“Negrinha” em sala de aula; uma experiência para quebrar preconceitos

“Negrinha” em sala de aula; uma experiência para quebrar preconceitos

A ideia deste texto é compartilhar com educadores, uma experiência bastante interessante, de como o professor pode utilizar o conto antirracista Negrinha, de Monteiro Lobato, para discutir com seus alunos, em sala de aula, a situação atual do preconceito e do racismo no Brasil.

Entre as inúmeras pesquisas que analisam essa temática na obra de Lobato, encontramos a dissertação, apresentado pela professora Tatiane Cristina da Costa, para o Mestrado em Letras, na Escola de Filosofia, Letras e Humanas da Universidade Federal de São Paulo, em 2019, intitulado: Negrinha na sala de aula: estímulo ao preconceito ou à reflexão?”.

Conduzida em sala de aula, essa experiência possibilitou uma análise sobre a recepção dos estudantes em relação a esse famoso conto lobatiano, com a intenção de observar como e a partir de quais recursos esses estudantes, construiriam hipóteses interpretativas sobre o texto, em especial no que diz respeito à questão racial.

A ideia, de acordo com a pesquisadora, foi justamente verificar se a leitura do conto Negrinha estimularia ou não o racismo, se contribuiria ou não para uma reflexão acerca do tema entre os próprios estudantes. Esse trabalho foi desenvolvido durante dois dias e envolveu um grupo de alunos, a maioria com 17 anos de idade, de uma escola técnica (ETEC), localizada no bairro Paraisópolis, na cidade de São Paulo, em dezembro de 2018. O grupo, formado em sua maioria, por estudantes que se declararam afrodescendentes, estudaram em escolas públicas durante o Ensino Fundamental e na maior parte, eram de famílias com renda de até 2 salários mínimos mensais para o seu sustento, o que faz com que elas sejam consideradas de renda salarial baixa.

A pesquisa aconteceu em dois momentos distintos. No primeiro, os alunos receberam o conto Negrinha para uma leitura individual e silenciosa da narrativa, devendo, quando julgassem necessário, fazer anotações sobre todas as observações que tiveram. É importante dizer, que o grupo ainda não tinha lido a obra e nem recebeu qualquer tipo de influência que pudesse direcionar sua interpretação. Foram então formuladas questões para ouvir os comentários com relação a linguagem, enredo, estrutura, personagens, autor e sentimentos que o conto despertou.

Após a leitura, os alunos revelaram que se sentiram muito tocados pelos maus tratos e abusos sofridos pela menina, que a narrativa mexeu muito com o sentimento deles, despertando compaixão e até mesmo a vontade de chorar durante a leitura. Palavras diferentes, pouco ou nunca ouvidas por eles, chamaram a atenção, mas não foram empecilho para que pudessem identificar o significado delas.

O estudo identificou que a leitura de Negrinha despertou nos alunos percepções importantes como a corrupção dos homens pelo meio, a valorização de coisas simples, como o brincar de bonecas, a tolerância em meio as maldades sofridas pela protagonista e inclusive o papel da mulher na sociedade da época. Outros temas importantes como a

frustração de Dona Inácia por não ter filhos e descontar na pobre menina esse sentimento, o racismo dessa personagem (e não do autor), o conformismo da própria Negrinha que se sentia culpada e merecedora dos maus tratos sofridos por tanto ouvir da dona da casa que esse tratamento servia para educá-la, a transformação pelo brincar tambem foram discutidos pelo grupo.

Não foi necessária, de acordo com a professora que realizou a pesquisa, qualquer explicação ou introdução dos temas aos alunos, que pelo contrário, se mostraram autônomos, críticos e maduros para que houvesse uma leitura sem a necessidade de intervenções. Os procedimentos didáticos utilizados nessa atividade privilegiaram a leitura individual e a livre interpretação do texto por parte dos estudantes. Vale ressaltar ainda, que de acordo com educadores, a ironia presente ao longo de toda a narrativa, é uma das modalidades mais difíceis de ser identificada, porque ela exige maturidade do leitor. Mas apesar disso, os estudantes conseguiram identifica-la na leitura.

RESULTADOS DO SEGUNDO MOMENTO ESTUDO

O segundo momento contou com a construção coletiva do contexto histórico-social da década de 1920. Foram levantadas várias questões importantes como o crescimento das cidades, a marginalização do campo, a abolição da escravatura, a situação precária dos negros após a abolição e a mão-de-obra imigrante no Brasil. Após as discussões a respeito desse contexto histórico, no qual o conto foi escrito, os alunos fizeram uma reflexão, tendo como foco principal o papel do negro na sociedade da época.

Os alunos identificaram a falta de amparo da sociedade e do governo aos ex-escravos, após a abolição, apontando essa a causa para que eles passassem a viver à margem da sociedade e continuassem a sofrer com os maus tratos nas próprias fazendas. Questionados se a impressão que tiveram inicialmente do conto após a discussão do segundo dia havia mudado alguma coisa, os alunos afirmaram que nada havia mudado e alguns inclusive se mostraram convencidos de que o texto havia sido escrito para conscientizar as pessoas e apresentar a realidade dos negros no nosso país.

Os alunos também foram questionados se acreditavam que o foco do livro seria mesmo discutir o preconceito racial ou se o conto seria fruto do suposto racismo do autor. A conclusão, foi a de que o preconceito racial era o foco do livro, porque a maneira como a personagem Negrinha foi retratada, fez a maioria deles ter simpatia por ela, chegando inclusive a chorar durante a leitura por compaixão à menina, o que não ocorreria se o autor fosse realmente racista.

A atividade evidenciou, a partir das afirmações feitas pelos próprios participantes da pesquisa, que as discussões sobre o preconceito racial são muito incipientes e que o estudante reconhece a necessidade desse tipo de debate para que o problema possa ser efetivamente combatido. O texto apresentado ao grupo foi um ponto de partida importante para as reflexões sobre esse assunto e também sobre o autor mostrando que a leitura deste conto nas escolas pode despertar a criticidade dos jovens leitores, algo que o próprio autor sempre buscou.

As conclusões desse estudo, demonstraram ainda que os jovens gostam de participar e expor suas opiniões, deixando claro o quanto apreciam ser ouvidos e também ter suas opiniões respeitadas. Esse fato é um indicativo claro da necessidade de se

fomentar a leitura e a interpretação dos mais variados textos nas salas de aula em todo o Brasil. Mas o foco precisa ser não apenas despertar nos nossos estudantes o hábito pela leitura e sim, desenvolver nesses jovens leitores o senso crítico e intelectual, atributos fundamentais na formação de cidadãos verdadeiramente atuantes em nossa sociedade.

