Viva o Dia do Saci, o Halloween brasileiro!

O que celebrar no dia 31 de outubro: o Halloween ou o Saci?

Se pudéssemos perguntar a Monteiro Lobato, certamente ele responderia: VIVA O SACI!

Comemorado no dia 31 de outubro, o Halloween é um tradicional evento muito celebrado em países norte-americanos por crianças e jovens que se fantasiam e batem de porta em porta a fim de ganhar doces. No entanto, no Brasil, outra comemoração também se destaca na data: o Dia do Saci.

Nacionalista convicto, numa época de formação do conceito de brasil-nação, Lobato foi o primeiro a se dedicar em traduzir da cultura oral para a escrita o mito do Saci, que graças aos livros do escritor, ganhou projeção nas grandes cidades do Brasil e internacionalmente, através das histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo, que foram também adaptadas com enorme sucesso para a TV.

Comum em países de língua anglo-saxônica, como os Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, a celebração do Halloween já acontecia nos países latinos de modo mais tímido e no Brasil, por exemplo, era chamado de “Dia das Bruxas”, passando quase despercebido entre as comemorações brasileiras.

A data foi sendo aos poucos introduzida no nosso país em meados do século XX, por meio de filmes, séries de TV e outros produtos culturais estrangeiros, principalmente dos Estados Unidos, despertando a atenção do comércio que viu nessa celebração, uma oportunidade de negócio.

Apesar do sucesso entre os mais jovens, essa onda crescente logo provocou críticas à implementação de uma festa da cultura estrangeira no cenário cultural brasileiro, desencadeando uma forte movimentação política para transformar o dia 31 de outubro no Dia do Saci, a fim de valorizar a cultura do nosso país, representada pelo nosso folclore.

Para explicar essa ‘invasão cultural’, há um conceito esboçado pelo teórico estrategista de relações internacionais, Joseph Nye, chamado de soft power, que normalmente se traduz como “poder brando”. Esse termo diz respeito a um conjunto de iniciativas não militares ou econômicas, que permitem que um Estado atinja seus interesses de política externa. Em resumo: o soft power está relacionado à capacidade de um país ter influência direta em outros por meio da sua cultura, sua capacidade de se projetar para o mundo. Um exemplo é a poderosíssima indústria cultural estadunidense, com produções de Hollywood e de séries de TV, que chegam ao Brasil com cada vez mais frequência. Esse poder se manifesta também na influência acadêmica, como a leitura e o intercâmbio de pesquisadores.

Alexandre Ganan Figueiredo, historiador e pesquisador de pós-doutorado pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, descreve também como elemento desse tipo de influência a exportação de um estilo de vida ideal, apresentado como um modelo a ser copiado, como é o caso da comemoração do Halloween no Brasil. Entretanto o Dia das Bruxas ou Halloween, não possui qualquer relação com as tradições e a formação cultural brasileiras, não sendo portanto uma manifestação usual.

É justamente a partir dessa percepção que em 2003, foi apresentado pelo deputado federal por São Paulo, Aldo Rebelo, um projeto de lei para a celebração nacional, no dia 31 de outubro, do Dia do Saci, um dos mais conhecidos personagens do folclore brasileiro. A época a matéria acabou arquivada, mas a inciativa repercutiu nacionalmente e a data passou a ser celebrada mesmo não sendo oficial.

Bruno Baronetti, pesquisador e doutorando em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, vê o Dia do Saci como uma resposta à indústria cultural estadunidense em um momento no qual filmes de grandes franquias, com personagens do imaginário do Halloween, como os vampiros, começavam a ganhar força por aqui. “Além disso, havia uma percepção de que cada vez mais escolas do ensino básico valorizavam o Dia das Bruxas no modelo norte-americano”, explica o pesquisador.

Tendo o Brasil um folclore muito rico, com lendas e histórias vindas da miscigenação entre diversos povos, o que é próprio da nossa formação como país, uma questão ganhou força: “Por que não promover uma reflexão sobre o papel da cultura nacional?”.

Incomodado com a “invasão cultural representada pelo Halloween no Brasil”, o jornalista e geógrafo Mouzar Benedito, e um grupo de amigos, decidiram fundar em 2003, na cidade de São Luiz do Paraitinga, no interior paulista, a Sociedade de Observadores de Saci (Sosaci). A entidade tem como objetivo não deixar morrer a cultura do personagem, popularizado através da obra de Monteiro Lobato e nesse mesmo ano, foi aprovada, naquela cidade, a primeira lei municipal instituindo o dia 31 de outubro, como o Dia do Saci.

A iniciativa acabou sendo replicada em outros municípios e no ano seguinte, uma lei semelhante foi aprovada também na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

Estudos folclóricos no Brasil, desde o início do século 20, através do Movimento Folclórico Brasileiro, e grandes estudiosos, como Mário de Andrade e Edison Carneiro, buscam a inserção desses temas nas escolas.

O Dia do Saci tem o papel de estimular, de resgatar a nossa cultura, fazendo um contraponto a esse projeto colonizador e imperialista que busca inserir aqui elementos alheios à nossa cultura.

A ideia de quem defende o dia 31 de outubro como o Dia do Saci, não é acabar com o Halloween, mas sim criar um contraponto para que as crianças, além da tradição estrangeira, passem a ter contato também com tradições e culturas nacionais.

Em 2017, o historiador e então deputado federal pelo Rio de Janeiro, Chico Alencar, apresentou um outro Projeto de Lei instituindo nacionalmente a data de 31 de outubro, como o Dia do Saci, destacando a importância de se recuperar, na figura desse personagem folclórico, a luta contra a escravidão e todas as formas de opressão, além do fortalecimento da identidade nacional.

Nossa mentalidade colonizada e subalterna ainda prevalece. Portanto, a luta pelo reconhecimento e valorização do Saci prossegue e ainda tem de vencer muitas etapas até se construir no novo imaginário popular“, comentou à época em que apresentou a proposta.

Para o professor Fernando Pereira, especialista em Cultura Brasileira do Mackenzie, os grupos que se esforçam para resgatar figuras do folclore nacional fazem um trabalho fundamental e imprescindível, afinal a história de qualquer país está intimamente ligada ao seu folclore, as suas tradições, crenças e costumes.

Defender a celebração do Dia do Saci, esse personagem que é a mais perfeita representação da miscigenação brasileira – índio, negro e europeu –, não significa combater a introdução de outros elementos na nossa cultura. Afinal, o Brasil é um país de vários contrastes, uma verdadeira colcha de retalhos sócio culturais. Apenas não é aceitável permitir que um elemento puramente comercial supere manifestações folclóricas, nascidas do imaginário popular e de tradições históricas.

Nesse processo de preservação dos nossos valores culturais e das nossas tradições, pais e professores têm um papel fundamental. Não é proibido o novo, mas não podemos em hipótese alguma esquecer o antigo. E para isso, o ideal é que temas relacionados ao folclore não sejam abordados por escolas e professores apenas em datas comemorativas, mas que façam parte do cotidiano escolar. Não podemos simplesmente tratar de modo superficial ou até mesmo ignorar a importância do nosso folclore na criação da identidade cultural do nosso país.

Aproveitando toda essa onda nacionalista que atualmente tomou conta do nosso país, fica aqui o convite para que possamos refletir também sobre essa questão e mais do que celebrar o Saci, valorizar a nossa própria cultura.

Por fim, resgatamos aqui um pensamento do escritor, ator e teatrólogo Plínio Marcos para aguçar ainda mais essa reflexão: “um povo que não ama e preserva as suas formas de expressão mais autênticas jamais será um povo livre”. 

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FONTES:

https://www.em.com.br/app/noticia/nacional/2020/10/29/interna_nacional,1199456/como-o-dia-do-saci-quer-rivalizar-com-o-halloween-no-brasil.shtml

https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2021/10/4955568-entenda-o-motivo-do-halloween-e-dia-do-saci-serem-comemorados-na-mesma-data.html

Grupos de estudos sobre Monteiro Lobato ganham destaque em lives com bisneta do escritor

Reunir em um grupo, profissionais gabaritados, com as mais variadas experiências e vivências para aprofundar o estudo de um determinado tema ou personalidade, é um trabalho desafiador e de incalculável importância para o aprofundamento do conhecimento que contribui para o entendimento contextual nas mais variadas áreas.

Um grupo de estudos é uma oportunidade de se desenvolver, no sentido intelectual, acadêmico e social. Compartilhar informações, trocar ideias, fazer novas descobertas e ampliar o conhecimento.

Atualmente, dois grupos de estudos sobre Monteiro Lobato se destacam no cenário de pesquisas Lobatianas -‘Observatório Lobato’ e o ‘Lobato em Rede’ ambos com produção de trabalhos de peso e qualidade a respeito do pai da literatura infanto-juvenil brasileira.

OBSERVATÓRIO LOBATO

O grupo ‘Observatório Lobato’ conta atualmente com 17 membros e surgiu organicamente no final de 2021, resultado dos ‘Encontros com Lobato’ e da’ ‘Jornadas Monteiro Lobato’.

Em meados de 2019 após uma conversa com a coordenadora da área de Português do curso de traducão da Universidade Johannes Gutenberg e  tambem a constatação da falta de uma tradução para o alemão da obra infantil de Monteiro Lobato a Profa. Vanete Santana-Dezmann decidiu sugerir um projeto estimulante de tradução para seus alunos de graduação.  O projeto abarcaria a tradução dos primeiros tres capítulos do livro “Reinações de Narizinho” para o alemão.  Meses depois, em Agosto surgiu a ideia de haver um evento para se falar da obra de Lobato que havia caído em dominio publico.

Em Dezembro de 2019, aconteceu a primeira “Jornada Monteiro Lobato” realizada na FFLCH -USP. Este evento presencial contou com 22 conferências e foi organizado pela conjunto com o prof. John Milton – professor de Tradução da Universidade de São Paulo que acabara de lançar um livro sobre a relação de Lobato com a tradução. O interresse foi tanto que as Jornadas se tornaram anuais acontecendo virtualmente em Dezembro de 2020 e 2021.

A partir das “Jornadas” surgiu a ideia de encontros mensais sobre Lobato – os “Encontros com Lobato” onde a Profa. Vanete e o Prof John Milton tem entrevistado as mais diversas pessoas, sempre sobre temas relacionados à Monteiro Lobato. Esses encontros trouxeram para o grupo, outros estudiosos importantes, como o Dr. Sílvio D’Onofrio, pesquisador de Lobato e biógrafo de Edgar Cavalheiro, além da pesquisadora Taís Diniz Martins.

E foi assim, na esteira desses eventos e dessas e outras uniões, que foi nascendo o grupo de estudos ‘Observatório Lobato”.

MONTEIRO LOBATO EM REDE

O grupo ‘Monteiro Lobato em Rede’ existe virtualmente há mais de 20 anos, com diferentes titulos, e é formado por pesquisadores que, na sua origem, foram orientandos da professora Marisa Lajolo, responsável por “análises paradigmáticas da obra lobatiana”, e hoje é dirigido pela também professora Milena Martins.

Entre 2009 e 2014, os membros do grupo foram coautores do livro “Monteiro Lobato livro a livro: obra infantil”, vencedor de dois prêmios Jabuti como melhor livro de crítica literária e livro do ano de não-ficção. Eles ainda publicaram “Monteiro Lobato livro a livro: obra adulta”.

Em 2021, o grupo se formalizou como uma linha de pesquisa do grupo “Literatura em Rede”, registrado no diretório de grupos de pesquisa do CNPq.

Atenta ao surgimento de grupos de estudos sobre Monteiro Lobato, a bisneta do escritor, Cleo Lobato decidiu realizar uma série de lives via plataforma Zoom, com inscrições direcionadas a professores e alunos universitários com o objetivo de difundir o trabalho desses estudiosos que podem contribuir de modo relevante para uma melhor compreensão da vida e da obra de uma das personalidades mais importantes do nosso país.

Com o tema “Dona Benta em tempos de Revolução Digital” primeira live aconteceu no dia 26 de maior, com a participação de Juliana Padúa, doutora em letras pelo Manckenzie, vice líder do grupo de pesquisas e produções literárias e culturais para crianças e jovens da USP e Patrícia Romano, professora da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará e membro do Observatório Lobato e Lobato em Rede.

A próxima live será justamente com a professora Milena Martins, que vai detalhar todo trabalho de estudo e pesquisa do grupo Lobato em Rede.

Para saber mais sobre as lives e outros conteúdos relacionados a vida e a obra do pai da literatura infantil brasileira, basta acompanhar o perfil da Cleo Lobato no Instaram: https://www.instagram.com/cleomonteirolobato/ e no Facebook: https://www.facebook.com/cleo.monteirolobato

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Referências:

https://www.observatoriolobato.org/

http://www.prppg.ufpr.br/site/ppgletras/2022/04/12/grupo-de-pesquisa-monteiro-lobato-em-rede-inicia-ciclos-de-palestras-em-19-de-abril/

‘O Saci’, um livro atual para crianças e adultos 100 anos após o seu lançamento

Três anos após haver escrito o livro O Saci-Pererê: resultado de um inquérito, Monteiro Lobato lançou em 1921, a primeira edição de O Sacy (sim, naquela época a grafia era escrita com a letra y), um livro elogiadíssimo até os dias de hoje, considerado um ícone da obra do escritor por reforçar as suas ações na linha de uma nova literatura infantil brasileira, processo que ele próprio já havia iniciado com o sucesso de A menina do Narizinho Arrebitado, o seu primeiro livro infantil, lançado em 1920. Alem disso O Saci resgatou e valorizou o folclore brasileiro e tornou os personagens do nosso folclore conhecidos de todos.

A história gira em torno de um diálogo reflexivo entre o Saci e Pedrinho. O neto de Dona Benta, que morava na cidade, e costumava passar suas férias escolares no Sítio do Pica-Pau Amarelo, onde brincava de tudo e costumava se gabar de não ter medo de nada, a não ser de vespas. No fundo, o menino também morria de medo de Saci, um sentimento comum, afinal todos naquele tempo ficavam amedrontados com as histórias correntes a respeito do endiabrado moleque duma perna só que fazia travessuras.

Apesar do temor, Pedrinho vivia  com o saci na cabeça, falando do danado e tomando informações a seu respeito. Um dia, conversando com Tia Nastácia, ficou sabendo que o Tio Barnabé sabia como capturar saci e essa descoberta deixou o menino determinado a aprender a caçar um. Pedrinho resolve então procurar o velho sábio, com mais de 80 anos, um profundo conhecedor das coisas da natureza, de religiosidade, sabedor de histórias que ele viveu e outras que ouviu ao longo da vida, para saber mais sobre o saci. Tio Barnabé explicou ao menino que o saci na verdade era um diabinho de uma perna só, pito aceso na boca e uma carapuça vermelha na cabeça que vivia solto por aí aprontando com todo mundo. Revelou tambem que a força dele está na carapuça, assim como a força de Sansão estava nos cabelos e que quem conseguisse tomar e esconder a carapuça de um saci se transforma no seu senhor pelo resto da vida.

Tio Barnabé explicou ainda que não havia apenas um saci no mundo, mas vários! Contou do aparecimento de um deles ali, na sua casa e revelou que havia muitos jeitos de pegar saci, mas o modo mais fácil era atirar uma peneira em cima de um rodamoinho de poeira e folhas secas, pois todos os rodamoinhos são provocado por um saci, como todos sabem. Depois ele deveria prender o diabinho numa garrafa, fecha-la bem com uma rolha, tomar a sua carapuça e esconde-la bem escondida.

Resumidamente, sem dar “spoiler”, Pedrinho consegue pegar um verdadeiro Saci e em seguida se mete em uma grande aventura que se passa do mundo natural (a floresta) para o mundo sobrenatural (mitologia/folclore) com muita naturalidade, até porque para a criança não há muita diferença. Nesse livro, além da valorização do nosso folclore, O Saci passa ao leitor, mensagens e ensinamentos sobre comportamento, respeito, amor ao próximo e principalmente nos leva a refletir sobre o eterno embate entre natureza versus civilização, desenvolvimento versus preservação e temos como pano de fundo uma discussão filosófica entre Pedrinho e o saci. A primeira delas sobre quem é superior, o homem que tem de aprender as coisas ou os animais que já nascem sabendo?

A medida que avançamos na leitura fica claro que quem vence essa discussão é o saci, porque ele fala das guerras que o homem costuma fazer, estampa toda a estupidez do ser humano e conclui, por exemplo, que se todos se mantivessem crianças, assim como Peter Pan, não haveria guerras e a vida endireitaria.

Num outro trecho, na hora da fome, o saci sabe o que fazer, arranjando palmito e mel para matar a fome, dando início a uma outra discussão: o que é a vida? o que faz os seres vivem? E mais uma vez o danado tem outra explicação feita com enorme delicadeza. Com a chegada da noite eles falam de medo, passando a mensagem de que é o medo quem cria os seres terríveis, os monstros, os fantasmas, e aí surgem mais figuras do nosso folclore na história, como o Curupira, o Negrinho do Pastoreio além de outras criaturas como o lobisomem, a mula-sem-cabeça, a Cuca e a Iara. Essa parte da historia é um verdadeiro dicionário de seres do nosso folclore e não há qualquer exagero em afirmar que est elivro realmente resgatou todos os personagens do folclore brasileiro e tambem traz importantes reflexões que vão sendo apresentadas no desenrolar da história protagonizada por Pedrinho e pelo saci.

Para fechar a história, avisados por uma coruja, nossos dois personagens centrais ainda tem o desafio de enfrentar a Cuca para salvar Narizinho, transformada em pedra pela velha bruxa. E o final… bem… vamos deixar que você leia o livro, porque no desfecho há outros ensinamentos que você só vai entender através desse mergulho na leitura.

O que podemos garantir é que O Saci é um livro que todos os pais precisam ler para os seus filhos, compartilharem juntos essa experiência. Ler pausadamente, sem pressa, se atentar as ricas mensagens e valores morais passadas ao longo da história que se mantém atual e ricamente transformadora, mais de cem anos depois de ser escrita!

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REFERÊNCIAS;

# edição nº 1 “O Sacy”.

http://www.labpac.faed.udesc.br/monteiro%20lobato%20e%20o%20folclore_ivan%20vale%20de%20sousa.pdf

https://colecionadordesacis.com.br/2016/03/30/a-culpa-de-lobato/

https://lobato.com.vc/2021/10/a-revolucao-do-folclore-atraves-de-monteiro-lobato/

https://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,ha-um-seculo-inquerito-sobre-o-sacy,12665,0.htm

http://www.ecofuturo.org.br/blog/dia-do-saci/

https://www.maisquelivros.com/2020/01/resenha-o-saci-monteiro-lobato.html#:~:text=%C3%89%20nessa%20hist%C3%B3ria%20que%20a,terr%C3%ADveis%20garras%20da%20bruxa%20Cuca.

https://www.mercadoeditorial.org/books/view/9786589711179

 

Narizinho; a primeira personagem feminina a ser protagonista em histórias infantis

Alguns dias antes do Natal de 1920, Monteiro Lobato publicava sua primeira obra escrita especialmente para o público infantojuvenil: "A Menina do Narizinho Arrebitado”, pioneira em diversos aspectos.

A obra marcou época, principalmente ao trazer pela primeira vez, como protagonista, uma personagem feminina, antes mesmo da espevitada Emília, que só teria o seu nome estampado num título em 1934 com o livro “Emília no País da Gramática”.

Para diversas gerações de crianças, as páginas dessa obra literária abriram as portas, ou melhor, as porteiras, para um mundo mágico, sem fronteiras de tempo e espaço, sem oposição entre o real e o fantástico, onde o que se deseja se pode viver, o que se imagina pode acontecer.

Aos poucos fomos conhecendo e nos tornando íntimos dos habitantes deste mundo, uma constelação de personagens incríveis que orbitam, naquela época, em torno de uma estrela maior: Lúcia, a menina do narizinho arrebitado, que deu início, há mais de 100 anos, a uma das mais famosas coleções da literatura infantojuvenil brasileira – o Sítio do Pica-Pau Amarelo”.

Dando sequência a nossa série sobre os principais personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, abordamos neste artigo, a personagem Narizinho.

Mas quem é essa personagem que ganhou fama por ter como principal característica física, um nariz arrebitado? Lúcia Encerrabodes de Oliveira, é o nome de batismo da neta de Dona Benta, prima de Pedrinho, dona da boneca Emília e ainda protagonista de várias aventuras que marcaram gerações, na forma de livro e também na televisão, no Brasil e no mundo.

Infelizmente, entre todos os personagens criados por Lobato, Narizinho é de quem menos se tem informações em relação a sua inspiração, origem e outros detalhes que nos ajudem a ampliar o nosso próprio imaginário. Na edição original, entre as poucas informações, o escritor nos indica que ela era órfã de pai e mãe, sem citar de quem era filha (se de um filho ou de uma filha de Dona Benta), por exemplo. Sabemos que seus pais morreram e só.

Monteiro Lobato foi um desses escritores que não costumava descrever detalhadamente a aparência de cada personagem. Ele costumava informar apenas leves indícios para caracterizar sua criação, assim como também fez com Narizinho,

descrevendo a personagem como uma menininha de sete anos, morena como jambo, de olhos pretos como duas jabuticabas”, algumas vezes bem diferente de algumas das Narizinhos que aparecem nas ilustraçoes dos seus livros e tambem nos programas de televisão que fizeram enorme sucesso ao longo de décadas.

Sua neta, Joyce suspeita que a personagem teria sido inspirada nas irmãs de Juca, como Lobato era chamado pela familia, Judith e Esther. Ambas era extremamente inteligentes, de personalidade forte e de imaginação fértil. Tambem nos deparamos no texto do professor Osni Lourenço Cruz, em seu livro Na trilha de Lobato”, onde ele afirma que “Narizinho seria fruto de uma fixação antiga por narizes que se percebe em muitos escritos de Lobato. Muitas características da personagem estariam ligadas às irmãs do escritor: Judith e Esther, com as quais costumava brincar na fazenda dos pais.”

Sobre a fixação com narizes arrebitados aqui vemos a realidade seguir a fantasia pois por incrível que pareça tanto sua neta Joyce quanto a bisneta de Lobato, Cleo, tem narizes arrebitados!

Na verdade, nunca saberemos ao certo de onde teria vindo a inspiração para a criação da nossa protagonista, entretanto, é facilmente percebida em Narizinho, várias características que moldam a sua personalidade: uma menina imaginativa e inteligente, com forte senso de justiça, que adora brincar e que valoriza uma boa amizade – como se nota na sua proximidade com a Emília, sua boneca de pano, melhor amiga e companheira.

O jambo, destacado como sendo a cor da pele de Narizinho, é uma fruta nordestina avermelhada e essa característica sutilmente acrescentada por Lobato, talvez um indício de brasilidade e mestiçagem tão comum na população brasileira.

Mas pouco importa aqui a cor de pele da nossa personagem e sim o seu protagonismo. Afinal Narizinho foi a responsável por dar origem a tudo que de maravilhoso acontece no sítio. É ela quem faz uma boneca falar, um sabugo filosofar, quem se casa com um peixe e ainda faz sua boneca se casar com um leitão!

Assim como Lewis Carroll criou sua Alice genialmente descrevendo como se sonha, quando os acontecimentos se desenrolam de modo bagunçado, Monteiro Lobato criou a personagem à sua maneira. Ele também fez Narizinho uma sonhadora, mas ela sonha de modo mais ordenado, como se estivesse acordada.

A nossa centenária personagem, no auto do seu protagonismo literário, simplesmente sonha o que quer sonhar!

 

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REFERÊNCIAS

https://jornal.usp.br/cultura/ha-cem-anos-nascia-narizinho-uma-menina-de-nariz-

Narizinho

https://www.scielo.br/j/ccedes/a/ysqfcVHPLcNq7vqQbYJxFmM/?lang=pt

http://espaconarizinho.blogspot.com/p/quem-e-narizinho.html

https://www.ovale.com.br/brand/2.730/narizinho-e-negra-cravou-pedro-bandeira-

Na trilha de Lobato” – professor Osni Lourenço Cru

A Importância da Representatividade da personagem Nastácia

Por Andréa Rosa
Tradutora e Intérprete de LIBRAS
Doutora em Educação e Professora da UFSCAR – Campus Sorocaba

Ter em mãos a versão da obra de Monteiro Lobato adaptada pela sua bisneta é um presente para nós leitores brasileiros. Cleo reúne características únicas que a qualificam para este trabalho e porque não dizer “aventura” que é tornar as obras de Monteiro Lobato acessível às crianças do século XXI!

A princípio para um leitor menos avisado realizar a versão ou a adaptação de um texto pode dar a impressão de ser uma tarefa fácil, porém, não é, pois ambos demandam conhecimentos linguísticos e artísticos. Ambos envolvem a recriação centrada na língua–alvo e na cultura de seus leitores, trabalho que Cleo Monteiro Lobato realiza com perfeição por meio das ilustrações e do texto.

Vale ressaltar que recentemente a obra de Monteiro Lobato tem sofrido algumas críticas, sendo considerada por alguns, preconceituosa, porém devemos considerar a época na qual foi escrita e os costumes estabelecidos. Então, vindo de encontro da atualidade e dos progressos alcançados com o tempo, Cleo Monteiro Lobato nos apresenta um texto que enaltece as diferenças sem desigualdade. Por exemplo quando nos apresenta Tia Nastácia “Na casa ainda existem duas pessoas – Tia Nastácia, amiga de infância de Dona Benta que carregou Lúcia em pequena, e Emília, uma boneca de pano bastante desajeitada de corpo”. Por meio desse recurso inusitado ao apresentar a Tia Nastácia como amiga de infância da Dona Benta e não como cozinheira, Cleo introduz as personagens de forma similar em total igualdade! Essa adaptação permite ao leitor imaginar Tia Nastácia e Dona Benta sem distinção de classe social, produzindo um texto apropriado no atual contexto social brasileiro.

As ilustrações dessa obra possuem leveza, criatividade e contemporaneidade, deixando os personagens ao alcance do imaginário das crianças do século XXI. As ilustrações são essenciais no livro infantil, pois aviva a imaginação, aflora sentimentos e possibilita a construção de significados. A imagem é sempre o primeiro chamado para a criança pequena, que ainda não domina a leitura verbal. A leitura de um livro começa na capa e vai até onde o leitor possa perceber a riqueza de detalhes que compõem a obra, cujas narrativas de texto e de imagem se conectam. A narrativa da obra se faz de maneira articulada entre textos e imagens.

Nessa direção vale destacar as referências que são trazidas ao texto por meio das ilustrações, a exemplo de Narizinho que sempre foi descrita como uma menina morena cor de jambo que mora no sítio, e acompanhando dessa narrativa temos a ilustração de uma menina desta vez realmente morena com cabelos castanhos escuros curtos, vestido vermelho e calçando tênis All Star vermelhos, representação totalmente contemporânea. Essa imagem permite as crianças se identificarem com o personagem e nesse momento ocorre a captura do leitor pela obra! Cleo Monteiro Lobato alcança o êxito desejado por todo e qualquer autor!!

Vale destacar a nova tia Nastácia. Ela é retratada com riqueza de detalhes com suas roupas coloridas e típicas dos países africanos, com brincos, colares e pulseiras, dessa forma abandonando-se o lugar de subalterna e sem posses, a personagem negra está em pé de igualdade com a Dona Benta. Por essa contribuição a obra de Cleo Monteiro Lobato já é por si só merecedora de ser lida pelas nossas crianças, pois colabora para a transformação do olhar do outro sobre a pessoa negra e igualmente permite a criança negra se identificar com o personagem de forma admirável, produzindo nessa criança auto estima positiva sobre si mesma.

Nesse trabalho, narrativa e imagem são tecidas com delicadezas e preenchem todo o livro concebendo dele como uma obra reescrita e ao mesmo tempo original. E não é esse o desejo de todo tradutor/autor? Fazer ecoar na obra a voz do autor do original na reescrita de um novo texto autoral?

Monteiro Lobato sobrevive para as crianças do século XXI no trabalho sensível da sua bisneta!

Magno Silveira, um dos inumeráveis e apaixonados “filhos de Lobato”

A paixão de Magno Silveira pelos livros de Monteiro Lobato é prova do extraordinário alcance que tiveram os livros de Monteiro Lobato Brasil a fora.

Nascido em mãos de uma parteira na Fazenda do Lajão, no município de São Pedro dos Ferros, na zona da Mata mineira, o designer, ilustrador e bibliófilo Magno Silveira, já nos tempos de pré-adolescente, morava” literalmente, na pequena biblioteca da cidade. Costumava passar os dias mexendo, remexendo, lendo e relendo o curioso acervo que marcou a sua memória, com a mítica O Tesouro da Juventude e toda a obra infantil de Jose Bento Monteiro Lobato.

Uma das coleções, relembra Magno, de capa vermelha com dourações, que existia na biblioteca, foi ilustrada por André Le Blanc e cada um dos exemplares trazia, extra texto, duas pranchas ilustradas a cores por Jurandyr Ubirajara Campos, o conhecido J.U. Campos. Essas ilustrações coloridas, caprichosamente pintadas, eram o deslumbre do jovem, que mais tarde se tornaria um verdadeiro garimpeiro da obra do pai da literatura infantil brasileira. Narizinho em diálogo com o Gato Félix, a turminha do Sítio montada no Quindim, a onça tentando abocanhar o Sacy, a casinha de Dona Benta com o mastro de São João, são lembranças ainda bem vivas pois as pranchas coloridas de J.U. Campos eram verdadeiras obras primas.

A outra coleção era de natureza mais popular, mais atrativa nas capas, todas elas elaboradas por Augustus, que Magno considera o maior capista de Monteiro Lobato. Augustus, na sua opinião, conseguiu cenas absolutamente cinematográficas desenhadas de modo a unir capa, lombada e contracapa, num todo impactante. Sua capa para Reinações de Narizinho, um grande close up das narinas da menina, é magistral, e tornou-se clássica. O miolo dessa coleção trazia as mesmas ilustrações do André Le Blanc, mas sem as pranchas coloridas de J.U.Campos”, destaca.

Magno, que desenha desde a infância, conta que todo esse deslumbre surgiu naturalmente, inclusive na época ele já se tornara uma espécie de desenhista oficial da pequena cidade de São Pedro dos Ferros.

Nasceu lá, naquela pequena biblioteca, a paixão de Magno Silveira por Monteiro Lobato, por seus livros, por seus ilustradores que, desde 1992, são objeto de sua coleção e pesquisa. Como sempre quis o escritor, eu realmente morei” – e ainda moro – em seus livros e, quando a vida se torna um tanto aborrecida, fujo imediatamente para o Picapau Amarelo onde tenho longas conversas com o Visconde de Sabugosa ao sabor do delicioso aroma que vem da cozinha de Tia Nastácia”, relata Magno.

Magno cursou desenho na Fundação Mineira de Arte e Artes Plásticas na Fundação Escola Guignard, em Belo Horizonte e Design Gráfico na Universidade Paulista, em São José dos Campos, cidade onde mora desde 1991 e há mais de 30 anos comanda com sucesso o Magno Studio Design & Branding, escritório especializado em design editorial, naming, design de embalagens, design gráfico e estratégico, branding, ilustração e websites.

Colecionando livros de Lobato, tem em seu acervo raras primeiras edições de obras infantis do escritor e em 2015 foi o curador da exposição Os Ilustradores de Lobato – a construção do livro infantil brasileiro, montada inicialmente no Sesc de São José dos Campos, em 2015, na qual exibiu uma seleção de desenhos de Voltolino, Kurt Wiese, Nino, Jean Villin, Belmonte, Rodolpho, Raphael de Lamo, J.U.Campos, André Le Blanc e Augustus, ilustradores escolhidos a dedo por Monteiro Lobato, entre os anos de 1920 e 1948. No ano passado esta mesma exposição teve uma versão pocket no Clube Athletico Paulistano, na capital paulista, celebrando os 30 anos do escritório Magno Studio Design.

Alma de bibliófilo e mãos de designer

Lançando um novo olhar sobre a obra infantil de Lobato, usualmente estudada por suas qualidades literárias e temáticas, Magno Silveira tem focado suas pesquisas nos ilustradores e nas soluções gráficas e editoriais que mudaram definitivamente o rumo dos livros para as crianças do Brasil. Com esse trabalho, destacando os ilustradores de Lobato, Magno iluminou também o rico universo artístico das primeiras décadas do século XX.

Com alma de bibliófilo (amante ou colecionador de livros raros e preciosos) e mãos de designer, a riqueza, a originalidade e o rigor dos arranjos expositivos dos trabalhos de Magno não demoraram a chamar a atenção das editoras. Hoje ele faz pesquisas iconográficas (estudo descritivo da representação visual de símbolos e imagens) textos e leitura crítica para as coleções lobatianas da Editora do Brasil e da Globo Livros.

Através de seu escritório, o designer, que também é ilustrador, apresenta em seu portfólio inúmeros projetos de livros, publicações e peças gráficas. Toda essa expertise, aliada ao mergulho técnico e emocional no universo das imagens dos livros de Lobato, levaram Magno ao júri da categoria capa do Prêmio Jabuti 2020.

A reprodução original de O Sacy, de Monteiro Lobato

Este ano Magno Silveira criou a Editora Graphien com o objetivo de levar aos leitores edições fac-similares das primeiras edições de obras da literatura brasileira, a começar por livros de Monteiro Lobato. O Sacy, uma primeira edição hoje raríssima, foi o primeiro lançado no dia 21 de Junho. Para maior fidelidade à impressão tipográfica, foram projetadas matrizesem computação gráfica minuciosamente elaboradas a partir da

análise e compreensão da capa original digitalizada em altíssima resolução”, explica o organizador.

O resultado, foram 1.500 exemplares de um livro impresso em papel importado Munken (150g), no formato original 23×30 cm, com capa dura, sobrecapa grafite e corte circular ao centro, que deixa aparente o detalhe da tricromia da capa original. Nas suas 68 páginas, a edição retrata com rigorosa fidelidade a obra original, trazendo em seu miolo um português de creanças” e hontem”, onomatopeias caipiras, como nhen, nhin” (rangido de pau de bandeira), lepte, lepte” (açoite com vara de marmelo) e vukt, vukt” (balanço em cipó).

O conhecimento minucioso de Magno sobre cada traço dos artistas escolhidos a dedo por Lobato, o mergulho nos contextos culturais das obras e a expertise no campo da produção gráfica estão refletidos nessa impecável edição fac-similar de O Sacy, um marco editorial no resgate de primeiras-edições brasileiras, que celebra os 101 anos dessa obra renovadora do escritor e inaugura o catálogo da recém-lançada editora.

Além do bibliófilo e designer Magno Silveira, a organização da obra contou com a participação de Marisa Lajolo, Vladimir Sacchetta e Cilza Carla Bignotto, estudiosos da obra do Lobato, que contribuíram com artigos especialmente preparados para a edição.

Para adquirir a edição fac-similar de O Sacy, basta clicar neste link: https://www.graphien.com.br/

Você também pode conhecer mais sobre Magno Silveira acessando o site https://bibliotecadovisconde.com.br/ ou seguindo o seu perfil no Instagram: https://www.instagram.com/magno_silveira/ ou no Facebook: https://www.facebook.com/mgn.silveira

 

 

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REFERÊNCIAS:

https://www.ovale.com.br/viver/noticias/30-anos-do-magno-studio-com-a-exposic-o-

De reinação em reinação – 100 anos de Narizinho

https://www.paulistano.org.br/noticias/exposicao-ilustradores-de-lobato-aberta-no-

https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,o-sacy-de-monteiro-lobato-ganha-

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Museu Lobato: um lugar para quem já é apaixonado e para quem precisa se apaixonar pelo Sítio do Pica-Pau Amarelo

É dentro de uma extensa área verde de 18 mil metros quadrados, na cidade de Taubaté, no interior de São Paulo, onde fica o Museu Monteiro Lobato, instalado num casarão do século 19 que pertenceu ao avô materno do escritor, o Visconde de Tremembé. Lá nasceu Monteiro Lobato e foi um dos lugares onde passou tempos até os 12 anos de idade. Estilo rústico com grandes portas e janelas com padrões europeus, o casarão tem a sua estrutura feita de taipa de pilão, uma construção típica das chácaras das “Cidades do Café” da época, abrigando uma biblioteca infantil com as obras de Lobato.

Na extensa área verde, conhecida como Sítio do Pica-Pau Amarelo, se encontram a antiquíssima jaqueira citada nas páginas escritas por Lobato e o pomar da Dona Benta, numa oportunidade fascinante das pessoas deixarem a internet e mergulharem no ambiente que deu vida aos personagens do Sítio mais famoso do mundo, eternizados na literatura infantil brasileira.

Criado em 4 de novembro de 1958, o Museu Histórico Folclórico e Pedagógico Monteiro Lobato tem como missão a preservação e a divulgação da obra do escritor, através de programas de preservação, comunicação e pesquisa, voltados para os mais diferentes públicos, sendo um centro de referência nacional sobre a sua vida e a obra, a literatura infantil brasileira, o folclore e a cultura tradicional caipira.

PATRIMONIO DE TODOS NÓS

Tombado como patrimônio histórico estadual e nacional desde 1962, o Museu chegou a ficar fechado por um longo período para obras de restauração do casarão realizadas pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) e foi finalmente entregue ao público em 1981.  Desde então passou por várias mudanças e estruturação, de modo que somente a partir de 1993 começou a ter diretores/coordenadores, inciando com Benedita Célia Martins, sucedida na sequência por Conceição Molinaro, Consolação de Jesus F. C. Leão, Dálton Brunini Patto, Maria Cristina Lopes, Nathalia Novaes, Keli Santos e Juliana M. de Carvalho, que é a atual coordenadora do museu.

Recentemente o Museu também passou por um processo de modernização, que teve início em 2019 e foi concluído no início deste ano. O local agora conta com mais de mil itens catalogados, divididos em seis tipologias: documentos, bibliográfica, obras completas, hemerográfica, iconoteca e objetos. Todo esse material está disponível de forma gratuita para o público através de um banco de dados digital com manuscritos, fotografias, todas as obras completas de Lobato, tanto da literatura infantil quanto da adulta e onde o visitante pode navegar para conhecer um pouco da vida pessoal e profissional do autor.

O portal também proporciona uma imersão no universo lobatiano por meio de uma exposição virtual gamificada, ou seja, um jogo virtual e gratuito, onde a boneca Emília leva os usuários para uma grande aventura no Reino das Águas Claras e pela Floresta do Capoeirão dos Tucanos, cenários inspirados nas obras “A Menina do Nariz Arrebitado” (1920) e “O Saci” (1922). Neste portal interativo e educativo Emilia, a boneca mais curiosa e esperta do mundo explora também a vida e obra do escritor, com missões e desafios até chegar na Cuca e espantá-la com o pó de pirlimpimpim. Essa aventura conta com a ajuda de Tia Nastácia, Narizinho, Tio Barnabé, do Saci e de muitos livros encontrados pelo caminho. Vale a pena para a criançada jogar o game  e aprender sobre Lobato!

No museu os visitantes encontram um acervo com objetos pessoais como guarda-chuva, valise médica, tinteiro, baú, algumas primeiras edições dos livros do escritor, fotografias, banco de textos, bibliografia, documentações e uma biblioteca com obras de Lobato e de outros escritores. Há também três aquarelas que faz parte da coleção permanente do Museu doadas por José Carlos Sebe Mehy.  Lobato sempre amou desenhar e pintar tento feito inúmeros desenhos a nanquim, aquarelas e pinturas a oleo, e dizia: “No fundo não sou literato, sou pintor. Nasci pintor, mas como nunca peguei nos pincéis a sério, arranjei, sem nenhuma premeditação, este derivativo de literatura e nada tenho feito senão pintar com palavras”.

O museu apresenta ainda uma réplica original da cozinha típica caipira montada nos moldes característicos do Vale do Paraíba, no período colonial do século XVIII. Com um vasto acervo, contendo: Fogão a lenha, pilão de madeira, ferro de passar roupa da época entre outros utensílios.

Para os visitantes o grande diferencial é sem dúvida poder interagir por todo esse ambiente ao lado de atores de teatro que encarnam Emília, Narizinho, Visconde de Sabugosa, Dona Benta, Tia Anastácia e Pedrinho que apresentam o museu de forma lúdica e criativa, passeando pelo sítio, apresentando as dependências, brincando e encantando as crianças.

TEATRO NO MUSEU

Instituídas na década de 1990 pela professora Conceição Molinaro, as atividades teatrais tiveram a sua continuidade garantida pela professora Tina Lopes, (ambas ex- diretoras do museu) cumprindo um importante papel educativo. O enredo é pautado na obra infantil de Monteiro Lobato adaptada pelo educativo do museu de forma colaborativa, com um coordenador artístico e o elenco de atores, onde a cada quatro meses são executadas novas montagens teatrais e os atores atuam caracterizados com as personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Atualmente o espaço possui capacidade para 120 pessoas e o elenco conta com 12 atores escolhidos anualmente através de processo seletivo em parceria com o Centro de Integração Empresa Escola.

ACONTECE EM JULHO

Este mês o Museu Monteiro Lobato oferece uma série de três exposições imperdíveis entre elas, a exposição “Revivendo Lobato”, que traz em caráter inédito a apreciação de mobiliários e objetos que pertenceram a família do escritor e até mesmo a José Francisco Monteiro, o Visconde de Tremembé. No dia 2, data da abertura da exposição, a também escritora Cleo Monteiro Lobato, bisneta do autor, fará uma palestra e uma tarde de autógrafos com coquetel para autoridades e convidados.

VISITAÇÃO

O Museu funciona com dias e horários específicos para visitação.

As visitas ao CASARÃO por exemplo, acontecem de terça à sexta-feira das 9h às 16h30 e aos sábados e domingos das 9h às 12h e das 13h às 16h30.

A visitação a Área externa do Museu acontece de terça à domingo, das 9h às 17h.

Já as famosas sessões teatrais acontecem aos fins de semana e feriados, com sessões as 11h e as 16h, desde que haja um público mínimo de 10 pessoas. A retirada de senhas para as apresentações é feita com 30 minutos de antecedência do início de cada sessão.

Para saber mais sobre o museu, acesse o site www.museumonteirolobato.art.br 

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Referências:

https://www.sisemsp.org.br/novo-acervo-digital-e-entregue-ao-museu-monteiro-lobato/

https://guiataubate.com.br/museus-em-taubate/museu-historico-folclorico-e-pedagogico-monteiro-lobato

http://www.conhecendomuseus.com.br/museus/museu-historico-folclorico-e-pedagogico-monteiro-lobato/

https://taubate.sp.gov.br/secretarias/museu-historico-folclorico-e-pedagogico-monteiro-lobato/

https://www.a12.com/jornalsantuario/noticias/museu-taubateano-reproduz-mundo-de-monteiro-lobato

Pedro Encerrabodes de Oliveira

Você conhece o Pedro Encerrabodes de Oliveira?

Especialmente se colocarmos o primeiro nome no diminutivo, certamente a grande maioria vai saber que estamos falando do neto de dona Benta, primo de Lúcia – a Narizinho do Sítio do Pica-Pau Amarelo, um menino bastante corajoso (a única coisa que bota medo nele são vespas), aventureiro, que mora na cidade e sempre passa as férias no sítio da avó com a prima, a boneca Emília, o Visconde de Sabugosa e outros personagens mágicos do universo lobatiano.

Dando sequência a nossa série de conhecer um pouco mais sobre a origem dos principais personagens criados por Monteiro Lobato, chegamos ao eterno menino Pedrinho, que acredita-se foi criado pelo escritor inspirado em suas memórias de si mesmo quando criança, vivendo uma infância saudável, brincando na fazenda com os filhos dos colonos, fazendo bonecos de sabugo de milho e tambem lendo em meio aos livros da biblioteca do avô, onde passava horas a fio.

Mas o nome do personagem, de acordo com o professor Osni Lourenço Cruz, em seu livro “Na trilha de Lobato entre as Serras”, teria sido uma homenagem a Pedro Luiz de Oliveira Costa, o Dr. Pedrinho, uma das figuras mais renomadas da política taubateana até hoje, de quem o escritor era primo por afinidade.Dr. Pedrinho foi vereador, prefeito de Taubaté, deputado estadual e federal. Ao longo de sua vida sofreu com muitos ataques racistas por causa da sua cor e assim como Lobato, pelo fato de ser filho da terra. Talvez por isso e tambem por ambos terem perdido os pais muito cedo, o escritor se identificasse com o Dr. Pedro Costa, ao ponto de homenageá-lo dando seu nome ao personagem.

No imaginário lobatiano, Pedrinho tem dez anos de idade, cabelos curtos, faz aniversário abril e aparece pela primeira vez no livro “Narizinho Arrebitado” na segunda historia , quando chega ao Sitio de ferias O personagem emerge mesmo a partir do livro infantil, O Saci”, publicado no final de 1921 pela editora da Revista do Brasil, quando o personagem passa então a fazer parte integral das aventuras do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Podemos descrever a personalidade de Pedrinho, de acordo com o autor, como sendo um menino curioso, ativo, autônomo, interessado por leituras diversas, que gosta de assuntos científicos, valorizado pela coragem, pela responsabilidade e pela honestidade. Pedrinho é um menino inteligente que reflete e questiona com argumentos a autoridade dos adultos e muitas vezes, nas obras pesquisadas, o personagem desobedece” o adulto. Ele também reflete a imagem de um personagem que valoriza a ordem e os deveres em suas relações sociais alem de respeitar muito a natureza, especialmente depois do seu encontro e “educação” com o Saci.

Em resumo, esse personagem, inspirado no próprio Lobato é uma mistura de valores lobatianos que o autor quis passar para as próxima gerações e tambem da idealização de das boas lembranças da infância de um menino que não envelhece com o tempo. Afinal não há modernidade ou recurso tecnológico que faça envelhecer a alma de uma criança.

“E que assim seja sempre”

 

REFERÊNCIAS:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedrinho#:~:text=Pedrinho%20foi%20retratado%20pela%2

https://repositorio.ufsc.br/xmlui/bitstream/handle/123456789/129472/327577.pdf?sequ

*Prof. Osni Lourenço Cruz – “Na trilha de Lobato entre as serras”

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Monteiro Lobato mudou o próprio nome

Você sabia que antes de se chamar José Bento Monteiro Lobato, o pai da literatura infantil brasileira, que nasceu em 1882, se chamava José Renato Monteiro Lobato?

Pois é. Esse era o nome de batismo de Monteiro Lobato, que mudou o próprio nome aos 11 anos de idade, para usar uma bengala (acessório muito usado na época), que era de seu pai com as iniciais J.B.M.L. gravadas.

Essa é uma das histórias reveladoras contadas na biografia "Furacão na Botocúndia" (Senac), de 97, transformada em vídeo com depoimentos de escritores, imagens históricas e relatos do próprio escritor, que morreu em 1948. Esse documentário foi produzido pela Fundação Banco do Brasil e pela Odebrecht dentro do "Projeto Memória", que apresenta personalidades ou fatos históricos que marcaram o país.

O vídeo que conta a vida do escritor desde a infância até a sua morte, passando pelos livros e pelas lutas travadas por ele ao longo da vida, foi dirigido por Roberto Elisabetsky a partir do roteiro de José Roberto Torero e distribuído exclusivamente em escolas e bibliotecas.

 

Fonte:

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq10079923.htm

Mediação de Leitura: Dona Benta Em Tempos de Revolução Digital

RESUMO: Em tempos de uma grande imersão nos smartphones e nos tablets, temos observado que os professores vêm encontrando dificuldades para envolver seus alunos na leitura de obras literárias. Diante desse cenário, no qual os livros concorrem com os dispositivos móveis, tomamos como exemplo a figura de Dona Benta – personagem das histórias infantis de Monteiro Lobato – com o objetivo de refletirmos sobre o papel do mediador de leitura na contemporaneidade: não somente aquele que apresenta os textos, mas também convida os leitores a olharem para o universo que os circunda. Para tanto, neste artigo, abordaremos a performance da avó de Narizinho e Pedrinho, particularmente, em Geografia de Dona Benta (1935) e em D. Quixote das crianças (1936), e, depois, inspiradas nessa prática de formação, proporemos estratégias de mediação alinhadas à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para trabalhar com os livros citados, a partir do uso de recursos digitais, no 6º ano do Ensino Fundamental.



PALAVRAS-CHAVE: Dona Benta; Literatura; Mediação; Recursos Digitais.

ABSTRACT: In times of great immersion in smartphones and tablets, we have observed that teachers have found great difficulty in involving their students in reading literary works. In view of this scenery, in which books compete with mobile devices, we have as an example the figure of Dona Benta – a character in Monteiro Lobato children’s stories – with the aim of reflecting on the role of the mediator of reading in contemporary times: not only the one who presents the texts, but also the on who invites readers to look at the universe that surrounds them. Therefore, in this article, we will discuss the performance of Narizinho and Pedrinho’s grandmother, particularly in Geografia de Dona Benta (1935) and in D. Quixote das Crianças (1936), and then, inspired by this training practice, we will propose strategies of mediation – aligned with the National Common Curricular Base (BNCC) – to work with the books cited, using digital resources, in the 6th year of elementary school.

KEYWORDS: Dona Benta; Literature; Mediation; Digital Resources.

 

INTRODUÇÃO

Qualquer adolescente de hoje em dia sabe que um PC é um computador pessoal […] No

entanto, para os homens da minha geração […] PC significava Partido Comunista. Hoje, PC serve de bandeira para um outro movimento revolucionário e, como quase sempre nesses casos, são jovens quem o encabeçam. Trata-se da revolução digital, informática, ou seja lá que outro nome se queira dar a ela, que há uma década vem sacudindo a humanidade.
Juan Luis Cebrián 

 

 

Segundo Morin (1997a, p. 147), “numa sociedade em rápida evolução e, sobretudo, numa civilização em transformação acelerada como a nossa, o essencial não é mais a experiência acumulada, mas a adesão ao movimento”. Por isso, neste artigo, cientes do quão urgente se faz sintonizar as nossas práticas docentes à atual concepção de realidade que vem sendo esculpida, propomos discutir sobre estratégias de mediação, em tempos de tecnologias digitais da informação e comunicação, as chamadas TDICs, a partir da forma como Dona Benta explora o universo da leitura em duas obras infantis de Monteiro Lobato, Dom Quixote das Crianças (1936) e Geografia de Dona Benta (1935). A nossa tese de que essa personagem deva ser tomada como uma espécie de modelo de mediadora de leitura, em sala de aula no século XXI, alicerça-se em dois pontos. Primeiramente, no fato de Dona Benta apresentar, enquanto leitora proficiente dos mais variados assuntos, os livros às crianças de maneira instigante, envolvendo-as em reflexões complexas não só a respeito da construção dos sentidos presentes nos textos, mas também sobre os diversos conhecimentos que os perpassam, pois, conforme nos esclarece Lajolo (2005, p. 103), ao abordar o projeto de leitura, de tradução e de adaptação de Dom Quixote das crianças”, “o leitor encontra material bastante rico para reflexão sobre questões de leitura, de leitura dos clássicos, da adequabilidade de certas linguagens a certos públicos, do papel a ser representado pelo adulto responsável pela iniciação dos jovens na leitura e mais miudezas.” Cardoso (2008, p. 290 e 291) nos conta que, em Geografia de Dona Benta, Monteiro Lobato também “idealizava um projeto educacional democrático, autônomo, capaz de formar leitores críticos, preparando-os para vida” e, por isso, não escondia das “crianças as guerras, bem como suas causas, a necessidade de poder e dominação, características tão marcantes do ser humano”. Contudo, vale sublinharmos que essas propostas de formação humana, evidenciadas no modo como a avó-leitora-mediadora conduz os serões, nem sempre foram compreendidas, acarretando a proibição das obras lobatianas em várias escolas, ainda no tempo em que Lobato era vivo. O segundo ponto é a noção de que “a literatura é um mundo aberto ao mesmo tempo às múltiplas reflexões sobre a história do mundo, sobre as ciências naturais, sobre as ciências sociológicas, sobre a antropologia cultural, sobre os princípios éticos, sobre política, economia, ecologia…” (MORIN, 1997b, p. 67). Nesse sentido, compreendendo a literatura “[…] não só como um produto da imaginação criadora do homem, mas também como um meio de problematizar o real – uma espécie de ‘encruzilhada’ por onde passam e se cruzam todos os ‘caminhos’ que formam o ‘mapa’ da sociedade” (COELHO, 2000 p. 28, grifos da autora), iremos sugerir também possibilidades de se trabalhar os dois livros em questão, no 6º ano do Ensino Fundamental, a partir do uso do recursos digitais integrados, como prevê a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

DONA BENTA, A PERSONAGEM MEDIADORA DE LEITURA NA SAGA INFANTIL LOBATIANA

Uma senhora que respeitava os livros. Isso mesmo. Uma personagem leitora e mediadora de leitura. Falamos aqui de Dona Benta, personagem-avó das obras infantis de Monteiro Lobato. Dona Benta aparece já em A menina do Narizinho Arrebitado, em 1920-1921. Mas não é ainda a senhora que conhecemos. Apenas em 1931, com a publicação de Reinações de Narizinho, é que os leitores vão se deparar com a avó que será a mediadora de textos para toda a turma do Sítio do Picapau Amarelo ao longo da saga de mais de vinte volumes. Vejamos Dona Benta nestes dois textos separados no tempo por 10 anos:

 

A menina do narizinho arrebitado (1920/21) (Edição Fac-similar, 1982) Reinações de Narizinho (1931)
Naquela casinha branca, — lá muito longe, mora uma triste velha, de mais de setenta anos. Coitada! Bem no fim da vida que está, e trêmula, e catacega, sem um só dente na boca – jururu… Todo o mundo tem dó dela: – Que tristeza viver sozinha no meio do mato… Pois estão enganados. A velha vive feliz e bem contente da vida, graças a uma netinha órfã de pai e de mãe, que lá mora desde que nasceu. (LOBATO, 1982, p. 3) Numa casinha branca, lá no sítio do Picapau Amarelo, mora uma velha de mais de sessenta anos. Chama-se Dona Benta. Quem passa pela estrada e a vê na varanda, de cestinha de costura ao colo e óculos de ouro na ponta do nariz, segue seu caminho pensando:
– Que tristeza viver assim tão sozinha neste deserto…
Mas engana-se. Dona Benta é a mais feliz das vovós, porque vive em companhia da mais encantadora das netas – Lúcia, a menina do narizinho arrebitado, ou Narizinho como todos dizem. (LOBATO, 1977, p. 9)
 

 

 

Como vimos no quadro acima, Dona Benta nasce sem nome e parece estar já no fim da vida, trêmula, catacega e sem dentes na boca. Nem de perto essa descrição assemelha-se à personagem que hoje conhecemos nas obras do Sítio do Picapau Amarelo.  Como poderia aquela personagem, com tal caracterização, participar de todas as aventuras que tinham passado pela cabeça de nosso escritor? Dona Benta precisava de mais tempo de vida e de mais vivacidade. 
Eis que uma década e muitos outros pequenos textos com aventuras da turma, no meio do caminho, serviram para que Lobato percebesse a necessidade de rejuvenescer a avó. Pois foi o que o leitor passou a encontrar em 1931, com a publicação de Reinações de Narizinho. Nele, a senhora recebe um nome, Benta, e tem pouco mais de sessenta anos. É ativa, gosta de costurar e usa óculos de ouro no nariz, o que nos faz deduzir que se trata de alguém com alguma posse. De acordo com o trecho apresentado anteriormente, ela vive contente (“mais feliz das vovós”), pois mora em companhia de Lúcia (“mais encantadora das netas”). Por meio dessa reelaboração do texto, o escritor traz, então, certa delicadeza à obra, antes bem mais sisuda, talvez por conta da avó catacega e da neta órfã de pai e mãe. 
Esse tom mais leve e carinhoso é o que reverberará na cabeça de todo leitor de Lobato quando conhece Dona Benta. Para nós, professores de literatura, conhecê-la significa também admirá-la não só como uma grande leitora que ela é, mas também mediadora de leitura em que se torna. Explicamos. Dona Benta, apaixonada pelo ato de ler, empresta as suas competências leitoras para os leitores em formação.
Dona de uma imensa biblioteca, já leu e releu exemplares importantes de textos que compõem a história da humanidade. Um desses muitos livros é Dom Quixote, de Cervantes, em dois enormes volumes, os quais se tornam mote para que Emília e os netos peçam a ela que lhes conte a história do herói da Mancha. Assim como leitora de Quixote, ela é também de Peter Pan e de Hans Staden, outros dois clássicos da literatura que, junto com o texto cervantino, serão recontados para os netos. 
Atenta sempre à importância da leitura, ela oferta os mais variados assuntos e os estimula a imersão nos textos para, futuramente, quando desenvolverem as habilidades leitoras esperadas, busquem os textos originais dos quais ela reconta as histórias ou sobre os quais faz comentários críticos ou ainda ouve e comenta os comentários dos netos e dos bonecos Emília e Visconde.
Como mediadora de leitura, Dona Benta é capaz de se inserir entre o texto lido (ou recontado) e o ouvinte, ajudando-o a entender as relações entre ambos. Por isso, em seus serões, faz questão de que seus netos dialoguem com ela e perguntem sempre que alguma dúvida surgir. Seu vasto e rico repertório de leitura faz com que ela seja respeitada e valorizada, em especial, pelos próprios netos e também pelos outros moradores do Sítio. Além de recontar clássicos literários, também aproveita seus serões para recontar e mediar a história do mundo e sua geografia (a partir de uma viagem imaginária que ela e a turminha empreendem a bordo do navio “O Terror dos Mares”). Também ajuda o Visconde a explicar como se faz a exploração do petróleo no Sítio e faz experiências e as explica em História das Invenções. Vejamos:

 

 

de, no futuro, ler o texto em sua versão completa. Trata-se de uma importante competência mediadora a percepção de que o mediador é uma “ponte” temporária entre o texto e seu leitor. Ele está ali apenas como facilitador, naquele momento, de distâncias históricas, linguísticas ou estilísticas. Vemos muito bem essa competência de Dona Benta nos exemplos de texto em que ela se preocupa com a leitura futura das crianças (ROMANO, 2019, p. 161). 

 

 

Sensível às competências de leitura de seus ouvintes, a avó-leitora-mediadora encontra alternativas, geralmente eficazes, para mediar os textos para os netos e demonstra traquejos que contribuem para que as crianças gostem das histórias, queiram escutá-las, compreendê-las e discuti-las (e por que não, relê-las no futuro), acabando por torná-las, até mesmo, parte da própria realidade delas. 

Essa era a Dona Benta personagem do início do século XX. E hoje, nos vinte primeiros anos do século XXI, em plena revolução digital, continuam atuais as táticas de reconto de textos e a performance como mediadora de leitura da carismática Dona Benta? No momento em que vivemos, quando se fala tanto em TDICs e BNCC, como a personagem inspira processos de mediação antenados ao século XXI?  


A EDUCAÇÃO EM TEMPOS DE REVOLUÇÃO DIGITAL


A sociedade, nos últimos séculos da grande marcha humana, vem sofrendo profundas e céleres transformações, o que, consequentemente, esculpe novos paradigmas nos modos de ser, pensar, sentir, agir e se comunicar. Com o advento da internet e a popularização dos microcomputadores, temos percebido de forma ainda mais evidente essas mudanças, como é o caso da Web 1.0, Web 2.0, Web 3.0 e já se fala em Web 4.0.
De acordo com Santaella (2007, p. 195), “se prestarmos a atenção [no transcurso de apenas dois séculos], ficará perceptível que grande parte dessas invenções é constituída por tecnologias que incrementam a capacidade humana para a produção de linguagem.” Segundo a autora, essas tecnologias (info)comunicativas podem ser classificadas em cinco gerações, as quais produzem formas de culturas específicas, embora o surgimento de uma formação cultural não anule as outras, visto que ocorre a sobreposição e a complexificação nos modos de coexistência, como veremos a seguir:

 

CULTURAS

ÂMBITOS

TECNOLOGIAS

MÍDIAS

TRAÇOS

industrial

eletromecânica

do reprodutível

jornal, foto e

cinema

reprodutibilidade

de massa

eletroeletrônica

da difusão

rádio e televisão

transmissão

das mídias

narrowcasting

do disponível e do descartável

para audiências específicas

segmentação

cibercultura

teleinformática

do acesso

digitais

interatividade

da mobilidade

comunicação móvel

da conexão contínua

locativas

portabilidade

 

 

 

A convivência imbricada desses cenários culturais midiáticos demarca, dos anos 1990 para cá, o início do que chamamos hoje de revolução digital  e isso, no que se refere ao universo da literatura, não impacta somente a maneira como se produzem e se divulgam os textos literários, mas também o jeito de lê-los e mediá-los. 

Há pouco tempo, a gigante editorial americana Simon & Schuster ditou novas regras para seus escritores. E quais seriam elas? Abrir um blogue. Criar uma página no Facebook. Gerar conteúdo em redes sociais literárias. Interagir. Contaminar-se. Sair dos escritórios empoeirados ou da pretensa redoma criativa. Abrir-se para as novas exigências e imperativos de uma época de cibercultura. Tudo isso posto em contrato (CRUZ, 2012, p. 32).


Nas instituições de ensino, também conseguimos notar uma certa mudança: a transição de aulas estritamente centradas na figura do professor-expositor para novos modelos educacionais, cujas dinâmicas colocam os estudantes como protagonistas nos processos de aprendizagem. Esse movimento, apesar de vir caminhando a passos lentos, desponta, cada vez mais, com a adoção de percursos metodológicos personalizados a partir do uso integrado das tecnologias digitais.
Nesse sentido, como bem destaca Lévy (1999, p. 171, grifos do autor) ainda no século XX:

[…] a principal função do professor não pode mais ser uma difusão dos conhecimentos, que agora é feita de forma mais eficaz por outros meios. Sua competência deve deslocar-se no sentido de incentivar a aprendizagem e o pensamento. O professor torna-se um animador da inteligência coletiva dos grupos que estão a seu encargo. Sua atividade será centrada no acompanhamento e na gestão das aprendizagens: o incitamento à troca, a mediação relacional e simbólica, a pilotagem personalizada dos percursos de aprendizagem etc.

Por isso, compartilhando da mesma opinião de Martín-Barbero (1996, p. 19, grifos do autor) sobre o quanto as tecnologias digitais de comunicação e informação trazem um grande desafio para a sala de aula, haja vista que “apenas a partir da compreensão da tecnicidade midiática como dimensão estratégia da cultura que a escola pode inserir-se [verdadeiramente] nos processos de mudanças que atravessam a nossa sociedade”, retomamos as orientações da BNCC com o objetivo de propormos  mais adiante – à moda de Dona Benta – possibilidades de mediação de leitura, no 6º ano Ensino Fundamental, a partir do uso de recursos digitais.


BNCC E TDICS, UMA PROPOSTA DE TRABALHO COM A LITERATURA EM SALA DE AULA

Não adianta a tecnologia reforçar o processo educativo tradicional. É preciso, antes 
de mais nada, repensar a educação. Repensar a educação e repensá-la a partir dos 
próprios educandos e, a partir daí, pensar um novo desenho do processo educativo, ver o 
replanejamento desse processo e verificar para que pode servir a tecnologia. 

As diretrizes da BNCC buscam garantir, ao longo da Educação Básica, aprendizagens essenciais para o século XXI. De acordo com essas prescrições, os alunos devem ter assegurado o desenvolvimento de dez competências gerais que se consubstanciam em direitos éticos, estéticos, políticos e de aprendizados. Vale sublinharmos que tais competências só poderão ser alcançadas plenamente se houver a “mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para desenvolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho” (BRASIL, 2018, p. 8).
Para pensarmos em como é possível, ainda hoje, nos inspirarmos nos processos de mediação de leitura da nossa personagem-avó-leitora e, ainda por cima, ir ao encontro dos preceitos da BNCC, pontuamos, aqui, cinco competências gerais que dialogam com nossas sugestões de trabalho:
 

TÍTULOS

COMPETÊNCIAS

pensamento científico, crítico e criativo

Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas.

senso estético

Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural.

TÍTULOS

COMPETÊNCIAS

comunicação

Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo.

argumentação

Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.

 

cultura digital

Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.

Se observarmos com atenção as competências gerais listadas acima, perceberemos que elas atravessam todas as áreas do saber e articulam uma formação humana global. Se reconhecermos que “A sociedade na qual estamos inseridos se constitui como um grande ambiente multimodal, no qual palavras, imagens, sons, cores, músicas, aromas, movimentos variados, texturas, formas diversas se combinam e estruturam um grande mosaico multissemiótico” (DIONISIO & VASCONCELOS, 2013, p. 19), constataremos, a partir dessa noção, que “É de suma importância que a escola proporcione aos alunos o contato com diferentes gêneros, suportes e mídias de textos escritos, através, por exemplo, da vivência e do conhecimento dos espaços de circulação dos textos, das formas de aquisição e acesso aos textos e dos diversos suportes da escrita.” (LORENZI & DE PÁDUA, 2012, p. 36). Mas também que “[…] desenvolva as diferentes formas de uso das linguagens (verbal, corporal, plástica, musical, gráfica etc.) e das línguas (falar em diversas variedades e línguas, ouvir, ler e escrever)”(ROJO, 2009, p. 119, grifos da autora), porque só assim podemos formar leitores verdadeiramente proficientes para ler o mundo.
Nesse sentido, trabalhar a literatura não se limita apenas a ler/ouvir e discutir 
os sentidos dos textos escritos/impressos, mas também colocá-la em diálogo com outras expressões e produtos da cultura, assegurando, assim, os multiletramentos :
[…] um trabalho que parte das culturas de referência do aluno (popular, local de massa) e de gêneros, mídias e linguagens por eles conhecidos, para buscar um enfoque crítico, pluralista, ético e democrático – que envolva agência –  de textos/discursos que ampliem o repertório cultural, na direção de outros letramentos, valorizados (como é o caso dos trabalhos com hiper e nanocontos) ou desvalorizados (como é o caso do trabalho com picho). Além disso, trabalhar com os multiletramentos partindo das culturas de referência do aluno implica a imersão em letramentos críticos que requerem análise, critérios, conceitos, uma metalinguagem, para chegar a propostas de produção transformada, que implicam agência por parte do alunado. (ROJO, 2012,  p. 8)


Temos observado que, nos últimos tempos, nas aulas de literatura, o uso dos recursos digitais – como elemento integrador – tem ocorrido das mais diversas formas, desde a leitura da obras literárias até a partilha. É comum, por exemplo, os alunos lerem em uma plataforma virtual, pesquisarem em um dicionário eletrônico, escreverem suas impressões de leitura num blog, produzirem um booktrailer, criarem uma fanfic etc. Neste artigo, contudo, iremos destacar ideias para explorar as ferramentas tecnológicas e potencializar mais os processos de mediação.
 

POSSIBILIDADES DE MEDIAÇÃO DE LEITURA  EM UMA CULTURA DIGITAL

As transformações culturais, as novas condições de produção dos conhecimentos levam

a novos estilos de sociedade nos quais a inteligência é produto de relações entre pessoas e

dispositivos tecnológicos. Mudam, assim, as formas de construção do conhecimento e os

processos de ensino-aprendizagem.

Maria Teresa de Assunção Freitas

 

O professor, ao fazer a curadoria  das obras que serão exploradas em sala de aula, precisa escolher livros que sejam atemporais e que, portanto, favorecem o prazer da leitura. Dentro desse rol, os textos infantis lobatianos, considerados clássicos, podem ser tidos como “atuais” pois, mesmo que escritos no início do século XX, continuam dialogando com a sociedade contemporânea. 
Isso não se dá, por exemplo, devido ao fato de Dona Benta aparecer usando computador para enviar e-mail ao neto Pedrinho, como na última versão do Sítio do Picapau Amarelo, veiculada na televisão aberta no início do século XXI, mas sim pela maneira como traz discussões que respeitam a curiosidade e a inteligência das crianças. Nessa senda, acreditamos que, embora as personagens vivam no Sítio e se divirtam de outras formas, bem distantes daquelas experimentadas por uma geração imersa nos smartphones e nos tablets, as histórias convidam os leitores para um olhar de descoberta e muito disso é garantido pela tática de avó  aventureira e mediadora de textos. 
Uma obra literária mantém-se carregada de frescor, então, quando convida os seus leitores a olharem para si mesmos e para o mundo que os rodeia. Vejamos:
 

–    Estou contando apenas algumas das principais aventuras de D. Quixote, e resumidamente. Ah, se fosse contar o D. Quixote inteiro a coisa iria longe! Essa obra de Cervantes é bem comprida; passa de mil páginas numa edição in-16.
[…]
–    In-16, vovó? Que quer dizer isso?
–    É uma medida do formato dos livros. Os livros são feitos de papel, como você sabe. O papel vem da fábrica em folhas. Em cada folha imprime-se um certo número de páginas. Espere… O melhor é dar um exemplo. Traga um jornal.
–    Pronto, vovó – disse ele. Aqui tem um.
–    Muito bem – disse Dona Benta. Vamos agora tomar uma folha inteira e desdobrá-la sobre a mesa, assim. Aqui tem você uma folha de papel. Se dobrarmos esta folha pelo meio, quantas páginas ficam? Página é um lado só do papel. Pedrinho dobrou a folha de papel e contou.
–    Ficam 4 páginas.
–    Isso mesmo. Ora, se imprimirmos um livro em páginas desse formato, esse livro se chamará in-folio. Agora dobre o papel mais uma vez e veja quantas páginas dá.
Pedrinho dobrou a folha de papel e viu que dava 8 páginas.
–    Muito bem. Um livro impresso em páginas desse formato é um livro in-oitavo, ou in-8. Dobre o papel mais uma vez e conte.
Pedrinho dobrou o papel e contou 16 páginas.
–    Isso mesmo. Um livro impresso em páginas desse formato é um livro in-dezesseis, in-16. Dobre o papel mais uma vez e conte. […]
–    Ora veja só, vovó, uma coisa tão simples e eu não sabia! Vou ensinar a Narizinho (LOBATO, 1957, p. 152 e 153).
 

 

Aqui, temos uma “aula” sobre a materialidade do livro: Dona Benta, no papel de mediadora, enquanto apresenta uma síntese das aventuras de D. Quixote, abre espaço para uma conversa sobre as peripécias do herói e, por que não, das crianças no sítio, explorando sempre a relação entre o conteúdo (enredo) e a forma (edição/adaptação). Podemos observar que, mais do que simplesmente responder ao neto sobre o significado de in-16, ela o convida a experimentar as dobras da folha e tirar suas próprias conclusões.

Como mediaríamos essa obra à  moda de Dona Benta? Pois bem! Imaginemos que estamos trabalhando D. Quixote das crianças, no formato de e-book, com os alunos do 6º ano do Ensino Fundamental. Em primeiro lugar, sugeriríamos que os alunos usassem o mecanismo de busca do e-reader para conhecer o sentido da expressão in-16. Cientes do que significa, aí sim abriríamos para discutir sobre como fica essa questão na esfera do digital: Será que há uma correspondência visto que a “folha” no e-book é só uma representação gráfica e não o suporte propriamente dito?

Essas reflexões/descobertas seriam compartilhadas em murais colaborativos virtuais, cuja estrutura permite inserir áudios, imagens, vídeos, entre outros, e ainda linkar, curtir, votar, comentar, avaliar e atribuir estrelas as postagens. Notemos que, com essa atividade, estaríamos retomando uma explicação dada por Dona Benta, lá no início do século XX, e lançando – a partir de ferramentas tecnológicas para interação – um olhar sobre a materialidade dos textos contemporâneos, pois, como orienta a BNCC, é preciso:

Ler, escutar e produzir textos orais, escritos e multissemióticos que circulam em diferentes campos de atuação e mídias, com compreensão, autonomia, fluência e criticidade, de modo a se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos, e continuar aprendendo (BRASIL, 2018, p. 87).

Uma segunda proposição seria pedir que os alunos comparassem três versões diferentes da mesma obra: capa comum (1957), e-book (2017) e em quadrinhos (2007) . As duas primeiras referentes à adaptação lobatiana para as crianças, já a terceira, uma transposição desse exemplar literário para os quadrinhos. Os estudantes, após observarem o quanto cada escolha editorial afeta a construção dos sentidos e a experiência leitora, usariam os recursos digitais para fazerem um registro dessas análises (mapas conceituais) e até mesmo para criarem suas leituras em outra linguagem como, por exemplo, a audiovisual (animação em stop motion), exercitando a produção de textos multissemióticos:

Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em 

diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao diálogo, à resolução de conflitos e à cooperação (BRASIL, 2018, p. 65).

