupção dos episódios para os intervalos comerciais, algo que também não acontecia na Tupi, quando o programa era ao vivo.

Por volta da metade de 1968, o descontentamento também atingiu o elenco que acabou sendo praticamente todo trocado, entrando nessa segunda fase: Silvinha Lane (Narizinho); Zodja Pereira (Emília); Ewerton de Castro (Visconde Sabugosa); Roberto Campos (Pedrinho) e Célia Rodrigues (Dona Benta).

Em 1969 a sede da emissora sofreu um incêndio devastador, que destruiu praticamente todas as suas instalações e grande parte de seu acervo. Como refazer todo o cenário exigiria um grande investimento, o Sítio do Pica-Pau Amarelo acabou sendo exibido pela última vez, no dia 14 de março daquele ano.

É importante a gente esclarecer, que todas as informações que trazemos aqui, são fruto de um árduo trabalho de pesquisa, que contou com a inestimável colaboração do amigo e diretor do SBT, Jefferson Cândido – @ omundomagicodelobato.
Conseguimos assim, identificar os principais atores que deram vida aos personagens de maior destaque da obra de Lobato, nas primeiras versões do Sítio para a TV.

Caso você tenha outras informações, entre em contato com a gente.
A contribuição de todos que amam o Sítio do Pica-Pau Amarelo, é muito importante para esse resgate e para que a verdadeira história não se perca com o tempo.

Análise sobre ilustrações, reforçaram a certeza de que Lobato estava à frente de seu tempo

O designer @magno_silveira, o designer gráfico e estudioso de Lobato responsável por uma das exposições do centenário de Narizinho, comemorado em dezembro de 2020, foi o convidado de uma mesa redonda mediada pela curadora @marisalmonson, ao lado da organizadora do evento, @cleomonteirolobato. 

Magno reuniu em uma linha do tempo ilustrações de capas mostrando a evolução do livro “A Menina Do Narizinho Arrebitado”, até se tornar “Reinações de Narizinho”, 11 anos depois.

Nessa conversa, os participantes abordaram ainda a evolução através dos tempos, das personagens Dona Benta e Tia Nastácia, por seus ilustradores, além de ressaltar algo que a maioria das pessoas desconhece: dois dos ilustradores que ilustraram as obras de Lobato eram negros! 

O vídeo desse bate papo está disponível no canal do YouTube do Lobato com Você. Confira também o resumo dessa mesa redonda no nosso Blog.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=tZVZcL85TLo&list=PLTSOlBY3k3FWHVFdscwCQPT2B-c0jm6qK&index=2 

Leia em: https://lobato.com.vc/2020/12/dona-benta-tia-nastacia-e-seus-ilustradores/

Conheça os principais atores que deram vida ao Visconde Sabugosa na TV

Depois de um árduo trabalho de pesquisa, que contou com a inestimável colaboração do amigo e diretor do SBT, Jefferson Cândido, conseguimos identificar os principais atores que deram vida ao nosso Visconde nas primeiras versões do Sítio para a TV.
Caso você tenha outras informações, entre em contato com a gente.
A colaboração de todos que amam o Sítio do Pica-Pau Amarelo, é muito importante para esse resgate e para que a verdadeira história não se perca com o tempo.

Rubens Molino 
Ainda adolescente já trabalhava com teatro amador, chegando a fazer peças no tradicional Clube Pinheiros da capital paulista.
Nesse período conheceu o produtor e diretor Júlio Gouveia, e passou a trabalhar com ele. Em 1952, no início da TV Tupi de São Paulo, foi convidado para ser o primeiro Visconde de Sabugosa da Televisão Brasileira, personagem que interpretou até 1953 na primeira adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a TV.
Depois dessa experiência, se afastou da carreira artística e faleceu em 2018 aos 86 anos.

Luciano Maurício
Deu vida ao personagem entre os anos de 1953 e 1954.
Infelizmente não encontramos a biografia do ator nas principais fonte da internet, mas se você tiver informações, entre em contato conosco.

Hernê Lebon
Foi um dos pioneiros da televisão e na adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a TV Tupi também viveu o Visconde de Sabugosa, que lhe rendeu enorme fama.
No teatro, Hernê fez, entre outras, as peças: “Marido Magro, Mulher Chata”, “O Sistema Fabrizi”. No cinema, trabalhou em “O Grande Momento”, de 1958. Na TV Cultura de São Paulo, esteve na novela “Escrava do Silêncio” e nos programas “Contando e Imaginando” e “Quando Menos se Espera”. Na Tupi esteve em “O Jardim Encantado” e “Os Dez Mandamentos”.
Viveu o Visconde Sabugosa na primeira adaptação para a TV Tupi de São Paulo de1954 a 1963. Depois voltou a interpretar o personagem na versão do Sítio para a antiga TV Cultura em 1964.
Morreu em São Paulo, em 1981.

Georges Ohnet
Considerado um dos ícones do teatro e da TV entre as décadas de 50 e 60, ganhou fama por sua interpretação do Visconde de Sabugosa na primeira versão do Sítio da TV Tupi de São Paulo, quando substituiu Hernê Lebon, que havia adoecido. O curioso é que essa troca de atores só foi percebida pelos espectadores depois de um ano, tal a semelhança entre os atores e a maquiagem muito bem feita.
Sua carreira artística durou de 1954 a 1970, quando teve que se afastar da vida artística por problemas de saúde, e nesse período atuou em diversos papeis no teatro, no cinema e na tv.
Ator, autor e diretor, passou os últimos anos de sua vida vivendo em Cotia/SP, onde trabalhava como terapeuta holístico.
Morreu em 2015, vítima de um infarto, após uma cirurgia para tratar de um tumor na cabeça.

Elísio Albuquerque
Viveu o Visconde de Sabugosa na versão carioca do Sítio do Pica-pau Amarelo, em 1957, pela TV Tupi do Rio de Janeiro.
Fez parte do TBC – Teatro Brasileiro de Comédia e do Teatro dos Doze, atuou em diversas peças do “Grande Teatro Tupi“, participou de vários especiais teledramatúrgicos da Tupi de São Paulo, atuando no “TV de Vanguarda” e no “TV de Comédia“. Atuou também 
Em várias novelas e no cinema até 1972. O ator faleceu em 23 de novembro de 1983, na capital paulista, vítima do Mal de Parkinson, aos 63 anos de idade.

Daniel Filho
Substituiu o ator Elísio Albuquerque na adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a TV Tupi do Rio de Janeiro em 1957 e ficou no papel até 1958.
De família circense, Daniel foi criado desde cedo do meio artístico e cresceu ao lado de grandes nomes. Depois da experiência no Sítio, chamou a atenção como ator em dois filmes que foram sucesso na década de 60: Os Cafajestes (1962) e Boca de Ouro (1963).
É um dos fundadores da Globo Filmes, importante produtora do cinema brasileiro. Ao longo de sua carreira dirigiu e escreveu roteiros em filmes como “A Partilha”, “A Dona da História” e “Se eu Fosse Você” (2006).
Aos 82 anos de idade, o ator e diretor Daniel Filho mora no Rio de Janeiro.

Roberto Orozco
Começou a trabalhar como ator no Teatro, em 1962, na peça “Quatro Num Quarto“. Dois anos depois já estava na TV Tupi fazendo o “Sítio do Pica- Pau Amarelo“, onde viveu o primeiro o Leão Medroso e depois o Relógio.
Viveu o Visconde de Sabugosa na versão do Sítio na TV Bandeirantes, em 1968
Passou pela TV Cultura, nos seus primeiros anos, quando a emissora ainda pertencia aos Diários Associados, onde participou de novelas de grande sucesso, depois pela TV Tupi e Bandeirantes, até chegar à TV Globo em 1972, onde interpretou o papel do boneco Gugu, em “Vila Sésamo” um grande sucesso nacional.
Também passou pela extinta TV Manchete e  além da televisão, fez diversos trabalhos no teatro e no cinema.
Morreu em São Paulo, no ano de 1989, aos 43 anos, vítima de linfoma.

Ewerton de Castro
Viveu o Visconde na adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a TV Bandeirantes, em 1967, na segunda turma de atores do programa na emissora.
No cinema, participou de mais de 25 filmes, dirigiu e atuou em diversos espetáculos teatrais e telenovelas. Recebeu o prêmio de melhor ator coadjuvante, pelo papel de Mário, no filme “Anjo Liro”, no Festival de Santos de 1973. 
Ewerton deixou a TV em 2010, e em 2014, aceitou estrelar a peça “O Amor Move o Sol e Outras Estrelas” na cidade de Cordeirópolis, no interior de São Paulo, onde mora, como forma de incentivar o teatro local.

UMA VIAGEM NO TEMPO COM A CENTENÁRIA EMÍLIA!

Assim como Narizinho, Emília também completou 100 anos em 2020 e para comemorar a data, nós tivemos uma mesa redonda muito bacana com @cleomonteirolobato recebendo a editora e roteirista de quadrinhos e organizadora do livro Emilia 100, @carolpimentel42 e a ilustradora Beatriz Farmia.

O bate-papo mediado pela curadora do evento @marisalmonson, tratou sobre a recriação de Emília por 10 artistas mulheres em um livro de 10 histórias em quadrinhos lançado por Pimentel, através da editora Skript e que pode ser comprado neste link: https://www.kerendo.com/livros/emilia-100-anos-9786580276202

A mesa-redonda “Emília 100, uma coletânea de contos ilustrados por mulheres reais” está disponível no canal do YouTube do Lobato com Você. Confira também o resumo dessa mesa redonda no nosso Blog.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=4HQz52Ee-1Y 

Leia: https://lobato.com.vc/2020/12/emilia-100-uma-coletanea-de-contos-ilustrados-por-mulheres-reais/

Da Tupi à Bandeirantes, conheça os principais Pedrinhos das primeiras versões do Sítio para a TV

Depois de um árduo trabalho de pesquisa, que contou com a inestimável colaboração
do amigo e diretor do SBT, Jefferson Cândido, conseguimos identificar os principais atores
que deram vida ao nosso Pedrinho nas primeiras versões do Sítio para a TV.
Este artigo foi atualizado agora em 2023, com novas informações fornecidas pelo
colecionador, pesquisador e administrador da página Memórias do Picapau Amarelo, Luís
Henrique.
Caso você seja um apaixonado pelo Sítio do Pica-Pau Amarelo e também tenha
alguma informação adicional, pode entrar em contato conosco. Toda contribuição informativa
é muito importante para esse resgate e para que a verdadeira história de uma das principais
obras infantis da televisão brasileira não se perca com o tempo.

Sérgio Rosemberg

Aos dez anos de idade, Sérgio Rosemberg já trabalhava no Teatro do Comerciário,
embrião do atual Teatro do SESC Anchieta, na capital paulista. Ele viveu o personagem
Pedrinho na primeira adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a TV, na extinta Tupi de
São Paulo, entre os anos de 1952 a 1953. Sérgio era filho de amigos do casal Júlio Gouveia
e Tatiana Belinky, e antes, já tinha vivido um dos irmãos de Wendy na peça Peter Pan, a
primeira realizada pelo TESP – Teatro Escola de São Paulo.
Sérgio Rosemberg era também um grande admirador da obra dramatúrgica de
Martins Pena, viveu na ribalta o personagem Carlos da peça O Noviço, escrita pelo
teatrólogo carioca, no Século XIX. Ele abandonou a carreira de ator para se tornar médico
pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC, em 1965.
Apesar de em 1954 ele já ter saído do Sítio do Picapau Amarelo, é dele a voz no LP
lançado no mesmo ano, interpretando o Pedrinho, pois o ator que interpretava o
personagem estava mudando de voz.

Júlio Simões

O Segundo a viver Pedrinho na adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo na TV, foi
Júlio Simões, em 1953. Ele era primo de Lúcia Lambertini, a atriz que interpretava a boneca
Emília.
Deixou a televisão e o teatro, que tanto amou, para fazer faculdade de direito. Em
seguida, trabalhou por 40 anos no Cartório de Registro Civil e Tabelionato do Ibirapuera, em
São Paulo, onde chegou à titular.
Apesar do sucesso profissional, longe da vida artística, Julinho Simões nunca
esqueceu as grandes emoções que viveu ao lado dos colegas da TV Tupi.
Hoje, Júlio mora na cidade de Catalão, no interior de Goiás, com sua esposa atual e o
filho Bruno Cesar.

Silvio Lefèvre

Desde menino, Silvio Lefèvre gostava de arte. Foi bastante influenciado por seu avô
materno Benjamin Fineberg, pioneiro de cinema no Brasil, que na época era representante
da empresa americana Metro Goldwin Mayer.
O garoto Silvio era fascinado por cinema e arte, e o pai, o médico neurologista que
atendia Lobato desde o seu primeiro AVC, Antônio Branco Lefèvre era amigo do também
medico psicólogo Júlio Gouveia e de sua esposa Tatiana Belinky, que dirigiam o TESP –
Teatro Escola São Paulo.
Um dia Tatiana, vendo o menino Silvio, com cerca de dez anos, disse: “Esse é o
Pedrinho que eu quero”, e o pai de Silvio não pode dizer não. Assim, após breve teste, ele
assumiu o papel de Pedrinho na TV em 1953 até 1954.
Porém, temendo que a atuação artística prejudicasse os estudos do garoto, os pais
de Sílvio acharam melhor que ele deixasse o programa. Ele conta hoje que ficou muito triste
na época, mas obedeceu. Silvio continuou seus estudos, pensou em ser médico como o pai,
prestou vestibular, entrou na faculdade, mas se interessou por política e foi preso, em 1964,
pela Revolução dos Militares, se refugiando posteriormente em Paris, na França.
Embora tenha deixado o cinema e a TV, Silvio Lefèvre não esconde que sente
saudade e emoção ao lembrar dos amigos do TESP e da pioneira TV Tupi. Hoje morando na
capital paulista, ele é sociólogo formado pela Université de Paris, casado, avô orgulhoso,
editor e livreiro.

David José

David tinha acabado de se mudar para o bairro de Santo Amaro, em São Paulo, onde seus pais foram morar como caseiro em uma Chácara, quando se deparou com vários artistas da TV Tupi, que ali estavam gravando uma externa de novela e ficou encantado. Ele convidou os atores Lia de Aguiar, Dionízio de Azevedo, Heitor de Andrade e Flora Geny para tomar café em sua casa e poucos meses depois, acompanhado de sua mãe, foi apresentado ao casal Tatiana Belinky e Júlio Gouveia, e deles recebeu o convite para atuar em um pequeno papel no seriado As aventuras de Tom Sawer.
Não demorou muito para que ele fosse escolhido para fazer o Pedrinho na adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo, substituindo Silvio Lefèvre e interpretando esse papel até 1958. Além do Sítio do Pica-Pau Amarelo, fez também o seriado infanto-juvenil Ciranda, Cirandinha, escrito por Vida Alves.
Já adulto, passou a integrar o elenco do Teatro de Arena de São Paulo. Trabalhou em vários filmes, sendo o primeiro deles O Sobrado, com adaptação e direção de Walter George Durst e Cassiano Gabus Mendes.
Morando em São Paulo, casado e com filhos, David escreveu o livro O Espetáculo da Cultura Paulista, onde investiga as raízes da criação artística e da produção cultural na capital do estado, tendo como ponto de partida a inauguração do Teatro Brasileiro de Comédia, em 1948, e a inauguração da PRF3 TV Tupi Difusora, a primeira emissora brasileira de televisão, em 1950.
David conta que ainda hoje se emociona quando alguém na rua o reconhece e o chama de Pedrinho, embora já tenham se passado 40 anos.