Para acessar o conteúdo completo desse estudo realizado pela professora Tatiane Cristina Costa, basta acessar este link: https://monteirolobato.com/wp-

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DICA PARA EDUCADORES

Para ler os textos de Lobato, é preciso antes entender o momento histórico vivenciado pelo escritor, suas convicções políticas, sua poética, seu projeto literário e a importância de sua iniciativa para a formação do mercado editorial brasileiro. Seus textos dialogam com o contexto histórico das décadas de 1920, 1930 e 1940, período onde tivemos a Segunda Guerra Mundial, as intervenções de Getúlio Vargas e a mentalidade escravocrata que permeava as relações sociais.

Nunca é demais lembrar, que aula de literatura é também aula de história, sociologia, geografia e filosofia. Conhecer um pouco mais de Lobato, sua fortuna crítica, livros e artigos de estudiosos como Marisa Lajolo, Milena Martins, Leonardo Arroyo, Cassiano Nunes, Nelly Novaes Coelho, Regina Zilberman, João Luis Ceccantini, Cilza Bignotto e Vanete Santana Dezmann entre outros, podem oferecer ao educador um curioso panorama sobre as diversas facetas do escritor a ponto de enriquecer a prática educativa.

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REFERÊNCIAS:

https://monteirolobato.com/wp-content/uploads/2021/08/DISSERTACAO-FINAL-Tatiane-

Negrinha; mais que um conto, uma reflexão antirracista

Mais de cem anos depois de seu lançamento, Negrinha se mantém como um conto muito atual pela sua temática que envolve as questões raciais que ainda se mantém bastante problemáticas em nosso país, uma nação que infelizmente persiste no chamado “mito da democracia racial”.

Em sua primeira edição, lançada em 1920, o livro, voltado para o publico adulto, era composto por seis contos: Negrinha, Fitas da vida, O drama da geada, O Bugio moqueado, O Jardineiro Timóteo e O colocador de pronomes. Destes apenas o conto Negrinha, que dá nome ao livro, não se passava no ambiente urbano e foi escrito por Lobato antes e depois da viagem aos Estados Unidos. Esse foi também o primeiro livro em que o escritor começa a se afastar do ambiente rural.

Escrito em terceira pessoa, Negrinha tem uma carga emocional muito forte, sendo considerado, pela crítica, um dos conto mais impactantes de Monteiro Lobato. Este conto retrata uma época marcada pelo autoritarismo e pelo preconceito racial, protagonizado pela personagem-título, filha de uma ex-escrava e sem nome próprio. Após a abolição, em 1888, Negrinha se tornou criada na casa de dona Inácia, uma senhora rica, antiga proprietária de escravos libertos pela lei Áurea, sem filhos e interessada apenas em promover a imagem de caridosa aos olhos da Igreja. Com a morte da mãe, Negrinha tem o seu destino colocado aos “cuidados” dessa senhora, que não abandonou a visão e os costumes do antigo regime escravocrata, tratando a menina como sua absoluta posse.

A narrativa lobatiana é carregada de críticas que revelam a situação das classes menos favorecidas de uma sociedade brasileira totalmente discriminatória. A insatisfação do escritor com essa situação é notada já a partir do título da obra, com a utilização  do sufixo –inha, demonstrando o tratamento pejorativo dado à personagem principal no decorrer do conto, apresentada como “[…] uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados”. Essa descrição não revela apenas as características físicas da menina, mas também a sua condição social e o seu constante estado psicológico. Negrinha é vítima de um meio social injusto e preconceituoso, cujos padrões se valem da submissão dos mais fracos e da hipocrisia, representados por Dona Inácia, a dona da fazenda, caracterizada por seu status e suas falsas virtudes: “Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu […] Mas não admitia choro de criança”.

Dona Inácia, representando a maioria da elite branca brasileira, não se adequou à abolição da escravatura e Negrinha continuou escrava, guardando as marcas da hostilidade, sendo vítima de violência física e psicológica, não apenas de sua cuidadora, mas também sendo vítima dos outros moradores e empregados  da casa. “Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão […] Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata choca, pinto gorado, mosca morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa ruim, lixo – não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam […] O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo.

Sem identidade própria, Negrinha é tratada como um objeto, um animal que precisa ser domesticado, proibida de andar pela casa, de brincar e até mesmo de falar. A princípio há por parte da menina a aceitação de sua situação miserável, o que lhe impede de ir contra a realidade em que vive, aceitando passivamente todas as crueldades do preconceito e da desigualdade social contra ela. Entretanto, o texto traz também uma reviravolta da personagem.

Até então a única criança da casa, duas sobrinhas de Dona Inácia, duas garotinhas que por sua descrição (louras, ricas e possuidoras de brinquedos caros), representam o mundo burguês vem visitar a piedosa Tia e Negrinha é tratada como mais um “brinquedo”.

O conflito consciente em relação a sua condição e ao mundo, leva a pobre órfã a dialogar com si mesma, se questionando e refletindo acerca de sua condição como ser humano, levando a menina a externar seus pensamentos: Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo […] – É feita?… perguntou extasiada”. Nesse trecho, em que o autor coloca voz na boca de Negrinha pela primeira vez no conto, ela assume a consciência de toda criança e se sente gente: “Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma – na princesinha e na mendiga […] Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma”.  Trecho maravilhoso de trazer lagrimas este onde Negrinha percebe que ela não é um objeto mas sim um ser humano, com alma!

Lobato revela toda a sua genialidade neste conto, ao denunciar de modo claro e objetivo, através do contexto literário, o tratamento dado aos negros na época da Nova República, anunciando ao leitor o surgimento de uma nova realidade pautada na fome e na miséria.

Mesmo sendo uma ficção, Negrinha mostra, pelo chamado ‘buraco de fechadura’, como ficou a situação da maioria dos negros no período pós-abolição. Apesar de libertos por um decreto, eles permaneceram presos aos grilhões sociais, sem oportunidades, sem educação, sem qualquer amparo governamental para poderem se tornar membros produtivos ou iniciarem uma vida digna, sendo vistos ainda como meros serviçais na mentalidade de brancos reacionários. Dona Inácia, era uma dessas pessoas que continuou com o mesmo tipo de pensamento escravocrata.

Em resumo, o conto escrito Lobato há mais de cem anos, traz uma denúncia escancarada contra as elites brancas e à própria igreja, conivente com os maus-tratos, demonstrando assim toda hipocrisia contida nos bastidores da sociedade patriarcal da época. O racismo e o preconceito, são colocados lado a lado com a farsa, o sarcasmo, a tragédia e a compaixão.