Quanto à construção dos sentidos, há inúmeras passagens dessa obra lobatiana que poderiam ser exploradas a partir da gravação de um podcast, por exemplo. Com isso, além de avaliarmos a performance leitora, oportunizaríamos uma situação lúdica de aprendizagem, como fazia Dona Benta, nas primeiras décadas do século, XX e vem preconizando a BNCC:

Mobilizar práticas da cultura digital, diferentes linguagens, mídias e ferramentas digitais para expandir as formas de produzir sentidos (nos processos de compreensão e produção), aprender e refletir sobre o mundo e realizar diferentes projetos autorais. (BRASIL, 2018, p. 87)

 

Vamos a um outro livro de Monteiro Lobato: Geografia de Dona Benta. Escolhemos uma passagem logo do início da obra – quando a avó responde a uma dúvida de Narizinho e incorre na Lei da Gravitação, de Isaac Newton – para refletirmos também quanto a sua exploração a partir do uso das tecnologias digitais:

  • Conte essa lei, vovó,
  • A Lei da Gravitação diz assim: A matéria atrai a matéria na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distâncias.
  • Fiquei na mesma! – gritou Pedrinho.
  • Pois não será difícil compreender, se formos por partes. Diz a lei que a matéria atrai a matéria. Matéria é tudo quanto ocupa lugar no espaço. Você ocupa lugar no espaço; logo você é matéria. Os astros ocupam lugar no espaço; logo os astros são matéria. Emília ocupa lugar no espaço; logo Emília é matéria.

A boneca rebolou-se toda, orgulhosa de ocupar lugar no espaço.

  • Mas o espaço é infinito – continuou Dona Benta, isto é, não tem fim; de modo que os astros, por maiores que sejam, não passam de pontinhos ocupando lugarezinhos no espaço infinito. Esses pontinhos, ou películas de matéria atraem-se, ou puxam-se uns aos outros.
  • Já sei – disse Pedrinho. Um puxa o outro como o ímã puxa o ferro. O ímã que atrai o ferro é a matéria-ímã atraindo a matéria-ferro.

Continue, vovó.

-Muito bem. A matéria atrai a matéria, mas de que modo? De dois modos. Primeiro, na razão direta das massas

 

[…]

  • Segundo modo: na razão inversa do quadrado das distâncias. Quer dizer que quanto mais longe um astro está de outro, menos o atrai.
  • Sei. Com a distância vai perdendo a força. Isso é lógico. Se o ferro está a um quilômetro do ímã, por força que é menos atraído do que se estivesse a um metro.

[…]

  • Compreendi. Continue, vovó.
  • Já acabou. É isso só. Um astro atrai outro conforme o tamanho e conforme a distância que está do outro. Quanto maior for o astro, mais atrai, e quanto mais longe estiver, menos atrai. A Lei da Gravitação é isso (LOBATO, 1957, p. 9 e 10, grifos do autor).

 

 

Temos aqui mais um excerto em que Dona Benta faz a ponte entre as crianças e o conhecimento institucionalizado. Com o objetivo de explorarmos a ciência que nem fazia a avó-leitora-mediadora, indicamos o uso Gravity Simulator, uma espécie de convite para experimentar a lei da gravitação com os alunos. Nessa proposta, os estudantes criariam quantas partículas quisessem, definindo tamanho, massa e velocidade, em seguida, visualizariam o trajeto, a colisão e a força de atração entre as partículas desenvolvidas em um campo gravitacional simulado. Mas isso é conteúdo para o 6º ano do Ensino Fundamental? Não podemos esquecer que Lobato nunca teve receio de discutir temas complexos em seus livros infantis. Então, é sim! O importante é trazer o conteúdo de maneira lúdica e o recurso digital integrado ao currículo. Com esta proposição, além de mediar o processo de leitura literária, o professor convoca os leitores a alargarem a percepção e o entendimento sobre os fenômenos do mundo, como recomenda a BNCC:

Analisar, compreender e explicar características, fenômenos e processos relativos ao mundo natural, social e tecnológico (incluindo o digital), como também as relações que se estabelecem entre eles, exercitando a curiosidade para fazer perguntas, buscar respostas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das Ciências da Natureza. (BRASIL, 2018, p. 324)

Uma outra possibilidade é o uso de aplicativos de realidade aumentada. Com o History: Maps of Word, os alunos acessariam diferentes mapas de várias partes do mundo de períodos distintos da história. Já com o Star Chart, identificariam a localização dos corpos celestes mesmo em plena luz do dia. Esses recursos, além de instigar a curiosidade, permitem:

 

Desenvolver autonomia e senso crítico para compreensão e aplicação do raciocínio geográfico na análise da ocupação humana e produção do espaço, envolvendo os princípios de analogia, conexão, diferenciação, distribuição, extensão, localização e ordem. (BRASIL, 2018, p. 366)

Uma proposta com apelo mais autoral é usar o Scratch, software de programação em bloco. Com ele, os alunos gamificariam histórias e jogos. Não podemos esquecer do Google Earth e do Google Maps que permitiriam realizar atividades riquíssimas no que se refere ao universo cartográfico, como, por exemplo, conhecer mais sobre os muitos espaços geográficos pelos quais a turma do Sítio faz passagem:

Desenvolver e utilizar processos, práticas e procedimentos de investigação para compreender o mundo natural, social, econômico, político e o meio técnico-científico e informacional, avaliar ações e propor perguntas e soluções (inclusive tecnológicas) para questões que requerem conhecimentos científicos da Geografia (BRASIL, 2018, p. 366).

 

Também podemos sugerir a retextualização  e a tradução intersemiótica  de algumas passagens do livro. Na primeira opção, os alunos produziriam um novo texto, inclusive com mudança de propósito comunicativo, a exemplo do infográfico, do e-zine e do meme. Na segunda, buscariam equivalências em outras linguagens, como é o caso da história em quadrinhos, do gif e da fotonovela. Nessas atividades, os alunos iriam:
Conhecer e explorar diversas práticas de linguagem (artísticas, corporais e linguísticas) em diferentes campos da atividade humana  para continuar aprendendo, ampliar suas possibilidades de participação na vida social e colaborar para a construção de uma sociedade mais justa, democrática e inclusiva (BRASIL, 2018, p. 65).
À lista de possibilidades, acrescentaremos também o uso de questionários online, os quais permitiriam criar uma espécie de gincana literária, em que os alunos responderiam a perguntas referentes ao que foi lido. 
Abaixo, para sintetizar, elencamos os nomes de alguns desses recursos digitais apresentados neste artigo:
 

PROPOSIÇÕES

RECURSOS DIGITAIS

animações em stop motion

AnimatorHD, Dragon StopMotion, Frame by Frame, iStopMotion, StopMotion Station e ZU3D

gifs

Giflike, Gif Studio, ImgFlip, Imgur e ImgPlay

histórias em quadrinhos

GoAnimation, Pixton, Scribble Press, ReadWriteThink e Stripcreator

infográficos

Canva, Genially, Infogram, Pictovia, Piktochart, Venngage e Visme

mapas conceituais

Canva, Coggle, Lucidchart, MindMeister, SimpleMind e StormBoard

memes

Adobe Spark, Canva, Crello, Meme Generator e Pext

murais colaborativos

Mural.ly, Padlet e Popplet

podcasts

Adobe Adition, Audacity, CutMP3.net e Spreaker

questionários online

Kahoot!, Mentimeter e Socrative

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS


Em tempos de uma grande imersão nos smartphones e nos tablets, traço marcante de uma cultura permeada pela revolução digital, temos observado que os professores vêm encontrando dificuldades para envolver seus alunos na leitura de obras literárias, especialmente, as que apresentam uma grande distância entre o contexto de produção e de recepção. Contudo, acreditando que podemos nos apropriar desses recursos tecnológicos como uma forma de instigar o trabalho com a literatura em sala de aula, apresentamos algumas possibilidades de mediação no presente artigo.
Tomamos a performance de Dona Benta, enquanto avó-leitora-mediadora, como um modelo para elaborar nossas proposições, haja vista que a carismática personagem das histórias infantis lobatianas, sensível às competências de leitura de seus ouvintes, sempre encontrava meios para apresentar os textos às crianças e, assim, convidá-las a refletirem não só a respeito da construção dos sentidos nos textos, mas também sobre os diversos conhecimentos que atravessam as histórias.
“Moderna”, não pelas novas roupagens que vem recebendo em diferentes edições nos últimos anos, Dona Benta nos inspira pelo jeito que promove os livros e medeia as discussões. Por isso, nossas sugestões do uso dos recursos digitais para explorar Dom Quixote das crianças e Geografia de Dona Benta, no 6º ano do Ensino Fundamental, nunca se tratava de uma concepção encantada com o em si tecnológico, mas de uma tentativa de mobilizar diferentes áreas do saber para alargar o olhar de descoberta, formando leitores verdadeiramente proficientes para ler o mundo, como espera a BNCC e fazia a referida avó-leitora-mediadora. 
Paulo Freire (1987, p. 79) dizia que “Ninguém educa ninguém, nem ninguém se educa a si mesmo, os homens se educam em comum mediados pelo mundo” e o mundo, hoje, é aquele em que vivemos na mudança da mudança, onde tudo se forma e se transforma frente a nossos olhos (TIBIJOY, 2008). Logo, sem preconceitos e medo de tentar, revimos nossas posturas docentes, considerando aprender a reaprender e pensando em formas, à moda de Dona Benta, de possibilitar uma educação centrada no protagonismo do aluno. 

 

REFERÊNCIAS

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC/Secretaria de Educação Básica, 2018.
CARDOSO, Rosimeiri Darc. Geografia de Dona Benta: o mundo pelos olhos da imaginação. In: LAJOLO, Marisa; CECCANTINI, João Luís (org.). Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil. São Paulo: UNESP; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008.
CEBRIÁN, Juan Luís. A rede: como nossas vidas serão transformadas pelos novos meios de comunicação. Trad. Lauro Machado Coelho. São Paulo: Summus, 1999. (Coleção Novas buscas de comunicação; v. 59)
COELHO, Nely Novaes. Literatura: arte, conhecimento e vida. São Paulo: Peirópolis, 2000. (Série Nova Consciência)
CRUZ, Nelson. Literatura e cultura em tempos digitais. Revista Brasileira de Literatura Comparada, n. 20, 2012.
DIONISIO, Angela Paiva; VASCONCELOS, Leila Janot de. Multimodalidade, gênero textual e leitura. In: BUZEN, Clécio; MENDONÇA, Márcia (Orgs.). Múltiplas linguagens para o Ensino Médio. São Paulo: Parábola Editorial, 2013. (Série Estratégias de ensino)
FREITAS, Maria Teresa de Assunção. Discutindo sentidos da palavra intervenção na pesquisa de abordagem histórico cultural. In: Fazer pesquisa na abordagem histórico-cultural: metodologias em construção. Juiz de Fora: Editora UFJR, 2010. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 13. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. [1968]
LACERDA, Nilma. Tortura e Glória: fugas na ordem dos livros. Belo Horizonte: Superintendência de Bibliotecas Públicas de MG, 2010.
LAJOLO, Marisa. Lobato, um Dom Quixote no caminho da leitura. In: Do mundo da leitura para a leitura do mundo. São Paulo: Ática, 2005.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. Trad. Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999.
LOBATO, Monteiro. Dom Quixote das crianças: contado por Dona Benta. (Ilustrações de André Le Blanc). 7 ed. São Paulo: Brasiliense, 1957. [1936]
LOBATO, Monteiro. A menina do narizinho arrebitado (edição fac-similar). São Paulo: 
Monteiro Lobato e Cia, 1982. [1920/21]
LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. 2 ed. vol. 1. São Paulo: Brasiliense, 1977. [1931]
LOBATO, Monteiro. Geografia de Dona Benta. (Ilustrações de André Le Blanc). 10 ed. São Paulo: Brasiliense, 1958. [1935]
LORENZI, Gislaine Cristina Correr; DE PÁDUA, Tainá-Rekã Wanderley. Blog nos anos iniciais do Fundamental I: a reconstrução de sentido de um clássico infantil. In: ROJO, Roxane Helena Rodrigues; MOURA, Eduardo (Orgs.) 

Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editorial, 2012. (Série Estratégias de ensino)
MARTÍN-BARBERO, Jesus. Herendando el futuro. Pensar la educacíon desde la comunicación. Revista Nómadas. Bogotá, Fundación Universidade Central, 1996.
MATENCIO, Maria de Lourdes Meirelles. Atividades de retextualização em práticas acadêmicas: um estudo do gênero resumo. Scripta, 2002, v. 6, n. 11, p. 25-32;
MORIN, Edgar. Cultura de massas no século XX: neurose. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997a.
MORIN, Edgar. Meus demônios. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997b.
OROZCO GÓMEZ, Guillermo. Uma pedagogia para os meios de comunicação. Comunicação & Educação, São Paulo, Moderna / CCA-ECA-USP, n. 12, 1998.
PLAZA, Julio. Tradução intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 1987.
ROJO, Roxane Helena Rodrigues; Letramentos múltiplos, escola e inclusão social. São Paulo: Parábola Editorial, 2009. (Série Estratégias de ensino) 
ROJO, Roxane Helena Rodrigues; MOURA, Eduardo (Orgs.). Letramentos, mídias e linguagens. São Paulo: Parábola Editorial, 2019. (Série Linguagens e tecnologias)
ROJO, Roxane Helena Rodrigues; MOURA, Eduardo. (Orgs.) Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editorial, 2012. (Série Estratégias de ensino)
ROJO, Roxane Helena Rodrigues; BARBOSA, Jacqueline. Hipermodernidade, multiletramentos e gêneros discursivos. São Paulo: Parábola Editorial, 2015. (Série Estratégias de ensino)
ROMANO, Patrícia A. Beraldo. Dona Benta: uma mediadora no mundo da leitura. 
Curitiba: Appris, 2019. 
SANTAELLA, Lúcia. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007.
TIJIBOY, Ana Vila. As novas tecnologias e a incerteza na educação. In: SILVA, Mozart Linhares da. (Org.) Novas tecnologias: educação e sociedade na era da informação. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.
 

O Sítio Chega ao Cartoon Network

Depois da estreia na Globo em 7 de janeiro de 2012, a série em desenho animado do Sítio do Pica-Pau Amarelo teve 78 episódios divididos em 3 temporadas com 26 episódios cada uma. Foi a partir da terceira temporada, com o fim da programação 100% infantil da Globo, que o Cartoon Network passou a exibir a versão animada do Sítio do Pica-Pau Amarelo e ganhou uma versão em espanhol, que foi ao ar no canal Tooncast para a América Latina.

O último episódio na Globo foi ao ar no dia 26 de setembro de 2016, e o programa é considerado um marco histórico para a animação no Brasil.

Essa versão cartoon do Sítio do Picapau Amarelo teve a produção executiva assinada por Eliane Ferreira, Reynaldo Marchesini, Fernanda Senatori e João Daniel Tikhomiroff, a produção fica a cargo de João Daniel Tikhomiroff, Michel Tikhomiroff, Hugo Janeba e Eliane Ferreira, com adaptação e roteiro final de Rodrigo Castilho, direção de Humberto Avelar e supervisão artística de Reynaldo Marchesini.

Exibido com sucesso também em outros países da América Latina, o programa ganhou prêmios importantes como o de Melhor Série Animada Latinoamericana e na votação popular Novasur Award, ambos do Festival Internacional de Animação Chileno em 2014 em Santiago, no Chile. O título de melhor série foi votado pelo júri do evento, enquanto o prêmio Novasur foi conquistado pela maioria dos votos de 12 mil crianças de escolas em todo o Chile.

 

As curiosidades do Sítio em desenho animado

A versão em desenho animado do Sítio do Pica-Pau Amarelo contou com algumas adaptações socioculturais importantes para evitar polêmicas. Deixou de lado por exemplo, qualquer resquício escravocrata em referência a Tia Nastácia e ao pó de pirlimpimpim, que deixou de ser pó por completo – para não haver qualquer ligação com substâncias alucinógenas – e virou uma espécie de mágica que transportava os personagens de um lugar para outro.

Muita gente vai lembrar que na versão original, Emília e sua turma aspiravam o pó e ‘viajavam’. Na versão dos anos 1980, já para evitar qualquer alusão ao uso de drogas, eles ao invés de aspirar, jogavam o pó uns sobre os outros para viajar em suas aventuras.

 

AS VOZES DOS PERSONAGENS:

Voce sabe aque:

            -As vozes dos personagens foram gravadas pelo estúdio Ultrassom, em São Paulo,

com direção de voz e de casting de Melissa Garcia nas temporadas 1 e 2 e Hugo Picchi na terceira temporada.

O processo de gravação das vozes é chamado de voz original porque ao contrário da dublagem, é todo feito antes da animação, servindo como base para a produção da animação.

As vozes dos principais personagens ao longo das 3 temporadas:

> Dona Benta: Gessy Fonseca

> Tia Nastácia: Patrícia Scalvi (temporadas 1 e 2) e Patrícia Pichamone

> Narizinho: Larissa Manoela (temporada 1) e Luiza Telles Rosa

> Pedrinho: Vyni Takahashi, Pedro Volpato e Renato Cavalcanti (uma temporada cada um na sequência)

> Emília: Isabella Guarnieri

> Visconde de Sabugosa: César Marcehetti

> Cuca: Alessandra Araújo

> Rabicó: Hugo Picchini Neto

No dia 10 de agosto de 2013, foi ao ar na Globo, a segunda temporada do cartoon do Sítio do Pica-Pau Amarelo, com histórias inspiradas no livro ‘O Saci’.

Como novidade, a inclusão de dois novos personagens O Saci e o Tio Barnabé, a troca nas vozes de Pedrinho e Narizinho.

As tramas da terceira temporada, que estreou no dia 6 de julho de 2015, foram livremente baseadas no livro ‘Caçadas de Pedrinho’ e duas novas mudanças de dubladores aconteceram: com Tia Nastácia e novamente com Pedrinho.

No último episódio da temporada, “Um lugar especial”, exibido no dia 26 de setembro de 2016, as férias de Pedrinho chegam ao fim e o garoto se despede de seus amigos antes de retornar à cidade grande. Mas Cuca prende o Sítio inteiro dentro de uma bola de vidro. O desfecho deixa no ar a possibilidade de quem sabe, uma continuação em breve


OUTRAS COISAS CURIOSAS:

Voce sabia que:

– Gilberto Gil teve que cantar a mesma música tema de abertura das versões anteriores em um arranjo bem mais acelerado, adaptando a canção ao tom da animação.

– Gessy Fonseca que deu voz à Dona Benta no desenho, já havia interpretado a personagem em um programa de rádio no ano de 1943, chegando inclusive a conhecer Monteiro Lobato!

– A marca do Sítio do Pica-Pau Amarelo sempre atraiu o interesse de empresas de diversos ramos e esmo distante da tela da Globo desde 2007, o ‘Sítio’ seguiu tendo itens licenciados e vendidos no site da emissora, como cadernos, bonecos, brinquedos, jogos, DVDs, entre outros, e o lançamento do desenho animado aqueceu consideravelmente os licenciamentos.

–   Entre 2012 a Editora Globo e a Globo Marcas, criaram a comunidade virtual "Mundo do Sítio", com jogos e atividades educativas voltadas para crianças de cinco a dez anos de idade. Considerada a primeira rede social infantil do Brasil, o site que tinha mais de 20 atividades disponíveis através do serviço de assinatura, foi mantido até 2015. O design dos personagens apresentado no Mundo do Sítio (e em peças derivadas de merchandising) também tinham o conceito original realizado por Bruno Okada, responsável pelo desenho dos personagens da série animada para a TV.

— Mesmo com algumas críticas pontuais quanto ao tom excessivamente infantil e a reformulação em relação às séries anteriores, a versão animada do Sítio do Pica-Pau Amarelo teve ótima recepção entre o público e fãs de Monteiro Lobato. No Cartoon Network, por exemplo, o título chegou a figurar entre os 10 programas mais vistos no canal.

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Fontes:

https://www.epgrupo.com.br/desenho-sitio-picapau-amarelo-produzido-pela-mixer-conquista-premios/

https://www.meioemensagem.com.br/home/midia/2011/12/14/desenho-do-s-tio-em-janeiro-na-globo.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADtio_do_Picapau_Amarelo_(s%C3%A9rie_animada)

http://redeglobo.globo.com/novidades/noticia/2011/12/sitio-do-picapau-amarelo-volta-ao-ar-agora-em-desenho-animado-na-globo.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADtio_do_Picapau_Amarelo_(s%C3%A9rie_animada)

Animação do Sítio revive o sucesso do universo de Monteiro Lobato

Ao criar o Sítio do Pica-Pau Amarelo, Monteiro Lobato jamais poderia ter imaginado até aonde sua obra infantojuvenil chegaria. Mas o poder da sua comunicação extrapolou limites, avançou por gerações, segue despertando o imaginário do público e hoje ainda, provocando discussões em torno dos mais variados temas abordados pelo escritor no seu tempo.

Será que se vivesse nos dias de hoje os personagens do imaginário lobatiano seriam os mesmos ou seriam diferentes? Será que teriam aparência semelhante as que nós conhecemos?

A Globo estendeu os limites do imaginário de Lobato e em parceria com a produtora de conteúdos audiovisuais Mixer – hoje Mixer Films, a terceira mais premiada do mundo, produziu uma série de animação brasileira, baseada na obra do escritor. O objetivo era bem claro e lógico: adequar a comunicação visual do já consagrado Sítio do Pica-Pau Amarelo às crianças do início da segunda década dos anos dois mil. O público-alvo da atração tinha diminuído de idade e agora estava entre 4 e 10 anos de idade.

Com investimentos de R$ 4 milhões por temporada, sendo R$ 3 milhões por meio da Lei do Audiovisual, que permite a canais a dedução de parte do imposto pago. Até o início da produção, foram dois longos anos de negociação entre a Globo Marcas – que representava à época os herdeiros nas questões dos direitos sobre a obra de Monteiro Lobato – e a Mixer, até que o primeiro episódio, da primeira temporada estreasse na emissora no dia 7 de janeiro de 2012.

Joyce Monteiro Lobato, neta do escritor, e o marido Jerzy Kornbluh, estiveram envolvidos diretamente durante todo o processo de criação dos desenhos dos personagens e da elaboração dos roteiros da série animada para a Cartoon.

Assim, o universo mágico criado pelo escritor Monteiro Lobato, sucesso em suas várias versões dramatúrgicas desde 1952, voltava a fazer parte das manhãs de sábados dos brasileiros, agora em desenho animado.

Seguindo o padrão Global, os cuidados com a produção passaram por minuciosos detalhes, com atenção para que a obra não perdesse suas características tão bem delineadas. Assim os personagens foram na verdade adequados à linguagem visual da época.

Para cartoonizar do modo mais adequado os personagens do Sítio, a Globo realizou um concurso com dez finalistas para definir quem seria o desenhista da obra. O escolhido foi Bruno Okada, que apresentou os personagens com características que o diretor de licenciamentos da emissora à época, José Luiz Bartolo, chamou de traços globaiscom características da nossa brasilidade juntamente com traços de mangá o que eventualmente favoreceria o lançamento de produtos no mercado internacional. Em suma, os personagens do nosso cartoon seguiram a base dos animes japoneses: olhos grandes, ritmo acelerado e falas dinâmicas.

O projeto foi negociado para a América Latina, onde foi exibido em vários países, alem do Brasil.

Com um volume de produção de três episódios por mês, a parte mais difícil da produção, de acordo com Tiago Mello, diretor executivo da Mixer e Rodrigo Castilho, responsável pela adaptação do texto e pelo roteiro final, era transformar histórias de 40 minutos na TV em episódios de apenas 11 minutos, tempo médio da animação.

Com o mesmo tema original de Gilberto Gil na abertura, as histórias baseadas em Reinações de Narizinho, Viagem ao Céue Caçadas de Pedrinho, protagonizadas por Dona Benta, Tia Nastácia, Narizinho, Pedrinho, Emília, o Visconde de Sabugosa, Rabicó e a Cuca, como já citado, tinham que ser aprovados previamente pelos representantes da família de Lobato, Joyce e Jerzy, pais da escritora Cleo Monteiro Lobato, hoje a responsável pela atualização e tradução da obra do pai da literatura infantil brasileira

A cartinha do príncipe

Patrícia Aparecida Beraldo Romano

Sítio do Picapau Amarelo, ano de 2020. Caro senhor Monteiro Lobato,

Estou eu aqui nesse recanto tão tranquilo do Sítio onde cresceram todas as suas personagens infantis. Talvez eu seja a mais antiga delas, afinal, enquanto elas eram crianças, eu já era um peixinho adulto e príncipe, sim senhor, com longas e brilhantes barbatanas. O ribeirão que corre no fundo do pomar é o meu ainda hoje meu refúgio, cem anos depois do momento em que o senhor começou a contar a minha história e a de suas personagens infantis. Aqui, nas águas muito apressadinhas e mexeriqueiras, ainda correm a nadar– por entre as negras pedras de limo, que Lúcia, a nossa Narizinho, chamava de “as tias Nastácias do rio”– os meus parentes grandes e miúdos, a se divertirem com as águas cristalinas e borbulhantes da pequena queda d’água que desemboca no riacho. O senhor já não mora mais neste lugar mágico. Foi-se embora há muito tempo, mas deixou nossa imagem consagrada entre as crianças que, ainda hoje, querem bailar comigo, o Príncipe Escamado, ou esperar por um vestido furta-cor de dona Aranha, a costureira das fadas!

O senhor deve estar se perguntando o porquê dessa minha cartinha, depois de tantos anos, não é mesmo? Pois me bateu uma enorme saudade da turminha do Sítio e dos leitores dela! Veja só o que me aconteceu há pouco tempo. Estava eu aqui pela beira do riacho, numa tarde tranquila de verão quando vi uma mãozinha se aproximar de mim. Eu, muito sorrateiro, já fui me apegando àqueles dedinhos pequeninos e matreiros e me deixei levar. Pois qual não foi minha surpresa: fui colocado em algo plástico, com muito pouca água e transportado para dentro de sua antiga residência, a casa grande, que hoje não é mais assim conhecida. Fiquei assustado, confesso. Achei que tivesse chegado o meu fim. Mas que nada, senhor Lobato, fui realocado para um espaço muito bonito, com pedrinhas coloridas, muito mais furta-cores do que as do fundo do riacho e dei de cara com uma série de outros parentes meus: uns enormes, outros minúsculos; uns coloridos como eu, outros de uma cor apenas. Uma alegria danada reencontrar amigos que eu pensava estivessem mortos há muito tempo.

Passei a observar o espaço ao meu redor. Sabe o que mais me impressionava? O cheiro bom que penetrava na água todo final de semana. Cheiro de comida, e comida caseira, das boas, igualzinha à de Tia Nastácia, quando todos nós fomos visitar o Sítio!

Uma delícia!!! A única tristeza é que não foi ela quem eu encontrei por lá, mas sim uma senhora a quem uma moça chamava de “mamãe”! E a quem crianças, inclusive a que me pegou no ribeirão, chamavam de “vovó”. Imediatamente imaginei se tratar de Dona Benta, um amor de avó. Não era ela também. Fiquei um pouco triste, pois já queria conversar com a boa senhora… Enfim, a prosa não foi possível, mas essa boa velhinha era a responsável pelo delicioso aroma que perfumava minha nova casa, o aquário.

De lá eu também via as pessoas que entravam e saíam da antiga casa grande. Ao entrarem, escutavam uma apresentação sobre o lugar, sobre o senhor e sua família, inclusive sobre o visconde, seu avô, que mandara construir tal casa. Sim, senhor Lobato, o visconde de Tremembé e a viscondessa, sua esposa. Havia as curiosidades sobre as janelas, cujos vidros, ou cristais (nunca consegui ouvir direito) teriam vindo da França! Nossa! Como haviam chegado até ali era o que todos queriam saber! Nem estradas existiam na época. E também desejavam descobrir se havia mobília ainda que pertencera ao senhor e sua família. Ao ouvirem um “sim,” ficavam encantadas, em especial com a escrivaninha. O almoço, como se chamava a comilança que se seguia às visitas, vinha na sequência. Tinha comida de todo tipo, cujos nomes eu ia anotando e descrevendo, para não esquecer e para aprender, pois Narizinho sempre dizia que eu era meio difícil de aprender.

Pois voltemos à aventura do Príncipe Escamado, em antigas terras da casa grande do senhor Lobato. Eu me aventurei a sair do aquário e me lembrei de que trazia no bolso uma das pílulas do Dr. Caramujo. Sim, senhor Lobato, o mesmo que deu a pílula da falinha à Emília. O Dr. Caramujo era um danado de esperto e conseguiu reinventar a fórmula enterrada com o antigo besouro boticário que as inventara. E olha, estou para dizer que essas são ainda mais eficientes! Bem, bastou engolir uma e… zás, deu certo, saí do aquário, já meio homem, meio peixe, e me dirigi à boa senhora para me apresentar. Ela, como eu esperava, levou um susto, mas se deixou seduzir por meu charme e gentileza.

A vovó me achou lindo no meu terno furta-cor e logo me ofereceu suas guloseimas. Enquanto me deliciava com elas, tentei explicar quem eu era, mas creio que, embora moradora da sua antiga casa, ela não era afeita à leitura das suas obras. Uma pena. Contei-lhe sobre minhas intenções: ser apresentado como o Príncipe Escamado a todas as visitas da casa. Imagine o sucesso, eu disse! Senhor Lobato, esse foi meu erro, pois a senhora achou que eu era um mentiroso, não conseguiu perceber a magia que permeava a minha existência e invadia a realidade dela. “Um peixe, e ainda

por cima, príncipe”? Foi demais para a senhora das comidas. Ela foi se assustando comigo, quando lhe mostrei minhas barbatanas, escondidas, sobre o blazer, e minha cauda, amarrada e presa à calça. E… de repente… Puf! Caiu, esborrachada no chão.

Os homens que ali trabalhavam a acudiram, mas acharam que eu era um ser perigoso, saíram correndo atrás de mim. Eu segurei fortemente minha cauda de peixe e zás, atravessei o pasto das vacas, dei de cara com uma Mocha, mas não me assustei como no passado. Passei correndo pela porteira do pomar e desejava apenas ouvir Tia Nastácia me chamando pra ver se todo aquele alvoroço desaparecia. Enfim, tive de pular, ainda meio homem, no riacho, e lá o feitiço da pílula desapareceu. Afundei nas águas tranquilas do ribeirão do Sítio, senhor Lobato, para de lá nunca mais sair.

E é daqui, desse espaço mágico, que lhe escrevo, na esperança de que seus textos continuem a ser publicados, lidos e relidos, pois só assim continuaremos vivos e amados por todos, crianças, jovens e adultos, que ainda acreditam na magia de uma pílula falante ou no pó do Pirlimpimpim ou ainda no fechar dos olhos e deixar-se levar simplesmente pelo poder da imaginação.
Saudações, senhor Lobato, do Reino das Águas Claras.
Príncipe Escamado

Tia Nastácia; Figura relevante na divulgação da rica cultura popular brasileira

O encantamento provocado pelos personagens principais criados por Monteiro Lobato, nas histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo, atravessa gerações e desperta a nossa curiosidade para conhecer melhor as suas origens e as características de suas próprias personalidades.

Neste texto nossa personagem em destaque é Tia Nastácia, a melhor amiga de Dona Benta, que foi escrava quando jovem e depois de liberta se tornou parte da família do Sítio mais famoso do mundo!

Dona de riquíssima sabedoria popular, apesar de quase nenhum estudo, Nastácia tem o dom da bondade, sendo a cuidadora de Lúcia, a Narizinho, desde pequena e criadora da boneca de pano Emília e do sábio Visconde de Sabugosa, um boneco feito a partir de um sabugo de milho.

Mesmo responsável pelos afazeres da casa, ao contrário do que campanhas anti-Lobato tentam propagar, ela é sempre tratada com muito respeito por todos e em nenhum momento é menosprezada pelo autor. Afinal, não há nenhuma vergonha em se fazer trabalho doméstico como todos sabemos. 

Lobato reserva à Tia Nastácia uma posição privilegiada em comparação a figura do negro perante a sociedade daquela época, visto que sua personagem opina sobre os mais variados assuntos, ajudando na educação das crianças, dividindo os afazeres da casa com a amiga Dona Benta, figurando inclusive como sua confidente, o que era raríssimo de acontecer naquele tempo. Mesmo mantendo o costume em chamar Dona Benta de sinhá, assim como era costume antigamente, claramente no Sítio não há dono, nem patrão, e a relação entre as duas é baseada numa forte amizade, ajuda mútua, trocas de receitas e confidências.

O próprio Monteiro Lobato nos conta ainda em vida, durante uma entrevista ao jornalista Silveira Peixoto, que a personagem de seus livros foi inspirada em uma mulher chamada Anastácia, uma negra alta, magra da cidade de Areias que era casada com Esaú. Ambos foram contratados e vieram trabalhar na Fazenda São José do Buquira. Ela como cozinheira e babá de Guilherme (3º filho de Lobato) e ele como ajudante da fazenda. Foto de ambos estão no álbum de família de posse de D.Joyce Lobato Campos. D. Joyce também nos conta que houveram diversas "Nastácias" na família. D. Joyce conheceu Benedita Rodrigues, filha de Gabriela. Gabriela trabalhou na casa de Purezinha por muitos anos até falecer e Purezinha ajudou a criar a filha de Gabriela, Benedita, que cresceu junto com os filhos de Lobato, ficando muito amiga da filha mais velha, Martha. Mais tarde, quando Martha casou, Benedita foi trabalhar na casa de Martha ajudando a criar Joyce, neta de Lobato. A mesma Benedita (após a morte de Lobato) foi chamada para interpretar a 1a Tia Nastácia da TV Tupi durante 9 anos além de ter feito o mesmo papel no filme “O Saci”.

Com seu ar de brasilidade, Tia Nastácia é uma personagem retratada com todo o respeito merecido, que exerce um papel relevante e ganha até um livro com seu nome; “Histórias de Tia Nastácia”, que começa com a personagem explicando o que é folclore para as crianças e contando histórias da cultura brasileira e suas lendas. Na concepção do escritor, ela é a responsável por nos apresentar personagens até então menosprezados da nossa rica cultura popular.

Assim, essa mulher forte e companheira imprescindível, conquista seu próprio espaço nas histórias de Lobato, arrebatando o coração de seus leitores e desempenhando um importante papel educativo, fundamental em sua obra.

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REFERÊNCIAS:

https://alb.org.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais16/sem08pdf/sm08ss05_04.pdf

https://perguntaspopulares.com/library/artigo/read/411903-quem-e-o-visconde-de-sabugosa

https://sitio.pmvs.pt/blog/2014/07/03/visconde-de-sabugosa-2/

https://portalcafebrasil.com.br/cafepedia/tia-nastacia/

memorias de Joyce e album da familia

As provocações do Visconde de Sabugosa, um mergulho no reflexivo universo lobatiano

Neste texto nós inauguramos uma série para analisar a origem e a personalidade dos principais personagens criados por Monteiro Lobato e que tornaram o Sítio do Pica-Pau Amarelo uma das mais importantes obras da literatura infantil brasileira.

Presente na maioria das histórias do Sítio, o Visconde de Sabugosa, personagem criado por Monteiro Lobato, acredita-se que foi inspirado em seu avô, o Visconde de Tremembé, um dos homens mais ricos e poderosos de sua época, amigo pessoal de D. Pedro II. Ele foi inclusive responsável pela iluminação pública da cidade de Taubaté, na primeira metade do século XIX, entre outras coisas.

O Visconde de Sabugosa nasce em 1921, no livro Narizinho Arrebitado, edição escolar. Fruto de uma brincadeira de Narizinho e Pedrinho, que queriam casar a boneca Emília com o Marquês de Rabicó. Pedrinho faz um boneco a partir de um sabugo de milho, para fingir ser pai do leitãozinho, pretendente à mão da boneca de pano.

Esse heróico personagem lobatiano nasceu em meio aos livros e morava num vão de armário na sala de jantar do Sítio do Pica Pau Amarelo.  As paredes da casa eram formadas por dois grossos volumes do Dicionário Morais. A obra “O Banquete 2”, “escrito por um tal Platão que viveu antigamente na Grécia e devia ter sido um guloso”, era a mesa do sabugo de milho. A “Enciclopédia do Riso e da Galhofa”, um “livro muito antigo e danado para dar sono”  que Lobato lera na juventude, tornou-se a cama do Visconde. Os demais “móveis”, ou seja, cadeiras, estantes e armários, eram formados por livros de capa de couro, herdados de um tio de Dona Benta.

O sabugo só mudou de casa depois que voltou do Reino das Águas Claras e passou uma semana inteira atrás da estante, ficou embolorado e como soltava um pó verde, começou a dormir numa lata, como revela o autor na quarta história de Reinações de Narizinho.

Antes mesmo de se tornar um personagem com diversas facetas, o Visconde era considerado um fidalgo muito distinto, viúvo e sua mãe, Dona Palha de Milho, faleceu num “horrível desastre”, comida pela vaca mocha. Logo no começo em que ganha vida, ele ainda tinha o tamanho de um sabugo de milho, mas tomou uma pitada de fermento e ficou do tamanho de uma pessoa normal.

Como Narizinho o embrulhou num velho fascículo das Aventuras de Sherlock Holmes, em Reinações de Narizinho, parece que isso influenciou o sábio de tal maneira que ele foi o responsável por descobrir não só a verdadeira identidade do suposto Gato Félix, mas também quem roubava a sombra de tia Nastácia em Peter Pan!  O sabugo “andava deduzindo” os fatos, mas não tinha ainda pistas definitivas. Incansável, ele desmascarou o raptor da sombra, que era ninguém menos do que Emília.

Sua condição de sábio lhe trouxe bons e maus momentos. Ele sofreu acidentes, empanturrou-se com a leitura de Álgebra, foi operado e salvou-se. Sua ânsia pelo conhecimento fez dele o professor dedicado em Aritmética da Emília e seus estudos de Geologia permitiram que fosse perfurado o primeiro poço de petróleo do Brasil, em “O Poço do Visconde”. Em “Os 12 Trabalhos de Hércules”, última obra de Lobato, o sabugo aparece como a concretização do saber científico.

Pelo fato de ser “consertável”, ele é sempre escolhido por Pedrinho para fazer as coisas mais perigosas. Sempre que ele estraga, se machuca ou até morre, Tia Nastácia simplesmente pega uma nova espiga de milho no paiol e faz um outro Visconde ainda melhor, reaproveitando somente a cabeça, os braços e as pernas. Apesar disso, pelo fato dele ter seu corpo formado por um sabugo e ter botões de milho no peito, Visconde morre de medo de passar perto de uma galinha, ou mesmo da Vaca Mocha!

Quando investigamos o personagem, nos deparamos com as suas variadas facetas, bem como o movimento da ciência no Sítio do Pica-Pau Amarelo. À medida que nos aprofundamos na obra, é possível estabelecer relações entre as várias concepções científicas do autor e a construção do personagem, reflexos do contexto histórico na criação literária lobatiana.

Lobato era um homem fascinado pelo progresso que ele achava que a ciência poderia trazer e buscava em estudos científicos, respostas de como gerar progresso para o nosso país e para os problemas crônicos do Brasil. Ele acreditava que soluções baseadas em pesquisas científicas seriam muito importantes para o desenvolvimento da nossa sociedade.

Vários estudos discutem ainda hoje a relação da literatura lobatiana com o ensino de ciências, sobre a história e a natureza da ciência, a motivação para estudar ciência, o método científico, concepção empirista ou revolucionária da ciência e suas aplicações. A literatura de Monteiro Lobato mostra a importância que o autor dava às relações do homem com a ciência e se contrapunha à literatura infantil da época baseada nos contos de fadas europeus.

Através de sua obra e mais especificamente na forma do personagem Visconde de Sabugosa, Lobato deixa transparecer a importância alcançada pelo conhecimento científico, demonstrando através de seus textos a necessidade do apoio à pesquisa e ao estudo científico em um período em que concordam os maiores intelectuais da época, o Brasil se encontrava ‘doente’ e a ciência era uma espécie de ‘caminho para a salvação do povo’.

Voltando a falar do nosso personagem, o Visconde de Sabugosa é um sábio que estuda latim, que tem dificuldade para se locomover em algumas situações e possui como marca registrada a tossezinha para limpar o pigarro antes de dar uma explicação. É dele que vem sempre a última palavra, como exemplo de alguém que detém o conhecimento, por isso é chamado para esclarecer dúvidas e solucionar problemas.

Ao representar o homem de ciência no Sítio, Lobato nos passa a impressão de que havia um movimento constante em sua obra e nas suas histórias. O Visconde cria sempre de modo misterioso, às escondidas, carregando um ar de distinção, como se a ciência fosse para poucos, apenas para homens especiais.

Na forma de um sabugo de milho que morre e reaparece, o porta-voz da ciência talvez tenha sido mais um recurso literário que Lobato utilizou para provocar a todos os seus leitores num convite à reflexão sobre a relação do homem com a ciência e os seus valores já naquela época.

A análise da trajetória do personagem Visconde de Sabugosa presente na maioria dos livros, revela que o autor elabora suas histórias permeadas de fatos científicos, de saberes práticos e teóricos, de diálogos, situações e ambientes em que tal personagem e os demais se inserem.

O Visconde é um dos personagens que nos levam a mergulhar em uma das mais ricas obras literárias nacionais, onde os livros não são meros papéis manuseados por um tempo, fechados e esquecidos após o fim da leitura. São histórias que nos convidam a ir mais além, mais para dentro de nós mesmos, como um convite para que a gente perca o medo de imergir no nosso próprio mundo de fantasias.

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REFERÊNCIAS:

https://alb.org.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais16/sem08pdf/sm08ss05_04.pdf

https://perguntaspopulares.com/library/artigo/read/411903-quem-e-o-visconde-de-sabugosa

https://sitio.pmvs.pt/blog/2014/07/03/visconde-de-sabugosa-2/

https://semeadordelivros.com.br/na-trilha-de-lobato-entre-a-serras/

https://super.abril.com.br/ciencia/a-longa-historia-da-eugenia/

http://www.encontro2010.rj.anpuh.org/resources/anais/8/1273252078_ARQUIVO_REIVINDICACAOPOLITICAECONHECIMENTOCIENTIFICO.pdf

https://www.scielo.br/j/epec/a/n3jym7tYqMMvM4gFfgqTkwv/?lang=pt

Saiba tudo sobre o lançamento do livro ‘O Casamento de Narizinho’, terceiro livro adaptado da obra de Monteiro Lobato

Bisneta de Monteiro Lobato, a historiadora Cleo Monteiro Lobato lançou este mês, o livro “O Casamento de Narizinho”, o terceiro da série de adaptações e traduções das histórias que a escritora está fazendo do clássico centenário “Reinações de Narizinho”, obra que apresentou os personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo e suas aventuras ao grande público, dando origem a um dos maiores sucessos da literatura infantil brasileira.

Com um total de onze histórias, Cleo já adaptou as histórias “Narizinho Arrebitado” e “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. Todos pela Underline Publishing, editora localizada em Miami e especializada em promover escritores brasileiros no exterior.

Para quem ainda não conhece, a terceira história “O Casamento de Narizinho”, como o próprio título já diz, conta a história da união da personagem com o príncipe das Águas Claras, que havia adoecido de amor por ela. A simplicidade das narrativas, com uma linguagem perfeita para a literatura infanto-juvenil, conduz a uma leitura fluida, criativa cheia de momentos surpreendentes, instigando a curiosidade e o prazer pela leitura.

“O Casamento de Narizinho” tem 59 páginas e 12 ilustrações feitas por Rafael Sam, responsável também por ilustrar os outros dois livros já lançados. Vivendo nos Estados Unidos, há 24 anos, ao lado do esposo e do filho, Cleo conversou com a gente para falar sobre esse importante trabalho de tradução e adaptação da obra de Lobato e sobre o livro que foi lançado este mês.

Blog LcVc: Como surgiu a ideia de revisar a obra de Monteiro Lobato e quando você começou de fato a executar esse processo?

Cleo ML: A ideia nunca foi de revisar propriamente dito, a ideia inicial era somente traduzir… Mas ao fazer diversas tentativas de tradução eu percebi que pra mim era necessário atualizar em Português primeiro para depois traduzir. Cada vez que eu tentava traduzir eu não conseguia passar na primeira página de Reinações de Narizinho onde tem frases como: “Tia Nastácia, negra de estimação”, “[…] pedras negras de limo que Lúcia chama de Tias Nastácia do rio”… Apesar de saber que o termo: ‘negra de estimação’, era o modo de dizer que a pessoa era estimada e querida da família e que a frase “Tias Nastácia do rio” significa que Lúcia se sentia aconchegada e segura ao lado do ribeirão, ficava muito difícil de traduzir. A constante menção da cor da Tia Nastácia era irritante. Tentei traduzir por pelo menos 5 anos, mas não conseguia um bom resultado.

Com todas essas tentativas de tradução o que aconteceu é que eu percebi a necessidade de adaptar, mudar certas partes dos livros. Nem todos da família concordavam com essa ideia, mas finalmente em 2019 a obra de Monteiro Lobato caiu em domínio público, isso me abriu perspectivas de poder fazer o que eu quisesse sem interferência de ninguém.

Para que eu pudesse levar Monteiro Lobato para os EUA, em português ou em inglês, eu esbarrava no problema da Tia Nastácia e o jeito que a personagem estava tão anacrônica. Não há espaço hoje em dia para uma personagem negra tão antiquada, a não ser que você esteja escrevendo sobre o período da escravidão.

Tenho que mencionar que há anos existe uma espécie de campanha anti-lobato com repetidas acusações de suposto racismo na sua obra. Na minha família essas acusações não foram levadas a sério, achavam que as acusações eram tão absurdas que não mereciam resposta e por fim nunca fizeram nem uma nota de repúdio. A minha percepção sempre foi diferente, especialmente pela minha experiência como imigrante brasileira nos EUA e sempre achei necessário enfrentar essas acusações, mas minha posição era minoritária.

No início de 2020 fui convidada a participar de um seminário virtual de Português como Língua de Herança, que foi quando conheci a Nereide Santa Rosa e ficamos amigas imediatamente. Isso foi logo no começo da pandemia… E foi ótimo, porque a Nereide já escreveu mais de 80 livros, inclusive uma biografia autorizada pelos meus pais de Lobato quando criança. Essa amizade cresceu e com a Nereide eu pude discutir as questões que me incomodavam na obra de Lobato. Iniciamos um longo processo de conversa e discussão de como adaptar para o século XXI.

Nessa época aconteceu um incidente catalisador para mim: a morte de George Floyd aqui nos EUA e a morte do menino Miguel Otávio, que caiu do apartamento onde sua mãe era empregada no Recife… Foi o meu momento de clareza! Nesse momento todos meus questionamentos se cristalizaram e decidi o que fazer… Percebi que para mim a questão da justiça e igualdade racial eram as mais importantes, então decidi exatamente o que adaptar nos livros do meu bisavô: a personagem Nastácia.

Blog LcVc: E como funciona esse processo de adaptação?

Cleo ML: Quando eu decidi qual era a questão mais importante que eu queria abordar, eu li analisando o texto e focando somente na personagem Nastácia. Essa redução do escopo da atualização facilitou muito o processo. Nereide e eu revisamos o texto juntas e vimos se existiam termos anacrônicos. Por exemplo: Retiramos as referências à cor dela, porque hoje em dia não precisamos enfatizar que a pessoa é de qualquer cor, não há mais ”a negra isso”, ”a boa negra aquilo”… Quando Lobato escreveu seus livros, ele estava tentando mudar a imagem existente dos ex-escravos, que eram considerados pouco mais do que animais ou objetos para uso dos seus senhores, e ele quis modificar essa imagem mostrando que eles também eram seres humanos de valor. Nastácia é descrita repetidas vezes como “boa”. Mas hoje em dia não é mais necessário enfatizar repetidamente a cor junto com a qualidade de bondade. Hoje precisamos de uma Nastácia em pé de igualdade social e econômica com a sua amiga Benta.

É importante ressaltar que eu atualizei Tia Nastácia em três coisas: ela não é mais uma ex-escrava e sim amiga de infância de Dona Benta; ela não é mais analfabeta, agora sabe ler; e agora ela não é mais empregada, nem trabalha para D.Benta. De resto usei um artifício Lobatiano que é não explicar muito… Ninguém sabe que fim levou os pais de Narizinho ou quem é o pai do Pedrinho, nem com quem D. Benta foi casada… Lobato não explica muito o passado dos seus personagens. O que importa é o universo mágico que a partir da primeira página se abre para o leitor. Essencialmente a Personagem Nastácia manteve-se igualzinha a personagem criada pelo meu bisavô: ela continua excelente cozinheira, continua amorosa e acolhedora, continua ajudando a criar Narizinho e continua tendo feito a Emília. Não mexi na essência da Tia Nastácia. Inclusive modifiquei o menos possível nas falas, retirando apenas palavras ou termos que hoje são considerados preconceituosos, mas antigamente eram normais. Somente modifiquei as falas de Nastácia, onde era necessário para refletirem as mudanças da atualização da personagem. Por exemplo: como ela não é mais uma ex-escrava, ela não chama mais Dona Benta de “Sinhá”. Como ela não é mais analfabeta ela não fala mais como tal. Esses momentos foram assinalados e coloquei um glossário no final com explicações e também definições das palavras em desuso.

Blog LcVc: Você fez alguma outra atualização em algum outro personagem? Como foi a atualização visual dos personagens do Sítio?

Cleo ML: Não, não modifiquei nem atualizei mais nada no texto e não mexi em nenhum outro personagem.

O processo de atualização visual foi o mais fácil e divertido. Se você olhar os ilustradores oficiais de Lobato da década de 30 e 40 e até os desenhos da Editora Globo, você percebe que Dona Benta teve uma evolução visual, ficou mais “moderna”, evoluiu com os tempos, Narizinho e Pedrinho também, Emília e até o Visconde mudam com o passar das décadas, todos exceto Tia Nastácia! Ela continua de chinelo e paninho na cabeça eternamente.

Um belo dia em 2019 encontrei uma ilustração do Rafael Sam no Instagram. Era uma ilustração da Cuca, Visconde, Emília e o Saci atravessando a rua na faixa de pedestres – a rua se chamava Lobato Road, numa referência à famosa rua que ilustrou a capa do disco Abbey Road, dos Beatles. Fiquei encantada com a qualidade do desenho, a originalidade, o humor e as múltiplas camadas de referências culturais presentes no desenho do Rafael.

Já estava no processo de adaptação do texto junto com Nereide e precisávamos de um ilustrador. Nereide me apresentou diversos outros, mas nenhum se aproximava da qualidade e da inteligência dos desenhos do Rafael, então fui atrás dele. Conversamos e acertamos nossa parceria. Foi uma aproximação delicada porque eu não sabia se ele gostava de Lobato, se tinha algo contra, mas deu tudo certo e o trabalho dele está incrível, cada vez melhor!

Blog LcVc: E como foi esse processo de trabalho entre você e o Rafael?

Cleo ML: Confesso que o nosso processo de trabalho foi um pouco tumultuado. Eu nunca tinha trabalhado com um ilustrador, mas sou artista também e eu tinha as imagens no meu coração. O difícil era transmitir verbalmente para o Rafael desenhar o que meu coração sentia, fazer as minha memórias afetivas tomar forma… Tive de passar muitas imagens tiradas do Google para Rafael poder entender como é a flora do Vale do Paraíba, porque Rafael é do Recife e não conhece as árvores e flores da região Sudeste. Como somos duas pessoas visuais, eu fui atrás de referências visuais, as mais diversas na internet. Tivemos muitas conversas e discussões. Para o cenário do Reino das Águas Claras, eu vi uma imagem na TV do meu dentista, fotografei e mandei para ele. Era uma imagem das florestas de algas daqui de Santa Bárbara. Uso muito também as referências dos ilustradores antigos de Lobato, para manter o espírito original dos personagens e também adoro fazer referência às capas antigas.

Às vezes o que o Rafael tinha em mente não era o que eu tinha no coração. Por exemplo: tentamos fazer Dona Benta uma avó de hoje. Fiz mil buscas no Google, mas as avós de hoje podem ser uma mulher de 40 ou 50 anos de jeans e cabelo curto, aliás o Rafael queria fazer a D. Benta baseada em mim! Mas eu sou muito mais Emília do que Benta! De qualquer maneira percebi que D. Benta tinha que continuar uma avó de visual tradicional, icônica porque ela é a avó ideal, que só existe no mundo imaginário, nos nossos sonhos.

Foi assim com todos os personagens, discutimos todos um a um. A Emília foi pura inspiração do Rafael. A única condição que eu impus, é que não podia ter nada a ver com a Emília da Globo. A nova Tia Nastácia eu deixei para o Rafael fazer porque, quem melhor que um ilustrador negro, com duas crianças lindas, para fazer uma Tia Nastácia do jeito que os filhos dele gostariam de ver? E saiu essa Tia Nastácia maravilhosa, empoderada, orgulhosa da sua descendência africana! Pedrinho nós deixamos quase igual, mas com toques contemporâneos como o tênis All Star. E por fim, Narizinho tinha que ser feminina mas ainda criança, absolutamente não sexualizada e morena cor de jambo, igual Lobato a descreve.

Blog LcVc: Como tem sido a aceitação dos pais em relação a esse seu trabalho, quanto a compreensão do conteúdo das histórias do Sítio e a transmissão aos novos pequenos leitores?

Cleo ML: Tenho notado que os pais dizem que a leitura do texto ficou mais fácil. Acho que isso se deve primeiro às ilustrações maravilhosas que ajudam na compreensão do texto e depois ao fato da adaptação dos termos anacrônicos já estar incorporada ao texto. Então os pais não tem de fazer a adaptação ao ler e também se quiserem tem um glossário no final, assim se o pai ou a mãe não souberem a palavra, é só olhar.

Blog LcVc: Em relação ao seu trabalho, tanto de adaptação, quanto de tradução de "Reinações de Narizinho” – como é esse processo levando-se em conta a questão cultural e a questão de manter a essência da obra?

Cleo ML: Me perguntam muito sobre “a essência” da obra… Como eu fui criada lendo Lobato, discutindo Lobato diariamente, respirando Lobato a todo minuto, jantando nos móveis do Visconde de Tremembé e tendo contato diário com a filha e a neta de Lobato, nunca tive dúvida de qual era a essência da obra Lobatiana. Isso me ajudou muito.

Na adaptação, apesar da atualização da personagem Nastácia, o texto manteve o sabor e as características do texto original sem grande alteração até agora. Mas na tradução para o Inglês foi muito mais desafiador… Por isso tenho demorado tanto tempo para fazer esse trabalho de tradução. Ao traduzir para o Inglês tive que fazer muitas escolhas. Por exemplo: quais nomes traduzir e quais nomes manter em português? Mantive Narizinho, pois é parte essencial da personagem e a tradução para o inglês tem conotação pejorativa. Mantive Emília, pois existe Emily que é muito parecido. Pedrinho eu troquei para Peter mas optei por não chamá-lo de Little Peter. Com relação a fruta jabuticaba, que não existe nos Estados Unidos, usei o recurso de colocar uma ilustração para mostrar o que era uma jabuticaba. Noutro momento tem um longo parágrafo em que Pedrinho fala sobre o mastro de São João, que saudades ele tem etc… Tive de encurtar um pouco e colocar uma explicação sobre festas juninas no rodapé. Num parágrafo onde Pedrinho menciona o Saci, tive de colocar uma nota de rodapé explicando sobre nosso Saci. Tive que achar frases idiomáticas em Inglês que fossem correspondentes às frases brasileiras usadas por Lobato. Tive que pesquisar as onomatopeias, pois barulhos são diferentes em cada língua e tive que inventar jogos de palavras que fossem engraçados em Inglês, pois Lobato faz muitos trocadilhos e inventa muitas palavras!

Deixa eu dar um exemplo: No início do capítulo “As Jabuticabas”, Emília e Narizinho estão conversando sobre como iriam ajudar o Pequeno Polegar a escapar da história onde ele está preso… Pequeno Polegar é Tom Thumb em Inglês. Vejam só Lobato escreve "Emília era teimosa como ela só. Ela nunca disse Doutor Caramujo. Era sempre Doutor Cara de Coruja. E nunca quis dizer Pequeno Polegar. Era sempre POLEGADA.” Em Inglês ficou: “ Emília mas stubborn to no end and back. She never said Doctor Snail. It was always Doctor Smelly Nails. And never Thumb. Always DUMB.

Vocês entenderam os trocadilhos com os nomes? Foi super instigante pensar em tudo isso.

Blog LcVc: Nós estamos num momento muito tecnológico, onde as nossas crianças estão muito conectadas na internet, na era dos jogos e das redes sociais. Você percebe um certo desinteresse pelos livros, principalmente por parte do público infantil? Como você avalia esse momento e como lida com essa questão?

Cleo ML: Já faz um tempo que estamos nesse ‘momento muito tecnológico’ como você diz e com a pandemia, absolutamente perdemos a guerra. Não há mais como combater a dominância total de celulares, aplicativos e mídia social na vida das crianças. O pior é que o nível de ensino caiu muito com as aulas virtuais e agora a situação é muito pior que há 2 anos atrás. O jeito é usar a tecnologia, abraçar a mídia social, se conectar através das redes sociais e falar sobre livros, sobre Lobato. Por exemplo, eu tenho o projeto ‘Lobato nas Escolas’, que com a pandemia deslanchou com várias palestras virtuais. Todas as escolas têm um jeito de oferecer minhas palestras para seus alunos. Após fazer a inscrição eu entro em contato com a escola, que é quem escolhe o tema que iremos abordar. A palestra tem que fazer parte de uma unidade temática. Eu faço a palestra em qualquer plataforma tipo Zoom, Google-meet ou até por Instagram. Após a palestra peço que o professores postem no Instagram o que acharam do encontro e se os alunos tiverem o aplicativo, peço que também postem no Instagram ou no Facebook sobre o que aprenderam.

 

Cleo Monteiro Lobato já lançou “Narizinho Arrebitado- Livro 1” e também “O Sítio do Pica Pau Amarelo – Livro 2”. Também já lançou “The Adventures of Narizinho” e “The Yellow Woodpecker Ranch” em Inglês, todos pela Underline Publishing e todos ilustrados por Rafael Sam.

Agora ela lançou “O Casamento de Narizinho – Livro 3”, no dia 19 de Abril, na abertura da Semana Monteiro Lobato no Museu Monteiro Lobato em Taubaté.

O novo livro tem 59 páginas e 12 ilustrações feitas por Rafael Sam.

O livro pode ser adquirido por leitores do mundo inteiro pela Amazon ou no Brasil através do site www.monteirolobato.com ou pelo site Umlivro.com.br.

Os leitores também podem conversar com a bisneta de Monteiro Lobato, através da sua página oficial no Instagram: @cleomonteirolobato.

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Semana Monteiro Lobato: 70 anos celebrando celebrando o pai da literatura infantil brasileira

A edição número 70 da ‘Semana Monteiro Lobato’, acontece entre os dias 19 e 24 de abril, no Museu Monteiro Lobato na cidade de Taubaté, no interior de São Paulo, onde nasceu o pai da literatura infantil brasileira!

A ideia de realizar uma semana dedicada à memória de Monteiro Lobato surgiu há muitas décadas em uma reunião do Rotary Club após uma palestra do professor Gentil de Camargo, sobre a vida e a obra do escritor. Em 1950 foi criada uma comissão especial, formada por um grupo de intelectuais taubateanos, com a missão de organizar a primeira Semana Monteiro Lobato presidida por Oswald Barbosa Guisard.

Com o ideia de dar uma dimensão nacional ao evento, os organizadores prepararam uma ampla programação que incluía a realização de concursos literários, a emissão de selos comemorativos, além da entrega de medalhas para homenagear algumas celebridades. Essa comissão planejava também adquirir o Solar do Visconde, onde Monteiro Lobato viveu e atualmente abriga o museu Monteiro Lobato.

Criou-se uma expectativa enorme em relação a presença de artistas conterrâneos do escritor, como Hebe Camargo, Amacio Mazzaropi, Alvarenga e Ranchinho, Alda Garrido, Chico Pelanca, Lia de Aguiar, Sílvio Vieira e Monte Cezar, todos Taubateanos famosos!

Dada a relevância do evento, o então governador do estado na época, Lucas Nogueira Garcês, confirmou sua presença.

Finalmente, três anos após ter sido idealizada em 1950, a primeira edição da Semana Monteiro Lobato foi realizada entre os dias 11 e 18 de abril de 1953. O objetivo desse primeiro evento era resgatar a importância e a contribuição do escritor para a formação de um pensamento genuinamente brasileiro e contou com a presença da esposa de Lobato, D.Purezinha e tambem de sua filha mais nova, Ruth Monteiro Lobato.

Entretanto nem tudo saiu conforme o planejado…

Monteiro Lobato sempre teve uma relação conturbada com sua cidade natal, fato que acabou causando alguns prejuízos a memória e  até ao boicote desta 1a SML por alguns setores da sociedade Taubateana. Por um lado havia um clima de animosidade entre a alta sociedade Taubateana que se sentia ofendida pelo livro “Cidades Mortas e por outro lado a igreja católica da época que acusava Lobato de propagandear o regime comunista e de ser má influencia para as crianças. Esses dois setores se colocaram contra a realização da homenagem ao escritor. Para reafirmar a sua contrariedade, todos os dias o clero ia à rádio para criticar Lobato, durante essa primeira edição da SML, no pátio de uma das escolas de Taubaté dirigida por membros do clero, livros do escritor foram queimados numa grande fogueira que dizem, lembrou uma cena medieval. Foi sem dúvida uma grande campanha promovida para aterrorizar e afastar o povo da celebração ao pai da literatura infantil. Acredita-se que para não contrariar os dirigentes católicos à época, o governador do estado de São Paulo, que havia confirmado presença, acabou não comparecendo ao evento desapontando os organizadores.

Mas mesmo assim com todos esses contratempos a 1a Semana Monteiro Lobato foi um sucesso e deu inicio a uma seria ininterrupta de celebrações anuais lideradas por 30 anos por Oswaldo Barbosa Guisard  que não so’ o presidente da comissão organizadora da Semana Monteiro Lobato por 30 anos mas tambem a pessoa responsável por salvar a chácara do Visconde, atual Museu Monteiro Lobato.

O Professor Osni Cruz faz im relato detalhado do encerramento da 1a Semana Monteiro Lobato em seu livro “Na Trilha de Lobato – A Ultima Alegria” : “As 10 da manhã, no Curso de Aplicação da Escola Normal Monteiro Lobato, foi inaugurado o retrato do escritor e patrono daquela unidade de ensino. Houve ali também, o ‘batismo’ de várias salas de aula com o nome dos personagens criados por Lobato, na presença de sua esposa dona Purezinha, da filha Ruth Monteiro Lobato e da pintora conterrânea, Georgina de Albuquerque, que também foi homenageada naquela oportunidade. O ponto alto do encerramento da primeira Semana Monteiro Lobato, foi iniciado com grande queima de fogos e depois marcado por um grande desfile, que começou na praça Barão do Rio Branco e percorreu as principais ruas da cidade, chamado de ‘marcha do fogo’, realizado em colaboração com o 5º Batalhão de Comando (BC), atual 5º Batalhão de Polícia Militar do Interior. O desfile foi acompanhado por dezenas de milhares de pessoas que lotaram as esquinas da cidade por onde o desfile passou e que aplaudiram entusiasticamente! Dezenas de bandeiras dos estados brasileiros e de países da América deram à marcha um tom de civismo e uma coloração de patriotismo. Um show pirotécnico iluminou o céu de Taubaté, encerrando a marcha pela cidade as 21 horas. Dona Purezinha, esposa de Lobato, protagonizou a última atividade daquela primeira edição da Semana Monteiro Lobato, presidindo a mesa de autoridade no Salão de Honras, ao lado do ministro Renato de Almeida e de outras autoridades”.

Uma “curiosidade” que mostra a influencia de Lobato e o medo das autoridades desta influencia:  todos os integrantes da Conselho permanente de organizadores da primeira Semana Monteiro Lobato foram fichados pelo DEOPS – policia politica da época e todos os discursos proferidos pelos conferencistas foram recolhidos como evidencia.

 

A IMPORTÂNCIA DA SEMANA MONTEIRO LOBATO

Setenta anos depois podemos verificar o incontestável papel da Semana Monteiro Lobato na preservação da memória do escritor. Celebrar Monteiro Lobato, principalmente nos dias de hoje, é um modo de reconhecimento da amplitude e da intensidade dos muitos temas, assuntos e fatos presentes em suas histórias, que nos permitem a discussão ampla, aberta e, por que não, profunda dos mesmos temas os quais acusam o autor. As polêmicas que o envolvem, tanto pelo conjunto de argumentos e exposições, quanto pela presença de seus livros nas mãos de crianças em pleno século 21, atestam a vitalidade de suas narrativas.

Toda a obra de Lobato é marcada pela criatividade, pela inventividade e criticidade.

A Semana Monteiro Lobato é também uma forma de se combater a tentativa de se ‘cancelar Lobato’ defendida por alguns que não se importam, como bem define o doutor em Literatura da Unesp, professor Thiago Alves Valente, “em queimar um ramo literário em que essa tríade – criatividade, inventividade e criticidade – constitui grande probabilidade de servir a consciências imbuídas de utopias ainda tão caras à sociedade do nosso tempo”.

 

SEMANA MONTEIRO LOBATO 2022

Com o tema “Recortes do Homem Lobato", a edição número 70 da Semana Monteiro Lobato, que vai destacar os outros atributos de Lobato, além de escritor, acontece este ano entre os dia 19 e 24 de abril, no Museu Monteiro Lobato, no Sítio do Pica Pau Amarelo, na cidade de Taubaté.

O evento que tem cunho artístico, cultural e pedagógico, conta com uma programação variada, gratuita e indicada ao público de todas as idades.

Confira a programação completa clicando aqui: (sugestão é inserir uma imagem do cartaz onde o leitor possa ser direcionado ou para a página do evento ou mesmo ampliar o cartaz e ler a programação).

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REFERÊNCIAIS:

https://almanaqueurupes.com.br/index.php/2020/04/15/como-surgiu-a-semana-monteiro-lobato/

> “Na trilha de Lobato entre as Serras” – Osni Lourenço Cruz

As incríveis personagens femininas de Monteiro Lobato

Há uma linha tênue entre a fantasia e a realidade, da qual muitas crianças e adolescentes se valem para lidar com seus anseios e medos, até à fase adulta, quando terão a personalidade fortalecida e meios para enfrentar as dificuldades da vida.

Movimentos feministas, o avanço tecnológico a própria transformação postural da mulher e sua ocupação no mundo são elementos que podem ser alvo de reflexão e adequação desde a infância até a idade adulta.

Até o início do século XX, poucos escritores brasileiros davam espaço diferenciado à mulher na literatura infantil brasileira, onde elas eram sempre retratadas com base na imagem dos clássicos infantis europeus, em que as personagens apareciam descritas como submissas ao protagonismo machista da época, de personalidade frágil e com excessivo cuidado em relação à sua descrição física, com uma insistente exaltação aos traços de sua beleza.

É a partir da obra Reinações de Narizinho, que Monteiro Lobato rompe mais uma importante barreira, ao retirar a mulher da mera condição de figurante ou de no máximo coadjuvante das histórias infantis, para lança-la à condição de protagonista nas histórias passadas no Sítio no Pica-Pau Amarelo.

Na verdade, o Sítio se torna um matriarcado (regime social em que a autoridade é exercida pelas mulheres), que derruba o estereótipo criado em torno da figura feminina, colocando no centro de suas tramas, quatro personagens que refletem toda brasilidade, tanto nas suas características físicas quanto comportamentais: a matriarca da família, Dona Benta, e a sua neta Lúcia; a cozinheira de mão cheia, Tia Nastácia; e a boneca de pano Emília, passam a ser fundamentais no processo de naturalização da cultura nacional, tão defendida por Lobato ao longo de sua vida.

Com essa obra, o escritor expõe mais uma vez toda a sua genialidade irreverente e inquietude, através desse matriarcado que reúne mulheres de personalidades marcantes, com argumentos fortes para se expressarem e redefinirem os seus papeis sociais, numa atrevida ruptura com os velhos modelos literários.

É nesse contexto, que para celebrar o mês reservado às mulheres, nós fazemos um mergulho no universo feminino de Monteiro Lobato, para conhecer um pouco da personalidade de suas principais personagens femininas.

Mesmo Emília não pertencendo ao gênero humano, a boneca carrega fortes traços de uma personalidade feminina que ela própria confessa: estou começando a ser humana”.

Nesse mergulho encontramos todo o feminismo de Monteiro Lobato, que inegavelmente, através do matriarcado estabelecido em Reinações de Narizinho, se mostra um feminista convicto, muito antes do surgimento do movimento de valorização da mulher no Brasil!

O feminismo de Lobato ganha luz pela análise de duas mulheres, estudiosas e historiadoras da literatura infantil: Nelly Novaes Coelho e Vera Maria Tietzmann Silva. É através do olhar de ambas, que percebemos não apenas o alter ego do escritor escondido na essência comportamental da boneca Emília, por exemplo, mas também na defesa de um tipo de mulher e de um modelo familiar diferente do que existia no Brasil, na primeira metade do século XX, época em que Lobato viveu.

Lobato sempre foi considerado um homem a frente de seu tempo, um escritor singular que teve sempre em mente formar crianças sábias e críticas, através de histórias que abordavam temáticas atuais à sua época, numa linguagem clara e acessível aos pequeninos e assíduos leitores.

A seguir vamos conhecer um pouco da personalidade das quatro principais personagens desse matriarcado lobatiano, que até hoje segue influenciando diferentes gerações.

 

NARIZINHO

Lúcia, neta de Dona Benta, é a menina do nariz arrebitado, a personagem mais lírica de Lobato, que demonstra valores como gentileza e respeito em diversas passagens.

Se mostrando bem instruída em muitos aspectos, ela é dona de ações que resultam sempre de longas reflexões e apesar de sua fala sempre rebuscada, obedecendo muitas vezes as determinadas condutas que uma menina da época deveria seguir, ela não esconde a autonomia na fala e nos gestos que se contrapõem as regras sociais daquele tempo.

Narizinho caminha entre os dois meios, como é possível perceber na passagem do casamento da boneca Emília, onde ela demonstra se importar com a tradição do casamento, mas reforça a autonomia da noiva para tomar a decisão final, o que não era de costume naquele período.

 

EMÍLIA

A mais famosa boneca de pano do Brasil, que vive uma metamorfose para a vida humana, é lembrada sempre que o tema abordado é o feminismo, como uma personagem marcante e representativa.

Ela foge totalmente dos padrões e do estereótipo de boneca frágil e delicada. Falante como ninguém, a boneca de pano marcou a infância de diversas gerações, virando um ícone da literatura brasileira e não há qualquer exagero em afirmar que a personagem criada por Monteiro Lobato, é a própria personificação da força, astúcia e do pensamento crítico.

A partir da vivência de novas experiências e aventuras, Emília percebeu que suas velhas ideias já não serviam mais, pois se tornaram tão inúteis quanto um tostão furado” (LOBATO, a chave do tamanho).

A personagem carrega ainda um espírito de curiosidade, sempre em busca de informações e de novas hipóteses que, em suma, busca a construção de um mundo melhor.

Emília alia antagonismos que se complementam em sua ousadia e criticidade. Ela não tem medo de permitir que seu lado mágico, lúdico, poético e louco de brinquedo falante converse com a racionalidade e a sabedoria que adquiriu ao conquistar consciência. Ciência e magia são, para ela, o segredo das grandes descobertas.

 

TIA NASTÁCIA

A melhor amiga de Dona Benta, foi escrava quando jovem e depois de liberta se tornou parte da família, cuidando de Lúcia desde pequena. Criou a boneca de pano mais famosa do país, Emília e também o sábio Visconde de Sabugosa.

Além da sabedoria, ela tem o dom da bondade, até por oposição ao preconceito.

Mesmo responsável pelos afazeres da casa, não é menosprezada em momento algum da obra, ao contrário, é sempre tratada com muito respeito por todos.

Lobato ainda quebra um paradigma para época. Tia Nastácia mesmo sendo empregada e negra, dá opiniões sobre todos os assuntos, xinga as crianças, quando necessário e, além de tudo, é confidente de Dona Benta, o que era raro para a época.

Tia Nastácia é um belo exemplo da raça negra na literatura brasileira. Com jeito simples, muito habilidosa, costuma chamar Dona Benta de sinhá, assim como os negros chamavam seus donos antigamente. Mas no Sítio não havia dono, nem patrão, a relação entre as duas, era de amizade, trocas de receitas e confidências.

Tamanha importância teve Tia Nastácia que ganhou até um livro com seu nome; Histórias de Tia Nastácia”, que começa com a personagem explicando o que é folclore para as crianças e assim segue contando histórias da cultura brasileira e suas lendas.

Mulher forte, Tia Nastácia ganha muito espaço nas histórias e conquista o coração de muitos leitores que, até hoje, têm a doce lembrança dela. Um papel educativo e fundamental na obra, que ganhou espaço, cada vez mais com o desenrolar das histórias.

 

DONA BENTA

Em muitos aspectos a personagem se assemelha e revela uma projeção do próprio Lobato; não apenas pelo nome Benta, feminino de Bento, mas por uma série de coincidências de características, como o fato de terem um lado simples e outro erudito, serem donos de uma propriedade rural e amantes de livros, ambos abertos a todas as áreas do saber e, mais do que isso, que faziam o conhecimento circular partilhando suas descobertas e leituras.

Assim como Lobato, Dona Benta é capaz de enxergar o mundo pelo olhar da criança e no momento de contar histórias aos seus netos ela deixa aflorar a imaginação o faz-de-conta. Ela quebra certas atitudes convencionais da sociedade daquela época, como o fato de ser mulher no contexto em que as obras lobatianas foram publicadas e ser extremamente ativa, independente e forte em suas ações e no seu discurso.