André Gouveia

Ele substituiu David José na Tupi de São Paulo, em 1958 e ficou no papel até 1960.
Infelizmente não encontramos qualquer informação sobre André Gouveia na internet.

Nagib Anderáos

Um dos primeiros telespectadores dos programas de Júlio Gouveia e Tatiana Belinky, na TV Tupi de São Paulo, como ele próprio se considera, Nagib fez vários pequenos papeis no teatro e na TV, até substituir André Gouveia (que interpretou o personagem em alguns poucos episódios, em substituição ao David José), no papel de Pedrinho, entre 1958 e 1961. Nagib atuou ainda na segunda versão de Tom Sawyer, também de Júlio Gouveia e Tatiana Belinky, participou do TV de Vanguarda e do TV de Comédia, de Geraldo Vietri. Passou ainda pela TV Excelsior, até largar a vida artística para se tornar engenheiro.

André José Adler

O ator, roteirista, diretor, locutor e comentarista de origem húngara, viveu o personagem Pedrinho na versão carioca do Sítio do Pica-Pau Amarelo, que estreou na TV do Tupi do Rio de Janeiro, em setembro de 1957. Ele ficou no papel por menos de seis e meses porque como estava crescendo muito rápido, precisou ser substituído por um ator bem mais jovem. No ano seguinte, atuou em seu primeiro filme, Pega Ladrão, do diretor italiano Alberto Pieralisi. Posteriormente participou de diversas produções importantes para o cinema e televisão.
Na televisão ele foi para a área esportiva, onde ficou conhecido pelas jornadas na Espn International na década de 1990 e 2000, onde comandava as transmissões do futebol americano direto dos Estados Unidos.

Além de locutor esportivo, André José Adler também foi compositor, diretor de teatro, cinema e televisão, até falecer em 2012, aos 68 anos de idade.

Paulo Benchimol

Substituiu André José Adler na adaptação do Sítio para a TV Tupi do Rio de Janeiro, em 1958 e ficou no papel até o fim do programa na emissora carioca. Infelizmente não encontramos qualquer informação sobre Paulo Benchimol na internet.

Haylton Faria

Quando foi anunciada a nova produção do Sítio na TV Cultura, em 1964, os produtores decidiram fazer um concurso a fim de escolher um ator para o papel do personagem Pedrinho. Apesar do anuncio do concurso ter sido feito do dia para a noite, uma grande fila de mães com seus filhos se formou na sede da emissora para o teste, mas nenhum dos meninos parecia atender as expectativas da atriz Lúcia Lambertini, que na época havia assumido a direção do programa. Até que Lúcia foi então abordada por Haylton Farias, na época com 14 anos de idade, e a espontaneidade do menino surpreendeu a diretora. Resultado: ele foi escolhido para o papel.

Foi assim que ainda muito cedo, Haylton Faria se destacou como astro infantil e formou um currículo artístico respeitável. Ao longo de sua vida artística ele fez teatro, cinema e televisão onde atuou em diversas novelas de sucesso, como Explode Coração, Torre de Babel, Laços de Família e O Clone, entre outras.
Ator, diretor, escritor e produtor, além de psicólogo, Hayton Faria segue na ativa.

Mauro Tach

Ele foi o primeiro ator a viver o personagem Pedrinho na TV Bandeirantes, em 1967, mas infelizmente, assim como aconteceu com outros atores nessa fase, os registros históricos se perderam no grande incêndio que atingiu a emissora em 1969. Também não encontramos nenhuma informação sobre a sua bibliografia.

Roberto Campos

Uma história inusitada marcou a escolha de Roberto Campos para viver o papel de Pedrinho na versão do Sítio na TV Bandeirantes, em 1967. Em março daquele ano, ele foi até a sede da emissora em São Paulo, em busca de um estágio em eletrônica, mas enquanto aguardava para ser atendido, ele foi guiado para uma outra sala, onde foi confundido com as crianças que estavam ali para participar de um teste para o papel de Pedrinho.
O curioso é que entre os participantes, Roberto e mais uma criança (Otavinho) foram selecionados para o teste final. De acordo com o próprio Roberto Campos, os dois não conseguiram desenvolver seus textos na frente do Julio Gouveia, Zodja Pereira e Ewerton de Castro, que eram os avaliadores do teste. Sem que soubessem, Júlio e Ewerton combinaram de deixar as crianças mais à vontade com Zodja e ela então organizou uma improvisação entre eles. Quando Júlio e Ewerton retornaram à sala, uma leve piscadela de Zodja em direção a Roberto Campo, indicou que ele havia sido o escolhido. Por fim, Otavinho também acabou ganhando um papel na adaptação: o do personagem Rabicó. Depois do Sítio, por seu biotipo magro e o rosto jovem, fez várias peças infantis até se apaixonar por sua primeira esposa, Isilda. Vendo que não teria recursos para se casar e ter sua própria família ao lado de sua amada, ele decidiu deixar a vida artística.

Hoje, além de empresário do ramo de informática, Roberto Campos é também terapeuta.

 

REFERÊNCIAS:

Jefferson Candido (@jeffersoncandido82)

Luís Henrique, colecionador, pesquisador e administrador da página Memórias do Picapau Amarelo (@MemoriasdoPicapauAmarelo)
https://alemdatorrez.wordpress.com/2021/04/05/sitio-do-picapau-amarelo/
https://infantv.com.br/infantv/?p=18316
http://espaconarizinho.blogspot.com/p/narizinho-aristeia-o-sitio-do-picapau.html
http://espaconarizinho.blogspot.com/2010/02/as-narizinhos-da-televisao.html
https://www.youtube.com/watch?v=xSYCYQku9gs
https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27156/tde-20052009-165223/publico/
1024815.pdf

https://cartaodevisita.com.br/conteudo/1161/era-uma-vez-na-tv-papai-noel-e-o-sitio-do-picapau-faziam-a-alegria-das-criancas

https://www.filmesnocinema.com.br/artistas/suzy-arrudahttp://www.elencobrasileiro.com/2010/03/leonor-lambertini.html

Primeira boneca Emília foi sucesso de vendas em 1954

Com o grande sucesso da primeira adaptação do Sítio na TV Tupi de São Paulo, a Mesbla, maior rede de lojas de departamentos do Brasil na época, lançou em 1954, a primeira boneca Emília, inspirada na atriz Lúcia Lambertini que foi a primeira a interpretar a boneca de pano na televisão.

Era uma boneca com cerca de 45 cm de altura, cabeça, braços e pernas de feltro e corpo todo de tecido, vendida exclusivamente nas lojas Mesbla de todo país.

Um dia antes de ser lançada oficialmente, a Mesbla anunciou que no dia seguinte a boneca estaria a venda.
Para se ter uma ideia do glamour daquele momento, no dia do lançamento, a boneca desembarcou no aeroporto de Congonhas, em São Paulo em um avião da companhia aérea VASP, acompanhada de uma aeromoça para definitivamente encantar todos os fãs.

Todo marketing feito pela empresa para o lançamento da boneca, provocou uma grande correria para a frente das lojas Mesbla espalhadas pelo país e longas filas se formaram logo cedo, de famílias para comprar a boneca.

Diante de todo esse alvoroço, o estoque não foi suficiente e as bonecas se esgotaram em pouco tempo, em todas as lojas da rede no Brasil, no primeiro dia de vendas!

Com a exposição na televisão, toda criança queria uma boneca Emília para chamar de sua, transformando assim, a primeira boneca Emília em um grande sucesso comercial.

Reflexões sobre as obras ‘A Menina do Narizinho Arrebitado’ e ‘Reinações de Narizinho’

Interressantissima esse bate papo mediado pela doutora em Educação @soniamariatravassos, com @cleomonteirolobato e os escritores e especialistas na obra lobatiana, @marisalajolo, @cilzabignotto e @alexandredecastrogomes.

Castro Gomes iniciou a discussão fazendo um panorama sobre a literatura infanto-juvenil no Brasil, apontando a relevância e a inovação que Lobato trouxe à área ao trazer ilustrações e conquistar as crianças. “O Lobato não inventou a literatura infantil brasileira, mas ele fez as crianças gostarem”, afirmou o escritor.
Temas importantes foram analisados nesse encontro, como a importância de Lobato para a literatura infanto-juvenil no Brasil, que provocaram a interação dos espectadores, em torno de algumas questões curiosas, como por exemplo: qual conselho Lobato daria para os editores diante da atual crise no mercado editorial.
Vale a pena conferir esse bate papo, no canal do YouTube do Lobato com Você. No nosso blog também tem um resumo dessa mesa redonda.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=nUJcGECPh2o&t=66s

Leia: https://narizinho100anos.com/2020/12/a-importancia-socioeconomica-politica-e-cultural-de-a-menina-do-narizinho-arrebitado-e-reinacoes-de-narizinho/

100 ANOS DE NARIZINHO; ROMPENDO AS FRONTEIRAS DO IDIOMA

As professoras de tradução e tradutoras @vansantanadezmann e @letigoellner; e o aluno do curso de tradução da Universidade Johannes Gutenberg (Alemanha) Silvano Loureiro Pinto, foram os convidados de @cleomonteirolobato, para uma das mesas de bate papo mais importantes do evento comemorativo ao centenário Narizinho, em dezembro de 2020.


Em pauta, as traduções e adaptações de "Reinações de Narizinho" para o Alemão, Espanhol e o Ingles.  As participantes falaram de detalhes complexos como o fato de que Lobato escrevia em “Caipirês” ou seja linguagem caipira, e as dificuldades de se adaptar esse estilo alem dos títulos e nomes de personagens para outras línguas 

Um tema pra lá de interessante que despertou a curiosidade dos espectadores, que quiseram saber, entre outras coisas, sobre como foi lidar com as palavras inventavas por Lobato, expressões e nomes de frutas tropicais, como a jaboticaba alem do humor especifico do autor.

Se você não viu ou quer rever esse bate papo, acesse o canal do YouTube do Lobato com Você. Para ler o resumo dessa mesa redonda acesse o nosso Blog..


Assista: https://www.youtube.com/watch?v=KZCbmfkjacs&t=128s

Leia…https://lobato.com.vc/2020/12/traduzindo-reinacoes-de-narizinho/

RETROSPECTIVA: O CENTENÁRIO DE NARIZINHO! VOCÊ PERDEU?

Há exatamente um ano, com um mega evento virtual, realizado entre os dias 4 e 6 de dezembro de 2020, celebramos os 100 anos de Narizinho!

Sucesso absoluto, com mais de 600 inscritos, essa grande celebração do centenário do livro A Menina do Narizinho Arrebitado, a primeira obra infantil de Monteiro Lobato, foi organizada pela bisneta do autor, Cleo Monteiro Lobato (@cleomonteirolobato), com uma curadoria de peso:

> Mari Salmonson (@marisalmonson), ilustradora, artista e muralista, que somou ao projeto sua experiência com eventos, trazendo, ainda, o estilo de sua arte e o olhar artístico; 

> Sônia Travassos (@soniamariatravassos), Mestre e Doutora em Educação, com mais de 14 livros publicados, especialista em Lobato desde a sua dissertação de mestrado, dinamizadora de leitura, e contadora de histórias; e tem também o canal de contacto de historias @casasdehistorias

> Mônica Martins (@monicatpmartins), jornalista e escritora, Monica iniciou sua paixão por Lobato em 1999 com a Cia das Mães em Niterói. Monica abriu sua própria editora em 2018 a MOMA editora.

A programação teve desde contação de histórias pela manhã e três mesas redondas por dia que envolveram a temática da obra de Monteiro Lobato durante três dias!

Foram tratados temas como a evolução dos personagens de Lobato, as traduções atuais que estão sendo feitas de sua obra pelo mundo, a relação de Lobato com a educação de hoje, a influência que Lobato teve nos maiores escritores da atualidade.

Além disso tivemos 4 exposições de arte, que falaremos num outro post pois foram incríveis!

VIVA A NOSSA CENTENÁRIA NARIZINHO!

Se você perdeu, para recordar o evento acesse o link:

“100 Anos de Narizinho” tem origem na conexão e na união das curadoras

https://lobato.com.vc/2020/11/conheca-a-curadora-sonia-travassos/
https://lobato.com.vc/2020/11/conheca-a-curadora-monica-martins/
https://lobato.com.vc/2020/11/conheca-a-curadora-mari-salmonson/

A pequena grande Lucia Lambertini, nossa primeira Emília!

Graciosa, alegre, baixinha e muito expansiva, a atriz Lucia Lambertini, aparentava menos idade do que tinha, encaixando se bem tipo físico ideal para boneca de pano Emília.
 
Quando a TV Tupi foi inaugurada, em 1950, a atriz Lúcia Lambertini já tinha amizade com o casal Tatiana Belinky e Júlio Gouveia, que começaram as tratativas para lançar os programas infantis na televisão, o que se concretizou em 1952.
 
Sempre expansiva e alegre, Lúcia tinha talento e o tipo físico que se encaixava como uma luva no papel de Emília, a boneca de pano da obra de Monteiro Lobato, na primeira adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a TV Tupi de São Paulo.
 
Entre 1955 e 1956, como o programa original era transmitido apenas em São Paulo, a TV Tupi produziu uma versão em sua sede no Rio de Janeiro com um elenco diferente.
 
Apenas Lúcia permaneceu no papel de Emília, viajando semanalmente para aparecer nas duas versões
 
Lúcia Lambertini intercalou seus trabalhos de atriz, aos de redatora de novelas e produtora de programas de TV. Se casou com o diretor e produtor Hélio Tozzi. Faleceu em agosto de 1976, aos 50 anos de idade.  
 
A atriz Dulce Margarida substituiu Lúcia Lambertini por duas vezes no Sítio, nas ocasiões em que a atriz precisou ficar afastada da série, quando se casou e quando ficou grávida. Ficou definitivamente na série que era exibida para São Paulo, quando Lúcia decidiu se mudar para o Rio de Janeiro.

Da casa de Lobato para a pele da primeira Tia Nastácia na TV!

Acho que nem nos seus sonhos, Benedita Rodrigues poderia imaginar que faria história ao se tornar a primeira atriz a dar vida a Tia Nastácia na primeira adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a TV Tupi de São Paulo, entre os anos de 1952 e 1963.

Após a morte muito cedo de sua mãe, Gabriela, Benedita foi morar na casa da mãe de Purezinha, D. Brazilia.  As meninas tinham a mesma idade e ficaram muito amigas. Purezinha e Bendita cresceram e Benedita foi trabalhar na casa de Purezinha após seu casamento com Lobato.

Lá, Benedita se casou e teve sua filha Aparecida, que cresceu junto com minha mãe Joyce e mais tarde se tornou a primeira bailarina negra do Brasil a ir para a Europa.