Definitivamente, através de Negrinha, Monteiro Lobato presentou o povo brasileiro com um conto reflexivo e absolutamente antirracista.

 O LIVRO NEGRINHA

Para competir com o mercado, Monteiro Lobato lançou o livro Negrinha com capa simples e sem ilustração alguma, com a primeira edição sendo vendida ao preço de 2 mil e quinhentos réis, enquanto outros livros custavam, naquela época, quatro mil réis.

A segunda edição do livro foi lançada em 1922, ao preço de mil réis e incluiu os contos: Os negros e Barba-azul. Deveria ter incluído ainda o conto O despique, mas  o mesmo foi retirado e acabou sendo republicado anos mais tarde, no livro “Na antevéspera”, de 1933.

Em 1923 aconteceu o lançamento da terceira edição e foram acrescentados novos contos: Uma história de Mil anos; O fisco; Os pequeninos; A facada imortal; Apolicitemia de dona Lindoca; Duas cavalgaduras; O bom marido; Marabá; Fatia da vida; A morte do camicego; Quero ajudar o Brasil; Sorte grande; Dona Expedita; e Herdeiro de si mesmo. A obra passou então a somar vinte e dois contos.

Todas as três edições do livro foram publicadas pela “Monteiro Lobato & Cia. Editores”, vendendo juntas 12 mil exemplares.

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REFERÊNCIAS:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Negrinha

https://aedmoodle.ufpa.br/pluginfile.php/239401/mod_resource/content/1/Artigo%20-%20BREVE%20ESTUDO%20DO%20CONTO%20NEGRINHA%2C%20DE%20MONTEIRO%20LOBATO%20-%20NILSON.pdf

https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/11/26/negrinha-ndash-um-manifesto-antirracista-de-lobato

https://docplayer.com.br/12438922-Monteiro-lobato-vida-obra-2.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/Negrinha#cite_note-1

https://repositorio.ufpe.br/bitstream/123456789/30693/1/ISRAEL%20LACERDA%20DO%20NASCIMENTO.pdf

O que significa adaptar uma obra?

(Kátia Chiaradia)

Quando soube que a bisneta de Monteiro Lobato estaria adaptando sua obra, estranhei. Estranhei porque eu já era pesquisadora de Lobato há mais de 10 anos e nunca havia imaginado que isso seria possível. Os herdeiros de Monteiro Lobato sempre foram muito receptivos às pesquisas acadêmicas, e prova disso é terem doado ao CEDAE da Unicamp, toda a biblioteca do autor, além de uma enormidade de outros documentos de pesquisa: cartas, fotografias, aquarelas, bilhetinhos e até um caderno de receitas de Dona Purezinha. E nesse tempo todo, Cleo Monteiro Lobato sempre foi uma pessoa das coxias e não do palco, que ficava reservado para seus pais e, evidentemente, seu bisavô.

Meu segundo estranhamento se misturava à sensação de incômodo que eu sabia exatamente de onde vinha: sou pesquisadora, e mexer em um texto literário, um clássico, não é algo bem-visto pela perspectiva dos estudos literários. Isso porque todo texto fala de seu tempo, do lugar onde foi escrito, das pessoas que viveram à época de sua concepção e daquelas que primeiramente o leram. Assim, ainda que os motivos de Cleo para adaptar a obra de Lobato me parecessem louváveis (na época, eu achava que ela queria retirar do texto expressões hoje entendidas como racistas, mas, mais à frente, fui entender melhor1) a ação em si ainda me confundia.

Porém, como pesquisadora, meu papel é buscar entender uma situação-problema por diversos prismas. Fazemos pesquisa para que nossos estudos alcancem a sociedade e possam tornar o mundo um lugar melhor e mais democrático, sobretudo quando é a universidade pública que nos impulsiona.

“O mesmo acontece com a literatura”, pensei. A literatura deve alcançar seus leitores, sem os quais ela sequer existe.

Quero dizer, com isso, que um livro infantil que não alcança as crianças é um livro que não tem razão de existir. Monteiro Lobato escreveu livros para as crianças e sobre elas. Ele não escreveu as histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo para pesquisadores, mas sim para que crianças pudessem morar nelas. E, como pesquisadora, meu papel é olhar para todo esse movimento de maneira investigativa: quanto de reconhecimento e identificação, seja consigo, com seu espaço ou com seu tempo, este livro pode proporcionar aos leitores? Quanto este livro facilitará que eles ampliem suas relações com o mundo? E quanto as afastará dele? Se a balança pende para causar dor em uma criança, isso precisa ser revisto.

A escola é o mundo de muitas crianças, por isso, não é aceitável que qualquer uma delas sofra em sala de aula, justamente no espaço em que ela deveria se fortalecer. Então, se a adaptação de que falamos aqui, cujo foco está em atualizar para hoje a mesma pujança que se lia na Tia Nastácia de um século atrás, essa adaptação é bem-vinda porque, repito, as obras do Sítio do Pica-Pau Amarelo foram escritas para as crianças, e não para nós, adultos. No Sítio, Tia Nastácia é a geradora da vida e a saciadora das fomes. De todas. Ela é quem abraça, acalma e faz rir, e é imprescindível que essa percepção da centralidade de Tia Nastácia alcance também as gerações de hoje. Se algumas frases sobre ela envelheceram mal e hoje são consideradas racistas, que sejam adaptadas para que o retrato dessa mulher doce, forte e inspiradora continue o mesmo. O texto mudou justamente para que se preserve a personagem.

Por fim, é claro que muitos de nós também querem “morar nelas”, nas historias, mas é preciso nos lembrarmos que “a casa” é pensada para elas, as crianças, as moradoras originais e por direito.

Dona Benta, a grande educadora do Sítio do Pica-Pau Amarelo

O estereótipo da vovó cansada, sempre sentada, perdida em seus bordados, que pouco se movimenta, mais escuta do que discute e que quando fala é para contar algum acontecimento vivido por ela no passado, foi totalmente ignorado por Monteiro Lobato ao criar a personagem Dona Benta.

É certo que lá em 1920, quando surgiu pela primeira vez, a personagem foi descrita pelo próprio criador como “uma triste velha, de mais de setenta anos, trêmula, quase cega, sem dentes, já no fim da vida”. Porém, onze anos mais tarde, em Reinações de Narizinho, Lobato refaz essa descrição, inclusive rejuvenescendo em dez anos a vovó que ganha um nome: Dona Benta.