Dona Benta é uma espécie de mulher coragem, uma vez que Monteiro Lobato lhe deu condições para isso, criando, em plena época em que mulheres e negros eram muito mais menosprezados do que hoje, uma personagem de garra, e de sabedoria para administrar, sozinha, seu sítio e ainda quebrar a regra de que lugar de mulher é no fogão”.

Por meio de seu discurso e de suas atitudes, a personagem representa a mulher culta, educada e, além disso, independente, tomando conta do sítio e resolvendo todas as situações-problema.

Se hoje em dia ainda encontramos resistência em admitir que uma mulher pode ser independente, imagine então na época em que Lobato inovou a literatura, colocando a figura da mulher em supremacia.

Dona Benta se afasta bastante do protótipo de dona de casa e em vez de a vermos costurando, cozinhando ou bordando, como era comum naquela época, sempre a encontramos escrevendo cartas, lendo jornais ou livros, ou então, escutando as últimas notícias do país e do exterior, se equiparando às mesmas condições dos homens daquele tempo.

 

Essa é uma síntese da personalidade que encontramos nas principais personagens femininas criadas por Monteiro Lobato.

No Sítio do imaginário lobatiano, encontramos facilmente em livros como Serões de Dona Benta”, Geografia de Dona Benta”, O Sítio do Picapau Amarelo”, só para citar alguns, histórias onde os personagens masculinos são minoria, e não tem tanto destaque, quanto as mulheres do Sítio, ressaltando o matriarcado que citamos, que tem ao centro Dona Benta, Narizinho, Emília e Tia Nastácia.

Com toda a feminilidade de suas naturezas, as personagens do imaginário lobatiano são a representatividade da mulher moderna que vislumbramos hoje; de personalidade forte, de opinião, cultas e independentes também financeiramente, como podemos notar em Dona Benta, que apesar de não ser casada, administra o Sítio cuidando do mesmo com muito afinco e carinho, sem deixar que falte nada.

Uma outra atitude feminista explicitada pelo autor, encontramos no livro O casamento da Emília”, onde Lobato traz uma temática um tanto comum: o casamento. Porém o comportamento da noiva, a boneca Emília, passa bem longe do considerado comum e de servir como exemplo para as noivas daquela época. Isso pelo fato da boneca de pano ser desbocada” e expressar livremente sua insatisfação em relação àquilo que lhe desagrada como, por exemplo, os versos recitados pelo personagem vidro azul e o comportamento de rabicó, seu noivo ao final do casório.

Esse comportamento audacioso raramente era encontrado nas mulheres de antigamente, porque como escolhidas” pelos homens para um casamento conveniente, não tinham voz ativa e precisavam enxergar apenas a qualidade de seus noivos, não devendo expressar abertamente sua insatisfação com eventuais defeitos do mesmo.

Ousadamente, Lobato não subestimou a capacidade da mulher, não a considerou como submissa ao homem, ao contrário, fez questão de mostrar aos homens e mulheres machistas de sua época que a mulher pode ser sim: independente, trabalhadora e culta, superando muitas vezes o próprio homem.

As figuras de Dona Benta, tia Nastácia, da boneca Emília e Narizinho deixam profundas marcas na saga do Sítio do Picapau Amarelo, elas atestam o lado feminista do seu criador.

Nestas quatro personagens femininas, Lobato externou uma maneira inovadora de representar a mulher na literatura infantil.

Um brinde à genialidade ousada do feminista Monteiro Lobato e à todas as mulheres do nosso Brasil!

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Referências Bibliográficas

https://anais.unicentro.br/seped/2010/pdf/resumo_182.pdf
https://diaonline.ig.com.br/2022/03/08/dia-da-mulher-personalidades-de-destaque-na-literatura-https://editorarealize.com.br/editora/anais/enebio/2021/CEGO_TRABALHO_EV139_MD1_SA24_ID550_0303
https://monteirolobato.com/wp-content/uploads/2021/12/2008LisandraPortelaSteffen.pdf
https://editorarealize.com.br/editora/anais/enlije/2016/TRABALHO_EV063_MD1_SA5_ID690_240720162009
http://nastrilhasdaliteratura.blogspot.com/2009/07/monteiro-lobato-um-escritor-feminista.html

12 curiosidades da segunda versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo na TV Globo

  1. No Natal de 2001, a pedido dos telespectadores, o programa teve alguns de seus episódios lançados em vídeo e DVD. Também foram colocados no mercado produtos infantis – bonecas, mochilas, cadernos, álbum de figurinhas etc. – com os personagens do Sítio do Picapau Amarelo.
     
  2. Em dezembro de 2001, foi apresentado um especial musical intitulado A Festa da Cuca, que teve a participação de todos os artistas da nova trilha sonora e de atores convidados, como Malu Mader no papel da Cuca.
     
  3. Um dos maiores desafios da nova temporada foi a caracterização da Cuca. Nos anos anteriores, a personagem usava uma fantasia de jacaré. Em 2007, seu visual foi elaborado por meio de maquiagem e figurino, uma tentativa de afastar a personagem de uma atmosfera de teatro infantil, aproximando-a de uma estética mais televisiva. Cuca continuou com sua textura de jacaré, mas ganhou ares de bruxa. Os dentes e as unhas de crocodilo usadas pela personagem foram feitos sob medida para a atriz Solange Couto pela equipe de efeitos especiais, formada por Ricardo Menezes, Glauco César e Cláudio Sampaio.
     
  4. A atriz Jacira Santos, que interpretou a Cuca na segunda versão do Sítio, fez parte do grupo Cem Modos, companhia gaúcha de teatro de bonecos, e foi uma das que vestiram a fantasia da cadela Priscila, estrela do infantil TV Colosso (1993), da Globo. Baiana, nascida no Pelourinho, em Salvador, ela assistia na TV a episódios da primeira versão do programa, quando criança. Tinha 28 anos quando integrou o elenco do infantil.
     
  5. Cininha de Paula, uma das diretoras dessa nova fase do Sítio do Picapau Amarelo, trabalhou como atriz na primeira versão do infantil, como intérprete da personagem Ofélia.
     
  6. Sito do Picapau Amarelo foi adaptado pela primeira vez para a televisão em 1952, na TV Tupi. O programa ficou 11 anos no ar e foi um grande sucesso da emissora. Em 1964, o infantil ganhou uma versão na TV Cultura de São Paulo e, em 1967, outra na TV Bandeirantes.
     
  7. Em 2009, o programa ganhou uma versão animada exibida na véspera do Natal; a nova versão ganhou duas temporadas em 2012 e 2013.
  8. Os cantores Wanessa Camargo e Supla entraram para o elenco principal da temporada e deram vida à Diana Dechamps, líder de uma banda de rock feminino, e Elvis McCartney, um guitarrista, que formavam um casal que enfrentou diversos obstáculos para ficarem juntos.
     
  9. O Visconde Sabugosa começou essa nova versão, parecendo ter mesmo o tamanho de um sabugo de milho. Mas no final de 2002, durante o episódio "Volta ao Reino das Águas Claras", o personagem voltou a ter o tamanho de uma pessoa normal após uma lata de fermento cair em cima dele. Durante os anos de 2001 até 2004, Visconde era interpretado pelo ator Cândido Damm, que nessa versão do Sítio deu um padrão de voz "bem grossa" ao personagem, padrão que seria seguido também pelos outros dois atores que interpretariam o Visconde nas temporadas seguintes, Aramis Trindade em 2005 e 2006, e Kiko Mascarenhas em 2007. A diferença entre a voz dos três atores era que o Visconde de Cândido Damm tinha o sotaque carioca, enquanto o Visconde de Aramis Trindade falava com um forte sotaque paulistano, o terceiro intérprete, Kiko Mascarenhas, também tentou manter o sotaque paulista que Aramis Trindade fazia para o personagem.
     
  10. Uma das coisas da série de 2001, mais diferentes das outras versões do Sítio para a televisão, é que a Tia Nastácia foi vivida por uma atriz mais magra, Dulcilene Moraes (conhecida como Dhu Moraes). Mas, a partir da 3ª temporada, a produção pediu que Dhu Moraes engordasse um pouco, e usasse um pouco de enchimento no vestido, pois a personagem Nastácia era mais conhecida popularmente sendo gorda, tanto em outras adaptações para televisão, quanto nas ilustrações dos livros. Contudo, na temporada 2005 o vestido com enchimento parou de ser usado, só voltando na temporada 2006, mas dessa vez mais bem confeccionado e realista.
     
  11. De 2001 à 2006 (com exceção de 2007) foram confeccionadas três fantasias de Cuca diferentes, que eram manipuladas por Jacira Santos. Na primeira temporada, a intenção era que a aparência da Cuca não ficasse assustadora demais para as crianças. O diretor Marcio Trigo disse que a personagem devia ter uma aparência má e assustadora, mas nem tanto, pois esta versão do Sítio estava mais direcionada ao público infantil; por esse motivo a personagem tinha
     
  12. um visual mais inofensivo, com rosto e cauda de jacaré, e corpo de mulher, com um vestido e capa de bruxa. Mas essa ideia foi mudando com o passar do tempo, e no ano de 2003, a aparência da personagem foi reformulada, dando a ela "cabelos reais" e mais compridos, além de deixá-la mais gorda e com uma personalidade mais cruel. Outra mudança no corpo da personagem ocorreria no ano de 2005, deixando-a menos vaidosa, e mais parecida com a Cuca do folclore. Ela passaria a ser mais perversa e com traços mais aterrorizantes, perdendo o "corpo de humana" e ganhando um "barrigão" listrado de réptil.
     
  13. Uma outra ideia inicial dessa segunda versão, que foi sendo deixada de lado com o tempo, era mostrar algumas vezes objetos e máquinas dos tempos atuais. Para isso, em algumas cenas apareciam Dona Benta tentando convencer Tia Nastácia da utilidade de alguns novos utensílios que ela havia encomendado para sua cozinha, como freezer e microondas. Outro elemento moderno adicionado ao Sítio em 2001 era o fato de Dona Benta ter comprado um computador para a sua biblioteca, para poder se comunicar com sua filha Antonica que mora na cidade. Porém, a série também mostrava Dona Benta meio chateada pelo fato de que após a chegada do computador, Pedrinho só lhe enviava e-mails (quando estava na cidade grande), e não havia lhe escrito mais cartas, que ela dizia apreciar mais ao recebê-las. As modernidades, contudo, não permaneceram muito tempo sendo usadas no Sítio, pois a partir da temporada de 2003 o computador foi deixando de ser usado, até "desaparecer" por completo das histórias. Assim também como o microondas e outros utensílios modernos, que foram sendo abandonados da cozinha de Tia Nastácia. Algumas temporadas depois, a única modernidade que sobrou na cozinha do Sítio foi apenas a geladeira (na versão dos anos 70, uma das poucas máquinas mais "modernas" ou comuns daquela época que já foram usadas no Sítio, foi a televisão, que não aparece nos livros de Lobato).

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FONTES DE PESQUISA:

https://memoriaglobo.globo.com/entretenimento/infantojuvenil/sitio-do-picapau-amarelo-2a-

https://www.wikiwand.com/pt/S%C3%ADtio_do_Picapau_Amarelo_(2001)#/overview

http://paradatemporal.blogspot.com/2017/10/sitio-do-picapau-amarelo-versao-2001.html

Monteiro Lobato: rasgado, queimado, cancelado e imprescindível

Escritor, já muito atacado no passado sob pretexto de veicular ideias evolucionistas e socialistas, tem mais recentemente sido acusado de racismo. Mas simplesmente banir seus textos das salas de aula e espaços de discussão é renunciar a debater uma obra prenhe de criatividade, inventividade e criticidade.

Autor: 

E Lobato continua “causando”…

Com mais de 70 anos já transcorridos desde a morte de seu criador, os personagens infantis de Monteiro Lobato circulam por leituras polêmicas e atuais dentro e fora da escola. Considerado um divisor de águas na produção literária para crianças, Lobato legou à posteridade textos que, em diferentes situações, suscitaram seu intenso reconhecimento tanto por parte do público leitor, quanto da crítica especializada. Da mesma forma, porém, a polêmica se tornou elemento indissociável desse reconhecimento, o que chega, junto com a ininterrupta edição de seus textos infantis, aos leitores de hoje.

Sobre seus livros para crianças, há pouco mais de uma década, em capítulo intitulado “Monteiro Lobato, um clássico para crianças”, respondíamos à questão: O que há de tão atrativo no Sítio do Picapau Amarelo? Ou, em outras palavras, por que Pedrinho, Narizinho e Emília, principalmente Emília, continuam tão presentes no imaginário infantil brasileiro? Ainda de outro modo: como Lobato fez esta mágica que, embora muitas vezes explicada nos mínimos detalhes pelos mais “maduros”, continua encantando os “menos experientes”? Indagações como essas não têm faltado aos pesquisadores e demais leitores especializados ao longo dos anos. Perguntas impossíveis de serem respondidas em um só texto ou mesmo em muitos outros trabalhos que vêm tentando, no mínimo, tangenciar as mil e uma questões instauradas pela obra de Lobato.

Um escritor publicista

As contradições vão se acirrando ao longo do texto lobatiano, que, ao contrário de seus pares, não se limita a reproduzir, em forma de antologia asséptica, as histórias que Tia Nastácia conta. Lobato reproduz a história encenando a situação de narração e recepção, pondo, pois, em confronto o mundo da cultura negra do qual, no caso, Tia Nastácia é legítima porta-voz, e o mundo da modernidade branca, à qual dão voz tanto as crianças como a própria Dona Benta, também ela ouvinte de Tia Nastácia e também ela insatisfeita com as histórias que ouve (…).

A partir dos anos 1980, foram consolidados estudos sistemáticos sobre a literatura infantil e juvenil brasileira. Nesse contexto, a figura de Lobato se mostra central, trazendo como foco desses trabalhos a discussão de aspectos temáticos relevantes, como aponta Marisa Lajolo em artigo de 1988, “A figura do negro em Monteiro Lobato”, ao abordar Histórias de Tia Nastácia:

Um artigo como esse mostra, ao leitor de hoje, que os estudos sistemáticos sobre a obra de Monteiro Lobato têm sido realizados de forma séria, sem ceder a simples opiniões ou questão de gosto. Por isso mesmo, muitos temas que ocupam o centro de polêmicas em diferentes ambientes sociais ou veículos de comunicação nunca foram desconhecidos daqueles que estudam a obra do escritor.

Assim, em texto mais recente, intitulado “Provocações à longeva Botocúndia: Monteiro Lobato e Urupês”, de 2018, publicado em número da revista Leitura em revista em que se comemorava uma efeméride literária – 70 anos sem Lobato, destacávamos a verve crítica lobatiana. Lembramos, então, que isso foi  um dos aspectos que chamou a atenção de José Guilherme Merquior ao atribuir a Lobato a identidade de “publicista” – “um escritor que discute problemas de interesse público, de interesse coletivo”. Acrescenta o autor, ainda, que é esse o perfil que poderíamos relacionar a certo tipo de jornalismo engajado que “não só discute temas de evidente interesse coletivo como o faz dentro de uma linguagem que sistematicamente aspira a uma comunicação com o grande público”.   

Amante de boas brigas

A exposição decorrente desta atividade, na qual Lobato via oportunidade para divulgar seus livros, levaria a uma visibilidade cotidiana ou mesmo à imagem pública de alguém que se colocava disponível ao debate, à discussão, à divergência. A partir dos jornais de sua época, Lobato lançaria questionamentos e reflexões contundentes, provocativas, na expectativa de influenciar ações em seu contexto social. Como aponta Sueli Cassal, o envolvimento de Lobato com grandes causas era movido por um desejo utópico de uma nação desenvolvida, muita próxima da situação econômica dos Estados Unidos, o que seria possível mediante a valorização do conhecimento científico.

“Não deixaria por menos uma boa briga”, poderia ser uma expressão para definir Lobato. “Boas brigas” foram as campanhas por necessidades básicas dos brasileiros, como a do saneamento, de 1918, em que acompanhou médicos sanitaristas, colocando-se a serviço da denúncia em uma séria de matérias sobre moléstias (verminoses, na maioria) que atingiam a população paulista de modo vergonhoso. Seu empenho como adido comercial nos anos 1930, para dar ferro ao Brasil, isto é, para incentivar a produção nacional, bem como sua ação tanto como publicista quanto empresário para desenvolver a exploração do petróleo, se refletiam em artigos e livros. A obra infantil não deixaria, evidentemente, de refletir essas experiências, algumas posteriores, outras concomitantes a atividades de editor, empresário, publicista.

O leitor infantil surge, então, como um destinatário de suas expectativas – aliás, como em todo texto, na obra infantil é evidente que se projeta uma ideia de leitor. Um suposto leitor neutro, raso, manipulável não estava na mira dos livros de Lobato. Ao não subestimar seu destinatário criança, o escritor convidava esse leitor infantil a pensar o mundo ao seu redor por meio de um trabalho inventivo e consciente com o texto literário. Os rompantes de contrariedade de diferentes grupos em diferentes momentos iriam atestar, ainda que de modo inusitado, a relevância daquele labor literário ao longo do tempo e das gerações.

Darwinismo e socialismo

Nos anos 1950, uma obra, em particular, se tornaria paradigmática desse tipo de abordagem polêmica e acusatória, realizando uma interpretação bibliográfica de Lobato cujo título encerra, por si só, um entendimento notoriamente avesso para com as lutas por ele travadas no campo econômico: A literatura infantil de Monteiro Lobato ou Comunismo para Crianças, do Padre Sales Brasil.

O autor projeta sobre a obra infantil temas que, de longe, estariam no centro da proposta lobatiana de formação de leitores, como é o caso da ausência de conteúdos religiosos propensos a reafirmar a identidade católica brasileira. Mais do que as ausências, o autor do estudo busca pistas em livros como A chave do tamanho, de 1942, sobre ideologias danosas à moral das crianças. É dessa forma que entende a miniaturização dos personagens como a extinção de classes sociais, isto é, em A chave do tamanho haveria uma propaganda dos benefícios de uma sociedade comunista: “é o seguinte: quando todos os homens chegarem ao mesmo tamanho (nivelamento das classes sociais), então não haverá sobre a terra nem injustiça nem certos preconceitos”.

 

Ao lembrarmos do texto do padre Sales Brasil, percebemos que a fantasia, a inteligência e a criticidade são ignoradas como excepcionais qualidades da obra de Lobato e rebaixadas segundo uma inegável visão obscurantista.  Em outro trecho, outra denúncia: “Trata-se, evidentemente, da luta pela vida, segundo Darwin, aplicada ao campo sociológico pela teoria da seleção natural, de Spencer, ambas aproveitadas pela filosofia marxista-leninista e feitas balinhas de doce na literatura infantil de Monteiro Lobato”.

Aos olhos de hoje, a obra do padre Sales Brasil pode parecer um brandir de armas desnecessário, exagerado, até mesmo risível para muitos. Entretanto, a fórmula do “cancelamento” dos anos 1950 mostra-se ainda presente nas primeiras décadas do século 21, agora reportando-se à questão do racismo, que é pauta fundamental e premente, mas que tem sido associada a Lobato, na maioria das vezes, de forma ligeira, rasa, equivocada.

No centro dos debates, tivemos o conto “Negrinha” e a obra Caçadas de Pedrinho, a partir de 2010, como objeto de representação junto ao Conselho Nacional de Educação (CNE) e, também, à Controladoria Geral da União (CGU). O questionamento se debruçava sobre expressões que atentariam contra um item do edital do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), qual seja, a presença de estereótipos ou discriminação nas obras adquiridas pelo programa.

Entre propostas de inserção de notas de rodapé ou mesmo refacção das narrativas, a intensidade dos debates atestou a complexidade do tema, convidando aqueles dedicados aos estudos sobre a obra lobatiana a se manifestarem. Como comentou Marisa Lajolo – em manifestação pública por meio de um artigo intitulado “Quem paga a música escolhe a dança?”, de 2010 – vivenciar debates sobre a literatura e a formação dos leitores na escola equivalia a um reconhecimento público sobre o assunto, bem como da própria obra: “Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, está em pauta e é bom que esteja, pois é um livro maravilhoso”.

Acusações de racismo e debate

O debate, porém, nem sempre tem se dado em campos mais profícuos de ideias, conceitos e ideologias. Ao avocar os escritos lobatianos em artigo publicado na Folha de S. Paulo, em janeiro de 2021, Marcelo Coelho defendeu que “Pode ser chato saber disso, mas Monteiro Lobato era de um racismo delirante”, reeditando aspectos que há muito deveriam ter sido superados frente à qualidade dos debates em torno da obra lobatiana em curso já há mais de uma década, como a busca de “provas” descontextualizadas do pressuposto racismo de Lobato, não apenas em sua obra mas no interior de sua correspondência pessoal.

 Felizmente, a réplica não tardou, pois outra pesquisadora de Lobato, Ana Lúcia Brandão, veio a público em defesa do escritor, no mesmo jornal e em data muito próxima, com o artigo “ ‘Racismo delirante’ é tratamento grotesco, Monteiro Lobato merece respeito”. Entre muitos apontamentos, lembra seus leitores de que “Levar ao pé da letra palavras ou frases de uma mensagem pessoal entre amigos, para classificar um deles como “racista” revela uma enorme incompreensão do que significa a crítica literária”.

De alma lavada, o leitor lobatiano pode seguir de braços dados com Lobato. Entretanto, não se trata de vencer uma discussão ou ganhar o pódio da verdade. Como obra literária, os escritos de Lobato comportam questionamentos, dúvidas, discordâncias. Em evento acadêmico recente, em que discutíamos a obra do escritor, chamou nossa atenção uma fala de um aluno de graduação, cujo apontamento sustentava-se por meio da ideia de que Monteiro Lobato não o representava como cidadão, sujeito, pessoa imbuída e reconhecida como portadora de direitos fundamentais.

 

Caçadas de Pedrinho, de 1939, uma das obras no centro do debate sobre racismo

É importante esclarecer que nenhuma das ponderações desse estudante pode ser considerada irrelevante para a discussão, assim como é possível compreender o tom de agressividade de suas primeiras manifestações, face ao momento em que se dá o eternamente adiado debate sobre o racismo no Brasil. Nem ainda poderíamos discordar de que não só de Lobato se formam leitores!

O que parece um “problema” ou algo a se lamentar, porém, é o fechamento do interlocutor a textos cujas ideias continuam a contribuir para a formação inequívoca de leitores críticos mais autônomos e audaciosos em suas incursões pelo mundo da literatura. A conversa que travamos com aquele aluno, portanto, não mirava uma desqualificação de seu discurso ou certo menosprezo da intelectualidade por um suposto modismo ideológico. Ao contrário do que se poderia supor, as questões às quais nosso interlocutor se apegava com pertinência e propriedade, são essas mesmas questões que convidam à leitura da obra lobatiana, reitere-se.

É neste ponto que encerramos nosso convite irrestrito à leitura da obra infantil de Lobato. As polêmicas atestam, tanto pelo conjunto de argumentos e exposições, quanto pela presença de seus livros nas mãos de crianças do século 21, a vitalidade de suas narrativas. Presença que deve ser lembrada, sobretudo, agora que a obra do autor se encontra em domínio público e surgem inúmeras edições em papel e digitais de seus textos. O reconhecimento da amplitude e da intensidade de muitos temas, assuntos ou fatos presentes em suas histórias permite a discussão também ampla, aberta e, por que não, profunda desses temas, dos mais aos menos polêmicos. Se há, portanto, uma posição a assumir, ela se configura na busca por preservar a leitura de obras marcadas pela criatividade, inventividade e criticidade.

Cancelar Lobato, portanto, é queimar um ramo literário em que aquela tríade – criatividade, inventividade e criticidade – constitui grande probabilidade de servir a consciências imbuídas de utopias ainda tão caras à sociedade de nosso tempo.

Imagens acima: reprodução.

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Créditos: https://jornal.unesp.br/2022/02/25/monteiro-lobato-rasgado-queimado-cancelado-e-imprescindivel/

Em defesa do Brasil, Lobato é preso por criticar Getúlio Vargas e o Estado Novo

Além de brilhante escritor, Monteiro Lobato foi um nacionalista convicto que ao longo de sua vida defendeu a importância do Brasil se estruturar para explorar o petróleo disponível em terras nacionais, evitando que empresas estrangeiras usufruíssem do bem que é nosso.

O fato de defender livremente suas ideias, acabou levando Lobato à prisão no começo da década de 1940.

Insatisfeito com as políticas públicas direcionadas ao setor petrolífero, no dia 24 de maio de 1940, em plena Ditadura do Estado Novo, o escritor enviou cartas ao então presidente Getúlio Vargas e ao general Góes Monteiro, chefe do Estado-Maior do Exército.

Nessas cartas, Lobato criticava os rumos que a política do governo havia adotado em relação a exploração do petróleo nacional, acusando o Conselho Nacional de Petróleo de retardar deliberadamente a criação da indústria petrolífera nacional além de perseguir as indústrias nacionais já instaladas no Brasil.

Getúlio tomou as palavras de Lobato como injuriosas e assim um processo contra o escritor foi instalado.

Era madrugada do dia 27 de janeiro de 1941, quando Monteiro Lobato foi arrancado de sua casa por agentes policiais e levado para a sede do DEOPS em São Paulo. Após ser qualificado, o escritor foi transferido para a Casa de Detenção.

Mais tarde, naquele mesmo dia 27, a Superintendência de Segurança Política e Social de São Paulo realizou uma busca e apreensão de documentos no prédio da Rua Felipe de Oliveira, 21, 9º andar, sala 4, onde ficava o escritório de Monteiro Lobato.

Entre os documentos encontrados estava a cópia da carta que o escritor havia remetido ao Presidente da República e ao general Góes Monteiro, que para o delegado Rui Tavares Monteiro, da Superintendência de Segurança Política e Social de São Paulo, já eram subsídio suficientes para concluir o inquérito policial declarar Lobato, culpado do crime de injúria contra o então Presidente da República, em 1º de fevereiro de 1941.

Monteiro Lobato permaneceu preso na Casa de Detenção de São Paulo por quatro dias. Incomunicável, sem o direito de receber visitas, de conversar com outros detentos e de tomar banho se sol. No dia 28, Lobato recebe um pacote enviado por sua esposa, Purezinha, com roupas de baixo, aspirinas e produtos para sua higiene pessoal. Ele põe tudo de lado, desamassa o papel do embrulho e escreve ali uma carta a sua esposa.

“Purezinha, só contarei o que é a vida em prisão. É a gente sozinho com os pensamentos, nunca o pensamento trabalha tanto. Mas de tanto trabalhar acaba girando num círculo. Meu dever era só cuidar de tua felicidade, Purezinha, e no entanto passei a vida a te contrariar e a fazer asneiras que tanto nos estragaram a vida.”[…..] Estou preso há quase 3 dias e já me parecem 3 séculos. As horas tem 60.000 minutos. As noites não tem fim. Sou obrigado a não fazer nada. Não há o que ler – nem jornais. E a incomunicabilidade em que estou agrava tudo, porque me isola completamente do mundo exterior. Não posso falar com ninguém nem comunicar-me com ninguém.”*

Purezinha e Ruth, filha mais nova de Lobato, conseguiram visitar o escritor apenas no dia 30, num encontro que foi monitorado pelo chefe dos investigadores, Heráclito Arantes Correa, que registrou toda a conversa por escrito.

No meio da tarde, neste mesmo dia, Lobato foi conduzido novamente a sede do DEOPS onde foi interrogado e confirmou tudo que havia escrito ao Presidente da República, e ao General Goes Monteiro na qual, entre outras coisas, acusava o Conselho Nacional de Petróleo de retardar a criação da grande estrutura petrolífera nacional e de perseguir sistematicamente as empresas nacionais. O escritor reiterou ainda, a acusação de que o Conselho Nacional de Petróleo agia única e exclusivamente no interesse do truste Standard Royal Dutch, confirmando todo o teor da carta em questão, esclarecendo que suas afirmações ali se encontravam plenamente justificadas pelos fatos apresentados. Lobato também explicou que escreveu ao General Góes Monteiro uma outra carta onde tachava o Presidente da República de displicente, porque o mesmo não tomava, em relação ao petróleo, as medidas reclamadas por ele, em defesa dos interesses nacionais.

Perguntado se estava convencido “de que o Conselho não passava dum ingênuo instrumento do imperialismo da Standard”, Lobato respondeu que sim, esta era a sua convicção.

O inquérito contra Lobato foi concluído no dia seguinte, dia 1º de fevereiro de 1941 e remetido ao Procurador Gilberto Goulart de Andrade, do Tribunal de Segurança Nacional, no Rio de Janeiro, onde tramitou até o dia 18 de março daquele ano, quando o procurador do caso pediu a prisão preventiva de Monteiro Lobato, por entender que o pedido de passaporte para a Argentina feito pelo escritor, deixava clara a possibilidade de fuga do mesmo.

Uma nova prisão, dessa vez sob a alegação preventiva, aconteceu no dia 20 de março, quando Lobato foi recolhido à Casa de Detenção de São Paulo, mas antes teve o direito de fazer um telefonema à sua esposa. Desta vez Lobato está preparado e encara o período com serenidade. Mantém um diário onde relata as visitas recebidas. Logo nos primeiros dias, Purezinha, com a filha Ruth e a neta Joyce vão visita-lo e levam sua máquina de escrever portátil e papel.

Lobato trabalhou furiosamente, transformando o cárcere em escritório. Recebe visitas, escreve dezenas de cartas, denuncia as condições carcerárias do presídio e as torturas ali praticadas contra os presos políticos. De acordo com sua neta Joyce, o escritor ensina os presos a ler, além de dar aulas diárias de historia e de “conhecimento gerais” durante a sua permanência na prisão.

Os advogados de Monteiro Lobato, Hilário Freire e Waldemar Medrado Dias, para sua defesa apresentaram vários argumentos jurídicos em favor de sua absolvição, além de demonstrarem as enormes contribuições do escritor ao País, defendendo que não houve crime de injúria, visto que o teor das cartas não havia sido divulgado. A principal estratégia da defesa foi traçar um paralelo do grande escritor com as maiores personalidades literárias mundiais, culminando por considerá-lo como homem público, de letras e um patriota, que inclusive havia feito uma expressiva dedicatória em seu livro ‘O Escândalo do Petróleo’, com quatro edições esgotadas à época, às Forças Armadas brasileiras.

O julgamento do escritor aconteceu no dia 8 de abril de 1941, no Tribunal de Segurança Nacional, onde Lobato foi inocentado, tendo reconhecido o livre exercício do direito de crítica, dadas as relações de amizade entre o autor e o destinatário, o caráter sigiloso da carta e a ausência dos elementos materiais e morais do crime de injúria. Mas o veredito é apelado imediatamente e Lobato volta a prisão, e o Tribunal Pleno, reforma a sentença absolutória por unanimidade de votos,  e condena José Bento Monteiro Lobato à pena de seis meses de prisão.

Monteiro Lobato não se abateu, continuou a escrever cartas e a denunciar as péssimas condições da prisão.  Distribuía tudo o que lhe era enviado entre os presos e fez inúmeras amizades. O escritor descobre que pode usar a máquina de propaganda do Estado Novo em beneficio próprio e reacende a polêmica do Petróleo. Em uma das cartas à Geraldo Serra, escreve: “A quem perguntar pela minha ilustra pessoa – diga que estou ótimo, satisfeitíssimo, na sala livre, com um belo jardim para  passear à vontade e com ótimos companheiros.”  Em outra, ele chega a afirmar: “Estou como queria, colhendo o que plantei. A causa do petróleo ganha muito mais com a minha detenção do que com o comodismo palrador aí do escritório.”

Os amigos de Lobato se organizam e crescem as manifestações de apoio após a condenação, tanto de conhecidos quanto de pessoas anônimas. De dentro da prisão Lobato se transforma em porta-voz dos outros presos e escreve constantemente aos amigos pedindo emprego para alguém que está sendo solto e revisão de processo e soltura daqueles que já haviam cumprido a pena. Lobato fez grandes amizades durante os meses que permaneceu preso e recebeu presentes, cartas e visitas dos presos durante varios anos.

Do lado de fora amigos se movimentam, redigem abaixo assinados, falam com autoridades e finalmente apelam a Getulio Vargas. Até que após três meses de prisão, Getulio concede o indulto a Lobato. Ele é solto no dia  20 de junho de 1941 mas os jornais são proibidos de noticiar o fato e Getulio impõe censura total a Lobato, impedindo-o de dar entrevistas até Marco de 1945.

Mas a perseguição não parou por aí e Monteiro Lobato, que recusou convites para participar tanto do governo como do Partido Comunista, foi alvo de outras perseguições policiais, revelando a face autoritária deste período da nossa história. Seu livro Peter Pan, para crianças, foi tido como subversivo e apreendido por incitar os infantes a “doutrinas exóticas”, “práticas deformadoras do caráter”, pois ‘predispunham as crianças a doutrinas perigosas e a práticas deformadoras do caráter’.

Mesmo após a saída de Vargas, durante o governo do general Dutra, o escritor foi alvo da repressão política, tendo outro de seus livros, o Zé Brasil, apreendido pela polícia. Sobre este fato, numa entrevista dada ao jornal Folha da Noite, em 5 de fevereiro de 1948 Monteiro Lobato disse que era a própria Constituição quem lhe garantia o direito de “escrever histórias”.

O escritor morreu 5 meses após essa entrevista, sem saber quantas vezes esses fatos ainda se repetiriam, mesmo que Constituições afirmassem o direito ao pluralismo político e a livre expressão do pensamento.

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Referências bibliográficas:

https://www.causaoperaria.org.br/artigo/ha-80-anos-monteiro-lobato-era-preso-por-criticar-o-estado-novo/

http://oextra.net/434/ha-75-anos-monteiro-lobato-era-preso-pela-ditadura-vargas

https://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/31/monteiro-lobato-prisao-cadeia-vargas/

https://www.publishnews.com.br/materias/2019/05/24/a-prisao-de-monteiro-lobato

http://www.usp.br/proin/inventario/destaques.php?idDestaque=5

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/em-1941-monteiro-lobato-foi-preso-por-criticar-o-estado-novo.phtml

https://www.oabsp.org.br/sobre-oabsp/grandes-causas/a-prisao-de-monteiro-lobato

Carta de Lobato – Furacao na Botucundia, paginas 293-310

Um elenco recheado de estrelas e de novos talentos na segunda versão do Sítio na TV Globo

 

Emília, Narizinho, Pedrinho, Dona Benta, tia Nastácia, Visconde de Sabugosa, Saci e até a assustadora Cuca. Esses e muitos outros personagens que fazem parte do imaginário infantil de gerações que se encantaram com a magia do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

 

Exatamente no dia 12 de outubro de 2001 estreava na TV Globo, a segunda versão do programa infantil, baseado na obra de Monteiro Lobato, produzido pela emissora.

 

Grandes nomes tiveram a oportunidade de emprestar seus talentos para dar vida aos personagens do imaginário Lobatiano nessa segunda versão do Sítio na Globo. Novos talentos surgiram a partir do programa, bem como algumas estrelas fizeram participações especiais ao longo das sete temporadas dessa versão iniciada em 2001.

 

Confira algumas das estrelas que participaram dessa segunda versão Global e ajudaram a fazer do Sítio do Pica-Pau Amarelo, um dos programas infantis mais importantes e premiados da televisão brasileira:

 

  • Dona Benta: Nicette Bruno (2001-2004); Suely Franco (2005-2006) e Bete Mendes (2007)

  • Tia Nastácia: Dhu Moraes (2001-2006); e Rosa Marya Colin (2007)

  • Narizinho: Lara Rodrigues (2001-2003); Caroline Molinari (2004-2005); Amanda Diniz (2006); e Raquel de Queiroz (2007)

  • Pedrinho: César Cardareiro (2001-2003); João Vitor da Silva (2004-2005); Rodolfo Valente (2006); e Vitor Mayer (2007)

  • Emília: Isabelle Drummond (2001-2006); e Tatyane Goulart (2007)

  • Visconde de Sabugosa: Cândido Damm (2001-2004); Aramis Trindade (2005-2006) e Kiko Mascarenhas (2007)

  • Saci Pererê: Izak Dahora (2001-2006); e Fabrício Boliveira (2007)

  • Cuca: Jacira Santos (2001 a 2006); e Solange Couto (2007)

 

O elenco inicial da nova versão era formado por Nicette Bruno (Dona Benta), Dhu Moraes (Tia Nastácia), João Acaiabe (Tio Barnabé), César Cardadeiro (Pedrinho), Lara Rodrigues (Narizinho), Isabelle Drummond (Emília), Cândido Damm (Visconde de Sabugosa), Izak Dahora (Saci), Jacira Santos (Cuca), Aline Mendonça (Marquês de Rabicó), Zé Clayton (Burro Falante) e Sidnei Beckencamp (Quindim). O programa contava com ainda com a participação especial de Ary Fontoura (Coronel Teodorico).

 

Em setembro de 2002, novos atores integraram o elenco das novas aventuras da turma do Sítio do Picapau Amarelo, como Antonio Calloni, Elizabeth Savala, Henrique Ramiro e Zezé Polessa. Além disso, o programa recebia convidados, entre eles os atores Ney Latorraca, Fernanda Rodrigues, Leonardo Brício, Lilia Cabral, Maria Luisa Mendonça, Rodrigo Faro, Samara Felippo, Susana Werner, Márcio Kieling e Bussunda, que interpretou na trama o gênio da lâmpada de Aladin.

 

Chico Anysio, Ary Fontoura, Humberto Carrão, Eri Johnson, Nelson Xavier e Agildo Ribeiro também participaram da segunda versão do ‘Sítio do Picapau Amarelo’ na TV Globo.

 

Um dos nomes que estreou na segunda versão do “Sítio” foi o do ator Paulo Gustavo, que em 2007 interpretou Lupicíneo, um delegado que vivia atrás de um lobisomem, sem saber que ele próprio era o monstro.

AS MULHERES DA VIDA DE LOBATO

Por Cleo Monteiro Lobato

“A mulher não é inferior nem superior ao homem. É diferente. No dia em que compreendemos isso a fundo, muitos mal-entendidos desaparecerão da face da Terra.”

Esse pensamento reforça a tese de que o escritor Monteiro Lobato era de fato um homem muito à frente do seu tempo. Nascido em 1882, na cidade de Taubaté, no interior de São Paulo, José Bento ou simplesmente ‘Monteiro Lobato’, era um visionário que valorizava a observação cuidadosa do ambiente que o rodeava, fruto da influência das teorias cientificistas do início do século XX e que tinha plena consciência do seu papel social. Em comemoração ao dia internacional da mulher, vamos conhecer um pouco das mulheres que fizeram parte da vida de Lobato, que conviveram com o escritor: Anacleta do Amor Divino, avó materna; Olympia Augusta Monteiro, mãe de Lobato; Purezinha Monteiro Lobato, sua esposa; Martha Lobato Campos, filha mais velha; Ruth Monteiro Lobato, filha mais nova; e Joyce Campos Kornbluh, neta do escritor. Todas conheceram e conviveram com Lobato e apesar de nascidas numa sociedade extremamente patriarcal, sempre foram muito fortes, de opiniões marcantes e principalmente extremamente apaixonadas pela vida. As memorias a seguir me foram contadas em parte pela minha mãe, Joyce nesses últimos anos que venho me esforçando para colher o máximo das memórias da minha mãe sobre Lobato a minha familia.

Anacleta do Amor Divino

Mamãe sempre me contou que a avó materna de Lobato foi uma figura importante na história do escritor.  Ela não foi casada com o avô de Lobato, José Francisco, que mais tarde se tornaria o Visconde de Tremembé e era na verdade sua amante, num romance iniciado quando ele tinha 20 anos de idade. Juntos tiveram três filhos: a mãe de Lobato e mais dois irmãos.

Apesar de não ser casado com Anacleta, o Visconde reconheceu seus três filhos, garantiu a educação de todos e os fez herdeiros, sem se importar com as o falatório alheio ou as convenções da época.
Por não ser a esposa oficial do Visconde, Anacleta não pode estar presente no nascimento do seu primeiro neto, Juca (apelido familiar de Lobato), porque o Visconde já havia se casado com Maria Belmira de França Monteiro, que se tornou a Viscondessa de Tremembé. Mesmo assim, Anacleta manteve uma relação intensa e amorosa com a filha e com seu neto, trocando cartas regularmente e o vendo sempre que possível.
Apesar de todo o preconceito sofrido, ela foi professora, dando aulas particulares de primeiras letras em sua própria casa. A relação entre Anacleta, Olympia e seu neto Juca sempre foi muito amorosa e forte até ela falecer em 1906, quando Monteiro Lobato tinha 24 anos.

Por um daqueles absurdos que marcaram a nossa história, Anacleta não pode ser enterrada no cemitério oficial de Taubaté, pelo simples fato de ser mãe solteira e as regras da igreja não o permitirem na época. 
Mamãe sempre se refere a Anacleta como a mais forte da linhagem feminina que conviveu com o escritor, pois conseguiu viver de modo independente, constituiu carreira, juntou posses, manteve relacionamento com seus filhos e netos, além de ver seus filhos legitimados e seus três netos como herdeiros do Visconde de Tremembé. Sem dúvida, uma mulher formidável para o seu tempo.

Olympia Augusto Monteiro

Filha de Anacleta com o Visconde de Tremembé, Olympia nasceu em Taubaté, em 1856 e casou-se com José Bento Marcondes Lobato. Mamãe conta que a mãe de Monteiro Lobato, era extremamente amorosa, paciente e doce. Ensinou o filho e suas duas irmãs a ler cedo e manteve longa correspondência com seu filho, pois Olympia logo ficou doente de tuberculose e passou longos períodos convalescendo.  Olympia tocava piano e também tinha propriedades próprias.

Em cartas amorosas escritas à sua mãe, Lobato relata o período em que foi morar e estudar na capital paulista, com apenas 14 anos de idade, correspondência esta que mantiveram assiduamente até ela falecer ainda jovem, aos 40 anos, vítima de tuberculose em 22 de junho de 1899.

Menos independente, mais adequada às normas sociais da sua época, de saude frágil, Olympia cumpriu o propósito de produzir e criar um herdeiro para seu pai, o Visconde de acordo com a visão de minha mãe, Joyce.

Judith Monteiro Lobato

Mamãe sempre se refere a Judith, a irmã mais nova de Lobato, nascida em 1884, com admiração.  Ela era aventureira, apaixonada, sonhadora, romântica e muito bonita. Tanto Judith quanto Esther estudaram num colégio interno de freiras em Taubaté onde aprontavam terrivelmente e só não foram expulsas por que o Visconde pagava extra cada vez que as irmãs aprontavam.

Mamãe conta que Judith era muito namoradeira e sempre ficava na janela flertando. Certa vez se apaixonou por um estudante (ou seminarista, mamãe não tem certeza) que passava duas vezes por dia debaixo de sua janela. Importante frisar que namoro naquela época, era sempre da janela com olhares e bilhetinhos. Foi uma paixão intensa e proibida e logo o rapaz a convidou para fugirem juntos para bem longe de Taubaté a fim de viverem plenamente o amor. Mas os apaixonados decidiram fazer um pacto e morrer juntos para desfrutar daquele amor impossível em outro mundo, sem empecilhos. Mamãe conta que chegaram a acertar data e horário, mas no dia marcado, Judith perdeu a hora e não cumpriu com o combinado. Ela ainda foi até a casa do rapaz para tentar impedir o ato, mas não conseguiu chegar a tempo e ele de fato se matou. 

O Visconde teve de esconder Judith por um bom tempo, chegou a arranjar um casamento com um amigo seu, mais velho do que ela chamado Luis Cursino. Dessa união nasceram dois filhos que ela amava cuidar dos cachinhos e sempre os vestia como príncipes, com golinhas de renda.  Mas nem o casamento ou os filhos impediram Judith de viver uma vida cheia de ‘emoções’. Quando o marido estava na cidade e Judith na fazenda, ela conheceu um caixeiro viajante e abandonou seu esposo e seus dois filhos para fugir para a cidade de Santos. Com esse caixeiro teve mais um filho, Faustinho, que mamãe conheceu e com quem brincou.

Judith montou uma pensão em Santos e vivia de alugar quartos e fazer marmitas. Aparecia ocasionalmente. Certa vez, apareceu na casa de minha avó Martha (sua cunhada), pedindo dinheiro para pagar uma conta de luz com urgência. Martha emprestou o dinheiro e Judith saiu às pressas, voltando meia hora depois com um buquê de rosas lindo (mamãe se lembra do buquê) que deu de presente à Martha numa demonstração de gratidão pela ajuda recebida. Quanto a conta? Judith disse que não pagou e que se viraria depois.

Assim era Judith, mulher romântica e sonhadora, de acordo com as memórias de minha mãe. Apesar do caso do pacto de suicídio não ser confirmado, o restante desta narrativa é verídico, inclusive o fato de seu primeiro marido Luís Cursino ter ficado com toda a herança que o Visconde havia deixado para ela. Judith morreu muito pobre em Santos e ninguém da familia sabe onde fo enterrada.

Esther Monteiro Lobato de Moraes

Nascida em 1886, na cidade de Taubaté, Esther, ou Teca como todos a conheciam, era a irmã do meio de Monteiro Lobato. Mamãe a descreve como uma mulher durona, de raros sorrisos, que viveu de modo independente, costurando e cozinhando para fora, quitutes e doces que fizeram a sua fama de cozinheira de mão cheia. Era auto suficiente e feminista já naqueles tempos. A matriarca do seu ramo da familia.

Teca se recusou a casar com todos os pretendentes escolhidos pelo Visconde e só se casou com um amigo de Lobato chamado Heitor de Moraes, que era poeta e jornalista em Santos. Entretanto, logo as diferenças entre os dois afloraram. Esther era uma mulher prática, enquanto Heitor era um sonhador que adorava frequentar os saraus literários da época, mas que sofria de depressão. Apesar disso, dessa união nasceu, em 1912, Gulnara de Moraes única filha do casal.

De acordo com mamãe o casal vivia muito acima de suas posses e gastaram toda a herança recebida por Teca, do Visconde. Sem recursos, ela recorreu a Lobato em busca de um emprego para o marido que começou a trabalhar como diretor de em cartório em São Paulo. A família se mudou para a capital paulista, mas Heitor não se adaptou com a nova vida longe dos amigos, das noitadas e sem tempo para escrever seus poemas. O relacionamento do casal piorou e a depressão de Heitor se agravou, até que em 1936 depois de uma briga terrível ele se suicidou com um tiro no peito.

Teca jamais se casou novamente. Passou a viver para sua filha Gulnara (que tambem ficara viuva de Edgard muito cedo) e seu neto Rodrigo. As duas se mudaram para Tremembé e Teca passou a sustentar a todos costurando fantasias de carnaval incríveis para uma clientela da alta sociedade e essas criações extraordinárias de vestidos diferentes e criativos lhe garantiam uma boa renda.
De acordo com mamãe, Teca foi responsável pelo namoro e casamento de sua filha Gulnara com Edgar, seu sobrinho, filho de Lobato. Tudo aconteceu porque logo depois de combater na Revolução de ’30 ou ’32, Edgard contraiu tuberculose e como a família inteira estava nos EUA por conta do trabalhou de Monteiro Lobato como adido comercial, Teca o acolheu e colocou sua filha Gulnara para tratar dele. Daí nasceu o namoro que logo virou casamento, mesmo a contragosto de Purezinha, mãe de Edgard.

Teca foi responsável por uma das melhores memórias de infância da minha mãe. Naquele tempo não era costume dar presente de aniversario, mas mamãe se lembra do melhor presente que ela ganhou na vida. Foi um cachorro deitado, feito inteiramente de fios de ovos por Tia Teca. 

Maria da Pureza Gouveia Natividade

Purezinha (nome que assinava em sua correspondência), esposa de Lobato, foi uma das mulheres mais fortes e marcantes da família com enorme influência sobre seu marido.
Nascida em 1885, de uma família tradicional de educadores homens, a professora Maria da Pureza de Gouvêa Natividade, era filha de Francisco Marcondes Gouvêa Natividade, professor em um curso Anexo à Faculdade de Direito em São Paulo e neta do famoso Dr. Antonio Quirino Souza, professor em Taubaté, que inclusive foi mestre de Monteiro Lobato.
Purezinha viveu cercada de professores, escritores, abolicionistas e intelectuais.

O magistério era considerado na época, uma profissão de vanguarda para as mulheres e a escolha pode ter sido resultado da influência do pai e do avô. Mas, talvez também se inclua, entre os fatores que levaram Purezinha a se tornar professora, um certo veio politicamente engajado de seu tio (irmão de seu avô Dr. Quirino), o abolicionista Antonio Bento (1843-1898), famoso pela luta contra a escravidão e a interceptação de escravos. 

Purezinha e Lobato se casaram em 1908 enquanto ele era promotor em Areias. Tiveram 4 filhos: Martha, Edgar, Guilherme e Ruth.
Purezinha deixou de lecionar para se dedicar aos cuidados da casa e à educação dos filhos, pois Lobato era incansável sempre com novos planos e mudanças.  De Areias se mudaram para a Fazenda do Buquira, herdada após a morte do Visconde e depois de vender a fazenda se mudaram para São Paulo, onde Lobato abriu a Companhia Editora Nacional e depois para o Rio de Janeiro. Ela tinha por hábito ler histórias para seus filhos e foi justamente observando essas experiências de leitura, que Monteiro Lobato se motivou para escrever um mundo de livros para meninos e meninas.

Muitos não sabem, mas Purezinha foi muito importante para a carreira do marido escritor. De forma imperceptível, ao longo dos anos, ela esteve presente na obra de Lobato. Lia seus textos, sugeria alterações e os corrigia com a crítica aguçada de uma professora. Ele escreve que a opinião de Purezinha era a única na qual confiava. Durante sua vida foi companheira integral de Lobato e mamãe conta o quanto ela “sofria” com a energia constante dele. Nos jantares que davam para conseguir investidores para sua companhia de petróleo, Lobato não se sentava, mas costumava andar em volta da mesa falando e gesticulando com seu garfo e de vez em quando pegando um pedaço de comida do prato de Purezinha. Esse é só um detalhe engraçado que demonstra a energia constante de Lobato. Porém o esforço de te cuidado de dois filhos que faleceram de tuberculose e ainda acompanhar a genialidade de Lobato em suas empreitadas, envelheceu minha bisavó muito cedo.

Durante sua vida colecionou e organizou todas as matérias de jornais que saiam sobre Lobato e depois de sua morte, doou seus famosos álbuns de recortes de jornais, além das roupas, chapéu, costela, mesa e outros pertences para a Biblioteca Monteiro Lobato. Alem disso após a morte do meu bisavô, passou a lutar junto com os amigos de e sua filha mais nova, Ruth,  para conseguir que a Semana Monteiro Lobato se tornasse realidade. 
Ela faleceu aos 73 anos, de câncer no cérebro no dia 27 de abril de 1959 e foi enterrada ao lado do marido no Cemitério da Consolação em São Paulo, tendo conseguido ver o legado do escritor consolidado na Semana Monteiro Lobato em 1955.

Martha Lobato Campos

A filha mais velha de Lobato, nasceu em 1909 e foi a única dos filhos que descobriu um jeito de sobreviver à exaustiva genialidade e à loucura produtiva de seu pai.
Martha construiu um mundo paralelo de romance, namoricos e fofocas, onde viveu por toda a vida, sem jamais se preocupar com dinheiro ou com questões tidas como ‘mais importantes’. Minha avó Martha não completou o ensino secundário pois na época a família se mudou para Nova York e ela jamais aprendeu inglês.

Se casou escondida de sua mãe Purezinha, aos 17 anos, com Jurandir Ubirajara Campos, logo após se conhecerem em Nova Iorque, onde Lobato foi ser adido comercial e menos de um ano depois deu a luz a mamãe, Joyce Campos. Sempre fez questão de deixar claro que não tinha jeito para a maternidade e continuou levando a vida como se não tivesse uma filha, cabendo ao meu avô, Jurandir e a Purezinha, assumir o papel materno.
Teve uma relação muito complicada com minha mãe que teve que conviver com essa rejeição. Martha adorava fazer palavras cruzadas em italiano e em português e até escreveu um livro de palavras cruzadas que foi editado pela Companhia Editora Nacional. Vivia na rua, adorava fumar, jogar cartas (pôquer, canastra, tranca, buraco, paciência, crapô, qualquer coisa com baralho) e conversar longas horas ao telefone para saber das notícias. Gostava de reunir seus amigos e parentes em casa para o almoço de domingo e rodadas de pôquer. Quando pergunto a mamãe sobre suas memórias de minha avó, mamãe costuma dizer que vovó só fazia palavras cruzadas, ou então se lembra de sua mãe vestindo e fazendo maquiagem para sair para ir passear.

Das mulheres da família que conheceram Lobato, eu tenho a impressão que minha avó Martha foi certamente a menos ambiciosa e a mais alienada de todas. Jamais trabalhou, sempre viveu de direitos autorais. O casamento ainda jovem, foi o modo que encontrou para resolver o seu problema de independência e assim viver no seu mundo paralelo até falecer em casa em 1995, aos 86 anos de idade.

Gulnara Monteiro Lobato de Morais Pereira

Sobrinha de Monteiro Lobato, filha de sua irmã, Esther (Teca) e do poeta Heitor de Morais, nasceu em 1912. Era três anos mais velha que sua prima irmã Martha, com quem cresceu, eram muito amigas, pularam juntas muitos carnavais.

Em 1934, Gulnara se casou com o irmão de Martha, filho de Lobato, chamado Edgard e quatro anos depois nascia Rodrigo Monteiro Lobato, fruto dessa união. Edgard faleceu muito cedo, vítima de tuberculose, no ano de 1943, quando Gulnara tinha apenas 31 anos e seu filho Rodrigo apenas 6.

Foi um período difícil para todos e Esther, com a sua força, sustentou a família, costurando e cozinhando para fora.

Logo após a morte de Edgard a família de Lobato passou por um período voltado ao espiritismo, onde todos se reuniam na chácara de Tremembé para fazer sessões espíritas na tentativa de se comunicarem com Edgar e Guilherme (também falecido). Nessas sessões era Lobato quem fazia as atas.

Cerca de três anos após ter ficado viúva, Gulnara se casou com o escritor Antonio Olavo Pereira com quem teve outro filho, Tolavito (Antonio Olavo Pereira Jr) e conviveu por quarenta anos, morando no bairro da Aclimação, em Sao Paulo pertinho de nós.

Gulnara dominava o idioma inglês e ajudava Lobato nas traduções e revisões de textos junto com Ruth, continuando a trabalhar como tradutora após a morte do escritor.
Em 1982 ela escreveu uma biografia de Monteiro Lobato chamada ‘O Menino Juca’, que foi publicada com belíssimas ilustrações de Rui de Oliveira.
Faleceu em São Paulo, no dia 27 de agosto de 1986.

Ruth Monteiro Lobato

A filha mais nova de Lobato e Purezinha, nasceu em 1916 em meio a Primeira Guerra Mundial.
Dos filhos do casal, mamãe conta que Ruth foi a que herdou a inteligência, o dinamismo a curiosidade e a energia de seu pai. Foi a primeira mulher da família a aprender a dirigir, teve diversos carros, usava calça comprida, fumava muito, e absolutamente não gostava de crianças. Mamãe adorava Ruth e a seguia por toda parte, quase a enlouquecendo, afinal era 14 anos mais velha que ela.

Mamãe conta que Ruth teve muitos namorados, mas sempre inventava uma razão para não se casar. Dizia que queria morar em casas separadas após o casamento ou que só poderia casar depois que a mãe morresse.
Ruth morou com os pais a vida toda e após a morte de Lobato, quando tinha 32 anos de idade, continuou a morar com sua mãe, Purezinha, passando a ajuda-la a tomar conta dos direitos autorais de Lobato. Os móveis do Visconde que haviam acompanhado Lobato desde que herdara a fazenda passaram para o apartamento de Ruth.

Com o falecimento da mãe, em 1959, Ruth continuou a morar sozinha na Rua das Palmeiras, tendo apenas a companhia de sua gata e se manteve como responsável pelos direitos autorais de Lobato, enquanto Martha, sua irmã mais velha, fazia a parte pública de aparecer nas celebrações e homenagens ao escritor.

Na opinião de minha avó, Ruth tinha “doenças de homem” porque trabalhava demais e estava sempre estressada. De qualquer maneira ela teve um infarto aos 52 anos de idade, e depois um derrame aos 54 (do qual ela não se recuperou). Deprimida, se suicidou com apenas 56 anos, em 1972, com um revólver que havia pedido para um primo comprar.
Ao longo da vida, Ruth talvez não tenha encontrado espaço para viver a sua sexualidade, extrapolar a sua inteligência, nem a sua independência e autorrealização.

Joyce Campo Kornbluh

Joyce, minha mãe foi quem substituiu minha bisavó Purezinha como o esteio emocional da família. Mamãe virou a matriarca do meu ramo familiar, a pessoa que todos procuram para resolver problemas e especialmente conselhos depois que Ruth se matou.
Nascida em 1930, a única neta de Lobato (filha de Martha), teve que conviver com a rejeição da mãe.
Muito independente desde criança, sendo a líder da turma da rua, batendo nos meninos, para não apanhar em casa do pai, Joyce foi uma criança super levada, daquelas que subiam em árvores, caíam, se machucavam, mas não reclamavam. Certa vez, foi desafiada por sua melhor amiga para juntas colocarem a mão dentro da jaula de um urso no zoológico da Aclimação. O animal acabou mordendo a mão e quase decepando o dedo da amiga, que foi salvo graças a um anel. Fugiu de casa diversas vezes, apanhou muito, mas teve um convívio intenso com Monteiro Lobato, dormindo junto na mesma cama que ele e Purezinha quando era criança e ouvindo suas histórias.
Além de Lobato foi a primeira da família a fazer faculdade sendo uma das cinco mulheres de sua turma a se formar em Arquitetura no Mackenzie, onde conheceu meu pai Jerzy Kornbluh, judeu polonês não religioso, refugiado de guerra, que tinha chegado ao Brasil aos 11 anos de idade em 1941, escapando, com sua mãe, pai e irmã do Holocausto na Polônia. Se casou com ele aos 28 anos de idade.

Numa família onde todos eram católicos e Lobato não tinha batizado os filhos, casar com um judeu foi um ato de extrema rebeldia, reforçando a independência e a criação lobatiana que Joyce recebera.
Fato é que o casamento trouxe transformações negativas na vida da neta de Lobato. Da menina das histórias de aventuras, viagens e independência, surgiu uma mulher que sofria constantemente com enxaqueca, dor nas costas e depressão. Assumiu a função de mulher de um executivo, resumida a cozinhar, apoiar o marido e fazer tudo para ele progredir na carreira. Mesmo após meu pai se aposentar e passar a ser o representante da família para assuntos de Monteiro Lobato minha mãe não conseguiu se liberar. Somente após a morte do meu pai em 2015 foi que minha mãe passou a me contar sua verdadeira história, seus medos e frustrações. 

Mamãe foi sempre uma mulher à frente do seu tempo, que recebeu uma educação simultaneamente liberal e não convencional por parte de Lobato e de seu pai Jurandyr, mas ao mesmo tempo totalmente conservadora por parte de sua mãe, Martha.

Essa dicotomia interior talvez tenha dificultado muito a vida dela, que sempre se descreveu e se mostrou forte para os outros mas não conseguiu transcender o conservadorismo de sua época, suas contradições internas, nem as expectativas de ser neta de Monteiro Lobato. 

Sem conseguir encontrar sua voz ou sua independência financeira, optou por tentar se encaixar nos padrões de esposa e mãe dedicada, arcando assim com as consequências de um papel que talvez não devesse ser o seu.
Hoje, aos 92 anos, a neta de Lobato vive em Americana, no interior de São Paulo com sua cachorrinha Petit e está orgulhosa do trabalho que eu venho realizando.

Essas são as mulheres que conheceram e que tiveram a experiência única e indescritível de conviver não apenas com o pai da literatura infantil brasileira, mas sobretudo com o homem, o ser humano Monteiro Lobato.
Mulheres que como ele, estavam a frente de seu tempo, pelo modo como viveram suas vidas enfrentando e quebrando tabus, derrubando preconceitos e provocando reflexões sobre temas que poderiam passar despercebidos à época, mas que hoje se mostram atuais e são incansavelmente debatidos.

As mulheres que fizeram parte da vida de Lobato, lidaram com os traumas e as expectativas de serem relacionadas com uma das grandes personalidades do nosso país, além das mudanças sociais que ocorreram durante o século XX.

Todas sofreram, conviveram com seus traumas, algumas conseguiram transcender as limitações do contexto temporal, outras não. Mas sem dúvida todas elas foram corajosas, liberais e simultaneamente, extremamente conservadoras, cheias de contradições e medos.

A primeira vista pode parecer que as mulheres da vida de Lobato viveram em função dele ou à sua sombra. Mas a verdade é que cada uma delas, ao seu tempo, escreveu ao seu modo a sua própria história, com doses enlouquecedoras do DNA lobatiano, e sobretudo com a essência única e desafiadora de ser mulher em um mundo que ainda hoje insiste em seu machismo descabido.

Parabéns a todas as mulheres que ainda ousam sonhar além!

O padrão Global na produção da segunda versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo em 2001

Como na primeira versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo produzida pela Globo, a maior parte das gravações eram feitas num sítio localizado na Ilha de Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro. Já as cenas internas eram gravadas nos estúdios da Renato Aragão Produções, em Vargem Grande, também na zona oeste da cidade.

Em 2003, as gravações das cenas externas deixaram de ser realizadas na Ilha de Guaratiba e passaram a ser rodadas em Jacarepaguá, num sítio em Camorim, próximo à Central Globo de Produção, o Projac. A proximidade facilitou o deslocamento da equipe de produção e com a novidade, a casa principal do sítio de Dona Benta foi reformada e ganhou ares de uma fazenda.

Em 2004, foi construída dentro do Projac uma cidade cenográfica com quatro mil metros quadrados, especialmente para as gravações do programa. O espaço incluía a fictícia Arraial dos Tucanos, com um lago repleto de marrecos, uma igreja, o celeiro, a chácara, o estábulo e seus jardins. Na cozinha de Tia Nastácia não faltavam doces em compotas, panelas de bronze nas prateleiras, coador de café de pano, fogão a lenha e cortininha de renda na janela. A ideia, de acordo com a cenógrafa Giana Lannes, era facilitar as gravações e reproduzir as cidades do vale do Paraiba, onde Monteiro Lobato nasceu.


FIGURINO E CARACTERIZAÇÃO

Um dos maiores desafios dessa nova temporada foi sem dúvida a caracterização da Cuca. Nos anos anteriores, a personagem usava uma fantasia de jacaré, mas em 2007, o seu visual foi elaborado por meio de maquiagem e figurino, numa tentativa de afastar a personagem de uma atmosfera de teatro infantil, e a deixando mais próxima da estética televisiva.

A Cuca continuou com a característica textura de jacaré, mas ganhou ares de bruxa. Os dentes e as unhas de crocodilo usadas pela personagem foram feitos sob medida para a atriz Solange Couto pela equipe de efeitos especiais, formada por Ricardo Menezes, Glauco César e Cláudio Sampaio.

Outros personagens que também receberam uma atenção especial em relação a modernização de suas caracterizações, foram o Marquês de Rabicó e o Visconde de Sabugosa. Rabicó ganhou nariz e orelhas de látex, especialmente feitas para o ator Ricardo Tostes.

Já a caracterização do Visconde de Sabugosa passou por algumas experimentações antes de se chegar ao resultado final. A princípio, foi produzida uma máscara de mousse de látex que, que embora tenha agradado à direção, era muito incômoda para o ator. Finalmente, a equipe decidiu usar no ator uma peruca vermelha, e fazer a maquiagem usando air brush, que projetava o desenho dos milhos no rosto, sem a necessidade de uma prótese.

Emília foi outra que também teve o visual modernizado: no lugar das cores vermelho e amarelo, diferentes tons de rosa passaram a predominar no vestido da boneca. Sua maquiagem ganhou um tom de bege para fugir da impressão de porcelana, e os cílios foram alongados, dando um ar mais angelical à personagem. Além disso, o seu cabelo, que antes era de pano, agora era feito de lã.

CENOGRAFIA E ARTE
Para criar os novos cenários do Sítio – a chácara de Dona Benta, o Arraial dos Tucanos, a Pensão Cervantes, a venda do Seu Elias, o laboratório do Visconde, a gruta da Cuca e a gruta da Iara -, as equipes buscaram referências nos textos de Monteiro Lobato, que costumava fazer descrições detalhadas dos cenários onde a ação se desenvolvia.

De acordo com o cenógrafo Raul Travassos, a primeira versão do infantil exibida em 1977, também serviu de inspiração para a equipe e o trabalho desenvolvido foi uma homenagem ao cenógrafo e figurinista Arlindo Rodrigues, responsável pela criação dos cenários da primeira versão Global.

Durante os dois primeiros anos dessa segunda versão do programa, foram usados efeitos especiais para que o Visconde de Sabugosa parecesse ter o tamanho de um sabugo de milho. Em 2003, Visconde come uma pitada de fermento e fica do tamanho de uma pessoa normal, deixando o efeito especial de lado.

Na temporada de 2007, destaque para os efeitos visuais utilizados nas sequências em que o Burro Falante conversava com os personagens do Sítio. As cenas foram gravadas com o animal em um fundo de cromaqui e em seguida, usando recursos de computação gráfica, foi inserida na imagem uma boca em 3D, que fazia os movimentos como se o burro estivesse realmente falando.

Para as cenas em que a dupla de besouros Casca e Cascudo (Páblio Sanábio) conversava com Emília, o ator também gravava num fundo de cromaqui e, com a ajuda da computação gráfica, foram inseridas as asinhas dos insetos e os efeitos de voo. Em seguida, a imagem foi reduzida às proporções dos besouros e encaixada na cena.

Outra curiosidade era a animação das ilustrações antigas nas cenas em que Dona Benta contava uma história. Os desenhos eram baseados nos traços dos livros de Monteiro Lobato. 

 

AS SETE TEMPORADAS DO SITIO

1ª E 2ª TEMPORADAS (2001 e 2002)

A primeira temporada desta nova versão Global do Sítio do Pica-Pau Amarelo, durou do final de 2001 até setembro de 2002 e seus episódios eram extraídos das histórias dos livros de Monteiro Lobato. Quando as histórias se esgotaram teve início uma outra fase do programa, com novas histórias escritas especialmente para a televisão, assim como já havia ocorrido na primeira versão do programa, exibida em 1977.

Mantendo a tradição, a produção dessa segunda versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo na TV Globo contou com uma equipe de produção de peso, com nome como Roberto Talma (2001) Márcio Trigo (2001-2002), Roberto Talma (2001-2002) , Pedro Vasconcelos (2001-2002) e
Marcelo Zambelli (2001-2002) na direção e Luciana Sandroni, Mariana Mesquita, Cláudio Lobato e Toni Brandão na redação e adaptação.

Em 2001, cada livro de Lobato era adaptada em cinco dias, as histórias eram contadas em um ritmo mais rápido, com cada livro durando apenas uma semana para ser contado. Excepcionalmente, os episódios ‘O Picapau Amarelo’; ‘Reforma da Natureza; e ‘Histórias Diversas’ levaram duas semanas para ser contados. ‘Memórias do Pica-Pau Amarelo’ durou três semanas e ‘Os Doze Trabalhos de Hércules’, quatro semanas. Já na versão de 1977, as histórias demoravam mais tempo sendo adaptadas para televisão, com alguns textos tirados dos livros e outros criados especialmente para a telinha, que duravam normalmente um mês.

Nessa nova versão do Sítio, alguns elementos dos livros de Lobato puderam ser trazidos de volta para a televisão, como o Pó de Pirlimpimpim, que na versão de 1977 tinha sido transformado em um tipo de "palavra mágica" para evitar comparações com a cocaína. Desse modo, os moradores do Sítio apenas gritavam: "Pirlim Pim Pim" para viajarem de um lugar para outro. Nos livros de Monteiro Lobato, o Pó de Pirlimpimpim era aspirado com o nariz pelos personagens; já na versão de 2001 ele passou a ser um pó jogado em cima das cabeças dos personagens, mais parecido como o "Pó Mágico" da Sininho, da história de Peter Pan. Outra coisa que havia sido censurada na versão dos anos 70, e foi trazida de volta nessa segunda versão Global, é o costume que Emília tem de inventar suas próprias palavras. A censura da década de 1970 não permitia que a Emília da TV alterasse ou falasse palavras da gramática ao seu próprio modo, como: "bissurdo", "arimética" ou "obóvio". 

A segunda temporada teve início em setembro de 2002, com direção de Cininha de Paula e Paulo Ghelli e com episódios escritos por Walcyr Carrasco, com a colaboração de Mário Teixeira e Thelma Guedes. As histórias deixaram de ser exibidas em episódios semanais de cinco capítulos e passaram a ter duração de cerca de um mês. O horário de exibição do programa também foi alterado: o infantil passou para as 10h10.
Novos atores passaram a integrar o elenco como Antonio Calloni, Elizabeth Savala, Henrique Ramiro e Zezé Polessa, entre outros. Além disso, o programa recebia convidados, entre eles os atores Ney Latorraca, Fernanda Rodrigues, Leonardo Brício, Lilia Cabral, Maria Luisa Mendonça, Rodrigo Faro, Samara Felippo, Susana Werner, Márcio Kieling e o humorista Bussunda, que interpretou na trama o gênio da lâmpada de Aladin.


3ª TEMPORADA (2003 e 2004)

Em abril de 2003, o Sítio do Picapau Amarelo estreou sua nova temporada com episódios inéditos e as novas aventuras passaram a ter somente base na obra original de Monteiro Lobato, ainda sob a direção de Cininha de Paula e Paulo Ghelli, mas com Mário Teixeira – até então colaborador de Walcyr Carrasco – na autoria do programa, com a colaboração de Duca Rachid e Alessandro Marson. Novas historias foram escritas  baseadas nos livros de sucesso do momento para os personagens do Sitio. 

Os personagens do Sítio tambem passaram por algumas mudanças no visual. Dona Benta por exemplo, envelheceu um pouco, (agora com cabelos grisalhos), assim como Tio Barnabé (que abandonou seus coletes africanos e adotou um estilo mais caipira).

Tia Nastácia, interpretada por Deu Moraes, mais magra teve de engordar um apouco e por sua vez, ficou mais rechonchuda, enquanto a malvada Cuca sofreu uma transformação radical: ganhou uma enorme cabeleira e roupas novas, além de uns quilos a mais. Após participações em episódios anteriores, os personagens Zé Carijó (Cassiano Carneiro) e Pesadelo (Leandro Léo) passaram a integrar o elenco fixo do programa, e foram também adicionados na abertura da série. 

A turma do Sítio ganhou ainda participação de outros novos personagens em 2003 por conta das novas historias A grande surpresa foi a chegada de Zumpilion (Cosme Monteiro), um animal de estimação extraterrestre.  Ele foi responsável por grandes confusões no sítio de Dona Benta, especialmente por seu apetite voraz. Moby (Raul Gazolla) e Dick (Nelson Freitas), uma dupla de piratas do espaço, comandada pelo vilão Mordoror (Norton Nascimento), entraram em cena em busca do animalzinho; e os investigadores espaciais Alista (Cristina Pereira) e Aníbal (Guilherme Karan) também embarcaram na aventura. Esses personagens integravam o elenco de O Extraterrestre, episódio com dez capítulos que abriu a série de episódios de 2003.


4ª TEMPORADA (2004 e 2005)

Em 2004, a equipe de redatores do Sítio era formada por Mário Teixeira e Duca Rachid e pelos colaboradores Alessandro Marson e Júlio Fisher. A direção continuava sob responsabilidade de Luiz Antonio Pillar, e a direção-geral era de Cininha de Paula e Paulo Ghelli. 
Tivemos grandes mudanças no elenco pois os personagens Pedrinho e Narizinho passaram a ser interpretados, respectivamente, por João Vítor Silva e Caroline Molinari, enquanto a Iara passou a ser interpretada por Lilian Cordeiro. Nessa temporada foi criado o cenário do Arraial dos Tucanos, com a Venda do Elias, a Pensão da Dona Joaninha Pão Doce, a Igreja, a Delegacia, e a casa do Coronel Teodorico passou a ser integrada no Arraial dos Tucanos.

Outra novidade da temporada foi a saída dos personagens centrais do Sítio para cenários fora do Sitio de D. Benta tanto assim que o primeiro episódio de 2004 foi "A Menina da Selva", com cenas gravadas na Amazônia.  

Em "A Dama dos Pés de Cabra", baseada no conto do autor português Alexandre Herculano, a turma embarcou para Portugal, onde gravou cenas em Lisboa e em Sintra. 