Aparecida Rodrigues - filha da Benedita Rodrigues, tornou-se a primeira bailarina negra do Brasil.
Aparecida Rodrigues – filha da Benedita Rodrigues, tornou-se a primeira bailarina negra do Brasil.

Benedita, que não era atriz, era uma exímia cozinheira e famosa entre os amigos de Lobato.

Mais tarde após a morte de Lobato, Julio Gouveia e Tatiana Belinky que a conheciam da época que frequentavam a casa do meu bisavô, a convidaram para o papel de Nastácia no filme Saci e em seguida para a adaptação na TV.

Nessa primeira versão do Sítio na TV, Benedita foi a única a interpretar Tia Nastácia por onze anos

Na extinta TV Excelsior, o canal 9 de São Paulo, trabalhou em “O Terceiro Pecado”, novela de Ivani Ribeiro, em 1967 e também participou do elenco de “A Gata”, na TV Tupi em 1964.

Depois de sua careira na TV Benedita trabalhou muitos anos no Correio e continuou amiga da família até falecer em 1984. Sua filha Aparecida, 83 anos, continua nossa amiga e falando regularmente com sua amiga de infância, minha mãe Joyce. Ela é uma das minhas maiores fãs no Instagram.

Vocês sabem como nasceu a primeira adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a televisão? Não? Clica no link e vem comigo!

O casal Júlio Gouveia e Tatiana Belinky, conheceu e desenvolveu uma relação de amizade com Monteiro Lobato, em meados dos anos 1940, período em que Júlio escrevia críticas literária e de artes.

Alguns anos mais tarde o casal desenvolveu um programa de peças de “teatro infantil”, patrocinado pela prefeitura São Paulo, que deu origem ao TESP – Teatro Escola de São Paulo, voltado para o público infantil.

Quatro anos após a morte de Monteiro Lobato, Júlio e Tatiana foram convidados por diretores da TV Tupi de São Paulo, para levar suas peças para a televisão.

 

Primeiro fizeram um pequeno programa chamado Fábulas Animadas.

Depois a Tupi pediu um programa num formato maior e imediatamente Júlio e Tatiana decidiram que tinha de ser uma adaptação de O Sítio do Pica-Pau Amarelo, a obra do amigo Monteiro Lobato. Foi um sucesso!

Nascia assim a primeira adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a televisão, que misturou artistas profissionais e amadores, filhos de amigos do casal.

Na TV, o Sítio recebeu o formato de teleteatro seriado ou “novelinha”, mesmo contra a vontade de Júlio e Tatiana, que sempre repudiaram a classificação do programa como “novelinha”, por entenderem que esse gênero era desprovido de valores cultural e educativo.

Nessa primeira adaptação para a TV, as histórias do Sítio do Pica-pau Amarelo apresentavam valores e questionamentos que não estão presentes na obra original.

Também foi impossível reproduzir na tela, em primeiro lugar, as descrições de Lobato da abundante fauna e flora do sudeste brasileiro, descrita pelo autor na casa do sítio.

Referências visuais a esses elementos que compõem as descrições de Lobato em seus livros, tiveram que ser improvisadas, substituídas ou suprimidas, para atender as precárias condições de um estúdio de TV daquela época. O cenário consistia somente de uma varanda onde tudo acontecia.

Por exemplo, uma parede com um cenário pintado substituía a floresta, onde Pedrinho encontrou proteção quando perseguido por uma onça. Grama e arbustos retirados de um terreno baldio próximo ao estúdio representavam o jardim e o pomar do Sítio descrito por Lobato. Ao fundo, um cenário de montanhas pintadas num grande painel, colocado atrás da varanda de cenário produzida para o programa, tentava dar uma aparência de cena externa.

Os episódios sempre começavam com Júlio Gouveia abrindo um livro para contar uma história. Júlio encerrava cada episódio fechando o Livro e dizendo a frase: “Entrou por uma porta, saiu pela outra, e quem quiser que conte outra!”

Assim, o Sítio se tornou um grande sucesso, atraindo patrocinadores e transformando a série no primeiro programa a utilizar a técnicas do merchandising na TV brasileira.

As histórias não tinham interrupção para o intervalo comercial, porque Júlio como psicólogo e educador, achava inadequado contar uma boa história e interromper na melhor parte para promover um produto qualquer.

Por isso, durante os diálogos ou cenas com os atores fixos, eram introduzidas divulgações de produtos como Vitaminas, Bolos, Biotônico Fontoura e Kibon. Assim o programa durou 13 anos.

Júlio Gouveia morreu em 1989, aos 75 anos, vítima de um infarto agudo.

Tatiana Belinky nos deixou em 2013, aos 94 anos de idade.

 

O casal sempre reconheceu a importância de Lobato, como o precursor da literatura infantil, destacando o fato dele entender que criança não é bichinho de estimação, que criança é gente e gente muito inteligente, muito digna de respeito, com muito senso de humor.

 

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REFERÊNCIAS:

https://www.extraclasse.org.br/geral/2010/07/crianca-nao-e-bicho-de-estimacao/

https://tatianabelinky.wordpress.com/biografia/

http://www.elencobrasileiro.com/2014/11/julio-gouveia.html

Depoimento do terceiro Pedrinho na TV: Antonio Silvio Lefèvre

Vejam só como eu virei Pedrinho na primeira versão do Sítio do Picapau Amarelo, que foi na TV Tupi de São Paulo, a primeira emissora de TV do Brasil, recém-inaugurada. Era então 1953, eu tinha 10 anos de idade, e o casal Julio Gouveia e Tatiana Belinky, grandes admiradores de Lobato, tinham começado há pouco a levar o Sítio na TV. Eles eram muito amigos de meu pai Antonio Branco Lefèvre (que tinha sido médico de Lobato) e de minha mãe, Dorothy Fineberg. Tatiana e Julio tiveram que começar do zero, criando uma escolinha de teatro para crianças (Teatro Escola São Paulo), pois não havia então atores
infantis disponíveis. Para arranjar alunos, convidaram os filhos dos amigos… E foi assim que, ainda em 1952, treinaram lá um Pedrinho para os primeiros episódios da série e que foi Sergio Rosemberg, filho de outro amigo do casal. Mas por alguma razão, provavelmente um conflito da agenda de ator com a de
estudante… no inicio de 1953 Sergio deixou o Sítio e foi substituído por outro garoto, Julio Simões, que atuou por alguns meses, mas já estava programado para sair e, em função disso, Julio e Tatiana tinham começado a procurar outro intérprete para o papel. E um belo dia, em visita à nossa casa, Tatiana olhou
bem para mim e para meus pais e disse: “Esse é o Pedrinho que eu quero”. Eu me espantava ao notar que nenhum colega da minha classe, no Mackenzie, tinha me visto na TV. Eles tinham um colega que, se fosse hoje, seria uma celebridade, e nem sabiam…
Para o papel de Narizinho o casal Gouveia logo tinha encontrado uma ótima intérprete, a Lidia Rosenberg, que apesar do sobrenome quase igual, não era parente do Sergio Rosemberg e sim filha de outro amigo da família. Para os papéis mais difíceis eles conseguiram atores profissionais, mais experientes.


Isto porque a TV era ao vivo e não se podia errar muito… Em primeiro lugar para o papel da boneca Emília, que foi brilhantemente interpretado pela atriz de teatro Lucia Lambertini… e também para os de Dona Benta (Suzy Arruda), de Tia Nastácia (Zeni Pereira) e de todos os outros, até do Saci Pererê,
interpretado pelo mesmo Paulo Matozinho que fez este papel no filme “O Saci”, da Cinematográfica Maristela, cujo diretor era meu avô materno, Benjamin Fineberg. Mas para os papéis coadjuvantes, como os convidados para as festas no Sítio, que deviam ser crianças, os Gouveia continuavam a apelar para os seus próprios filhos (Ricardo e André), para os filhos dos amigos e os irmãos e amigos deles, como meu irmão Fernando, que cuspiu fora, ao vivo, a (horrível….) marmelada marca Peixe que patrocinava o programa… e meu irmão menor Marcelo que, fantasiado de anjinho para o episódio da viagem ao
céu e com medo da altura, gritou, desesperado, ao vivo: “Socorro, me tirem daqui!”. E logo foi substituído como anjinho pela menina Lia Rosenberg, irmã da Narizinho…. Até meu amigo de infância, o depois famoso cineasta Jorge

Bodanzky, veio num episódio, fantasiado de mexicano. Este Pedrinho que eu era adorava os ensaios no TESP e as apresentações ao vivo na TV. Nos ensaios eu conheci Verinha Darci, mais novinha que eu, e que logo ficou famosa como intérprete do seriado “Pollyanna”, também dirigido pelos Gouveia e que teve um enorme sucesso. Tanto que meu avô Benjamin a convidou para umas férias no Grande Hotel de São Pedro, que ele administrava, como forma de atrair mais hóspedes. Ele anunciava que “Pedrinho e Pollyana estarão no hotel!”… E nos estúdios eu conheci de perto outros artistas que por lá atuavam, alguns já começando a ficar conhecidos… como o Lima Duarte, que ninguém poderia adivinhar que um dia viria a ser considerado como o melhor ator da TV brasileira de todos os tempos…. Tudo maravilhoso, eu já com um ano de “carreira”, com o caminho aberto para me tornar um ator, quem sabe até “global” nos anos que viriam… quando no início do ano escolar de 1954, minha mãe resolveu me tirar da TV… “Esse negócio de televisão está atrapalhando os estudos do menino”, disse ela, complementando: “E para que serve isso se ninguém tem esse aparelho de TV em casa? Melhor ler os livros de Lobato…”

Para o papel de Pedrinho, Julio e Tatiana tiraram então a sorte grande, botando como Pedrinho o David José, ator super talentoso, que ficou no Sítio da Tupi até 1958. Ele sim, ficou famoso de verdade e com muita justiça é o mais lembrado Pedrinho da era Tupi. Quem o substituiu, até 1960, foi o André Gouveia, filho do Júlio e da Tatiana e super amigo meu em toda nossa infância e adolescência e que, para enorme tristeza nossa, faleceu num acidente de motocicleta na França, em 1971. Deste quinto Pedrinho eu tenho eterna saudades.

A REVOLUÇÃO DO FOLCLORE ATRAVÉS DE MONTEIRO LOBATO

O Saci-Pererê é a entidade mais conhecida do folclore brasileiro. Um menino negro e travesso que tem apenas uma perna. A origem da lenda caracteriza a miscigenação entre as culturas indígena, africana e europeia. A lenda mais popular fala sobre um ser pequeno que protege a selva. Pode ter os olhos vermelhos, é careca e usa um gorro vermelho. Normalmente está fumando um cachimbo.

A princípio, o Saci era narrado como um garoto indígena, muito travesso, que tinha um rabo, duas pernas e pele morena. Essas características faziam parte do imaginário das tribos indígenas da região sul, de origem tupi-guarani, local onde surgiu a lenda do Saci-Pererê.

Considerações sobre a origem à parte, ele está sempre aprontando e algumas de suas travessuras mais comuns são o ato de trançar as crinas e rabos dos cavalos e azedar os alimentos. Ele tem um assovio estridente e dificilmente você vai encontrá-lo por aí. Talvez poderá caçá-lo em um redemoinho e prendê-lo em uma garrafa. Se assim o fizer, poderá roubar-lhe o gorro vermelho, fazendo com que o pequeno atenda seus pedidos.

Tudo isso é familiar para você? Então continue a leitura para entender um pouco mais sobre a importância dessa lenda.

A lenda surgiu no final do século XVIII e se espalhou pelo país ao longo do século XIX. A história, provavelmente, começou na região Sul e se tornou conhecida em todo o país e também em outros países da América do Sul, sofrendo algumas variações. A lenda era bastante conhecida no interior do país, mas não passava muito disso.

E a história poderia parar por aí, não fosse Monteiro Lobato fazer parte de um grupo de intelectuais nacionalistas que estudavam as características culturais de cada canto do país e o cotidiano dos mesmos. Esse grupo buscava maneiras de dar um tom brasileiro para tudo aquilo que fosse possível, fugindo da influência de outros países. E durante esses estudos, Lobato decidiu entender um pouco mais sobre o Saci-Pererê tão conhecido no interior do Brasil.

Até então, ele trabalhava como crítico sociocultural, escrevendo sobre o caboclo e tudo o que envolvia o lado mais interiorano do país. No ano 1916, ele publica o texto “A poesia de Ricardo Gonçalves”, na Revista do Brasil. Nesse trecho, é possível compreender quais eram suas intenções:

“Pelos canteiros de grama inglesa há figurinhas de anões germânicos […] porque tais nibelungices, mudas à nossa alma, e não sacis-pererês, caiporas, mães d'água e mais duendes criados pela imaginação do povo?” (LOBATO, 1916, p. 299).

Através do seu inconformismo com a falta de identidade do Brasil, surge a ideia de explorar mais a fundo a lenda brasileira do Saci-Pererê. E, no começo de 1917, Lobato realizou um inquérito no jornal "O Estado de São Paulo" – na versão vespertina chamada "Estadinho", mais especificamente – sobre o Saci. A ideia era colher as respostas dos leitores acerca das versões da lenda.

Monteiro Lobato recebeu dezenas de respostas, encorajando-o a fazer, em seguida, um “Concurso de pintura e escultura”, visto que o inquérito despertou algo em sua alma. Como essas primeiras ações foram um verdadeiro sucesso, Lobato se lança em sua primeira aventura editorial, publicando "O Saci-Pererê: Resultado de um Inquérito". O livro teve duas edições esgotadas em menos de um ano, com uma tiragem de 7.300 exemplares (Lobato, 1944, p. 371; Cavalheiro, 1955, p. 192). O saci entra, definitivamente, para o hall da fama do imaginário brasileiro.

No ano 1921, a obra "O Saci" é criada para o público infantil, norteando, de vez, a carreira do pai da literatura infantil. E toda essa inquietude de Lobato mostra um homem múltiplo, que articula várias ações em torno de uma ideia. Excelente jornalista, crítico sociocultural, editor, escritor e publicitário.

Nessa altura, o pequeno menino negro de gorro vermelho já encantava o país através de histórias cheias de magia e imaginação, um prato cheio para as crianças da época que mal tinham com o que contar, em termos de literatura.

Monteiro Lobato conseguiu dar voz ao folclore nacional, enriquecendo ainda mais a cultura nacional. Sem dúvida, ele foi o grande responsável por popularizar a lenda do Saci em todo o país. Certamente ficaria muito feliz se pudesse viajar no tempo e ver que o Saci-Pererê ganhou uma data exclusiva – 31 de outubro – batendo de frente com a imensa fama do Halloween estrangeiro.

Lobato não apenas transformou o Saci na lenda mais popular do Brasil, como também trouxe para todos diversas outras lendas, como a Iara, o Curupira e tantas outras entidades que carregam as histórias de um Brasil continental e diverso.

Claro que muito ainda precisa ser feito para a popularização da data. Mas esse é um assunto para um próximo artigo. Hoje, basta termos consciência que Lobato mudou o destino do Saci (ou o Saci mudou o destino de Lobato?). No dia 31 de outubro, comemore o Dia do Saci, esse menino travesso que encantou e encanta os corações de incontáveis gerações.