Ao contrário do que a descrição introdutória possa sugerir, basta dar continuidade à leitura para identificarmos em Dona Benta, uma vovó cheia de energia, estimuladora da cultura, que dá importância e incentiva a fantasia, a imaginação infantil, as descobertas e aventuras de seus netos. Sem bronquear, ela ainda os ajuda a resolverem seus conflitos e perturbações mais íntimas, sem podar a criatividade dos netos, na maioria das vezes por meio das histórias contadas por ela.

Um olhar mais atento à literatura nos permite entender que Monteiro Lobato foi de fato um homem à frente de seu tempo, que acreditava na educação para resolver os problemas sócio-políticos e econômicos do país, fazendo questão de manter uma constante preocupação no incentivo do leitor a liberdade de pensamento e de ação. O autor percebeu a oportunidade de repassar ao seu público, através dos seus livros,  os seus ideais e pensamentos, contribuindo diretamente para a melhora da educação no Brasil.

Nessa esteira do pensamento lobatiano, nasce então Dona Benta, personagem que em muitos aspectos se assemelha e revela uma projeção do próprio escritor. Uma semelhança que começa pelo nome Benta, feminino de Bento, mas que vai diretamente até a personalidade, os pontos de vista e a evidente tentativa de Lobato em construir uma literatura capaz de situar a criança em seu próprio mundo, por meio da contação de histórias.

De acordo com a professora e pesquisadora Vera Maria Tietzmann Silva, é possível ver em Dona Benta uma projeção do lado sábio e bem comportado, de Lobato, que assim como a personagem criada por ele, também tinha um lado simples e outro erudito. O escritor também foi proprietário rural, um incondicional amante dos livros como Dona Benta, aberto a todas as áreas do saber e que fazia circular o conhecimento, se empenhando em compartilhar suas descobertas e leituras, principalmente com os leitores em formação.

A personagem, assim como o seu criador, consegue enxergar o mundo pelo olhar da criança e no momento de contar histórias abre mão da linguagem desnecessariamente adornada dos adultos, falando à criança de um modo absolutamente simples e didático, deixando aflorar a imaginação e o faz-de-conta. Essa leveza e a sabedoria de Dona Benta, fazem dela o instrumento perfeito para Lobato falar pela voz de sua personagem, encontrando nela a solução para a necessidade de oferecer às crianças, histórias escritas numa linguagem objetiva, clara, acessível, mais próxima possível do registro coloquial.

Não há qualquer exagero em afirmar que Dona Benta é na verdade uma mediadora do saber que se comporta de maneira semelhante ao próprio autor, educando e de um modo simples, despertando através da contação de histórias o gosto pela literatura, a necessidade de adquirir e expandir o conhecimento, sem cortar o interesse, o prazer, o senso crítico e questionador das crianças.

Ainda, na opinião da professora Vera Maria Tietzmann Silva, ao criar o Sítio do Pica-Pau Amarelo, Lobato transforma esse ambiente, onde vive Dona Benta, em uma nova modalidade de escola, que leva aos jovens leitores o conhecimento curricular pela via da ficção, retirando o peso autoritário de seu mediador, não mais o professor severo, mas a avó amiga, que dá ‘sabor ao saber’.

Todos esses detalhes reforçam a certeza de que a criação da personagem não foi por acaso. O escritor demonstra a clara intenção de revelar suas próprias ideias, numa época em que a opinião masculina se sobrepunha à feminina, em que as mulheres não tinham voz. Lobato, na contramão, possibilita que Dona Benta fale em seu lugar, revelando muitos conhecimentos e propagando valores por meio da personagem.

Para a professora e pesquisadora Regina Machado, o ato de contar histórias quebra as relações tradicionais com as crianças, criando um outro contato humano, num tom mais colorido, divertido, vibrante e misterioso.

Dona Benta aparece no Sítio do Pica-Pau Amarelo como uma verdadeira educadora, que por meio de suas leituras, com a entonação certa, o vocabulário acessível às crianças, além de ensinar e estimular o hábito da leitura, evidencia a ideia do escritor de que não há assunto somente para criança ou somente para adulto.

Lobato e Dona Benta, são na verdade leitores que formam leitores e que há mais de cem anos, representam a ideia de que a transformação do mundo passa essencialmente pela educação, que precisa ser prazerosa e voltada para a mente aberta da criança, assim como as obras do criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

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REFERÊNCIAIS

https://anais.unicentro.br/seped/2010/pdf/resumo_182.pdf

MACHADO, Regina. Acordais: fundamentos teórico-poéticos da arte de contar histórias. São Paulo: DCL, 2004.

SILVA, Vera Maria Tretzmam. Literatura Infantil Brasileira: um guia para professores e promotores de leitura.

Emília, a boneca que virou gente e roubou a cena no Sítio do Pica-Pau Amarelo

Quando se pensa no Sítio do Pica-Pau Amarelo é praticamente impossível não vir a memória a imagem da Emília, a mais famosa boneca que virou gente do Brasil, e foi criada por Monteiro Lobato, em 1920, com a publicação do livro “A Menina do Narizinho Arrebitado”.

Nesta sequência sobre os principais personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, chegou a hora de falar da boneca de pano, que nasceu com cerca de 40 centímetros, das mãos hábeis da Tia Nastácia, feita de uma saia velha recheada com flores de macela – a camomila brasileira – para Narizinho, que vivia muito solitária no Sítio. Cansada de conversar com a boneca e não ter respostas, Narizinho levou Emília até Reino da Agua Claras onde o Doutor Caramujo, médico do reino, deu uma pílula falante para a boneca, que imediatamente disse sua primeira frase: Que gosto horrível de sapo na boca!”. Daí pra frente Emília não parou mais de falar! Preocupada com a tagarelice desenfreada de sua boneca, Narizinho chegou a pedir ao doutor que a fizesse vomitar aquela pílula e lhe desse uma mais fraquinha, mas foi convencida pelo Caramujo de que aquilo se tratava apenas de fala recolhida”, que precisava sair de qualquer jeito e que logo passaria.

Na evolução para se tornar gente, além de tagarela, Emília se mostra dona de uma personalidade forte, assim como Monteiro Lobato. Aliás alguns estudiosos sobre o autor, afirmam que ela seria a própria personificação da força, da astúcia e do pensamento crítico de Monteiro Lobato.