O último episódio de 2004, exibido em janeiro de 2005, foi "Dom Quixote", que ficou marcado pela saída de Cândido Damm do papel do Visconde de Sabugosa. No episódio, o Visconde (ainda interpretado por Cândido Damm) acaba esmagado pela estante de livros da biblioteca de Dona Benta, ficando tão fino quanto uma folha de papel. Assim, Tia Nastácia constrói um novo Visconde (a partir daí interpretado por Aramis Trindade). Mas Cândido Damm não saiu imediatamente do programa; ele continuou até o final do episódio, mas interpretando o personagem Dom Quixote.

5ª TEMPORADA (2005)

No dia 4 de abril de 2005, tinha início uma nova temporada do Sítio, mas agora com a mudança de dois atores do elenco principal : Nicete Bruno e Cândido Damm, que interpretavam a Dona Benta e o Visconde de Sabugosa, os dois tiveram que sair do programa e foram substituídos por Suely Franco e Aramis Trindade.

A Dona Benta, que passou a ser vivida por Suely Franco, ficou com uma personalidade mais doce, e recebeu também um novo figurino, passando a usar vestidos e aventais, típicos de uma senhora de idade.

Já o Visconde, agora interpretado por Aramis Trindade, que é conhecido por ser bom de improviso, ganhou uma personalidade mais carismática de sábio meio atrapalhado, e algumas vezes um pouco excêntrico, especialmente quando está inventando alguma máquina, ou pesquisando algo; com isso ele ganhou mais destaque nas histórias. Aramis também deu ao personagem algumas características interessantes, como um forte sotaque paulistano, principalmente quando pronunciava palavras que continham as letras R e L no final. Em 2005, o Visconde também ganhou uma espécie de "bordão" durante o programa, a sua frase: "Ma-ma-mas Marquesa…", que ele sempre diz a cada vez que a Emília o obriga a inventar alguma máquina genial. Esse novo bordão do Visconde na verdade foi um improviso de Aramis Trindade durante as filmagens de uma cena, frase que acabou dando certo, e passou a ser usada quase sempre pelo Visconde perante as ordens da Emília (e sendo imitada até mesmo pelo Zé Carijó e pelo Conselheiro).

Outra novidade nessa temporada, foi que a boneca Emília ganhou uma espécie de "irmã mais nova", a bonequinha de plástico Patty Pop (apelidada pela Emília de 'Pata Choca'), que também tomou a "Pílula Falante" e ganhou vida, deixando Emília morta de ciúmes pela atenção da Narizinho.

Ainda em 2005, a fantasia da Cuca ganhou novas mudanças, ficando mais feia e horripilante, e ganhando uma forma mais parecida com a Cuca do Sítio dos anos 70 (com exceção do fato de que a Cuca de 1977 possuía listras coloridas na barriga, e pequenos olhos vermelhos), a "Cuca de 2005" passou a ser feita de um material de borracha, que a deixava mais realista e assustadora. A roupa de jacaré se tornou mais elaborada e detalhada, dando à personagem um aspeto mais ameaçador, ela ganhou grandes olhos amarelos com pupilas e veias vermelhas; e um focinho mais comprido, com muitos dentes pontudos; ganhou também um "barrigão" listrado, e pés com unhas afiadas, além de uma longa cabeleira loira.

O programa também mudou o seu formato e passando a ser uma novela infantil, com 194 capítulos e uma única história, que durava o ano inteiro.

A proposta do Sítio para a televisão naquele ano, era apresentar uma história que tivesse personagens e elementos da obra de Lobato, junto com temas do dia a dia, importantes para crianças, jovens e adultos; como a importância da escola, a valorização do folclore nacional, que é mostrada, quando a professora Antonica, mãe do Pedrinho, faz uma festa sobre o Dia do Saci na escola do Arraial dos Tucanos, no mesmo ano em que esse dia foi instituído no Brasil.

Houve também uma grande citação em alguns capítulos sobre a alfabetização de pessoas adultas e idosas, quando Zé Carijó decide ir para escola aprender a ler e escrever. A história ainda contava com quase 40 atores no elenco fixo, entre eles Chico Anysio, intérprete do advogado Osvaldo Saraiva que participou como personagem fixo de 2005.

Uma coisa muito interessante sobre essa temporada é que ela não faz parte da linha cronológica de 2001-2004 por vários motivos e dos quais, o mais perceptível é o fato de Dona Benta não acreditar em Saci, Cuca, lobisomens, bruxas, fadas, e Pó de Pirlimpimpim.
Apesar de Dona Benta já ter visto o Saci e a Cuca na sua frente nas temporadas de 2001-2004 (além de ter visto outros seres, e personagens de contos de fadas), na temporada de 2005 ela simplesmente age como se nunca os tivesse visto e nem acredita que são reais, a menos que ela veja como os próprios olhos. Todas as aventuras fantásticas que as crianças contavam, ela acreditava serem apenas brincadeiras fantasiosas. Um outro momento  interessante que ilustra como esta temporada nao faz parte da linha cronológica  é que Miss Sardine (que já havia morrido na temporada de 2001) aparece viva e vivendo fora do Reino das águas Claras.
 
A trama principal daquele ano mostrava os moradores do Sítio, conhecendo dois jovens chamados "Cléo" e "João da Luz", que aparecem pelo "Arraial dos Tucanos", e vão se tornando amigos da turma do Picapau Amarelo, e vivendo aventuras juntos.

Poucos sabem disso, mas, esses dois personagens também foram criados originalmente por Monteiro Lobato, eles apareceram em dois livros diferentes, e foram "pinçados" das histórias de Lobato, para participarem na trama de 2005.

A personagem Cléo, é uma garota que aparece em Caçadas de Pedrinho, descrita no livro como uma radialista da cidade, uma menina "desembaraçada", que costuma trocar cartas com Narizinho, que acompanha o seu programa pelo rádio junto com todo o pessoal do Sítio. Curiosamente existiu mesmo uma Cleo na vida de Lobato, era Cleo Marcondes, filha de um grande amigo de Lobato Octales Marcondes, uma menina incrivelmente inteligente.

A temporada de 2005 ganhou ainda uma nova trilha sonora, com novas músicas para alguns personagens. Como a intenção era agradar tanto as crianças, quanto os jovens e adultos, algumas músicas eram mais "lúdicas", como: "Dona Benta" de Elder Costa, "Emília, faz o que ninguém mais faria" de Pato Fu, e "Sem Medo de Assombração" de Ney Matogrosso, enquanto outras músicas eram voltadas para um público mais adolescente, como a canção "Nós Dois" da banda Jukabala, tema do casal Cléo e João da Luz.

Nessa temporada o Sítio chegou a ganhar o "Prêmio Mídia Q 2005", na categoria de quatro a sete anos, com base numa pesquisa feita com pais de crianças e jovens de quatro a dezessete anos, nas classes A, B e C, sobre a qualidade da programação da TV no Brasil.

6ª TEMPORADA (2006) – 

A sexta temporada teve início em setembro de 2006 mantendo o mesmo formato de novela. Porém desta vez com o objetivo de tratar mais da fantasia e do surreal, sem deixar de lado temas reais, assim como já havia acontecido no ano anterior. 

Nessa temporada mais algumas trocas de atores aconteceram. O ator João Vítor da Silva, que interpretou o Pedrinho entre 2004 e 2006 passou a interpretar o Curupira, dando o papel de Pedrinho a Rodolfo Valente. Caroline Molinari, a Narizinho em 2004 e 2005, foi substituída por Amanda Diniz. A maioria do elenco do núcleo do Arraial dos Tucanos, também foi trocado, sendo mantidos apenas os atores que faziam os personagens principais: Suely Franco como Dona Benta; Dhu Moraes no papel de Tia Nastácia; João Acaiabe como Barnabé; Isabelle Drummond na pele da boneca Emília; e Aramis Trindade como o Visconde de Sabugosa.

Nesta temporada Cininha de Paula deixou a direção do programa para dirigir a novela ‘Cobras & Lagartos, sendo substituída por Carlos Manga, que decidiu reformular totalmente o Sítio do Picapau Amarelo, no intuito de deixa-lo mais parecido com o "Sítio" das histórias de Monteiro Lobato. Com isso alguns personagens tiveram que sair como a bonequinha de plástico Patty Pop e Pesadelo, o ajudante da Cuca, que já não apareceram mais nessa temporada.

Outros personagens sofreram uma grande mudança no visual: Emília ficou com o cabelo mais comprido e passou a usar outros tipos de vestidos. Já o Visconde ganhou um novo figurino, com maquiagem amarela no rosto, um grande nariz de látex e uma cartola feita de palha dourada. O burro Conselheiro, passou a ser uma marionete que andava sobre as suas quatro patas e a cor do seu pelo ficou cinza. O folclórico Saci trocou o seu macacão vermelho por um calção na mesma cor, enquanto o Tio Barnabé ganhou uma barba mais comprida e passou a morar sozinho no meio do mato. 

Outra mudança aconteceu com os objetos usados no Sítio, que ficaram mais rústicos, desaparecendo o forno de microondas, o computador e gameboy. A casa ganhou móveis e aparelhos mais antigos ainda e as histórias dos episódios da televisão passaram a lembrar mais o clima dos livros de Lobato. 

Esse também foi último ano em que a personagem Cuca utilizou a fantasia criada em 2005, já que na próxima temporada, em 2007, a bruxa do Sítio passaria a ser interpretada por uma atriz humana e não mais por um boneco de jacaré.

7ª TEMPORADA (2007)

E Em 2007, Sítio do Picapau Amarelo passou a ser exibido no TV Xuxa programa infantil comandado pela apresentadora Xuxa Meneghel. O programa, estreou na nova programação com a proposta de voltar às histórias originais de Monteiro Lobato. Todas as histórias apresentadas ao longo do ano de 2007 eram baseadas nos textos originais de Monteiro Lobato. A primeira história, O Saci Contra-Ataca, com 25 capítulos, trazia elementos do folclore brasileiro. 
Com direção geral de Carlos Magalhães, foi tomada a arriscada decisão de substituir praticamente o elenco inteiro para a nova temporada. Todos os personagens principais tiveram novos atores. Emília voltou a ser interpretada por uma atriz adulta, Tatyane Goulart; o Saci por Fabrício Bolíveira não era mais careca; Tio Barnabé passou a ser interpretado por Genésio Amadeu ; Dona Benta, passou a ser interpretada pela atriz Bete Mendes e apareceu de cabelos pretos; Tia Nastácia passou a ser interpretada por Rosa Marya Colin; Renato Borghi deu vida ao Seu Elias Turco; e Pedrinho e Narizinho passaram a ser interpretados pelas crianças Vítor Mayer e Rachel de Queiroz.  E o Visconde agora interpretado por Kiko Mascarenhas, ganhou uma maquiagem com muitos grãos de milho pintados no rosto e um paletó fechado.
Nessa temporada o Sítio também ganhou novos figurinos para os atores e os bichos: Rabicó deixou de ser um boneco e passou a ser interpretado por um ator com orelhas e nariz de porco; o Burro Conselheiro passou a ser um burro de verdade, dublado com uma voz humana.

Mas a maior mudança naquele ano, aconteceu com a Cuca. Diferente de todas as adaptações televisivas que já foram feitas com a personagem, a Cuca dessa vez não era mais um boneco de jacaré com cabelo loiro, mas sim a atriz Solange Couto com maquiagem no rosto e dentes pontiagudos, usando um macacão verde.

Infelizmente, com tantas mudanças, essa temporada não manteve o mesmo desempenho no Ibope, e após 165 capítulos divididos em 6 histórias, chegou ao fim com a exibição do seu último episódio no dia 7 de dezembro de 2007. Sem a mesma audiência de anos anteriores, a emissora decidiu pelo cancelamento do programa e a sua retirada da grade de programação.
 

Desmistificando Monteiro Lobato nos 100 anos da Semana de Arte Moderna

No ano do centenário da Semana de Arte Moderna, também chamada de Semana de 22, não poderíamos deixar de fazer uma menção especial ao evento e principalmente desmistificar a história que injustamente insiste colocar o moderno Monteiro Lobato como um antimodernista.

Mas antes de nos aprofundarmos nessa história, até para esclarecer aos mais jovens resumidamente, cabe-nos contextualizar: esse foi um evento de música, dança, poesia e artes plásticas que inaugurou um novo movimento cultural no Brasil chamado de Modernismo, promovido pela elite cafeicultora paulista entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal da cidade de São Paulo.

Autor com reconhecidas características de vanguarda, Monteiro Lobato, apesar de todo o seu regionalismo e da denúncia da realidade brasileira presente em sua obra, acabou injustamente, sendo rotulado como um ‘antimodernista’.
Mas será que um sujeito considerado moderno, visto como alguém à frente do seu tempo por suas ideias e ações, era isso mesmo?

O PRINCÍPIO DE UM EQUÍVOCO HISTÓRICO

O início de todo esse mal-entendido entre o autor de Urupês e o movimento literário chamado Modernista, aconteceu alguns anos antes da Semana de Arte Moderna, em 20 de dezembro de 1917, quando Monteiro Lobato publicou um artigo no jornal O Estado de S. Paulo, intitulado "A Propósito da Exposição Malfatti", mas que distorcidamente passou a ser divulgado e debatido sob o título de "Paranoia ou mistificação?", que na verdade é uma citação que o escritor fez no texto (que pode ser conferido neste link: – arquivo PDF enviado), utilizado para criar um clima de polemica e animosidade entre Lobato e os chamados ‘modernistas’: Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia e Anita Malfatti entre outros.

Nesse texto, o autor de “Urupês” e criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo, que também era crítico de arte e pintor amador, claramente faz uma crítica à artista, após visitar uma exposição individual de Anita, referente à estética de suas obras, fortemente influenciadas pelo que Lobato chamou de "extravagâncias" de Pablo Picasso e seus colegas. Como nacionalista convicto e preocupado em consolidar o conceito de Brasil nação, Lobato em 1917 era, sem vergonha alguma, um crítico voraz da exagerada influência europeia sobre artistas brasileiros e sobre o meio cultural da época. 

Apesar da crítica, Lobato nunca deixou de reconhecer e exaltar o talento artístico de Anita Malfatti, e o faz no mesmo artigo tão polemico.  Na verdade, ele questionava não a inovação contida na artista, mas o estrangeirismo, e por isso, de modo equivocado (ou quem sabe até propositalmente), foi feito um recorte para desqualificar o escritor e colocá-lo como uma figura conservadora, retrógrada e careta, o que a própria história de Lobato nos revela o contrário.

Ao fazer a leitura integral do texto, qualquer leitor desprovido de outros interesses, pode notar claramente que Lobato na verdade, chama atenção para a reprodução acrítica dos valores estéticos das vanguardas europeias. No ano seguinte ao polêmico artigo, através de sua Revista do Brasil, Lobato lança Urupês, livro que décadas mais tarde renderia um comentário bastante interessante do crítico Wilson Martins em A Literatura Brasileira: "poderia ter sido, ou deveria ter sido, o primeiro manifesto modernista".

Urupês é mesmo o reflexo literário do pensamento modernista de Monteiro Lobato. Das suas observações como fazendeiro, ele aprendeu sobre a vida do caboclo brasileiro e forjou o termo "jeca" para criar um dos maiores representantes da nossa cultura multifacetada, com a saude corroida por vermes e absolutamente explorado por interesses economicos. O jeca aparece como natural do interior do Brasil, mas tem sua sabedoria ampliada por essa abstração denominada "cultura nacional": é o embrião da antropofagia modernista vislumbrada nesse personagem, que é uma mistura de várias personalidades brasileiras.

Lobato ofereceu o jeca aos olhos do público e da crítica, um novo caboclo, um herói multifacetado como a cultura brasileira e de costumes antropofágicos, filho de miscigenações e de portugueses degradados, mas o movimento Modernista não teve olhos para reconhecê-lo.

Seu nacionalismo sempre o manteve conectado aos que se interessavam pela questão cultural brasileira. Ainda em sua fazenda, Lobato enumerava admirações por alguns autores que mais tarde se consagrariam na Semana de Arte Moderna, publicando inclusive, vários desses autores em sua revista. Se um equívoco o separou do movimento modernista, esse mesmo equívoco o deixou livre para contestar o que lhe parecia errado no movimento.

Enquanto em texto o autor analisava a identidade nacional (aproximando-se, assim, de umas das principais propostas modernistas), o homem Monteiro Lobato aventurou-se em projetos empresariais no mundo literário. Em 1918, ele comprou a já famosa Revista do Brasil, em que havia publicado contos e críticas. A revista teve vida longa e foi ilustrada por nomes importantes da literatura brasileira.

Seu empreendimento também pode ser visto como modernizador das relações do artista com os negócios. O Estado, até então, era o novo mecenas das artes, e as negociações com editoras eram precárias. Monteiro Lobato fundou sua própria editora e inaugurou uma nova relação do artista com seu negócio. A literatura é vista, assim, como um produto próprio e pronto a ser negociado. Como afirma o escritor e crítico Silviano Santiago, "é através da caracterização do papel social e político do livro entre nós que se pode conhecer, com maior propriedade, o sucesso do projeto elitista e o fracasso do projeto populista dentro dos contornos da estética modernista”. Começou, então, com Monteiro Lobato, a era moderna nas relações autores-editores no Brasil.

PARA OS PRÓPRIOS MODERNISTAS, LOBATO ERA UM DELES

O escritor Oswald de Andrade, um dos principais nomes do movimento modernista, foi pelo mesmo caminho de Monteiro Lobato, quando escreveu o Manifesto Antropofágico.

Esse manifesto literário, publicado em maio de 1928, onze anos depois do famoso artigo de Lobato, tinha o objetivo de repensar a dependência cultural brasileira, demonstrando assim, que não havia contradição entre ele e o escritor.

Dois anos antes, em 1926, Lobato havia escrito um texto chamado ‘Nosso Dualismo’, no qual deixava clara a importância do movimento modernista: “Esta brincadeira de crianças inteligentes, que outra coisa não é tal movimento, vai desempenhar uma função séria em nossas letras. Vai forçar-nos a uma atenta revisão de valores e apressar o abandono de duas coisas a que andamos aferrados: o espírito da literatura francesa e a língua portuguesa de Portugal. Valerá por um 89 duplo — ou por um 7 de setembro”, diz Lobato.

O autor sempre esteve próximo a Oswald de Andrade, que ele próprio considerava uma das mentes mais brilhantes do modernismo brasileiro e sobre o qual afirmou: “…o futurismo apareceu em São Paulo como fruto da displicência de um rapaz rico e arejado de cérebro: Oswald de Andade”, que, como “turista integral, sentiu melhor que ninguém a nossa cristalização mental e empreendeu combatê-la”.

Claramente não houve rompimento radical entre Lobato e os modernistas. O que ocorria é que, ao contrário dos modernistas – que discutiam questões formais e estéticas – Lobato queria modernizar o país no plano da economia e da saúde, por exemplo. Queria modernizar um país arcaico, evidenciando ainda mais assim a sua conexão com o movimento modernista.

Mas voltando a falar de Oswald de Andrade, ele próprio eliminou qualquer embaraço que ainda pudesse existir entre Lobato e os modernistas, no aniversário de 25 anos de “Urupês” com seguinte texto:
“Você foi culpado de não ter a sua merecida parte de leão nas transformações tumultuosas, mas definitivas, que vieram se desdobrando desde a Semana de Arte de 22. Você foi o ‘Gandhi do Modernismo’, jejuou e produziu, quem sabe, nesse e noutros setores, a mais eficaz resistência passiva de que se pode orgulhar uma vocação patriótica (…) Sua luta significava a repulsa ao estrangeirismo afobado de Graça Aranha, às decadências lustrais da Europa pobre, ao esnobismo social que abria os seus salões à Semana”.

Mário de Andrade foi outro que anos mais tarde, ao rever o movimento que integrou, cita Lobato como um dos seus, reconhecendo a importância do escritor em toda aquela novidade:
“O modernismo no Brasil foi uma ruptura, foi um abandono consciente de princípios e de técnicas, foi uma revolta contra a intelligensia nacional. (…) Quanto a dizer que éramos antinacionalistas, é apenas bobagem ridícula. É esquecer todo o movimento regionalista aberto anteriormente pela Revista do Brasil, todo o movimento editorial de Monteiro Lobato”.

De fato, Monteiro Lobato era um grande editor naquela época e reforçando: no ano da Semana de Arte Moderna, editou vários modernistas, comprovando que não se tratava de um opositor ao movimento, mas sim de um interlocutor, alguém que discutia a forma com que o modernismo estava se estabelecendo no nosso país.

Por fim, essa confusão com os modernistas terminou fazendo de Lobato um injustiçado pela história. Mas não se pode negar a sua inestimável contribuição para a literatura brasileira e para o próprio movimento modernista.
 

Em 2001, o Sítio voltou para a tela da Globo

Em julho de 1999, a Rede Globo assinava um contrato com os herdeiros de Monteiro Lobato, para produzir uma nova adaptação para a televisão, baseada na coleção de histórias do Sítio do Picapau Amarelo. Essa nova versão, a segunda da rede Globo, estreou no dia 12 de outubro de 2001, às 11h30, dentro do programa infantil Bambuluá, em edição especial para o Dia das Crianças

A previsão inicial para a reestreia da atração era 15 de outubro, porém havia uma preocupação muito grande por parte da emissora, de que o projeto iniciado há um ano e meio, seria tão bom quanto a edição anterior, exibida com estrondoso sucesso entre 1977 e 1986.

A ideia então foi iniciar a exibição do Sítio do Pica-Pau Amarelo como uma das atrações do programa comandado pela apresentadora Angélica, em episódios de apenas 15 minutos, levados ao ar de segunda à sexta-feira. Nessa primeira fase, a história de um dos livros da série literária escrita por Lobato era dividida em apenas 5 episódios.

Mantendo a tradição, a produção dessa segunda versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo na TV Globo contou com uma equipe de produção de peso, com nome como Roberto Talma (2001) e Carlos Manga (2006) na direção de núcleo; Luciana Sandroni, Mariana Mesquita, Cláudio Lobato e Toni Brandão na redação e adaptação; Márcio Trigo (2001); Cininha de Paula e Paulo Ghelli (2002); Carlos Magalhães (2007) na direção geral.

De acordo com Roberto Talma, toda equipe de produção não se preocupava apenas com a audiência da nova atração, mas também com a necessidade da adaptação da famosa obra de Lobato para os dias atuais, sem descaracterizar o original. E assim como na primeira versão, a equipe da nova produção se manteve o mais fiel possível à obra do autor e conseguiu de forma brilhante, aproximar o programa da vida atual, mantendo o aspecto rural presente no original Lobatiano, sem abrir mão de fazer a conexão com as crianças dos grandes centros urbanos.

Entre as inovações apresentadas nessa segunda versão, destaque para a “modernização” do cenário do Sítio, localizado agora na ilha de Guaratiba, no Rio de Janeiro, que contava por exemplo com um computador com acesso à internet e forno microondas. A linguagem dos personagens também foi adaptada de modo a se aproximar da realidade atual sem perder a sua essência, misturando gírias recentes – como “maneiro” e “sinistro” – com expressões usadas na obra de Lobato, como “cara de coruja seca” e “torneirinha de asneiras”.

Para dar vida aos personagens principais, o elenco do Sítio do Pica-Pau Amarelo de 2001 contou com as atrizes Nicette Bruno no papel de Dona Benta, Dhu Morais (ex-integrante do grupo musical As Frenéticas) como Tia Nastácia, e com o ator Cândido Damm na pele do Visconde de Sabugosa.

Entretanto o grande destaque ficou por conta dos personagens infantis: a boneca de pano Emília por exemplo, foi interpretada pela primeira vez por uma criança, a atriz Isabelle Drummond, na época com apenas 7 anos de idade. Anteriormente, em uma adaptação de cinema, também houve uma pequena menina chamada Olga Maria, que interpretou a Emília no filme ‘O Saci’, de 1951, ainda em preto e branco, dirigido por Rodolfo Nani e baseado no livro homônimo, escrito por Monteiro Lobato. Com exceção desse filme, e dessa nova versão do Sítio na Globo, a boneca Emília havia sido interpretada unicamente por atrizes adultas.

Outros destaques infantis foram as atuações da menina Lara Rodrigues no papel de Narizinho, de César Cardadeiro que viveu Pedrinho e o garoto Izak Dahora que deu vida ao nosso Saci Pererê. Esse atores viveram nessa versão do Sítio o seu primeiro grande papel na TV.

O elenco dessa segunda versão, contou ainda com as participações de Jacira Santos como a bruxa Cuca; o amado João Acaiabe como Tio Barnabé; Aline Mendonça vivendo o Marquês de Rabicó); Zé Clayton que deu vida ao Burro Falante e Sidnei Beckencamp como Quindim, além da participação especial de Ary Fontoura vivendo o Coronel Teodorico.

Na área musical mais algumas novidades. A canção original, de Gilberto Gil, foi mantida e passou a conviver com uma nova trilha sonora interpretada por Ivete Sangalo, Carlinhos Brown, os mineiros do Jota Quest e Cássia Eller, que interpretou a música-tema da vilã Cuca.

Com bons índices de audiência, o programa mais uma vez caiu nas graças dos brasileiros, comprovando que os personagens do imaginário Lobatiano continuavam conquistando novas gerações com histórias empolgantes, atuações convincentes e uma excelente produção.

Diante do grande sucesso, a emissora se viu estimulada por seus telespectadores a lançar uma linha de produtos especiais com os personagens do Sítio, como vídeos e DVDs com episódios lançados no natal de 2001, além de bonecas, mochilas, cadernos, álbum de figurinhas, entre outros produtos. Ainda em dezembro daquele ano, a Globo exibiu um especial musical intitulado ‘A Festa da Cuca’, que teve a participação de todos os artistas da nova trilha sonora e de atores convidados, como Malu Mader no papel da Cuca.

A partir do dia 22 de dezembro daquele ano, a segunda versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo na Globo, deixou o programa da Angélica e conquistou o seu próprio espaço, sendo exibido de segunda a sexta feira, as 11h30 e depois as 10h10, até 2007.

Essa segunda versão do Sítio na Globo teve um total de sete temporadas exibidas entre os anos de 2001 a 2007.

Curiosidades sobre o Sítio de 1977

Muita coisa acontece distante dos olhos do grande público ….Aqui vamos contar pra voces algumas curiosidades sobre a primeira versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo que foi ar pela TV Globo:

 Voce sabia que  o ator André Valli tinha sido escalado inicialmente para interpretar o personagem Zé Carneiro e Tonico Pereira, o Visconde? Mas quando Tonico ficou doente, foi substituído por Valli na última hora. Mais tarde, Tonico entrou para o elenco onde viveu Zé Carneiro.

Dezenas de meninas foram testadas para o papel de Narizinho e a escolhida foi Rosana Garcia, que tinha 11 anos quando as gravações começaram em 1976. O programa só estrearia um ano depois e Rosana ficaria no papel até 1980, quando já aos 16 anos, teve que deixar o programa por estar muito grande para interpretar uma personagem de 7 anos de idade.

 A atriz Patrícia Travassos fez testes para viver a boneca Emília, porém a escolhida para interpretar a personagem foi Dirce Migliaccio, que tinha atuado em Pluft, o Fantasminha.

Quando a primeira versão do Sítio na Globo terminou, em 1986, a Globo presenteou a atriz Zilka Salaberry com a vaca Mocha, que ela tanto gostava e tinha ficado super amiga. A vaca fazia parte dos animais que compunham o sítio onde o programa foi gravado.

 Falando na atriz Zilka Sallaberry, inicialmente, ela achou que poderia fazer o papel de Dona Benta no Sítio da Globo. Isso porque ela achava impossível dar vida a uma personagem tão diferente dela. Zilka era super urbana e não se via como uma senhora calma, que vive em um pacato sítio no interior. Zilka não conseguia passar um final de semana longe da cidade e não gostava muito do contato com a natureza. Ao saber que as gravações seriam feitas em um sítio especialmente planejado para a série, em Barra de Guaratiba, ela simplesmente ficou desesperada! Sem ter como recusar o papel, ela disse que se apaixonou pela personagem desde o primeiro dia de gravação.

5- Júlio César (o primeiro Pedrinho) abandonou a carreira de ator, enquanto Rosana Garcia (a primeira Narizinho), continuou na Globo, como atriz, fez teatro  e hoje é instrutora de dramaturgia na TV Globo e TV Record. www.trevo.art.br @arosanagarcia

6- Além de Dona Benta, Tia Nastácia, Emília, Narizinho, Pedrinho e Visconde, que sempre protagonizaram as histórias do Sítio, a primeira versão da TV Globo destacou outros personagens como Tio Barnabé, Zé Carneiro e Garnizé, eternizados nas interpretações marcantes dos atores Samuel Santos (o Tio Barnabé), que faleceu em 1993; Canarinho (o Garnizé), que também fez sucesso na Praça é Nossa do SBT, falecido em 2014; e Tonico Pereira (o Zé Carneiro), que mais tarde faria sucesso com o personagem Mendonça, na série A Grande Família.

Educar é preciso, conhecer as obras de Monteiro Lobato também!

Para celebrar o Dia Internacional da Educação, nada melhor do que falar da importância e da influência de Monteiro Lobato na educação infantil.
Lobato criou um universo para a criança enriquecida pelo folclore, buscou o nacionalismo na ação das personagens que refletiam na brasilidade, na linguagem, comportamentos e na relação com a natureza.

O Sítio do Pica-Pau Amarelo tem um caráter interdisciplinar e transdisciplinar, onde se fala de mitologia, de gramática, de matemática, de folclore e de outras questões pertinentes.
Algumas transformações ocorridas no século XVIII, aliadas às questões educacionais, marcaram alguns conceitos sociais voltados à família, e é neste século que surge a educação para todos, priorizando, a criança. Surgem textos adaptados exclusivamente para elas, dando início a formação de pequenos leitores.

Surgiu a necessidade de obras que despertassem o interesse das crianças, que chamassem a sua atenção, que as fizessem viajar e sonhar, baseadas no mundo do faz-de-contas e a literatura de Monteiro Lobato cumpre muito bem esse papel.

Além de despertar o interesse da criança através do imaginário, Lobato conscientiza com a sua literatura denunciadora, que envolve fatos políticos-econômicos-sociais. A sua principal obra, “O Sítio do Picapau Amarelo”, tem traços de um Lobato indignado com a exploração do Petróleo, logo depois surge o livro “O Poço do Visconde”, que conta a história da descoberta do Petróleo nas terras do Sítio (mundo fictício), que eram terras de sua família. Não podendo se expor, criou as personagens fantásticas, as quais dizem tudo o que ele pensa sobre a descoberta, entre elas Emília, a qual representa a sua voz.

Você sabia que Lobato é considerado pioneiro na literatura paradidática, cuja principal característica é permitir que a criança aprenda enquanto brinca e lê?
Pois é, e isso aconteceu de um modo muito interessante, protagonizado pelo autor ousado, que sem dúvida estava à frente de seu tempo.

O escritor lançou em dezembro de 1931, o livro “A menina do narizinho arrebitado”, uma edição muito bonita, com capa dura, formato maior que uma folha de sulfite e com ilustrações coloridas.
De olho no mercado educacional, estrategicamente, em março do ano seguinte Lobato prepara uma edição escolar, acrescentando 2 novas histórias em um formato de mais ou menos o tamanho de um palmo, imprimindo 500 mil exemplares.

Sabendo que o governador do Estado à época, visitaria determinadas escolas da capital, Lobato preparou uma jogada de marketing ousada, distribuindo cerca de 50 mil exemplares dessa versão que ele preparou de “A menina do narizinho arrebitado”, nas escolas que seriam visitadas por ele.

Durante a visita, o governador vê as crianças encantadas com o livro e decide encomendar 450 mil exemplares junto ao escritor. A versão especial de “A menina do narizinho arrebitado” foi então distribuída nas escolas estaduais, surgindo, a partir daí, títulos didáticos como Aritmética da Emília, Emília no país da Gramática e Histórias do mundo para crianças, entre outros.
Na literatura de Lobato há uma forte abertura para o currículo escolar e múltiplas possibilidades pedagógicas para o educador.

Sem dúvida, o pai da literatura infantil influenciou positivamente milhares de pessoas de diferentes gerações, e vai seguir influenciando enquanto seus fãs seguirem espalhando a magia de sua obra por todos os cantos.
Todos que enxergam na educação o caminho para a boa formação das futuras gerações, precisam conhecer e entender o conteúdo pedagógico inserido na obra de Monteiro Lobato.

O incentivo a leitura, o estímulo a criatividade e o livre pensar, ainda é a melhor forma de se educar.

Há 45 anos, o Sítio chegava à TV Globo

Era para ser uma novelinha infantil, com entretenimento, retratasse a cultura brasileira e apresentasse material didático para as nossas crianças, porém a primeira versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo na TV Globo, conquistou os corações de milhões de brasileiros e se tornou um marco na história dos programas infantis na televisão brasileira.
Tudo começou exatamente às 17h25 de uma terça-feira do dia 7 de março de 1977. Naquele momento, milhões de brasileirinhos se debruçaram em frente à telinha para a estreia do Sítio na maior emissora do país.
Resultado de uma parceria entre a Globo, a TV Educativa e o Ministério da Cultura, o programa, uma adaptação da obra de Monteiro Lobato, pai da literatura infanto-juvenil, foi o primeiro com investimento massivo em uma produção do gênero na história da televisão brasileira.

Com direção geral de Geraldo Casé, o programa era exibido de segunda a sexta-feira, com capítulos que duravam cerca de 30 minutos, o Sítio do Pica-Pau Amarelo ficou no ar durante nove anos, superando as expectativas de seus idealizadores e da própria emissora que via nascer ali um dos seus maiores sucessos de audiência.
Baseado em um contexto rural, a primeira versão do Sítio na Globo manteve a originalidade da obra de Lobato. A trama foi ambientada num sítio, onde constantes aventuras eram vividas pelos personagens criados pelo autor, em meio à realidade e à fantasia.

Inesquecível, a música de abertura do infantil, composta e interpretada por Gilberto Gil introduzia os espectadores em um universo paralelo, mágico, místico, onde boneca de pano ganha vida e sabugo de milho vira gente. Este é o Sítio do Pica-Pau Amarelo, um lugar em estado de euforia, com saci, piratas, sereia e rios de prata, que há anos leva leitores e telespectadores a uma viagem deliciosa pelo imaginário de um dos nossos maiores autores.

Além dos personagens centrais, já conhecidos do público, como a contadora de histórias e proprietária do sítio, Dona Benta, sua neta Lúcia (apelidada de Narizinho), a amiga eximia quituteira Nastácia, o neto Pedrinho (primo de Narizinho, morador da ‘cidade grande’ que passava as férias escolares no sítio), o intelectual e cientista Visconde de Sabugosa – feito pelo próprio Pedrinho com um sabugo de milho – e a boneca falante Emília, confeccionada por Tia Nastacia para ser companheira de Narizinho, essa nova versão do Sítio destacou ainda outros personagens como Tio Barnabé, Zé Carneiro, Garnizé, João Perfeito, Seu Elias, a “jacarezona” e feiticeira Cuca e, é claro, o buliçoso Saci Pererê.

Com a direção geral de Geraldo Case, considerado o “pai “ do programa, tivemos tambem ao longo dos anos Fábio Sabag, Roberto Vignatti, Paulo Gracindo Jr. E Hamilton Vaz Pereira. Supervisor geral foi sempre Edvaldo Pacote. Ao longo do programa, o núcleo de redatores foi composto por grandes nomes da dramaturgia nacional como Wilson Rocha, Paulo, Afonso Grisolli, Benedito Rui Barbosa, Sylvan Paezzo e Marcos Rey.

No elenco principal, quatro personagens foram vividos por um único artista: Zilka Sallaberry personificou como ninguém a eterna Dona Benta, Jacyra Sampaio como a maravilhosa Tia Nastácia, André Valli encarnou o genial Visconde de Sabugosa e o ator Romeu Evaristo nos deu uma icônica do nosso Saci Pererê.

Ainda fizeram parte do elenco principal as atrizes Rosana Garcia, Daniele Rodrigues, Izabel Bicalho e Gabriela Senra, que nesta ordem interpretaram Narizinho; os atores Júlio César, Marcelo Patelli e Daniel Lobo, também nesta ordem, viveram Pedrinho; as atrizes Dirce Migliaccio (1933-2009), Reny de Oliveira e Suzana Abranches que fizeram nessa sequência o papel de Emília; e as atrizes Dorinha Duval, Stela Freitas e Catarina Abdala, que nessa ordem deram vida à bruxa Cuca.

A primeira adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo chegou ao fim em 1986, quando foi ao ar o 20º e último capítulo do episódio “A Trilha das Araras”, no dia 31 de janeiro de 1986.
Até hoje, as histórias e atores que deram vida a essa versão do Sítio, são lembradas com muito carinho e nostalgia.

As canções que embalaram uma geração

Durante a década e que a sua primeira adaptação para a TV Globo foi exibida, o Sítio do Pica-Pau Amarelo viveu a sua melhor época.

Não apenas pelo elenco de primeiríssima qualidade, nem só pelas histórias que desde 1920 já encantavam milhões de leitores, mas como ignorar a trilha sonora reunida pelo arranjador, cantor e compositor Dori Caymmi, que convidou alguns dos mais inspirados músicos da época, para criar o cenário sonoro de um lugar tão mágico e bucólico?

Dori revelou certa vez, que o projeto do Sítio do Pica-Pau Amarelo surgiu na sua vida em um momento delicado, quando ele se recuperava de uma cirurgia no tendão de Aquiles e pelo tempo parado, atravessava sérias dificuldades financeiras.

Foi nessa época que um amigo dos seus pais, chamado Edvaldo Pacote, soube da sua situação e falou com o Boni, na época o principal mandatário da Globo, que sensibilizado, assinou a carteira do artista, que então pôde ter uma recuperação adequada, se se preocupar com as contas no fim do mês.

Daí surgiu a oportunidade de fazer a trilha sonora do Sítio do Picapau Amarelo. Dori contou que se sentiu muito agradecido e que deu o seu melhor. Ele pediu ao Gilberto Gil para que ele fizesse uma abertura e daí, ele começou a chamar o Sérgio Ricardo e todos os outros artistas que ajudaram a fazer essa história musical que todos hoje conhecemos.

Enfim, em1977, chegava às lojas de disco de todo o país, pela gravadora Som Livre, do mesmo grupo da Rede Globo, o disco que apresentou ao Brasil a música composta por Gilberto Gil, que marcaria definitivamente o Sítio do Pica-Pau Amarelo nas nossas memórias:

"Marmelada de banana/ Bananada de goiaba/ Goiabada de marmelo/ Sítio do Picapau Amarelo…".

Conduzida por uma flauta, a abertura da série já alvoraçava toda a criançada que corria para a frente da televisão.

A letra, engenhosa, anárquica como só as crianças, brincava numa melodia onde Gil fazia a festa e ele próprio contou que preferiu fazer uma canção que falasse de todos os personagens e do sítio todo, que ocupasse aquele espaço inteiro e nela coubesse Taubaté toda, a cidade de Monteiro Lobato.

Para o crítico Pedro Alexandre Sanches, o tema composto para o Sítio do Pica-Pau Amarelo, ficou tão tatuado na obra de Gil, que ele mesmo viria a regravá-la em seu best-seller para a MTV, muitos anos depois.

Além do tema de abertura composto por Gilberto Gil, a trilha sonora do Sítio de 1977, reuniu grandes nomes da MPB, como Ivan Lins e Vitor Martins, autores da canção "Narizinho", interpretada por Lucinha Lins; e "Dona Benta", cantada por José Luís, esse desconhecido do grande público.

João Bosco e Aldir Blanc, fizeram a quatro mãos o irresistível samba “Visconde de Sabugosa”, além de Jards Macalé, Marlui Miranda e Xico Chaves, autores da canção “Tio Barnabé”, um batuque de terreiro que abre como canção de ninar e é considerado um outro ponto alto do álbum.

Dori Caymmi também compôs duas músicas ao lado de Paulo César Pinheiro. "Ploquet Pluft Nhoque (Jaboticaba)", interpretada pelo coral Papo de Anjo, além do tema do personagem "Pedrinho". "Arraial dos Tucanos", em parceria com Geraldo Azevedo e Carlos Fernando, cantada por Ronaldo Malta.

Até o produtor da Som Livre Guto Graça Mello, entrou com uma caprichada "Saci", o rei dos reis do folclore nacional. Gilberto Gil que, mais ou menos, na época da gravação da trilha, estava em turnê com os Doces Bárbaros, trajando nos palcos um figurino estilizado do encantado neguinho dos nossos contos populares, só viria compor uma para o Pererê pouco tempo mais tarde, para o disco da Banda Black Rio, em 1980.

A canção "Peixe", de Caetano Veloso, entrou na trilha como "tapa-buraco" e acabou funcionando muito bem. 

Completando as treze faixas do primeiro disco do Sítio do Picapau Amarelo, aparecem o patriarca Dorival Caymmi, honrando "Tia Nastácia" como ninguém e o quarteto vocal MPB-4, em gravação de "Passaredo", de autoria de Chico Buarque e Francis Hime, que também como "Peixe", não foi composta sob encomenda para o seriado, mas se harmonizou com o todo.

Na Globo, Sítio ganhou adaptações respeitando a obra de Lobato

Na primeira versão do Sítio do Pica-pau Amarelo para a TV Globo, os autores tiveram toda uma preocupação em respeitar a obra de Monteiro Lobato, procurando aproximar o programa da realidade e da linguagem da época, sem esquecer as diferenças entre o Brasil de 1977 e o da década de 1930.

Era preciso manter o aspecto rural, sem esquecer a grande parcela da população infantil das cidades grandes, para quem a informação sobre o meio urbano também era importante, e assim o personagem Pedrinho, por exemplo, se tornou a ligação do sítio com a cidade.

Numa clara demonstração de preocupação com a atualidade dos episódios, o diretor Geraldo Casé, contou anos mais tarde, para os registros da memória TV Globo, que colocou um aparelho de televisão na sala da Dona Benta, embora nem sempre estivesse ligado. Mesmo com as intervenções, o programa procurou ser atemporal. Houve ainda a preocupação de não urbanizar demais a parte rural, para que não se perdesse o contraste de uma criança que sai do centro urbano e vai para um sítio.

Em entrevistas na época da estreia do programa, Wilson Rocha, um dos redatores, falou sobre a tentativa de recuperar palavras e expressões favoritas de Monteiro Lobato. Para isso, a produção do programa contou com o apoio de uma equipe especializada em linguística, ciência, educação, psicologia, pesquisa e sociologia, e a seleção do conteúdo de cada capítulo era feita pelos autores e pelo grupo de apoio pedagógico.

Live imperdível para professores! A importância da obra de Lobato na escola

Os doutores em Educação Vanessa Camasmie e Ilan Brenman; e a professora e especialista em Lobato, Renata Codagan, foram os convidados de @cleomonteirolobato para um bate papo  mediado pela doutora em Educação, @soniamariatravassos, durante a celebração pelos “100 anos de Narizinho”, em dezembro do ano passado.

Em pauta, o processo percorrido pelos educadores para levarem a obra lobatiana ao universo escolar e um olhar sobre a relação entre Literatura e escola, além de debaterem experiências e os ataques a Lobato, considerado um “prisioneiro de seu tempo”.

A participação do público foi mais uma vez enriquecedora, ao trazer para o bate papo, questionamentos sobre o suposto racismo, dirigidas em especial, à professora Renata Codagan, que é negra.

Você pode rever esse conteúdo agora no canal do YouTube do Lobato com Você, ou ler o resumo desse encontro no nosso Blog.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=_WKmPyQDEfs&list=PLTSOlBY3k3FWHVFdscwCQPT2B-c0jm6qK&index=4 

Leia: https://lobato.com.vc/2020/12/reinacoes-de-narizinho-na-escola-como-desenvolver-projetos-literarios-com-este-classico/

A TV Bandeirantes abre as portas para o Sítio do Pica-Pau Amarelo

Em 1967 o casal Júlio Gouveia e Tatiana Belinky volta a cena para comandar uma nova produção do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a televisão, agora na TV Bandeirantes, com o patrocínio do Bolo Pullman.

A estreia aconteceu no dia 12 de dezembro de 1967, às 17 horas, com o tema de abertura, assim como na Tupi, composto por Salathiel Coelho; “Polca da Primavera”.

Com um investimento maior, o novo cenário muito próximo a um sítio de verdade que contava com outros elaborados para cada viagem feita pela turma, o casal também levou para essa nova adaptação, atores que já haviam participado da versão exibida pela TV Tupi, com exceção de alguns personagens que tiveram seus atores trocados ao longo da série.

Na primeira fase do Sítio na TV Bandeirantes faziam parte do elenco principal: Lúcia Lambertini (Emília), Edi Cerri (Narizinho), Isaura Bruno (Tia Nastácia), Leonor Lambertini (Dona Benta), Mauro Tach (Pedrinho) e Roberto Orozco (Visconde De Sabugosa).

Mesmo com uma estrutura melhor, Júlio Gouveia se mostrava insatisfeito com o programa, porque não gostava do videoteipe que eliminava a sensação de se atuar em um teatro com uma plateia, como ele sempre fez. As paradas para cortes, ajustes de cenas, cenário ou atores, além da necessidade de filmar vários takes de cada cena, também faziam com que cada episódio de 30 minutos, levasse de 7 a 8 horas para ser filmado, o que desgastava bastante atores e toda equipe técnica.

Haviam ainda, de acordo com relatos, problemas administrativos. Na Tupi, Júlio tinha total liberdade para criar seus programas e na Bandeirantes ele precisava se adaptar ao estilo da emissora.

Para completar, Júlio Gouveia detestava a interrupção dos episódios para os intervalos comerciais, algo que também não acontecia na Tupi, quando o programa era ao vivo.

Por volta da metade de 1968, o descontentamento também atingiu o elenco que acabou sendo praticamente todo trocado, entrando nessa segunda fase: Silvinha Lane (Narizinho); Zodja Pereira (Emília); Ewerton de Castro (Visconde Sabugosa); Roberto Campos (Pedrinho) e Célia Rodrigues (Dona Benta).

Em 1969 a sede da emissora sofreu um incêndio devastador, que destruiu praticamente todas as suas instalações e grande parte de seu acervo. Como refazer todo o cenário exigiria um grande investimento, o Sítio do Pica-Pau Amarelo acabou sendo exibido pela última vez, no dia 14 de março daquele ano.

É importante a gente esclarecer, que todas as informações que trazemos aqui, são fruto de um árduo trabalho de pesquisa, que contou com a inestimável colaboração do amigo e diretor do SBT, Jefferson Cândido – @ omundomagicodelobato.
Conseguimos assim, identificar os principais atores que deram vida aos personagens de maior destaque da obra de Lobato, nas primeiras versões do Sítio para a TV.

Caso você tenha outras informações, entre em contato com a gente.
A contribuição de todos que amam o Sítio do Pica-Pau Amarelo, é muito importante para esse resgate e para que a verdadeira história não se perca com o tempo.

Análise sobre ilustrações, reforçaram a certeza de que Lobato estava à frente de seu tempo

O designer @magno_silveira, o designer gráfico e estudioso de Lobato responsável por uma das exposições do centenário de Narizinho, comemorado em dezembro de 2020, foi o convidado de uma mesa redonda mediada pela curadora @marisalmonson, ao lado da organizadora do evento, @cleomonteirolobato. 

Magno reuniu em uma linha do tempo ilustrações de capas mostrando a evolução do livro “A Menina Do Narizinho Arrebitado”, até se tornar “Reinações de Narizinho”, 11 anos depois.

Nessa conversa, os participantes abordaram ainda a evolução através dos tempos, das personagens Dona Benta e Tia Nastácia, por seus ilustradores, além de ressaltar algo que a maioria das pessoas desconhece: dois dos ilustradores que ilustraram as obras de Lobato eram negros! 

O vídeo desse bate papo está disponível no canal do YouTube do Lobato com Você. Confira também o resumo dessa mesa redonda no nosso Blog.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=tZVZcL85TLo&list=PLTSOlBY3k3FWHVFdscwCQPT2B-c0jm6qK&index=2 

Leia em: https://lobato.com.vc/2020/12/dona-benta-tia-nastacia-e-seus-ilustradores/

Conheça os principais atores que deram vida ao Visconde Sabugosa na TV

Depois de um árduo trabalho de pesquisa, que contou com a inestimável colaboração do amigo e diretor do SBT, Jefferson Cândido, conseguimos identificar os principais atores que deram vida ao nosso Visconde nas primeiras versões do Sítio para a TV.
Caso você tenha outras informações, entre em contato com a gente.
A colaboração de todos que amam o Sítio do Pica-Pau Amarelo, é muito importante para esse resgate e para que a verdadeira história não se perca com o tempo.

Rubens Molino 
Ainda adolescente já trabalhava com teatro amador, chegando a fazer peças no tradicional Clube Pinheiros da capital paulista.
Nesse período conheceu o produtor e diretor Júlio Gouveia, e passou a trabalhar com ele. Em 1952, no início da TV Tupi de São Paulo, foi convidado para ser o primeiro Visconde de Sabugosa da Televisão Brasileira, personagem que interpretou até 1953 na primeira adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a TV.
Depois dessa experiência, se afastou da carreira artística e faleceu em 2018 aos 86 anos.

Luciano Maurício
Deu vida ao personagem entre os anos de 1953 e 1954.
Infelizmente não encontramos a biografia do ator nas principais fonte da internet, mas se você tiver informações, entre em contato conosco.

Hernê Lebon
Foi um dos pioneiros da televisão e na adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a TV Tupi também viveu o Visconde de Sabugosa, que lhe rendeu enorme fama.
No teatro, Hernê fez, entre outras, as peças: “Marido Magro, Mulher Chata”, “O Sistema Fabrizi”. No cinema, trabalhou em “O Grande Momento”, de 1958. Na TV Cultura de São Paulo, esteve na novela “Escrava do Silêncio” e nos programas “Contando e Imaginando” e “Quando Menos se Espera”. Na Tupi esteve em “O Jardim Encantado” e “Os Dez Mandamentos”.
Viveu o Visconde Sabugosa na primeira adaptação para a TV Tupi de São Paulo de1954 a 1963. Depois voltou a interpretar o personagem na versão do Sítio para a antiga TV Cultura em 1964.
Morreu em São Paulo, em 1981.

Georges Ohnet
Considerado um dos ícones do teatro e da TV entre as décadas de 50 e 60, ganhou fama por sua interpretação do Visconde de Sabugosa na primeira versão do Sítio da TV Tupi de São Paulo, quando substituiu Hernê Lebon, que havia adoecido. O curioso é que essa troca de atores só foi percebida pelos espectadores depois de um ano, tal a semelhança entre os atores e a maquiagem muito bem feita.
Sua carreira artística durou de 1954 a 1970, quando teve que se afastar da vida artística por problemas de saúde, e nesse período atuou em diversos papeis no teatro, no cinema e na tv.
Ator, autor e diretor, passou os últimos anos de sua vida vivendo em Cotia/SP, onde trabalhava como terapeuta holístico.
Morreu em 2015, vítima de um infarto, após uma cirurgia para tratar de um tumor na cabeça.

Elísio Albuquerque
Viveu o Visconde de Sabugosa na versão carioca do Sítio do Pica-pau Amarelo, em 1957, pela TV Tupi do Rio de Janeiro.
Fez parte do TBC – Teatro Brasileiro de Comédia e do Teatro dos Doze, atuou em diversas peças do “Grande Teatro Tupi“, participou de vários especiais teledramatúrgicos da Tupi de São Paulo, atuando no “TV de Vanguarda” e no “TV de Comédia“. Atuou também 
Em várias novelas e no cinema até 1972. O ator faleceu em 23 de novembro de 1983, na capital paulista, vítima do Mal de Parkinson, aos 63 anos de idade.

Daniel Filho
Substituiu o ator Elísio Albuquerque na adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a TV Tupi do Rio de Janeiro em 1957 e ficou no papel até 1958.
De família circense, Daniel foi criado desde cedo do meio artístico e cresceu ao lado de grandes nomes. Depois da experiência no Sítio, chamou a atenção como ator em dois filmes que foram sucesso na década de 60: Os Cafajestes (1962) e Boca de Ouro (1963).
É um dos fundadores da Globo Filmes, importante produtora do cinema brasileiro. Ao longo de sua carreira dirigiu e escreveu roteiros em filmes como “A Partilha”, “A Dona da História” e “Se eu Fosse Você” (2006).
Aos 82 anos de idade, o ator e diretor Daniel Filho mora no Rio de Janeiro.

Roberto Orozco
Começou a trabalhar como ator no Teatro, em 1962, na peça “Quatro Num Quarto“. Dois anos depois já estava na TV Tupi fazendo o “Sítio do Pica- Pau Amarelo“, onde viveu o primeiro o Leão Medroso e depois o Relógio.
Viveu o Visconde de Sabugosa na versão do Sítio na TV Bandeirantes, em 1968
Passou pela TV Cultura, nos seus primeiros anos, quando a emissora ainda pertencia aos Diários Associados, onde participou de novelas de grande sucesso, depois pela TV Tupi e Bandeirantes, até chegar à TV Globo em 1972, onde interpretou o papel do boneco Gugu, em “Vila Sésamo” um grande sucesso nacional.
Também passou pela extinta TV Manchete e  além da televisão, fez diversos trabalhos no teatro e no cinema.
Morreu em São Paulo, no ano de 1989, aos 43 anos, vítima de linfoma.

Ewerton de Castro
Viveu o Visconde na adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a TV Bandeirantes, em 1967, na segunda turma de atores do programa na emissora.
No cinema, participou de mais de 25 filmes, dirigiu e atuou em diversos espetáculos teatrais e telenovelas. Recebeu o prêmio de melhor ator coadjuvante, pelo papel de Mário, no filme “Anjo Liro”, no Festival de Santos de 1973. 
Ewerton deixou a TV em 2010, e em 2014, aceitou estrelar a peça “O Amor Move o Sol e Outras Estrelas” na cidade de Cordeirópolis, no interior de São Paulo, onde mora, como forma de incentivar o teatro local.

UMA VIAGEM NO TEMPO COM A CENTENÁRIA EMÍLIA!

Assim como Narizinho, Emília também completou 100 anos em 2020 e para comemorar a data, nós tivemos uma mesa redonda muito bacana com @cleomonteirolobato recebendo a editora e roteirista de quadrinhos e organizadora do livro Emilia 100, @carolpimentel42 e a ilustradora Beatriz Farmia.

O bate-papo mediado pela curadora do evento @marisalmonson, tratou sobre a recriação de Emília por 10 artistas mulheres em um livro de 10 histórias em quadrinhos lançado por Pimentel, através da editora Skript e que pode ser comprado neste link: https://www.kerendo.com/livros/emilia-100-anos-9786580276202

A mesa-redonda “Emília 100, uma coletânea de contos ilustrados por mulheres reais” está disponível no canal do YouTube do Lobato com Você. Confira também o resumo dessa mesa redonda no nosso Blog.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=4HQz52Ee-1Y 

Leia: https://lobato.com.vc/2020/12/emilia-100-uma-coletanea-de-contos-ilustrados-por-mulheres-reais/

Da Tupi à Bandeirantes, conheça os principais Pedrinhos das primeiras versões do Sítio para a TV

Depois de um árduo trabalho de pesquisa, que contou com a inestimável colaboração do amigo e diretor do SBT, Jefferson Cândido, conseguimos identificar os principais atores que deram vida ao nosso Pedrinho nas primeiras versões do Sítio para a TV.

Caso você tenha outras informações, entre em contato com a gente.
A colaboração de todos que amam o Sítio do Pica-Pau Amarelo, é muito importante para esse resgate e para que a verdadeira história não se perca com o tempo.

Sérgio Rosemberg

Aos dez anos de idade, Sérgio já trabalhava no Teatro do Comerciário, embrião do atual Teatro do SESC Anchieta, na capital paulista. Viveu o primeiro Pedrinho na TV Tupi de 1952 a 1953.
Grande admirador da obra dramatúrgica de Martins Pena, viveu na ribalta o personagem Carlos da peça “O Noviço”, escrita pelo teatrólogo carioca, no Século XIX.
Abandonou a carreira de ator para se tornar médico pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC, em 1965.

Júlio Simões

O Segundo a viver Pedrinho na adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo na TV, foi Júlio Simões, em 1953.
Deixou a televisão e o teatro, que tanto amou, para fazer faculdade de direito. Em seguida, trabalhou por 40 anos no Cartório de Registro Civil e Tabelionato do Ibirapuera, em São Paulo, onde chegou à titular.
Apesar do sucesso profissional, longe da vida artística, Julinho Simões nunca esqueceu as grandes emoções que viveu ao lado dos colegas da TV Tupi.
Hoje mora na cidade de Catalão, no interior de Goiás, com sua esposa atual e o filho Bruno Cesar.

Silvio Lefèvre

Desde menino, Silvio Lefèvre gostava de arte. Foi bastante influenciado por seu avô materno Benjamin Fineberg, pioneiro de cinema no Brasil, que na época era representante da empresa americana: Metro Goldwin Mayer”.
O garoto Silvio era fascinado por cinema e arte, e o pai, o médico neurologista que atendia Lobato desde o seu primeiro AVC, Antônio Branco Lefèvre era amigo do também medico psicólogo Júlio Gouveia e de sua esposa Tatiana Belinky, que dirigiam o TESP – Teatro Escola São Paulo.
Um dia Tatiana, vendo o menino Silvio, com cerca de dez anos, disse: Esse é o Pedrinho que eu quero”. E o pai de Silvio não pode dizer não. Assim Silvio, após breve teste, assumiu o papel de Pedrinho na TV em 1953 até 1954.
Porém, temendo que a atuação artística prejudicasse os estudos do garoto, os pais de Sílvio acharam melhor que ele deixasse o programa.
Silvio ficou triste, mas obedeceu aos pais, continuou seus estudos, pensou em ser médico como o pai, prestou vestibular, entrou, mas se interessou por política e foi preso, em 1964, pela Revolução dos Militares, se refugiando posteriormente em Paris.
Embora tenha deixado o cinema e a TV, Silvio Lefèvre não esconde que sente saudade e emoção, ao lembrar dos amigos do TESP e da pioneira TV Tupi. Hoje sociólogo formado pela Université de Paris, casado com netos, editor e livreiro, mora em São Paulo, capital.

David José

David tinha acabado de se mudar para o bairro de Santo Amaro, em São Paulo, onde seus pais foram morar como caseiro em uma Chácara, quando se deparou com vários artistas da TV Tupi, que ali estavam gravando uma externa de novela e ficou encantado.
David convidou os atores Lia de Aguiar, Dionízio de Azevedo, Heitor de Andrade e Flora Geny para tomar café em sua casa e poucos meses depois, acompanhado de sua mãe, foi apresentado ao casal Tatiana Belinky e Júlio Gouveia, e deles recebeu o convite para atuar em um pequeno papel no seriado As aventuras de Tom Sawer”.
Não demorou muito para que ele fosse escolhido para fazer o Pedrinho na adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo, substituindo Silvio Lefèvre e interpretando esse papel até 1958.
Além de O Sítio do Pica-Pau Amarelo”, fez também o seriado infanto-juvenil Ciranda, Cirandinha”, escrito por Vida Alves. Já adulto, passou a integrar o elenco do Teatro de Arena de São Paulo. Trabalhou também em vários filmes e o primeiro deles foi O Sobrado”, adaptação e direção de Walter George Durst e Cassiano Gabus Mendes.
Morando em São Paulo, casado com filhos David escreveu o livro “
O Espetáculo da Cultura Paulista” onde investiga as raízes da criação artística e da produção cultural em São Paulo, tendo como ponto de partida a inauguração do Teatro Brasileiro de Comédia, em 1948, e a inauguração da PRF3 TV Tupi Difusora, a primeira emissora brasileira de televisão, em 1950.
Com o nime de David Jose Mattos ele escrevreu o livro fundamental “A TV antes do VT: Teleteatro Ao Vivo na TV Tupi de São Paulo (1950-1960)” .
David conta que ainda se emociona quando alguém, na rua o reconhece e o chama de Pedrinho, embora já tenham se passado 40 anos!

André Gouveia

Substituiu David José na Tupi de São Paulo, em 1958 e ficou no papel até 1960. Infelizmente não encontramos qualquer informação sobre o mesmo na internet.

Nagib Anderáos

Um dos primeiros telespectadores dos programas de Júlio Gouveia e Tatiana Belinky, na TV Tupi de São Paulo, como ele próprio se considera, Nagib fez vários pequenos papeis no teatro e na TV, até substituir André Gouveia (que interpretou o personagem em alguns poucos episódios, em substituição ao David José), no papel de Pedrinho, de 1958 a 1961.
Atuou ainda na segunda versão de ”Tom Sawyer”, também de Júlio Gouveia e Tatiana Belinky. Participou do ”TV de Vanguarda” e do ” TV de Comédia”, de Geraldo Vietri.
Passou ainda pela TV Excelsior, até largar a vida artística para se tornar engenheiro.

André José Adler

O ator, roteirista, diretor, locutor e comentarista de origem húngara, viveu Pedrinho na versão carioca do Sítio do Pica-Pau Amarelo, que estreou na TV do Tupi do Rio de Janeiro, em setembro de 1957. Ficou no papel por menos de seis e meses porque como estava crescendo muito rápido, precisou ser substituído por um ator bem mais jovem.
No ano seguinte, atuou em seu primeiro filme, "Pega Ladrão", do diretor italiano Alberto Pieralisi.
Posteriormente participou de diversas produções importantes para o cinema e televisão
Na televisão, foi para a área esportiva, onde ficou conhecido pelas jornadas na Espn International na década de 1990 e 2000 comandava as transmissões do futebol americano direto dos Estados Unidos.
Além de locutor esportivo, André foi compositor, diretor de teatro, cinema e televisão.
Morreu em 2012, aos 68 anos.

Paulo Benchimol

Substituiu André José Adler na adaptação do Sítio para a TV Tupi do Rio de Janeiro, em 1958 e ficou no papel até o fim do programa na emissora carioca. Infelizmente não encontramos mais informação sobre o mesmo na internet.

Haylton Faria

Junto com Nagib Anderáos, interpretou o Pedrinho na versão do Sítio na TV Cultura, em 1964.
Ainda muito cedo se destacou como astro infantil e formou um currículo artístico respeitável.
Fez teatro, cinema e televisão onde atuou em diversas novela de sucesso, como ‘Explode Coração’, ‘Torre de Babel’, ‘Laços de Família’ e ‘O Clone’, entre outras.
Ator, diretor, escritor e produtor, além de psicólogo, Hayton ainda está na ativa.

Mauro Tach

Foi o primeiro a viver o Pedrinho na TV Bandeirantes, em 1967, mas infelizmente, assim como aconteceu com outros atores nessa fase, os registros históricos se perderam no grande incêndio que atingiu a emissora em 1969. Também não encontramos nenhuma informação sobre a bibliografia do ator.

Roberto Campos

Uma história inusitada marcou a escolha do Roberto para o papel de Pedrinho na versão do Sítio na TV Bandeirantes, em 1967.
Em março daquele ano, ele foi até a sede da emissora em São Paulo, em busca de um estágio em eletrônica.
Enquanto aguardava para ser atendido, ele foi guiado para uma outra sala, onde foi confundido com as crianças que estavam ali, naquele dia, para fazer um teste para o papel de Pedrinho.
Entre os participantes, Roberto e mais uma criança (Otavinho) foram selecionados para o teste final. De acordo com o próprio Roberto, os dois não conseguiram desenvolver seus textos na frente do Julio Gouveia, Zodja Pereira e Ewerton de Castro, que estavam ali para avaliar a atuação de ambos. Sem que soubessem, Júlio e Ewerton combinaram de deixar as crianças mais a vontade com Zodja e ela organizou uma improvisação entre eles. Quando Júlio e Ewerton retornaram à sala, uma leve piscadela de Zodja em direção ao Roberto, indicava que ele havia sido escolhido, mas Otavinho também ganhou um papel na adaptação: o de Rabicó.
Depois do Sítio, por seu biotipo magro e rosto jovem, fez várias peças infantis até se apaixonar por sua primeira esposa, Isilda. Vendo que não teria recursos para casar e ter sua própria família ao lado de sua amada, decidiu deixar a vida artística.

Hoje, além de empresário do ramo de informática, é também terapeuta.

 

Primeira boneca Emília foi sucesso de vendas em 1954

Com o grande sucesso da primeira adaptação do Sítio na TV Tupi de São Paulo, a Mesbla, maior rede de lojas de departamentos do Brasil na época, lançou em 1954, a primeira boneca Emília, inspirada na atriz Lúcia Lambertini que foi a primeira a interpretar a boneca de pano na televisão.

Era uma boneca com cerca de 45 cm de altura, cabeça, braços e pernas de feltro e corpo todo de tecido, vendida exclusivamente nas lojas Mesbla de todo país.

Um dia antes de ser lançada oficialmente, a Mesbla anunciou que no dia seguinte a boneca estaria a venda.
Para se ter uma ideia do glamour daquele momento, no dia do lançamento, a boneca desembarcou no aeroporto de Congonhas, em São Paulo em um avião da companhia aérea VASP, acompanhada de uma aeromoça para definitivamente encantar todos os fãs.

Todo marketing feito pela empresa para o lançamento da boneca, provocou uma grande correria para a frente das lojas Mesbla espalhadas pelo país e longas filas se formaram logo cedo, de famílias para comprar a boneca.

Diante de todo esse alvoroço, o estoque não foi suficiente e as bonecas se esgotaram em pouco tempo, em todas as lojas da rede no Brasil, no primeiro dia de vendas!

Com a exposição na televisão, toda criança queria uma boneca Emília para chamar de sua, transformando assim, a primeira boneca Emília em um grande sucesso comercial.

Reflexões sobre as obras ‘A Menina do Narizinho Arrebitado’ e ‘Reinações de Narizinho’

Interressantissima esse bate papo mediado pela doutora em Educação @soniamariatravassos, com @cleomonteirolobato e os escritores e especialistas na obra lobatiana, @marisalajolo, @cilzabignotto e @alexandredecastrogomes.

Castro Gomes iniciou a discussão fazendo um panorama sobre a literatura infanto-juvenil no Brasil, apontando a relevância e a inovação que Lobato trouxe à área ao trazer ilustrações e conquistar as crianças. “O Lobato não inventou a literatura infantil brasileira, mas ele fez as crianças gostarem”, afirmou o escritor.
Temas importantes foram analisados nesse encontro, como a importância de Lobato para a literatura infanto-juvenil no Brasil, que provocaram a interação dos espectadores, em torno de algumas questões curiosas, como por exemplo: qual conselho Lobato daria para os editores diante da atual crise no mercado editorial.
Vale a pena conferir esse bate papo, no canal do YouTube do Lobato com Você. No nosso blog também tem um resumo dessa mesa redonda.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=nUJcGECPh2o&t=66s

Leia: https://narizinho100anos.com/2020/12/a-importancia-socioeconomica-politica-e-cultural-de-a-menina-do-narizinho-arrebitado-e-reinacoes-de-narizinho/

100 ANOS DE NARIZINHO; ROMPENDO AS FRONTEIRAS DO IDIOMA

As professoras de tradução e tradutoras @vansantanadezmann e @letigoellner; e o aluno do curso de tradução da Universidade Johannes Gutenberg (Alemanha) Silvano Loureiro Pinto, foram os convidados de @cleomonteirolobato, para uma das mesas de bate papo mais importantes do evento comemorativo ao centenário Narizinho, em dezembro de 2020.


Em pauta, as traduções e adaptações de "Reinações de Narizinho" para o Alemão, Espanhol e o Ingles.  As participantes falaram de detalhes complexos como o fato de que Lobato escrevia em “Caipirês” ou seja linguagem caipira, e as dificuldades de se adaptar esse estilo alem dos títulos e nomes de personagens para outras línguas 

Um tema pra lá de interessante que despertou a curiosidade dos espectadores, que quiseram saber, entre outras coisas, sobre como foi lidar com as palavras inventavas por Lobato, expressões e nomes de frutas tropicais, como a jaboticaba alem do humor especifico do autor.

Se você não viu ou quer rever esse bate papo, acesse o canal do YouTube do Lobato com Você. Para ler o resumo dessa mesa redonda acesse o nosso Blog..


Assista: https://www.youtube.com/watch?v=KZCbmfkjacs&t=128s

Leia…https://lobato.com.vc/2020/12/traduzindo-reinacoes-de-narizinho/

RETROSPECTIVA: O CENTENÁRIO DE NARIZINHO! VOCÊ PERDEU?

Há exatamente um ano, com um mega evento virtual, realizado entre os dias 4 e 6 de dezembro de 2020, celebramos os 100 anos de Narizinho!

Sucesso absoluto, com mais de 600 inscritos, essa grande celebração do centenário do livro A Menina do Narizinho Arrebitado, a primeira obra infantil de Monteiro Lobato, foi organizada pela bisneta do autor, Cleo Monteiro Lobato (@cleomonteirolobato), com uma curadoria de peso:

> Mari Salmonson (@marisalmonson), ilustradora, artista e muralista, que somou ao projeto sua experiência com eventos, trazendo, ainda, o estilo de sua arte e o olhar artístico; 

> Sônia Travassos (@soniamariatravassos), Mestre e Doutora em Educação, com mais de 14 livros publicados, especialista em Lobato desde a sua dissertação de mestrado, dinamizadora de leitura, e contadora de histórias; e tem também o canal de contacto de historias @casasdehistorias

> Mônica Martins (@monicatpmartins), jornalista e escritora, Monica iniciou sua paixão por Lobato em 1999 com a Cia das Mães em Niterói. Monica abriu sua própria editora em 2018 a MOMA editora.

A programação teve desde contação de histórias pela manhã e três mesas redondas por dia que envolveram a temática da obra de Monteiro Lobato durante três dias!

Foram tratados temas como a evolução dos personagens de Lobato, as traduções atuais que estão sendo feitas de sua obra pelo mundo, a relação de Lobato com a educação de hoje, a influência que Lobato teve nos maiores escritores da atualidade.

Além disso tivemos 4 exposições de arte, que falaremos num outro post pois foram incríveis!

VIVA A NOSSA CENTENÁRIA NARIZINHO!

Se você perdeu, para recordar o evento acesse o link:

“100 Anos de Narizinho” tem origem na conexão e na união das curadoras

https://lobato.com.vc/2020/11/conheca-a-curadora-sonia-travassos/
https://lobato.com.vc/2020/11/conheca-a-curadora-monica-martins/
https://lobato.com.vc/2020/11/conheca-a-curadora-mari-salmonson/

A pequena grande Lucia Lambertini, nossa primeira Emília!

Graciosa, alegre, baixinha e muito expansiva, a atriz Lucia Lambertini, aparentava menos idade do que tinha, encaixando se bem tipo físico ideal para boneca de pano Emília.
 
Quando a TV Tupi foi inaugurada, em 1950, a atriz Lúcia Lambertini já tinha amizade com o casal Tatiana Belinky e Júlio Gouveia, que começaram as tratativas para lançar os programas infantis na televisão, o que se concretizou em 1952.
 
Sempre expansiva e alegre, Lúcia tinha talento e o tipo físico que se encaixava como uma luva no papel de Emília, a boneca de pano da obra de Monteiro Lobato, na primeira adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a TV Tupi de São Paulo.
 
Entre 1955 e 1956, como o programa original era transmitido apenas em São Paulo, a TV Tupi produziu uma versão em sua sede no Rio de Janeiro com um elenco diferente.
 
Apenas Lúcia permaneceu no papel de Emília, viajando semanalmente para aparecer nas duas versões
 
Lúcia Lambertini intercalou seus trabalhos de atriz, aos de redatora de novelas e produtora de programas de TV. Se casou com o diretor e produtor Hélio Tozzi. Faleceu em agosto de 1976, aos 50 anos de idade.  
 
A atriz Dulce Margarida substituiu Lúcia Lambertini por duas vezes no Sítio, nas ocasiões em que a atriz precisou ficar afastada da série, quando se casou e quando ficou grávida. Ficou definitivamente na série que era exibida para São Paulo, quando Lúcia decidiu se mudar para o Rio de Janeiro.

Da casa de Lobato para a pele da primeira Tia Nastácia na TV!

Acho que nem nos seus sonhos, Benedita Rodrigues poderia imaginar que faria história ao se tornar a primeira atriz a dar vida a Tia Nastácia na primeira adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a TV Tupi de São Paulo, entre os anos de 1952 e 1963.

Após a morte muito cedo de sua mãe, Gabriela, Benedita foi morar na casa da mãe de Purezinha, D. Brazilia.  As meninas tinham a mesma idade e ficaram muito amigas. Purezinha e Bendita cresceram e Benedita foi trabalhar na casa de Purezinha após seu casamento com Lobato.

Lá, Benedita se casou e teve sua filha Aparecida, que cresceu junto com minha mãe Joyce e mais tarde se tornou a primeira bailarina negra do Brasil a ir para a Europa.

Benedita, que não era atriz, era uma exímia cozinheira e famosa entre os amigos de Lobato.

Mais tarde após a morte de Lobato, Julio Gouveia e Tatiana Belinky que a conheciam da época que frequentavam a casa do meu bisavô, a convidaram para o papel de Nastácia no filme Saci e em seguida para a adaptação na TV.