Dia Nacional do Livro e Semana do Saci. Quer combinação melhor para Lobato?

Livro e Lobato, mais do que começar com a mesma letra, possuem histórias em comum. Eu adoraria contar a importância de Lobato na produção e distribuição de livros no Brasil, mas o Instagram não suporta tantas letras. Então, de forma resumida: o que Lobato fez pelos livros é visto como um divisor de águas. Ele inovou, modernizou e ampliou as arcaicas práticas editoriais e promoveu a popularização da leitura.

E já que é Semana do Saci, vale a pena conhecer essa passagem: Passeando com um amigo pelo Jardim da Luz, surgiu o assunto "folclore brasileiro". Lobato estava focado em tornar o Brasil uma nação orgulhosa de suas raízes, como seu folclore. Observando os anõezinhos e outros gnomos que enfeitavam o jardim, comentou com o amigo que deveriam trocá-los por estatuetas de outros entes verdadeiramente brasileiros.

Surge a ideia de fazer uma pesquisa em 1917, com o título "Mitologia Brasílica”. Lobato lança no "Estadinho", edição do "O Estado de São Paulo", uma pesquisa sobre o Saci-Pererê, entidade com raízes num mito tupi-guarani surgido há mais de 2 séculos. O material coletado revelou que o Saci também veio ao Brasil através de histórias africanas trazidas pelos ex-escravizados e passou por transformações caboclas.

Choveram cartas que vinham do país todo. Lobato aplicou uma técnica inédita de coleta de dados e diante da diversidade do material recebido, surgiu o livro "O Saci-Pererê – Resultado de um Inquérito", no inicio de 1918. O saci despertou a consciência e a autoestima do povo brasileiro, pois como diz Lobato no epílogo deste livro: ”revelar onde e o como se hão de buscar os elementos de estudo e compreensão de nós mesmos”. Isso é nossa essência. Isso é ser verdadeiramente brasileiro.

Apesar de assinar o livro somente com suas iniciais, podemos considerá-lo o primeiro livro do escritor, precedendo Urupês. Então comemore o Dia do Livro lendo "O Saci-Pererê – Resultado de um Inquérito" que mostra um Brasil que acompanhava os horrores da 1ª Guerra Mundial e se descobria como nação!
E se você quer ter acesso às obras de Lobato, conhecer sua história e se atualizar acerca do que acontece atualmente, acesse o site www.monteirolobato.com o link está na BIO!

Você conhece a origem da lenda do Saci?

O folclore brasileiro é rico, diverso e é possível encontrá-lo durante todo o ano, em todos os cantos. As lendas que estruturam esse folclore são verdadeiros patrimônios. E, sem dúvida, o Saci-Pererê é a lenda mais famosa de todas, que teve início no Sul do Brasil, influenciada por elementos das culturas africana, europeia e indígena. E, claro, teve a imensa influência de Monteiro Lobato.

O ser mítico que mora nas florestas é conhecido por ser travesso e estar sempre aprontando com pessoas e animais. Na maior parte das histórias, ele é pequeno, negro, tem uma perna só, usa um gorro vermelho que lhe dá poderes e fuma um cachimbo. Muitas histórias usam a expressão “endiabrado” para designá-lo, visto que é um menino agitado e viciado em travessuras.

Não existe apenas um Saci. Eles são muitos aprontando com cavalos, fazendeiros e viajantes que encontram por onde passam, deixando-os com os cabelos arrepiados com seu assovio estridente. E tem muita gente que jura, até os dias de hoje, que já encontraram o menino brincalhão por aí, armando mais alguma de suas travessuras.

Os contadores de histórias sempre enfatizam que ele mora no redemoinho e que é possível capturá-lo. Para isso, basta jogar uma peneira no meio do redemoinho. Em seguida, é preciso retirar o gorro de sua cabeça para que ele perca os poderes. Por fim, tem que prendê-lo em uma garrafa com uma cruz desenhada nela.

Muitas histórias apontam que o Saci vive cerca de 77 anos e, após esse espaço de tempo, se transforma em um cogumelo venenoso ou um cogumelo que pode ser encontrado nos troncos das árvores, os chamados “orelha-de-pau”.

Os folcloristas falam que a sua lenda é recontada desde o final do século XVIII ou começo do século XIX e começou na região Sul do Brasil entre os índios guarani que o chamavam de "çaa cy perereg". A lenda ficou tão famosa que se espalhou pelos países vizinhos. Na Argentina, Uruguai e Paraguai, por exemplo, ele é chamado de "yacy-yateré" e cada região conta histórias carregadas de suas próprias características.
Os folcloristas também apontam diversas lendas europeias que podem ter influenciado a lenda do Saci, como o trasgo, um ser pequeno que faz maldades com os portugueses. O cachimbo viria das culturas indígena e africana e a perna única viria da cultura africana, já que – para eles – o Saci perdeu a perna em uma luta de capoeira.

Em sua origem, o Saci protege as florestas e ele ficou imensuravelmente famoso através de Monteiro Lobato que, em 1917, fez o inquérito que eu falei a respeito dia desses. Aliás, se perdeu, volta o feed uns dias que você vai entender a importância desse inquérito que contou com um retorno muito maior do que se esperava e, ali, iniciava a parceria Monteiro Lobato – Saci-Pererê.

Mas vale lembrar que Lobato não apenas deu voz ao Saci, como também mostrou ao mundo todos os outros personagens do folclore nacional como a Iara, o Curupira e tantos outros que carregam nossa história de forma lúdica, gerando emoções em crianças de todas as idades. Mas essa é uma história para outro post.

Dia Nacional do Livro: Monteiro Lobato e a Evolução da Literatura Infantil

A Literatura Infantil no Brasil começou na segunda metade do século XIX. A forma como as histórias eram passadas de geração em geração, acontecia através das histórias contadas e recontadas por pessoas chamadas de “preto velho”. O apelido carinhoso indica os “contadores de histórias” tão necessários em diferentes âmbitos. Outro exemplo de histórias que atravessaram as décadas, é o folclore gaúcho com o Negrinho do Pastoreio e as histórias que vieram da Europa como os "Contos da Carochinha".

Em 1921, Monteiro Lobato presenteia o país com o livro “Narizinho Arrebitado”. Com uma técnica literária impecável, a maneira como as histórias são contadas para as crianças ganham um tom lúdico ideal para conscientizar sobre o mundo. Lobato deu as diretrizes para as próximas gerações de escritores que trabalhavam e trabalham com a Literatura Infantil.

Ele criou um universo encantador que atraía crianças de todas as idades. O folclore, o nacionalismo, a linguagem, os comportamentos e a relação com a natureza podem ser considerados as espinhas dorsais de toda sua obra. E Lobato já deu voz aos contadores de histórias, criando o sábio Visconde de Sabugosa.

Em 1931, "Narizinho Arrebitado" se transforma em "Reinações de Narizinho". Nos anos 60 e 70 a Literatura Infantil se torna pauta séria, e as instituições começam a entender a importância da leitura e do livro infantil para as crianças. A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil foi uma dessas instituições que lutou pelo envolvimento das crianças com a literatura.

Com a valorização da criança, surgem os textos adaptados a elas e até mesmo os livros adultos tomam forma de livros infantis, marcando o início da formação de leitores ainda com pouca idade. Foi criado, então, um Tratado de Pedagogia, que assegurava a educação infantil e adulta. A educação perde sua inocência e a escola passa a ser atuante na formação dos cidadãos.

E claro que com um maior número de leitores, surge a necessidade de mais e mais livros para as crianças. Como elas possuem um foco que facilmente muda de direção, os livros tinham que chamar a atenção, baseadas no mundo do faz-de-contas. E Monteiro Lobato conseguiu conciliar todas as necessidades dos pequenos.

Através do seu universo imaginário, Lobato leva até as crianças os fatos políticos-econômicos-sociais que envolviam a vida, naquela época, no Brasil. Um exemplo é o mais famoso de todos, “O Sítio do Picapau Amarelo”, que mostra através de livros como "O Poço do Visconde" a sua revolta com a maneira como acontecia a exploração do Petróleo na época.

Através de suas personagens cativantes, Lobato dizia tudo aquilo que sentia que precisava dizer de uma maneira que não expunha sua imagem. A Emília, por exemplo, é a voz do escritor contestador e que sempre procura maneiras de reinventar não apenas a natureza, mas todo o planeta.

Com Dona Benta, Tia Nastácia, Tio Barnabé, Pedrinho, Narizinho, Emília, Visconde de Sabugosa, Quindim e Rabicó, Lobato formou diversas gerações com um senso crítico muito mais apurado do que as crianças que, até sua reestruturação, não compreendiam o mundo da mesma maneira que as que vieram após o escritor.

O folclore nacional ganhou palco e respeito. Seres fantásticos como o Saci, a Cuca, a Mula-sem-cabeça, a Iara, o Lobisomem e tantos outros levam os leitores a conhecerem mais da cultura brasileira e a importância dos cuidados com a natureza. Toda obra que gera magia e sonhos, é caracterizada como Literatura Infantil. E Lobato fez com grande competência.

Hoje em dia, essa magia se perdeu. Temas polêmicos e personagens sem nenhum encantamento invadem os livros das crianças. Sendo assim, é fundamental sair em defesa de um sítio mágico, com boneca falante e sabugo de milho que conta histórias. Onde tem menino tão explorador quanto Marcopolo e uma vovó sempre disposta a amar e cuidar.

Monteiro Lobato é considerado o pai da Literatura Infantil brasileira e não poderia ter um "título" diferente. Seus livros eram verdadeiras moradas, cheias de revoluções e lições para todas as pessoas do mundo. Foram mais de quatro mil e seiscentas páginas somente para as crianças. Uma obra-prima que merece todo o reconhecimento.

Se comunicar com crianças é como se comunicar com adultos, dadas as devidas proporções. As ideias precisam ser transmitidas, as mensagens precisam ser passadas mas com complexidade diferente. É assim que se formam seres humanos. A literatura precisa causar sensações, emoções, imaginações em todos. Em especial, no que tange as crianças, elas precisam tocar o coração, cumprindo a função verdadeira da Literatura.

Por mais Lobatos para esses pequenos humanos que, com as diretrizes corretas, vão transformar o mundo em um lugar muito melhor e mais justo para todos.

Acervo inestimável precisa de restauro e digitalização

A Seção de Bibliografia e Documentação da Biblioteca Infanto- Juvenil Municipal Monteiro Lobato, situada na Vila Buarque, em São Paulo, abriga um acervo de valor imensurável da literatura infantil e juvenil brasileira. E é, sem dúvidas, uma das principais referências para estudiosos da área.

Entre os seus 85 mil volumes que compõem os acervos de preservação (em média), existe um dos mais preciosos acervos de Monteiro Lobato, com cerca de 10 mil itens. 

Nele, é possível encontrar a primeira edição de livros, cadernos com anotações à mão pelo próprio escritor, fotografias, mobiliário, objetos pessoais e correspondências que mostram momentos da vida e obra de Lobato. 

E além de todo esse material, também se encontram alguns itens feitos por Dona Purezinha, esposa de Lobato. Um exemplo, são os recortes de todos os artigos de jornais e fotos que foram publicados durante a vida de Lobato.  Esses álbuns estão em mau estado de conservação e necessitam urgentemente de restauro e digitalização feitos por especialistas para não causar ainda mais danos. A maioria dos itens foram doados pela família mediante o compromisso  da Instituição de preservar as doações.

Nesta seção, ainda é possível encontrar o Acervo Histórico de Livros Escolares (AHLE), com aproximadamente 5 mil itens. Nele, encontram-se cartilhas, manuais escolares de todas as matérias de ensino, antologias literárias e livros de referência de uso escolar – entre outros – do século XIX até a década de 1980, abrangendo cursos primários, secundários, de formação de professor e ensino técnico.

O acervo de Bibliografia e Documentação possui mais de 40 mil livros de literatura infantil e juvenil e compõem os acervos de preservação. Um tesouro inclusive para as editoras, visto que durante a publicação da Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil, o acervo assemelhava-se a um depósito legal, com exemplares únicos de alguns títulos.

Ainda possui um acervo documental composto por mais de 20 mil volumes e, entre eles, o acervo pessoal de Lenyra Fraccaroli, primeira diretora da Biblioteca Monteiro Lobato, doado pela família da diretora sob a condição de preservação.

Todo este material importante para a história da literatura e da educação nacional está em risco devido a anos de falta de verba e descaso por parte de quem deveria ter o objetivo de preservar toda essa riqueza cultural.

Esperamos que a nova administração tome os passos necessários para restaurar, acondicionar e digitalizar este importante material desta Biblioteca referência. 

Para seguir o passo a passo dessa luta, siga nossas redes sociais @cleomonteirolobato no o Facebook e Instagram e acompanhe nosso blog pelo site www.monteirolobato.com. A cultura agradece!
 

Reivindicações de Cleo Monteiro Lobato são recebidas por Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo

Cleo Monteiro Lobato dá um passo importante rumo à reestruturação do acervo de seu bisavô que se encontra na Biblioteca Infantojuvenil Municipal Monteiro Lobato. Atualmente, o acervo corre o risco de sofrer ainda mais danos com a falta de estrutura adequada. 

O encontro entre o prefeito de São Paulo e a bisneta de Lobato se tornou possível graças ao envolvimento essencial da vereadora Janaína Lima (Novo) que não mediu esforços para que o mesmo acontecesse o mais rápido possível. 

Com um grupo de emergência encabeçado por Cleo e formado por ex-funcionárias e bibliotecárias especializadas em acervo de preservação, foi redigido um documento que foi entregue em mãos ao prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), no dia 16 de Agosto.

No documento, além da reabertura da Seção de Bibliografia e Documentação (havia um boato que isso não aconteceria), foram feitas solicitações fundamentais para a preservação do acervo lá existente através do desenvolvimento de um plano de reestruturação. Esse plano inclui, entre outros itens de mesma importância:

Liberação de R$120 mil para a recuperação de livros e documentos de Monteiro Lobato especificamente que se encontram em um maior estado de deterioração, incluindo o acondicionamento e digitalização dos mesmos;


Definição de um orçamento para a restauração dos outros acervos;

Inventário e diagnóstico dos acervos, identificando aqueles que necessitam de limpeza, desinfecção, restauração, acondicionamento adequado, catalogação e demais cuidados;


Climatização e adequação do mobiliário;

Concurso público para a contratação de, ao menos, 8 bibliotecários especializados em acervo de preservação;


Contratação de 5 pesquisadores especialistas em Literatura infantil e juvenil;

Contratação de 2 profissionais de design e 2 profissionais de informática;

Digitalização dos documentos que podem passar por esse processo e disponibilização dos mesmos para o público através de acesso virtual;

Aquisição de computadores, equipamentos e materiais necessários para o desenvolvimento dos trabalhos que a seção demanda; alem de internet de alta qualidade.

Para o bem da cultura nacional, o prefeito Ricardo Nunes se mostrou não apenas favorável às reivindicações como manifestou seu apoio e destacou a importância do acervo de Monteiro Lobato. Em tempo, concordou com o valor de R$120 mil para o projeto de recuperação de um acervo dessa importância.