Curiosamente, de acordo com o professor Osni Lourenço Cruz, pesquisador da vida e obra do escritor, há uma carta datada de 1º de fevereiro de 1943, onde Lobato relata que todos os seus personagens foram criados ao acaso, sem intenções. E sobre Emília, ele escreveu:

[…] Emília começou uma feia boneca de pano, dessas que nas quitandas do interior custavam 200 réis. Mas rapidamente evoluiu, e evoluiu cabritamente – cabritinho novo – aos pinotes. Teoria biológica das mutações. E foi adquirindo uma tal independência que, não sei em que livro, quando lhe perguntaram: Mas quem você é, afinal contas, Emília? ela respondeu de queixinho empinado: Sou a Independência ou Morte!” Apesar disso, encontramos um certo indício para a origem do nome Emília, dado à boneca, em uma citação do escritor Carmo Chagas no livro “Os Oliveira Costa de Taubaté”: “Na casa de Antonieta Bernardes, grande amiga de Maria Eudoxia, trabalhou uma moça negra chamada Emília, que na infância foi companheira de brinquedo dos filhos de Monteiro Lobato e dizia-se em Taubaté, deu seu nome à endiabrada boneca falante”. Fato é que Monteiro Lobato encontrou inspiração para os seus personagens na sua imaginação, vivencia e nas suas leitura. Para os nomes de seus personagens parece ter encontrado inspiração nos tipos taubateanos, mas daí em diante,

tudo paira no campo das especulações. Falando sobre a nossa personagem, Emília se mostra desde o princípio, muito determinada e independente, uma representação feminina que seu criador defendia, bem diferente do que acontecia naquela época, quando as mulheres eram completamente submissas e como as crianças, nem sequer podiam expressar suas opiniões.

Circulando entre o mundo real e o imaginário, a boneca-gente pensa como ser humano, vive de modo irreverente, faz o que – e quando – quer, além de ter um comportamento totalmente repreensível para um adulto, muito parecido ao de uma criança mal criada. Emília é extremamente teimosa e as vezes até mesmo egoísta, e quando questionada sobre quem realmente é, sem pestanejar, tem a resposta na ponta da língua: Sou a independência ou Morte!”, como se quisesse de fato bater de frente com os conceitos e costumes da época.

Através da mente brilhante de Monteiro Lobato, a irreverente Emília se torna protagonista em diversos livros da coleção, mas é destaque em seus próprios, como Emília no País da Gramática (1934), Aritmética da Emília (1935) e Memórias de Emília (1936), onde tem sua biografia escrita pelo Visconde de Sabugosa. Ela ganhou títulos de nobreza como a Condessa das Três Estrelinhase Marquesa de Rabic’ó. Pouca gente talvez saiba, mas Emília também tem alguns apelidos engraçados criados por ela própria, como: bailarina equestre, trapezista de circo, fada de pano, botadeira de nomes, inventadeira de idéias, olhadeira telescópica, caçadora de Saci, mandadeira de cartas, escrevedora de memórias e redatora chefe do jornal Grito do Picapau Amarelo.

Evidente que Emília não se contentou com o mero papel de dama de companhiada menina do nariz arrebitado, deixou de lado os padrões daquele tempo, rompendo com o estereótipo de boneca frágil e delicada, para assumir, não se sabe se ao acaso ou intencionalmente, a posição de protagonista nas fábulas mais extraordinárias da literatura infantil brasileira.

E podemos ir além. Como já abordamos em outro texto sobre as personagens femininas criadas por Lobato, Emília, D. Benta, Tia Anastácia e Narizinho, ignoram todos os padrões impostos pela dominância machista do período em que foram criadas, que viam a mulher como um ser frágil e totalmente dependente. Com extrema ousadia, elas dividem espaço com os demais personagens masculinos, enfrentando as mesmas dificuldades e êxitos, com seus defeitos e qualidades, despertando nas crianças emoções que as estimulam a refletir, aprender e dialogar com os seus próprios valores. Assim a falante boneca de pano que virou gente, segue ainda hoje encantando e inspirando gerações, para orgulho do seu criador e o deleite de seus leitores, como nós, meros mortais.

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REFERÊNCIAS

Prof. Osni Lourenço Cruz – “Na trilha de Lobato”
https://pt.wikipedia.org/wiki/Em%C3%ADlia_(personagem)
https://linguaportuguesa.digital/glossario/emilia-de-monteiro-lobato

O petróleo é nosso! E Lobato também!

O escritor Monteiro Lobato se notabilizou com uma das figuras mais importantes do nosso país, não apenas como o pai da literatura infantil brasileira, mas também por ser um brasileiro a frente do seu tempo, empenhado no desenvolvimento cultural e econômico do seu pais.

Certamente muita gente desconhece, mas ele foi um dos primeiros a acreditar na existência do petróleo em terras brasileiras. Lobato defendeu a nacionalização do petróleo e a investimento da iniciativa privada na sua extração, defendendo a autossuficiência do nosso país na produção de combustíveis e consequentemente na independência energética em relação ao mercado estrangeiro.

Essa história do criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo com o petróleo começou em 1927, quando Lobato foi nomeado adido comercial nos Estados Unidos, pelo então presidente Washington Luís. Lá o escritor conheceu de perto as inovações tecnológicas e industriais estadunidenses, e se convenceu de que o progresso naquele país era o resultado da formula de investimentos em ferro mais petróleo e transportes, modelo econômico-político que deveria ser replicado pelo Brasil, para transforma-lo numa potência mundial.

Durante essa estadia, Lobato visitou a General Motors, que o inspirou a criar uma empresa para a produção de aço no Brasil e a fim de levantar recursos para esse empreendimento, se tornou investidor da Bolsa de Nova York em 1928 na vésperas da quebra da bolsa. Com a quebra da bolsa em outubro de 1929, acabou perdendo todo o capital investido e foi obrigado inclusive a esconder esse fato de sua esposa, D. Purezinha. Vendeu as ações que possuía na Companhia Editora Nacional à Temístocles Marcondes, irmão de seu sócio, perdendo assim o controle acionário de sua empresa no ramo editorial.

Apesar disso Lobato manteve-se otimista, principalmente diante da vitória de Júlio Prestes nas eleições de 1930. Washington Luís havia investido pesado em transporte e seu sucessor já havia realizado explorações de petróleo no estado de São Paulo, fatos que aumentavam a expectativa em Lobato de que o nosso país seguiria nesse mesmo rumo. Entretanto, a revolução encabeçada por Getúlio Vargas naquele ano, impediu que Prestes tomasse posse, mudando os rumos da nossa história. Lobato é exonerado do cargo de Adido Comercial em dezembro de 1930 e desempregado, teve inclusive dificuldades financeiras para voltar ao Brasil no início de 1931.