Nessa primeira versão do Sítio na TV, Benedita foi a única a interpretar Tia Nastácia por onze anos

Na extinta TV Excelsior, o canal 9 de São Paulo, trabalhou em “O Terceiro Pecado”, novela de Ivani Ribeiro, em 1967 e também participou do elenco de “A Gata”, na TV Tupi em 1964.

Depois de sua careira na TV Benedita trabalhou muitos anos no Correio e continuou amiga da família até falecer em 1984. Sua filha Aparecida, 83 anos, continua nossa amiga e falando regularmente com sua amiga de infância, minha mãe Joyce. Ela é uma das minhas maiores fãs no Instagram.

Vocês sabem como nasceu a primeira adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a televisão? Não? Clica no link e vem comigo!

O casal Júlio Gouveia e Tatiana Belinky, conheceu e desenvolveu uma relação de amizade com Monteiro Lobato, em meados dos anos 1940, período em que Júlio escrevia críticas literária e de artes.

Alguns anos mais tarde o casal desenvolveu um programa de peças de “teatro infantil”, patrocinado pela prefeitura São Paulo, que deu origem ao TESP – Teatro Escola de São Paulo, voltado para o público infantil.

Quatro anos após a morte de Monteiro Lobato, Júlio e Tatiana foram convidados por diretores da TV Tupi de São Paulo, para levar suas peças para a televisão.

 

Primeiro fizeram um pequeno programa chamado Fábulas Animadas.

Depois a Tupi pediu um programa num formato maior e imediatamente Júlio e Tatiana decidiram que tinha de ser uma adaptação de O Sítio do Pica-Pau Amarelo, a obra do amigo Monteiro Lobato. Foi um sucesso!

Nascia assim a primeira adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a televisão, que misturou artistas profissionais e amadores, filhos de amigos do casal.

Na TV, o Sítio recebeu o formato de teleteatro seriado ou “novelinha”, mesmo contra a vontade de Júlio e Tatiana, que sempre repudiaram a classificação do programa como “novelinha”, por entenderem que esse gênero era desprovido de valores cultural e educativo.

Nessa primeira adaptação para a TV, as histórias do Sítio do Pica-pau Amarelo apresentavam valores e questionamentos que não estão presentes na obra original.

Também foi impossível reproduzir na tela, em primeiro lugar, as descrições de Lobato da abundante fauna e flora do sudeste brasileiro, descrita pelo autor na casa do sítio.

Referências visuais a esses elementos que compõem as descrições de Lobato em seus livros, tiveram que ser improvisadas, substituídas ou suprimidas, para atender as precárias condições de um estúdio de TV daquela época. O cenário consistia somente de uma varanda onde tudo acontecia.

Por exemplo, uma parede com um cenário pintado substituía a floresta, onde Pedrinho encontrou proteção quando perseguido por uma onça. Grama e arbustos retirados de um terreno baldio próximo ao estúdio representavam o jardim e o pomar do Sítio descrito por Lobato. Ao fundo, um cenário de montanhas pintadas num grande painel, colocado atrás da varanda de cenário produzida para o programa, tentava dar uma aparência de cena externa.

Os episódios sempre começavam com Júlio Gouveia abrindo um livro para contar uma história. Júlio encerrava cada episódio fechando o Livro e dizendo a frase: “Entrou por uma porta, saiu pela outra, e quem quiser que conte outra!”

Assim, o Sítio se tornou um grande sucesso, atraindo patrocinadores e transformando a série no primeiro programa a utilizar a técnicas do merchandising na TV brasileira.

As histórias não tinham interrupção para o intervalo comercial, porque Júlio como psicólogo e educador, achava inadequado contar uma boa história e interromper na melhor parte para promover um produto qualquer.

Por isso, durante os diálogos ou cenas com os atores fixos, eram introduzidas divulgações de produtos como Vitaminas, Bolos, Biotônico Fontoura e Kibon. Assim o programa durou 13 anos.

Júlio Gouveia morreu em 1989, aos 75 anos, vítima de um infarto agudo.

Tatiana Belinky nos deixou em 2013, aos 94 anos de idade.

 

O casal sempre reconheceu a importância de Lobato, como o precursor da literatura infantil, destacando o fato dele entender que criança não é bichinho de estimação, que criança é gente e gente muito inteligente, muito digna de respeito, com muito senso de humor.

 

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REFERÊNCIAS:

https://www.extraclasse.org.br/geral/2010/07/crianca-nao-e-bicho-de-estimacao/

https://tatianabelinky.wordpress.com/biografia/

http://www.elencobrasileiro.com/2014/11/julio-gouveia.html

Depoimento do primeiro (verdadeiro) Pedrinho na TV: Antonio Silvio Lefèvre

Vejam só como eu virei Pedrinho na primeira versão do Sítio do Picapau Amarelo, que foi na TV Tupi de São Paulo, a primeira emissora de TV do Brasil, recém-inaugurada.  Era então 1953, eu tinha 10 anos de idade, e o casal Julio Gouveia e Tatiana Belinky, grandes admiradores de Lobato, tinham começado há pouco a levar o Sítio na TV.  Eles eram muito amigos de meu pai Antonio Branco Lefèvre (que tinha sido médico de Lobato) e de minha mãe, Dorothy Fineberg. Tatiana e Julio tiveram que começar do zero, criando uma escolinha de teatro para crianças (Teatro Escola São  Paulo), pois não havia então atores infantis disponíveis. Para arranjar alunos, convidaram os filhos dos amigos… E foi assim que treinaram lá um Pedrinho para os primeiros episódios da série e que, na verdade, não fui eu… mas sim o Sergio Rosemberg, filho de outro amigo do casal.  Mas não deviam estar gostando muito da atuação dele porque logo começaram a procurar outro para o papel. E um belo dia, em visita à nossa casa, Tatiana olhou bem para mim e para meus pais e disse: “Esse é o Pedrinho que eu quero”. Assim, após um breve teste, eu me tornei, de fato, o primeiro Pedrinho “de verdade”, pois fiquei por um ano no papel. Meus pais logo tiveram que comprar um aparelho de TV, pois não o tinham. Aliás, quase ninguém tinha TV na época, pois eram importadas, custavam muito caro… e não havia quase nada para assistir… Eu me espantava ao notar que nenhum colega da minha classe, no Mackenzie, tinha me visto na TV. Eles tinham um colega que, se fosse hoje, seria uma celebridade, e nem sabiam…

Para o papel de Narizinho o casal Gouveia logo tinha encontrado uma ótima intérprete, a Lidia Rosenberg,  que apesar do sobrenome quase igual, não era parente do Sergio Rosemberg e sim filha de outro amigo da família. Para os papéis mais difíceis eles conseguiram atores profissionais, mais experientes. Isto porque a TV era ao vivo e não se podia errar muito… Em primeiro lugar para o papel da boneca Emília, que foi brilhantemente interpretado pela atriz de teatro Lucia Lambertini…  e também para os de Dona Benta (Suzy Arruda), de Tia Nastácia  (Zeni Pereira) e de todos os outros, até do Saci Pererê, interpretado pelo mesmo Paulo Matozinho que fez este papel no filme “O Saci”, da Cinematográfica Maristela, cujo diretor era meu avô materno, Benjamin Fineberg.

Mas para os papéis coadjuvantes, como os convidados para as festas no Sítio, que deviam ser crianças, os Gouveia continuavam a apelar para os seus próprios filhos (Ricardo e André), para os filhos dos amigos e os irmãos e amigos deles, como meu irmão Fernando, que cuspiu fora, ao vivo, a (horrível….) marmelada marca Peixe que patrocinava o programa… e meu irmão menor Marcelo que, fantasiado de anjinho para o episódio da viagem ao céu e com medo da altura, gritou, desesperado, ao vivo: “Socorro, me tirem daqui!”.  E logo foi substituído como anjinho pela menina Lia Rosenberg, irmã da Narizinho…. Até meu amigo de infância, o depois cineasta Jorge Bodanzky, veio num episódio, fantasiado de mexicano.

Este Pedrinho que eu era adorava os ensaios no TESP e as apresentações ao vivo na TV. Nos ensaios eu conheci Verinha Darci, mais novinha que eu, e que logo ficou famosa como intérprete do seriado "Pollyanna”, também dirigido pelos Gouveia e que teve um enorme sucesso. Tanto que meu avô Benjamin a convidou para umas férias no Grande Hotel de São Pedro, que ele administrava, como forma de atrair mais hóspedes. Ele anunciava que “Pedrinho e Pollyana estarão no hotel!”… E nos estúdios eu conheci de perto outros artistas que por lá atuavam, alguns já começando a ficar conhecidos… como o Lima Duarte, que mal podia adivinhar que um dia viria a ser considerado como o melhor ator da TV brasileira de todos os tempos….

Tudo maravilhoso, eu já com um ano de “carreira” (1953/54), com o caminho aberto para me tornar um ator, quem sabe até “global” nos anos que viriam… quando minha mãe resolveu me tirar da TV… “Esse negócio de televisão está atrapalhando os estudos do menino”, disse ela, complementando: “E para que serve isso se ninguém tem esse aparelho de TV em casa? Melhor ler os livros de Lobato…”
Para o papel de Pedrinho, Julio e Tatiana arranjaram um  substituto imediato, Julinho Simões, que não deu certo, mas logo tiraram a sorte grande, botando como Pedrinho o David José, ator super talentoso, que lá ficou até o final do Sítio na Tupi. Ele sim, ficou famoso de verdade e com muita justiça! 
 

A REVOLUÇÃO DO FOLCLORE ATRAVÉS DE MONTEIRO LOBATO

O Saci-Pererê é a entidade mais conhecida do folclore brasileiro. Um menino negro e travesso que tem apenas uma perna. A origem da lenda caracteriza a miscigenação entre as culturas indígena, africana e europeia. A lenda mais popular fala sobre um ser pequeno que protege a selva. Pode ter os olhos vermelhos, é careca e usa um gorro vermelho. Normalmente está fumando um cachimbo.

A princípio, o Saci era narrado como um garoto indígena, muito travesso, que tinha um rabo, duas pernas e pele morena. Essas características faziam parte do imaginário das tribos indígenas da região sul, de origem tupi-guarani, local onde surgiu a lenda do Saci-Pererê.

Considerações sobre a origem à parte, ele está sempre aprontando e algumas de suas travessuras mais comuns são o ato de trançar as crinas e rabos dos cavalos e azedar os alimentos. Ele tem um assovio estridente e dificilmente você vai encontrá-lo por aí. Talvez poderá caçá-lo em um redemoinho e prendê-lo em uma garrafa. Se assim o fizer, poderá roubar-lhe o gorro vermelho, fazendo com que o pequeno atenda seus pedidos.

Tudo isso é familiar para você? Então continue a leitura para entender um pouco mais sobre a importância dessa lenda.

A lenda surgiu no final do século XVIII e se espalhou pelo país ao longo do século XIX. A história, provavelmente, começou na região Sul e se tornou conhecida em todo o país e também em outros países da América do Sul, sofrendo algumas variações. A lenda era bastante conhecida no interior do país, mas não passava muito disso.

E a história poderia parar por aí, não fosse Monteiro Lobato fazer parte de um grupo de intelectuais nacionalistas que estudavam as características culturais de cada canto do país e o cotidiano dos mesmos. Esse grupo buscava maneiras de dar um tom brasileiro para tudo aquilo que fosse possível, fugindo da influência de outros países. E durante esses estudos, Lobato decidiu entender um pouco mais sobre o Saci-Pererê tão conhecido no interior do Brasil.

Até então, ele trabalhava como crítico sociocultural, escrevendo sobre o caboclo e tudo o que envolvia o lado mais interiorano do país. No ano 1916, ele publica o texto “A poesia de Ricardo Gonçalves”, na Revista do Brasil. Nesse trecho, é possível compreender quais eram suas intenções:

“Pelos canteiros de grama inglesa há figurinhas de anões germânicos […] porque tais nibelungices, mudas à nossa alma, e não sacis-pererês, caiporas, mães d'água e mais duendes criados pela imaginação do povo?” (LOBATO, 1916, p. 299).

Através do seu inconformismo com a falta de identidade do Brasil, surge a ideia de explorar mais a fundo a lenda brasileira do Saci-Pererê. E, no começo de 1917, Lobato realizou um inquérito no jornal "O Estado de São Paulo" – na versão vespertina chamada "Estadinho", mais especificamente – sobre o Saci. A ideia era colher as respostas dos leitores acerca das versões da lenda.

Monteiro Lobato recebeu dezenas de respostas, encorajando-o a fazer, em seguida, um “Concurso de pintura e escultura”, visto que o inquérito despertou algo em sua alma. Como essas primeiras ações foram um verdadeiro sucesso, Lobato se lança em sua primeira aventura editorial, publicando "O Saci-Pererê: Resultado de um Inquérito". O livro teve duas edições esgotadas em menos de um ano, com uma tiragem de 7.300 exemplares (Lobato, 1944, p. 371; Cavalheiro, 1955, p. 192). O saci entra, definitivamente, para o hall da fama do imaginário brasileiro.

No ano 1921, a obra "O Saci" é criada para o público infantil, norteando, de vez, a carreira do pai da literatura infantil. E toda essa inquietude de Lobato mostra um homem múltiplo, que articula várias ações em torno de uma ideia. Excelente jornalista, crítico sociocultural, editor, escritor e publicitário.

Nessa altura, o pequeno menino negro de gorro vermelho já encantava o país através de histórias cheias de magia e imaginação, um prato cheio para as crianças da época que mal tinham com o que contar, em termos de literatura.

Monteiro Lobato conseguiu dar voz ao folclore nacional, enriquecendo ainda mais a cultura nacional. Sem dúvida, ele foi o grande responsável por popularizar a lenda do Saci em todo o país. Certamente ficaria muito feliz se pudesse viajar no tempo e ver que o Saci-Pererê ganhou uma data exclusiva – 31 de outubro – batendo de frente com a imensa fama do Halloween estrangeiro.

Lobato não apenas transformou o Saci na lenda mais popular do Brasil, como também trouxe para todos diversas outras lendas, como a Iara, o Curupira e tantas outras entidades que carregam as histórias de um Brasil continental e diverso.

Claro que muito ainda precisa ser feito para a popularização da data. Mas esse é um assunto para um próximo artigo. Hoje, basta termos consciência que Lobato mudou o destino do Saci (ou o Saci mudou o destino de Lobato?). No dia 31 de outubro, comemore o Dia do Saci, esse menino travesso que encantou e encanta os corações de incontáveis gerações.

Dia Nacional do Livro e Semana do Saci. Quer combinação melhor para Lobato?

Livro e Lobato, mais do que começar com a mesma letra, possuem histórias em comum. Eu adoraria contar a importância de Lobato na produção e distribuição de livros no Brasil, mas o Instagram não suporta tantas letras. Então, de forma resumida: o que Lobato fez pelos livros é visto como um divisor de águas. Ele inovou, modernizou e ampliou as arcaicas práticas editoriais e promoveu a popularização da leitura.

E já que é Semana do Saci, vale a pena conhecer essa passagem: Passeando com um amigo pelo Jardim da Luz, surgiu o assunto "folclore brasileiro". Lobato estava focado em tornar o Brasil uma nação orgulhosa de suas raízes, como seu folclore. Observando os anõezinhos e outros gnomos que enfeitavam o jardim, comentou com o amigo que deveriam trocá-los por estatuetas de outros entes verdadeiramente brasileiros.

Surge a ideia de fazer uma pesquisa em 1917, com o título "Mitologia Brasílica”. Lobato lança no "Estadinho", edição do "O Estado de São Paulo", uma pesquisa sobre o Saci-Pererê, entidade com raízes num mito tupi-guarani surgido há mais de 2 séculos. O material coletado revelou que o Saci também veio ao Brasil através de histórias africanas trazidas pelos ex-escravizados e passou por transformações caboclas.

Choveram cartas que vinham do país todo. Lobato aplicou uma técnica inédita de coleta de dados e diante da diversidade do material recebido, surgiu o livro "O Saci-Pererê – Resultado de um Inquérito", no inicio de 1918. O saci despertou a consciência e a autoestima do povo brasileiro, pois como diz Lobato no epílogo deste livro: ”revelar onde e o como se hão de buscar os elementos de estudo e compreensão de nós mesmos”. Isso é nossa essência. Isso é ser verdadeiramente brasileiro.

Apesar de assinar o livro somente com suas iniciais, podemos considerá-lo o primeiro livro do escritor, precedendo Urupês. Então comemore o Dia do Livro lendo "O Saci-Pererê – Resultado de um Inquérito" que mostra um Brasil que acompanhava os horrores da 1ª Guerra Mundial e se descobria como nação!
E se você quer ter acesso às obras de Lobato, conhecer sua história e se atualizar acerca do que acontece atualmente, acesse o site www.monteirolobato.com o link está na BIO!

Você conhece a origem da lenda do Saci?

O folclore brasileiro é rico, diverso e é possível encontrá-lo durante todo o ano, em todos os cantos. As lendas que estruturam esse folclore são verdadeiros patrimônios. E, sem dúvida, o Saci-Pererê é a lenda mais famosa de todas, que teve início no Sul do Brasil, influenciada por elementos das culturas africana, europeia e indígena. E, claro, teve a imensa influência de Monteiro Lobato.

O ser mítico que mora nas florestas é conhecido por ser travesso e estar sempre aprontando com pessoas e animais. Na maior parte das histórias, ele é pequeno, negro, tem uma perna só, usa um gorro vermelho que lhe dá poderes e fuma um cachimbo. Muitas histórias usam a expressão “endiabrado” para designá-lo, visto que é um menino agitado e viciado em travessuras.

Não existe apenas um Saci. Eles são muitos aprontando com cavalos, fazendeiros e viajantes que encontram por onde passam, deixando-os com os cabelos arrepiados com seu assovio estridente. E tem muita gente que jura, até os dias de hoje, que já encontraram o menino brincalhão por aí, armando mais alguma de suas travessuras.

Os contadores de histórias sempre enfatizam que ele mora no redemoinho e que é possível capturá-lo. Para isso, basta jogar uma peneira no meio do redemoinho. Em seguida, é preciso retirar o gorro de sua cabeça para que ele perca os poderes. Por fim, tem que prendê-lo em uma garrafa com uma cruz desenhada nela.

Muitas histórias apontam que o Saci vive cerca de 77 anos e, após esse espaço de tempo, se transforma em um cogumelo venenoso ou um cogumelo que pode ser encontrado nos troncos das árvores, os chamados “orelha-de-pau”.

Os folcloristas falam que a sua lenda é recontada desde o final do século XVIII ou começo do século XIX e começou na região Sul do Brasil entre os índios guarani que o chamavam de "çaa cy perereg". A lenda ficou tão famosa que se espalhou pelos países vizinhos. Na Argentina, Uruguai e Paraguai, por exemplo, ele é chamado de "yacy-yateré" e cada região conta histórias carregadas de suas próprias características.
Os folcloristas também apontam diversas lendas europeias que podem ter influenciado a lenda do Saci, como o trasgo, um ser pequeno que faz maldades com os portugueses. O cachimbo viria das culturas indígena e africana e a perna única viria da cultura africana, já que – para eles – o Saci perdeu a perna em uma luta de capoeira.

Em sua origem, o Saci protege as florestas e ele ficou imensuravelmente famoso através de Monteiro Lobato que, em 1917, fez o inquérito que eu falei a respeito dia desses. Aliás, se perdeu, volta o feed uns dias que você vai entender a importância desse inquérito que contou com um retorno muito maior do que se esperava e, ali, iniciava a parceria Monteiro Lobato – Saci-Pererê.

Mas vale lembrar que Lobato não apenas deu voz ao Saci, como também mostrou ao mundo todos os outros personagens do folclore nacional como a Iara, o Curupira e tantos outros que carregam nossa história de forma lúdica, gerando emoções em crianças de todas as idades. Mas essa é uma história para outro post.

Dia Nacional do Livro: Monteiro Lobato e a Evolução da Literatura Infantil

A Literatura Infantil no Brasil começou na segunda metade do século XIX. A forma como as histórias eram passadas de geração em geração, acontecia através das histórias contadas e recontadas por pessoas chamadas de “preto velho”. O apelido carinhoso indica os “contadores de histórias” tão necessários em diferentes âmbitos. Outro exemplo de histórias que atravessaram as décadas, é o folclore gaúcho com o Negrinho do Pastoreio e as histórias que vieram da Europa como os "Contos da Carochinha".

Em 1921, Monteiro Lobato presenteia o país com o livro “Narizinho Arrebitado”. Com uma técnica literária impecável, a maneira como as histórias são contadas para as crianças ganham um tom lúdico ideal para conscientizar sobre o mundo. Lobato deu as diretrizes para as próximas gerações de escritores que trabalhavam e trabalham com a Literatura Infantil.

Ele criou um universo encantador que atraía crianças de todas as idades. O folclore, o nacionalismo, a linguagem, os comportamentos e a relação com a natureza podem ser considerados as espinhas dorsais de toda sua obra. E Lobato já deu voz aos contadores de histórias, criando o sábio Visconde de Sabugosa.

Em 1931, "Narizinho Arrebitado" se transforma em "Reinações de Narizinho". Nos anos 60 e 70 a Literatura Infantil se torna pauta séria, e as instituições começam a entender a importância da leitura e do livro infantil para as crianças. A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil foi uma dessas instituições que lutou pelo envolvimento das crianças com a literatura.

Com a valorização da criança, surgem os textos adaptados a elas e até mesmo os livros adultos tomam forma de livros infantis, marcando o início da formação de leitores ainda com pouca idade. Foi criado, então, um Tratado de Pedagogia, que assegurava a educação infantil e adulta. A educação perde sua inocência e a escola passa a ser atuante na formação dos cidadãos.

E claro que com um maior número de leitores, surge a necessidade de mais e mais livros para as crianças. Como elas possuem um foco que facilmente muda de direção, os livros tinham que chamar a atenção, baseadas no mundo do faz-de-contas. E Monteiro Lobato conseguiu conciliar todas as necessidades dos pequenos.

Através do seu universo imaginário, Lobato leva até as crianças os fatos políticos-econômicos-sociais que envolviam a vida, naquela época, no Brasil. Um exemplo é o mais famoso de todos, “O Sítio do Picapau Amarelo”, que mostra através de livros como "O Poço do Visconde" a sua revolta com a maneira como acontecia a exploração do Petróleo na época.

Através de suas personagens cativantes, Lobato dizia tudo aquilo que sentia que precisava dizer de uma maneira que não expunha sua imagem. A Emília, por exemplo, é a voz do escritor contestador e que sempre procura maneiras de reinventar não apenas a natureza, mas todo o planeta.

Com Dona Benta, Tia Nastácia, Tio Barnabé, Pedrinho, Narizinho, Emília, Visconde de Sabugosa, Quindim e Rabicó, Lobato formou diversas gerações com um senso crítico muito mais apurado do que as crianças que, até sua reestruturação, não compreendiam o mundo da mesma maneira que as que vieram após o escritor.

O folclore nacional ganhou palco e respeito. Seres fantásticos como o Saci, a Cuca, a Mula-sem-cabeça, a Iara, o Lobisomem e tantos outros levam os leitores a conhecerem mais da cultura brasileira e a importância dos cuidados com a natureza. Toda obra que gera magia e sonhos, é caracterizada como Literatura Infantil. E Lobato fez com grande competência.

Hoje em dia, essa magia se perdeu. Temas polêmicos e personagens sem nenhum encantamento invadem os livros das crianças. Sendo assim, é fundamental sair em defesa de um sítio mágico, com boneca falante e sabugo de milho que conta histórias. Onde tem menino tão explorador quanto Marcopolo e uma vovó sempre disposta a amar e cuidar.

Monteiro Lobato é considerado o pai da Literatura Infantil brasileira e não poderia ter um "título" diferente. Seus livros eram verdadeiras moradas, cheias de revoluções e lições para todas as pessoas do mundo. Foram mais de quatro mil e seiscentas páginas somente para as crianças. Uma obra-prima que merece todo o reconhecimento.

Se comunicar com crianças é como se comunicar com adultos, dadas as devidas proporções. As ideias precisam ser transmitidas, as mensagens precisam ser passadas mas com complexidade diferente. É assim que se formam seres humanos. A literatura precisa causar sensações, emoções, imaginações em todos. Em especial, no que tange as crianças, elas precisam tocar o coração, cumprindo a função verdadeira da Literatura.

Por mais Lobatos para esses pequenos humanos que, com as diretrizes corretas, vão transformar o mundo em um lugar muito melhor e mais justo para todos.

Acervo inestimável precisa de restauro e digitalização

A Seção de Bibliografia e Documentação da Biblioteca Infanto- Juvenil Municipal Monteiro Lobato, situada na Vila Buarque, em São Paulo, abriga um acervo de valor imensurável da literatura infantil e juvenil brasileira. E é, sem dúvidas, uma das principais referências para estudiosos da área.

Entre os seus 85 mil volumes que compõem os acervos de preservação (em média), existe um dos mais preciosos acervos de Monteiro Lobato, com cerca de 10 mil itens. 

Nele, é possível encontrar a primeira edição de livros, cadernos com anotações à mão pelo próprio escritor, fotografias, mobiliário, objetos pessoais e correspondências que mostram momentos da vida e obra de Lobato. 

E além de todo esse material, também se encontram alguns itens feitos por Dona Purezinha, esposa de Lobato. Um exemplo, são os recortes de todos os artigos de jornais e fotos que foram publicados durante a vida de Lobato.  Esses álbuns estão em mau estado de conservação e necessitam urgentemente de restauro e digitalização feitos por especialistas para não causar ainda mais danos. A maioria dos itens foram doados pela família mediante o compromisso  da Instituição de preservar as doações.

Nesta seção, ainda é possível encontrar o Acervo Histórico de Livros Escolares (AHLE), com aproximadamente 5 mil itens. Nele, encontram-se cartilhas, manuais escolares de todas as matérias de ensino, antologias literárias e livros de referência de uso escolar – entre outros – do século XIX até a década de 1980, abrangendo cursos primários, secundários, de formação de professor e ensino técnico.

O acervo de Bibliografia e Documentação possui mais de 40 mil livros de literatura infantil e juvenil e compõem os acervos de preservação. Um tesouro inclusive para as editoras, visto que durante a publicação da Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil, o acervo assemelhava-se a um depósito legal, com exemplares únicos de alguns títulos.

Ainda possui um acervo documental composto por mais de 20 mil volumes e, entre eles, o acervo pessoal de Lenyra Fraccaroli, primeira diretora da Biblioteca Monteiro Lobato, doado pela família da diretora sob a condição de preservação.

Todo este material importante para a história da literatura e da educação nacional está em risco devido a anos de falta de verba e descaso por parte de quem deveria ter o objetivo de preservar toda essa riqueza cultural.

Esperamos que a nova administração tome os passos necessários para restaurar, acondicionar e digitalizar este importante material desta Biblioteca referência. 

Para seguir o passo a passo dessa luta, siga nossas redes sociais @cleomonteirolobato no o Facebook e Instagram e acompanhe nosso blog pelo site www.monteirolobato.com. A cultura agradece!
 

Reivindicações de Cleo Monteiro Lobato são recebidas por Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo

Cleo Monteiro Lobato dá um passo importante rumo à reestruturação do acervo de seu bisavô que se encontra na Biblioteca Infantojuvenil Municipal Monteiro Lobato. Atualmente, o acervo corre o risco de sofrer ainda mais danos com a falta de estrutura adequada. 

O encontro entre o prefeito de São Paulo e a bisneta de Lobato se tornou possível graças ao envolvimento essencial da vereadora Janaína Lima (Novo) que não mediu esforços para que o mesmo acontecesse o mais rápido possível. 

Com um grupo de emergência encabeçado por Cleo e formado por ex-funcionárias e bibliotecárias especializadas em acervo de preservação, foi redigido um documento que foi entregue em mãos ao prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), no dia 16 de Agosto.

No documento, além da reabertura da Seção de Bibliografia e Documentação (havia um boato que isso não aconteceria), foram feitas solicitações fundamentais para a preservação do acervo lá existente através do desenvolvimento de um plano de reestruturação. Esse plano inclui, entre outros itens de mesma importância:

Liberação de R$120 mil para a recuperação de livros e documentos de Monteiro Lobato especificamente que se encontram em um maior estado de deterioração, incluindo o acondicionamento e digitalização dos mesmos;


Definição de um orçamento para a restauração dos outros acervos;

Inventário e diagnóstico dos acervos, identificando aqueles que necessitam de limpeza, desinfecção, restauração, acondicionamento adequado, catalogação e demais cuidados;


Climatização e adequação do mobiliário;

Concurso público para a contratação de, ao menos, 8 bibliotecários especializados em acervo de preservação;


Contratação de 5 pesquisadores especialistas em Literatura infantil e juvenil;

Contratação de 2 profissionais de design e 2 profissionais de informática;

Digitalização dos documentos que podem passar por esse processo e disponibilização dos mesmos para o público através de acesso virtual;

Aquisição de computadores, equipamentos e materiais necessários para o desenvolvimento dos trabalhos que a seção demanda; alem de internet de alta qualidade.

Para o bem da cultura nacional, o prefeito Ricardo Nunes se mostrou não apenas favorável às reivindicações como manifestou seu apoio e destacou a importância do acervo de Monteiro Lobato. Em tempo, concordou com o valor de R$120 mil para o projeto de recuperação de um acervo dessa importância.

A campanha de Cleo em prol da Biblioteca Monteiro Lobato e da restauração do acervo de seu bisavô ganhou ainda mais força quando graças ao continuado apoio da vereadora Janaína Lima, Cleo conseguiu se encontrar nos últimos dias que ainda estava no Brasil, com a recém-empossada Secretária de Cultura, Aline Torres (MDB). O encontro foi excelente e Cleo atualizou a Secretária sobre a situação da Biblioteca e especificamente, da Seção de Bibliografia e Documentação, relembrando  a importância da liberação da verba (R$120 mil) para que o acervo de Monteiro Lobato possa ser restaurado, acondicionado e digitalizado.

E como um brinde de esperança que se estende para um futuro breve, Cleo presenteou tanto Aline Torres quanto Ricardo Nunes com as obras “Narizinho Arrebitado – livro 1” e “O Sítio do Picapau Amarelo – livro 2”, ambos com uma dedicatória especial.

Vamos seguir acompanhando o desenvolvimento deste projeto! E você também pode acompanhar através das nossas páginas no Facebook e no Instagram. Venha fazer parte desse movimento!
 

CAMPANHA DO DIA DA CRIANÇA DA ACSP FIRMA PARCERIA COM A BISNETA DE MONTEIRO LOBATO

A 3ª edição da Campanha do Dia das Crianças do Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC), da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), que tem como meta arrecadar cerca de 50 mil itens, entre roupas, livros e brinquedos, conta com mais um apoiador de peso.

Cleo Monteiro Lobato, bisneta do escritor Monteiro Lobato, firmou uma parceria com CMEC que possibilitou que nossas crianças recebam 1.500 exemplares da obra “Reinações de Narizinho – Parte 1”, que serão editados com prefácio especialmente para o CMEC.

A atriz, digital influencer e ativista social Karina Bacchi, bem como o ator, diretor e também embaixador da cultura do CMEC, Ricardo Macchi, reforçam o time de embaixadores da ação.
“Nossas distritais e coordenadores estão empenhados em fazer dessa edição um sucesso”, mencionou na ocasião o vice-presidente da ACSP e coordenador-geral das Sedes Distritais, João Bico de Souza.
Durante a cerimônia, a presidente do CMEC, Ana Cláudia Badra Cotait, enfatizou o quanto a Campanha tem crescido. “Doe, procure seu vizinho, procure um endereço próximo. Não deixe de ajudar e de fazer o bem”.
As doações de livros, brinquedos e roupas em bom estado podem ser feitas até o dia 14 de outubro, no edifício-sede da ACSP, nas 15 Sedes Distritais da entidade, em estabelecimentos comerciais, escolas e até em alguns condomínios residenciais. Consulte o site da campanha e saiba qual o endereço mais próximo.

Fonte: https://acsp.com.br/publicacao/s/campanha-do-dia-da-crianca-da-acsp-recebe-doacoes-da-bisneta-de-monteiro-

Conselho da Mulher vai distribuir mais 50 mil livros e brinquedos a crianças da capital

Diversas instituições da capital serão beneficiadas com as doações

Iniciativa do Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp), a terceira edição da Campanha do Dia das Crianças se inicia no próximo dia 2 de setembro e beneficiará milhares de crianças da capital. A ação tem como objetivo levar esperança e alegria nesta data especial e se estende até 14 de outubro.

O foco principal da campanha deste ano é a arrecadação de livros, fundamentais para estimular a leitura e recuperar o tempo perdido com o ensino remoto durante a pandemia. “Sempre digo que precisamos investir no aprendizado e na leitura dos nossos pequenos para que se tornem cidadãos mais conscientes e críticos”, afirma a presidente do CMEC, Ana Cláudia Badra Cotait.
Outros itens como brinquedos e roupas em bom estado também poderão ser doados. O edifício sede da Associação Comercial, bem como as 15 Sedes Distritais da entidade, estabelecimentos comerciais, escolas e até condomínios funcionarão como postos de arrecadação. Para saber qual o local mais próximo basta entrar no site.

“Mais uma vez contamos com o apoio dos nossos diretores superintendentes das Distritais e de diversos parceiros para que o Dia das Crianças seja inesquecível. Todos podem contribuir para tornar essa data um marco na memória de cada uma. Elas receberão não apenas um presente, mas um incentivo à leitura. Porque é por meio dela que acessamos lugares inimagináveis. Doar um livro é uma demonstração de cidadania e carinho. Faça a sua doação.”, enfatiza Ana Cláudia.

A estimativa de arrecadação do Conselho da Mulher é de mais de 50 mil doações. A exemplo do que ocorreu com a Campanha do Agasalho deste ano, que arrecadou 146.919, a ação voltada para as crianças deve ter adesão de associações comerciais de todo o estado, por meio da rede Facesp.

Outro apoio importante será o de artistas engajados em prol da ação. A primeira delas é da apresentadora, atriz, digital influencer e ativista social, Karina Bacchi que será a embaixadora da edição deste ano da Campanha do Dia das Crianças.

“Me sinto lisonjeada pelo convite para dar voz a essa campanha tão grandiosa e que incentiva a solidariedade e a cultura porque acredito muito no poder das nossas ações. Não basta sermos mães, empreendedores e mulheres se esquecermos o amor ao próximo. Nada vale”, celebra a apresentadora.

Karina e a mãe, Nadia Bacchi, atuam na comunidade de Paraisópolis, por meio da Ong Florescer, desde a década de 90, promovendo inclusão social de crianças e adolescentes em um espaço que oferece aulas de reforço escolar, computação, inglês, teatro, dança, violão e futebol, atividades recreativas e cursos profissionalizantes.

A distribuição das doações é feita por meio das Sedes Distritais da Associação Comercial de São Paulo. As entidades beneficiadas são credenciadas e selecionadas pelos diretores superintendentes. 

AGENDA

Campanha Dia das Crianças do Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC)

De 2 de setembro a 14 de outubro de 2021
Informações no site: https://cmecmulher.com.br/diadascriancas/
 
OUTRAS INFORMAÇÕES PARA A IMPRENSA

Alan Viana, aviana@acsp.com.br, (11) 3180-3220
Marcelo Picolo, mlpicolo@acsp.com.br, (11) 3180-3220
Gabriel Daniele, ggferreira@acsp.com.br, (11) 3180-3220


Sobre a ACSP: A Associação Comercial de São Paulo (ACSP), em seus 126 anos de história, é considerada a voz do empreendedor paulistano. A instituição atua diretamente na defesa da livre iniciativa e, ao longo de sua trajetória, esteve sempre ao lado da pequena e média empresa e dos profissionais liberais, contribuindo para o desenvolvimento do comércio, da indústria e da prestação de serviços. Além do seu prédio central, a ACSP dispõe de 15 Sedes Distritais, que mantêm os associados informados sobre assuntos do seu interesse, promovem palestras e buscam soluções para os problemas de cada região.

Sobre a FACESP: A Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp), com 57 anos de existência, promove a união das "forças vivas" do Estado de São Paulo, estimulando os empreendedores paulistas a participar da vida política, econômica e social do Estado e do País. É uma entidade de âmbito estadual, com a missão de integrar o empresariado paulista por meio das Associações Comerciais de cada município, atuando em ações que tenham por objetivo a luta pelas liberdades individuais, o apoio à livre iniciativa, a unidade da classe empresarial e a garantia da democracia e do desenvolvimento. Atualmente, mais de 420 Associações Comerciais integram a Facesp e lutam, juntas, pela bandeira do empreendedorismo.

Sobre o CMEC: O Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura atua como um fórum de referência de estudos, debates e inspirações à mulher empreendedora, além de desenvolver ações, campanhas e projetos sociais e culturais. Também atua como instrumento para que lideranças femininas discutam seus problemas e apresentem propostas que mobilizem a comunidade empresarial e a sociedade organizada. Possui 138 conselhos da mulher, distribuídos entre as cidades do Estado de São Paulo e que integram as 420 Associações Comerciais filiadas à Facesp.

A Biblioteca Monteiro Lobato tem que continuar referência em literatura infantojuvenil.

A histórica Biblioteca Monteiro Lobato vai deixar de ser referência em literatura infantil e juvenil?
O que vai ser feito do seu acervo de preservação?

A Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, localizada na Rua General Jardim, 485 – Vila Buarque, é uma biblioteca pública do município de São Paulo. Sua criação foi determinada pela legislação que instituiu o Departamento de Cultura e Recreação da cidade de São Paulo em 1935 e sua inauguração se deu em 14 de abril de 1936 com a presença do primeiro diretor do Departamento de Cultura, Mário de Andrade, ao lado da sua primeira diretora, Lenyra Fraccaroli, como se vê na fotografia acima.

Em 1953, a Biblioteca Infantil, mais tarde denominada Biblioteca Monteiro Lobato, tornou-se referência para o mundo ao ser reconhecida como exemplar pela UNESCO pelo seu pioneirismo na América Latina e sua grande contribuição para a cultura letrada infantil e juvenil.

No entanto, às vésperas das comemorações dos 100 anos do modernismo, recebemos a triste notícia de que a Seção de Bibliografia e Documentação da Biblioteca será desativada. Atualmente, há apenas dois servidores trabalhando na seção, ambos bibliotecários, e os mesmos serão deslocados para atividades em outra unidade.

O QUE É A SEÇÃO DE BIBLIOGRAFIA E DOCUMENTAÇÃO?

É a Seção da Biblioteca responsável por catalogar e gerenciar os acervos de circulação (empréstimo domiciliar) e os acervos de preservação da Biblioteca Monteiro Lobato. Foi responsável pela publicação da Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil, referência nacional na área, desde 1941, porém, a publicação foi interrompida em 2007 e não foi retomada desde então.

ACERVOS DE PRESERVAÇÃO
Bibliografia e Documentação: Literatura infantil nacional e estrangeira
É um dos mais importantes acervos do país em literatura infantil e juvenil nacional e possui exemplares únicos de diversos títulos incluindo obras raras, o que o torna uma das principais referências para estudiosos da literatura infantil e juvenil brasileira. Possui cerca de 40 mil volumes.

Acervo Monteiro Lobato
Referente à vida e obra de Monteiro Lobato; com cerca de 10 mil itens, é basicamente formado por doações da família do escritor: livros, fotografias, mobiliário, objetos pessoais e correspondências. Também foram firmados compromissos de preservação com a família quando da doação.

Acervo Histórico de Livros Escolares – AHLE
A partir do material encontrado em bibliotecas infantis, foram selecionadas cartilhas, manuais de ensino e obras didáticas publicadas desde 1895. Conjunto de livros que contempla disciplinas escolares dos cursos elementar e secundário. Hoje, conta-se aproximadamente 5 mil ítens compondo esse acervo. É possível conhecer mais sobre os ítens desse acervo no blog criado pela socióloga Azilde Andreotti, que desempenhou um valioso trabalho na biblioteca, segue link:http://acervohistoricodolivroescolar.blogspot.com/

Memória Documental
Com aproximadamente 20 mil volumes, o arquivo histórico-documental da biblioteca reúne a história do Departamento de Bibliotecas Infantojuvenis com documentos e fotos do Timol, Tibbim, Turistinhas Municipais, Academia Juvenil de Letras e o Jornal A Voz da Infância. Pertence também a esse acervo, documentos da primeira diretora da biblioteca, Lenyra Fraccaroli, doados por termo estabelecido com a família com a condição de preservação. Ele traz documentos sobre bibliotecas infantis, literatura infantil e juvenil, correspondências, artigos de jornais e revistas nacionais e estrangeiras, rascunhos manuscritos de Da. Lenyra sobre o modelo arquitetônico do atual prédio da Biblioteca, trabalhos manuscritos de estagiários da Biblioteca Infantil Municipal, fotos históricas, arquivos em áudio de frequentadores. Um material ainda a ser descoberto e preservado, tendo em vista que, assim como a maior parte do acervo de memória documental, ainda não recebeu tratamento arquivístico, o que dificulta as consultas e pesquisas.

PRIMEIRO A PRECARIZAÇÃO, DEPOIS, O DESMONTE
O abandono da seção, vem sendo notado por pesquisadores que realizam suas consultas no local. Falta de pastas e materiais adequados para a conservação dos documentos, falta de climatização dos ambientes de armazenamento e ausência de funcionários em número suficiente para as atividades necessárias para salvaguardar os acervos e garantir o acesso ao público. São os sinais do desmonte e do descaso do poder público municipal com o nosso patrimônio cultural.

Não aceitaremos que esses acervos, que são parte da história da literatura infantil e juvenil e da biblioteca como espaço de ação cultural da e para a infância, sejam destruídos ou desvinculados da Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato. Eles são parte importante da memória e da história de São Paulo e do Brasil.

A seção atende pesquisadores, especialistas, estudantes e toda a comunidade com interesse na história do bairro da Vila Buarque, na vida e obra de Monteiro Lobato, na produção e desenvolvimento da literatura infantil e juvenil brasileira, na produção e desenvolvimento do livro escolar brasileiro, na história da biblioteconomia brasileira e dos serviços de bibliotecas, entre tantos outros.
Vimos a público reivindicar a reestruturação da Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato. Trata-se de um equipamento público, patrimônio cultural brasileiro.

REIVINDICAMOS
Retomada da Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato como centro de referência da cultura e da cidadania para crianças e adolescentes, como foi pensada por Mário de Andrade, pelos modernistas, por Lenyra Fraccaroli, Monteiro Lobato e tantas outras pessoas que desenvolveram projetos pioneiros para a fruição cultural, artística e literária das crianças e adolescentes;
Presença de profissionais qualificados e em quantidade adequada para a preservação e gestão dos acervos, bem como para o atendimento ao público e desenvolvimento de ações culturais;

Implementação de serviço de digitalização dos acervos e gestão dos direitos autorais e acesso público dos documentos;

Destinação de verba para a compra de materiais próprios para a conservação e guarda dos livros e documentos de preservação;

Destinação de verba para restauração de itens para os quais seja identificada a necessidade;

Adequação e climatização dos ambientes de armazenamento dos acervos;

Vistoria e adequação do prédio com equipamentos contra incêndio e outros incidentes;

Retomada da publicação da Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil.

Divulgação do acervo histórico da Biblioteca ML, mediante exposições e outras atividades presenciais e virtuais para crianças, jovens, educadores, escolas, comunidade.

Não aceitaremos que, a exemplo da Cinemateca, que vimos arder em chamas nas últimas semanas, nos retirem mais uma parte importante da nossa cultura, memória e história. O nosso destino não pode ser a barbárie!

Assinamos:
ANIS – Associação dos Servidores de Nível Superior da Prefeitura do Município de São Paulo
Grupo SinBiesp – Sindicato dos Bibliotecários, Cientistas da Informação, Historiadores, Museólogos, Arquivistas, Documentalistas, Auxiliares de Biblioteca e de Centros de Documentação no Estado de São Paulo
Sindsep – Sindicato dos Trabalhadores na Administração Pública e Autarquias no Município de São Paulo

EXTINÇÃO DE SEÇÃO DA BIBLIOTECA MONTEIRO LOBATO, EM SP, PÕE EM RISCO MEMÓRIA DA LITERATURA INFANTIL E JUVENIL NACIONAL

Fonte: https://biblioo.info/extincao-de-secao-da-biblioteca-monteiro-lobato-em-sp-poe-em-risco-memoria-da-literatura-infantil-e-juvenil-nacional/

A Seção de Bibliografia e Documentação da Biblioteca Infantujuvenil Municipal Monteiro Lobato, localizada na Vila Buarque, na capital paulista, abriga um dos mais importantes acervos do país em literatura infantil e juvenil nacional e possui exemplares únicos de diversos títulos, incluindo obras raras, o que a torna uma das principais referências para estudiosos desta área. Dentre os seus cerca de 85 mil volumes que compõem os acervos de preservação, há o acervo Monteiro Lobato, com muitos trabalhos referentes à vida e obra de do escritor, com cerca de 10 mil itens. Este acervo é constituído de livros, fotografias, mobiliário, objetos pessoais e correspondências, a maioria doada pela família do escritor, que firmou compromisso de preservação com a instituição quando da doação.

É também nesta Seção que está o Acervo Histórico de Livros Escolares (AHLE). O AHLE, com aproximadamente 5 mil itens, é composto por cartilhas, manuais escolares de todas as matérias de ensino, antologias literárias e livros de referência de uso escolar, entre outros, do século XIX até a década de 1980 e abrange os cursos primários, os secundários, os de formação de professor e o ensino técnico. O acervo de Bibliografia e Documentação conta com mais de 40 mil livros de literatura infantil e juvenil. Também compõe os acervos de preservação e é muito valioso inclusive para as editoras, uma vez que durante a publicação da Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil, funcionava como uma espécie de depósito legal, possuindo exemplares únicos de alguns títulos. A memória da Biblioteca, do antigo Departamento de Bibliotecas Infantis e Juvenis e da região da Vila Buarque, é representada em um acervo documental composto por mais de 20 mil volumes, entre eles, o acervo pessoal de Lenyra Fraccaroli, primeira diretora da Biblioteca Monteiro Lobato, doado pela família sob a condição de preservação.

Pois bem, todo este material de memória agora está em risco depois que a Coordenação do Sistema Municipal das Bibliotecas Municipais de São Paulo (CSMB), subordinada à Secretaria Municipal de Cultura (SMC), resolveu extinguir a Seção de Bibliografia e Documentação da Biblioteca. A decisão foi comunicada aos funcionários em uma reunião no dia 16 de julho, realizada nas dependências da Biblioteca. A informação consta de uma ata da referida reunião, que hoje circula em grupos na internet. Nela se lê que “a diretora [da Biblioteca, a bibliotecária Marta Nosé Ferreira] informa que foi avisada pela coordenadora do Sistema Municipal das Bibliotecas Municipais de São Paulo [Raquel Oliveira] que, a partir de dois (02) de agosto deste ano, a Seção de Bibliografia e Documentação, criada no ano de 1975, será extinta”.

De acordo com a ata, a diretora da Biblioteca informou aos servidores, dos quais quatro são bibliotecários e uma é secretária, que a extinção da Seção ocorreria por meio de Portaria ou Decreto. E que tal medida acarretaria a transferência de dois, dos cinco bibliotecários, para a CSMB, que hoje centraliza o trabalho de catalogação. Caso contrário, os dois teriam de solicitar aposentadoria. No decorrer da última semana a Secretaria emitiu uma nota negando o fechamento da Seção e afirmando que os bibliotecários estavam apenas sendo realocados para dar conta de demandas do Departamento Central de Catalogação do Sistema Municipal de Bibliotecas. De acordo com a nota, o fechamento da Seção jamais foi cogitado, classificando como fake news os rumores nesse sentido.

 

Cópia da ata da reunião do dia 16 de julho, quando a chefe da Biblioteca comunicou aos servidores o fechamento da Seção.

 

A pressão

Ainda na semana passada, após pressão dos moradores da região na qual a Biblioteca está sediada, o Conselho Consultivo da Sub-Prefeitura da Sé decidiu pautar o assunto em sua reunião virtual no dia 04. Nela a chefe de gabinete da SMC, Thais Lara, e a Coordenadora do Sistema Municipal de Bibliotecas, Raquel Oliveira, afirmaram que a Seção não seria desativada, mas não explicaram como isso seria possível com menos dois bibliotecários, num quadro já defasado de servidores. A partir de 2015 uma bibliotecária e outros quatro servidores da Monteiro Lobato se aposentaram e uma solicitou transferência. Além disso, outras duas servidoras, sendo uma bibliotecária, se desligaram da Seção de Bibliografia e Documentação e passaram a atuar no atendimento ao público.

Essa situação, segundo interlocutores ouvidos pela Biblioo, precarizou bastante as atividades da Seção, que sempre recebeu um fluxo considerável de usuários, especialmente pesquisadores. Numa reportagem publicada pela Folha de São Paulo na última sexta-feira, 6, intitulada “Biblioteca Monteiro Lobato é tema de guerra de versões entre servidores e prefeitura”, a coordenadora-geral do Sistema Municipal de Bibliotecas, Raquel Oliveira, teria, além de acusar a notícia sobre o fechamento da Seção de ser falsa, dito que pediu para que a ata da reunião, onde o fechamento do Seção foi comunicado, fosse refeita com a “informação correta”.

“Não existe nenhuma guerra de versões. Na verdade, a Secretaria [Municipal de Cultura], diante da mobilização, resolveu voltar atrás do desmonte, mas escolheu o pior caminho, escolheu o caminho de dizer que é mentira, quando na verdade eles poderiam ter se retratado, dito que ‘diante da mobilização eles entendiam que não era isso que a população queria e [por isso] não fariam’.Existiam outros caminhos a serem seguidos, bem mais dignos”, protestou uma servidora.


Parte interna da Biblioteca Monteiro Lobato

 

Segunda esta servidora que, temendo represálias, pediu para não ser identificada, o sistema de catalogação é online, o que permite que os bibliotecários cataloguem os materiais sem, necessariamente, terem de ser deslocados para o Departamento Central de Catalogação do Sistema Municipal de Bibliotecas, que fica localizado em outro bairro. Ou seja, os servidores poderiam continuar catalogando, mas sem deixar a Seção de Bibliografia e Documentação sem pessoas para o atendimento. “A declaração que a Secretaria [de Cultura] está fazendo de que os dois funcionários da Seção aceitaram de comum acordo a realocação no setor de catalogação central não procede. Na verdade, eles apenas não se recusaram, tendo em vista que, como consta na ata assinada pela diretora, ou aceitariam, ou deveriam se aposentar”, esclarece uma servidora. Apesar dos dois servidores em questão preferirem não se pronunciar, a Biblioo teve acesso a um e-mail enviado pelo bibliotecário Antônio Carlos D’Angelo, responsável pela Seção de Bibliografia e Documentação, à coordenadora geral do Sistema Municipal de Bibliotecas, Raquel Oliveira. Nele, o servidor diz que foi “com grande espanto [que] recebemos a notícia de fechamento da Seção, conforme teor da Ata anexa da reunião presencial ocorrida na Biblioteca Monteiro Lobato”. “Não concordamos, mas, como respeitamos a hierarquia, não tivemos outra alternativa senão aceitar.

Fomos informados também que deveríamos optar entre aposentadoria ou transferência para o Setor de Catalogação da Lapa. Diferentemente do que diz o documento veiculado pela Biblioteca, ainda não informamos nossas respostas”, diz um trecho do e-mail que tem data do dia 09 de agosto. Nesta correspondência, o bibliotecário diz que “uma vez que a saída dos funcionários está atrelada ao desmonte da Seção e, a não ser que haja outros motivos, gostaria de solicitar a permanência dos mesmos na Biblioteca. Pelo menos até que seja designado um servidor com perfil e formação, para que o mesmo seja devidamente treinado com organização e em tempo suficiente”. Nós procuramos a Secretaria Municipal de Cultura que deu uma resposta protocolar, repetindo os mesmos termos da nota que havia sido divulgada à imprensa. A SMC repetiu que “trata-se também de fake news o rumor de que a biblioteca estaria acabando com a sua Seção de Acervo de Bibliografia e Documentação”, mas não respondeu nossa pergunta se é autêntica a ata da reunião do dia 16 de julho, quando a chefe da Biblioteca comunicou aos servidores o fechamento da Seção. Segundo a nota enviada em resposta às indagações da Biblioo, o ofício sobre transferência dos dois funcionários da área técnica de catalogação indicaria que esses quadros irão atuar no Departamento de Catalogação Central do Sistema Municipal de Bibliotecas (SMB), “de pleno acordo de ambas as partes”, fato negado pelos servidores conforme mostramos acima.

“A SMC ressalta, ainda, que a Biblioteca Monteiro Lobato possui quatro bibliotecários, número maior do que a média de servidores entre os equipamentos da CSMB, e que não haverá prejuízo para os frequentadores ou para o acervo. Reiteramos que os funcionários realocados são quadros técnicos que continuarão a desempenhar as mesmas funções em outro local, inclusive para a própria Biblioteca Monteiro Lobato”, conclui a nota da Secretaria.

Petição pública

Circula na internet uma petição pública que até o fechamento desta matéria contava com mais de mil assinaturas. Nela é solicitado a retomada da Biblioteca como centro de referência da cultura e da cidadania para crianças e adolescentes, bem como a presença de profissionais qualificados e em quantidade adequada para a preservação e gestão dos acervos e para o atendimento ao público e desenvolvimento de ações culturais. Os signatários da petição solicitam, ainda, a implementação de serviço de digitalização dos acervos e gestão dos direitos autorais e acesso público dos documentos; a destinação de verba para a compra de materiais próprios para a conservação e guarda dos livros e documentos de preservação; a destinação de verba para restauração de itens para os quais seja identificada a necessidade; a adequação e climatização dos ambientes de armazenamento dos acervos etc. Um dos itens listados dentre as demandas da referida petição está a de vistoria e adequação do prédio com equipamentos contra incêndio e outros incidentes. Sobre isso nós perguntamos à Secretaria se a Biblioteca possui laudo de vistoria do Corpo de Bombeiros, mas não obtivemos resposta. Não é demais lembrar que recentemente um importante equipamento cultural de São Paulo, que é a Cinemateca, foi atingida por um incêndio que destruiu parte de seu acervo.

Obrigações da Monteiro Lobato

Na reunião virtual do Conselho Consultivo da Sub-Prefeitura da Sé, realizada no dia 04, a bisneta do escritor Monteiro Lobato, Cleo Monteiro Lobato, que está nos Estados Unidos, afirmou que pelo acordo de doação que foi firmado entre SMC e os representantes do escritor, não seria permitida a retirada do acervo de preservação doado da Biblioteca, criada em 1936 juntamente com o famoso Departamento de Cultura e Recreação, presidido à época por Mário de Andrade, seu primeiro diretor.

Um dos trabalhos mais importantes do acervo da Monteiro Lobato é o Álbum da Dona Purezinha que, segundo apuramos, está em mau estado de conservação. Nós indagamos a SMC se há orçamento direcionado para a conservação e restauração de itens do acervo, como o Álbum da Dona Purezinha, mas fomos mais uma vez ignorados.

Tem novidade internacional…

Olá, pessoal!

Graças ao sucesso da adaptação e atualização de Lobato também para brasileiros nos Estados Unidos, agora faço parte da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB). 💪🏻📚 O espaço é fruto do trabalho de promoção de cultura brasileira feito pela Fundação Focus Brasil (https://focusbrasil.org) (Quer saber mais sobre a AILB? Clique aqui e leia: https://www.braziliantimes.com/comunidade-brasileira/2020/09/03/focus-brasil-cria-academia-internacional-de-literatura-brasileira.html) Agora, minhas fotos e biografia já estão publicadas na página oficial da AILB. Para conferir é só acessar: https://focusbrasil.org/membros-da-academia-internacional-de-literatura-brasileira/

E vem mais novidade por aí…em breve, estarei no Catálogo Internacional de Escritores Brasileiros da AILB e participarei também do “Focus Brasil em NY”, evento ao vivo e online agendado para o dia 21 de setembro.

Saci-Pererê: Representante das Pessoas com Deficiência na Literatura Infantil

Por: Gisele de Luna

Na literatura infantil a representatividade importa sim! E deveria ser amplamente explorada com o intuito de gerar maior e melhor visibilidade acerca da diversidade humana, o que facilitaria e muito a vida de milhares de indivíduos que por não serem típicos, acabam por serem segregados ou sofrerem as consequências de uma sociedade inculta e não inclusiva.

The Saci, Artur Mello Lattaro – Personal 3D

Encantada com o mundo da fantasia que os livros trazem para as pessoas, em especial às crianças, é possível contextualizar a importância da representatividade de todos seja nestes ou na vida cotidiana.

Em especial as crianças percebem  o quanto a representação traz sentido para a sua vida, quando elas conseguem a partir do outro compreender-se  fazendo parte de algo maior que elas, ou melhor, pertencente ao mundo, e assim sendo se relacionam e convivem melhor com este mundo por sentirem-se efetivamente fazendo parte.

Desse modo, podemos dizer que a criança estabelece as relações, possivelmente de modo mais saudável, por esta percepção colaborar para a geração de sua auto-imagem, além de fortalecer a sua auto-estima.

De uns tempos para cá, as mídias principalmente, tem atribuído maior espaço para que esta representação tão gritante e almejada ocorra, promovendo-a em comerciais, como também em sua programação esta tal representatividade. Outro ponto de destaque se dá as empresas de brinquedos que tem desenvolvido projetos que acolhem a diversidade, atribuindo riqueza na existência, por exemplo, de bonecas usuárias de cadeiras de rodas, negras, como cabelos crespos e encaracolados.

A literatura infantil também deveria colaborar mais para este processo, e sim, tornar-se mais atrativa ainda. Dito isso, através da leitura podemos avançar mais, aprender mais sobre temas que até então são deixados de lado, sem a devida atenção, todavia importantes. 

De uns tempos para cá, as mídias principalmente, tem atribuído maior espaço para que esta representação tão gritante e almejada ocorra, promovendo-a em comerciais, como também em sua programação esta tal representatividade. Outro ponto de destaque se dá as empresas de brinquedos que tem desenvolvido projetos que acolhem a diversidade, atribuindo riqueza na existência, por exemplo, de bonecas usuárias de cadeiras de rodas, negras, como cabelos crespos e encaracolados.

A literatura infantil também deveria colaborar mais para este processo, e sim, tornar-se mais atrativa ainda. Dito isso, através da leitura podemos avançar mais, aprender mais sobre temas que até então são deixados de lado, sem a devida atenção, todavia importantes. 

Devemos praticar mais, a pesquisa, o estudo antes mesmo de nos pronunciarmos acerca de determinado assunto, tema. Monteiro Lobato nos mostra isso com muita propriedade, nos ensina que, quando ao desejar falar sobre o Saci em suas obras, questiona publicamente sobre a origem do mesmo, buscando compreender a visão que o mundo tinha acerca deste ser tão intrigante. E lá, no livro de Monteiro Lobato  Saci-Pererê: resultado de um inquérito, temos acesso a inúmeros depoimentos que vão desde professores, psicólogos, leitores, pessoas letradas, outras nem tanto etc.

Quando vemos o Saci, tão inteligentemente explorado por Monteiro Lobato, é possível compor que o mesmo exerce um papel fundamental no que se refere a representatividade de pessoas negras, mas também aquelas que possuem alguma deficiência, como o fato do moleque Saci, ter um perna amputada. E sua condição não impede que ele reine, que ele apronte, brinque, interaja  fortemente com os demais. Demonstre sua inventividade e agilidade, ao locomover-se tão habilmente. Sim, é certo que para muitos, ele é um danadinho, mas psicologicamente falando agora, ele traz a vivacidade para aqueles que muitas vezes percebem-se como incapazes por possuírem uma deficiência, e não obstante aos demais que acabam por assistir as inúmeras habilidades e competências que o danadinho tem  e que sobressaem a sua condição física.
 

Dizem os amigos que esse tal Saci é filho do vento, só quer brincar. Nunca fez mal a alguém, mas que existe é verdade."

Depoimento de Manoel da Barroca, pág. 30 
 

Grande parte das características levantadas deste perneta pertencente ao folclore brasileiro, são positivas: duende genuinamente nacional, vivaz, inteligente, bom cavaleiro, protetor de ninhos de passarinhos, forte, entroncado, travesso… Em contrapartida, é certo também que existem pontos críticos que assustam e trazem a tona certa perversidade em suas ações. Mas, mesmo assim, Monteiro Lobato, nos evidencia o que há de melhor do Saci, bem elucidado em sua obra, trazendo o levante de conhecermos mais sobre nós mesmos e alcançarmos assim a independência cultural. Temos tantas histórias incríveis da nossa cultura deixadas de lado, para enaltecermos as princesas de outros reinos, por exemplo. 

Há, no Brasil, muita coisa digna de ser estudada pra justa contribuição do nosso folclore.

Depoimento de André Capeta, pág. 31 
 

Outro aspecto relevante que cabe a reflexão, o Saci não nasceu com a deficiência, ela foi adquirida em vida, algo que pode ocorrer com todos nós, pelo simples fato de estarmos vivos e existirem muitos riscos nesta aventura. Inclusive, na série brasileira Cidade Invisível, o Saci é um escravo fujão, que após ser açoitado, é mantido acorrentado em uma de suas pernas, e ele escolhe por cortá-la com o facão, para conseguir fugir daquela realidade,  a escravidão. Corajoso. Sobrevive. E o curioso é que neste caso, vemos a deficiência como libertação. Ou melhor, o fato de se tornar um perneta, uma pessoa com deficiência disponibilizou a ele o mundo, representando a resistência, rebelião, liberdade… 

Seria de bom tom que essa prática ocorresse em todas as circunstâncias com a intenção de promovermos a aceitação das diferenças do outro, através do respeito e entendimento sobre.  Creio que assim teríamos muito menos preconceito e discriminação presentes em nossas vidas.  O mundo seria menos cruel e horrível, com aquilo que é diferente do que sou ou penso. 

A riqueza de todo este estudo se dá por conseguir captar que na visão do autor, a pessoa vem primeiro, e depois a sua deficiência. Traduzindo claramente que independentemente das diferenças, somos indivíduos no mundo, com o mundo, em que a diversidade deve ser respeitada, a partir do exercício da cidadania consciente, agindo empaticamente na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

E que venham novos pensares e mais "Sacis" em nossa Literatura Infantil. É isso aí!

 Gisele de Luna, Psicóloga, Cerimonialista, Recreadora Educativa, Mãe típica e atípica. Especialista em Educação Especial com ênfase em Deficiência Intelectual, Física e Psicomotora. Empresária, acredita que "Em um mundo plural tornar um evento único é o seu desafio."

Quando queremos morar em um abraço

Maio 08, 2021 – Por: Gisele de Luna

Creio que um abraço nunca fez tanta, mas tanta falta como nestes últimos tempos, a ponto de se querer morar nele. É muito abraço acumulado esperando a hora de abraçar, eu sei. É doído não poder abraçar, ainda mais quando há tanta perda, privação e sofrimento no mundo. E aprender a lidar com isso, para uns é mais fácil e para outros nem tanto.

Ilustração de Rafael Sam, cedida por Cleo Monteiro Lobato

Estudos mostram que os abraços têm poderes maravilhosamente incríveis, como desacelerar os batimentos cardíacos e a pressão sanguínea, além de diminuir potencialmente o risco de doenças do coração. Tudo isso acontece pelo simples fato da pele possuir uma rede de centros de pressão que ficam em contato direto com o cérebro por intermédio de nervos ligados a vários órgãos, dentre eles o coração.

“Gosto de abraço que me embrulha me enlaça e me faz presente.”
Abraçar é uma das maneiras mais simples de liberar o hormônio do amor e da felicidade, sim, oxitocina. Um abraço de verdade tem inúmeros benefícios para o corpo e para a mente.
O abraço é tremendamente importante, na infância traz sensação de proteção que se mantém na vida adulta. Então, é certo que um abraço cheio de carinho tem a capacidade de transmitir acolhimento, aceitação e amor, remete ao aconchego e proteção de mãe, certamente a primeira demonstração de tudo isso que é recebido na vida.
“Tem coisas que só um abraço de mãe é capaz de curar.”
A ausência dos abraços, ou do afeto faz com que as crianças venham a se tornar adultos com insegurança, mais agressivos, e ainda com dificuldades reais de relacionamento. Isso se dá por não terem a referência deste afeto, e inconscientemente buscam meios de se proteger, por não saber lidar com questões ligadas a afetividade. Mas, com muito acolhimento, é possível mudar esta realidade, e o indivíduo se reprogramar para o mundo.

Ilustração de Rafael Sam, cedida por Cleo Monteiro Lobato

Ninguém duvida do poder do abraço. Se o abraço faz tão bem para a saúde, se ativa o corpo todo, ou previne doenças, diminui a ansiedade, regula o estresse, ele é capaz de curar o mundo sim.
A psicoterapeuta norte-americana Virginia Satir disse:
“É preciso 4 abraços por dia para viver, oito abraços por dia para nos manter saudáveis, e 12 abraços por dia para crescer e se desenvolver.”

Então, quantos abraços você já deu hoje? E, quantos abraços você pretende dar amanhã?

É uma explosão de carinho, um gesto saudável, bom para você, ao próximo e ao mundo. Seria maravilhoso indicar a terapia do abraço, mesmo não sendo recomendado a terceiros neste período, devido ao distanciamento social, você pode se abraçar muito, abraçar o travesseiro, a boneca, a natureza – aquelas árvores grandes, como também aqueles que convivem com você.

Ah, marque em sua agenda, dia 22 de maio é Dia do abraço. Esta data teria surgido a partir da iniciativa do australiano Juan Mann que criou a campanha Free Hugs Campaign, em 2004, com o simples objetivo de distribuir abraços "gratuitos" pelas ruas de Sydney. Enquanto não houver a possibilidade de abraçar pessoalmente quem mais ama, você pode enviar mensagens virtuais, elas ajudam a encurtar as distâncias, e são cheias de sentimentos para compartilhar ainda mais abraços neste dia.

Lembre-se, agora que você sabe o quanto abraçar é positivo e terapêutico, quando tudo voltar ao normal, e existir a oportunidade de abraçar alguém, aproveite! Faz bem para você e para o outro, além de ser um ato gratuito e recíproco, um verdadeiro encontro de almas e corações.

Use e abuse do abraço. Não há contra indicações. É isso aí!

Gisele de Luna, psicóloga, crp 06/52233, cerimonialista, recreadora educativa, mãe típica e atípica, ativista em prol da inclusão e acessibilidade. Especialista em Educação Especial com ênfase em Deficiência Fisica, Psicomotora e Intelectual.

A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto

Dois grandes nomes da Literatura brasileira e dois universos distintos. É fato que Monteiro Lobato e Lima Barreto traçaram suas carreiras em contextos diferentes. No entanto, nosso autor de Taubaté e o escritor carioca, filho de ex-escravos, trocavam figurinhas e se elogiavam.

Apesar de a comunicação ter criado caminhos para uma série de interpretações sobre a relação entre os dois (já que os Correios desviaram diversas correspondências de um para o outro), por muitos anos, eles trocaram cartas, sempre cordiais e recheados de elogios à capacidade crítica e literária de cada um como escritor.

Alguns documentos refletem esta realidade, como as cartas que eles escreviam um ao outro entre 1918 e 1922. Edgard Cavalheiro, um dos biógrafos mais conhecidos de Lobato, por exemplo, lançou o livro “A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto” e em 1956, a obra “Correspondência”, de Lima Barreto, editada por Francisco de Assis, já trazia também uma série de informações sobre a relação entre os dois. Um destes registros é um artigo que Lobato escreveu em sua Revista do Brasil, em que ele chama Lima Barreto de “criador de uma nova fórmula de romance: o romance de crítica social sem doutrinarismo dogmático”.

O autor teria afirmado que desejava “ardentemente vê-lo entre seus colaboradores”. Depois disso, Lima Barreto se tornou colunista do impresso de Lobato e editou seu romance “Vida e Morte de M. K. Gonzaga” junto à empresa do autor. Posteriormente, Lobato também editou outras obras do escritor carioca, como a segunda edição de “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”.

Em seu artigo para o Homo Literatus, o historiador cultural Joachin Azevedo revelou que outras cartas reunidas por Francisco de Assis Barbosa, biógrafo de Lima Barreto, comprovam que o médico Gastão Cruls confirmou que Monteiro Lobato realmente procurou Barreto no Rio de Janeiro, mas devido à embriaguez do escritor, Lobato não teria tido coragem de se apresentar a quem ele considerava o maior dos romancistas brasileiros. Azevedo constata, então, que Lobato admirava o escritor Lima Barreto, mas não soube aceitar o homem Lima Barreto.

Outros registros do acervo disponível em nosso site revelam que Lobato chegou a enviar cartas oferecendo ajuda financeira para Lima Barreto, pouco antes de ele ser internado e morrer.

A atitude de Lobato é mais uma evidência de que Lobato valorizava o respeito e o talento ao amigo de cartas, que é um grande exemplo.

O idolatrado racismo de Monteiro Lobato

Autor: Dra. Vanete Santana-Dezmann

Chegamos ao século XXI com vontade de renovar o mundo e quebrar as velhas estruturas. “Abaixo o preconceito” é o novo e bem-vindo lema. O que muitos que seguram esta bandeira parecem ignorar, porém, é que não se constrói um novo mundo do nada e que a cultura não se encontra fora de nós. Assim, alguns dos mesmos que se proclamam defensores dos historicamente oprimidos – mulheres e negros –, posicionando-se contra a misoginia e o racismo, ovacionam Martinho da Vila, cantando em coro “Ô nêga, vá trocar esse batom, porque assim não estás em bom tom. Combina com o esmalte da unha, mas esse vermelho encarnado esconde as virtudes que tens. Também está excessivo o perfume. Juro, não é só ciúme. Me orgulho de te verem bem. Não fala muito quem sabe falar. Não compra tudo quem sabe comprar. Não bebe muito quem sabe beber. Não come de tudo quem sabe comer. Mas ama muito quem tem só um amor. E tu és a minha única flor. Vai, nêga!”.

Em outras palavras: “então, negra, não é porque você é capaz de falar, comprar, beber e comer, que você vai fazer o que quer. Não vai sair de batom vermelho e perfume simplesmente porque você é minha propriedade e eu,  acho alfa forte e seguro, não quero”. Paradoxal e contraditoriamente, muitos que continuam cultuando este e outros sambas dos anos 70, com suas letras misóginas e – será que não? – racistas, decidiram cancelar Monteiro Lobato a todo custo. Basta explicar que Lobato usou para se referir aos negros do início do século XX o jargão corrente à época (e os motivos por que o fez), e comprovar que, no conteúdo, eleva as personagens da etnia negra à mesma posição que ocupam as de etnia branca? Não, não basta!

Basta explicar que, se Lobato se dirigisse a um público leitor negro, usaria outros termos? Senão por não ser racista, ao menos por tino comercial? Não, não basta! Basta explicar que não havia público leitor negro no início do século XX e que isso não era consequência da literatura que então se praticava, mas, sim, das características sociais e econômicas da época? Não, não basta! Basta explicar que O Presidente Negro é um livro de ficção científica e que as
falas das personagens de um livro não reproduzem o pensamento do autor do livro, até porque há diferentes personagens, com diferentes pontos de vista, e que, se as falas das personagens reproduzissem o pensamento do autor, todo escritor seria esquizofrênico? Não, não basta!

Basta explicar que Lobato ficou “P da vida” quando editores nos EUA não compreenderam o livro O Presidente Negro e desabafou, em tom irônico e escrachado, sua marca registrada, que lá chegou tarde demais; que se tivesse chegado antes, quando o Ku Klux Klan assolava o país, seu livro teria sido publicado? Afinal, ele escreveu um livro contra o racismo que foi tomado como sendo racista. Então, se era para ser assim, que o livro tivesse sido apresentado aos verdadeiros racistas, que, pelo motivo errado, teriam-no publicado. Não, não basta!

Basta explicar que não se analisam pedaços descontextualizados de falas e textos, como se tem feito no caso de Lobato, pinçando a dedo trechos de suas cartas e obra com o exclusivo interesse de comprovar um veredito previamente proclamado, quando o certo é a análise preceder o veredito? Não, não basta! Basta explicar que Lobato foi reivindicado por comunistas, integralistas e eugenistas, embora não seja possível provar que ele tenha sido comunista ou integralista ou eugenista e que, como todo ser humano de carne e osso, como você e eu, Lobato, à medida que conhecia melhor as coisas – lendo sobre elas, frequentando reuniões sobre elas, conversando com quem as apresentava –, mudou de opinião sobre muitas coisas ao longo da vida? Não, não basta! E por que não basta?! Porque, na era do twitter, ninguém se dá ao trabalho de ler mais do que 280 caracteres. Porque, na era do politicamente correto, qualquer ocupante de algum “lugar de fala” pode falar e escrever o que quiser, pode até, simbolicamente, enforcar Lobato pendurado em uma árvore, como faziam os condenáveis membros do clã, enquanto dançam e cantam “Ô nêga, vá trocar esse batom!”. Pois é… a cultura não se encontra fora de nós… E é mais fácil ver um grão de pólen no olho alheio do que um cabresto bem posto.