A campanha de Cleo em prol da Biblioteca Monteiro Lobato e da restauração do acervo de seu bisavô ganhou ainda mais força quando graças ao continuado apoio da vereadora Janaína Lima, Cleo conseguiu se encontrar nos últimos dias que ainda estava no Brasil, com a recém-empossada Secretária de Cultura, Aline Torres (MDB). O encontro foi excelente e Cleo atualizou a Secretária sobre a situação da Biblioteca e especificamente, da Seção de Bibliografia e Documentação, relembrando  a importância da liberação da verba (R$120 mil) para que o acervo de Monteiro Lobato possa ser restaurado, acondicionado e digitalizado.

E como um brinde de esperança que se estende para um futuro breve, Cleo presenteou tanto Aline Torres quanto Ricardo Nunes com as obras “Narizinho Arrebitado – livro 1” e “O Sítio do Picapau Amarelo – livro 2”, ambos com uma dedicatória especial.

Vamos seguir acompanhando o desenvolvimento deste projeto! E você também pode acompanhar através das nossas páginas no Facebook e no Instagram. Venha fazer parte desse movimento!
 

CAMPANHA DO DIA DA CRIANÇA DA ACSP FIRMA PARCERIA COM A BISNETA DE MONTEIRO LOBATO

A 3ª edição da Campanha do Dia das Crianças do Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC), da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), que tem como meta arrecadar cerca de 50 mil itens, entre roupas, livros e brinquedos, conta com mais um apoiador de peso.

Cleo Monteiro Lobato, bisneta do escritor Monteiro Lobato, firmou uma parceria com CMEC que possibilitou que nossas crianças recebam 1.500 exemplares da obra “Reinações de Narizinho – Parte 1”, que serão editados com prefácio especialmente para o CMEC.

A atriz, digital influencer e ativista social Karina Bacchi, bem como o ator, diretor e também embaixador da cultura do CMEC, Ricardo Macchi, reforçam o time de embaixadores da ação.
“Nossas distritais e coordenadores estão empenhados em fazer dessa edição um sucesso”, mencionou na ocasião o vice-presidente da ACSP e coordenador-geral das Sedes Distritais, João Bico de Souza.
Durante a cerimônia, a presidente do CMEC, Ana Cláudia Badra Cotait, enfatizou o quanto a Campanha tem crescido. “Doe, procure seu vizinho, procure um endereço próximo. Não deixe de ajudar e de fazer o bem”.
As doações de livros, brinquedos e roupas em bom estado podem ser feitas até o dia 14 de outubro, no edifício-sede da ACSP, nas 15 Sedes Distritais da entidade, em estabelecimentos comerciais, escolas e até em alguns condomínios residenciais. Consulte o site da campanha e saiba qual o endereço mais próximo.

Fonte: https://acsp.com.br/publicacao/s/campanha-do-dia-da-crianca-da-acsp-recebe-doacoes-da-bisneta-de-monteiro-

Conselho da Mulher vai distribuir mais 50 mil livros e brinquedos a crianças da capital

Diversas instituições da capital serão beneficiadas com as doações

Iniciativa do Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp), a terceira edição da Campanha do Dia das Crianças se inicia no próximo dia 2 de setembro e beneficiará milhares de crianças da capital. A ação tem como objetivo levar esperança e alegria nesta data especial e se estende até 14 de outubro.

O foco principal da campanha deste ano é a arrecadação de livros, fundamentais para estimular a leitura e recuperar o tempo perdido com o ensino remoto durante a pandemia. “Sempre digo que precisamos investir no aprendizado e na leitura dos nossos pequenos para que se tornem cidadãos mais conscientes e críticos”, afirma a presidente do CMEC, Ana Cláudia Badra Cotait.
Outros itens como brinquedos e roupas em bom estado também poderão ser doados. O edifício sede da Associação Comercial, bem como as 15 Sedes Distritais da entidade, estabelecimentos comerciais, escolas e até condomínios funcionarão como postos de arrecadação. Para saber qual o local mais próximo basta entrar no site.

“Mais uma vez contamos com o apoio dos nossos diretores superintendentes das Distritais e de diversos parceiros para que o Dia das Crianças seja inesquecível. Todos podem contribuir para tornar essa data um marco na memória de cada uma. Elas receberão não apenas um presente, mas um incentivo à leitura. Porque é por meio dela que acessamos lugares inimagináveis. Doar um livro é uma demonstração de cidadania e carinho. Faça a sua doação.”, enfatiza Ana Cláudia.

A estimativa de arrecadação do Conselho da Mulher é de mais de 50 mil doações. A exemplo do que ocorreu com a Campanha do Agasalho deste ano, que arrecadou 146.919, a ação voltada para as crianças deve ter adesão de associações comerciais de todo o estado, por meio da rede Facesp.

Outro apoio importante será o de artistas engajados em prol da ação. A primeira delas é da apresentadora, atriz, digital influencer e ativista social, Karina Bacchi que será a embaixadora da edição deste ano da Campanha do Dia das Crianças.

“Me sinto lisonjeada pelo convite para dar voz a essa campanha tão grandiosa e que incentiva a solidariedade e a cultura porque acredito muito no poder das nossas ações. Não basta sermos mães, empreendedores e mulheres se esquecermos o amor ao próximo. Nada vale”, celebra a apresentadora.

Karina e a mãe, Nadia Bacchi, atuam na comunidade de Paraisópolis, por meio da Ong Florescer, desde a década de 90, promovendo inclusão social de crianças e adolescentes em um espaço que oferece aulas de reforço escolar, computação, inglês, teatro, dança, violão e futebol, atividades recreativas e cursos profissionalizantes.

A distribuição das doações é feita por meio das Sedes Distritais da Associação Comercial de São Paulo. As entidades beneficiadas são credenciadas e selecionadas pelos diretores superintendentes. 

AGENDA

Campanha Dia das Crianças do Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC)

De 2 de setembro a 14 de outubro de 2021
Informações no site: https://cmecmulher.com.br/diadascriancas/
 
OUTRAS INFORMAÇÕES PARA A IMPRENSA

Alan Viana, aviana@acsp.com.br, (11) 3180-3220
Marcelo Picolo, mlpicolo@acsp.com.br, (11) 3180-3220
Gabriel Daniele, ggferreira@acsp.com.br, (11) 3180-3220


Sobre a ACSP: A Associação Comercial de São Paulo (ACSP), em seus 126 anos de história, é considerada a voz do empreendedor paulistano. A instituição atua diretamente na defesa da livre iniciativa e, ao longo de sua trajetória, esteve sempre ao lado da pequena e média empresa e dos profissionais liberais, contribuindo para o desenvolvimento do comércio, da indústria e da prestação de serviços. Além do seu prédio central, a ACSP dispõe de 15 Sedes Distritais, que mantêm os associados informados sobre assuntos do seu interesse, promovem palestras e buscam soluções para os problemas de cada região.

Sobre a FACESP: A Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp), com 57 anos de existência, promove a união das "forças vivas" do Estado de São Paulo, estimulando os empreendedores paulistas a participar da vida política, econômica e social do Estado e do País. É uma entidade de âmbito estadual, com a missão de integrar o empresariado paulista por meio das Associações Comerciais de cada município, atuando em ações que tenham por objetivo a luta pelas liberdades individuais, o apoio à livre iniciativa, a unidade da classe empresarial e a garantia da democracia e do desenvolvimento. Atualmente, mais de 420 Associações Comerciais integram a Facesp e lutam, juntas, pela bandeira do empreendedorismo.

Sobre o CMEC: O Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura atua como um fórum de referência de estudos, debates e inspirações à mulher empreendedora, além de desenvolver ações, campanhas e projetos sociais e culturais. Também atua como instrumento para que lideranças femininas discutam seus problemas e apresentem propostas que mobilizem a comunidade empresarial e a sociedade organizada. Possui 138 conselhos da mulher, distribuídos entre as cidades do Estado de São Paulo e que integram as 420 Associações Comerciais filiadas à Facesp.

A Biblioteca Monteiro Lobato tem que continuar referência em literatura infantojuvenil.

A histórica Biblioteca Monteiro Lobato vai deixar de ser referência em literatura infantil e juvenil?
O que vai ser feito do seu acervo de preservação?

A Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, localizada na Rua General Jardim, 485 – Vila Buarque, é uma biblioteca pública do município de São Paulo. Sua criação foi determinada pela legislação que instituiu o Departamento de Cultura e Recreação da cidade de São Paulo em 1935 e sua inauguração se deu em 14 de abril de 1936 com a presença do primeiro diretor do Departamento de Cultura, Mário de Andrade, ao lado da sua primeira diretora, Lenyra Fraccaroli, como se vê na fotografia acima.

Em 1953, a Biblioteca Infantil, mais tarde denominada Biblioteca Monteiro Lobato, tornou-se referência para o mundo ao ser reconhecida como exemplar pela UNESCO pelo seu pioneirismo na América Latina e sua grande contribuição para a cultura letrada infantil e juvenil.

No entanto, às vésperas das comemorações dos 100 anos do modernismo, recebemos a triste notícia de que a Seção de Bibliografia e Documentação da Biblioteca será desativada. Atualmente, há apenas dois servidores trabalhando na seção, ambos bibliotecários, e os mesmos serão deslocados para atividades em outra unidade.

O QUE É A SEÇÃO DE BIBLIOGRAFIA E DOCUMENTAÇÃO?

É a Seção da Biblioteca responsável por catalogar e gerenciar os acervos de circulação (empréstimo domiciliar) e os acervos de preservação da Biblioteca Monteiro Lobato. Foi responsável pela publicação da Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil, referência nacional na área, desde 1941, porém, a publicação foi interrompida em 2007 e não foi retomada desde então.

ACERVOS DE PRESERVAÇÃO
Bibliografia e Documentação: Literatura infantil nacional e estrangeira
É um dos mais importantes acervos do país em literatura infantil e juvenil nacional e possui exemplares únicos de diversos títulos incluindo obras raras, o que o torna uma das principais referências para estudiosos da literatura infantil e juvenil brasileira. Possui cerca de 40 mil volumes.

Acervo Monteiro Lobato
Referente à vida e obra de Monteiro Lobato; com cerca de 10 mil itens, é basicamente formado por doações da família do escritor: livros, fotografias, mobiliário, objetos pessoais e correspondências. Também foram firmados compromissos de preservação com a família quando da doação.

Acervo Histórico de Livros Escolares – AHLE
A partir do material encontrado em bibliotecas infantis, foram selecionadas cartilhas, manuais de ensino e obras didáticas publicadas desde 1895. Conjunto de livros que contempla disciplinas escolares dos cursos elementar e secundário. Hoje, conta-se aproximadamente 5 mil ítens compondo esse acervo. É possível conhecer mais sobre os ítens desse acervo no blog criado pela socióloga Azilde Andreotti, que desempenhou um valioso trabalho na biblioteca, segue link:http://acervohistoricodolivroescolar.blogspot.com/

Memória Documental
Com aproximadamente 20 mil volumes, o arquivo histórico-documental da biblioteca reúne a história do Departamento de Bibliotecas Infantojuvenis com documentos e fotos do Timol, Tibbim, Turistinhas Municipais, Academia Juvenil de Letras e o Jornal A Voz da Infância. Pertence também a esse acervo, documentos da primeira diretora da biblioteca, Lenyra Fraccaroli, doados por termo estabelecido com a família com a condição de preservação. Ele traz documentos sobre bibliotecas infantis, literatura infantil e juvenil, correspondências, artigos de jornais e revistas nacionais e estrangeiras, rascunhos manuscritos de Da. Lenyra sobre o modelo arquitetônico do atual prédio da Biblioteca, trabalhos manuscritos de estagiários da Biblioteca Infantil Municipal, fotos históricas, arquivos em áudio de frequentadores. Um material ainda a ser descoberto e preservado, tendo em vista que, assim como a maior parte do acervo de memória documental, ainda não recebeu tratamento arquivístico, o que dificulta as consultas e pesquisas.

PRIMEIRO A PRECARIZAÇÃO, DEPOIS, O DESMONTE
O abandono da seção, vem sendo notado por pesquisadores que realizam suas consultas no local. Falta de pastas e materiais adequados para a conservação dos documentos, falta de climatização dos ambientes de armazenamento e ausência de funcionários em número suficiente para as atividades necessárias para salvaguardar os acervos e garantir o acesso ao público. São os sinais do desmonte e do descaso do poder público municipal com o nosso patrimônio cultural.

Não aceitaremos que esses acervos, que são parte da história da literatura infantil e juvenil e da biblioteca como espaço de ação cultural da e para a infância, sejam destruídos ou desvinculados da Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato. Eles são parte importante da memória e da história de São Paulo e do Brasil.

A seção atende pesquisadores, especialistas, estudantes e toda a comunidade com interesse na história do bairro da Vila Buarque, na vida e obra de Monteiro Lobato, na produção e desenvolvimento da literatura infantil e juvenil brasileira, na produção e desenvolvimento do livro escolar brasileiro, na história da biblioteconomia brasileira e dos serviços de bibliotecas, entre tantos outros.
Vimos a público reivindicar a reestruturação da Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato. Trata-se de um equipamento público, patrimônio cultural brasileiro.

REIVINDICAMOS
Retomada da Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato como centro de referência da cultura e da cidadania para crianças e adolescentes, como foi pensada por Mário de Andrade, pelos modernistas, por Lenyra Fraccaroli, Monteiro Lobato e tantas outras pessoas que desenvolveram projetos pioneiros para a fruição cultural, artística e literária das crianças e adolescentes;
Presença de profissionais qualificados e em quantidade adequada para a preservação e gestão dos acervos, bem como para o atendimento ao público e desenvolvimento de ações culturais;

Implementação de serviço de digitalização dos acervos e gestão dos direitos autorais e acesso público dos documentos;

Destinação de verba para a compra de materiais próprios para a conservação e guarda dos livros e documentos de preservação;

Destinação de verba para restauração de itens para os quais seja identificada a necessidade;

Adequação e climatização dos ambientes de armazenamento dos acervos;

Vistoria e adequação do prédio com equipamentos contra incêndio e outros incidentes;

Retomada da publicação da Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil.

Divulgação do acervo histórico da Biblioteca ML, mediante exposições e outras atividades presenciais e virtuais para crianças, jovens, educadores, escolas, comunidade.

Não aceitaremos que, a exemplo da Cinemateca, que vimos arder em chamas nas últimas semanas, nos retirem mais uma parte importante da nossa cultura, memória e história. O nosso destino não pode ser a barbárie!