Já no Brasil, Lobato se torna um defensor ferrenho da necessidade de investimentos  petróleo, ferro e estradas como pilares do desenvolvimento nacional. Ele cria a Companhia Petróleos do Brasil, uma empresa privada de capital aberto que vendeu 50% das suas ações em apenas quatro dias, e iniciou as pesquisas por petróleo no campo de Araquá, hoje a cidade de Águas de São Pedro, no interior do estado de São Paulo. Em seguida, o escritor cria a Companhia Petróleo Nacional, a Companhia Petrolífera Brasileira e a Companhia de Petróleo Cruzeiro do Sul, além da Companhia Mato-grossense de Petróleo, com a qual planejava perfurar poços próximo da fronteira com a Bolívia, país que já tinha encontrado petróleo em seu território.

Na contramão do que o escritor acreditava, o governo getulista, com o apoio de alguns empresários brasileiros, alegava que não havia petróleo em nosso país, numa suspeita proteção às petrolíferas americanas que já estavam instaladas no Brasil. Até aquele momento nenhuma jazida de petróleo ou de gás havia sido identificada ou explorada em nosso país, isso porque o poder público não tinha conhecimento, tecnologia, nem dinheiro para realizar tal empreitada.

Cada vez mais convencido de que havia sim petróleo no Brasil, as atitudes dos getulistas apenas reforçavam as suspeitas de Lobato de que os americanos já trabalhavam no mapeamento de petrolíferas, sob a proteção do governo brasileiro. Um enfrentamento ao governo Vargas não era fácil. Mesmo contando com técnicos estadunidenses experientes na prospecção e na extração de petróleo, a empresa de Lobato era frequentemente sabotada por órgãos governamentais, sofrendo intervenções por motivos banais, que apenas comprovaram as suas suspeitas.

Em janeiro de 1935, ele resolve então escrever  uma carta ao presidente Getúlio Vargas, se queixando das dificuldades impostas pelo Ministério da Agricultura em relação às atividades de suas companhias e denunciando, confidencialmente, as atividades da filial argentina da Standard Oil Company (que mais tarde se tornaria a Exxon/Esso) no país, com a conveniente corrupção de fiscais do Serviço Geológico Nacional. O governo ignora as queixas de Lobato. Insatisfeito com essa postura, o escritor então publica o livro “A Luta Pelo Petróleo”, onde denuncia publicamente o Serviço Geológico Nacional, órgão oficial encarregado das pesquisas, de ser conivente com a ação de grupos estrangeiros no Brasil e acusa o governo de “não tirar petróleo e não deixar que ninguém o tire”.

Essa conduta do escritor acaba interferindo diretamente nos interesses de grandes grupos e do próprio governo federal, que em represália, interdita uma das sondas da empresa de Lobato, através de intervenção federal decretada em 1936. O escritor não se dá por vencido, levanta alguns recursos, prossegue com as explorações e finalmente encontra gás natural de petróleo a 250 metros de profundidade em Riacho Doce, no estado de Alagoas.

Nesse mesmo ano, Monteiro Lobato publica um outro livro: “O Escândalo do Petróleo”, onde faz novas denúncias, agora acusando dois técnicos estrangeiros do Departamento Nacional de Produção Mineral pela “venda de segredos do subsolo a empresas estrangeiras”. O livro é um sucesso estrondoso e suas três edições se esgotam no mesmo mês de lançamento. Um ano depois, o livro é censurado pelo governo federal.

Lobato edita então um terceiro livro sobre o assunto: “O Poço do Visconde – Uma aula de geologia para crianças”. Essa foi uma ação muito inteligente do escritor em envolver crianças e jovens na sua luta, através da conscientização infanto-juvenil quanto a importância desse produto, a época, pouco conhecido no país, como um meio de oferecer melhores condições de vida para todos.

As ações do escritor não param de incomodar o governo federal, que em 1938 decide explorar um poço na cidade de Lobato, atualmente um bairro de Salvador, na Bahia e lá finalmente encontra petróleo. Diante dessa descoberta, Getúlio resolve criar, em 1939, o Conselho Nacional do Petróleo (CNP), que se torna a primeira iniciativa do governo para regular e estruturar a exploração de petróleo Brasil.

Naquele momento, havia uma acirrada disputa entre empresários (caso de Monteiro Lobato e das petrolíferas estrangeiras) e ideais nacionalistas, divulgados pelo governo de Vargas, sobre a exploração petrolífera em nosso país. Numa manobra de última hora, Vargas decide alterar o decreto-lei que institui o CNP e passa a considerar como patrimônio da União, todas as jazidas de petróleo em solo brasileiro, inclusive as ainda não encontradas.

Incansável, Monteiro Lobato não desiste e em 1941, envia uma outra carta ao presidente Getúlio Vargas, onde faz duras críticas à política brasileira de exploração de minérios e acaba sendo preso pelo general Horta Barbosa.

Conforme já relatamos em um outro texto aqui no nosso blog, por essa carta Lobato foi condenado a seis meses de prisão sem direito a banhos de sol, recebendo o indulto do presidente três meses depois, deixando a prisão falido e desmotivado.

Em 1941 é finalmente descoberto o primeiro poço de exploração comercial, em Candeias, também no estado da Bahia, e o governo avança na prospecção de petróleo no país.  O país trava então um grande debate em torno da política do petróleo, após a promulgação da Constituição de 1946. Eurico Gaspar Dutra, presidente à época, era um defensor do modelo de política econômica liberal, da abertura ao capital estrangeiro, o que em resumo, significaria a entrega da exploração do nosso petróleo aos interesses das multinacionais.

Não havia naquele momento no Brasil, uma empresa nacional com capital e tecnologia necessários para a exploração de petróleo. Dutra envia em 1948 ao Congresso Nacional um projeto de lei que ficou conhecido como o “Estatuto do Petróleo” e que causou uma reação imediata e vigorosa dos nacionalistas que defendiam o monopólio estatal do petróleo, resultando numa grande mobilização que ganhou proporção nacional, e conseguiu impedir a tramitação do Estatuto. Essa mobilização eventualmente contribuiu para o estabelecimento do monopólio estatal do petróleo no Brasil e por fim, a criação da Petrobrás, anos mais tarde.

Dois dias antes de sofrer um espasmo cerebral que o vitimou aos 66 anos de idade, Monteiro Lobato, que havia sido preso e perdido todo o dinheiro que havia ganho com seus livros, tentando achar petróleo, concedeu uma entrevista à rádio Record, reafirmando a sua posição favorável à vitoriosa campanha em defesa do nosso petróleo e articulou a frase que mais tarde virou o logo da Petrobras: “O Petróleo é nosso!”