Vanete Santana-Dezmann é professora, pesquisadora e tradutora. É responsável pelas Jornadas Monteiro Lobato USP-JGU, juntamente com John Milton. Tem pós-doutorado em Estudos da Tradução (USP), com estágio de pesquisa no Goethe-Museum de Düsseldorf; doutorado em Teorias de Tradução (UNICAMP), com estágio de pesquisa na Universidade Livre de Berlim, e mestrado na mesma área (UNICAMP). Graduou-se em Letras (UNICAMP).

 

O retrato falado do “racismo na obra infantil de Lobato” – Vanete Santana-Dezmann. https://vanetesantanadezmann.blogspot.com/2021/01/o-retrato-falado-do-racismo-na-obra.html

Emília, a cidadã-modelo soviética: Como a obra infantil de Monteiro Lobato foi traduzida na URSS. – Marina Darmaros e John Milton: https://www.researchgate.net/publication/334594154_Emilia_a_cidada-modelo_sovietica_Como_a_obra_infantil_de_Monteiro_Lobato_foi_traduzida_na_URSS

Beloved, Amistad e Negrinha… libelos contra o racismo – Vanete Santana-Dezmann: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/dilemas-contemporaneos/beloved-amistad-e-negrinha-
libelos-contra-o-racismo/

LOBATO POR LOBATO – A PEDIDO DE UM AMIGO, MONTEIRO LOBATO FORNECEU AS SEGUINTES NOTAS BIOGRÁFICAS – Furacão na BOTOCÚNDIA)

“Nasceu em Taubaté, aos 18 de abril de…1884(na verdade 1882). Mamou até 87. Falou tarde, e ouviu pela primeira vez aos 5 anos, um célebre ditado: “Cavalo pangaré/Mulher que.. em pé /Gente de Taubaté/Dominus libera mé”. Concordou. Depois, teve caxumba aos 9 anos. Sarampo aos 10. Tosse comprida aos 11.

Primeiras espinhas aos 15. Gostava de livros. Leu o Carlos Magno e os doze pares de França, o Robinson Crusoé, e todo o Júlio Verne. Metido em colégio, foi um aluno nem bom nem mau – apagado.

Tomou bomba em exame de português, dada pelo Freire. Foi promotor em Areias, mas não promoveu coisa nenhuma. Não tinha jeito para a chicana e abandonou o anel de rubi(que nunca usou no dede, aliás).

Fez-se fazendeiro. Gramou café a 4.200 a arroba e feijão a 4000 o alqueire. Convenceu-se a tempo que isso de ser produtor é sinônimo de ser imbecil e mudou de classe. Passou ao paraíso dos intermediários.

Fez-se negociante, matriculadíssimo. Começou editando a si próprio e acabou editando aos outros. Escreveu umas tantas lorotas que se vendem – Urupês, gênero de grande saída, Cidades mortas, Idéias de Jeca Tatu, subprodutos, Problema vital, Negrinha, Narizinho.

Pretende publicar ainda um romance sensacional que começa por tiro: Pum! E o infame cai redondamente morto… Nesse romance introduzirá uma novidade de grande alcance, qual seja, a de suprimir todos os pedaços que o leitor pula. Particularidades: não faz nem entende de versos, nem tentou o raid a Buenas Aires. Físico: Lindo!”

A Novela Semanal, São Paulo n. 1, 2 maio de 1921

MONTEIRO LOBATO – UM BRASILIERO SOB MEDIDA ESCRITO POR MARISA LAJOLO – CAPÍTULO 1

Por: MARISA LAJOLO

Na Noite de 18 de abril de 1882 nasce em Taubaté o primogênito do proprietário das fazendas Paraíso e Santa Maria. O recém-nascido é o primeiro filho de José Bento Marcondes Lobato e de Dona Olímpia Augusta Monteiro Lobato.

Neto pelo lado materno de José Francisco Monteiro, visconde de Tremembé, o menino recebe na pia de batismal o nome de José Renata. A família o trata de Juca e Juca será para eles pela vida afora, mesmo depois que, por volta dos onze anos, decide mudar de nome: prefere José Bento, cujas iniciais coincidem com as letras encastoadas em ouro numa bengala de seu pai Juca cobiça a bengala, naquele momento tempo complemento indispensável à elegância masculina.

A situação é emblemática da força de vontade, do senso prática e da garra do menino que viria a ser o famoso escritor Monteiro Lobato.
No aconchego doméstico, decorre a infância comum de menino medianamente abastado do interior paulista, no fim do século. Vive com os pais e as irmãs menores, Teca, Judite, na fazenda Santa Maria em Ribeirão das Almas, nos arredores de Taubaté.

Entremeia a vida na roça com temporadas longas na casa que os pais mantinham na cidade e com visitas demoradas à casa do avô visconde, no meio da de uma chácara. Como todos os meninos de sua classe social, Juca tem um pajem que o acompanha nas brincadeiras.

Com as irmãs Teca e Judite faz bonecos e bichos de chuchu e tem muito medo de assombração. Sua infância é cheia de pescarias no ribeirão, de banhos de cachoeira, de tiros com sua espingardinha marca Flaubert, de passeios em seu cavalo Piquira.

Ao tempo dos calças curtas, trepa em árvores, chupa fruta no pé, aprende a gostar de circo, de pamonha, de içá torrada e de pinhão. Nas visitas à casa do avô – conta mais tarde – fascina-o a biblioteca: os livros, em particular os ilustrados, seduzem-no ainda mais do que a figura do imperador Pedro II, que conhece como hóspede do avô numa das últimas viagens imperiais a São Paulo.

Compensando a rigidez das relações afetivas com pai austero, Juca tem imensa ternura pela avó materna, a humilde professora Anacleta Augusta do Amor Divino, em tudo diferente da viscondessa legítima. Esta, a senhora Maria Belmira França, com quem o visconde se casará depois de ter tido dois filhos com Anacleta, será para sempre a visconda, na voz desdenhosa de Juca.

A dureza da forma de tratamento assinala a precoce compreensão de todo o preconceito que nascimentos ilegítimos e relações extraconjugais despertavam no século passado, tempo de convenções sociais bastante rígidas: a querida avó Anacleta morava em casinha bem menor e mais distante do que a casa da visconda…. As primeiras lições do menino Juca são em casa, com dona Olímpia, que o ensina a ler, escrever e contar.

Depois disso, como era uso no tempo, um professor particular – Joviano Barbosa – encarrega-se de sua educação. É só mais tarde que Juca frequenta as raras e efêmeras escolas particulares de Taubaté: o colégio do professor Kennedy, depois o Colégio Americano( escola mista dirigida por Miss Stafford, educadora irlandesa), depois o Colégio Paulista.

Nesse último, foi aluno do professor Mostardeiro, mestre que volta a procurar mais tarde, depois de formado, para com eles discutir as novas filosofias que tanto o fascinavam em São Paulo: Mostardeiro era positivista, o que era vanguarda para a época e o diferenciava na intelectualidade da pacata Taubaté. Juca frequenta, finalmente, o Colégio São João Evangelista. Ali, o diretor é o professor Antônio Quirino de Souza e Castro, que anos depois desempenha importante papel na história de Monteiro Lobato, pois é na casa do antigo mestre que o ex-aluno se aproxima da mulher será sua companheira de toda a vida, a neta do Velho Quirino.

Mas ainda não é tempo de amores. O tempo é de escolas, e com São João Evangelista aparece encerrada a vida escolar de Juca em colégios do interior paulista. O rumo é São Paulo. O Século XIX está chegando ao fim, e as malas de Juca estão prontas, com destino ao Instituto Ciências e Letras da capital, onde vai estudar as matérias necessárias ao ingresso no curso de Direito.

Chega à Paulicéia nada desvairada de 1895, mas é reprovado em Português e tem de arrepiar caminho: volta para Taubaté e para o Colégio Paulista. E é lá que que estreia em letra impressa como colaborador de O Guarany, improvisado jornalzinho estudantil.

O menino, Juca para a família, começa a ser para os leitores do jornaleco Josbem e Nhô Dito, pseudônimos, com que assina suas primeiras colocações: uma crítica a Enciclopédia do Riso de da Galhofa( espécie de almanaque, extremantes popular) e uma crônica dos acontecimentos diários da escola.

Hoje é dia de “falar a nossa língua”

Falar uma língua não é apenas comunicar-se com um outro indivíduo. Falar uma língua é também consumir sua história, cultura e, sem dúvida alguma, sua Literatura.

Oficial em pelo menos nove países, a língua portuguesa tem seu dia celebrado na data de hoje desde 2009. A comemoração foi criada pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) , organização parceira da UNESCO, para celebrar a língua e suas respectivas culturas, como a literatura brasileira de Monteiro Lobato, importante herança de nossa língua que com seu apoio, conseguimos manter dia após dia através dos livros, histórias e registros.

São quase 300 milhões de falantes em todo o mundo, com forte extensão geográfica e riqueza cultural. Graças a esse multilingüismo, é que encontramos hoje uma diversidade cultural e promovemos, juntos, uma comunicação internacional.

Viva a Língua Portuguesa! Hoje é dia de “falar a nossa língua”!

Monteiro Lobato na cabeça

Por: João Luís Ceccantini

Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (a mais ampla que se faz sobre o assunto no país), grande parte dos leitores brasileiros aponta Monteiro Lobato como seu escritor mais admirado ou aquele de que mais gosta.E por que essa escolha? Alguns diriam, de pronto: “porque se trata de um clássico”. Certamente, Lobato se tornou um “clássico”, mas colar, hoje, essa etiqueta ao autor, ainda que dê ideia do prestígio de que sua obra usufrui nos mais variados círculos de leitores – dos leigos aos especializados – oferece o risco, talvez, de percebê-la por uma perspectiva simplista. Se, de um lado, fortalece a ideia pertinente de que a literatura de Lobato influencia, de forma marcante, os autores que o sucedem e de que integra um patrimônio cultural que efetivamente vale a pena conservar e transmitir de geração a geração, de outro, pode transformá-la apenas em um conteúdo a mais entre outros, a ser “transmitido” a todo custo aos alunos.E nada trairia mais o espírito da literatura de Lobato do que abordá-la desse modo. O escritor, como poucos, sempre defendeu com muita convicção a liberdade do leitor, seu direito de gostar ou não gostar deste ou daquele livro e mesmo de rejeitar um autor que considerasse maçante ou tolo, ainda que se tratando de um medalhão das letras.*Professor de Literatura Brasileira da UNESP/ FCL Assis.Se a literatura de Lobato tem resistido bravamente ao tempo é porque conta com um pelotão de “leitores-mediadores” que a defendem e a promovem com garra. Leram Lobato geralmente na infância ou na juventude, e ficaram encantados pela literatura do escritor. Vivenciaram uma experiência de leitura impregnada de afetividade que deixou fortes marcas na memória, tornando-os profundamente convencidos de que vale a pena ler a obra desse autor original – e assim, querendo muito compartilhá-la com outros leitores.

Avós, pais, irmãos, primos, tios, amigos, bibliotecários, escritores, artistas e, claro, professores têm se empenhado em levar as novas gerações a conhecer a obra de Lobato. Isso é o que, acima de tudo, a tem mantido viva nos corações e mentes de leitores de sucessivas épocas.Esses “leitores-mediadores” fazem isso porque, na essência, se tornaram leitores apaixonados pela obra do escritor, encontrando nas páginas de Lobato um universo dos mais ricos, capaz de incendiar a imaginação, de provocar o riso, de alimentar o intelecto, de despertar o senso crítico, de multiplicar sentidos. Isso, para dizer o mínimo.No vigoroso projeto literário do escritor, um dos principais tópicos que têm sido destacados é a revolução realizada no que diz respeito à representação da infância. Até Lobato, as crianças eram representadas na literatura infantil brasileira, de um modo geral, de forma bastante artificial, com a finalidade primeira de promover modelos de educação, de “bom comportamento”, de valores morais etc. Em realidade, as personagens infantis antes dele, com raras exceções, constituíam um pretexto para promover valores adultos numa literatura de cunho edificante, não permitindo maior identificação dos leitores infantis com o texto que era a eles destinado. Lobato rompe radicalmente com os padrões, estereótipos e clichês associados a essa “literatura embolorada” e tira de cena as crianças modelares, submissas aos adultos e deles dependentes. Apresenta-nos a boneca-moleca, Emília, definida por si mesma como a “Independência ou Morte”, assim como dá vida aos destemidos aventureiros Narizinho e Pedrinho.

São personagens flagradas em imensa liberdade, distantes que estão de pais e mães, porque é sempre tempo de férias num sítio, em que os adultos presentes – Dona Benta e Tia Nastácia – não assumem a sisuda máscara da autoridade repressora.Outro aspecto fundamental na obra de Lobato é o modo especial como o autor lidou em suas narrativas com o trânsito que as personagens fazem entre a realidade e a imaginação. À medida que o escritor foi desenvolvendo sua obra, cada vez com maior ousadia, foi dissolvendo quaisquer fronteiras entre o real e o imaginário, permitindo aos integrantes do Sítio do Picapau Amarelo a ruptura radical com as coordenadas espaciais e temporais, bem como com as surradas convenções da literatura dita “realista”.Nessa obra de alta carga imaginativa, lógicas paralelas são construídas no mundo da fantasia pelo qual circulam as personagens do Sítio, o que lhes confere (e ao leitor) uma carga de liberdade como até então não se tinha visto na literatura infantil brasileira. Lobato constrói, assim, uma obra vibrante, em que o recurso ao pó de pirlimpimpim ou ao “faz de conta” propiciam uma experiência única à “turma do Sítio”.

É importante frisar, entretanto, que em Lobato a fantasia não é sinônimo de alienação; ao contrário, cria tensões fecundas com a realidade, que, em geral, propiciam uma visão original e crítica do meio. Aliás, as narrativas de Lobato estão sempre empenhadas em valorizar a emancipação, a curiosidade e a autonomia das crianças tanto frente aos adultos quanto às instituições sociais e às convenções, colocando a realidade prosaica continuamente em xeque. Sua literatura é feita de representações que rejeitam as soluções simplórias, o maniqueísmo e as ideologias, promovendo antes o questionamento contínuo de valores, a reflexão e, por vezes, até mesmo uma postura iconoclasta.Enfim, no conjunto, o universo literário inventado por Lobato constitui um irresistível convite à leitura para pessoas de todas as idades. Esses leitores, por sua vez, convertem-se em potenciais mediadores para novos leitores, instaurando um movimento contínuo, como poucas vezes se tem visto na cultura nacional. Tal fenômeno, pelo que os dados indicam, não tem permitido que o leitor brasileiro de sucessivas gerações tire Lobato da cabeça. O que, diga-se de passagem, é ótimo! Que assim se faça por muito tempo…

Monteiro Lobato e o racismo em livros infantis de sua época

Por: Cilza Bignotto

Fonte: http://ameninacentenaria.bbm.usp.br/index.php/racismo-em-lobato/

Nos últimos dez anos, trechos de livros infantis de Monteiro Lobato vêm sendo apontados ou denunciados como racistas, devido a passagens relacionadas, principalmente, à personagem Tia Nastácia. É o caso, por exemplo, da expressão “negra de estimação”, usada pelo narrador de Reinações de Narizinho para apresentar Tia Nastácia aos leitores. A expressão – de fato chocante para os leitores de hoje – já aparecia no álbum A menina do narizinho arrebitado, publicado em 1920, que iniciou a saga do Sítio do Picapau Amarelo. As denúncias de racismo, realizadas em processos judiciais e em artigos, palestras, postagens em redes sociais, levaram a uma série de debates públicos, que continuam ocorrendo em várias esferas da Educação, do Direito, dos Estudos Literários, dentre outras. Os debates têm sido pontuados por questões como: Lobato poderia ter representado personagens negras de outra maneira na época em que produziu seus livros? Será mesmo que o contexto em que um escritor vive tem tanta importância no desenvolvimento de sua obra? Apresentamos, a seguir, elementos para ajudar você a pensar sobre essas questões e tentar respondê-las. Vamos começar pelos textos para crianças que circulavam quando Monteiro Lobato escreveu e publicou seus livros infantis, a partir de A menina do narizinho arrebitado.

A cor da invisibilidade

Como era a representação de personagens negras nos livros infantis que circulavam nas livrarias, escolas, bibliotecas públicas e particulares das primeiras décadas do século XX?

É triste, mas, em boa parte dos livros infantis escritos por autores brasileiros naqueles anos, simplesmente não havia personagens negras. Era como se as pessoas negras, que já constituíam a maior parcela da população nacional, não existissem – ou fossem invisíveis. É o que se observa, por exemplo, no Primeiro livro de leitura 1, que dá início, em 1903, a uma série produzida pelos educadores Arnaldo de Oliveira Barreto e Romão Puiggari, ambos muito renomados. A série de quatro livros, que teve numerosas edições ao longo das décadas seguintes e foi adotada em escolas públicas, sobretudo paulistas, era inspirada no livro Cuore (1886), do escritor italiano Edmondo De Amicis. Assim como na obra italiana, os livros de Barreto e Puiggari narram o cotidiano de um protagonista, o menino Paulo, em capítulos que tematizam lições aprendidas pelo menino em episódios ocorridos na escola e em sua casa.

Não há personagens negras no Primeiro livro de leitura, mas há nele uma cena bastante significativa para o exame da representação da população negra em livros infantis da Primeira República. Um capítulo é dedicado a Luíza, irmã caçula do protagonista, que “Parece uma alemãzinha pelo doirado dos seus cabelos, que são crespos e sedosos” e pelos olhos “azuis como um pedaço de céu”. Luíza tem várias bonecas:

Umas são grandes; outras pequenas. Quasi todas, porém, são brancas, coradas e louras como a mãezinha!

Há duas bonecas que servem de criadas. Essas são pretinhas, bem pretinhas, de lábios muito vermelhos.

O ideal de infância plasmado na narrativa do livro e nas bonecas de Luíza é o da criança loira, que parece europeia. Não há crianças negras na classe de Paulo. Sobre os criados da casa, provavelmente negros, nada se sabe, além do fato de que existem. O mesmo modelo ideal de criança se repete em outros livros de grande circulação naquele período, como os de João Kopke, Mariano de Oliveira, João Pinto e Silva, em meio a diversos outros educadores. De modo geral, crianças negras são pouco ou nada representadas nos livros didáticos que sustentavam o projeto republicano de educação para o país.

Os livros para crianças não eram para todas as crianças.

As poucas tentativas de incluir crianças negras como leitoras ou protagonistas de livros infantis foram realizadas de maneira sintomaticamente ambígua. É o que se nota no início de Páginas infantis 2, do professor Mariano de Oliveira, livro de leitura preparatória “dedicado à infância brasileira” e “adotado em todas as escolas”:

Os versos que funcionam como epígrafe da obra convidam “crianças loiras, claras, morenas” a abrir as Páginas infantis. Na ilustração que emoldura o poema, há um menino negro entre as 13 crianças brancas. Seu perfil, no canto superior da página, faz crer que o adjetivo “morenas” se refere também a crianças negras, e que haverá outras no interior do livro.

Não há.

A cor da escravidão

Quando negros, adultos ou crianças, aparecem como personagens em livros do final do século XIX e início do XX, geralmente as histórias transcorrem no período da escravidão. É o que se observa, por exemplo, em Contos Pátrios (1904) de Coelho Neto e Olavo Bilac. No conto “Mãe Maria”, o protagonista, já adulto, relembra a ama, uma velha senhora africana escravizada, que cuidara dele desde o nascimento. Mãe Maria amava tanto “Nhonhô Amâncio” que, certa vez, depois de ser apedrejada pelo menino, mentiu ao pai dele para protegê-lo: disse que os ferimentos haviam sido causados por uma queda. Quando o menino lhe pede perdão, a face de Mãe Maria lhe parece “tão bela, tão clara, tão iluminada quanto a daqueles anjos do Senhor” que povoavam suas “histórias de roça”. O afeto de uma criança branca tem o poder de elevar a figura da mulher negra, de “clarear” sua pele. O destino de Mãe Maria, entretanto, é ser vendida, com outros escravos, e morrer como indigente.

BILAC, Olavo; NETO, Coelho. Contos pátrios (para as crianças). Ilustrações de Vasco Lima. 44a ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1958. Acervo de Cilza Bignotto.

 

Página do conto “Mãe Maria”, de Olavo Bilac, integrante do livro Contos pátrios.
Ilustração de Vasco Lima. Acervo de Cilza Bignotto.

 

Em outro conto do livro, “A borboleta negra”, a “pureza” moral de crianças brancas é responsável por salvar “uma criaturinha de pele preta”, abandonada no mato. Leonor e Henrique – “que só tem nove anos, mas é um homem!” – levam o bebê para casa. Ao entregá-lo à mãe, Leonor exclama: “que mãe malvada, que preta malvada a que abandonou assim esta filhinha! Não é verdade que mamãe vai ser também mãe dela?”3.

A pele negra, se não é “clareada” por sacrifícios realizados para ajudar pessoas brancas, é sempre relacionada à maldade, ao embrutecimento, quando não à corrupção e ao vício. Esta é a clave que pauta as histórias infantis do período, mesmo quando escritas por abolicionistas notórios, como Coelho Neto e Olavo Bilac – o qual, nas primeiras décadas do século XX, defendeu os direitos de negros numerosas vezes em suas crônicas de jornal. Também são compostas nessa linha as histórias infantis de Manoel Bomfim, médico que se posicionava contra a ideia de inferioridade da raça negra, então dominante nos meios científicos e intelectuais. Seu livro Primeiras saudades: leitura para o primeiro ano do curso médio das escolas primárias (1920)4 retrata algumas personagens negras em circunstâncias excepcionais: Henrique Dias, que lutou ao lado dos portugueses contra os holandeses, no século XVII, e um “preto robusto”, anônimo vendedor de bananas que salva um homem branco do afogamento. Em Através do Brasil 5, escrito com Olavo Bilac, os protagonistas são brancos. Quando precisam atravessar o sertão baiano, conhecem Juvêncio, um adolescente “simpático, moreno, entre caboclo e mulato”. O “tipo” auxilia os heróis a enfrentarem a rudeza dos campos brasileiros.

Finalmente, as figuras de negros ou negras libertos são usadas em algumas obras infantis para justificar a reunião de diferentes contos populares. Quem lê Serões da mãe preta: contos populares para crianças (1897)6, de Juvenal Tavares, encontra os contos populares, mas nenhuma história protagonizada pela referida mãe. Em Histórias do Pai João, de Renato Sêneca Fleury, a personagem Pai João só aparece para os leitores, e muito rapidamente, no quarto conto dos cinco integrantes do livro. Figuras negras revelam-se como meros eixos articuladores de Contos da Mãe Preta: estórias do folclore adaptadas à leitura das crianças (1932), de Oswaldo Orico, que inaugurou a Biblioteca Infantil de O Tico-Tico, e no posterior Histórias de Pai João: estórias do folclore adaptadas à leitura de crianças, do mesmo autor.

 

FLEURY, Renato Sêneca. Histórias do Pai João (do folclore africano). 2a. ed. São Paulo: Melhoramentos, s/d.

(Biblioteca Infantil n. 67). Acervo de Cilza Bignotto.

 

A cor da maldição

Nos livros para crianças da Primeira República, são reconhecidas como dignas e virtuosas as personagens negras que ou sacrificam a vida por alguém branco ou são mestiças de pele clara. A pele negra quase sempre é relacionada não apenas a brutalidade e a vícios, mas também a maldições. Um exemplo dessa terrível associação é o conto “A princesa Negrina”, integrante de Contos para crianças (1906), de Chrysanthème – pseudônimo da escritora Maria Cecília Bandeira de Melo Vasconcelos. Nele, uma rainha é amaldiçoada por desejar muito uma filha, mesmo que “escura como a noite”. O pedido é atendido: a princesa nasce negra e terá de passar pelas mais terríveis provas para se tornar branca e conhecer a “real felicidade”. O livro foi traduzido para o inglês e publicado na Inglaterra em 1929. Outro exemplo é “Pérola da manhã”, um dos “contos do folclore africano” reunidos no livro Flor encarnada, da Biblioteca Infantil Melhoramentos, organizada pelo professor Arnaldo de Oliveira Barreto. Pérola da manhã é uma “linda moça” negra que deseja encontrar um rio mágico cujas águas tornam brancas as pessoas que nele se banham.

BARRETO, Arnaldo. Flor encarnada.10a. ed. São Paulo: Melhoramentos, s/d. (Biblioteca Infantil n. 18)

 

Pérola da Manhã se banha no rio mágico que branqueia pessoas negras.

 

A pele escura também está ligada a outras formas de maldição. No livro Lendas brasileiras, de Carmem Dolores – pseudônimo de Emília Bandeira de Melo, mãe de Chrysanthème – o conto “A mula sem cabeça” narra como uma “rapariga atrevida, espécie de mestiça altaneira” foi transformada em assombração diabólica por tentar seduzir um padre. Já a “preta Isidora”, do conto “Os sapatinhos de pão”, é mulher escravizada que fica “como idiota”, “bebendo às vezes cachaça”, até ser encontrada morta. Tudo porque fizera os tais sapatos de pão para calçar o filho morto. A alma do menino não consegue entrar no céu com os sapatos e volta para pedir à mãe que os tire de seus pés, pois ele precisa ficar descalço como os anjos. O “lindo menino loiro” da Sinhá, morto no mesmo dia, entra no céu sem sapatos – mas vestido com as mais ricas vestes. Vivo ou morto, o filho de uma escrava não podia usar sapatos. Ainda que fosse católica fervorosa, uma mulher escrava atraía para si e para o filho a maldição, por desejar sapatos para o “moleque”.

 

 

Acervo de Cilza Bignotto

 

 

Acervo de Cilza Bignotto.

 

Ser negro era ser amaldiçoado, conforme uma série de ficções que circulavam oralmente e por escrito, entre elas a narrativa bíblica da maldição lançada por Noé a seu filho Cam, que teria recaído sobre o neto Canaã, interpretada por teólogos do passado como explicação para o surgimento das populações africanas.

 

Reescrevendo os atributos da cor negra

O racismo evidente nos livros infantis que circularam na Primeira República pode ser explicado por meio de algumas hipóteses. Em primeiro lugar, era efeito do racismo que estruturava (e ainda estrutura) a sociedade brasileira. Em segundo, era produto do racismo que permeava o sistema de ensino do período. Pesquisas recentes têm apontado o racismo vigente nas políticas de educação formal, que abrangiam da separação de crianças brancas e negras em diferentes turnos escolares a eventuais normas, como a exigência de sapatos para entrar nos recintos escolares, as quais impediam o ingresso de crianças pobres, como o eram, em sua maioria, as negras e pardas. Era possível entrar no céu sem sapatos, mas não em salas de aula.

Como a produção de livros infantis estava fortemente atrelada ao consumo escolar, é possível que autores, editores, ilustradores e demais agentes literários produzissem obras em consonância com as diretrizes, explícitas ou implícitas, das instituições de ensino. Tal contexto explicaria a ausência de personagens negras e os estereótipos raciais negativos nas obras infantis de autores como Coelho Neto, Olavo Bilac, Manoel Bonfim, os quais, em textos para adultos, defendiam os direitos das pessoas negras, a igualdade racial, o fim do racismo.

É preciso levar em consideração, ainda, as obras infantis que serviam de modelo para os escritores brasileiros. Presciliana Duarte de Almeida afirmava imitar os livros do alemão Cônego Schmidt; Olavo Bilac e Manoel Bomfim se inspiraram no romance francês Le Tour de la France par deux enfants (1877), de Augustine Fouillée, para escrever Através do Brasil; Arnaldo de Oliveira Barreto e Romão Puiggari seguiam o modelo do italiano Amicis. Estes e outros autores europeus forneceram os moldes pelos quais os brasileiros produziam literatura infantil. As regras do jogo só começaram a mudar com as obras de Monteiro Lobato.

Inovações no campo da literatura infantil, porém, não costumam acontecer de forma abrupta. Editores comumente publicam modelos já conhecidos e consagrados, que pais e professores reconhecerão como bons e adequados para crianças. Por isso, mesmo grandes inovadores, como Hans Christian Andersen ou Lewis Carroll, mantiveram elementos dos modelos de obras infantis do passado em suas criações. Esse tipo de cuidado garantia que suas obras fossem reconhecidas como infantis, para começo de conversa. Caso as inovações formais ou de conteúdo fossem muito radicais, as obras daqueles escritores corriam o risco de não serem aceitas por mediadores de leitura e pelas próprias crianças.

Como apresentar aos leitores Tia Nastácia, uma personagem negra que não apenas era muito visível, mas atuaria como protagonista? A situação era inédita em 1920. Podemos compreender por que, naquelas circunstâncias, Tia Nastácia foi introduzida como “negra de estimação”. Podemos, igualmente, imaginar por que o narrador insiste em se referir a ela como “boa negra”. Afinal, negros não costumavam ser naturalmente bons em histórias infantis; somente sacrifícios extremos por alguém branco os tornava moralmente dignos de apreciação.

Monteiro Lobato parece seguir as convenções de seu tempo, mas, na realidade, ele as transformou em grande medida.

O escritor mudou muitos dos atributos até então associados à pele negra. Tia Nastácia tem voz, sabedoria, e numerosas virtudes. Não porque sua pele seja clara, devido à mestiçagem; pelo contrário, seus traços negros são sempre realçados. Não porque alguma fada tenha lhe dado sabedoria, ou algum rio mágico a tenha branqueado. Não porque alguma criança loira a veja como “um anjo do Senhor”, depois de torturá-la. Ela é negra e é boa. A repetição exaustiva das duas qualidades pelo narrador indica o quanto era estranho encontrá-las reunidas em uma personagem de literatura infantil.

Outra forma utilizada por Monteiro Lobato para transformar o modo como personagens negras eram retratadas foi a crítica irreverente às demais obras infantis que então circulavam. É o que se observa, por exemplo, na cena de “O Circo de Escavalinhos” em que Pedrinho explica a Narizinho que Tia Nastácia talvez não vá ao espetáculo das crianças porque na plateia há muitas princesas: “Está com vergonha, coitada, por ser preta.”. Quem não teria vergonha, sabendo que a própria pele estava associada a maldições diversas? Qualquer conhecedor de contos de fadas de origem europeia – e Tia Nastácia os conhecia bem – saberia que negros só entravam em histórias protagonizadas por princesas para encarnar o mal ou atrair maldições. Narizinho responde que Tia Nastácia não deve “ser boba” por ter vergonha da própria pele. A menina apresenta Dona Benta e Tia Nastácia aos príncipes e princesas da seguinte maneira:

— Respeitável público, tenho a honra de apresentar vovó, Dona Benta de Oliveira, sobrinha do famoso Cônego Agapito Encerrabodes de Oliveira, que já morreu. Também apresento a Princesa Anastácia. Não reparem por ser preta. É preta só por fora, e não de nascença. Foi uma fada que um dia a pretejou, condenando-a a ficar assim até que encontre um certo anel na barriga de um certo peixe. Então o encanto se quebrará e ela virará uma linda princesa loura.

A explicação de Narizinho alude a obras literárias e a outros discursos sociais nos quais o valor de mulheres brancas era determinado pela origem e posição social da família, especialmente de seus integrantes masculinos. A importância solene que a figura do cônego poderia projetar sobre Dona Benta, porém, é transformada em piada hilariante pelo nome ridículo do cônego, sua fama nula e o fato de que ele nem vivo estava. Dona Benta, já sabiam os leitores, valia por si mesma. Quanto à Tia Nastácia, o discurso para justificar sua presença é o mesmo dos contos de fadas para crianças, como o de Chrysanthème, que associavam a cor da pele negra a maldições impingidas a princesas originalmente brancas. Mesmo princesas africanas, como Pérola Negra, do conto de Arnaldo Barreto, desejavam ardentemente o branqueamento. As palavras de Narizinho aludem, ainda, a ficções nada literárias que ainda hoje circulam, tais como a de que negros “bons” teriam “alma branca”. Tais ficções, conhecidas das crianças das primeiras décadas do século XX, revelam-se mentirosas e ridículas, por meio da fala de Narizinho. A falsidade e o absurdo das explicações exigidas para que o “respeitável público” acolha Tia Nastácia contrasta com o sentimento de inferioridade da personagem — muito verdadeiro para grande parte da população negra, na qual tais ficções eram incutidas.

A cena é exemplar da complexidade com que as obras infantis de Monteiro Lobato tematizam problemas adultos os mais variados, incluindo as tensões raciais brasileiras. A fala de Narizinho, se desvela o “faz de conta” de discursos racistas, ancorados em fantasias, simultaneamente revela o poder das fantasias na estruturação da realidade cultural. Trocando em miúdos, “Uma coisa existe quando a gente acredita nela”, como explica o saci a Pedrinho, no livro O saci. O racismo é sustentado por fantasias; nem por isso deixa de ser real.

Monteiro Lobato não “apaga” de seus livros infantis nem os negros, nem os discursos racistas que então circulavam, alguns dos quais, infelizmente, permanecem na sociedade brasileira. Ofensas de teor racial, porém, são majoritariamente proferidas pela boneca Emília, criada por Tia Nastácia. O recurso permite que falas racistas sejam desautorizadas no momento em que são expressas, por meio de vários mecanismos narrativos. A boneca não é humana, o que torna desumanos, por conseguinte, seus discursos. As ofensas geralmente surgem quando Tia Nastácia contraria os interesses mesquinhos, quando não maldosos, de Emília. A injustiça e o absurdo das falas preconceituosas da boneca se tornam ainda mais evidentes, em certas cenas, pelas ações de Tia Nastácia.

A passagem do tempo, porém, transformou os livros de Lobato – muito mais, talvez, do que seu autor poderia prever. Estão desaparecidas, das bibliotecas e das memórias, praticamente todas as obras infantis que circulavam na mesma época em que A menina do narizinho arrebitado era lida e, posteriormente, Reinações de Narizinho tomava seu lugar. Um dos efeitos provocados pelo fato de apenas a obra lobatiana ter atravessado um século e continuar a ser conhecida é que o diálogo, por vezes crítico e cáustico, estabelecido pelos textos lobatianos com outras obras infantis não é mais percebido pelos leitores. Para crianças e jovens adultos de hoje, que convivem com modelos muito diferentes de livros, filmes e outras produções para o público infantil, pode parecer, por exemplo, que Monteiro Lobato inventou a horrível história de que ter a pele negra pode ser uma maldição.

Leitores contemporâneos podem também estranhar a insistência do narrador em se referir a Tia Nastácia como “boa negra” por desconhecerem o quão forte era a associação entre pele negra e maldade, e o quão raras eram personagens negras em histórias infantis.

Na mesma linha, é difícil, para leitores de agora, ter ideia da dimensão da novidade que foi a criação da boneca Emília. As bonecas retratadas em obras infantis no tempo do escritor eram loiras, feitas de louça e vestidas de seda. O fato de a boneca de Narizinho ter sido criada por uma mulher negra já era um acontecimento singular. A valorização dos saberes e fazeres populares, em especial os afrobrasileiros, começa para valer nas obras infantis com Monteiro Lobato.

A trajetória de Emília, por sua vez, é bastante simbólica. Bonecas têm aparência humana mas são coisas que pertencem a pessoas; podem ser entendidas metaforicamente, portanto, como escravas. Crianças mordem bonecas, cortam seus cabelos, atiram-nas ao chão, gritam com elas, dão-lhes ordens. O corpo de Emília é rasgado o tempo todo, e novamente costurado por Tia Nastácia. Ao longo da saga do Sítio do Picapau Amarelo, a boneca vai ganhando autonomia, independência e humanidade; nas últimas histórias escritas por Monteiro Lobato, ela já deixou de ser coisa e passou a ser gente. Ora, ser gente significa ser frágil. Em uma das últimas histórias criadas por Monteiro Lobato, “A reinação atômica” (1947), Emília descobre que tem câncer. Ela havia viajado ao Atol de Bikini para ver “os estragos da bomba atômica”. Ao saber que está doente,

" Emília perdeu a compostura, fez cara de choro — ela que nunca havia chorado! E correu à cozinha em busca de tia Nastácia, à qual contou tudo, entre soluços, querendo saber se não havia remédio.
A negra riu-se, riu-se, e gozou de ver a invencível Emília abatida, chorosa, largada em seu colo, a fungar, no horror de ficar careca.
Mas teve dó dela e consolou-a:
— Não tenha medo, bobinha. Eu dou um arranjo nisso. Tio Barnabé tem um remédio para cabelo tão bom, tão bom, que até faz nascer cabeleira em ovo de galinha. Arranjo com ele uma dose, e deixo essa cabecinha com uma cabeleira que nem a de Sansão.
Emília fungou, fungou e afinal se consolou. "

Minutos depois, Emília está brincando com Pedrinho. A relação entre Emília e tia Nastácia é das mais complexas da literatura. No excerto reproduzido, é Tia Nastácia quem Emília procura quando finalmente se descobre frágil e chora. No colo da mulher que a criou, ela desabafa e pede ajuda. Tia Nastácia “goza” de ver Emília finalmente conhecer a dor; mas, como alguém que sabe bem o que é dor, especialmente a de um estigma, consola a boneca, como só ela poderia consolar. Vale notar, ainda, que saberes negros e populares entram em cena para combater a doença provocada por saberes brancos e científicos.

É também de 1947 “A violeta orgulhosa”, provavelmente o mais antirracista conto infantil de Monteiro Lobato. Para provar a uma violeta branca que ela não era superior às violetas roxas, às quais humilhava, Emília conta com a ajuda do Visconde — que explica, cientificamente, o quão despropositada era a ideia de “superioridade ariana”.

Não é possível julgar qualquer aspecto da obra infantil de Monteiro Lobato por apenas uma cena, por apenas um volume. Há que se ler todos, a fim de acompanhar como as personagens evoluem e como temas complexos, tais como as tensões raciais brasileiras, são desenvolvidos, por meio de sofisticados recursos narrativos. O que se pode afirmar, como comentário geral ao tratamento que Lobato dá ao tema do racismo em seus livros infantis, é que ele começou o longo processo da reescrita dos atributos de personagens negras em nossa literatura infantil. Esse processo ainda está em curso e tem gerado obras para crianças que, enfim, apresentam personagens negras como protagonistas não apenas livres de estigmas, como orgulhosas de suas origens étnicas.

  1. BARRETO, Arnaldo de Oliveira; PUIGGARI, Romão. Primeiro livro de leitura. 18a. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1915. Disponível em: <http://lemad.fflch.usp.br/sites/lemad.fflch.usp.br/files/2018-06/primeiro_livro_de_leitura_barreto_1915.pdf> Acesso em: 22 dez. 2020.
  2. OLIVEIRA, Mariano de. Páginas infantis: leitura preparatória. 48a ed. São Paulo: Melhoramentos, 1935. Disponível em: <http://blij.bn.gov.br/blij/handle/20.500.12156.7/19> Acesso em: 22 dez. 2020.
  3. BILAC, Olavo; NETO, Coelho. Contos pátrios (para as crianças). Ilustrações de Vasco Lima. 44a ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1958. p.76.
    BOMFIM, M. Primeiras saudades: leitura para o 1º ano do curso médio das escolas primárias. 1a. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1920. Disponível em: <http://blij.bn.gov.br/blij/handle/20.500.12156.7/14> Acesso em: 22. dez. 2020.
  4. BILAC, O.; BOMFIM, M. Através do Brazil: (narrativa) livro de leitura para o curso médio das escolas primárias. 10a. ed. revista. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1923. Disponível em: <https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/5051>
  5. TAVARES, J. Serões da mãe preta: contos populares para crianças. Pará: Tipografia de Alfredo Silva & Cia, 1897. Disponível em: <http://www.fcp.pa.gov.br/obrasraras/publicacao/seroes-da-mae-preta/>

Carta a Purezinha

Créditos e fonte: http://www.projetomemoria.art.br/MonteiroLobato/monteirolobato/leia.html

Carta a Purezinha

À sua esposa, Pureza Monteiro Lobato, da prisão política de São Paulo em março de 1941

Purezinha

Só contarei o que é a vida em prisão. É a gente sozinho com o pensamento e nunca o pensamento trabalha tanto. Mas de tanto trabalhar acaba girando num círculo, isto é, volta sempre às mesmas coisas. Os pontos que formam o círculo do nosso pensamento, ou as estações em que o pensamento pára, para pensar sempre a mesma coisa, são – 1º você. Penso em V. com uma ternura imensa e um imenso dó, e culpo-me de um milhão de coisas. Meu dever era só cuidar da tua felicidade, Purezinha, e no entanto passei a vida a te contrariar e a fazer asneiras que tanto nos estragaram a vida. Se eu tivesse ouvido em negócios, minha situação seria hoje de milionário. Não ouvi, nem sequer te consultei, e o resultado foi desastroso. Cheguei até à prisão!

Depois de pensar e repensar em você e de convencer-me que apesar de todas as aparências, e da nossa eterna divergência, é você a única pessoa que eu amo no mundo, pulo para outra estação. Há a estação da Morte, penso na sobrevivência, no Além, em promessas do espiritismo, etc. Penso em Guilherme (filho do escritor falecido aos 24 anos de idade) e Heitor (Heitor de Morais) e acho-os tremendamente felizes por já terem morrido, isto é, feito uma coisa que nós ainda vamos fazer. Depois penso no meu caso – na vingança que os homens de cima que eu insultei hão de querer tirar de mim. Que tolice dar soco em faca de ponta! Espetei a mão a faca ficou no que era. Meu soco não a quebrou.

A vida aqui me tem feito pensa no horror que V. sempre teve pela prisão, pela condenação do homem ao confinamento por anos e anos. Agora vejo como, sem Ter experiência própria, V. adivinhou o certo. Não há castigo maior. Mil vezes a cadeira elétrica ou a forca – dores de um momento.

Estou preso há quase três dias e já me parecem três séculos. As horas têm 60.000 minutos. As noites não têm fim. Sou obrigado a não fazer nada de nada. Não há o que ler – nem jornais. E a incomunicabilidade em que estou, agrava tudo, porque me isola completamente do mundo exterior. Não posso falar com ninguém, nem comunicar-me com ninguém.

Imagine agora o meu prazer quando ontem recebi um pacote. Abri e vi logo você ali – ceroulas, lenços, meias, pijama novo e aspirina. Que presente, Purezinha! Como qualquer coisinha é todo um mundo para quem está sem nada! Repeti mil vezes o teu nome, e hoje de manhã, ao acordar e ver em cima da mesa as coisas, peguei nas meias e beijei-as… Imagine agora a que fica reduzida uma criatura depois de anos de prisão se eu só com dois dias já estou assim.

Foi o primeiro contacto com o mundo externo, esse preente que V. m mandou. Que alegria imensa me causou! Foi o mesmo que receber a tua visita.

Tratam-me muito bem aqui. Os guardas e diretores são pessoas delicadíssimas; que vêm ver-me todos os dias e conversar. Estou num “apartamento” otimozinho, com um banheiro de primeira ordem, com lavatório, bidê, privada e banheiro novinho com água quente. Sou servido no quarto pelo João, um mulato que está preso há já três meses. Cinco refeições, imagine! Para eu que só azia três. Café com leite, pão e manteiga às 7 h. Almoço com seis pratos às 11, chá mate, pão e manteiga às 2. Jantar às 5 e chá à noite. Creio que vou engordar. Mas o que mais me dói é não Ter o que ler, nem o que fazer – eu com tanto trabalho em andamento aí em casa! Quem me dera pilhar a tradução a Gulnara (Gulnara Monteiro Lobato, nora e sobrinha de Monteiro Lobato) para corrigir! E o prebrezinho de Edgard? (Edgar Monteiro Lobato, então doente dos pulmões) Como vai ele? Febre ainda? Como eu prejudiquei aquele menino – como eu prejudiquei a vocês todos, minha cara Purezinha! E agora, no fim de dez anos de lutas, dou de presente a vocês o que meu Deus! A minha prisão – mais amargura para você, mais sofrimento…

O Ernâni, aquele em cuja casa você esteve anteontem mostrou-se muito camarada. Pedi-lhe que telefonasse a você ontem e agora espero-o ansioso para saber se telefonou. Ele entra em serviço às 9 horas, um dia sim, um dia não. São 8. Daqui a uma hora saberei se ele conversou com você. Adues, minha querida, minha cada vez mais querida Purezinha. Um apertadíssimo abraço, e outro em Rute (Rute Monteiro Lobato, filha do escritor) e Edgard. Coragem aí, que cá do meu lado é o que não falta.

Estou escrevendo por escrever, para dar vazão aos sentimentos, porque não há jeito de fazer este papel chegar a você.

Incomunicável! Agora compreendo o horror desta palavra

Juca.

Bisneta de Monteiro Lobato participa de live com educadores da rede

Fonte: https://www.limeira.sp.gov.br/sitenovo/news.php?p=11816

A Biblioteca Pedagógica de Limeira promove na próxima segunda-feira (26) um encontro formativo com Cleo Monteiro Lobato, que é bisneta de Monteiro Lobato. Historiadora formada pela USP, escritora e tradutora, Cleo é filha de Joyce Campos (neta que teve contato com o escritor até os 18 anos) e idealizadora de um projeto que prevê adaptações da obra de Monteiro Lobado aos tempos atuais. Atualmente, Cleo dedica-se à tradução do livro “Reinações de Narizinho”, para o inglês. A iniciativa ocorre das 18h às 19h e integra o conjunto de ações em torno do Dia Nacional do Livro Infantil, celebrado em 18 de abril, em alusão à data nascimento do escritor.

A ação é voltada aos professores da rede municipal de ensino, profissionais da educação e a todas as pessoas interessadas na vida e na obra do autor. E segundo a bibliotecária Taciana Lefcadito Alvares, a ideia é subsidiar e fomentar a literatura infantil, em especial no mês de abril, com a temática voltada a Monteiro Lobato. O encontro será virtual, no formato de live, com transmissão pelo canal da Secretaria de Educação no YouTube.

Monteiro Lobato, o verdadeiro patriotismo militante.

Créditos e fontes: https://www.proust.com.br/

No dia 2 de julho de 1948, Monteiro Lobato concedeu à rádio Record aquela que seria a última entrevista de sua vida, que encerrou com as palavras: “O Petróleo é Nosso”! Dois dias após, “O Repórter Esso”, na voz de Herón Domingues, anunciou a morte de um grande brasileiro, desses que surgem poucos a cada geração: “E agora uma notícia que entristece a todos: acaba de falecer o grande escritor e patriota Monteiro Lobato!”

Monteiro Lobato, nascido em Taubaté em 1882, falecia aos 66 anos de idade; o corpo foi velado na antiga Biblioteca Municipal de São Paulo e em seu cortejo fúnebre, que seguiu a pé até o Cemitério da Consolação, havia mais de dez mil pessoas, que compreendiam que Monteiro Lobato representara, a seu modo, o ímpeto pioneiro, renovador, criador de tantas iniciativas fecundas e ousadas, aventuras pessoais ou coletivas, que formatariam um Brasil moderno.

Advogado sem vocação, seu primeiro emprego foi o de promotor público na cidade de Areias. Depois teve sua experiência como fazendeiro, mas as inovações agropecuárias que realizou demonstraram-se desastrosas; no entanto, “enquanto o fazendeiro se enterra, o escritor se levanta”, diz seu biógrafo Edgard Cavalheiro, porque o melhor “fruto da fazenda” foi o livreto “Urupês” (1918), uma coletânea de quatorze contos, nos quais surge a figura do Jeca Tatu.

O que “Urupês” desencadeou foi quase uma hecatombe na classe média que se expandia no Brasil. Surgia exatamente na contramão do otimismo que o recém reeleito Presidente Rodrigues Alves, o mesmo que higienizara o Rio de Janeiro com mão de ferro em seu primeiro mandato (1902/ 1906). O governo estabelecera o ufanismo nacional como plataforma de governo e, por encomenda, Afonso Celso publicara em prosa e verso o livro “Por que me ufano de meu país”. Por incrível coincidência, Rodrigues Alves morreria antes do final do ano de gripe espanhola contraída no Rio de Janeiro, a mesma gripe que em poucos meses dizimou dezessete mil pessoas somente na capital carioca.

O propósito claro de Lobato em “Urupês” e “Jeca Tatu” foi produzir um conto que fosse um grito de alerta contra o atraso cultural de nosso país, a miséria e o conservadorismo corrupto e corruptor. Se o índio fora o modelo idealizado por muitos escritores românticos do século passado, a figura do caboclo seria seu substituto moderno.

Jeca Tatu representa a miséria e o atraso do homem do interior. Ele é desleixado tanto na aparência quanto na higiene pessoal. Sem educação ou cultura própria, Jeca era ingênuo e repleto de crendices, visto como alcoólatra e preguiçoso. Porém, como afirma Monteiro Lobato, “Jeca Tatu não é assim, ele está assim”, a sociedade o deformou. “Eu ignorava que eras assim, meu caro Jeca, por motivo de doenças tremendas. Está provado que tens nas tripas e no sangue todo um jardim zoológico da pior espécie. É bicharia cruel que te faz papudo, feio, molenga, inerte. Tens culpa disso? Claro que não… És tudo isso sem tirar uma vírgula, mas ainda és a melhor coisa desta terra!”

“Urupês”, além desta personagem trouxe também uma série de inovações linguísticas. Monteiro Lobato estava preocupado em reproduzir nos seus textos a riqueza da fala do homem brasileiro do interior, seus coloquialismos e neologismos. De acordo com a crítica literária, o recurso da oralidade foi a maior ousadia do escritor em Urupês, pois nessa época o uso do português coloquial em obras era visto como algo “inferior” e sem valor literário.

Quando Monteiro Lobato em 1917 escreveu o texto “Mistificação ou paranoia”, criticando os modernistas, não se dera conta de que desde “Urupês” ele era uma clara ponte ligando o passado às convenções estilísticas propostas pelos mesmos que criticava.

De todo modo, Moteiro Lobato desistiu dos experimentos agrícolas, quando o êxito dos primeiros contos sacudiu o homem empreendedor e o levou a investir todas as suas forças e dinheiro no mercado editorial.

No princípio do século, os livros brasileiros eram editados em Paris ou Lisboa; Monteiro Lobato tornou-se editor, passando a produzir livros no Brasil e abrindo possibilidade para diversos autores totalmente desconhecidos do público. “Um país se faz com homens e livros”. “Livro não é gênero de primeira necessidade… é sobremesa; tem que ser posto embaixo do nariz do freguês, para provocar-lhe a gulodice.”

Lobato conseguiu desenvolver um mercado de massa e transformar a indústria editorial em indústria de consumo. Dentro de pouco tempo as edições da Monteiro Lobato e Cia. dominavam nosso mercado livreiro. Seu parque gráfico era o maior da América Latina.

O voo editorial, entretanto, fora alto demais. Sem nenhum apoio governamental, as grandes oficinas gráficas não suportaram a dificuldade de financiamento e a crise energética que se abatia sobre o Brasil e fazia as rotativas pararem. Lobato enfrentou dignamente a falência de sua Editora, em cujos alicerces ele, alguns anos após, plantaria uma nova, os da Companhia Editora Nacional, existente até os dias de hoje.

É depois da primeira experiência com uma editora que ele deixa São Paulo e muda-se para o Rio de Janeiro, onde segue a carreira de escritor. Seguidor de Figueiredo Pimentel, o brilhante autor português de “Contos da Carochinha”, Monteiro Lobato ficou popularmente conhecido pelo conjunto educativo de sua obra infanto-juvenil, que constitui aproximadamente metade da sua produção literária.

Em 1927, Lobato realiza um velho sonho: é nomeado adido comercial nos Estados Unidos. Os quatro anos que passará na América do Norte constituirão uma descoberta e um deslumbramento para o caipira de Taubaté: vê o gigantesco progresso americano e o compara com a nossa lentidão colonial. Ao voltar, trará planos grandiosos de salvação econômica para o Brasil. O primeiro deles é a Campanha do Ferro: é preciso “ferrar o Brasil”. A próxima, ainda mais ampla, será a Campanha do Petróleo.

Nos anos 30 havia interesse oficial em se dizer que no Brasil não havia petróleo, afinal o ouro negro já jorrava espontaneamente no solo do meio oeste norte americano. Monteiro Lobato aliava a literatura e a prédica a atitudes concretas. Na contramão dos interesses dominantes, fundou a Companhia Petróleos do Brasil, e graças à grande facilidade com que foram subscritas suas ações, inaugurou várias empresas para fazer perfuração, sendo a maior de todas elas a Companhia Mato-grossense de Petróleo (em 1938), que visava realizar perfurações quase junto à fronteira com a Bolívia, cujo governo nacionalista já encontrara gás e petróleo.

Em dois livros, “Ferro” (1931) e “O Escândalo do Petróleo” (1936), o escritor documenta os lances dramáticos da duríssima batalha que teve que travar contra a “carneirada” e contra os “moinhos de vento”, movido unicamente pelo afã de prover o Brasil de uma indústria petrolífera independente. O último livro esgotou várias edições em menos de um mês. Aturdido, o governo de Getúlio Vargas, que era acusado de “não perfurar e não deixar que se perfure” proibiu “O Escândalo do Petróleo” e mandou recolher todos os exemplares disponíveis, naquilo que seria o primeiro lance da longa sequência de escândalos envolvendo o petróleo brasileiro, que prosseguem até os dias de hoje.

A empolgação de Lobato fez com que ele percorresse todo o país em busca de apoios; a guerra que lhe moveram os governantes, os burocratas e os sabotadores dos interesses pátrios, terminou por deixá-lo pobre, doente e desgostoso. Em 1941, depois de enviar outra carta a Vargas, acusando-o de má conduta na política brasileira de minérios, acabou preso. No Presídio Tiradentes foi confinado por quase quatro meses, na mesma cela do Pavilhão 1, pela qual passariam tantos presos da ditadura militar de 1964.

Na cadeia manteve-se altivo e escreveu ao general Horta Barbosa, comandante do Conselho Nacional do Petróleo, responsável por seu encarceramento, agradecendo “os deliciosos dias passados na Casa de Detenção”, que lhe permitiram “meditar sobre o livro de Walter Piktin, ‘A short introduction to the history of Human Stupidy'”.

O certo é que com admirável sentido de luta, Monteiro Lobato conseguiu sacudir o Brasil de alto a baixo, apontando ao povo brasileiro os caminhos de sua emancipação econômica, bandeiras de lutas que se aprofundariam após a sua morte e que redundariam na fundação da Petrobras, empresa criada em 1953, na fase populista do então presidente Getúlio Vargas, impulsionada pela campanha popular iniciada em 1946 por Lobato, sob o slogan de “O petróleo é nosso”.

Voltemos ao Monteiro Lobato, o grande escritor da maior parte das histórias infantis nacionais. “A menina do narizinho arrebitado”, com edição inicial de cinquenta mil exemplares ocorreu no ano de 1921; nela Lobato introduziu o elenco de crianças e bonecos do Sítio do Pica Pau Amarelo. A seguir outras tão importantes ou mais foram: “Reinações de Narizinho” (1931), “Caçadas de Pedrinho” (1933) e “O sítio do pica-pau amarelo” (1939).

Lobato criou personagens inesquecíveis, que se incorporaram para sempre ao folclore brasileiro. Emília, a boneca de pano falante com sentimento e ideias independentes; Pedrinho, personagem com que o autor se identificava quando criança; Visconde de Sabugosa, a espiga de milho com consciência e atitudes de adulto; Cuca, a vilã.

A figura folclórica do Saci Pererê encontrou sua maior divulgação no autor de “Reinações de Narizinho”.

Lobato também acreditava que era chegada a hora de nos libertarmos da influência de Portugal e desenvolvermos uma linguagem brasileira. Nas suas adaptações infantis ele emprega uma linguagem coloquial e simplificada. Quase dez anos após, em 1928, o modernista Oswald de Andrade, no “Manifesto Antropofágico” apresentou a imagem do canibal brasileiro que devora o inimigo para apropriar-se de sua alma. “Assim como o canibal, o escritor brasileiro não deve absorver passivamente as influências estrangeiras, mas transformá-las em algo novo, abrasileirado, a la Monteiro Lobato”.

“Nós usamos a linguagem o mais simplificada possível, como a de Machado de Assis que é nosso grande mestre.”

Em “Don Quixote para crianças”, por exemplo, Emília, a boneca de pano, um dos álter egos do escritor, retira da estante o pesado Don Quixote que Dona Benta passa a ler para as crianças, netos e bonecos, nos famosos “Serões de Dona Benta”. Emília, depois de ouvi-la falar em lança em cabido, adargar, etc., perde o interesse e decide brincar. Então Dona Benta resolve contar a história de Cervantes com suas próprias palavras e quando Pedrinho, no final, pergunta se contara a história inteira, a avó diz que toda a história era apenas para os adultos. “Temos que abrasileirar a linguagem, tornando a literatura desejada pela nossa infância”.

“Os doze trabalhos de Hércules” concluem os trinta e nove livros infanto-juvenis e quase um milhão de exemplares em circulação. Através das viagens que os personagens do Sítio do Pica Pau Amarelo empreendem com Hércules, Lobato conta os trabalhos de humanização realizados pelo maior dos heróis gregos, como também os principais e mais belos trechos da mitologia grega, em linguagem apropriada para crianças, mas com riqueza de detalhes raramente encontrada em outros livros de adaptações mitológicas.

Lobato, em sua época, foi o escritor mais traduzido para línguas estrangeiras como o francês, italiano, inglês, alemão, espanhol, japonês, árabe e iídiche.

Em 1926, Lobato concorreu a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, mas acabou derrotado. Tal qual ocorrera anos antes com Lima Barreto, era a segunda vez que isso sucedia. Na primeira vez, em 1921, Lobato desistiu antes da eleição, por não querer fazer as visitas de praxe aos acadêmicos para pedir votos. Na segunda vez, concorria à vaga de um jurista. Na primeira, recebera um voto no terceiro escrutínio, e, na segunda, dois votos, idêntica votação recebida anos antes por Lima Barreto.

Anticlerical por excelência, Monteiro Lobato sofreu crítica, censura e perseguição por parte da Igreja Católica. O influente padre Sales Brasil, na primeira fila do reacionarismo da guerra fria, denunciou o livro “História do Mundo Para Criança” como sendo o “comunismo para crianças”. Muitos exemplares do livro foram queimados por clérigos e autoridades Brasil afora. Por ordem do governo Getúlio Vargas, a adaptação infantil de Peter Pan foi aprendida pelo DOPS em todo o Estado de São Paulo.

Lobato também provocou outros tipos de polêmicas. Quando publicou “Paranoia ou Mistificação”, a crítica desfavorável à exposição de pintura de Anita Malfatti (na Semana de Arte Moderna de 1922), muitos modernistas passaram a taxá-lo de reacionário, com a notável exceção de Mário de Andrade. Na realidade, a crítica de Lobato era direcionada aos “ismos europeus”: cubismo, futurismo, dadaísmo, surrealismo, que ele denominava de “colonialismos”, “europeizações”, da mesma raiz do “academicismo da geração anterior”. Lobato era a favor de uma arte autenticamente brasileira, autóctone e nisso, como já o dissemos, ele mesmo era uma ponte para o moderno.

É bem verdade que a obra literária de Lobato da década de vinte, continha preconceitos raciais e eugênicos. Ele acreditava que a miscigenação fora um fator prejudicial na formação do povo brasileiro. Em seu livro, “O Presidente Negro” (1926), descreve um conflito racial de um tempo futuro (ano de 2.228), após a eleição de um negro para a presidência dos EUA, com consequências desastrosas advinda do cheque de raças, quase um século antes da eleição de Obama.

Posteriormente, com sua aproximação do socialismo, essa faceta “eugênica” e preconceituosa se desfaria. Relata seu biógrafo, Cavalheiro, que “ele ansiava por um socialismo difuso, meio anárquico, meio romântico”. “Não possuía, entretanto, nenhum gosto pela especulação doutrinária e por isso, jamais foi homem de partido, militante político”.

Seu contato maior com os comunistas ocorreria a partir de 1941, após o período de confinamento no Presídio Tiradentes, durante a ditadura de Vargas. Empolgou-se com a luta antinazista na Segunda Guerra Mundial. Jamais escondeu sua admiração e estima por Luiz Carlos Prestes e o fazia de modo aberto, a quem lhe perguntasse. Em 1945, no famoso comício do Pacaembu, enviou a Prestes uma das mais lindas e humanas saudações.

Quando, em 1947, levanta-se uma nova onda de perseguições políticas, de sua pena nascerá a história de “Zé Brasil”, panfleto que percorreu o país de norte a sul, acusando o Presidente Dutra de implantar no Brasil uma nova ditadura: o “Estado Novíssimo”.

Sua visão sobre a problemática social ele a resumiria, já sexagenário, da seguinte maneira: “A nossa ordem social é um enorme canteiro em que as classes privilegiadas são as flores e a imensa massa da maioria é apenas o esterco que engorda essas flores. Esterco doloroso e gemebundo. Nasci na classe privilegiada e nela vivi até hoje, mas o que vi da miséria silenciosa nos campos e nas cidades me força a repudiar uma ordem social que está contente com isso e arma-se até com armas celestes contra qualquer mudança.”

Monteiro Lobato foi um dos homens mais íntegros e corajosos que já viveram neste país, um intelectual “à moda antiga”, daqueles que, passados quase um século, nossa pobreza ética e intelectual ainda se ressente da falta.

Bibliografia:

1. Lobato M. Urupês. Ed. Brasiliense, 1971.

2. Lobato, M. O Presidente Negro ou O Choque das Raças: Romance Americano do Ano 2228. Ed. Brasiliense, 1964.

3. Pereira, Astrojilgo. Crítica Impura. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1963.

4. Lobato, M. Obras Completas, Ed. Brasiliense, 1959.

5. Schuacz, L.M. e Starling, H. Brasil: Uma Biografia. Brasil, Companhia das Letras, 2013.

Live Especial: “Monteiro Lobato, ontem, hoje e sempre”

Fonte: https://guiataubate.com.br/agenda/live-monteiro-lobato

 

Sobre o Evento

 

No reino do Taubaté Shopping Center será realizada live especial “Monteiro Lobato, ontem, hoje e sempre”

A live acontece pela plataforma do instagram @taubateshopping às 17h, do dia 24 de abril  e contará com interpretação em Libras. Em um primeiro momento a criançada participará online  com a Tia Gih da Oficina “Como fazer o Pó de Pirlimpimpim?”, em duas versões, uma delas comestível inclusive.

A dica é se preparar para a live, com traje ou maquiagem dos personagens do Sítio do Pica Pau Amarelo, ou quem sabe trazer para a live um bom sabugo de milho, ou a boneca Emília, mas um bom livro do autor também é uma ideia muito borbulhante.

No segundo bloco, acontece um bate papo descontraído com a Cleo Monteiro Lobato, que lançou recentemente sua versão da obra “Reinações de Narizinho”, que é a obra mais literária do Lobato. Obra bilíngüe, adaptada e contém também uma versão em inglês. As ilustrações cheias de cor, meiguice e vida são do Rafael Sam.

Cleo afirma que pretende re-energizar o legado do seu bisavô e levar sua obra infantil para os EUA. E pasmem a Tia Nastácia tem turbante, saiu da cozinha e agora também compartilha a vida na sala de estar.

Estamos em contagem regressiva para esta live que promete muitas reinações

A live é recomendada para educadores, mães, pais, crianças, jovens e aos apaixonados pela obra de Monteiro Lobato, para maiores informações, entrar em contato via whatsapp (12) 99199 3946.

Manda chamar o Brecheret! Por Antonio Silvio Lefèvre

MANDA CHAMAR O BRECHERET!

ANTONIO SILVIO LEFÈVRE

Sobre a primeira e até agora inédita escultura de Monteiro Lobato

Era um tranquilo domingo, 4 de julho de 1948, quando, ligando o rádio pela manhã, meu pai, o médico Antonio Branco Lefèvre, ouve a notícia que menos desejaria ouvir:  a de que seu amigo e também paciente, o escritor Monteiro Lobato, havia falecido naquela madrugada.

Sim, embora meu pai fosse um neuropediatra, havia sido chamado algumas vezes para examinar Lobato juntamente com outros médicos pois, há alguns anos já, seu quadro de saúde era complexo e tinha componentes neurológicos, tanto que acabou morrendo de um derrame cerebral.

Indo direto para o velório, que foi instalado na Biblioteca Municipal de São Paulo, lá encontrou grande número de amigos próximos seus e de Lobato, como Caio Prado Junior, o dono da Editora Brasiliense, que editara as obras completas de Lobato, toda a turma da revista Clima… Antonio Cândido, Décio de Almeida Prado, Paulo Emílio Sales Gomes, Alfredo Mesquita, Lourival Gomes Machado.  E também o casal Tatiana Belinky e Julio Gouveia que mais tarde lançariam o Sítio do Picapau Amarelo na TV e muitos outros.  Entre eles Artur Neves, que havia sido sócio de Lobato nas suas primeiras iniciativas como editor, além de escritor.

E enquanto vários dos presentes discursavam enaltecendo o legado de Lobato e lamentando sua morte, de repente alguém observou que, por mais famoso que já fosse o escritor, era estranho que não  houvesse estátua ou busto dele em lugar nenhum.  Foi quando Artur Neves, impressionado com a lembrança, exclamou: “Manda chamar já o Brecheret!”.

Aquele que já era o mais famoso escultor brasileiro de então e que depois se tornaria “imortal” com o Monumento aos Bandeirantes no Parque do Ibirapuera, em São Paulo (apelidado jocosamente de “não me empurra…”), apareceu pouco depois no velório e com muita destreza e rapidez, para não perturbar a cerimônia, aplicou  uma massa no rosto do falecido e tirou dele um molde. Que alguns dias depois se transformou num busto ou máscara mortuária em bronze, a primeira escultura de Monteiro Lobato, criada no dia da sua morte.

Confiada por Brecheret a Artur Neves, em homenagem à sua amizade com Lobato, esta obra histórica  está hoje sob a guarda da filha de Artur, Marcia Neves Bodanzky, esposa do cineasta Jorge Bodanzky, não por coincidência meu mais velho amigo.

Sim, pois as coincidências não faltam neste universo lobatiano, já que, em minha geração, somos todos “filhos de Lobato”, como tão bem descreve o meu também amigo José Roberto Whitaker Penteado, ex Presidente da ESPM, em seu livro com esse título.

Todos os presentes naquele velório e pelo menos a geração seguinte, da qual eu faço parte, tiveram forte ligação com Lobato e sua obra. Dois anos depois, em 1950, Artur Neves foi o produtor e roteirista de um filme pioneiro baseado no livro de Lobato “O Saci”, pequena obra-prima que lançou Alex Viani, Nelson Pereira dos Santos e tantos outros jovens no âmbito do cinema. Com trilha musical do Cláudio Santoro, fotografia de Ruy Santos e por aí vai. E a produtora deste filme foi a Cinematográfica Maristela, inaugurada neste ano e  cujo sócio e presidente era meu avô materno, Benjamin Fineberg.

E seis anos depois, em 1954, eis que Tatiana Belinky, que iniciara o Sítio do Picapau Amarelo na TV Tupi, escolhe este articulista, filho do amigo Lefèvre, para interpretar o Pedrinho na série. Sim, porque não havia artistas crianças disponíveis naquela época e o casal  ia escolhendo seus protagonistas entre os filhos dos amigos que eram treinados no TESP (Teatro Escola São Paulo) que haviam criado com esta finalidade em 1949, exatamente um ano após a morte de Lobato.  Só para o personagem da boneca Emília é que não foi possível encontrar um intérprete infantil, tão difícil era o papel…  e assim ele foi confiado a uma profissional de teatro que fez história na TV de então, Lucia Lambertini.

Em julho de 2018, 70 anos depois do falecimento de Lobato, sua obra entrou em domínio público e deve ser reeditada e divulgada por várias editoras, na esperança de que novas gerações venham a apreciá-la, como a minha.  Assim, 2019 tem tudo para ser um “Ano Lobato”.

Neste contexto me ocorreu faria todo sentido que este busto inédito de Lobato por Brecheret estivesse exposto num museu ou local público importante, onde todos pudessem apreciá-lo.  Imaginei-o, por exemplo, no hall de entrada do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, que está sendo reconstruído.  Pois muito embora o acervo deste museu seja em grande parte digital, se há algo que mereceria estar lá fisicamente, em bronze, é justamente este grande escritor brasileiro do século XX que foi Monteiro Lobato.

Em tempo: neste “Ano Lobato” devemos uma homenagem especial a minha querida diretora Tatiana Belinky, cujo centenário de nascimento comemoramos  em março último. E eu, pessoalmente, cada vez que penso nela me lembro, saudoso, do seu filho André Belinky de Gouveia, grande amigo meu na adolescência e que foi também ator, como eu, tendo morrido muito jovem num acidente de moto na França. Um “filho de Lobato” a menos na nossa geração.

Celebre o Dia Mundial da Criatividade!

De sua incrível imaginação, surgiram os personagens mais marcantes e inesquecíveis: a Emília – uma boneca falante, a Cuca – uma espécie de bruxa com cabeça de jacaré, o Visconde de Sabugosa – uma espiga de milho intelectual. Até mesmo a Mula sem Cabeça e o Saci Pererê fazem parte de suas histórias!!! 🧡

Graças a sua imaginação repleta de magia, Lobato conseguia pensar como uma criança na primeira infância e através de suas obras, descrevia os universos fantásticos onde coisas incríveis acontecem e os limites eram ditados apenas pela capacidade quase infinita que ele tinha de imaginar.

Na sua imaginação, boneca de pano era gente, espiga de milho era gente e o pó de pirlimpimpim fazia as pessoas viverem aventuras fantásticas.

E no Dia Mundial da Criatividade, não falar de Lobato é quase que impossível.

Inspire-se na criatividade lobatiana e encontre a sua coragem de tirar as suas ideias da cachola!

Dia do livro infantil com Cleo Lobato

Especial Semana Monteiro Lobato no Dicas de Roberth – Dia 18/04/2021

Fonte: Dia do livro infantil com Cleo Lobato – O Maringá (omaringa.com.br)

Eu basicamente li todos os livros infantis e a maioria da coleção adulta. Em casa minha família era contra ter televisão. Então custei muito a ter o hábito de ver TV. Quase não assisti ao Sítio da televisão, nenhuma das séries… pois além de não ter o hábito, nessa altura já estava fazendo faculdade, namorando e casando. Mesmo assim minhas personagens preferidas das séries de TV são a Emília e a Cuca.

Agora dos livros eu sempre fui fã do Hércules! Sempre adorei mitologia Grega. Fomos a Grécia duas vezes! Visitei o palácio do Rei Minos.
O que mais me impressionava na obra de Lobato quando eu era criança era como era divertido aprender! Imagina que eu li até Aritmética da Emília e Emília no País da Gramática e achei maravilhoso! Hoje em dia me impressiona como Lobato trata de situações complexas e difíceis nos seus livros que são “infantis”. Por exemplo em Reinações de Narizinho, Emília fala sobre morte, ou melhor o “assassinato” da vespa pela Narizinho. Assassinato este não intencional (Narizinho mordeu a jabuticaba e matou a vespa) mas mesmo assim a vespa sofreu (Emília descreve detalhadamente o sofrimento da vespa) e morreu…olha que assunto complicado! Que oportunidade para se iniciar uma conversa sobre o que é morrer (tem toda uma longa descrição do enterro da vespa) e se existe matar alguém sem intenção…

Esse último ano, com a pandemia, tem sido muito difícil. Estava acostumada a viajar para o Brasil e ver minha mãe a cada três meses, mas agora já faz um ano inteiro que não a vejo. O interessante é que a pandemia impulsionou a minha presença virtual e o meu trabalho com Monteiro Lobato. Antes era complicado eu não estar fisicamente no Brasil, mas durante este ano tudo passou a ser virtual. Pude até organizar um evento virtual de três dias de duração com mais de 700 inscritos celebrando o primeiro livro infantil de Monteiro Lobato – A Menina do Narizinho Arrebitado – que aconteceu em Dezembro do ano passado.
Tivemos nove mesas redondas com os principais estudiosos de Lobato, falando de tradução, da influência de Lobato e mil outras coisas. Se quiserem ver está tudo disponível no YouTube Lobatocomvc e no site www.Natrizinho100anos.com

Há anos que penso em trazer Monteiro Lobato para os EUA mas este pais é muito insular e eu tinha dúvidas se os Americanos se interessariam em ler Lobato, mesmo ele sendo tão importante no Brasil. Curiosamente o que descobri é que existe um contingente muito grande de Brasileiros imigrantes igual a mim que estão criando filhos bilingues (ou estão tentando) e querem Lobato em Português nos EUA. Inversamente também descobri que existem Brasileiros no Brasil, criando filhos bilingues e querendo Lobato em Inglês!

Após descobrir meu público foi que eu iniciei esse processo de adaptação e tradução da primeira história do livro Reinações de Narizinho que se chama Narizinho Arrebitado-livro 1 e saiu em Dezembro de 2020.
Ao se traduzir um livro necessariamente a obra passa por uma adaptação, pois está havendo uma transposição de uma cultura para outra cultura. Esse processo de tradução junto com a minha vivência de 23 anos aqui nos EUA e o fato de ter conhecido minha editora, Nereide Santa Rosa (outra brasileira que emigrou para os EUA) foi o que me impulsionou a fazer a adaptação em português e lançar Monteiro Lobato nos EUA e no Brasil em Inglês e Português e com ilustrações novas.