Assinamos:
ANIS – Associação dos Servidores de Nível Superior da Prefeitura do Município de São Paulo
Grupo SinBiesp – Sindicato dos Bibliotecários, Cientistas da Informação, Historiadores, Museólogos, Arquivistas, Documentalistas, Auxiliares de Biblioteca e de Centros de Documentação no Estado de São Paulo
Sindsep – Sindicato dos Trabalhadores na Administração Pública e Autarquias no Município de São Paulo

EXTINÇÃO DE SEÇÃO DA BIBLIOTECA MONTEIRO LOBATO, EM SP, PÕE EM RISCO MEMÓRIA DA LITERATURA INFANTIL E JUVENIL NACIONAL

Fonte: https://biblioo.info/extincao-de-secao-da-biblioteca-monteiro-lobato-em-sp-poe-em-risco-memoria-da-literatura-infantil-e-juvenil-nacional/

A Seção de Bibliografia e Documentação da Biblioteca Infantujuvenil Municipal Monteiro Lobato, localizada na Vila Buarque, na capital paulista, abriga um dos mais importantes acervos do país em literatura infantil e juvenil nacional e possui exemplares únicos de diversos títulos, incluindo obras raras, o que a torna uma das principais referências para estudiosos desta área. Dentre os seus cerca de 85 mil volumes que compõem os acervos de preservação, há o acervo Monteiro Lobato, com muitos trabalhos referentes à vida e obra de do escritor, com cerca de 10 mil itens. Este acervo é constituído de livros, fotografias, mobiliário, objetos pessoais e correspondências, a maioria doada pela família do escritor, que firmou compromisso de preservação com a instituição quando da doação.

É também nesta Seção que está o Acervo Histórico de Livros Escolares (AHLE). O AHLE, com aproximadamente 5 mil itens, é composto por cartilhas, manuais escolares de todas as matérias de ensino, antologias literárias e livros de referência de uso escolar, entre outros, do século XIX até a década de 1980 e abrange os cursos primários, os secundários, os de formação de professor e o ensino técnico. O acervo de Bibliografia e Documentação conta com mais de 40 mil livros de literatura infantil e juvenil. Também compõe os acervos de preservação e é muito valioso inclusive para as editoras, uma vez que durante a publicação da Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil, funcionava como uma espécie de depósito legal, possuindo exemplares únicos de alguns títulos. A memória da Biblioteca, do antigo Departamento de Bibliotecas Infantis e Juvenis e da região da Vila Buarque, é representada em um acervo documental composto por mais de 20 mil volumes, entre eles, o acervo pessoal de Lenyra Fraccaroli, primeira diretora da Biblioteca Monteiro Lobato, doado pela família sob a condição de preservação.

Pois bem, todo este material de memória agora está em risco depois que a Coordenação do Sistema Municipal das Bibliotecas Municipais de São Paulo (CSMB), subordinada à Secretaria Municipal de Cultura (SMC), resolveu extinguir a Seção de Bibliografia e Documentação da Biblioteca. A decisão foi comunicada aos funcionários em uma reunião no dia 16 de julho, realizada nas dependências da Biblioteca. A informação consta de uma ata da referida reunião, que hoje circula em grupos na internet. Nela se lê que “a diretora [da Biblioteca, a bibliotecária Marta Nosé Ferreira] informa que foi avisada pela coordenadora do Sistema Municipal das Bibliotecas Municipais de São Paulo [Raquel Oliveira] que, a partir de dois (02) de agosto deste ano, a Seção de Bibliografia e Documentação, criada no ano de 1975, será extinta”.

De acordo com a ata, a diretora da Biblioteca informou aos servidores, dos quais quatro são bibliotecários e uma é secretária, que a extinção da Seção ocorreria por meio de Portaria ou Decreto. E que tal medida acarretaria a transferência de dois, dos cinco bibliotecários, para a CSMB, que hoje centraliza o trabalho de catalogação. Caso contrário, os dois teriam de solicitar aposentadoria. No decorrer da última semana a Secretaria emitiu uma nota negando o fechamento da Seção e afirmando que os bibliotecários estavam apenas sendo realocados para dar conta de demandas do Departamento Central de Catalogação do Sistema Municipal de Bibliotecas. De acordo com a nota, o fechamento da Seção jamais foi cogitado, classificando como fake news os rumores nesse sentido.

 

Cópia da ata da reunião do dia 16 de julho, quando a chefe da Biblioteca comunicou aos servidores o fechamento da Seção.

 

A pressão

Ainda na semana passada, após pressão dos moradores da região na qual a Biblioteca está sediada, o Conselho Consultivo da Sub-Prefeitura da Sé decidiu pautar o assunto em sua reunião virtual no dia 04. Nela a chefe de gabinete da SMC, Thais Lara, e a Coordenadora do Sistema Municipal de Bibliotecas, Raquel Oliveira, afirmaram que a Seção não seria desativada, mas não explicaram como isso seria possível com menos dois bibliotecários, num quadro já defasado de servidores. A partir de 2015 uma bibliotecária e outros quatro servidores da Monteiro Lobato se aposentaram e uma solicitou transferência. Além disso, outras duas servidoras, sendo uma bibliotecária, se desligaram da Seção de Bibliografia e Documentação e passaram a atuar no atendimento ao público.

Essa situação, segundo interlocutores ouvidos pela Biblioo, precarizou bastante as atividades da Seção, que sempre recebeu um fluxo considerável de usuários, especialmente pesquisadores. Numa reportagem publicada pela Folha de São Paulo na última sexta-feira, 6, intitulada “Biblioteca Monteiro Lobato é tema de guerra de versões entre servidores e prefeitura”, a coordenadora-geral do Sistema Municipal de Bibliotecas, Raquel Oliveira, teria, além de acusar a notícia sobre o fechamento da Seção de ser falsa, dito que pediu para que a ata da reunião, onde o fechamento do Seção foi comunicado, fosse refeita com a “informação correta”.

“Não existe nenhuma guerra de versões. Na verdade, a Secretaria [Municipal de Cultura], diante da mobilização, resolveu voltar atrás do desmonte, mas escolheu o pior caminho, escolheu o caminho de dizer que é mentira, quando na verdade eles poderiam ter se retratado, dito que ‘diante da mobilização eles entendiam que não era isso que a população queria e [por isso] não fariam’.Existiam outros caminhos a serem seguidos, bem mais dignos”, protestou uma servidora.


Parte interna da Biblioteca Monteiro Lobato

 

Segunda esta servidora que, temendo represálias, pediu para não ser identificada, o sistema de catalogação é online, o que permite que os bibliotecários cataloguem os materiais sem, necessariamente, terem de ser deslocados para o Departamento Central de Catalogação do Sistema Municipal de Bibliotecas, que fica localizado em outro bairro. Ou seja, os servidores poderiam continuar catalogando, mas sem deixar a Seção de Bibliografia e Documentação sem pessoas para o atendimento. “A declaração que a Secretaria [de Cultura] está fazendo de que os dois funcionários da Seção aceitaram de comum acordo a realocação no setor de catalogação central não procede. Na verdade, eles apenas não se recusaram, tendo em vista que, como consta na ata assinada pela diretora, ou aceitariam, ou deveriam se aposentar”, esclarece uma servidora. Apesar dos dois servidores em questão preferirem não se pronunciar, a Biblioo teve acesso a um e-mail enviado pelo bibliotecário Antônio Carlos D’Angelo, responsável pela Seção de Bibliografia e Documentação, à coordenadora geral do Sistema Municipal de Bibliotecas, Raquel Oliveira. Nele, o servidor diz que foi “com grande espanto [que] recebemos a notícia de fechamento da Seção, conforme teor da Ata anexa da reunião presencial ocorrida na Biblioteca Monteiro Lobato”. “Não concordamos, mas, como respeitamos a hierarquia, não tivemos outra alternativa senão aceitar.

Fomos informados também que deveríamos optar entre aposentadoria ou transferência para o Setor de Catalogação da Lapa. Diferentemente do que diz o documento veiculado pela Biblioteca, ainda não informamos nossas respostas”, diz um trecho do e-mail que tem data do dia 09 de agosto. Nesta correspondência, o bibliotecário diz que “uma vez que a saída dos funcionários está atrelada ao desmonte da Seção e, a não ser que haja outros motivos, gostaria de solicitar a permanência dos mesmos na Biblioteca. Pelo menos até que seja designado um servidor com perfil e formação, para que o mesmo seja devidamente treinado com organização e em tempo suficiente”. Nós procuramos a Secretaria Municipal de Cultura que deu uma resposta protocolar, repetindo os mesmos termos da nota que havia sido divulgada à imprensa. A SMC repetiu que “trata-se também de fake news o rumor de que a biblioteca estaria acabando com a sua Seção de Acervo de Bibliografia e Documentação”, mas não respondeu nossa pergunta se é autêntica a ata da reunião do dia 16 de julho, quando a chefe da Biblioteca comunicou aos servidores o fechamento da Seção. Segundo a nota enviada em resposta às indagações da Biblioo, o ofício sobre transferência dos dois funcionários da área técnica de catalogação indicaria que esses quadros irão atuar no Departamento de Catalogação Central do Sistema Municipal de Bibliotecas (SMB), “de pleno acordo de ambas as partes”, fato negado pelos servidores conforme mostramos acima.

“A SMC ressalta, ainda, que a Biblioteca Monteiro Lobato possui quatro bibliotecários, número maior do que a média de servidores entre os equipamentos da CSMB, e que não haverá prejuízo para os frequentadores ou para o acervo. Reiteramos que os funcionários realocados são quadros técnicos que continuarão a desempenhar as mesmas funções em outro local, inclusive para a própria Biblioteca Monteiro Lobato”, conclui a nota da Secretaria.

Petição pública

Circula na internet uma petição pública que até o fechamento desta matéria contava com mais de mil assinaturas. Nela é solicitado a retomada da Biblioteca como centro de referência da cultura e da cidadania para crianças e adolescentes, bem como a presença de profissionais qualificados e em quantidade adequada para a preservação e gestão dos acervos e para o atendimento ao público e desenvolvimento de ações culturais. Os signatários da petição solicitam, ainda, a implementação de serviço de digitalização dos acervos e gestão dos direitos autorais e acesso público dos documentos; a destinação de verba para a compra de materiais próprios para a conservação e guarda dos livros e documentos de preservação; a destinação de verba para restauração de itens para os quais seja identificada a necessidade; a adequação e climatização dos ambientes de armazenamento dos acervos etc. Um dos itens listados dentre as demandas da referida petição está a de vistoria e adequação do prédio com equipamentos contra incêndio e outros incidentes. Sobre isso nós perguntamos à Secretaria se a Biblioteca possui laudo de vistoria do Corpo de Bombeiros, mas não obtivemos resposta. Não é demais lembrar que recentemente um importante equipamento cultural de São Paulo, que é a Cinemateca, foi atingida por um incêndio que destruiu parte de seu acervo.

Obrigações da Monteiro Lobato

Na reunião virtual do Conselho Consultivo da Sub-Prefeitura da Sé, realizada no dia 04, a bisneta do escritor Monteiro Lobato, Cleo Monteiro Lobato, que está nos Estados Unidos, afirmou que pelo acordo de doação que foi firmado entre SMC e os representantes do escritor, não seria permitida a retirada do acervo de preservação doado da Biblioteca, criada em 1936 juntamente com o famoso Departamento de Cultura e Recreação, presidido à época por Mário de Andrade, seu primeiro diretor.

Um dos trabalhos mais importantes do acervo da Monteiro Lobato é o Álbum da Dona Purezinha que, segundo apuramos, está em mau estado de conservação. Nós indagamos a SMC se há orçamento direcionado para a conservação e restauração de itens do acervo, como o Álbum da Dona Purezinha, mas fomos mais uma vez ignorados.

Tem novidade internacional…

Olá, pessoal!

Graças ao sucesso da adaptação e atualização de Lobato também para brasileiros nos Estados Unidos, agora faço parte da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB). 💪🏻📚 O espaço é fruto do trabalho de promoção de cultura brasileira feito pela Fundação Focus Brasil (https://focusbrasil.org) (Quer saber mais sobre a AILB? Clique aqui e leia: https://www.braziliantimes.com/comunidade-brasileira/2020/09/03/focus-brasil-cria-academia-internacional-de-literatura-brasileira.html) Agora, minhas fotos e biografia já estão publicadas na página oficial da AILB. Para conferir é só acessar: https://focusbrasil.org/membros-da-academia-internacional-de-literatura-brasileira/

E vem mais novidade por aí…em breve, estarei no Catálogo Internacional de Escritores Brasileiros da AILB e participarei também do “Focus Brasil em NY”, evento ao vivo e online agendado para o dia 21 de setembro.

Saci-Pererê: Representante das Pessoas com Deficiência na Literatura Infantil

Por: Gisele de Luna

Na literatura infantil a representatividade importa sim! E deveria ser amplamente explorada com o intuito de gerar maior e melhor visibilidade acerca da diversidade humana, o que facilitaria e muito a vida de milhares de indivíduos que por não serem típicos, acabam por serem segregados ou sofrerem as consequências de uma sociedade inculta e não inclusiva.

The Saci, Artur Mello Lattaro – Personal 3D

Encantada com o mundo da fantasia que os livros trazem para as pessoas, em especial às crianças, é possível contextualizar a importância da representatividade de todos seja nestes ou na vida cotidiana.

Em especial as crianças percebem  o quanto a representação traz sentido para a sua vida, quando elas conseguem a partir do outro compreender-se  fazendo parte de algo maior que elas, ou melhor, pertencente ao mundo, e assim sendo se relacionam e convivem melhor com este mundo por sentirem-se efetivamente fazendo parte.

Desse modo, podemos dizer que a criança estabelece as relações, possivelmente de modo mais saudável, por esta percepção colaborar para a geração de sua auto-imagem, além de fortalecer a sua auto-estima.

De uns tempos para cá, as mídias principalmente, tem atribuído maior espaço para que esta representação tão gritante e almejada ocorra, promovendo-a em comerciais, como também em sua programação esta tal representatividade. Outro ponto de destaque se dá as empresas de brinquedos que tem desenvolvido projetos que acolhem a diversidade, atribuindo riqueza na existência, por exemplo, de bonecas usuárias de cadeiras de rodas, negras, como cabelos crespos e encaracolados.

A literatura infantil também deveria colaborar mais para este processo, e sim, tornar-se mais atrativa ainda. Dito isso, através da leitura podemos avançar mais, aprender mais sobre temas que até então são deixados de lado, sem a devida atenção, todavia importantes. 

De uns tempos para cá, as mídias principalmente, tem atribuído maior espaço para que esta representação tão gritante e almejada ocorra, promovendo-a em comerciais, como também em sua programação esta tal representatividade. Outro ponto de destaque se dá as empresas de brinquedos que tem desenvolvido projetos que acolhem a diversidade, atribuindo riqueza na existência, por exemplo, de bonecas usuárias de cadeiras de rodas, negras, como cabelos crespos e encaracolados.

A literatura infantil também deveria colaborar mais para este processo, e sim, tornar-se mais atrativa ainda. Dito isso, através da leitura podemos avançar mais, aprender mais sobre temas que até então são deixados de lado, sem a devida atenção, todavia importantes. 

Devemos praticar mais, a pesquisa, o estudo antes mesmo de nos pronunciarmos acerca de determinado assunto, tema. Monteiro Lobato nos mostra isso com muita propriedade, nos ensina que, quando ao desejar falar sobre o Saci em suas obras, questiona publicamente sobre a origem do mesmo, buscando compreender a visão que o mundo tinha acerca deste ser tão intrigante. E lá, no livro de Monteiro Lobato  Saci-Pererê: resultado de um inquérito, temos acesso a inúmeros depoimentos que vão desde professores, psicólogos, leitores, pessoas letradas, outras nem tanto etc.