Chega. Não quero nunca mais tocar neste assunto de petróleo. Amargurou-me doze anos de vida, levou-me à cadeia – mas isso não foi o pior. O pior foi a incoercível sensação de repugnância que desde então passei a sentir sempre que leio ou ouço a expressão ‘Governo Brasileiro’…” 

Encerrava-se assim a história de um dos mais célebres brasileiros, que pagou um alto preço por defender a nacionalização do petróleo, mas jamais se dobrou aos mandos e desmandos de um sistema que costuma ser impiedoso com aqueles que lhe afrontam.

 

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REFERÊNCIAS:

https://flatout.com.br/historia-de-monteiro-lobato-e-o-petroleo-brasileiro/

Tese: MONTEIRO LOBATO, “GENERAL DO PETRÓLEO”: CONTROVÉRSIAS

CIENTÍFICAS, FICÇÕES E FUTUROS EM DISPUTA NA CAMPANHA PRÓ-

PETRÓLEO (1931-1941) – DANIEL ALENCAR DE CARVALHO (PDF)

Artigo “Indústria siderúrgica brasileira nas ideias de Monteiro Lobato e Pandiá Calógeras” (PDF)

https://www.unicamp.br/unicamp/ju/678/poder-literatura-e-petroleo

https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/o-petroleo-e-nosso-derradeiras-palavras-de-monteiro-lobato-21532/

Monteiro Lobato e sua luta visceral pelo petróleo brasileiro: o que aprendemos com ele?

Em cartas cheias de planos e críticas, escritor detalhou interesse na exploração do “ouro negro”

tia Chiaradia

Monteiro Lobato foi um nome muito falado em 2019. Tanto por sua obra entrar em domínio público neste ano quanto pelo aniversário de 80 anos da descoberta do primeiro poço de petróleo brasileiro, no barro de Lobato, em Salvador (Bahia). Apesar do nome do bairro não ter a ver com o criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo, o destino ainda sim pode ser sábio, uma vez que o autor foi um dos maiores nomes a lutar pelo Petróleo de solo brasileiro.

Essa luta é explicitada, em sua maioria, por meio de cartas entre ele e o engenheiro de perfuração Charles Frankie, que constam no Cedae (Centro de Documentação Alexandre Eulalio), da Unicamp. O conteúdo das mensagens não era outro: críticas contundentes à legislação que acabara de entrar em vigor e ao “atraso brasileiro”. Destacava nas cartas a história das primeiras companhias petrolíferas no país. Em outras mensagens, entraram em discussão questões acerca da parceria na tradução e na redação do prefácio de “A Luta pelo Petróleo” (1935), de Essad Bey. Mais à frente, esse conjunto de cartas também teria papel definitivo na composição de seu best-seller “O Escândalo do Petróleo” (1936) e no infantil “O Poço do Visconde” (1937).

Entre 1934 e 1936, Lobato empreendeu diversas missões em busca de petróleo, todas frustradas. Seguia criticando a legislação e chegou a apelar para autoridades, na tentativa de alterar o Código de Minas, para que fosse “o mais liberal possível”. Na visão dele, havia pelo menos dois grupos estrangeiros interessados no petróleo brasileiro, mencionados em muitas das cartas: os norte-americanos —que teriam “interesses ocultos”, representados por Vitor Oppenheim e pela Standard Oil—, e os alemães, representados por Frankie e pela empresa Piepmeyer, entre outros.

Supondo que poderia levar o Brasil a um tipo de desenvolvimento semelhante ao observado nos EUA e ainda se firmar como empresário e empreendedor, Lobato iniciou a Campanha do Petróleo.

Em 1930, o mundo ainda sofria consequências da Priemira Guerra Mundial, junto dos efeitos do colapso da Bolsa de Nova York. O Brasil, neste contexto, via sua demanda pelo petróleo crescer exponencialmente. Eram 38 mil barris diários comparados aos 2 milhões por dia atuais. Nesse período, o governo federal passou a legislar sobre a exploração das riquezas minerais em nome da União, buscando fortelecer o estado. Assim, foi fundada a Companhia Brasileira de Petróleo, associada à anglo-holandesa Royal Dutch & Shell, referência mundial na extração, na época com a maioria de técnicos e maquinário americanos.

Assim, entre 1932 e 1935, outras duas companhias passaram a atuar no Brasil: a Companhia Petróleo Nacional, incorporada por Monteiro Lobato, Lino Moreira e Edson de Carvalho, que funcionava legalmente em Riacho Doce, Alagoas; e a Companhia Petróleos do Brasil, presidida por Lobato, instalada legalmente no campo de Araquá, hoje Águas de São Pedro, no interior de São Paulo. Ainda assim, não se extraía petróleo do subsolo brasileiro. Ao menos não oficialmente.

Em 1933, Victor Oppenheim foi contratado para operar pesquisas em solo brasileiro. Lobato, então, começou a criticar publicamente a associação entre o governo brasileiro e a estrutura empresarial dos EUA. Em paralelo, Juarez Távora, na pasta da Agricultura, solicitava oficialmente ao Itamaraty uma organização do exterior para estudos geofísicos no Brasil, passando, em seguida, a comandar as iniciativas de pesquisa.

Pouco depois disso, Victor Oppenheim começou a divulgar os primeiros resultados de sua pesquisa. Em boletim ao DNPM, afirmava: “A região de S. Pedro, no estado de S. Paulo [poço São João do Araquá, cuja exploração se dava pela Companhia Petróleos do Brasil, de Monteiro Lobato] é, do ponto de vista geológico-estratigráfico, francamente negativa para futuras pesquisas de petróleo nessa região”.

Devido ao novo Código de Minas e também á constituição de 1934, as jazidas eram consideradas como parte da união, além do estabelecimento de “a nacionalização das jazidas e minas julgadas básicas ou essenciais à defesa econômica ou militar do país” e “a exigência de nacionalidade brasileira ou de constituição de uma empresa nacional para atuar no setor de mineração” —medidas nitidamente nacionalistas.

Lobato, como já dito, combateria extensivamente, como escritor e empresário, o Código de Minas. Irritado em especial com a exigência de nacionalidade brasileira para a pesquisa e para a lavra das jazidas minerais, apelidou-o de “lei cipó”. A legislação, porém, ao definir empresas nacionais como “sociedades organizadas no Brasil”, sem restrição de nacionalidade dos acionistas, possibilitava que companhias estrangeiras fossem até proprietárias de empresas nacionais.