Na adaptação que fizemos, Tia Nastácia ganhou nova roupagem, não só externa, mas também interna. Esse foi o único ponto da obra de Lobato que eu e minha editora decidimos que era necessário modificar. Decidimos que Tia Nastácia, o único personagem afro-descendente além do Saci e o Tio Barnabé, na obra de Lobato, precisava ser atualizada para que os livros do meu bisavô continuassem a dialogar com o mundo atual. Também para que seus livros continuassem a ser lidos pelas crianças de hoje e continuassem a criar leitores pensantes como fazem há 100 anos. Tia Nastácia original não reflete mais o papel do negro na sociedade Brasileira. Já se foi o tempo em que na TV, nas novelas, só havia espaço para atores negros representarem empregada/os. Mesmo na adaptação da televisão da TV Globo Tia Nastácia ainda era a ex-escrava, empregada que cozinhava bem e ajudou D. Benta a criar Narizinho. Na adaptação que fizemos alteramos Tia Nastácia para o presente onde ela é amiga de infância de D. Benta e mantivemos todo o resto: quituteira, a pessoa que simboliza o conhecimento do folclore brasileiro, a pessoa que dá colo e amor quando as crianças se machucam…eu acho que essa modificação reflete a evolução da sociedade Brasileira.

Nossa Tia Nastácia também tomou uma injeção de orgulho no visual que o ilustrador Rafael Sam, do Recife criou para ela. Tem sido fundamental a participação do Rafael Sam com as novas ilustrações para criarmos a nova Tia Nastácia que tem orgulho das suas origens africanas. Os livros de Lobato se passam num universo de fantasia que retrata o interior do Vale do Paraíba no período após a abolição da escravidão. Agora com a adaptação que fizemos esse universo fantástico passa a existir num nível atemporal onde os personagens do Sítio vivem suas aventuras, interagem com o mundo e aprendem sobre a vida.
Na adaptação que fizemos colocamos um prefácio explicativo além de um glossário com definições das palavras em desuso. Acho importante para os leitores saberem que houve escravidão no Brasil, que o sistema capitalista do Brasil colônia e do Brasil Império foram baseados no trabalho escravo e que essas condições sócio-econômicas evoluíram até os dias de hoje. Apesar de grandes conquistas em todos os níveis ainda é necessário mais progresso para se ter um Brasil com maior igualdade socio econômica para todos.
O que mais me fascina na biografia do meu bisavô era sua capacidade de sonhar grande e de sempre rever suas opiniões. É absolutamente inacreditável como Lobato, ao herdar a fazenda São José do seu avô, o Visconde, parte para modernizar o sistema de plantio e colheita. Minha bisavó, Purezinha tratava dos colonos com homeopatia! É de conhecimento de todos que Lobato ficou horrorizado com a apatia do colono e escreveu Jeca Tatu. Depois foi pesquisar as causas da tal apatia e descobriu que a culpa não era do Jeca, mas sim da verminose que sugava o Jeca e o deixava assim! Então, não contente em somente denunciar a situação ele se alia a Candido Fontoura, criador do Biotônico Fontoura e cria a maior campanha publicitária para resolver o problema da verminose do homem do campo! Lobato parece não ter a noção desses limites, e achar que pode resolver o problema de todos e do Brasil…depois foi a vez de Petróleo e ferro. Ele realmente se esforçava para resolver os problemas do Brasil – e pensava sempre nesses termos monumentais e ia atrás com uma perseverança, energia e tenacidade incríveis!

Eu acredito, igual Lobato, que um país se faz com homens e livros, mas também professores bem pagos.. É fundamental termos pessoas que saibam ler, entender e discutir situações complexas. E isso só se consegue com um bom sistema de ensino onde o professor seja valorizado e bem pago para poder fazer seu trabalho de formação dos alunos.
Narizinho Arrebitado-livro 1 está disponível no Amazon.

Dicas de Roberth em parceria com Mundo Geek e O Maringá agradecem por fazer deste dia muito mais especial com leitura e esperança para todo o povo brasileiro.

Viva Monteiro Lobato! Viva o livro infantil em todo lar de nosso Brasil!

Monteiro Lobato: da morte às origens. Por Antonio Silvio Lefèvre

Autor: Silvio Lefèvre

Créditos e fontes: https://www.chumbogordo.com.br/34725-monteiro-lobato-da-morte-as-origens-por-antonio-silvio-lefevre/

(O judeu Monteiro Lobato, aprendendo a ler e escrever com meu pai…)

ANTONIO SILVIO LEFÈVRE 

Desde o final de 2018, 70 anos depois da morte de Lobato, quando sua obra entrou em domínio público, eu, como intérprete do Pedrinho na primeira versão do Sítio do Picapau Amarelo (TV Tupi, 1954) fui chamado a participar de muitas conferências, debates e “lives” sobre sua vida e sua obra.

Por mais que já se tenha escrito e debatido sobre Lobato e sua obra, sempre pude revelar fatos inéditos, que o convívio intenso com a herança cultural lobatiana desde a minha infância me trouxe a ventura de conhecer.

Aqui mesmo, no Chumbo Gordo, contei o que aconteceu no dia mesmo da morte de Lobato (4 de julho de 1948) quando, no velório, seu sócio, Artur Neves gritou “Manda chamar o Brecheret!” para que o já famoso artista tirasse um molde do rosto de Lobato para esculpir uma máscara mortuária.

Mais recentemente, a amiga Márcia Neves Bodanzky, esposa do amigo cineasta Jorge Bodanzky e filha do Artur Neves, passou a mim uma descoberta de arrepiar… um exemplar até então soterrado da edição especial da revista Fundamentos, da Editora Brasiliense, publicada em setembro de 1948 e totalmente dedicada à memória de Lobato, recém-falecido. E eis que, entre os artigos de muitos famosos, deparo com um de meu pai, o médico neurologista Antonio Branco Lefèvre, com o título “Lobato diante da morte”. E nele meu pai relata o que ocorreu num atendimento a Lobato, logo após ele ter tido um pequeno AVC.

«Quando foi que morri?», perguntou Lobato


«Quando foi que morri?», perguntou Lobato calmamente, imaginando que já estivesse em outro mundo. Prosseguindo o exame do paciente, meu pai verificou que embora ele estivesse bastante fluente na fala, simplesmente não conseguia ler nem escrever nenhuma palavra!

E meu pai explica no artigo: “Tratava-se de uma sequela que é bastante rara na patologia neurológica: uma alexía, sem o menor componente afásico, apresentando, entretanto, uma agrafia bem nítida. Estranha esta coincidência. Um cérebro como o de Lobato atingido exclusivamente em duas funções que eram nele tão extraordinariamente desenvolvidas: a leitura e a escrita”.

E sobre a reação de Lobato, comentou: “Tudo isto pode levar a crer que fosse enorme seu desespero em face desta situação. Poucas vezes entretanto o encontrei irritado com sua moléstia. É verdade que a recuperação foi se fazendo tão rapidamente, que o doente, sentindo os seus progressos diários, sabia que a cura estava próxima, como de fato se deu em duas semanas, aproximadamente.”
Já nos primeiros dias, em que meu pai fazia exercícios para ensinar Lobato a ler e a escrever, o aluno, jocosamente lhe perguntou: Quando é que vou passar para o segundo ano?”

Infelizmente, quando Lobato teve um segundo AVC este o fulminou instantaneamente. “Quando cheguei à sua casa naquela fria madrugada de domingo, ele já estava morto, com uma estranha expressão de calma e serenidade na face”, escreveu meu pai.

Da morte às origens de Lobato

MONTEIRO LOBATO

Além de tudo o que me foi perguntado sobre Lobato nas conferências e debates, que se estenderam até agora, na celebração dos 70anos da TV no Brasil, em que foram relembradas as várias apresentações do Sítio do Picapau na TV, desde a primeira, da qual participei, houve uma que me levou ao extremo oposto da sua morte…a busca das suas origens familiares.

Tudo começou com uma conversa minha com sua bisneta, Cleo, que vive atualmente nos Estados Unidos e de lá administra um site criado para a memória de seu bisavô, o www.monteirolobato.com

Cleo é filha de Joyce, neta de Lobato, por sua vez filha de Martha, uma das duas filhas mulheres de José Bento Monteiro Lobato, como era seu nome completo. Formada em História pela USP, Cleo se interessa muito pelas origens da família e me relatou que sua mãe, Joyce,  lhe disse ter o sentimento de que a família era de cristãos-novos, ou seja, de judeus conversos para escapar da Inquisição. Possivelmente essa curiosidade pelo lado judaico tenha sido estimulada pelo fato de Joyce ter-se casado com um judeu polonês, Jerzy Matheusz Kornbluh, pai de Cleo.

Quando lembrei Cleo que minha sogra, Anita Novinsky, que havia sido sua professora na História da USP, é a maior especialista no tema da Inquisição e dos cristãos-novos no Brasil, ela ficou muito entusiasmada e de pronto me mandou uma árvore genealógica da família Lobato, elaborada por uma equipe da UNICAMP, sob a direção da Marisa Lajolo, renomada estudiosa da obra de Lobato. E me mandou também um pequeno tesouro, que é o “Caderno de Dona Purezinha”, em que a dedicada esposa de Lobato faz revelações extraordinárias sobre a vida e obra do marido, mas também muitas sobre as origens da família.

Pois bem. Não foram necessários estudos históricos aprofundados para que Anita me assegurasse que, sem dúvida alguma, a família toda de Lobato é de cristãos-novos, portanto judeus convertidos. Já numa simples análise das últimas gerações lobatianas, observou que José Bento Monteiro Lobato tinha duas irmãs com prenomes tipicamente judaicos: Esther e Judith. E ele mesmo deu nomes judaicos para suas duas filhas: Ruth e Martha (mãe da Joyce)

Ora, é sabido que esses nomes não vêm por acaso… sendo evidente que tanto o pai de Lobato, como ele mesmo, os tinham no seu inconsciente cultural.

Os ancestrais cristãos-novos de Lobato

MONTEIRO LOBATO

E quando lembrei a Anita que a família de Lobato havia se estabelecido em Taubaté o diagnóstico, então, foi fulminante pois, segundo, ela, Taubaté foi um dos mais importantes locais de partida dos bandeirantes para todo o Brasil. E, sabidamente, os bandeirantes eram em sua quase totalidade cristãos-novos, alguns como Raposo Tavares, com ancestrais queimados pela Inquisição e que, por isso mesmo, nutriam um ódio figadal contra os jesuítas, que combateram na “Guerra das Missões’”

“Monteiro Lobato era descendente dos primeiros fundadores de Taubaté, Pinda, e Paraibuna, gente que teve desbravadores do sertão e sempre as rédeas do Governo que se difundiu pelo seus descendentes,”, escreveu Purezinha no seu diário. Tanto que entre os nomes que aparecem na genealogia da família Lobato está o do bandeirante Pedroso Alvarenga. Sobre Luiz da Costa Cabral, um ancestral dos Lobato, Purezinha conta que “ em companhia de Borba Gato, foram portadores de valiosos presentes à D. João IV”

Voltando mais atrás na história encontrei um ancestral Lobato que ficou famoso por ter renegado a conversão forçada ao catolicismo e voltado às raízes judaicas. Segundo relata Meyer Kayserling em seu clássico “História dos judeus em Portugal”, Diogo Gomes Lobato (prenome original Abrão Cohen) tinha um primo, Paulo de Pina, que pretendia se tornar monge e que Diogo aconselhou fortemente a não fazê-lo e voltar à religião materna. “Pina viajou com seu parente Lobato para o Brasil e de lá para Amsterdão, onde se tornou fiel adepto do judaísmo”

Ficando mais do que claras as origens judaicas dos Lobato pesquisei eventuais referências do próprio Lobato a este fato. Nada encontrei nos seus textos em relação às origens mas sim muitas referências aos judeus. Sempre muito eloquentes em termos de admiração e respeito.

Lobato e os judeus

Numa entrevista concedida ao jornalista Nelson Vainer nos anos 40, ainda durante a guerra, Lobato dá um depoimento que merece ter um trecho reproduzido por sua expressividade e, incrível, por sua grande atualidade:

“O maior drama da História temo-lo na vida dos judeus, a raça que, como disse Heine, criou para si mesma uma ‘pátria portátil’ e talvez por essa razão se tornasse indestrutível – e tão perseguida pelas raças de pátria fixa. Várias circunstâncias tornaram o judeu um povo à parte e eterno aluno da Escola da Adversidade. E se o cursar essa escola durante séculos traz realmente superioridade, o povo judeu tem razão no alto juízo que faz de si mesmo, porque nenhum outro fez na escola terrível curso tão longo. Daí o aparentemente estranho fenômeno de um povo tão pequeno em número ter produzido grandes homens e grandes coisas em proporção tremendamente superior à dos demais povos, a ponto de tornar-se um eterno “caso” no mundo”.

O que mais é preciso para sabermos que Lobato, além de ser judeu pela origem, se sentia também como um judeu e fazia um discurso próximo do sionismo?

Fiquei curioso apenas por saber o que Lobato sentiu quando, exatamente dois meses antes da sua morte, em 14 de maio de 1948, era fundado o Estado de Israel e os judeus não precisaram mais ser “portáteis”.

O mundo encantado de Monteiro Lobato

Sua primeira história, “A menina do narizinho arrebitado”, depois intitulada “Reinações de Narizinho”, foi publicada em 1920. O sucesso foi tão grande que ele não parou mais. Depois deste livro inicial, criou outros,  imortalizando os personagens que viviam num lugar mágico chamado Sítio do Pica-Pau amarelo.

As histórias se passavam neste sítio de Dona Benta, avó de Narizinho e Pedrinho, e a estes se juntavam Tia Nastácia – que fazia deliciosos bolinhos de chuva; Tio Barnabé – o velho contador de causos; a dupla engraçada de trabalhadores rurais: Zé Carneiro e Pedro Malazarte; e os famosos Emília, a boneca de pano, teimosa e engraçada; Visconde de Sabugosa, o sabugo de milho que tinha virado gente e era  dono de uma admirável inteligência; o Marquês de Rabicó, porquinho que vivia às voltas com a boneca falante em suas brincadeiras mirabolantes.  Às vezes apareciam no Sítio personagens das lendas brasileiras, como o Saci e a Cuca; e outros da literatura universal, como Hércules e certos mitos gregos. Dona Benta, grande contadora de histórias, podia entreter os meninos durante horas, narrando para eles a História das Invenções. Ou  então era Emília que se aventurava com seus companheiros pelo País da Gramática. Tudo muito divertido.

Desde o início os livros foram ilustrados. Quem fez os primeiros desenhos foi um amigo de Lobato chamado Voltolino, que era caricaturista. A caricatura é um desenho onde os traços são bem fortes. Hoje há edições belíssimas de todos os livros. Se você ainda não leu um deles, comece já!

Monteiro Lobato morreu em 4 de julho de 1948. Morreu, não! Como Emília  gostaria  de dizer, transformou-se em “gás inteligente”.

Seis livros que toda criança deve ler

Reinações de Narizinho: Neste livro Lúcia, mais conhecida como Narizinho, visita o Reino das Águas Claras, levando a tiracolo sua boneca de pano, Emília. Com a chegada de Pedrinho, o primo da menina do nariz arrebitado, que veio de São Paulo passar as férias no Sítio do Picapau Amarelo, tudo fica mais divertido.

As Caçadas de Pedrinho : Uma onça pintada anda rondando o Sítio do Picapau Amarelo, lá para os lados do Capoeirão de Taquaraçus. E Pedrinho resolve montar uma verdadeira expedição para sair em sua busca. Claro, sem contar para Dona Benta ou Tia Nastácia. Muitas aventuras e um novo personagem para o Sítio: o rinoceronte Quindim.

O Saci: Pedrinho ganha um novo amigo para suas aventuras. Ele tem só uma perna, fuma cachimbo, usa barrete vermelho na cabeça. Vem do folclore para fazer companhia na busca pela cultura brasileira… Entre as personagens que eles encontram estão a Cuca e o Boitatá.

A Chave do Tamanho: As notícias sobre a Segunda Guerra Mundial chegam ao Sítio pelo rádio e entristecem Dona Benta e toda a turma do Sítio do Picapau Amarelo. Emília, a protagonista desta história, resolve sair em uma aventura para acabar com as batalhas e acaba por fazer todos diminuírem de tamanho.

Serões de Dona Benta: A avó usa acontecimentos do dia a dia para falar sobre ciências com as crianças. Entra um pouco de tudo… geologia, física, geografia… As perguntas e as observações engraçadas de Emília ajudam na construção do conhecimento.

Viagem ao Céu: A matéria agora é Astronomia! As crianças se divertem no espaço – dos anéis de Saturno à cauda um cometa – e Tia Nástácia, no mundo da Lua, cozinha para… São Jorge, em pessoa!

Títulos da literatura infantil de Monteiro Lobato:

1 – Reinações de Narizinho

2 – Viagem ao céu e O Saci

3 – Caçadas de Pedrinho e Hans Staden

4 – História do mundo para as crianças

5 – Memórias da Emília e Peter Pan

6 – Emília no país da gramática e Aritmética da Emília

7 – Geografia de Dona Benta

8 – Serões de Dona Benta e História das invenções

9 – D. Quixote das crianças

10 – O poço do Visconde

11 – Histórias de tia Nastácia

12 – O Picapau Amarelo e A reforma da natureza

13 – O Minotauro

14 – A chave do tamanho

15 – Fábulas

16 – Os doze trabalhos de Hércules (1º tomo)

17 – Os doze trabalhos de Hércules (2º tomo)

Fonte: GCN

Conheça mais Marcia Camargos

Escritora com pós-doutorado em História pela USP, ela tem 30 livros publicados, entre ensaios, biografias, romances e infanto-juvenis. Foi co-autora de Monteiro Lobato em “Furacão da Botocúndia”, obra que lhe rendeu prêmio Jabuti e Livro do Ano pela CBL em 1998, e escreveu também “À mesa com Monteiro Lobato”, em 2008, e “

Juca e Joyce: memórias da neta de Monteiro Lobato”, em 2007. Curadora das suas “Obras Completas”, relançadas pela Editora Globo, em 2007, mudou-se para a França em 2016, onde passou a preparar um segundo pós-doutorado na Sorbonne, sobre os modernistas em Paris nos anos 1920.

Você sabe como surgiu a Semana Monteiro Lobato?

A Semana Monteiro Lobato é um evento que aconteceu pela primeira vez entre 11 e 18 de abril de 1953, em Taubaté.  Ela surgiu com o objetivo de resgatar a importância do escritor taubateano e sua contribuição única para a formação de um pensamento genuinamente brasileiro. 

Para atingir esse objetivo, os organizadores procuraram evitar debates e estudos que abordassem um tema espinhoso: a conturbada relação de Monteiro Lobato com Taubaté,  sua terra natal, assunto muito polêmico na cidade e causador de prejuízos à memória do escritor. Durante anos, foram “fabricadas” dezenas de mitos injuriosos, quase todos girando em torno de um suposto desprezo de Lobato com a gente de Taubaté. Como resultado, até aquele momento, todas as tentativas de envolver a cidade em homenagens ao já consagrado escritor resultaram em retumbantes fracassos.


Esse rancor doméstico teria se “oficializado” em 1922, logo depois do lançamento de “Cidades Mortas”, livro que traça um perfil não muito simpático de um decadente Vale do Paraíba nos primeiros anos do século XX.


Em Taubaté, a reação contra o livro de Lobato partiu de um vereador, Luís Câmara Leal, que em uma sessão da Câmara Municipal, subiu à tribuna como porta-voz de uma ressentida e indignada “elite” da cidade, que dizia se sentir traída pelo escritor. Eles acreditavam que, principalmente, por ser o neto do outrora poderoso Visconde de Tremembé (falecido em 1911) e por viver até poucos anos sob a sua sombra, Lobato não poderia e não tinha o direito de expor com tanta crueza a realidade retrógrada que na época o Vale vivia. 


Durante anos e sem sucesso, os jacarés (apelido dos super amigos de Lobato) Cesídio Ambrogi (1893-1974), Gentil de Camargo (1900-1983) e Urbano Pereira (1902-1968) tentaram mudar esses conceitos, sempre ressaltando que a importância do escritor era muito maior do que as picuinhas regionais. 


A ideia de realizar uma Semana Monteiro Lobato surgiu de Gentil de Camargo em 1952: “Fui convidado para fazer uma palestra sobre Euclides da Cunha, cuja semana estava sendo festejada em Taubaté. (…) E terminada a conferência no Rotary Club, então eu fiz essa pergunta: se uma cidade, que não é o berço natal de Euclides da Cunha, onde ele não redigiu ‘Os Sertões ‘, instituiu a existência da semana de Euclides da Cunha, então porque Taubaté, berço natal de Monteiro Lobato, não realiza uma semana para homenageá-lo? Lanço essa ideia na terra fértil desse clube”.(Texto adaptado do Almanaque Urupês)


Hoje, o evento já atingiu projeção nacional e conta com palestras, exposições artísticas, oficinas pedagógicas, concursos literários, contação de histórias, música, dança e teatro! 
E você, já conhecia o evento ou sabia da história dele?  Aproveite para conferir a programação SML 2021 CLIQUE AQUI

WORKSHOP ONLINE – MONTEIRO LOBATO

WORKSHOP ONLINE – MONTEIRO LOBATO

Estão abertas as inscrições para o workshop online "Monteiro Lobato: por que e como ler Lobato com as crianças de hoje?", uma parceria do Instituto Quindim com a Casa de Histórias Sônia Travassos. Em dois encontros virtuais, o objetivo é discutir aspectos da obra infantil de Lobato, mostrando porque seus livros são um marco na literatura para crianças no Brasil e se tornaram clássicos. 

As obras podem ser compartilhadas com as crianças de hoje? O que favorece e o que dificulta a leitura da obra lobatiana? Qual o lugar do professor como importante mediador?

@soniamariatravassos é doutora e mestre em Educação (UFRJ), especialista em Literatura Infantil e Juvenil (UFRJ), mediadora de leitura, escritora  e contadora de histórias. Idealizadora da Casa de Histórias Sônia Travassos (@casadehistorias.st), espaço virtual para a divulgação da literatura infantil e para a formação continuada de professores.

INSCREVA-SE NO LINK DA BIO: @institutodeleituraquindim e da @casadehistorias.st@gmail.com  será

AULAS: aos sábados, dias 17 e 24 de abril, das 09h às 12h.

INVESTIMENTO: 
R$ 180 (conveniados, ex-alunos do Instituto Quindim e da Casa de Histórias pagam R$ 150; o desconto deve ser solicitado pelo e-mail institutodeleituraquindim@gmail.com)

PAGAMENTO: boleto, Pix, transferência bancária, cartão de crédito e débito.
 

Você sabia que a Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato é a mais antiga biblioteca infantil do país?

Oi, gente! Vocês sabiam que hoje, dia 09 de abril, é celebrado o Dia da Biblioteca?! Ele é um dia muito importante para a cultura, para o livro, a leitura e as bibliotecas brasileiras! Além de incentivar a leitura e o interesse pela cultura, é importante para refletir o quanto é necessário um espaço destinado à leitura.

O Brasil tem mais de 7 mil bibliotecas e apesar de parecer um número alto, o país possui apenas uma biblioteca para cada 30 mil habitantes. O índice de leitura dos brasileiros também não é muito positivo:  44% dos brasileiros não têm o hábito de ler e ao menos 30% nunca nem compraram um livro!

Mas ainda bem que mesmo diante desse cenário, muitas bibliotecas estão buscando se reinventar e atrair mais usuários criando experiências únicas no universo literário, e sem contar com a tecnologia dos acervos digitais, que viabilizam o acesso à leitura sem precisar sair de casa.

Visitar novos espaços culturais é muito importante para aumentar o nosso conhecimento e estimular a criatividade. Inclusive, em São Paulo, você pode embarcar em uma viagem literária e conhecer as histórias lúdicas de Monteiro Lobato de pertinho.

A Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, localizada na Vila Buarque no Centro de SP, tem entrada gratuita e conta com um acervo de mais de 90 mil itens voltados à literatura infantil. É a mais antiga biblioteca infantil do país!

Ela foi inaugurada pelo escritor Mário de Andrade em 1936 e levou o nome do autor em seu nome de batismo até 1955, mas passou a se chamar Biblioteca Infantil Municipal Monteiro Lobato em homenagem ao pai da literatura infantil. ❤️

Em razão da pandemia do coronavírus, os espaços culturais seguem temporariamente fechados, mas não deixe de incluir essa visita incrível na sua programação pós-pandemia, hein?

No site e no blog oficial monteirolobato.com, você encontra materiais exclusivos, como linha do tempo, fotografias, ilustrações, artigos sobre personagens, e consulta de bibliografia. Não deixe de acompanhar semanalmente nossos conteúdos exclusivos.

‘Vossa Rinocerôncia perdeu um tempo precioso’. Por Maria Helena RR de Sousa

AUTOR: MARIA  HELENA RR DE SOUSA

DATA: NOVEMBRO DE 2020

FONTE: CHUMBO GORDO

CRÉDITOS: https://www.chumbogordo.com.br/34184-vossa-rinoceroncia-perdeu-um-tempo-precioso-por-maria-helena-rr-de-sousa/

Na ânsia de encontrar provas do racismo em Monteiro Lobato e varrer das prateleiras de nossas crianças esse escritor perigosíssimo que fez gerações e gerações aprenderem a gostar de ler e pensar, os que não têm mais nada a fazer no MEC se esqueceram do segundo capítulo de Caçadas de Pedrinho: “Um Rinoceronte Interna-se Nas Matas Brasileiras”.

É fácil de explicar. Muito mais contundente que o conjecturado racismo em Caçadas de Pedrinho, o que Monteiro Lobato ensina à meninada, em uma crítica  irônica, ferina, é o quanto a burocracia cega é prejudicial à eficiência dos governos em geral. E acharam melhor não chamar a atenção sobre esse detalhe…

Como disse a Emília ao funcionário do “Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte”: “Mas por que não discutiu isso durante a semana em que o rinoceronte andou sumido e a passagem pela porteira esteve completamente franca? Acho que Vossa Rinocerôncia perdeu um tempo precioso”.

A imposição obrigatória de um mesmo e único exame a todos os concluintes do Ensino Médio induz toda a Educação Básica do país a uma perspectiva cada vez mais padronizadora, inibindo inovações. A médio prazo, a tendência é uniformizante e empobrecedora para o sistema de ensino, pensa a Emília, rainha das implicantes.

Nós precisamos de mais escolas e mais professores, mas o inacreditável exemplo de amor à Pátria dos assessores de Vossa Rinocerência já nos indicou o caminho certo. Vamos abrir primeiro outro caminho, o Enem seriado que será chamado de Saab.

Nele, as provas dos alunos do ensino médio formarão uma nota a partir da pontuação adquirida em cada uma das três séries, que poderá ser utilizada para acesso ao ensino superior. Os estudantes que fizerem a prova da 1ª série em 2021 já estarão concorrendo a vagas nas universidades para quando concluírem o ensino médio, em 2023. Que tal?

Não é por nada que a Emília chama o MEC de Quindim. Lá Vossa Rinocerôncia se encontra com seus bravos assessores e dá ensejo à glória de nosso ensino e de nossos mestres. São poucas aulas, mas são muitas provas!

É muita dedicação, não é não?

Monteiro Lobato, um criador de respeito

FONTE E CRÉDITOS: https://www.construirnoticias.com.br/monteiro-lobato-um-criador-de-respeito/

Lendo e aprendendo

Monteiro Lobato é apontado como o autor que mais escreveu para crianças em todo o mundo, sendo a sua obra considerada a mais extensa de literatura infantil de que se tem notícia. Bateu recordes de vendagem, atingindo entre 1925 e 1950 um milhão e meio de exemplares vendidos de seus livros.

No dia 04 de julho de 2003, fará 54 anos que Monteiro Lobato morreu. Nascido em Taubaté, São Paulo, em 18 de abril de 1882. Aos 9 anos resolveu mudar seu nome para José Bento Monteiro Lobato, pois desejava usar a bengala do pai, gravada com as iniciais J. B. M. L.

Na infância, viveu num universo propício para desenvolvimento de suas histórias. Era chamado de Juca, por suas irmãs Judite e Esther, e gostava de fazer bichos de chuchu com palitos nas pernas. Era um hábito, naquele tempo, as crianças brincarem com sabugos de milho que se transformavam em bonecos. "Por isso, cada um de meus personagens – Pedrinho, Narizinho, Emília e Visconde – representa um pouco do que fui e um pouco do que não pude ser", escreveu.

Aos 14 anos, escreveu sua primeira crônica para o jornal O Guarani. "Sempre amei a leitura. Li Carlos Magno, Robinson Crusoé e todo o Júlio Verne", registrou.

Nas pequenas cidades do interior, escreveu para jornais e revista. Quando seu avô, Visconde de Tremembé, morreu, em 1911, herdou dele a fazenda Buquira, passando de promotor a fazendeiro. Foi na fazenda que escreveu o Jeca Tatu, símbolo nacional.

Para viabilizar a edição de seus livros para adultos, comprou a Revista do Brasil. Urupês iniciou o processo editorial de Lobato. Antes de criar a primeira editora nacional, Monteiro Lobato & Cia, os livros do Brasil eram impressos em Portugal.

Tentou novos métodos de comercialização do livro. Importou máquinas para imprimir no país obras de autores brasileiros. Foi obrigado a desfazer-se da editora e gráfica por ele fundada e que deu origem à Companhia Editora Nacional.

Participou de campanhas contra o que ele mesmo chamou de escândalo do ferro e do petróleo, que lhe custaram a prisão e o exílio. Seus dois filhos homens morreram jovens.

Empresário falhado e escritor bem sucedido, fundou, em 1946, a Editora Brasiliense, para editar suas obras completas.

Pouco antes de morrer, declarou em sua última entrevista, à Rádio Record de São Paulo, que gostaria de ter escrito mais para as crianças, em vez de perder tempo escrevendo para "gente grande".

"Quiseram me levar para a Academia Brasileira de Letras. Recusei. Não quis transigir com a praxe de lá – implorar votos.

Tive muitos convites para cargos oficiais de grande importância. Recusei a todos. Getúlio Vargas (presidente do Brasil na ocasião) convocou-me para ser o Ministro da Propaganda. Respondi que a melhor propaganda para o Brasil, no Exterior, era a liberdade do povo, a constitucionalização do país.

Minha fama de propagandista decorria da minha absoluta convicção pessoal. O caso do petróleo, por exemplo, e do ferro. Éramos ricos em energia hidráulica e minérios, e não somente café e açúcar. Durante 10 anos, gritei essas verdades. Fui sabotado e incompreendido.

Dediquei-me à Literatura Infantil já em 1921. E, retornei a ela, anos depois, desgostoso dos adultos. Com Narizinho Arrebitado, lancei o Sítio do Pica-pau Amarelo. O Sítio é um reino de liberdade e encantamento. Muitos já o classificaram de República.

Eu mesmo, por intermédio de um personagem, o Rei Carol, da Romênia, no livro A Reforma da Natureza, disse ser o Sítio uma República. Não; República não é, e sim um reino. Um reino cuja rainha é a D. Benta. Uma rainha democrática, que reina pouco. Uma rainha que permite liberdade absoluta aos seus súditos. Súditos que também governam. Um deles, Emília, é voluntariosa, teimosa, renitente e não renuncia aos seus desejos e projetos.

Mas eu precisava de instrumentos idôneos para que o trânsito do mundo real para o fantástico fosse possível, pois, como ir à Grécia? Como ir à lua? Como alcançar os anéis de Saturno? Bem, a lógica das coisas impunha a existência desse instrumento. Primeiro surgiu o "O Pó de Pirlimpimpim" que transportaria para todo e sempre, os personagens de um lugar para outro, vencendo o 'ESPAÇO'. O 'FAZ-DE-CONTA', pó número 2, venceria a barreira do 'TEMPO', suprindo as impossibilidades de acontecimentos. Finalmente pensei no 'SUPER-PÓ', inventado pelo Visconde de Sabugosa, em O Minotauro, que transportaria, num átimo, para qualquer lugar indeterminado, desde que desejado."

História reescrita

AUTOR: FELIPE MACHADO

DATA ORIGINAL: 24/03/2021

FONTE: REVISTA ISTOÉ

CRÉDITOS: REVISTA ISTOÉ

No Brasil e no exterior, clássicos da literatura e do cinema enfrentam um revisionismo cultural e são obrigados a se adaptarem ao contexto histórico atual, que não aceita comportamentos abusivos em temas como raça e gênero

Por mais atemporais que sejam as histórias contidas em suas páginas, livros são objetos imutáveis feitos de palavras impressas em papel. Como toda obra artística, nascem da criatividade de seres humanos e ganham vida a partir de contextos pessoais e sociais que não podem ser desprezados. Isso, porém, não exime a responsabilidade que um autor tem sobre a forma como se expressa: o mundo muda, mas as ideias permanecem. No início desse mês, um dos nomes mais renomados da literatura infantil nos EUA teve seis títulos retirados de circulação após uma junta de especialistas alegar que eles continham temática racista ou xenófoba. Theodor Seuss Geisel, mais conhecido como Dr. Seuss, escreveu mais de 60 obras e criou personagens populares como “Grinch” e “Lorax”. Sua família, detentora dos direitos autorais, apoiou a decisão e defendeu a tese de que elas “mostravam grupos minoritários de forma errada”. Apesar de polêmica, a medida foi bem vista pelo público: os outros livros do autor subiram para o topo nas listas dos mais vendidos.

O Brasil enfrenta dilema parecido desde 2010, quando um dos escritores mais populares do País passou a ter a obra questionada pelas mesmas razões. Ao longo das décadas de 1920 e 1930, Monteiro Lobato encantou leitores com o universo do “Sítio do Picapau Amarelo”, turma que tinha entre seus personagens a ex-escrava e cozinheira Tia Nastácia. Além da forma humilhante como ela é retratada, Lobato é acusado de racismo por sua vida pessoal. Quem o acusa, porém, não leva em conta que as capas de seus livros foram feitas por Bendito Barros Barreto, o “Belmonte”. Escolher um artista negro para ilustrar suas edições era uma atitude avançada para os padrões da época.

A historiadora Cleo Monteiro Lobato, bisneta do escritor, publicou uma edição atualizada de “Reinações de Narizinho” sem os trechos racistas. Na nova versão, tia Nastácia é uma amiga de infância de Dona Benta. “A última revisão havia sido feita em 1947. A obra está parada no tempo, mas a sociedade evolui”, afirma Cleo, que mora nos EUA e participou das manifestações antirracistas. Para ela, não é possível apagar que houve escravidão no Brasil. “Meu pai era judeu, sua família morreu em campos de concentração. Nem por isso se pode apagar o holocausto”, compara. Cleo elogiou a decisão dos herdeiros do Dr. Seuss. “Deveríamos ter feito esse mesmo tipo de revisão juntos, teria mais peso. Mas minha família não é coesa.”

O escritor Jeferson Tenório, autor de “O Avesso da Pele”, não vê com bons olhos esse tipo de adaptação. Para ele, o correto seria manter o texto original com notas explicativas. “Quando ouço que Lobato era um ‘homem do seu tempo’, penso nos outros autores que estavam no mesmo contexto e não eram racistas, como Augusto dos Anjos, Manoel Bandeira e Graciliano Ramos”, diz. “Seria mais correto admitir que há um racismo estrutural e epistêmico entranhado na cultura brasileira. Ser antirracista não é varrer o problema para debaixo do tapete, mas colocá-lo no meio da sala.”

O revisionismo cultural não está restrito aos livros. O grande clássico “E o Vento Levou”, filme de 1939 sobre a guerra civil americana – que teve a escravidão como estopim do conflito –, foi retirado do canal HBO em 2020 após o assassinato de George Floyd. O vídeo voltou ao ar, mas com uma mensagem introdutória que explica o contexto da época da produção.

GÊNERO

O debate não contempla só a questão racial, mas também a de gênero. Críticas à objetificação feminina começaram pelo público infantil. Na animação “Space Jam”, lançada pela Looney Tunes em 1996, a coelhinha Lola Bunny aparecia com roupas justas e um visual sexy. Na nova versão, ela ganhou uma aparência mais discreta, sem decotes e com uniformes confortáveis . Quem não teve a mesma sorte foi Pepe Le Pew, o gambá com jeitão de conquistador: ele foi cancelado porque seu costume de beijar à força outras personagens era muito abusivo. Nos desenhos animados, basta apagar o problema. Na vida real, as soluções exigem medidas bem mais complexas.
 

RACISMO DELIRANTE É TRATAMENTO GROTESCO: MONTEIRO LOBATO MERECE RESPEITO

AUTOR: ANA LÚCIA BRANDÃO

DATA ORIGINAL: FEVEREIRO DE 2021

FONTE: CHUMBO GORDO

CRÉDITOS: https://www.chumbogordo.com.br/37143-racismo-delirante-e-tratamento-grotesco-monteiro-lobato-merece-respeito-por-ana-lucia-brandao/?utm_source=mailpoet&utm_medium=email&utm_campaign=Coluna+Carlos+Brickmann

artigo de Marcelo Coelho na Folha de S. Paulo, classificando Monteiro Lobato como “tremendamente, monstruosamente… escandalosamente racista – um racista delirante” deixou a mim e a todos os estudiosos de sua obra literalmente escandalizados.

Para quem não me conhece, sou especialista em Literatura Infantil e Juvenil, ensaísta, resenhadora  crítica da Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil (SMC – PMSP) e do UOL Educação, doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e membro do grupo de Estudos em Cultura e Literatura para Crianças e Jovens da USP. Trabalhei na Biblioteca Infantil Monteiro Lobato por três décadas.

Tenho, pois, a minha vida dedicada a Lobato  e sei que a vida e a obra  deste grande escritor é um verdadeiro jogo de espelhos, que exige muito fôlego e capacidade de discernimento dos que desejem opinar sobre ela ou sobre o escritor. Sugiro aos que desejem se aventurar a conhecer esta vida tão intrigante a leitura da maior e mais completa  biografia já escrita sobre ele, realizada por Edgar Cavalheiro (dois volumes).

Quanto à primeira das duas questões apontadas de maneira extensa e pouco representativa, ao meu ver, no artigo de Marcelo Coelho, para justificar sua acusação de “racismo delirante” em Lobato, tenho a pontuar que a obra “O presidente negro” destoa em muito do restante da obra adulta de Lobato, no geral marcada por contos curtos, incisos e por vezes plenos de humor e ironia. Para completar o quadro trata-se de um romance de ficção científica incipiente, gênero que ele não dominava enquanto escritor.

Através do diálogo de três personagens, Lobato aborda neste livro a questão do racismo, da miscigenação e da eugenia que estavam fortemente em pauta nos Estados Unidos, na década de 20, a ponto de haver ou não pureza racial ser considerado por muitos como a razão para o progresso ou para o atraso de um país.

O livro fez um verdadeiro “Raio X” da questão racial nos Estados Unidos, tão grave a ponto de levar, nesta ficção, a um verdadeiro “choque de raças”, aliás o título original que Lobato deu ao livro.

Porém, ao contrário do que entendeu erroneamente Marcelo Coelho, Lobato não encampa para si, como autor, nenhuma fala racista de qualquer personagem do livro. Apenas expõe, com muita ironia, os argumentos racistas dos personagens. E revelando como a sua visão, como autor, era totalmente contrária ao racismo, no final do livro Lobato antecipa o que seria a grande “vingança” dos negros americanos: a eleição de um presidente negro para os Estados Unidos. Algo tão inimaginável quanto escandaloso para os brancos naquela época, a ponto de Lobato ter datado este sonho no ano de 2228. Lobato anteviu Obama em 2009, errando só na data, antecipada em 219 anos pela história real.

Mais do que um livro em prol da  pureza racial, este romance constrói uma metáfora sobre segregação e aculturação” escreveram Márcia Camargos e Wladimir Sachetta na abertura da reedição do livro, de 2008.

Quanto à carta de Lobato “elogiando” a Ku Klux Kan,  segundo argumento de Marcelo Coelho  para provar “o racismo delirante de Lobato”, ela é uma “única” que aborda esse tema  entre os dois volumes de cartas escolhidas, que vão de cartas escritas entre 1895 a 1948, destinadas a setenta e quatro correspondentes, dentre os quais encontramos parentes, amigos, escritores, médicos, políticos, profissionais técnicos no beneficiamento do Ferro e da prospecção de petróleo, etc.

E esta carta me parece inconsistente frente ao todo de sua saborosa  correspondência.  Importante ressaltar que são volumes com cartas de foro íntimo.  Quem não as tiver escrito, inclusive se auto-ironizando, que atire a primeira pedra. Fosse o tempo de hoje, elogiar a Ku Klux Klan numa rede social, para um intelectual com senso de humor, seria boa resposta, tipo KKK, a  um amigo dizendo que não irá tomar a vacina chinesa “para não virar jacaré”.

Levar ao pé da letra palavras ou frases de uma mensagem pessoal entre amigos, para classificar um deles como “racista” revela uma enorme incompreensão do que significa a crítica literária. Aliás, no prefácio do primeiro volume de cartas, Edgar Cavalheiro aponta que estes dois volumes estão longe de representar um décimo da sua produção no gênero.  Cavalheiro, então, cita Antônio Cândido  – que aponta o gênero  epistolar como raro na produção literária brasileira – e afirma que ”temos um pudor irremediável, um inexplicável  sentimento de inferioridade ante o público”. Cavalheiro termina seu prefácio dizendo: “os volumes que ora incorporamos às “Obras completas” constituem subsídio inestimável para a compreensão do homem e do escritor que ele foi. (..) Nada do grande homem é sonegado nestas cartas”.

Agora é momento de nos concentrarmos na questão do racismo, que vou abordar  sob o ponto de vista estético, literário e do humor, o humor caricatural, do qual o grupo Porta dos Fundos é um grande exemplo atual e do qual Lobato, se descesse numa mesa branca, iria querer assistir e dar suas gargalhadas.

A obra infantil de Monteiro Lobato, que apresenta dezessete volumes, foi ilustrada por vários  artistas. Um deles, a quem Lobato delegou a criação visual de seus personagens, foi Belmonte. Benedito Barros Barreto é o nome deste ilustre homem negro, conhecido como Belmonte, que Lobato convidou para ilustrar sua obra. Belmonte foi um grande chargista e como todo chargista sempre exagerou nos traços das personagens, realçando-lhes ao extremo as suas características físicas a ponto de tirar risadas de seu público com sua crítica mordaz e hilariante.

Gonzalo Junior na sua biografia sobre Belmonte conta como Lobato o incentivou a criar seus próprios personagens infantis, que apareceram na “Folha da Manhã” e se chamavam  Bastinho e Bastião, um branco e outro negro, amigos inseparáveis, que com a ajuda da magia de um saci, partem para as aventuras, na série chamada “As viagens fantásticas de dois garotos”.

Ora, um “racista delirante” nem ao menos dirigiria a sua atenção a um homem como Belmonte, não é mesmo?  Portanto, vale pontuar que entre 1929 e 1937, Belmonte ilustrou cinco livros da saga do Picapau Amarelo.  De Belmonte a Alcy Linnares, Tia Nastácia mantém seus traços. Um caso a se pensar – a força e acalanto da imagem da mulher negra no nosso imaginário.

Como sou literata de formação e atuação profissional, acho necessário apontar a linguagem humorística criada por Lobato para parte de sua obra adulta e para a infantil como um todo. A linguagem criada por ele é prenhe de rebeldia e criatividade inusitadas e utiliza-se largamente de um registro coloquial e tom de oralidade capazes de surpreender até hoje o leitor, por ser lúdica e original ao extremo.

Portanto, a obra infantil de Monteiro Lobato é modernista em essência e justamente por isso, por registrar a oralidade da época em que foi escrita, Lobato hoje é criticado ao extremo.  Ora, entra aí a presença do mediador de leitura, quem lê com a criança, que naturalmente revela o contexto de época do escritor e da obra.

O Sítio do Picapau Amarelo é uma criação que põe em diálogo o universo da cultura oral brasileira representada com maestria por Tia Nastácia, tio Barnabé (com quem Pedrinho e as demais crianças obtém  todo o conhecimento sobre a mata e seus animais e plantas) e claro, o ser mais mágico desse universo oral  que é o Saci. Tia Nastácia é a deusa que criou a boneca Emília e o Visconde de Sabugosa, os dois encantos que vivem as aventuras do sítio e fora dele.

Dona Benta representa a cultura escrita e por vezes formal, sempre rechaçada pela boneca Emília e pela Cultura brasileira como um todo. A riqueza da voz do povo que se exprime por meio da oralidade é de um virtuosismo lingüístico, literário e simbólico muito grande. Já dizia a escritora Sylvia Orthof sobre Tia Nastácia, que a encantou desde criança: “Sempre imaginei Tia Nastácia como uma noite estrelada”.

Se há algo que Emília não suportava era a injustiça. E eu, como Emília, afirmo que Monteiro Lobato não foi um “racista delirante”. Foi um homem do seu tempo, um humanista que realmente realizou o projeto de formar um país de leitores, mas que como toda personalidade ousada e visionária, eternamente provocará impasses e novos questionamentos. Este é o papel de toda obra clássica de uma determinada cultura.

Mas Lobato foi também um homem que foi preso por querer que o governo explorasse suas riquezas e deste modo proporcionasse  educação e bem estar para o povo e que teve a coragem de denunciar a tortura no auge do Estado Novo. Por tudo que representa, Monteiro Lobato tornou-se memória e marca indelével na Cultura brasileira e não merece nem de longe um qualificativo tão injusto e deletério como este de “racista delirante”, colocando, como no “index” da Inquisição,  ele mesmo e toda sua obra, inclusive e especialmente a infantil.

“Vida longa para a obra de Monteiro Lobato!”

É MUITA NOSTALGIA! ESTRELA RELANÇA A BONECA EMÍLIA, DO SÍTIO DO PICAPAU AMARELO, NO CENTENÁRIO DA PERSONAGEM DE MONTEIRO LOBATO

DATA ORIGINAL: 20 DE JANEIRO DE 2021

FONTE: SÃO PAULO PARA CRIANÇAS

CRÉDITOS:https://saopauloparacriancas.com.br/ai-meu-coracao-estrela-lanca-boneca-emilia-do-sitio-do-picapau-amarelo-no-centenario-da-personagem-de-monteiro-lobato/

Para quem já passou dos 30, taí uma notícia cheia de nostalgia que vai aquecer o coração e fazer você voltar para a infância: a boneca Emília, estrela do Sítio do Picapau Amarelo, está de volta! Em homenagem ao centenário de uma das mais marcantes personagens criadas por Monteiro Lobato, a Brinquedos Estrela lança em fevereiro, exclusivamente pelo seu e-commerce, a mais famosa boneca de pano do País!

Isso mesmo! Depois de relançar diversos clássicos que marcaram a infância de muita gente, como o Ferrorama, Moranguinho, Feijãozinho, Falcon, Genius, Tippy, Gui Gui e Autorama (tudo isso você pode comprar aqui!!), a Estrela traz de volta a amada Emília!

O modelo que chega ao site da Estrela em fevereiro é inspirado na primeira versão do brinquedo que a Estrela fez, em 1977, com vestido amarelo, sapatinhos azuis, bracinhos coloridos e cabelo de lã. Veja a comparação dos dois modelos:

 

Apesar de constar apenas no catálogo da Estrela de 1978, a boneca Emilia foi lançada para a semana das crianças de 1977 – a atriz Dirce Migliaccio já fazia muito sucesso na série “Sítio do Picapau Amarelo”, na Rede Globo, desde março de 1977.  Segundo a especialista em bonecas e brinquedos antigos, a colecionadora Ana Caldatto, a Boneca Emília da Estrela foi produzida de 1977 até 1986 – dez anos que fizeram dela uma das bonequinhas de pano mais vendidas da história.

Ela teve diversos modelos – tinha até a Emília Cirandinha, que girava e dançava, a Emilinha, que cabia na palma da mão, e a a Emília versão fofolete. Ano que vem, 2022, a boneca comemora 45 anos de lançamento.

Como surgiu a Emília?

A personagem Emília apareceu pela primeira vez no livro “A Menina do Narizinho Arrebitado”, de 1920. Lobato conta que Emília foi feita por Tia Nastácia de presente para a neta de Dona Benta, Lúcia Encerrabodes de Oliveira, mais conhecida como Narizinho.

Emília é uma boneca de pano, recheada de flor de macela. Nasceu muda, e é graças às “pílulas falantes” do Dr. Caramujo, do Reino das Águas Claras, que ela começa a falar e não parou mais. Sabichona, é conhecida por volta e meia “abrir sua torneirinha de asneiras”, principalmente quando quer explicar algo de difícil explicação ou justificar uma ação ou vontade.

Além de falar muito, também costuma trocar os nomes de coisas ou pessoas por versões com sonoridade semelhante. Aqui em casa o trocadilho preferido é “Dr. Cara de Coruja”, como ela chama o médico que lhe concedeu o dom da fala. Outros engraçadinhos: “borboletograma”, “bissurdo” e  “crocotós”. Para ela um crocotó é algo que a gente não sabe bem o que é. Exemplo: os extraterrestres são crocotós.

Emília é muito engraçada, criativa e geniosa. Diz o que pensa e quando leva bronca, finge que não é com ela. Não teme nada, apronta todas e é cheia de vontades. Encanta crianças há gerações! Aqui em casa estou relendo com meus filhos os livros originais da minha infância e eles estão encantados.

“Eu adoro Emília e, ao escrever os livros nesta máquina, sou o primeiro que me rio das coisinhas que ela diz.” — Monteiro Lobato, em carta de 1934

Há quem acredite que o nome da personagem nada mais era que uma brincadeira entre Lobato e seu amigo, o pedagogo baiano Anísio Teixeira, cuja esposa se chamava Emília. Há outras teorias que consideram Emília como um alter ego do Autor. Com ela Lobato expressava, muitas vezes, suas próprias opiniões que, por contrariarem o senso comum da época foram colocadas na boca de uma criatura cuja índole era irresponsável e que, por ter enchimentos de macela, falava sem pensar.

O sucesso na TV

Além das páginas dos livros de Monteiro Lobato, Emília fez sucesso nas telonas e nas telinhas, onde ganhou vida e desde então emociona gerações de telespectadores. Confira abaixo o panorama que montamos com todas as atrizes que interpretaram Emília, qual sua favorita?

 

A primeira aparição da boneca falante foi no filme “O Saci”, de 1951, dirigido por Rodolfo Nanni. Emília foi interpretada pela a atriz Olga Maria.

1ª Emília - Olga Maria (1951)

1ª Emília – Olga Maria (1951)

O Sítio do Picapau-amarelo foi um dos maiores sucessos da televisão brasileira e teve muitas versões. Na primeira versão, da extinta TV Tupi (de 1951 a 1962), a personagem Emília foi interpretada pela atriz Lúcia Lambertini. Essa adaptação estreou em 03/06/1952, tinha Daniel Filho no papel de Visconde de Sabugosa e só um cenário: a varanda da casa de Dona Benta. Foram 360 episódios e ficou no ar até 1962.

2ª Emília - Lúcia Lambertini (1952 a 1965)

2ª Emília – Lúcia Lambertini (1952 a 1965)

 

2ª Emília - Lúcia Lambertini (1952 a 1965)

2ª Emília – Lúcia Lambertini (1952 a 1965)

Em paralelo à exibição ao vivo em São Paulo, a TV Tupi do Rio de Janeiro exibiu, por dois meses no ano de 1955, uma versão da série com direção de Maurício Sherman e produção de Lúcia Lambertini, a atriz que interpretava a Emília, juntamente com um elenco carioca.

2ª Emília - Lúcia Lambertini (1952 a 1965)

2ª Emília – Lúcia Lambertini (1952 a 1965)

Era um teleteatro, roteirizado pela escritora Tatiana Belinky, exibido na única emissora de TV que existia na época. Lambertini algumas vezes revezava o papel com a atriz Dulce Margarida.

Na segunda versão, da TV Cultura (1964), Lúcia Lambertini comandou a produção, além de viver Emília em 1964 e 1965, mas a série só foi produzida por seis meses. Júlio Gouveia e Tatiana Belinky, responsáveis pela versão do Sítio na TV Tupi, em São Paulo, foram os responsáveis por retomar a série, desta vez na TV Bandeirantes, em 1967. Na nova fase, Emília foi vivida pela atriz Zodja Pereira, até 1969.

3ª Emília - Zodja Pereira (1967 a 1969)

3ª Emília – Zodja Pereira (1967 a 1969)

O Sítio voltou aos cinemas em 1973, e a quarta Emília das telas foi interpretada por Leda Zepellin, no filme O Picapau Amarelo.

4ª Emília - Leda Zepellin (1973)

4ª Emília – Leda Zepellin (1973)

Foi apenas em 1977 que o Sítio do Picapau Amarelo ganhou uma adaptação da Rede Globo, a mais longeva de todos. Dirce Migliaccio foi a primeira Emília (em 1977) e a atriz só ficou no elenco no ano de estreia.

5ª Emília - Dirce Migliaccio (1977)

5ª Emília – Dirce Migliaccio (1977)

Depois, foi a vez da atriz Reny de Oliveira assumir o papel, e talvez ela seja a Emília mais famosa, interpretando nossa amada boneca por cinco lindos anos, de 1978 (quando eu nasci!) a 1983. Dizem nos bastidores que ela foi forçada a abandonar o papel após aceitar um convite para posar nua.

6ª Emília - Reny de Oliveira (1978 a 1982)

6ª Emília – Reny de Oliveira (1978 a 1982)

Ela foi trocada pela atriz Suzana Abranches, que ficou no papel de 1983 a 1986. Depois,  a série foi encerrada, e só voltou às telinhas quinze anos depois.

7ª Emília - Suzana Abranches (1983 a 1986)

7ª Emília – Suzana Abranches (1983 a 1986)

Há exatos vinte anos, a atriz Isabelle Drummond estreava no papel icônico da bonequinha Emília, na Rede Globo. Foi a primeira vez que uma criança interpretou a boneca na TV.

8ª Emília - Isabelle Drummond (2001 a 2006)

8ª Emília – Isabelle Drummond (2001 a 2006)

Ela reinou como Emília de 2001 a 2006, e com sua saída, a atriz Tatyane Goulart assumiu o papel em 2007, último ano de produção da série.

9ª Emília - Tatyane Goulart (2007)

9ª Emília – Tatyane Goulart (2007)

A última Emília de todas, desta vez em versão animada, foi dublada pela atriz Isabella Guarnieri. Ela dublou a personagem de 2012 a 2016.

10ª Emília - Isabella Guarnieri (Voz)

10ª Emília – Isabella Guarnieri (Voz)

Todo mundo quer uma boneca Emília pra chamar de sua

Com a exposição na televisão, Emília tornou-se um grande sucesso comercial. Toda criança queria uma boneca Emília para chamar de sua. Segundo a especialista em bonecas e brinquedos antigos, a colecionadora Ana Caldatto, a primeira versão da boneca Emília foi lançada em 1954 e foi vendida pelas Lojas Mesbla. O lançamento foi um estouro, a boneca chegou de avião da companhia aérea VASP,  acompanhada de uma aeromoça, e em um dia de vendas os estoques esgotaram.

Crédito imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

“CHEGOU A BONEQUINHA EMÍLIA – 
Em avião de carreira da Vasp, chegou ontem em congonhas, diretamente do Sítio do Pica-pau Amarelo, 
a bonequinha Emília, a famosa Marquesa de Rabicó, de Monteiro Lobato, que tanto sucesso vem fazendo na TV. Emilinha está a disposição da criançada na Mesbla todos os dias das 16 às 17 horas”

A Mesbla comercializou duas versões da boneca Emília, a primeira, baseada na atriz Lúcia Lambertini, da TV Tupi, e depois uma com o figurino da atriz Zodja Pereira, da TV Bandeirantes em 1968.

Lúcia Lambertini, a primeira Emília da TV, com a primeira versão de brinquedo da boneca. Crédito Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

Lúcia Lambertini, a primeira Emília da TV, com a primeira versão de brinquedo da boneca. Crédito Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

Vitrine das lojas MESBLA de SP em 1954 Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

A boneca de vestido branco com pernas listradas é baseada na Emília da atriz Zodja Pereira, na versão da Tv Bandeirantes nos anos 60 - Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

A boneca de vestido branco com pernas listradas é baseada na Emília da atriz Zodja Pereira, na versão da Tv Bandeirantes nos anos 60 – Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

A primeira boneca da Emília lançada pela Mesbla, de vestido vermelho, e a segunda edição, com a roupa amarelinha. Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

A primeira boneca da Emília lançada pela Mesbla, de vestido vermelho, e a segunda edição, com a roupa amarelinha. Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

Depois, a boneca teve outras versões, como a Emília de borracha distribuída nas Cestas de Natal Amaral “Fortuna Fartura”, nos anos 60, produzidas pela Brinquedos Estrela.

Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

Imagem: Jefferson Candido/Ana Caldatto

Foi só em 1977 que a Estrela lançou sua primeira versão oficial da boneca. Como explicamos acima, apesar de constar apenas no catálogo da Estrela de 1978, a boneca Emilia foi lançada para a semana das crianças de 1977 baseada na atriz Dirce Migliaccio, que interpretava a marquesa de rabicó na série “Sítio do Picapau Amarelo”, na Rede Globo, desde marco de 1977.

Confira a seguir todas as bonecas lançadas, em ordem cronológica. Qual dessas você teve?

 

Se você chegou aqui competou a 8 etapa, parabéns!
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Fique ligado que logo teremos mais dicas…

ETAPA ENCERRADA

ACUSADO DE RACISMO, LOBATO TRANSFORMOU O SACI NO PRIMEIRO HERÓI NEGRO PARA CRIANÇAS NO BRASIL

AUTOR: CILZA BIGNOTTO

DATA ORIGINAL 17 DE FEVEREIRO DE 2021

FONTE: FOLHA DE SÃO PAULO

CRÉDITOS: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2021/02/acusado-de-racismo-lobato-transformou-o-saci-no-primeiro-heroi-negro-para-criancas-no-brasil.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa

 

[resumo] Professora defende que debates sobre racismo nas obras de Monteiro Lobato sejam travados de maneira mais profunda e nuançada, levando em conta o contexto histórico em que ele produziu seus livros e seu diálogo com outros autores do mesmo período. Embora existam passagens racistas em seus textos, Lobato investiu em escritores negros em sua editora e deu a Saci e Tia Nastácia características positivas numa época em que personagens negras não apareciam em livros infantis.

“A discussão sobre como lidar com o racismo nas obras infantis de Monteiro Lobato parece infindável.” Assim, desanimado, começa o editorial da Folha do último 26 de dezembro. Não é para menos; há dez anos os debates sobre o tema, em esferas variadas da vida pública, parecem andar em círculos. Talvez, estejamos examinando somente a epiderme, quem sabe a derme, do problema, suas terminações nervosas. Precisamos aumentar e aprofundar o escopo, se desejamos avançar.

Para a Folha, o argumento de que Lobato não era racista não se sustenta: “Não deixam dúvidas a construção estereotipada de Nastácia e as menções à cor de sua pele como um defeito, por exemplo quando Narizinho diz que ela ‘é preta só por fora, e não de nascença’.” A citação do fragmento parece, a princípio, acabar com as dúvidas sobre o racismo de Lobato. Só a princípio.

Monteiro Lobato

Monteiro Lobato

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Julgar obras literárias por frases é arriscado. A sentença que parece certeira pode se revelar incerta, quando não injusta. Para esclarecer o problema embutido no editorial da Folha, e em outros textos que aparentam pôr fim à discussão sobre racismo em textos lobatianos, proponho examinar o fragmento escolhido pelo editorial conforme procedimentos utilizados em estudos literários.

Fragmentos de texto precisam ser analisados não apenas em relação a outros da mesma obra, que podem apresentar perspectivas diversas, mas também a outros textos de autores diversos da mesma época.

A tarefa é complicada quando tem por objeto livros infantis de Monteiro Lobato (1882-1948). Praticamente todos os outros livros para crianças que circularam na primeira metade do século 20 desapareceram. Como explica Peter Hunt, livros infantis “morrem” quando deixam de interagir com a “cultura imediata” das crianças. São descartados por pessoas e instituições; viram restos nos lixões e nas memórias coletivas.

Em parte significativa dos livros infantis do tempo de Lobato não há personagens negras. É como se a população negra brasileira não existisse em muitas das obras de Arnaldo de Oliveira Barreto, João Kopke, Coelho Neto e tantos outros autores consagrados do período.

'O Saci', de Monteiro Lobato

'O Saci', de Monteiro Lobato

Um exemplo: no “Primeiro Livro de Leitura” (1903), de Barreto e Puiggari, que inaugura série de sucesso, não se encontra uma personagem negra sequer. Uma cena, porém, indica o lugar reservado a negros na literatura infantil: Luíza, loira como “uma alemãzinha”, brinca com suas bonecas loiras. Duas bonecas “servem de criadas. Elas são pretinhas”. No “Segundo Livro de Leitura”, há um conto intitulado “A Ama de Lulu”. A mãe do bebê avalia 12 amas, “cada uma pior que a outra”, para amamentá-lo. Nenhuma tem nome, nenhuma tem voz. No fim, a mãe consegue a ama ideal, “branquinha, asseada e boa”. É uma cabra, que oferece as tetas gratuitamente ao menino. Qual a cor das amas menos boas e asseadas que a cabra?

Naquela época, negros tinham algum destaque nas chamadas “cenas da escravidão”, em que eram representados como escravizados brutos e brutalizados. Há cenas assim em “Contos Pátrios” (1904), de Olavo Bilac e Coelho Neto, e “Páginas Infantis (1908), de Presciliana de Almeida, livros de numerosas edições.

A pele negra, em obras infantis, era indício de servidão e/ ou maldição. É o caso da heroína de um dos “Contos para Crianças” (1906), de Chrysanthème, pseudônimo de Maria Cecília Bandeira de Melo Vasconcelos. Em “A Princesa Negrinha”, uma rainha é amaldiçoada: sua filha nasce negra. A princesa sofre provações terríveis para se tornar branca e conhecer “a real felicidade”.

A passagem de Lobato selecionada pelo editorial da Folha foi extraída de fala de Narizinho, na história “O Circo de Escavalinho” (1927). As personagens montam um circo e convidam protagonistas de narrativas infantis para assistir ao espetáculo. Pedrinho teme que Tia Nastácia não vá ao circo, porque na plateia há princesas de contos de fadas: “Está com vergonha, coitada, por ser preta”.

Livros de Monteiro Lobato

Livros de Monteiro Lobato

Narizinho afirma que Tia Nastácia não deve “ser boba” por ter vergonha da própria pele. Dirige-se, então, às personagens de outras obras:

“Respeitável público, tenho a honra de apresentar vovó, Dona Benta de Oliveira, sobrinha do famoso Cônego Agapito Encerrabodes de Oliveira, que já morreu. Também apresento a princesa Anastácia. Não reparem por ser preta. É preta só por fora, e não de nascença. Foi uma fada que um dia a pretejou, condenando-a a ficar assim até que encontre um certo anel na barriga de um certo peixe. Então o encanto se quebrará e ela virará uma linda princesa loura”.

A fala de Narizinho parece aludir a outras obras e discursos nos quais o valor de mulheres brancas era determinado pela origem e posição social da família, especialmente de seus integrantes masculinos. A importância solene que a figura do cônego poderia projetar sobre Dona Benta, porém, é transformada em piada pelo nome ridículo dele, sua fama nula e o fato de nem estar vivo. Dona Benta, sabiam os leitores, valia por si mesma.

Os leitores também conheciam Tia Nastácia e seu valor. A explicação de Narizinho remete a narrativas como “A Princesa Negrinha”. Ficções do gênero revelam-se mentirosas por meio da fala irônica da menina. O sentimento de inferioridade da personagem, porém, é muito verdadeiro para pessoas negras nas quais tais ficções eram, e ainda são, incutidas por discursos racistas.

A cena é exemplar da complexidade com que as obras infantis de Lobato tematizam o racismo. A fala de Narizinho, se desvela o “faz de conta” de discursos racistas, ancorados em fantasias, simultaneamente revela o poder das fantasias na estruturação da realidade cultural. Trocando em miúdos, “uma coisa existe quando a gente acredita nela”, como explica o Saci a Pedrinho, em “O Saci” (1921). O racismo é sustentado por fantasias; nem por isso deixa de ser real.

Confira as ilustrações do livro 'Narizinho Arrebitado', de Monteiro Lobato

Confira as ilustrações do livro 'Narizinho Arrebitado', de Monteiro Lobato

Quem lê a fala de Narizinho, hoje, não percebe o diálogo crítico com diversos contos sobre princesas negras amaldiçoadas, há décadas (felizmente) esquecidos. “Reinações de Narizinho” (1931) sobreviveu, e muito, ao seu tempo. É compreensível que leitores atuais interpretem a história sobre o “defeito de cor” de Nastácia como criação de Lobato e prova de seu racismo.

Também é compreensível que Tia Nastácia seja lida hoje como estereótipo. Por que Lobato não a retratou de outra maneira? Essa questão levanta outras: por que Coelho Neto ou Manuel Bonfim, notórios defensores da população negra, não escreveram livros infantis protagonizados por negros? Por que Olavo Bilac e Coelho Neto, admiradores de Machado de Assis, não criaram obra sobre um menino mestiço e genial?

Provavelmente, os livros infantis da Primeira República (1889-1930) retratavam quase que unicamente pessoas brancas porque os sistemas de ensino do país eram racistas, como indicam pesquisas recentes. Livros infantis brasileiros dependiam (ainda dependem, em grande parte) da aprovação de secretarias de Educação.

O primeiro herói negro em livro infantil brasileiro é o Saci de Lobato. O Saci das lendas orais era maldoso, monstruoso, filho do demônio. O Saci bonito, defensor da natureza e amigo das crianças, celebrado atualmente, foi inventado por Lobato. Ele tirou os estigmas então (e ainda) associados à pele negra e atribuiu ao personagem qualidades como inteligência, bondade, erudição.

Novas edições de Monteiro Lobato

Novas edições de Monteiro Lobato

O Saci lobatiano tem muito de Machado de Assis. Vale a pena apreciar a finura machadiana com que o Saci explica suas teorias sobre a vida, a morte, o progresso. E vale pensar: por que o primeiro herói negro da literatura infantil brasileira é uma figura lendária, e não um menino?

Quem publicou livro com protagonista negro, como Mimosa Ferraz, autora de “Travessuras do Gasparino” (1925), amargou o fracasso, apesar dos elogios de alguns críticos. Os papéis que negros podiam desempenhar em livros infantis eram restritos —ainda carecemos de pesquisas mais amplas para explicar esse contexto.

Nos campos minados do racismo da literatura e da educação de seu tempo, Lobato usou estratégias dignas de atenção para modificar atributos e papéis reservados a personagens negras.

Tia Nastácia era (e é) aparentemente uma construção estereotipada: uma criada destinada a se confundir com o mobiliário ou a servir de mau exemplo. No entanto, as muitas referências a ela como “boa negra” parecem ressaltar que Nastácia não é invisível, como negras costumavam ser, e que é “boa”, qualidade que, em outras obras, era incompatível com a pele negra.

Avanços mais extraordinários ocorrem em livros posteriores, como “A Reforma da Natureza” (1941), em que Tia Nastácia e Dona Benta são convidadas por líderes europeus para ensinar-lhes “o segredo de bem governar”. Nastácia é a primeira mulher negra a ser chamada de “grande estadista” em livro infantil brasileiro e a ser tratada como tal em suas páginas. De estereótipo, ela tem só alguns contornos.

Casos de violência contra negros no Brasil e nos EUA

Casos de violência contra negros no Brasil e nos EUA

Existem passagens racistas nas histórias do “Sítio do Picapau Amarelo”, mas também existem as antirracistas. Os livros infantis lobatianos podem ser entendidos como um conjunto de discussões sobre os problemas humanos, que as personagens travam enquanto vivem aventuras.

Para entender como são arquitetadas as discussões sobre racismo nas obras, é preciso lê-las integralmente. Adianto que o racismo sempre perde, sobretudo nas narrativas escritas por Lobato pouco antes de morrer, como o conto antirracista “A Violeta Orgulhosa”, que integra o livro “Histórias Diversas” (1947).

Estranhamente, os últimos textos infantis escritos por Lobato não costumam ser lembrados nas discussões sobre o racismo em sua obra. Fato semelhante ocorre com sua biografia. Lobato tem sido julgado racista por alguns textos das primeiras décadas de sua vida. Outros numerosos textos com facetas muito diferentes do escritor são ignorados, por desconhecimento ou deliberação.

Alguns exemplos: Lobato teria sido o primeiro editor brasileiro a estabelecer cota para autores negros. Segundo vários contemporâneos, publicou o primeiro livro de Gabriel Marques, “Os Condenados” (1923), porque o escritor era negro, e o catálogo de sua editora não tinha negros. Da mesma forma, investiu em Lima Barreto e em outros escritores afrodescendentes.

Em setembro de 1933, o Diário de Notícias publicou “Os Novos Bandeirantes”, crônica em que Lobato enaltece as virtudes de um homem negro e critica vícios de brancos. Na mesma página, há um artigo sobre Hitler. Quando o timing era favorável para defender a corrente da eugenia que pregava a superioridade branca, Lobato enalteceu a superioridade negra. O tema foi retomado por ele em 1936, na crônica “Eu Quero Ajudar o Brasil”, publicada em vários jornais.

13 de maio: dia da abolição da escravatura

13 de maio: dia da abolição da escravatura

Em setembro de 1945, um jornal negro enaltecia Lobato. O Alvorada noticiava que “o maior escritor do Brasil contemporâneo” havia ofertado exemplar de seu romance “O Presidente Negro” (1926) à biblioteca da Associação dos Negros Brasileiros. O texto destaca “o fato de o ilustre intelectual (…) ter também se ocupado dos negros. E o fez com aquele estilo inconfundível e brilhante, aquele bom humor e aquela liberdade de opinião que caracterizam sua obra”.

Como entender o fato de Lobato oferecer seu romance distópico sobre o extermínio de negros para a biblioteca? Como entender os elogios do jornal ao romance?

Talvez, tanto Lobato como a Associação dos Negros Brasileiros entendessem a distopia como advertência dos perigos de discursos racistas, e não como panfletagem desses discursos. Afinal, as distopias costumam ser lidas como advertências; daí H. G. Wells e George Orwell não serem rotulados de apologistas do autoritarismo ou do genocídio.

Lobato parece usar elementos de ensaios de Wells sobre os EUA para imaginar como seria o futuro se brancos permanecessem racistas. Ele faz o jogo do “e se”, tão fundamental para a literatura: e se um negro, líder virtuoso e grande estadista, viesse a ser presidente dos Estados Unidos? Ele conseguiria acabar com o racismo? A resposta do romance é um aterrador “não”.

Marcha em Washington relembra momento histórico de Martin Luther King em 1963

Marcha em Washington relembra momento histórico de Martin Luther King em 1963

“Acima da América está o sangue”, afirma o branco derrotado ao presidente negro recém-eleito. Os brancos ignoram as leis e exterminam os negros. Não há debate, pois os retóricos que alimentavam discussões infindáveis tinham sido eliminados, junto com criminosos natos, gramáticos e outros “causadores de perturbações”.

O nonsense de passagens como a de gramáticos condenados como “tarados” mina as ideias eugenistas descritas no romance. O narrador é um simplório pouco confiável: não entende de ciência, não viu o futuro e não presta muita atenção na narrativa de miss Jane, suposta testemunha dos fatos vindouros, porque deseja a moça.

Em outras mãos ou circunstâncias, o livro poderia ter saído ótimo. É um romance distópico ruim, mas não é panfleto em defesa do extermínio de negros. A discussão infindável talvez não avance porque muitas certezas são proclamadas a partir de poucos dados.

Rotular Lobato como racista é tão problemático como pintá-lo de antirracista. Na tese “Raça e Eugenia na Obra Geral de Monteiro Lobato”, José Wellington de Souza delimitou “ao menos cinco fases distintas de uso e definição de tais termos pelo autor”. As posições e discursos de Lobato sobre raça, racismo e eugenia mudaram muito ao longo de sua vida e de sua obra.

É tempo de as discussões sobre racismo e Lobato adquirirem mais profundidade e mais nuances, de se descolarem de julgamentos apressados sobre a vida e a obra do homem e se deslocarem para campos de estudo mais amplos sobre o racismo.