Quando vemos o Saci, tão inteligentemente explorado por Monteiro Lobato, é possível compor que o mesmo exerce um papel fundamental no que se refere a representatividade de pessoas negras, mas também aquelas que possuem alguma deficiência, como o fato do moleque Saci, ter um perna amputada. E sua condição não impede que ele reine, que ele apronte, brinque, interaja  fortemente com os demais. Demonstre sua inventividade e agilidade, ao locomover-se tão habilmente. Sim, é certo que para muitos, ele é um danadinho, mas psicologicamente falando agora, ele traz a vivacidade para aqueles que muitas vezes percebem-se como incapazes por possuírem uma deficiência, e não obstante aos demais que acabam por assistir as inúmeras habilidades e competências que o danadinho tem  e que sobressaem a sua condição física.
 

Dizem os amigos que esse tal Saci é filho do vento, só quer brincar. Nunca fez mal a alguém, mas que existe é verdade."

Depoimento de Manoel da Barroca, pág. 30 
 

Grande parte das características levantadas deste perneta pertencente ao folclore brasileiro, são positivas: duende genuinamente nacional, vivaz, inteligente, bom cavaleiro, protetor de ninhos de passarinhos, forte, entroncado, travesso… Em contrapartida, é certo também que existem pontos críticos que assustam e trazem a tona certa perversidade em suas ações. Mas, mesmo assim, Monteiro Lobato, nos evidencia o que há de melhor do Saci, bem elucidado em sua obra, trazendo o levante de conhecermos mais sobre nós mesmos e alcançarmos assim a independência cultural. Temos tantas histórias incríveis da nossa cultura deixadas de lado, para enaltecermos as princesas de outros reinos, por exemplo. 

Há, no Brasil, muita coisa digna de ser estudada pra justa contribuição do nosso folclore.

Depoimento de André Capeta, pág. 31 
 

Outro aspecto relevante que cabe a reflexão, o Saci não nasceu com a deficiência, ela foi adquirida em vida, algo que pode ocorrer com todos nós, pelo simples fato de estarmos vivos e existirem muitos riscos nesta aventura. Inclusive, na série brasileira Cidade Invisível, o Saci é um escravo fujão, que após ser açoitado, é mantido acorrentado em uma de suas pernas, e ele escolhe por cortá-la com o facão, para conseguir fugir daquela realidade,  a escravidão. Corajoso. Sobrevive. E o curioso é que neste caso, vemos a deficiência como libertação. Ou melhor, o fato de se tornar um perneta, uma pessoa com deficiência disponibilizou a ele o mundo, representando a resistência, rebelião, liberdade… 

Seria de bom tom que essa prática ocorresse em todas as circunstâncias com a intenção de promovermos a aceitação das diferenças do outro, através do respeito e entendimento sobre.  Creio que assim teríamos muito menos preconceito e discriminação presentes em nossas vidas.  O mundo seria menos cruel e horrível, com aquilo que é diferente do que sou ou penso. 

A riqueza de todo este estudo se dá por conseguir captar que na visão do autor, a pessoa vem primeiro, e depois a sua deficiência. Traduzindo claramente que independentemente das diferenças, somos indivíduos no mundo, com o mundo, em que a diversidade deve ser respeitada, a partir do exercício da cidadania consciente, agindo empaticamente na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

E que venham novos pensares e mais "Sacis" em nossa Literatura Infantil. É isso aí!

 Gisele de Luna, Psicóloga, Cerimonialista, Recreadora Educativa, Mãe típica e atípica. Especialista em Educação Especial com ênfase em Deficiência Intelectual, Física e Psicomotora. Empresária, acredita que "Em um mundo plural tornar um evento único é o seu desafio."

Quando queremos morar em um abraço

Maio 08, 2021 – Por: Gisele de Luna

Creio que um abraço nunca fez tanta, mas tanta falta como nestes últimos tempos, a ponto de se querer morar nele. É muito abraço acumulado esperando a hora de abraçar, eu sei. É doído não poder abraçar, ainda mais quando há tanta perda, privação e sofrimento no mundo. E aprender a lidar com isso, para uns é mais fácil e para outros nem tanto.

Ilustração de Rafael Sam, cedida por Cleo Monteiro Lobato

Estudos mostram que os abraços têm poderes maravilhosamente incríveis, como desacelerar os batimentos cardíacos e a pressão sanguínea, além de diminuir potencialmente o risco de doenças do coração. Tudo isso acontece pelo simples fato da pele possuir uma rede de centros de pressão que ficam em contato direto com o cérebro por intermédio de nervos ligados a vários órgãos, dentre eles o coração.

“Gosto de abraço que me embrulha me enlaça e me faz presente.”
Abraçar é uma das maneiras mais simples de liberar o hormônio do amor e da felicidade, sim, oxitocina. Um abraço de verdade tem inúmeros benefícios para o corpo e para a mente.
O abraço é tremendamente importante, na infância traz sensação de proteção que se mantém na vida adulta. Então, é certo que um abraço cheio de carinho tem a capacidade de transmitir acolhimento, aceitação e amor, remete ao aconchego e proteção de mãe, certamente a primeira demonstração de tudo isso que é recebido na vida.
“Tem coisas que só um abraço de mãe é capaz de curar.”
A ausência dos abraços, ou do afeto faz com que as crianças venham a se tornar adultos com insegurança, mais agressivos, e ainda com dificuldades reais de relacionamento. Isso se dá por não terem a referência deste afeto, e inconscientemente buscam meios de se proteger, por não saber lidar com questões ligadas a afetividade. Mas, com muito acolhimento, é possível mudar esta realidade, e o indivíduo se reprogramar para o mundo.

Ilustração de Rafael Sam, cedida por Cleo Monteiro Lobato

Ninguém duvida do poder do abraço. Se o abraço faz tão bem para a saúde, se ativa o corpo todo, ou previne doenças, diminui a ansiedade, regula o estresse, ele é capaz de curar o mundo sim.
A psicoterapeuta norte-americana Virginia Satir disse:
“É preciso 4 abraços por dia para viver, oito abraços por dia para nos manter saudáveis, e 12 abraços por dia para crescer e se desenvolver.”

Então, quantos abraços você já deu hoje? E, quantos abraços você pretende dar amanhã?

É uma explosão de carinho, um gesto saudável, bom para você, ao próximo e ao mundo. Seria maravilhoso indicar a terapia do abraço, mesmo não sendo recomendado a terceiros neste período, devido ao distanciamento social, você pode se abraçar muito, abraçar o travesseiro, a boneca, a natureza – aquelas árvores grandes, como também aqueles que convivem com você.

Ah, marque em sua agenda, dia 22 de maio é Dia do abraço. Esta data teria surgido a partir da iniciativa do australiano Juan Mann que criou a campanha Free Hugs Campaign, em 2004, com o simples objetivo de distribuir abraços "gratuitos" pelas ruas de Sydney. Enquanto não houver a possibilidade de abraçar pessoalmente quem mais ama, você pode enviar mensagens virtuais, elas ajudam a encurtar as distâncias, e são cheias de sentimentos para compartilhar ainda mais abraços neste dia.

Lembre-se, agora que você sabe o quanto abraçar é positivo e terapêutico, quando tudo voltar ao normal, e existir a oportunidade de abraçar alguém, aproveite! Faz bem para você e para o outro, além de ser um ato gratuito e recíproco, um verdadeiro encontro de almas e corações.

Use e abuse do abraço. Não há contra indicações. É isso aí!

Gisele de Luna, psicóloga, crp 06/52233, cerimonialista, recreadora educativa, mãe típica e atípica, ativista em prol da inclusão e acessibilidade. Especialista em Educação Especial com ênfase em Deficiência Fisica, Psicomotora e Intelectual.

A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto

Dois grandes nomes da Literatura brasileira e dois universos distintos. É fato que Monteiro Lobato e Lima Barreto traçaram suas carreiras em contextos diferentes. No entanto, nosso autor de Taubaté e o escritor carioca, filho de ex-escravos, trocavam figurinhas e se elogiavam.

Apesar de a comunicação ter criado caminhos para uma série de interpretações sobre a relação entre os dois (já que os Correios desviaram diversas correspondências de um para o outro), por muitos anos, eles trocaram cartas, sempre cordiais e recheados de elogios à capacidade crítica e literária de cada um como escritor.

Alguns documentos refletem esta realidade, como as cartas que eles escreviam um ao outro entre 1918 e 1922. Edgard Cavalheiro, um dos biógrafos mais conhecidos de Lobato, por exemplo, lançou o livro “A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto” e em 1956, a obra “Correspondência”, de Lima Barreto, editada por Francisco de Assis, já trazia também uma série de informações sobre a relação entre os dois. Um destes registros é um artigo que Lobato escreveu em sua Revista do Brasil, em que ele chama Lima Barreto de “criador de uma nova fórmula de romance: o romance de crítica social sem doutrinarismo dogmático”.

O autor teria afirmado que desejava “ardentemente vê-lo entre seus colaboradores”. Depois disso, Lima Barreto se tornou colunista do impresso de Lobato e editou seu romance “Vida e Morte de M. K. Gonzaga” junto à empresa do autor. Posteriormente, Lobato também editou outras obras do escritor carioca, como a segunda edição de “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”.

Em seu artigo para o Homo Literatus, o historiador cultural Joachin Azevedo revelou que outras cartas reunidas por Francisco de Assis Barbosa, biógrafo de Lima Barreto, comprovam que o médico Gastão Cruls confirmou que Monteiro Lobato realmente procurou Barreto no Rio de Janeiro, mas devido à embriaguez do escritor, Lobato não teria tido coragem de se apresentar a quem ele considerava o maior dos romancistas brasileiros. Azevedo constata, então, que Lobato admirava o escritor Lima Barreto, mas não soube aceitar o homem Lima Barreto.

Outros registros do acervo disponível em nosso site revelam que Lobato chegou a enviar cartas oferecendo ajuda financeira para Lima Barreto, pouco antes de ele ser internado e morrer.

A atitude de Lobato é mais uma evidência de que Lobato valorizava o respeito e o talento ao amigo de cartas, que é um grande exemplo.

O idolatrado racismo de Monteiro Lobato

Autor: Dra. Vanete Santana-Dezmann

Chegamos ao século XXI com vontade de renovar o mundo e quebrar as velhas estruturas. “Abaixo o preconceito” é o novo e bem-vindo lema. O que muitos que seguram esta bandeira parecem ignorar, porém, é que não se constrói um novo mundo do nada e que a cultura não se encontra fora de nós. Assim, alguns dos mesmos que se proclamam defensores dos historicamente oprimidos – mulheres e negros –, posicionando-se contra a misoginia e o racismo, ovacionam Martinho da Vila, cantando em coro “Ô nêga, vá trocar esse batom, porque assim não estás em bom tom. Combina com o esmalte da unha, mas esse vermelho encarnado esconde as virtudes que tens. Também está excessivo o perfume. Juro, não é só ciúme. Me orgulho de te verem bem. Não fala muito quem sabe falar. Não compra tudo quem sabe comprar. Não bebe muito quem sabe beber. Não come de tudo quem sabe comer. Mas ama muito quem tem só um amor. E tu és a minha única flor. Vai, nêga!”.

Em outras palavras: “então, negra, não é porque você é capaz de falar, comprar, beber e comer, que você vai fazer o que quer. Não vai sair de batom vermelho e perfume simplesmente porque você é minha propriedade e eu,  acho alfa forte e seguro, não quero”. Paradoxal e contraditoriamente, muitos que continuam cultuando este e outros sambas dos anos 70, com suas letras misóginas e – será que não? – racistas, decidiram cancelar Monteiro Lobato a todo custo. Basta explicar que Lobato usou para se referir aos negros do início do século XX o jargão corrente à época (e os motivos por que o fez), e comprovar que, no conteúdo, eleva as personagens da etnia negra à mesma posição que ocupam as de etnia branca? Não, não basta!

Basta explicar que, se Lobato se dirigisse a um público leitor negro, usaria outros termos? Senão por não ser racista, ao menos por tino comercial? Não, não basta! Basta explicar que não havia público leitor negro no início do século XX e que isso não era consequência da literatura que então se praticava, mas, sim, das características sociais e econômicas da época? Não, não basta! Basta explicar que O Presidente Negro é um livro de ficção científica e que as
falas das personagens de um livro não reproduzem o pensamento do autor do livro, até porque há diferentes personagens, com diferentes pontos de vista, e que, se as falas das personagens reproduzissem o pensamento do autor, todo escritor seria esquizofrênico? Não, não basta!

Basta explicar que Lobato ficou “P da vida” quando editores nos EUA não compreenderam o livro O Presidente Negro e desabafou, em tom irônico e escrachado, sua marca registrada, que lá chegou tarde demais; que se tivesse chegado antes, quando o Ku Klux Klan assolava o país, seu livro teria sido publicado? Afinal, ele escreveu um livro contra o racismo que foi tomado como sendo racista. Então, se era para ser assim, que o livro tivesse sido apresentado aos verdadeiros racistas, que, pelo motivo errado, teriam-no publicado. Não, não basta!

Basta explicar que não se analisam pedaços descontextualizados de falas e textos, como se tem feito no caso de Lobato, pinçando a dedo trechos de suas cartas e obra com o exclusivo interesse de comprovar um veredito previamente proclamado, quando o certo é a análise preceder o veredito? Não, não basta! Basta explicar que Lobato foi reivindicado por comunistas, integralistas e eugenistas, embora não seja possível provar que ele tenha sido comunista ou integralista ou eugenista e que, como todo ser humano de carne e osso, como você e eu, Lobato, à medida que conhecia melhor as coisas – lendo sobre elas, frequentando reuniões sobre elas, conversando com quem as apresentava –, mudou de opinião sobre muitas coisas ao longo da vida? Não, não basta! E por que não basta?! Porque, na era do twitter, ninguém se dá ao trabalho de ler mais do que 280 caracteres. Porque, na era do politicamente correto, qualquer ocupante de algum “lugar de fala” pode falar e escrever o que quiser, pode até, simbolicamente, enforcar Lobato pendurado em uma árvore, como faziam os condenáveis membros do clã, enquanto dançam e cantam “Ô nêga, vá trocar esse batom!”. Pois é… a cultura não se encontra fora de nós… E é mais fácil ver um grão de pólen no olho alheio do que um cabresto bem posto.

Vanete Santana-Dezmann é professora, pesquisadora e tradutora. É responsável pelas Jornadas Monteiro Lobato USP-JGU, juntamente com John Milton. Tem pós-doutorado em Estudos da Tradução (USP), com estágio de pesquisa no Goethe-Museum de Düsseldorf; doutorado em Teorias de Tradução (UNICAMP), com estágio de pesquisa na Universidade Livre de Berlim, e mestrado na mesma área (UNICAMP). Graduou-se em Letras (UNICAMP).