Usando dessa brecha, Lobato organizou no Brasil sociedades com capital estrangeiro, como a Amep (Aliança Mineiração e Petróleos), visando impedir que o petróleo brasileiro ficasse exclusivamente com o truste americano Standard Oil-Royal Duth sem concorrência mínima.

Lobato julgava necessária a diferenciação entre acordo e entreguismo. Ele cobrava que Getúlio Vargas priorizasse os interesses do Estado brasileiro, inclusive em longo prazo. O escritor era um cidadão inconformado que não desistia de exercer seus direitos políticos, um intelectual apaixonado que caminhava rumo a seu propósito, atuando nas mais diversas áreas: alimentava debates na imprensa, discursava acerca da importância dos empreendimentos nacionais, realizava prospecção de petróleo, escrevia artigos e livros sobre o tema e dedicava-se visceralmente aos “bastidores do petróleo”, pela intensa troca de cartas, buscando os mais diversos arranjos políticos e comerciais.

Mais que um escritor, Monteiro Lobato era um intelectual apaixonado e devoto do poder da literatura e dos livros. Cabe aqui uma reflexão sobre o essencial papel que o verdadeiro pensador desempenha no processo de desenvolvimento de uma população. O intelectual que fala com todos é essencial em tempos obscuros.

Em 1937, com uma nova Constituição, as regras para a pesquisa e a lavra das jazidas minerais ficaram ainda mais enrijecidas em relação à nacionalidade das empresas. Fechou-se a brecha da lei de 1934, estabelecendo-se claramente que apenas brasileiros ou empresas constituídas no Brasil, com sócios brasileiros, poderiam participar das atividades mineradoras.

Meses à frente, porém, o decreto-lei 366, de 1938, incluiu no Código de Minas um capítulo específico, declarando que “todas as jazidas de petróleo e gases naturais acaso existentes no território nacional pertencem aos Estados ou à União, a título de domínio privado imprescritível”. Tratava-se do primeiro documento federal abordando especificamente o petróleo que, contudo, segundo o governo, ainda “não existia”.

Mas em 1939, há 83 anos, num rompante de deboche aos laudos do DNPM, o petróleo brotou no bairro de Lobato, em Salvador, na Bahia. No ano seguinte, o novo Código de Minas manteve o dispositivo de 1934. A incansável atuação na Campanha do Petróleo colocou Monteiro Lobato em choque com o governo de Getúlio Vargas, o que levou à prisão do escritor de janeiro a junho de 1941.

Ironicamente, enquanto Lobato estava preso, foi publicada a primeira legislação específica para o petróleo, o decreto-lei 3.236, de 7 de maio de 1941. Em 1946, nova Constituição restabelecia a brecha para que estrangeiros pudessem atuar como sócios em empresas de mineração, nos moldes do que vigorava em 1934. No entanto, o Código de Minas de 1940 não foi modificado, mantendo a restrição a estrangeiros. O artigo que continha tal limitação foi somente revogado pelo Senado em 1964, após acórdão do STF, liberando empresas estrangeiras como acionistas de empresas de mineração no Brasil.

O tempo da vida, contudo, nem sempre é o tempo da política. Na madrugada de 4 de julho de 1948, vítima de um derrame, Monteiro Lobato morreu em São Paulo, sob comoção de todo o país.

Quase duas décadas mais tarde, em 1967, foi promulgado o Código de Minas que vigora até hoje, com algumas modificações implementadas por meio de leis específicas. Ele oficializou a abertura das atividades de mineração no Brasil a empresas estrangeiras, o que já vigorava desde 1964.

Em 2015, a legislação de lavra voltou a ganhar notoriedade no cenário brasileiro. Um crime ambiental comprometeu para sempre o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, Minas Gerais: a barragem de rejeitos da mineradora Samarco (que tem como sócias a brasileira Vale e a anglo-australiana BHP Billiton) rompeu, matando o rio Doce, soterrando famílias e animais, levando doenças e impregnando de barro os olhos de um país inteiro, que assistia incrédulo à tragédia.

Vieram à baila, desde então, discussões sobre a responsabilidade das mineradoras na lavra das jazidas minerais. Em 2017, por meio da medida provisória 790, o governo federal tentou introduzir modificações ao Código de Minas, como a inclusão de “responsabilidade do minerador pela recuperação ambiental das áreas impactadas” e a obrigação do titular da concessão de “observar o disposto na Política Nacional de Segurança de Barragens”.

Após meses de discussão no Congresso, a MP recebeu 250 emendas e se transformou em um projeto de lei de conversão (PLV 39), que, depois de várias sessões sem ser apreciado, foi retirado de pauta, fazendo com que a MP caducasse. Mesmo após a tragédia, a burocracia tornou inerte o primeiro movimento positivo, em anos, na legislação de lavra.

Na esteira dos fatos, no final de 2018, o decreto 9.406 foi publicado, regulamentando a lei do Código de Minas de 1967. Parte do decreto é uma reedição de artigos da MP 790, já que o PLV 39 ainda não foi apreciado pelo Congresso Nacional. Tudo foi parar em alguma gaveta.

Desde então, ainda tivemos a catástrofe de Brumadinho, com milhares de vidas humanas e não humanas interrompidas ou impactadas pelo mar de rejeitos e descaso da mineradora Vale.

A sensação de entreguismo do Brasil também marca nossos dias. Estamos inertes? Estamos já nos esquecendo? Quase um século se passou desde que Monteiro Lobato usou de todas as suas armas para se opor à burocracia institucional que opera na máquina política brasileira. De lá para cá, pouco ou nada mudou: medidas provisórias caducam, projetos de lei são engavetados e boa parte dos governantes ainda ignoram os assuntos sobre os quais legislam.

O texto, a luta, a persistência e a indignação de Monteiro Lobato escaparam aos clichês de sua época, e a originalidade de sua obra ainda hoje continua a nos falar. É este também o papel da literatura: ao nos envolver em um mundo que não parece nossa realidade, leva-nos a reavaliar o mundo em que vivemos.

Talvez nos falte essa indignação visceral.

tia Chiaradia, doutora em teoria e história literária pela Unicamp.

Este texto foi adaptado do artigo “Em briga por petróleo, Monteiro Lobato vê burrada imensa no país”, publicado original e integralmente no caderno de literatura “Ilustríssima”, da Folha de São Paulo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/03/em-briga-por-petroleo-monteiro-lobato-ve-burrada-imensa-no-pais.shtml