Monteiro Lobato e o petróleo

Monteiro Lobato e o petróleo

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ETAPA ENCERRADA

COMPLEXO DE ‘PERSEGUIÇÃO’

AUTOR: MARCIA CAMARGOS

Depois que a obra de Monteiro Lobato caiu em domínio público, seus livros, alguns deles adaptados, passaram a sair em fornadas. Paralelamente, eclodiram debates acalorados e ataques persistentes, talvez até orquestrados, contra o suposto racismo do criador do Sítio do Picapau Amarelo. Não poucos aproveitaram para surfar na onda e aparecer na mídia. Alguns colunistas também resolveram dar a sua martelada nos pregos de um caixão onde parecem querer, a todo custo, encerrar o escritor, como fez Marilene Filinto no recente artigo de Ilustríssima (7/01).
Ora, a talentosa autora de “As Mulheres de Tijucopapo” afirma que não leu Lobato na infância, enquanto enumera uma série de livros ligados à história da sua terra natal, como se fossem anos luz mais importantes do que as aventuras da turma de Narizinho. Meio como se afirmasse, “olhem como tinha acesso a material de altíssimo nível, não perdi nada em não conhecer Emília ou Tia Nastácia”. Em seguida relata sua experiência com o autor, anos mais tarde, por meio de Jeca Tatu. Pegou antipatia na hora, sem se informar sobre o único personagem que a teria interessado. Porque, se o fizesse, descobriria, sem grandes esforços, que o próprio Lobato chegara às mesmas conclusões do que ela. Ou seja, ele admitiu que o pobre caipira paulista estava longe do indivíduo indolente e preguiçoso que julgou à primeira vista. Ao contrário, era marginalizado, “um excluído, injustiçado, solitário”, pra usar as palavras da articulista. Pois Lobato, que não tinha medo de se corrigir, ao ler as teses dos médicos Belisário Pena e Artur Neiva, reviu suas opiniões sobre o mundo rural, constatando que a apatia do caboclo advinha do subdesenvolvimento, da fome e da falta de infraestrutura básica.
“Está provado que tens no sangue e nas tripas um jardim zoológico da pior espécie”, admite então. “É essa bicharia cruel que te faz papudo, feio, molenga, inerte. Tens culpa disso? Claro que não”.
Marilene Felinto pode não ter mencionado, mas ele foi além, engajando-se nas campanhas sanitaristas e escrevendo, em 1918, uma série de artigos, enfeixados depois em Problema Vital, denunciando a doença do homem da roça e o crime dos que parasitariamente gozavam, na cidade, o fruto da sua incansável labuta.
“A esta hora milhões de verdadeiros patriotas lá estão no eito, porejantes de suor, na faina da limpa e do plantio. Febrentos de maleita, exaustos pelo amarelão, espezinhados pelo ácaro político, lá estão cavando a terra como podem, desajudados de tudo, sem instrução, sem saúde, sem gozo da mais elementar justiça”.
O ápice do menosprezo pelo criador da nossa literatura infanto-juvenil e do mercado editorial brasileiro, porém, dá-se no momento em que a colunista confessa como a sua antipatia aumentou com a leitura do conto Negrinha. Diz que precisou esconder a vontade de chorar quando, na verdade, deveria ter compartilhado o genuíno sentimento de revolta que Lobato suscita em cada um de nós diante daqueles trechos de denúncia nua e crua. Por que não dividir o que sentia pela menina “de criação” com os colegas “branquelos”, filhos de imigrantes pobres, que aportaram em São Paulo em busca de melhores condições de vida? Compreensível que Negrinha represente a sua ancestralidade, mas o sofrimento dela desperta profunda indignação em qualquer ser humano minimamente consciente, qualquer que seja sua etnia, origem, raízes. Talvez ali Felinto não tenha entendido a louvável e necessária atitude de Lobato ao expor, em carne viva, o absurdo de crianças abusadas por uma elite escravocrata, aliada à hipocrisia da Igreja, que ele nunca cansou de criticar. Aquela desgraceira humilhante precisava, sim, ecoar nos corações e mentes dos alunos e professores, para que não se repetisse no futuro como farsa nem tragédia.
Convém lembrar que, no passado, o escritor foi perseguido por suas ideias libertárias, iconoclastas, ousadas. Amargurou meses de prisão no Estado Novo e teve textos de sua autoria queimados nos fornos da ditadura Vargas.
Agora, a julgar pelo ritmo da campanha difamatória em marcha, não tardará o dia em que assistiremos a uma nova fogueira da inquisição ardendo com livros infantis e adultos de Monteiro Lobato.

Escritora com pós-doutorado em História pela USP tem 32 livros publicados. Biógrafa de Monteiro Lobato, uma das curadoras das suas Obras Completas relançadas pela Ed. Globo em 2004, é co-autora de Monteiro Lobato: furacão na Botocúndia, prêmios Jabuti e Livro do Ano pela CBL em 1998.

EXPOSIÇÃO TRAZ LIVROS ESCRITOS E TRADUZIDOS POR MONTEIRO LOBATO

DATA ORIGINAL: 08 DE MAIO DE 2018

FONTE: JORNAL DA USP

CRÉDITOS: https://jornal.usp.br/cultura/exposicao-traz-livros-escritos-e-traduzidos-por-monteiro-lobato/

Uma exposição sobre o escritor Monteiro Lobato faz parte da programação da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP. Gratuita e aberta até 29 de junho, a mostra Monteiro Lobato Sem Fronteiras traz ao público quase 150 livros pertencentes ao Instituto de Estudos Monteiro Lobato (IEMB), localizado na cidade de Taubaté (SP), onde o escritor nasceu em 18 de abril de 1882.

São obras originalmente escritas por ele, traduzidas em outras línguas por tradutores estrangeiros, e livros de escritores estrangeiros traduzidos em português por Lobato. Aos visitantes, serão disponibilizados tablets para consultas de trechos das obras, com acesso a conteúdo digitalizado e interativo. Já os volumes impressos estão dispostos em vitrines, descritos em etiquetas legendadas com informações das edições — país e ano da publicação, nome da editora e do tradutor —, bem como trechos de comentários de Lobato sobre as traduções.

Cristina Antunes – Foto: Jorge Maruta / USP Imagens

Um desses comentários é da sua tradução para Kim, do britânico Rudyard Kipling. A obra de 1901, que apresenta um retrato cultural e social da Índia, foi traduzida por Lobato em 1941, período em que este se encontrava preso pelo Estado Novo de Getúlio Vargas. “Aproveito o tempo traduzindo o Kim, de Kipling — e essa estadia na Índia me fez esquecer completamente a prisão. Pena é que o excesso de visitas me tome tanto o tempo”, escreve Lobato, encarcerado no Presídio de Tiradentes, em São Paulo, mas imerso na Índia de Kipling.

“Essas obras traduzidas são muito raras e pouquíssimo conhecidas do público brasileiro”, conta Vladimir Sacchetta, um dos curadores da mostra, ao mostrar uma edição argentina de Urupês, considerada a mais importante criação literária de Lobato. O livro, publicado há exatos 100 anos no Brasil e que traz em um dos seus 14 contos o personagem Jeca Tatu, foi publicado na Argentina três anos depois, em 1921, a partir da tradução de Benjamin de Garay.

Outro exemplo do acervo mostrado na exposição é Dom Quixote das Crianças (1936), versão infantil de Dom Quixote de La Mancha, escrita pelo espanhol Miguel de Cervantes e lançada em 1605. Como conta Luciano Mizrahi Pereira, diretor do IEMB e também curador da mostra, a obra de Cervantes foi traduzida do espanhol para o português por Lobato, sendo adaptada para o público infantil e depois traduzida para o espanhol. “É um livro que se difundiu na Espanha, na América espanhola e em todos os outros países de língua espanhola. Acho que esse é o ápice de Lobato no exterior”, diz Pereira.

A curadora da BBM Cristina Antunes destaca a riqueza da exposição. “Você vai poder ver dezenas de obras traduzidas por Lobato nas mais diversas línguas: tailandês, chinês, japonês, obras publicadas no Afeganistão e na Holanda. Lobato ultrapassou todas as fronteiras e traduziu tudo o que lhe foi possível”, resume Cristina, em entrevista no programa Via Sampa, da Rádio USP (ouça no link acima).

Versão argentina de Urupês, de Monteiro Lobato, publicada em 1921, e traduções feitas por Lobato de obras do escritor norte-americano Ernest Hemingway e do físico ucraniano George Gamow – Foto: Jorge Maruta / USP Imagens

Sacchetta explica que a seleção das obras e “a construção da narrativa” da mostra foram feitas a partir do acervo reunido pelo IEMB. “Uma narrativa que funciona através de cartas, de artigos em revistas e citações de Lobato e também da difusão geográfica dessas obras.”

“Depois de toda a vida dedicada à literatura, Lobato teve uma obra que se espalhou por si ao redor do mundo”, afirma Pereira, acrescentando que uma das motivações para a realização da exposição na BBM foi “resgatar a história de Lobato, além do que se costuma ver. A obra dele se espalhou no mundo muitos anos após ele ter nos deixado”.

A mostra Monteiro Lobato Sem Fronteiras fica aberta de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 18h30, na Sala Multiuso da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (Rua da Biblioteca, s/n, na Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis.

Para mais informações, ligue (11) 2648-0320 ou acesse o site bbm.usp.br/node/339

TRADUÇÃO DE MONTEIRO LOBATO NO CHILE DÁ ATUALIDADE AO TEXTO

AUTOR: DIRCE WALTRICK

DATA ORIGINAL: 13 DE JANEIRO DE 2021

FONTE: ESTADÃO

CRÉDITOS: https://alias.estadao.com.br/noticias/geral,traducao-de-monteiro-lobato-no-chile-da-atualidade-ao-texto,70003578932

Umberto Eco dizia que “a língua da Europa é a tradução”. Acredito que a língua do mundo deveria ser a tradução, pois é através desta que se conhece outras culturas e novas formas de pensar. No que tange à literatura, particularmente, é através dela que autores estrangeiros ganham repercussão, por vezes muito mais do que os autores nacionais, como acontece no Brasil. A propósito, a tradução da obra de escritores brasileiros ainda é pequena, em parte porque não temos uma política de divulgação de nossa produção literária em países não falantes do português. Sem um programa governamental, esse trabalho de divulgação e de tradução da produção literária nacional vem sendo feito, em grande parte, por professores e alunos das nossas universidades em conjunto com universidades estrangeiras.

Las Travesuras de Naricita (Reinações de Narizinho) , de Monteiro Lobato , que agora chega pela primeira vez ao Chile, é fruto desse esforço que nasce na academia. A edição alentada e coordenada por Letícia Goellner, doutora pelo programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina e professora de Tradução na Pontifícia Universidad Católica de Chile. O livro, cujo texto de Lobato foi traduzido por Goellner, Pablo Saavedra e Vicente Menares, conta com paratextos importantes, assinados pelos tradutores e por pesquisadoras brasileiras como Regina Zilberman, Fernanda Coutinho e Marie-Hélène Torres.

Reinações de Narizinho , que faz 90 anos em 2021, é o segundo livro de Lobato para o público infantil. O primeiro, A Menina do Narizinho Arrebitado , de 1920, fez um sucesso tão grande que, em 1931, Lobato decidiu relançar a história, darando, contudo, outras aventuras inéditas ao volume. Nasceu, assim, Reinações de Narizinho , livro que “abre para a porteira do Sítio do Picapau Amarelo”, como afirmam Márcia Camargo e Vladimir Sacchetta.

As aventuras do Sítio de Lobato marcaram gerações de brasileiros. Em Felicidade Clandestina , de Clarice Lispector, uma narradora de experiência a “tortura chinesa” a que se submeteu para conseguir Reinações de Narizinho. Parece que valeu a pena: “Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o”.

Lobato inaugurou uma nova era na literatura infantojuvenil. Reinações é uma espécie de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Ambos são protagonizados por meninas sonhadoras; no entanto, no livro de Carroll, quando Alice desperta, a fantasia termina; já em Lobato, uma fantasia inunda a vida real. Em sonho, Emília, a boneca de Narizinho, começa a falar desenfreadamente depois de ingerir algumas pílulas. Findo o sonho, a boneca segue falando: realidade e fantasia passam a caminhar lado a lado.

Revista no século 21, a linguagem usada por Monteiro Lobato nas aventuras do Sítio do Picapau Amarelo se revelou racista. Cabe destacar que Lobato escreveu na primeira metade do século 20 e usava como expressões coloquiais da época. Todavia, não se pode desconsiderar que o escritor fez parte de uma sociedade eugenista, da qual participaram outros grandes nomes da época. Essa tomada de posição de Lobato é discutida, por exemplo, nos livros Raça Pura , de Pietra Diwan, e O Cosmopolitismo do Pobre , de Silviano Santiago.

Não é tão fácil quanto parece falar dessas questões na obra de Lobato, pois há nela algo de paradoxal no tocante à raça, à cultura, etc. Se por um lado tia Nastácia é “a negra beiçuda e ignorante”, como o escritor a aula , por outro lado, ela é uma das protagonistas da obra de Lobato e ganhou destaque num livro que confere o seu nome: Histórias de Tia Nastácia .

Na tradução para o espanhol chileno, essas marcas “racistas” e outras “politicamente incorretas” foram adaptadas com o intuito de dar atualidade ao texto. Segundo os tradutores, se uma linguagem e as palavras usadas por Lobato, “naquele momento, 1920, estavam naturalizadas”, hoje “não podem ser aceitas de maneira nenhuma”. Desse modo, tia Nastácia, completa em Reinações como “negra de estimação”, na tradução se tornada “una señora negra muy querida por la família” (uma senhora negra muito querida pela família). Já o “anãozinho” que se candidata a bobo da corte, no Reino das Águas Claras, se transforma em “duendecito” (duendezinho).

Mas os tradutores e a organizadora do volume são honestos com o leitor e esse tema polêmico é tratado tanto no ensaio que assinam, quanto em outro ensaio, de autoria de Alessandra Harden, que também compõe a edição chilena. A tradução pode dar nova vida ao texto ao atualizá-lo ou adaptá-lo à cultura de chegada. Em português, o texto de Lobato também pode ser adaptado, como já o foi, mas ninguém pode apagar o que Lobato de fato escreveu em língua portuguesa.

ESCRITORA, TRADUTORA, ENSAÍSTA E PROFESSORA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DA TRADUÇÃO

CENSURAR A OBRA DE MONTEIRO LOBATO É UMA TOLICE

AUTOR: Rogério Tadeu Romano

DATA ORIGINAL: 30 DE DEZEMBRO DE 2020

FONTE: ESTADÃO

CRÉDITOS: https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/censurar-a-obra-de-monteiro-lobato-e-uma-tolice/

O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou pedido de liminar para suspender a distribuição, em escolas públicas, do livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, obra publicada em 1933. O ministro rejeitou pedido do Instituto de Advocacia Racial (Iara), por entendre que não cabe ao Supremo julgar mandado de segurança contra ato do Ministério da Educação (MEC). O instituto alegou que a publicação apresenta conteúdo racista.

O caso começou a tramitar no Supremo em 2011. Uma audiência de conciliação chegou a ser feita pelo ministro, mas não houve consenso entre o MEC e o instituto.

Em 2010, o Conselho Nacional de Educação (CNE) determinou que uma obra Caçadas de Pedrinho não fosse mais distribuída às escolas públicas, por considerar que ela realmente apresentava o conteúdo racista. Em seguida, o MEC recomendou que o CNE reconsiderasse uma determinação. O conselho decidiu, então, anular o veto.

Em decisão recente, o ministro Toffoli determinou que os autos recebidos ao STJ para julgamento.

Fala-se hoje na reedição da obra “A Menina do Narizinho Arrebitado” pela bisneta do autor.

Não se nega a importância da obra de Monteiro Lobato, que perpassa várias gerações.

Uma revisão de Cleo Monteiro Lobato alterar ou suprimir “passagens problemáticas”, como a que se referia a Tia Nastácia como “negra de estimação”.

Bastou para que Sérgio Camargo, o presidente da Fundação Palmares que fez de sua marca a indicação ao movimento negro, fosse às redes sociais para denunciar aquilo como uma “mutilação politicamente correta”. Foi seguido por Mario Frias, secretário da Cultura, que achou a mudança uma vergonha.

Será importante fazer essa censura em trechos considerados racistas numa obra?

O exercício é fútil. A literatura tem, entre suas funções, a de documento histórico de uma época e do pensamento de seu autor. Change trechos, não importa por qual motivo bem-intencionado, causará inevitável distorção do conteúdo.

Não se pode destruir um legado intelectual.

Se assim fosse estaríamos, no Brasil, a destruir, de forma bárbara, músicas como “O seu cabelo não nega”, dentre outras, de Lamartine Babo. Então não vou ler uma obra de Heideger porque ele admirava ideias nazistas? Ora, isso é bestial.

Não se pode analisar o passado com olhar do presente.

Deve-se se examinar uma obra com o olhar dos tempos para a qual foi escrita, dentro de uma visão democrática.

Na democracia há a realidade permanente dialógica. Sem totalitarismo rompe-se o diálogo, aniquilam-se as liberdades. Desconhecem-se direitos.

Num Estado democrático de direito, cuja constituição libertária proíbe a censura, não se pode falar em proibição de divulgação de obra, voltando-se aos tempos de um Estado Autocrático.

Tal seria afrontar a liberdade de pensamento e exposição de uma obra artística.

A liberdade de manifestação de pensamento constitui um dos aspectos externos da liberdade de opinião. A Constituição Federal, no artigo 5º, IV, diz que é livre a manifestação de pensamento, vedado o anonimato, e o art. 220 define que a manifestação do pensamento, sob qualquer forma, processo ou veiculação, não sofrerá qualquer critério, observado o descrito nesta Constituição, vedada qualquer forma de censura de natureza política, ideológica e artística.

Cortar trechos de uma obra histórica a pretexto de defender a sociedade do racismo e exercer um ato que confronta a democracia.

No Brasil, Lobato é atacado desde a década de 1940, quando seus livros eram classificados como propaganda comunista. “Diziam que, com o sítio, ele queria criar o Estado Stalinista”, diz Ilan Brenman, pesquisador da obra de Monteiro Lobato. Segundo ele, Lobato foi acusado até deformar o caráter das crianças. Condenado a seis meses de prisão durante a ditadura de Getúlio Vargas, Lobato foi perseguido pelo então procurador da Província de São Paulo, Clóvis Cruel de Morais, que pediu ao Estado que apreendesse todos os exemplares da obra Peter Pan. “Alegou-se que um texto incutia um sentimento de inferioridade nas crianças brasileiras porque falava bem da Inglaterra”, diz Brenman. Emília era vista como uma ameaça à família brasileira, por subverter a hierarquia numa sociedade patriarcal, em que um menor jamais podia contestar os adultos. A desaforada Emília era a imagem da rebeldia. “Se não tomarmos cuidado, Emília corre o risco de se tornar uma Barbie bem-comportada, de aparência impecável, ou, simplesmente, de ser calada para sempre”, diz Brenman.

Exercer essa patrulha cultural em temos de uma constituição-cidadã, de 1988, é uma tolice, repita-se.

É mais do que isso: é um exercício de “analfabetismo histórico”.

É bom recordar a feliz manifestação da Academia Brasileira de Letras sobre o tema:

“Cabe aos professores orientar os alunos no desenvolvimento de uma leitura crítica. Um bom leitor sabe que tia Anastácia encarna a divindade criadora dentro do Sítio do Picapau Amarelo. Se há quem se refira a ela como ex-escrava e negra, é porque essa era a cor dela e essa era a realidade dos afro-descendentes no Brasil dessa época. Não é um insulto, é a triste constatação de uma vergonhosa realidade histórica ”.

É preciso ter cuidado com o politicamente correto que pode nos dar amarras que sejam intoleráveis. Aliás, essa onda pode nos levar ao abismo, pois nos leva à fuga do razoável.

* Rogério Tadeu Romano, procurador regional da República aposentado. Professor de Processo Penal e Direito Penal. Advogado

OBRAS DE MONTEIRO LOBATO PASSAM POR ATUALIZAÇÃO APÓS ACUSAÇÕES DE RACISMO

AUTOR: CLEO MONTEIRO LOBATO

DATA ORGINAL: 08 DE DEZEMBRO DE 2020

FONTE: REVISTA VEJA

CRÉDITO: https://veja.abril.com.br/cultura/obras-de-monteiro-lobato-passam-por-atualizacao-apos-acusacoes-de-racismo/?fbclid=IwAR0A72bc6MwzyWlMYw9IMjCWeNuuJzTu-dZ_EPwzYR9vZOHGQOVXdOEC37M

Há 100 anos, Monteiro Lobato (1882-1948) lançava seu primeiro livro infantil, A Menina do Narizinho Arrebitado. Foi a porta inicial que se abriu para o mundo mágico e popular da turma do Sítio do Picapau Amarelo, onde Narizinho, Emília, Pedrinho, o Visconde de Sabugosa, entre outros personagens, viveram aventuras extasiantes que ultrapassaram, e muito, as fronteiras da área rural em que a trupe fictícia vivia. Este foi o melhor e maior legado que o autor, que é meu bisavô, deixou: o poder de abrir a mente das crianças para o desenvolvimento do seu imaginário, criando a noção de possibilidades, de que com esforço conjunto existem soluções e de que tudo é possível. Esse legado é indelével, mas também não podemos ignorar as mudanças sociais ocorridas desde 1920.

Só tomei consciência de quem era meu bisavô quando tinha por volta de 13 anos, pois meu pai se tornou o representante legal da família e logo depois vieram os contratos com a TV, nos anos 70. Nasci Cleo Campos Kornbluh, filha de Joyce Campos, neta de Lobato, e do judeu polonês Jerzy Kornbluh, sobrevivente do Holocausto. Não tive de conviver com o peso do sobrenome de Monteiro Lobato na infância. Quando isso aconteceu, percebi que não era um fardo. Porém, senti uma necessidade de autoconhecimento, que me levou a mergulhar em sua vida e obra.

Os valores chamados “lobatianos” de pensar, de agir e de se posicionar eram constantes na família — e creio que ecoaram também entre seus leitores. Trata-se do gosto pela leitura, da capacidade de pensamento crítico, do amor à arte, ao desenho e à pintura e de uma imaginação e criatividade poderosas, além do empreendedorismo e do gosto por aventura. Adiciono ainda um maior entendimento da natureza, da oposição ao fanatismo, e da importância da educação.

Foi recentemente, após o falecimento do meu pai, em 2015, quando me inteirei dos assuntos relacionados a Lobato, que soube das acusações de racismo. No início, fiquei chocada, pois quem leu sua obra na minha geração não consegue entender como isso é possível, mas reli os livros e comecei a entender o porquê dessas queixas. Sou historiadora e imigrante (moro nos Estados Unidos há mais de vinte anos), experiência que me permitiu um distanciamento pessoal para analisar as acusações. Assim, digo: é preciso, primeiro, separar Lobato pessoa e Lobato escritor.

Para começar, é necessário contextualizar o momento histórico da época e depois colocar Lobato dentro do momento social em que viveu. Não há como negar que o Brasil foi um país colonizado e que os colonizadores escravizaram índios brasileiros e trouxeram ainda escravos africanos. Essa confluência de raças formou nosso país, nossa consciência, nossas estruturas sociais. E creio que esse cenário é retratado na escrita de Lobato. Essas estruturas têm evoluído à medida que os diferentes grupos sociais percebem a opressão do colonizador original branco e se voltam contra ela.

Eu acreditava no mito de que no Brasil não existia preconceito racial, que somente existia preconceito econômico. Mas hoje entendo que o fim da escravidão e a parca incorporação do negro à sociedade resultaram em um cenário propício ao racismo estrutural, além da desigualdade econômica e educacional. E foi nesse contexto social de debate que, em 2019, as obras de Lobato caíram em domínio público, e diversas editoras e escritores resolveram editá-lo. A discussão de adaptar sua obra tomou vulto, e as acusações de racismo se multiplicaram.

“Frases inadequadas foram mudadas, assim como a representação de alguns personagens”

 

Entre 2000 e 2010 houve uma ação contra o livro Caçadas de Pedrinho, em que o acusavam de ser racista. Ação esta que resultou na decisão de colocar em catálogo que o livro deveria ser mediado por um adulto. Ao reler os livros, concordei com a decisão. As obras infantis de Lobato contêm expressões, frases e descrições que não podem passar, mas que servem para a abrir a discussão sobre o preconceito, entre outros temas. Não há mais espaço para piadas racistas, homofóbicas ou misoginistas. Para mim, não adiantava mais dizer apenas que eu não era racista, eu precisava me posicionar como antirracista. Por isso decidi manter o legado de Lobato vivo, e atualizá-lo para as próximas gerações.

Junto com a editora Nereide Santa Rosa, da Underline Publishing, optamos por relançar as obras de forma atualizada. O primeiro a passar por essa edição, que já está nas lojas e vai ganhar tradução em inglês em dezembro, é justamente Narizinho Arrebitado. O texto está lá, praticamente por inteiro, mas frases inadequadas foram mudadas, assim como a representação de alguns personagens. A popular Tia Nastácia foi modificada cirurgicamente. Retiramos todas as frases que consideramos de cunho preconceituoso, além de dar-lhe uma injeção de “orgulho” através de um novo visual criado pelo ilustrador Rafael Sam. Vale ressaltar que também sou a favor da leitura do texto original, com o uso de notas de rodapé, prefácio e posfácio explicativo — assim, em vez de censurar, abrimos sua obra para debate.

Faço isso, pois, no fundo, ao me aprofundar mais na vida pessoal de meu bisavô através das memórias de minha mãe, Joyce, que conviveu com ele, percebi que Lobato realmente não foi uma pessoa com atitudes racistas. Quando ficou preso por três meses em 1941, por criticar a ditadura do Estado Novo, e sem tratamento especial, ele ficou amigo de todos os presos e rapidamente começou a dar aulas de português, história e geografia, e ensinou a ler e a escrever. À medida que os presos eram soltos, ele escrevia um bilhete com recomendações para que amigos ajudassem o tal preso a arranjar emprego. Não é necessário dizer que os presos, em sua maioria, eram negros, já evidenciando que no Brasil existe e sempre existiu um preconceito estrutural profundo: quem é negro vai para a prisão mais facilmente do que quem é branco. Tem uma citação que diz “viver com igualdade é saber respeitar as diferenças. Respeito não tem cor, tem consciência”. Acredito que essa era a verdade interna do meu bisavô. E esse respeito do outro como ser humano foi passado através das gerações e faz parte da minha essência.

* Cleo Monteiro Lobato é historiadora e curadora do novo projeto de livros atualizados do bisavô

“O PETRÓLEO É NOSSO”, AS DERRADEIRAS PALAVRAS DE MONTEIRO LOBATO

AUTOR: CARLOS RUSSO JR

DATA ORIGINAL: 22 DE NOVEMBRO DE 2014

FONTE: JORNAL OPÇÃO

CRÉDITOS: https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/o-petroleo-e-nosso-derradeiras-palavras-de-monteiro-lobato-21532/

No dia 2 de julho de 1948, Monteiro Lo­ba­to concedeu à rádio Record aquela que se­ria a última entrevista de sua vida, a qual encerrou com as palavras: “O Pe­tróleo é Nosso”! Dois dias após, “O Repórter Esso”, na voz de He­ron Domingues, anunciou a morte de um grande brasileiro, desses que surgem poucos a cada geração: “E a­gora uma notícia que entristece a todos: acaba de falecer o grande es­critor e patriota Monteiro Lobato!”

Monteiro Lobato, nascido em Taubaté em 1882, falecia aos 66 anos de idade; o corpo foi velado na antiga Biblioteca Municipal de São Paulo e em seu cortejo fúnebre, que seguiu a pé até o Cemitério da Consolação, havia mais de dez mil pessoas a quais cantavam o Hino Nacional. Compreendiam que Monteiro Lobato representou a seu modo o ímpeto pioneiro, renovador, criador de tantas iniciativas fecundas e ousadas, aventuras pessoais ou coletivas, que formatariam o Brasil moderno.

Advogado sem vocação, seu primeiro emprego foi o de promotor público na cidade de Areias. Depois, teve sua experiência como fazendeiro, quando suas inovações agropecuárias demonstraram-se desastrosas; no entanto, “enquanto o fazendeiro se enterra, o escritor se levanta”, diz seu biógrafo Edgard Ca­va­lheiro, porque os melhores “frutos da fazenda” foram os livretos “Jeca Tatu” (1919) e “Urupês” (1918).

Esses coincidiram com a greve geral de 1917/18, e com a onda de rei­vindicações operárias que se alastrou por todo o país até os anos 1920, e expressavam literariamente os novos anseios populares. No pe­queno volume de “Jeca Tatu” havia uma joia rara se revelava no propósito do autor de que o conto infantil fosse “um instrumento claro de luta contra o atraso cultural de nosso país, contra a miséria e o conservantismo corrupto e corruptor”. “U­rupês”, por seu lado, “era um brado de revolta que não se ouvia desde ‘Os Sertões’, de Euclides da Cu­nha”, no entender de Astrojildo Pereira.

Seguidor de Figueiredo Pi­mentel, o brilhante autor de “Contos da Carochinha“, Monteiro Lobato ficou popularmente conhecido pelo conjunto educativo de sua obra infanto-juvenil, constituindo aproximadamente a metade da sua produção literária.

O êxito dos primeiros contos impulsionou o homem empreendedor a investir com todas as suas forças no mercado editorial. Em uma época em que os livros brasileiros eram editados em Paris ou Lisboa, Monteiro Lobato tornou-se editor, passando a produzir livros no Brasil. Dentro de pouco tempo as edições da Monteiro Lobato e Cia. dominavam o mercado livreiro brasileiro. O voo, entretanto, fora alto demais. Sem nenhum apoio governamental, as grandes oficinas gráficas não suportaram a dificuldade de financiamento e a crise energética que se abatia sobre o Brasil. Lobato enfrentou dignamente a falência de sua Editora em cujos alicerces ele plantaria os da Companhia Editora Nacional.

É depois da primeira experiência com uma editora que ele deixa São Paulo e muda-se para o Rio de Janeiro, onde segue a carreira de escritor.

Em 1927, Lobato realiza um velho sonho: é nomeado adido comercial nos Estados Unidos. Os quatro anos que passará na América do Norte constituirão uma descoberta e um deslumbramento para o caipira de Taubaté: vê o gigantesco progresso americano e o compara com a nossa lentidão colonial. Ao voltar, trará planos grandiosos de salvação econômica para o Brasil. O primeiro deles é a Campanha do Ferro: é preciso “ferrar o Brasil”. A próxima, ainda mais ampla, será a Campanha do Petróleo.

Nos anos 1930 havia interesse o­ficial em se dizer que no Brasil não ha­via petróleo. Monteiro Lobato aliava a literatura e a prédica a atitudes concretas. Na contramão dos in­teresses dominantes, fundou a Companhia Petróleos do Brasil, e graças à grande facilidade com que fo­ram subscritas suas ações, inaugurou várias empresas para fazer perfuração, sendo a maior de todas elas a Companhia Mato-grossense de Pe­tróleo (em 1938), que visava realizar perfurações quase junto à fronteira com a Bolívia, cujo governo na­cionalista já encontrara seu ouro negro.

Em dois livros, “Ferro” (1931) e “O Escândalo do Petróleo” (1936), o escritor documenta os lances dramáticos da duríssima batalha que teve que travar contra a “carneirada” e contra os “moinhos de vento”, movido unicamente pelo afã de prover o Brasil de uma indústria petrolífera independente. O último livro esgotou várias edições em me­nos de um mês. Aturdido, o governo de Getúlio Vargas, o qual era a­cu­sado de “não perfurar e não deixar que se perfure” proibiu “O Es­cân­dalo do Petróleo” e mandou re­colher todos os exemplares disponíveis, naquilo que seria o primeiro lance da longa sequência de escândalos envolvendo o ouro negro brasileiro, que prosseguem até os dias de hoje.

A empolgação de Lobato fez com que ele percorresse todo o país em busca de apoios; a guerra que lhe moveram os governantes, os burocratas e sabotadores dos interesses pátrios, terminou por deixá-lo pobre, doente e desgostoso e, até mesmo, levá-lo ao Presídio Tiradentes, onde como preso político foi confinado por seis meses, naquela mesma cela do Pavilhão n.1, pela qual passariam tantos presos da ditadura militar de 1964.

O certo é que com admirável sentido de luta, Monteiro Lo­ba­to conseguiu sacudir o Brasil de alto a baixo, apontando ao povo brasileiro os caminhos de sua emancipação econômica, lutas que se aprofundariam após a sua morte e que redundaram na fundação da hoje A Petróleo Brasil S/A (Petrobras), empresa criada em 1953, na fase populista do então presidente Getúlio Vargas, impulsionada pela campanha popular iniciada em 1946, sob o slogan de “O petróleo é nosso”.

Mas voltemos a Monteiro Lobato escritor da maior parte das histórias infantis nacionais. Além de Narizinho Arrebitado, uma edição inicial de 50 mil exemplares no ano de 1921, outras tão importantes ou mais foram: “Reinações de Nari­zi­nho” (1931), “Caçadas de Pe­dri­nho” (1933) e “O Pica-pau A­ma­relo” (1939). Os “Trabalhos de Hércules” concluem uma saga de trinta e nove histórias e quase um milhão de exemplares em circulação.

Nesses trabalhos Lobato criou personagens inesquecíveis, que se incorporaram para sempre ao folclore brasileiro. Emília, a boneca de pano com sentimento e ideias independentes; Pedrinho, personagem com que o autor se identifica quando criança; Visconde de Sabugosa, a espiga de milho com consciência e atitudes de adulto; Cuca, a vilã. O folclore do Saci Pererê encontrou sua maior divulgação literária no autor de “Reinações de Narizinho”.

Lobato foi traduzido para diversas línguas como francês, italiano, inglês, alemão, espanhol, japonês, árabe e iídiche.

Em 1926, Lobato concorreu a uma vaga na Academia Bra­sileira de Letras, mas acabou derrotado. Era a segunda vez que isso acontecia. Na primeira vez, em 1921, iria concorrer à vaga de Pedro Lessa, mas desistiu antes da eleição, por não querer fazer as visitas de praxe aos acadêmicos para pedir seus votos. Desta vez, estava concorrendo à vaga do renomado jurista João Luís Alves. Na primeira, recebera um voto no terceiro escrutínio, e, na segunda, dois votos no quarto.

Digno de nota é que Lobato ainda sofreu crítica, censura e perseguição por parte da Igreja Católica. O influente padre Sales Brasil, na primeira fila do reacionarismo da guerra fria, denunciará o livro “História do Mundo Para as Crianças” como sendo o “comunismo para crianças”.

Lobato também provocou outros tipos de polêmicas. Quando publicou “Paranoia ou Mistificação”, a famosa crítica desfavorável à exposição de pintura de Anita Malfatti (na Semana de Arte Moderna de 1922), muitos modernistas passaram a tachá-lo de reacionário, com a notável exceção de Mário de Andrade. Na realidade, a crítica de Lobato era direcionada aos “ismos europeus”: cubismo, futurismo, dadaísmo, surrealismo, que ele denominava de “colonialismos”, “europeizações”, da mesma raiz do “academicismo da geração anterior”. Lobato era a favor de uma arte autenticamente brasileira, autóctone.

É bem verdade que a obra literária de Lobato da década de 1920 continha preconceitos raciais e eugênicos. Ele acreditava que a miscigenação fora um fator prejudicial na formação do povo brasileiro. Seu livro, “O Presidente Negro” (1926), descreve um conflito racial de um tempo futuro, após a eleição de um negro para a presidência dos EUA.

"Em dois livros, ‘Ferro’ (1931) e ‘O Escândalo do Petróleo’ (1936), o escritor documenta os lances dramáticos da duríssima batalha que teve que travar contra a ‘carneirada’ e contra os ‘moinhos de vento’, movido unicamente pelo afã de prover o Brasil de uma indústria petrolífera independente”

“Em dois livros, ‘Ferro’ (1931) e ‘O Escândalo do Petróleo’ (1936), o escritor documenta os lances dramáticos da duríssima batalha que teve que travar contra a ‘carneirada’ e contra os ‘moinhos de vento’, movido unicamente pelo afã de prover o Brasil de uma indústria petrolífera independente”

Posteriormente, com sua aproximação ao comunismo, essa faceta “eugênica” se desfaria. Monteiro Lobato sempre se declarou, co­rajosamente, sim­patizante da Re­volução So­vi­ética; diz o seu bi­ógrafo que “ele ansiava por um socialismo difuso, meio anárquico, meio ro­mântico”. “Não possuía, entretanto, nenhum gosto pela especulação doutrinária e por isso, jamais foi homem de partido, militante político.” Seu contato maior com os comunistas ocorreria a partir de 1941, após o período de confinamento no Presídio Tiradentes, durante a ditadura de Vargas.

Empolgou-se com a luta antinazista da União Soviética na Segunda Guerra Mundial e suas conquistas e vitórias nos campos das ciências, da educação. Jamais escondeu sua admiração e estima por Luís Carlos Prestes e o fazia de modo aberto, a quem lhe perguntasse. Em 1945, no famoso comício do Pacaembu enviou a Prestes uma das mais lindas e humanas saudações. Quando, em 1947, levanta-se uma nova onda de calúnias direitistas e perseguições políticas, de sua pena nascerá a história de “Zé Brasil”, panfleto que percorreu o país de norte a sul, acusando o presidente Dutra de implantar no Brasil uma nova ditadura: o “Estado Novíssimo”.

Sua visão sobre a problemática social ele a resumiria, já sexagenário, da seguinte maneira: “A nossa ordem social é um enorme canteiro em que as classes privilegiadas são as flores e a imensa massa da maioria é apenas o esterco que engorda essas flores. Esterco doloroso e gemebundo. Nasci na classe privilegiada e nela vivi até hoje, mas o que vi da miséria silenciosa nos campos e nas cidades me força a repudiar uma ordem social que está contente com isso e arma-se até com armas celestes contra qualquer mudança.”

Monteiro Lobato foi um dos homens mais íntegros e corajosos que já viveram neste país, um intelectual “à moda antiga”, daqueles que passados quase um século a nossa pobreza ética e intelectual ainda se ressente.

Carlos Russo Jr. é escritor e crítico literário.

LOBATO PRECISA DE DEFESA?

AUTOR: RICARDO ANTÔNIO LUCAS CAMARGO

DATA ORIGINAL: 8 DE MARÇO DE 2011

FONTE: OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

CRÉDITOS: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/educacao-e-cidadania/caderno-da-cidadania/lobato-precisa-de-defesa/

Volta à pauta o tema da questão de a leitura de Monteiro Lobato (1882-1948) ser ou não ser uma ‘perigosa propaganda do racismo’ e, desta vez, com o reforço do texto do professor Muniz Sodré, ao falar do ‘racismo afetuoso’, criticando a postura do ministro Fernando Haddad (ver ‘Monteiro Lobato vai para o trono?‘). O curioso é que as expressões de que sempre se servem os acusadores para mostrar o caráter ofensivo aos ‘não-brancos’, em regra, estão no discurso direto, na boca de uma das personagens, a Emília, quando se dirige à Tia Nastácia. Não vou alinhar argumentos que foram deduzidos em outra oportunidade (ver ‘Datas redondas, Gandhi e Lobato‘), mas vou prender-me, sobretudo, ao texto do professor Muniz Sodré e aos comentários que aportaram, estes, efetivamente, mais virulentos.

Deixo bem claro que costumo ler os textos do professor Muniz Sodré e, em muitos pontos, manifesto concordância. Mas não é o caso deste, e é por conta disto mesmo que me sinto no dever de manifestar minha discordância num artigo, e não no espaço reduzido dos comentários. O texto do jornalista Júlio Ottoboni defende Lobato a partir do problema do perigo de se reduzir a sua obra a mera questão racial, contextualizando-a historicamente e recordando episódios como o veto à sua entrada na Academia Brasileira de Letras e o seu apresamento pelo Estado Novo (ver ‘Monteiro Lobato não precisa de buzinadas‘. Meu texto vai no sentido de aproximar mais diretamente os polemistas da obra em si mesma.

Como os personagens veem a Tia Nastácia?

Efetivamente, não é exatamente elogioso a quem quer que seja ser chamado ‘beiçudo’, ‘pretura’ e outros que tais. Mas também não é de ser esquecido que: (1) os adjetivos utilizados aparecem, sempre, num diálogo fictício; (2) os demais personagens, caso demos de barato esta circunstância, são respeitosos com a cozinheira – mesmo D. Benta somente vem a chamá-la de ‘analfabeta’ na Aritmética da Emília, sendo, em todos os outros volumes (e são dezoito, ao todo), extremamente cordial, apesar de patroa; (3) toda vez em que Lobato assume o discurso do narrador, é elogioso para com a negra. Tomemos, especificamente, a obra que rendeu ensejo a toda a polêmica em especial, Caçadas de Pedrinho, na edição da Brasiliense de 1960, em volume que trazia junto Hans Staden: ‘mais corajosa, a negra aproximou-se’ (p. 18), ‘a boa negra’ (p. 59), ‘a boa criatura'(p. 114). Quando não exprime carinho, exprime piedade, não sendo ela mais medrosa ou desajeitada do que sua patroa, D. Benta. Quanto a Emília, que, no conjunto, é uma personagem simpática apesar de politicamente incorreta, eis como ele se refere, quando assume a posição de narrador (no mesmo livro): ‘a terrível bonequinha’ (p. 8 e 27), ‘diabinha’ (p. 103).

E como é que os personagens, mesmo Emília, veem a Tia Nastácia? Em O Minotauro, continuação de O Pica-Pau Amarelo, vão todos à Grécia Antiga para resgatá-la das garras do filho de Pasífae com o touro de Minos. Claro que poderia vir o contra-argumento de que o motivo seria o utilitarismo de não perder a quituteira.

O resgate de tia Nastácia

Mas – recordando, sempre, que estamos diante da ficção, universo em que o autor pode moldar o mundo com uma liberdade, sem blasfêmia, semelhante à de Deus –, vejamos qual a percepção das personagens acerca do dever de resgatá-la (a referência é à edição de 1960):



‘A pobre tia Nastácia, que se distraíra nas cozinhas do palácio com o assamento de mil faisões, perdeu-se no tumulto. Fora atropelada, devorada ou aprisionada pelos monstros? Ninguém sabia.

‘Só depois do desastre é que Dona Benta e os meninos puderam ver o quanto a estimavam. Que choradeira!’ (p. 1).

‘Fique sossegada, vovó. Apesar daquilo lá ser um viveiro de hidras e heróis tebanos, eu aposto em mim mesmo. Hei de ir, ver e vencer – e trazer tia Nastácia, ainda que seja de rastos. A senhora não me conhece, vovó….’

‘Dona Benta, que voltara com Aspásia, fez a apresentação da preta:

‘Está aqui a minha boa amiga extraviada nos fundões da velha Hélade. Pedrinho jurou que a traria e trouxe-a. É um danado esse meu neto’ (p. 251).

‘Os europeus só roncam diante dos fracos’

Muito bem. O que dizia Monteiro Lobato a respeito da escravatura e do colonialismo? Afinal, toda esta movimentação para declarar a sua obra perniciosa – algo que não deixa de guardar uma forte analogia com a campanha que J. Edgar Hoover fez, através de políticos notoriamente reacionários, como Joseph McCarthy e Richard Nixon, contra Chaplin e sua obra cinematográfica – está a partir do pressuposto de que o autor paulista, nosso primeiro autor voltado à literatura infantil, teria estado a serviço de uma propaganda das ideologias racistas do início do século 20 e deveria, para não incidir em inconsequência, trazê-las e comentá-las, nem que fosse para dizer que elas, no seu ver, não diriam o que a literalidade delas dizem:



‘Nem queiram saber, meus filhos, o que foi o célebre `tráfico de escravos africanos´… Virou a maior tragédia da História. A crueldade dos brancos, a cupidez dos civilizados excedeu a tudo quanto se possa imaginar. Pegar negros na África para exportá-los para a América tornou-se o grande negócio dos tempos. […]

A tragédia foi longa mas passou. Os países da América foram libertando os escravos, primeiro este, depois aquele. A Argentina libertou-os em 1813 – foi um dos primeiros e, por isso, está agora gozando a recompensa. O México libertou-os em 1829. Os Estados Unidos, em 1863, e o Brasil em 1888…

`Por último, heim? Que vergonha para nós!´ – comentou o menino.

Sim. Fomos o último povo no mundo a libertar os escravos. Realmente, essa demora em nada nos honra…’ [Geografia de Dona Benta. São Paulo: Brasiliense, 1960, p. 213-5].

‘Os europeus só roncam diante dos fracos. Se o povo é forte, como os americanos ou os japoneses, eles desconversam’ [idem, p. 217].

‘Seu ódio aos negros não se deduz de seu texto ficcional’

A passagem da carta de Lobato a Godofredo Rangel que é referida pelo professor Sodré para comprovar as convicções racistas do escritor sob comentário não prova que sua obra infantil seja propaganda racista, assim como o fato de alguém ter uma opção homossexual não faz, necessariamente, prova de que ele tenha molestado sexualmente uma criança do mesmo sexo, ou o de alguém ser francamente homofóbico não faz, necessariamente, prova de que tivesse participado de um grupo que tenha espancado até a morte um homossexual, ou de alguém ser simpatizante de MST não faz com que tenha participado de ocupação da fazenda X ou Y, ou o de alguém antipatizar o MST não faz com que tenha participado de eventos como o de Eldorado dos Carajás. Prova da convicção não é prova do fato relacionado à convicção. Com efeito, o professor Muniz Sodré refere:



‘Monteiro Lobato era um racista confesso, seu ódio aos negros não é nada que se deduza por interpretação de seu texto ficcional. Mas quase todo o mundo leitor sabe disso. É lamentável fingir inocência ou alegar que o racismo brasileiro é diferente, é `afetuoso´. Aí estão publicadas as cartas ao amigo Godofredo Rangel, em que Lobato se perguntava como seria possível `ser gente no concerto das nações´ com aqueles `negros africanos criando problemas terríveis´. Que problemas? Simplesmente serem negros, serem o que ele chamava de `pretalhada inextinguível´. O escritor sonhou ficcionalmente com a esterilização dos negros (vide O Presidente Negro) e sugeriu, muito antes do apartheid sul-africano, o confinamento dos negros paulistas em campos cercados de arame farpado.’

Mas note-se: ‘seu ódio aos negros não é nada que se deduza por interpretação de seu texto ficcional’. A diferença está visível, aqui. Não é na obra ficcional infantil que se vai encontrar a manifestação do ‘racismo confesso’. E, por outro lado, quem tem uma obra tão prolífica – dezoito volumes para crianças, mais o mesmo número de obras para adultos, entre contos, ensaios – não pode ser julgado por trechos isolados de uma única obra – note-se bem, de ficção.

‘Apagar Lobato da fotografia’

O autor do texto ora comentado reconhece que não são perceptíveis, a uma primeira vista, os laivos racistas, e que o indivíduo tem que querer localizar tal mensagem:



‘Se me perguntassem qual a minha relação pessoal com a literatura infanto-juvenil de Lobato, eu teria de ser honesto e confessar que, ainda menino, no interior do Brasil, era fascinado por suas narrativas. Francamente, eu nunca havia percebido os laivos racistas, que não são tão numerosos assim em sua obra ficcional, mas estão lá para quem se dispuser a bem enxergar.’

Os trechos que transcrevi diretamente da obra de Lobato apontam visivelmente para o desmentido da tese de que sua obra infantil tenha estado a serviço de propaganda racista. Claro que, para os que estão empenhados em visualizar nele um agente deformador das mentes infantis, tais transcrições serão tidas como não feitas, ou então como distorções: mas não estou me dirigindo a estes, que se servem das razões do lobo, contra as quais toda a racionalidade é impotente, fato sobejamente narrado por Esopo, Fedro, La Fontaine e… Lobato. Estou me dirigindo àqueles que, como o professor Muniz Sodré, estão dispostos a alinhar argumentos e a enfrentar os dados de fato que se lhes apresentem com o espírito científico, e não com a fúria da militância. Para os que julgam que o autor do texto com que ora se polemiza se teria alinhado entre os que gostariam de ‘apagar Lobato da fotografia’, é bom transcrever o último parágrafo:



‘Lobato era, sim, um bom escritor, um editor importante, um visionário (sempre acreditou na existência de petróleo no solo nacional), mas também um racista confesso.’

A propósito, uma pergunta: quem foi o primeiro a editar as obras de Lima Barreto, estando este ainda vivo e sofrendo as discriminações por ser mulato?

O NEGRO NAS OBRAS DE MONTEIRO E LOBATO

AUTOR:  Maíra Althoff De Bettio

FONTE: INFO ESCOLA

CRÉDITOS: https://www.infoescola.com/literatura/o-negro-nas-obras-de-monteiro-lobato/

Monteiro Lobato apresentava em suas obras a realidade brasileira, que possuía (e ainda possui) características preconceituosas, ou seja, traços racistas em relação aos negros. Diante deste panorama, muitos consideravam o autor em questão preconceituoso. O que chama muito a atenção nas obras do autor é a ambiguidade, justamente o que gera esta discussão acerca do racismo ou não do escritor.

Particularmente, não vejo Monteiro Lobato como um escritor racista, apenas como alguém que representava a realidade brasileira em suas obras. Se ele assim o fosse, não intitularia uma de suas publicações com “Histórias de Tia Anastácia”, que conta com muitos causos populares e folclóricos, contados oralmente pela própria.

Tia Anastácia, como muita gente sabe, é uma das figuras criadas por Monteiro. Negra, trabalha na casa de uma família matriarcal branca e passa a maior parte do tempo na cozinha. Retomando a publicação que leva o nome da personagem, na qual constam desacatos da Emília (boneca de pano que tem vida) com a empregada, segue um exemplo:

“Parecem-me muito grosseiras e até bárbaras – coisa mesmo de negra beiçuda, como Tia Nastácia. Não gosto, não gosto, e não gosto!”

 

Mas a boneca tagarela não é mal-educada apenas com Tia Anastácia, ela passa dos limites com qualquer pessoa que vá de encontro ao seu gosto. Como continuação do exemplo anterior, na passagem em que Dona Benta (dona do sítio em que trabalha Tia Anastácia) censura Emília, esta retruca mostrando-lhe a língua. Aqui, a hierarquia também está presente, tendo em vista que Emília afronta de maneira diferenciada Dona Benta e Tia Anastácia.

Ao mesmo tempo em que Emília faz pouco caso das histórias que ouve de Tia Anastácia, Pedrinho (neto de Dona Benta) enaltece a cultura popular contada pelos negros:

“As negras velhas são sempre muito sabidas. Mamãe conta de uma que era um verdadeiro dicionário de histórias folclóricas, uma de nome Esméria, que foi uma escrava de meu avô. Todas as noites ela sentava-se na varanda e desfiava histórias e mais histórias”

E o menino ainda conclui:

“Tia Nastácia é o povo. Tudo o que o povo sabe e vai contando de um para outro, ela deve saber. Estou com o plano de espremer Tia Nastácia para tirar o leite de folclore que há nela”

Lobato utiliza características africanas na construção de outro de seus personagens negros, Tio Barbabé (que também é um sábio dos costumes populares e do folclore), e reconhece a importância desta influência africana na cultura brasileira. Além disso, o autor – no conto “Negrinha” – denuncia crueldades presentes no escravismo.

Fonte:
A Figura do Negro em Monteiro Lobato, por Marisa Lajolo. Disponível em: http://www.unicamp.br/iel/monteirolobato/outros/lobatonegros.pdf

 

LOBATO NÃO ERA RACISTA

AUTOR: ANTONIO SILVIO LEFÉVRE

DATA ORIGINAL: 08 DE JANEIRO DE 2021

FONTE: FOLHA DE SÃO PAULO

CRÉDITOS: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2021/01/lobato-nao-era-racista.shtml

 

No começo de 1945, quando a ditadura Vargas já andava enfraquecida, Monteiro Lobato ao falou repórter Tulman Neto, do jornal "Diário de São Paulo". Uma entrevista foi por escrito, pois Lobato não confiava nos jornais. Afirmava que insistiam em publicar “asneiras” atribuídas a ele. Só dava revelou redigidas de próprio punho. Certa vez, adicionou a seguinte carta ao diretor da Folha da Manhã:

“Por acaso me chegou às mãos um recorte da Folha da Manhã, de 15 do corrente, com um tal telegrama do Rio no qual se transmite uma 'entrevista' minha. Li e corei. Desnaturações do pensamento, vulgaridades, chatices. E esta coisa me assombrou: 'Finalizando, disse Monteiro Lobato, vai melhorar o Brasil. Antigamente só elegiam esses sujeitos ossudos, soturnos, ou bojudos, têm horríveis, mal-encarados, convencidos etc. '”

Monteiro Lobato

Monteiro Lobato

E contínuo: “Por mais que eu lesse e relesse o recorte inteiro, fiquei na dúvida sobre a substância que enche a cabeça desse repórter. Venho, pois, declarar que a tolice não é minha ea tal entrevista desnaturada é tão chata e vulgar que a ideia que me vem é a seguinte: o que acima de tudo precisa melhorar no Brasil é a qualidade dos repórteres de seus jornais. Peço ao senhor diretor a inserção desta nota a fim de que meus amigos não fiquem a supor que já estou completamente gagá ”.

Setenta e cinco anos depois, em 27 de dezembro de 2020, a Folha cometeu outra falha, muito mais grave, expressa num editorial sob o título “ O racismo de Lobato ” e o subtítulo “Mostras claras de preconceito nas obras infantis devem ser contextualizadas, não suprimidas ”.

Endossando a visão de alguns dos “politicamente corretos” de hoje, que acusam Lobato de racismo por causa de uma ou outra frase dos personagens do "Sítio do Picapau Amarelo" em que a Tia Nastácia é chamada de “negra”, o editorialista ignora que são diálogos de um livro infantil, repleto de provocações, em especial por parte da desbocada boneca Emília. Levar isso ao pé da letra, como se fosse manifestação de racismo por parte do autor do livro, revela uma profunda e total ignorância sobre a obra de Lobato.

Livros de Monteiro Lobato

Livros de Monteiro Lobato

Quem leu todos os livros do "Sítio" na infância, como eu, sabe muito bem que não tem neles nada de racismo. Pelo contrário, um personagem Nastácia é apresentada como uma pessoa sábia, de enorme simpatia. E, ao chamá-la de “negra de estimação”, Lobato deixa claro que se opunha cabalmente a qualquer preconceito.

Mas o pior de tudo no editorial da Folha foi uma frase final, que obrigou a uma obra infantil de Lobato, considerada como racista, deva deixar de ser lida pelas crianças. Assemelhando-se a uma sentença do Tribunal da Inquisição, o editorial termina dizendo :: “Ora, se uma obra reflete uma sensibilidade ultrapassada, é natural que seja logo esquecida”.

Eu sou um legítimo “filho de Lobato”, conforme José Roberto Whitaker Penteado tão bem estudantes em seu livro a influência marcante do escritor nas gerações seguintes. A essa influência geracional se soma o fato de meu pai ter sido amigo e médico de Lobato, e eu mesmo ter interpretado o Pedrinho na primeira série de TV do "Sítio do Picapau Amarelo" (TV Tupi SP, 1954).

E hoje sou próximo e amigo de Cleo Monteiro Lobato, bisneta do autor, que está reeditando os livros do "Sítio", eliminando ou substituindo a palavra “negra” para evitar que os “corretinhos” de hoje julguem Lobato racista, quando o objetivo de Lobato era exatamente o oposto. Ele foi um ativo militante antirracista, e não um racista .

Novas edições de Monteiro Lobato

Novas edições de Monteiro Lobato

Algo me diz que se Lobato estava vivo ele escreveria novamente à Folha , dizendo algo semelhante ao que afirmou em 1945, cujo texto me permito adivinhar:

“Por mais que eu lesse e relesse o editorial inteiro, fiquei na dúvida sobre a substância que enche as cabeças do autor desse texto. Venho, pois, declarar que a tolice não é minha, ea ideia que me vem à cabeça é a seguinte: o que acima de tudo precisa melhorar no Brasil é a qualidade de muitos de seus jornalistas. Peço ao senhor diretor a inserção desta nota a fim de que meus amigos não fiquem a supor que eu já estava completamente gagá nos anos 1930 e 1940, a ponto de virar racista e da Folha mandar meus livros para a fogueira da Inquisição. ”.

Mauricio de Sousa ilustra 'Caçadas de Pedrinho'

Mauricio de Sousa ilustra 'Caçadas de Pedrinho'

Ah, a boneca Emília, que tudo percebe antes dos outros, me apontou o que ela descobriu como razão para o ataque da Folha a Lobato: “É que dois 'bolsominions' ignorantes, um tal de Sérgio Camargo e um tal de Mario Frias, ambos achando que Lobato era de direita, o estão defendendo e dizendo que ele não era racista. Então, como a Folha é contra o Bolsonaro (aliás, com toda razão), mas, por ignorância, não sabe que Lobato era de esquerda, achou que tinha que divergir dos 'bolsominions' e chamar Lobato de racista. Cada um mais bobo que o outro, não é, Pedrinho? ”

Eu, Pedrinho, espero que a Folha faça um mea-culpa para evitar que o próprio jornal, um dia, venha a ser colocado no índice por um governo de direita ou de esquerda, já que não sabe distinguir os dois lados e acusa um pensando ser o outro.

 

MONTEIRO LOBATO E O RACISMO

AUTOR: JUCA DE OLIVEIRA

FONTE: ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

CRÉDITOS: http://www.academiapaulistadeletras.org.br/artigos.asp?materia=1868

Monteiro Lobato é um dos maiores escritores brasileiros. A ele devemos parte da nossa formação, instigados que fomos por suas reflexões sobre o homem e a sociedade. Através de suas histórias infantis, fábulas contadas por personagens inesquecíveis, ele conseguiu reunir numa família pouco convencional, suscetível à opinião das crianças e favorável ao avanço da sociedade, os elementos fundamentais para a assimilação da nossa evolução social. Em 1916 Lobato enviou uma carta a Godofredo Rangel manifestando a vontade de "vestir à nacional" as fábulas de Esopo e La Fontaine". Isso porque ele já sabia que as crianças guardavam na memória as suas fábulas para reconta-las aos amigos e delas deduzir a respectiva e inestimável lição moral. Portanto separar mecanicamente duas ou três malcriações de Emília comTia Nastácia e delas extrair uma justificativa para o nascimento do racismo entre os brasileiros é uma grande tolice. O radicalismo é fútil e insustentável. As alas radicais têm a tendência de tomar a parte pelo todo, incapazes de analisar o conjunto e generalizar.

Quando fiz o Otelo de Shakespeare em 1982, no Teatro de Cultura Artística, em determinada fase dos ensaios nos preocupou muito a possibilidade de não estarmos examinando corretamente a questão do racismo nessa tragédia. Othello é um general negro e se casa com Desdêmona, branca e filha de Brabâncio, rico senador veneziano. Deveríamos – quem sabe -enfatizar determinadas falas ou fazer alterações no texto a fim de realçar a pele negra do Otelo? Depois de muita discussão, resolvi consultar o grande Jorge Dória, um dos maiores atores brasileiros e grande conhecedor da estrutura dramática de uma peça. Dória me ouviu com atenção e me deu a solução definitiva, que a partir daí passei a usar em todas as minhas incertezas éticas: – "Olha, Juca, quando você tiver alguma dúvida sobre a comportamento da personagem ou o desenvolvimento correto da encenação, pergunte a você mesmo: – "O que é que o Maracanã acha? – ".

Claro, Dória, na sua sabedoria de gênio, estava certo! O público do Maracanã manifesta sempre uma ruidosa opinião sobre os fenômenos sociais. Otelo estava integrado a esse público. Não mexemos em nada, mantivemos o texto integral e o espetáculo se tornou um grande sucesso. É o que sugiro aos radicais do "politicamente correto" na questão Monteiro Lobato: "vocês devem fazer a seguinte pergunta ao Maracanã: – "Maracanã, me responda, devemos proibir Monteiro Lobato nas escolas por suas manifestações racistas? "

E eles irão ouvir do Maracanã lotado um uníssono e ensurdecedor NÃO!!!

SÓ QUEM NÃO LEU OU NÃO ENTENDEU LIVROS DE LOBATO PODE JULGÁ-LOS RACISTAS

AUTOR: JORGE COLI

FONTE: FOLHA DE SÃO PAULO

CRÉDITOS:https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jorge-coli/2019/02/so-quem-nao-leu-ou-nao-entendeu-livros-de-lobato-pode-julga-los-racistas.shtml

Não se deve ter medo de livros. De nenhum livro. Muito menos dos livros infantis de Monteiro Lobato .

As consciências puras de nosso tempo eam condenando seus escritos por racismo . Creio, em primeiro lugar, que deveríamos separar o autor e a obra. A complexidade na arte é sempre maior do que no artista. Mas esta é uma outra história, muito comprida, que não cabe aqui. Quero, agora, trazer sobre o racismo nos livros infantis de Lobato.

Encasquetaram com “Caçadas de Pedrinho”, em que aparece uma frase: “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima”.
Algumas defesas bem-intencionadas dizem que é preciso “contextualizar na época”. Não acredito nessa solução.

Novas edições de Monteiro Lobato

Novas edições de Monteiro Lobato

Lobato inoculou o pensamento crítico a toda uma geração, a dos que têm hoje entre 50 e 80 anos. Lembro-me de Benedito Nunes, cuja inteligência filosófica nos faz tanta falta, mostrando-me, comovido, sua coleção do “Picapau Amarelo” guardada em lugar de honra.

São livros que abalam todos os confortos intelectuais. Têm horror à autoridade e à obediência. No Sítio, ninguém manda nem obedece: “Emília, respeite os mais velhos! – ralhou dona Benta. – A senhora me perdoe, – disse a pestinha – mas, cá para mim, isso de respeito nada tem com a idade. Eu respeito uma abelha de um mês de idade que me diga coisinhas sensatas —mas se Matusalém vier para cima de mim com bobagens, pensa que não boto fogo na barba dele? Ora, se boto! ”.

This é uma passagem de “Histórias de Tia Nastácia”. Lobato era fascinado pelas culturas afro-brasileiras, ao contrário dos modernistas que prolongaram o culto do indianismo romântico no século 20. Traz para o público infantil como histórias contadas por Tia Nastácia, que ele buscou em Sílvio Romero.

Graças ao Tio Barnabé, negro que mora entre o sítio e a floresta, faz os meninos serem conduzidos pelo Saci, um ser sincrético, mas fortemente carregado de taxas africanas, no mundo tenebroso das lendas.

Foi Tia Nastácia quem fez, fabricou, crioula Emília. É Nastácia a grande vencedora do Minotauro. Nastácia que tem a última palavra no malfalado “Caçadas de Pedrinho”: “Negro também é gente, sinhá …”.

Nem todos lembram que o primeiro livro publicado por Lobato foi, em 1918, “O Saci-Pererê: Resultado de um Inquérito”, a partir de uma pesquisa promovida por ele, fascinado que era pelo personagem.

'O Saci', de Monteiro Lobato

'O Saci', de Monteiro Lobato

Esquecem-se de “Negrinha”, conto tremendo, de crueldade dolorosa, sobre uma pequena órfã negra de sete anos, pouco tempo depois de 13 de maio, um testemunho do abandono no qual foram deixados os ex-escravos : “O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo ”.

Lobato era um iluminista e acreditava na racionalidade. Mas sabia que os homens são contraditórios. Por isso, no “Sítio”, os personagens são tão diferentes entre si.

Odiava o angelismo, que deixa insossos muitos livros infantis e que transformou as adaptações na televisão —exceto as velhíssimas, na TV Tupi, por Júlio Gouveia— em bobagem conformista.

Lobato não evitava uma crueldade. Um de seus livros mais assustadores é “A Chave do Tamanho”. Nele é uma frase de Lobato que mais me marcou: “A humanidade forma um corpo só”. Sem hierarquias. Quando uma parte sofre, é o corpo inteiro que sofre.

Seus livros levam as crianças a descobrir que o mundo nunca foi um mar de rosas. Emília é “sem coração”, como diz o Visconde, assinalando o caráter tirânico, ávido, cruel da boneca, capaz de surrupiar o que não é dela. Ela retruca: “Dizem todos que não tenho coração. É falso. Tenho, sim, um lindo coração —só que não é de banana. Coisinhas à toa não o impressionam; mas ele dói quando vê uma injustiça ”. Os dois, Visconde e Emília, estão certos, porque ninguém é sem contradições.

Só quem não leu ou não compreendeu os livros infantis de Lobato pode julgá-los racistas. Não ensinam o moralismo sentimental. Antes, induzem à crítica, ao exame, à independência do pensamento individual e autônomo.

Dona Benta não tem autoridade por ser adulta —chega a virar uma tartaruga de óculos, em “Reinações de Narizinho”. Mas o que ela faz é instilar no leitor o conhecimento ativo, interrogador, inconformado, sedento. Nisto está o gênio insuperável de Lobato.

Suas obras caíram agora em domínio público . Boa nova. Que as crianças —sejam lá de que origem principal— se apaixonem por elas. Mais do que nunca, é de pensamento livre que precisamos.

GRIPE ESPANHOLA FEZ MONTEIRO LOBATO ASSUMIR A REDAÇÃO DO ‘ESTADÃO’ EM 1918

AUTOR: EDAÇÃO, O ESTADO DE SÃO PAULO

DATA ORIGINAL: 04 DE JANEIRO DE 2021

FONTE:  ESTADÃO

CRÉDITOS:https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,gripe-espanhola-fez-monteiro-lobato-assumir-a-redacao-do-estadao-em-1918,70003569786?utm_source=estadao%3Aapp&utm_medium=noticia%3Acompartilhamento&fbclid=IwAR0M39fpxyIBduK_kfH_xFEzWbmBuvCz4Cgg81cQ3qL-QRTdM6vknrjKwY0

Estadão comemora nesta segunda-feira, 4, 146 anos de fundação. Lançado em 4 de janeiro de 1875, uma segunda-feira, como esta, com nome de A Província de São Paulo, contava com uma tiragem de 2.025 exemplares, em quatro páginas, uma delas dedicada aos anunciantes. O título O Estado de S. Paulo foi anunciado na edição de 18 de novembro de 1889, conforme comunicado de capa daquele dia: “Em consequencia da mudança radical havida no Governo da Nação Brazileira”, assim grafado logo após a Proclamação da República.

Ao completar 120 anos, em 1995, o jornal passou a ter também uma edição online e, atualmente, vive intensa transformação digital iniciando a contagem regressiva rumo a seu sesquicentenário, 150 anos, sempre com foco na modernização de processos de produção e divulgação de jornalismo de qualidade, marca histórica do jornal.

“Nossas audiências poderão conferir ao longo deste ano uma série de inovações, certamente um dos processos de transformação mais profundos dos 146 anos de história do Estadão”, disse João Caminoto, diretor de Jornalismo do Grupo Estado. “A contagem regressiva para os 150 anos será marcada por essas mudanças que, aliadas aos valores do jornal, reforçam a nossa parceria com a sociedade brasileira em busca de um Brasil melhor para todos.”

A transformação digital começou em 2017. No ano passado, com apoio da consultoria McKinsey, o processo do Estadão 3.0 foi acelerado em razão da pandemia da covid-19, situação que já levou a uma ampla revisão interna do jornal, com jornalistas e outros funcionários passando a trabalhar em home office na produção e publicação de notícias.

Agora, o jornal entra em 2021 reforçado por um ambiente de divulgação multiplataforma de informação, com foco no site estadao.com.br e no aplicativo, ampliando e diversificando na internet a já consagrada carteira de publicações do jornal em papel.

De acordo com Leonardo Contrucci, diretor-executivo de Estratégias Digitais do Grupo Estado, “nesta fase do Estadão 3.0 teremos um novo processo de produção de conteúdo centrado no leitor, levando uma experiência diferenciada no consumo de notícias nas mais variadas plataformas do grupo. E sempre com nosso propósito de gerar impacto positivo na vida das pessoas e do País”.

A inovação é uma das marcas importantes dessa longa história. Um ano depois de sua fundação, o jornal lançava uma das muitas novidades que marcariam a sua trajetória. Em 23 de janeiro de 1876, com o distribuidor francês Bernard Gregoire vendendo a publicação montado em um cavalo, o jornal iniciava a pioneira venda avulsa de exemplares pela cidade. A inovação entraria também para a história da cidade de São Paulo, então com cerca de 30 mil habitantes. No Estadão, o cavaleiro se tornaria o símbolo.

Desde a fundação, o Estadão noticiou e teve atuação decisiva nos principais fatos da cidade, do País e do mundo. Passadas a abolição da escravidão e o início do regime republicano, causas que defendeu em suas páginas, o jornal, além de informar, protagonizaria momentos importantes da História.

A abolição da escravidão, 13 anos após a fundação do jornal, foi um dos grandes acontecimentos históricos noticiados naquele fim de século 19. “Já não há mais escravos no Brazil. A lei n.3353 de 13 de maio de 1888 assim o declara no meio de festas que se estendem por todo o paiz, para a honra e glória desta nação da América”, dizia o texto “A Pátria Livre”, publicado em 15 de maio de 1888.

Nesse mesmo ano, o nome de Julio Mesquita, que começara a trabalhar na Província três anos antes, aparece pela primeira vez como diretor do jornal do qual se tornaria o único proprietário. Ele passa a comandar e a transformar a publicação, modernizando processos, formatos e linguagem, alçando o jornal a uma das maiores referências do jornalismo nacional e internacional.

No ano seguinte, a proclamação da República renderia outra edição histórica. A capa grafada apenas com os dizeres “Viva a República” sobre fundo branco é considerada até hoje uma ousadia do design gráfico.

A República ainda dava seus primeiros passos no final do século 19 quando o jornal foi o responsável por enviar Euclides da Cunha como repórter especial para cobrir a Guerra de Canudos, no sertão baiano, em 1897. Essa experiência como repórter atuando no conflito serviu como base para o escritor conceber o clássico da literatura Os Sertões.

Já no século 20, um outro conflito, a 1.ª Guerra Mundial, colocou o jornal na vanguarda do jornalismo – uma edição noturna, apelidada de Estadinho por causa do tamanho em formato menor, atualizava as informações e trazia uma análise contextualizada e apurada. A cobertura analítica de Julio Mesquita em textos publicados durante a Primeira Guerra Mundial é considerada por estudiosos como referência para a compreensão do conflito. A inovação da edição extra – desta vez vespertina – se repetiria anos depois com o relançamento do Estadinho na 2.ª Guerra Mundial.

Nas suas páginas, a cada dia, os mais variados intelectuais e jornalistas escreveram textos que mudariam o curso da história. Monteiro Lobato, outro ícone da literatura nacional, teve os primeiros textos publicados no jornal. O poeta Guilherme de Almeida escreveu por vários anos a coluna Cinematographo, noticiando e analisando a exibição dos primeiros filmes mudos até a chegada das vozes, cores e sons que transformaram o cinema. Exemplos como esse se estendem por outras áreas como esporte, cultura, comércio, economia, política e educação.

Da Revolução Constitucionalista de 1932 à criação da Universidade de São Paulo, o jornal continuou com uma história marcada pela defesa de temas relevantes para a sociedade e o País.

Em períodos diferentes, o Estadão resistiu aos arbítrios de regimes ditatoriais, sendo tomado por cinco anos pela ditadura Vargas e sofrendo uma feroz censura nos anos de chumbo da ditadura militar, quando denunciou a violência contra a liberdade de expressão publicando poemas de Camões no lugar das notícias proibidas.

Retomada a liberdade democrática a partir dos anos 1980, o Estadão continuaria a publicar reportagens que mudariam o rumo do País, ao mesmo tempo que aprimorava a sua capacidade de explorar as novidades tecnológicas – foi pioneiro no noticiário em tempo real com o Broadcast, um dos primeiros veículos jornalísticos na internet e nas redes sociais – para ampliar o alcance de seus conteúdos de interesse público nos mais diferentes formatos, do papel ao digital.

MONTEIRO LOBATO NÃO ERA RACISTA! EU, PEDRINHO, GARANTO!

AUTOR: ANTONIO SILVIO LEFÈVRE

DATA ORIGINAL: JANEIRO DE 2021

FONTE: CHUMBO GORDO

CRÉDITOS: https://www.chumbogordo.com.br/36234-monteiro-lobato-nao-era-racista-eu-pedrinho-garanto-antonio-silvio-lefevre/

Lamentável editorial da Folha de S. Paulo deste domingo 27/12, sob o título “O racismo de Lobato” e o subtítulo “Mostras claras  de preconceito nas obras infantis devem ser contextualizadas, não suprimidas”.

A respeito da polêmica que, há alguns anos, vem sendo levantada por alguns “politicamente corretos” que veem racismo nos livros infantis de Monteiro Lobato, por causa de uma ou outra frase dos personagens do Sítio do Picapau Amarelo, chamando a Tia Nastácia de “negra de estimação” ou termos assemelhados onde consta a palavra “negra’, o editorialista parece ignorar que se trata de diálogos de um livro infantil, repleto de provocações, em especial por parte da desbocada boneca  Emília. Levar isso ao pé da letra, com se fosse manifestação de racismo por parte do autor do livro revela uma profunda e total ignorância sobre a obra de Lobato.

Quem leu todos os seus livros na infância, como eu, sabe muito bem que não tem neles nada de racismo. Pelo contrário, a personagem Nastácia é apresentada como uma pessoa sábia, de enorme simpatia. E as menções ao fato de uma personagem tão positiva ser de cor negra são, ao contrário, uma demonstração de que Lobato se opunha cabalmente a qualquer preconceito vigente em sua época em certas mentes saudosas do tempo da escravatura.

Tivesse Lobato algo contra os negros teria escrito, em 1935, o seu livro