 

O retrato falado do “racismo na obra infantil de Lobato” – Vanete Santana-Dezmann. https://vanetesantanadezmann.blogspot.com/2021/01/o-retrato-falado-do-racismo-na-obra.html

Emília, a cidadã-modelo soviética: Como a obra infantil de Monteiro Lobato foi traduzida na URSS. – Marina Darmaros e John Milton: https://www.researchgate.net/publication/334594154_Emilia_a_cidada-modelo_sovietica_Como_a_obra_infantil_de_Monteiro_Lobato_foi_traduzida_na_URSS

Beloved, Amistad e Negrinha… libelos contra o racismo – Vanete Santana-Dezmann: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/dilemas-contemporaneos/beloved-amistad-e-negrinha-
libelos-contra-o-racismo/

LOBATO POR LOBATO – A PEDIDO DE UM AMIGO, MONTEIRO LOBATO FORNECEU AS SEGUINTES NOTAS BIOGRÁFICAS – Furacão na BOTOCÚNDIA)

“Nasceu em Taubaté, aos 18 de abril de…1884(na verdade 1882). Mamou até 87. Falou tarde, e ouviu pela primeira vez aos 5 anos, um célebre ditado: “Cavalo pangaré/Mulher que.. em pé /Gente de Taubaté/Dominus libera mé”. Concordou. Depois, teve caxumba aos 9 anos. Sarampo aos 10. Tosse comprida aos 11.

Primeiras espinhas aos 15. Gostava de livros. Leu o Carlos Magno e os doze pares de França, o Robinson Crusoé, e todo o Júlio Verne. Metido em colégio, foi um aluno nem bom nem mau – apagado.

Tomou bomba em exame de português, dada pelo Freire. Foi promotor em Areias, mas não promoveu coisa nenhuma. Não tinha jeito para a chicana e abandonou o anel de rubi(que nunca usou no dede, aliás).

Fez-se fazendeiro. Gramou café a 4.200 a arroba e feijão a 4000 o alqueire. Convenceu-se a tempo que isso de ser produtor é sinônimo de ser imbecil e mudou de classe. Passou ao paraíso dos intermediários.

Fez-se negociante, matriculadíssimo. Começou editando a si próprio e acabou editando aos outros. Escreveu umas tantas lorotas que se vendem – Urupês, gênero de grande saída, Cidades mortas, Idéias de Jeca Tatu, subprodutos, Problema vital, Negrinha, Narizinho.

Pretende publicar ainda um romance sensacional que começa por tiro: Pum! E o infame cai redondamente morto… Nesse romance introduzirá uma novidade de grande alcance, qual seja, a de suprimir todos os pedaços que o leitor pula. Particularidades: não faz nem entende de versos, nem tentou o raid a Buenas Aires. Físico: Lindo!”

A Novela Semanal, São Paulo n. 1, 2 maio de 1921

MONTEIRO LOBATO – UM BRASILIERO SOB MEDIDA ESCRITO POR MARISA LAJOLO – CAPÍTULO 1

Por: MARISA LAJOLO

Na Noite de 18 de abril de 1882 nasce em Taubaté o primogênito do proprietário das fazendas Paraíso e Santa Maria. O recém-nascido é o primeiro filho de José Bento Marcondes Lobato e de Dona Olímpia Augusta Monteiro Lobato.

Neto pelo lado materno de José Francisco Monteiro, visconde de Tremembé, o menino recebe na pia de batismal o nome de José Renata. A família o trata de Juca e Juca será para eles pela vida afora, mesmo depois que, por volta dos onze anos, decide mudar de nome: prefere José Bento, cujas iniciais coincidem com as letras encastoadas em ouro numa bengala de seu pai Juca cobiça a bengala, naquele momento tempo complemento indispensável à elegância masculina.

A situação é emblemática da força de vontade, do senso prática e da garra do menino que viria a ser o famoso escritor Monteiro Lobato.
No aconchego doméstico, decorre a infância comum de menino medianamente abastado do interior paulista, no fim do século. Vive com os pais e as irmãs menores, Teca, Judite, na fazenda Santa Maria em Ribeirão das Almas, nos arredores de Taubaté.

Entremeia a vida na roça com temporadas longas na casa que os pais mantinham na cidade e com visitas demoradas à casa do avô visconde, no meio da de uma chácara. Como todos os meninos de sua classe social, Juca tem um pajem que o acompanha nas brincadeiras.

Com as irmãs Teca e Judite faz bonecos e bichos de chuchu e tem muito medo de assombração. Sua infância é cheia de pescarias no ribeirão, de banhos de cachoeira, de tiros com sua espingardinha marca Flaubert, de passeios em seu cavalo Piquira.

Ao tempo dos calças curtas, trepa em árvores, chupa fruta no pé, aprende a gostar de circo, de pamonha, de içá torrada e de pinhão. Nas visitas à casa do avô – conta mais tarde – fascina-o a biblioteca: os livros, em particular os ilustrados, seduzem-no ainda mais do que a figura do imperador Pedro II, que conhece como hóspede do avô numa das últimas viagens imperiais a São Paulo.

Compensando a rigidez das relações afetivas com pai austero, Juca tem imensa ternura pela avó materna, a humilde professora Anacleta Augusta do Amor Divino, em tudo diferente da viscondessa legítima. Esta, a senhora Maria Belmira França, com quem o visconde se casará depois de ter tido dois filhos com Anacleta, será para sempre a visconda, na voz desdenhosa de Juca.

A dureza da forma de tratamento assinala a precoce compreensão de todo o preconceito que nascimentos ilegítimos e relações extraconjugais despertavam no século passado, tempo de convenções sociais bastante rígidas: a querida avó Anacleta morava em casinha bem menor e mais distante do que a casa da visconda…. As primeiras lições do menino Juca são em casa, com dona Olímpia, que o ensina a ler, escrever e contar.

Depois disso, como era uso no tempo, um professor particular – Joviano Barbosa – encarrega-se de sua educação. É só mais tarde que Juca frequenta as raras e efêmeras escolas particulares de Taubaté: o colégio do professor Kennedy, depois o Colégio Americano( escola mista dirigida por Miss Stafford, educadora irlandesa), depois o Colégio Paulista.

Nesse último, foi aluno do professor Mostardeiro, mestre que volta a procurar mais tarde, depois de formado, para com eles discutir as novas filosofias que tanto o fascinavam em São Paulo: Mostardeiro era positivista, o que era vanguarda para a época e o diferenciava na intelectualidade da pacata Taubaté. Juca frequenta, finalmente, o Colégio São João Evangelista. Ali, o diretor é o professor Antônio Quirino de Souza e Castro, que anos depois desempenha importante papel na história de Monteiro Lobato, pois é na casa do antigo mestre que o ex-aluno se aproxima da mulher será sua companheira de toda a vida, a neta do Velho Quirino.

Mas ainda não é tempo de amores. O tempo é de escolas, e com São João Evangelista aparece encerrada a vida escolar de Juca em colégios do interior paulista. O rumo é São Paulo. O Século XIX está chegando ao fim, e as malas de Juca estão prontas, com destino ao Instituto Ciências e Letras da capital, onde vai estudar as matérias necessárias ao ingresso no curso de Direito.

Chega à Paulicéia nada desvairada de 1895, mas é reprovado em Português e tem de arrepiar caminho: volta para Taubaté e para o Colégio Paulista. E é lá que que estreia em letra impressa como colaborador de O Guarany, improvisado jornalzinho estudantil.

O menino, Juca para a família, começa a ser para os leitores do jornaleco Josbem e Nhô Dito, pseudônimos, com que assina suas primeiras colocações: uma crítica a Enciclopédia do Riso de da Galhofa( espécie de almanaque, extremantes popular) e uma crônica dos acontecimentos diários da escola.

Hoje é dia de “falar a nossa língua”

Falar uma língua não é apenas comunicar-se com um outro indivíduo. Falar uma língua é também consumir sua história, cultura e, sem dúvida alguma, sua Literatura.

Oficial em pelo menos nove países, a língua portuguesa tem seu dia celebrado na data de hoje desde 2009. A comemoração foi criada pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) , organização parceira da UNESCO, para celebrar a língua e suas respectivas culturas, como a literatura brasileira de Monteiro Lobato, importante herança de nossa língua que com seu apoio, conseguimos manter dia após dia através dos livros, histórias e registros.

São quase 300 milhões de falantes em todo o mundo, com forte extensão geográfica e riqueza cultural. Graças a esse multilingüismo, é que encontramos hoje uma diversidade cultural e promovemos, juntos, uma comunicação internacional.

Viva a Língua Portuguesa! Hoje é dia de “falar a nossa língua”!

Monteiro Lobato na cabeça

Por: João Luís Ceccantini

Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (a mais ampla que se faz sobre o assunto no país), grande parte dos leitores brasileiros aponta Monteiro Lobato como seu escritor mais admirado ou aquele de que mais gosta.E por que essa escolha? Alguns diriam, de pronto: “porque se trata de um clássico”. Certamente, Lobato se tornou um “clássico”, mas colar, hoje, essa etiqueta ao autor, ainda que dê ideia do prestígio de que sua obra usufrui nos mais variados círculos de leitores – dos leigos aos especializados – oferece o risco, talvez, de percebê-la por uma perspectiva simplista. Se, de um lado, fortalece a ideia pertinente de que a literatura de Lobato influencia, de forma marcante, os autores que o sucedem e de que integra um patrimônio cultural que efetivamente vale a pena conservar e transmitir de geração a geração, de outro, pode transformá-la apenas em um conteúdo a mais entre outros, a ser “transmitido” a todo custo aos alunos.E nada trairia mais o espírito da literatura de Lobato do que abordá-la desse modo. O escritor, como poucos, sempre defendeu com muita convicção a liberdade do leitor, seu direito de gostar ou não gostar deste ou daquele livro e mesmo de rejeitar um autor que considerasse maçante ou tolo, ainda que se tratando de um medalhão das letras.*Professor de Literatura Brasileira da UNESP/ FCL Assis.Se a literatura de Lobato tem resistido bravamente ao tempo é porque conta com um pelotão de “leitores-mediadores” que a defendem e a promovem com garra. Leram Lobato geralmente na infância ou na juventude, e ficaram encantados pela literatura do escritor. Vivenciaram uma experiência de leitura impregnada de afetividade que deixou fortes marcas na memória, tornando-os profundamente convencidos de que vale a pena ler a obra desse autor original – e assim, querendo muito compartilhá-la com outros leitores.

Avós, pais, irmãos, primos, tios, amigos, bibliotecários, escritores, artistas e, claro, professores têm se empenhado em levar as novas gerações a conhecer a obra de Lobato. Isso é o que, acima de tudo, a tem mantido viva nos corações e mentes de leitores de sucessivas épocas.Esses “leitores-mediadores” fazem isso porque, na essência, se tornaram leitores apaixonados pela obra do escritor, encontrando nas páginas de Lobato um universo dos mais ricos, capaz de incendiar a imaginação, de provocar o riso, de alimentar o intelecto, de despertar o senso crítico, de multiplicar sentidos. Isso, para dizer o mínimo.No vigoroso projeto literário do escritor, um dos principais tópicos que têm sido destacados é a revolução realizada no que diz respeito à representação da infância. Até Lobato, as crianças eram representadas na literatura infantil brasileira, de um modo geral, de forma bastante artificial, com a finalidade primeira de promover modelos de educação, de “bom comportamento”, de valores morais etc. Em realidade, as personagens infantis antes dele, com raras exceções, constituíam um pretexto para promover valores adultos numa literatura de cunho edificante, não permitindo maior identificação dos leitores infantis com o texto que era a eles destinado. Lobato rompe radicalmente com os padrões, estereótipos e clichês associados a essa “literatura embolorada” e tira de cena as crianças modelares, submissas aos adultos e deles dependentes. Apresenta-nos a boneca-moleca, Emília, definida por si mesma como a “Independência ou Morte”, assim como dá vida aos destemidos aventureiros Narizinho e Pedrinho.

São personagens flagradas em imensa liberdade, distantes que estão de pais e mães, porque é sempre tempo de férias num sítio, em que os adultos presentes – Dona Benta e Tia Nastácia – não assumem a sisuda máscara da autoridade repressora.Outro aspecto fundamental na obra de Lobato é o modo especial como o autor lidou em suas narrativas com o trânsito que as personagens fazem entre a realidade e a imaginação. À medida que o escritor foi desenvolvendo sua obra, cada vez com maior ousadia, foi dissolvendo quaisquer fronteiras entre o real e o imaginário, permitindo aos integrantes do Sítio do Picapau Amarelo a ruptura radical com as coordenadas espaciais e temporais, bem como com as surradas convenções da literatura dita “realista”.Nessa obra de alta carga imaginativa, lógicas paralelas são construídas no mundo da fantasia pelo qual circulam as personagens do Sítio, o que lhes confere (e ao leitor) uma carga de liberdade como até então não se tinha visto na literatura infantil brasileira. Lobato constrói, assim, uma obra vibrante, em que o recurso ao pó de pirlimpimpim ou ao “faz de conta” propiciam uma experiência única à “turma do Sítio”.

É importante frisar, entretanto, que em Lobato a fantasia não é sinônimo de alienação; ao contrário, cria tensões fecundas com a realidade, que, em geral, propiciam uma visão original e crítica do meio. Aliás, as narrativas de Lobato estão sempre empenhadas em valorizar a emancipação, a curiosidade e a autonomia das crianças tanto frente aos adultos quanto às instituições sociais e às convenções, colocando a realidade prosaica continuamente em xeque. Sua literatura é feita de representações que rejeitam as soluções simplórias, o maniqueísmo e as ideologias, promovendo antes o questionamento contínuo de valores, a reflexão e, por vezes, até mesmo uma postura iconoclasta.Enfim, no conjunto, o universo literário inventado por Lobato constitui um irresistível convite à leitura para pessoas de todas as idades. Esses leitores, por sua vez, convertem-se em potenciais mediadores para novos leitores, instaurando um movimento contínuo, como poucas vezes se tem visto na cultura nacional. Tal fenômeno, pelo que os dados indicam, não tem permitido que o leitor brasileiro de sucessivas gerações tire Lobato da cabeça. O que, diga-se de passagem, é ótimo! Que assim se faça por muito tempo…

Carta a Purezinha

Créditos e fonte: http://www.projetomemoria.art.br/MonteiroLobato/monteirolobato/leia.html

Carta a Purezinha

À sua esposa, Pureza Monteiro Lobato, da prisão política de São Paulo em março de 1941

Purezinha

Só contarei o que é a vida em prisão. É a gente sozinho com o pensamento e nunca o pensamento trabalha tanto. Mas de tanto trabalhar acaba girando num círculo, isto é, volta sempre às mesmas coisas. Os pontos que formam o círculo do nosso pensamento, ou as estações em que o pensamento pára, para pensar sempre a mesma coisa, são – 1º você. Penso em V. com uma ternura imensa e um imenso dó, e culpo-me de um milhão de coisas. Meu dever era só cuidar da tua felicidade, Purezinha, e no entanto passei a vida a te contrariar e a fazer asneiras que tanto nos estragaram a vida. Se eu tivesse ouvido em negócios, minha situação seria hoje de milionário. Não ouvi, nem sequer te consultei, e o resultado foi desastroso. Cheguei até à prisão!

Depois de pensar e repensar em você e de convencer-me que apesar de todas as aparências, e da nossa eterna divergência, é você a única pessoa que eu amo no mundo, pulo para outra estação.